20 Anos de vida literária de Joel Neto

Só os artistas da palavra são capazes de nos levarem a outros mundos, muito para além de nomes, datas e acontecimentos colectivos oficializados e das classes dominantes que depressa esquecemos, ou até nos afastam das suas andanças, dizeres e afazeres. Nestas e noutras páginas ficcionais temos o contrário absoluto: a perpetuação da memória e um outro sentido das nossas própria vidas.

Vamberto Freitas

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As palavras que cito aqui na abertura desta homenagem ao meu amigo Joel Neto saíram do que eu então escrevi sobre um dos seus grandes romances, Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias, e já fazem parte de um dos meus livros de ensaios publicado o ano passado. A minha amizade com Joel vem de longe, penso que o conheci pela primeira vez num evento político na Terceira, e depois estive com ele em Lisboa, aonde passámos com outros amigos uma bonita noite no Bairro Alto, falando de literatura e das nossas comuns origens. Ele pertence “à geração seguinte” como já referi várias vezes noutros escritos, vem convivendo com a minha, o que me traz imensa alegria, uma satisfação muito profunda. Ele nasceu em Angra do Heroísmo em 1974, o ano que os da minha idade viveram com uma desusada euforia sócio-política porque era a nossa libertação. Eu vivia nos EUA, foi o ano que me formei e comecei a dar aulas numa escola do ensino secundário no sul da Califórnia, mas acompanhava a par e par passo tudo quanto se passava neste lado do Atlântico, a nossa mãe-pátria finalmente libertada do jugo de ditadores e de um partido único. Durante esse tempo eu já escrevia para jornais das nossas comunidades no Pacífico e na Costa Leste, e depressa entrava nas páginas dos periódicos portugueses no Continente e aqui nos Açores. Comecei a sentir-me parte de todo um grupo literário que dava continuidade aos nossos antecessores, que vinham de longe, muito especialmente aos modernistas em várias das nossas ilhas, desde o Faial e Flores até à Ilha Terceira e a São Miguel. Não vou mencionar nomes neste momento porque são muitos e muitas, alguns e algumas das quais conseguindo ultrapassar os nossos largos horizontes e chegar a outros leitores no outro lado do mar. De qualquer modo, Joel Neto passou a ser um dos nossos mais talentosos continuadores, o que eu durante algum tempo suspeitava não ir acontecer numa época dominada por meios de comunicação e maior escolha de profissões. Uma vez mais, não menciono mais nomes desse grupo, só quero afirmar, sem quaisquer reservas, que alguns deles nos deixam orgulhosos e nos deixam descansar sabendo que quase todos eles estão a dar continuidade ao nosso trabalho. Trata-se da memória indelével de um lugar como o nosso, de um tempo, que tanto nosso como deles, cada geração tendo o dever de deixar a sua visão e a história do seu destino e sociedade. Joel Neto foi estudar para Lisboa, mas viria a decidir que a universidade não era para ele, mas sim a escrita em quase todos os seus géneros, desde a crónica, que continua a cultivar com desusada alteza, rádio e televisão, dramaturgia e enfaticamente o romance de grande fôlego que ombreia com os melhores do grupo a que pertenço em termos de idade. A sua bibliografia é já tão extensa que encheria todo o espaço que a revista da MiratecArts tem a delicadeza de oferecer a outros colaboradores.

A nossa amizade mantêm-se inabalável até hoje, apesar de discordâncias pontuais que não se devem a questões literárias, mas sim a personalidades diferentes e naturais, que rapidamente são ultrapassados. Tenho quase a certeza que outros intervenientes nestas páginas vão falar especificamente de grande parte da sua obra, mas eu fico-me pelo que nos aproximou desde há muitos anos. Como já mencionei também noutros espaços, só leio os livros de que gosto, pois a vida é a curta demais para mal-gastar o tempo com o resto. Por certo que durante três décadas obrigatoriamente dividido entre as aulas na Universidade dos Açores nunca me foi possível chegar a todos os bons escritores dos Açores, ou de outros em geografias distantes, como a América e o Brasil, que fazem parte de mim com as suas vivências ou opções de vida em quadrantes diferentes, literatura ou não. No caso do Joel posso dizer com toda a certeza que recenseei quase todas as suas obras de ficção, e apresentei-as publicamente, uma na livraria Ler Devagar, então situada no Bairro Alto, e as restantes sobretudo na Livraria Solmar. No dia em que a Adelaide faleceu eu estava responsável pelo lançamento do romance Meridiano 28, e Joel, na sua decência e aconchego a nós os dois, queria cancelar a sessão. Felizmente optaram por não deixar passar em branco a minha dor, e dedicaram toda a sessão à memória daquela mulher que também muito o admirava e respeitava. Só me restou agradecer-lhes comovidamente. Joel viria mais tarde a ser reconhecido tanto nos Açores como em Lisboa por uma obra de inusitado vigor, resultado não só do seu talento, mas mais ainda pela sua habilidade artística na manipulacão (num sentido escrupuloso) da nossa língua e das suas próprias linguagens absolutamente originais. Todos os seus romances evidenciam este facto, mas foi o volumoso romance Arquipélago que, em primeiro lugar, o guindou em grandeza para junto dos nossos melhores escritores de todas as gerações antecessoras. Com A Vida no Campo, que junta as suas crónicas/ensaios do Diário de Notícias, receberia o Grande Prémio APE de Literatura Biográfica. Quase logo a seguir, foi tornado numa peça de teatro encenada por Luísa Pinto, “e protagonizou um documentário de rádio da autoria de Fernando Alves”. Nunca lhe disse nada, mas na minha casa senti a felicidade total pelo sucesso do meu amigo. Tinha sido eu a apresentar esse livro aqui em São Miguel, e depois na ilha do Pico durante uma das suas festas, em que convivi uns poucos dias de contentamento com ele e com Duarte Freitas um pouco por toda essa ilha de pedras negras e a beleza dos seus mistérios e montanha. Noutra ocasião, ele foi o primeiro organizador de um painel de famosos escritores vindos de Lisboa e arredores do Outono Vivo, festival anual das artes na Praia da Vitória. Nunca mais esquecerei esse gesto de pura generosidade por parte do Joel, e que levaria a um segundo convite o ano passado. Eu estava convencido que a minha ilha de nascimento nunca mais se tinha lembrado de mim para este e semelhantes eventos, mas Joel desfaria, com respeito e afecto, essa minha impressão.

De resto, Joel Neto tem-me apanhando ultimamente em tempos complicados, mas nunca desatentos. Os seus livros estão todos em destaque nas minhas estantes, e há dois que, mesmo tardiamente, vão receber toda a minha atenção. Trata-se do 2º volume de A Vida no Campo e de um outro livro, para mim totalmente inesperado, Muito mais do que saudade; Do Que Falamos Quando Falamos De Regresso?, em co-autoria com Catarina Ferreira de Almeida. É uma edição luxuosa, de capa dura e cheia de fotografias a cores de imigrantes e lugares nos Estados Unidos, Canadá e noutras paragens, com textos escritores pelos autores, e sobretudo com entrevistas com as mais diversas pessoas e sua atitude perante uma possível permanente volta, ou não, a casa aqui nas ilhas. Vem escrito por inteiro em Português e em Inglês, para que chegue, suponho, às gerações luso-descendentes ou a outros interessados nestes temas e gentes.

Joel Neto merece todas estas homenagens, tendo ainda muito para dar à grande literatura portuguesa que agora parte dos Açores. Caso raro, a certa altura e depois de construir toda uma vida como escritor em Lisboa decide, com a sua companheira Catarina Ferreira de Almeida, regressar à sua casa ancestral na freguesia Terra Chã (Terceira). O escritor Nuno Costa Santos, nascido em São Miguel, e do mesmo modo com longa residência em Lisboa, fez o mesmo quando optou por uma mudança para Angra do Heroísmo. Os que permanecem na nossa capital, quase todos eles, estão também ligados intimamente às ilhas e ao mundo da literatura e escrita-outra. Mais um sinal que Joel Neto representa toda uma geração, que cá dentro e lá fora que têm sempre os Açores na alma, tanto em termos emotivos como intelectuais.

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Revista MiratecArts 23, Direcção de Terry Costa, Madalena, 29 de Maio, 2020. Publicado também no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 29 de Maio de 2020.

 

Quando um pirata se torna cuidador de flores

Celestino não estava senil e talvez tivesse um coração escondido atrás das tatuagens. Fosse o mar como as florinhas sem boca: um caixão sem ouvidos, cego, surdo e mudo.

Djaimilia Pereira de Almeida, A Visão das Plantas

Vamberto Freitas

Li e escrevi sobre o primeiro o primeiro romance de Djaimilia Pereira de Almeida, esse cabelo (2015), depois as circunstâncias não me permitiram abrir os seus livros seguintes, alguns deles na estante à espera da minha leitura, Ajudar a cair, Luanda, Lisboa, Paraíso, que recebeu o Prémio Literário Fundação Inês de Castro e o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz em 2019-2020, e Pintado com o pé. Os meus dias agora são outros, e mesmo com certo atraso não podia deixar de ler página a página o seu mais recente romance A Visão das Plantas, publicado já alguns meses. Nada disso importa, pois vai permanecer entre nós como uma peça de ficção que veio para perdurar, tornar-se parte do principal cânone da nossa literatura modernista, ou pós-modernista, esta classificação já um tanto fora de moda, mas que nos trouxe para à ribalta escritores e livros que antes eram ignorados pela crítica e ensaístas em geral. Tem como um dos seus postulados o revisionismo histórico de acontecimentos e figuras, exactamente o que acontece com esta autora e a parte da sua obra que conheço e aprecio de modo muito acentuado como se ainda vivesse e estudasse numa América cujo fulgor nas suas faculdades de línguas mais pareciam laboratórios da teoria da literatura do que espaços para estudos das próprias obras criativas, e ensaísmo como que procurando um lugar de igualdade aos melhores escritores de todos os tempos, e particularmente dos que na nossa geração produziam as mais variadas obras em todos os géneros e formas. Que Djaimilia Pereira de Almeida, doutorada precisamente em estudos teóricos da literatura, se tornou uma das nossas mais importantes autoras vem prová-lo este seu A Visão das Plantas, todo ele escrito por uma mulher de certo modo culturalmente híbrida (nasceu em Angola, mas veio para cá ainda menina de tenra idade), perfeitamente consciente da complexidade humana não da História como muito especialmente de cada uma das suas personagens inventadas ou reinventadas nas suas páginas. Lemos a sua prosa como quem lê um longo poema, tal o poder de cada palavra e frase, tal a contundência das suas histórias e das geografias humanas onde se desenrola o quotidiano de cada um ou da comunidade no seu todo. O seu protagonista neste livro tem o nome de Celestino e o seu tempo foi o século XIX, quando se tornou um pirata e criminoso envolvido em primeiro plano na captação e venda de escravos africanos no Brasil. A sua crueldade é nesses tempos quase indescritível, tanto mata uma menina apanhado por ele na selva, como, depois de uma revolta de escravos a bordo do navio de que fazia parte, cobre centenas de escravos sobreviventes no porão com cal, fechando todos as possibilidades de escape até à morte colectiva do grupo de seres humanos cujo destino não seria muito melhor se tivesse chegado ao novo mundo. Corta gargantas, as palavras são suas e a memória viva dos seus crimes, como uma dona de casa até aos nossos dias mata uma galinha. Vive, depois de tudo isso, numa casa ancestral numa aldeia algures nos arredores do Porto em aparente paz perfeita, cultivando um jardim das mais variadas flores e plantas, amedrontando crianças e outros pela sua aparência primitiva e silêncio desdenhoso ante tudo e todos. No entanto, nem todos o abandonam até ao dia da sua morte calculada e prevista pelos leitores do romance.

A ausência de uma consciência magoada por Celestino faz deste romance um acto de escrita desusado, mas creio que justamente em consonância com a mente ou crença de um criminoso na reforma e de regresso a casa, e a outros tempos. Poderemos estar ante um romance ironicamente nietzsheano, um defensor do chamado “super-homem” que nunca foi sujeito à noção das acções em que se envolveu durante uma vida, ou do “príncipe” que justificava o corte de gargantas em nome do Poder. A verdade é que A Visão das Plantas parece um falso acto de redenção quando o protagonista, pela visão também irónica do narrador/a se dedica ao cultivo e respeito pela Natureza, que é sempre indiferente aos feitos dos homens e das mulheres. Celestino entra na igreja local como quem entra num teatro onde tudo que acontece é um faz-de-conta, sem a mínima intenção de perdão pelo seu passado assassino. Quase todos se afastam dele, mas não o hostilizam, como se a colonização lusa tivesse sido um empreendimento que tudo justificava, e nalguns casos uma guerra sagrada contra todos os outros povos que subjugavam por qualquer método essencial, tudo o que nos traria riqueza de imediato esbanjada por boa parte da Europa. Celestino é visitado pelo padre Alfredo e um médico local, mas as palavras de um ou do outro nunca abordavam o seu passado por ele próprio revelado, só que pressentiam a contradição de um ser humano com necessidade de arrependimento ou cura. Celestino espera pela morte com a mesma calma com que esperamos pelo correio ou outro visitante sem significado decisivo. A autora escreve apenas sobre a natureza humana? Não estou em crer, e ainda mais quando se trata de quem deixou atrás todo um país que foi o seu, e conhece como poucos a tragédia da nossa geração. Nem sequer a sua biografia mista entre negros e brancos justificaria isso. Há nestas páginas, parece-me, algo muito diferente. Um dia perguntaram ao grande autor negro James Baldwin, que a meados do século passado abandonou os Estados Unidos rumo à França, onde viria a falecer há alguns anos, pelo racismo e homofobia que sofria em Nova Iorque, se mantinha ódio aos brancos, que nunca nunca deixava de descrever as suas piores atitudes e até violência. Era chamado com alguma frequência à casa Branca por John F. Kennedy para o aconselhar sobre política e Direitos Civis. Baldwin escreveria eventualmente num ensaio que “o ódio era um fardo pesado demais para carregar na sua pessoa uma vida inteira”. Djaimilia Pereira de Almeida escreve, na minha leitura, algo semelhante. O passado não pode nem deve ser esquecido nunca, mas a nossa convivência, em qualquer época, não pode nem deve distanciar a Humanidade no seu todo.

Na sua cabeça – escreve a narradora – tiniam as obrigações da manhã, a melodia branda das tarefas das flores, que não o queriam deixar morrer depressa. As idades passando, até os meninos que via pela rua iam ficando outros. Os casados passeando de mãos dadas, a terra comendo as sementes que lhes jogava, e aquele relógio, o mais acertado de todos, batendo as horas certas, engolindo os minutos, as horas, os segundos, a água: relógio das plantas, mão estendida, sem tempo para sentenças”.

Cada personagem, pelo menos nos grandes romances, têm e vivem o seu tempo histórico. A vida aventureira e assassina, não esqueçamos, tinha outros tantos que falavam, lutavam e escreviam sobre a selvajaria europeia não em África como no Brasil e em outras terras “descobertas”. A Visão das Plantas é inspirado profundamente na ficção de Os Pescadores, o romance clássico de Raul Brandão, mas em que a autora parte dessas páginas e liberta a sua imaginação para o desenvolvimento do seu próprio romance. Toda a grande literatura, como sabemos, é esse diálogo com a sociedade e com a história ou as grandes obras literárias do passado. Boa parte da Europa esteve envolvida nestes crimes, alguns deles casa adentro, e perante os países vizinhos, também como se sabe. O esquecimento é o nosso pior inimigo, tanto por parte das vítimas como parte dos seus carrascos. Portugal tem hoje a fortuna de ter aprendido a conviver com muitos povos, em terra e no mar, com os que eram mortos em pedaços, deixados aos abutres, atirados às águas oceânicas, à sua decomposição total, sem os rituais da dignidade devida a cada ser humano. A arte, a grande arte, para lembrar aqui outro gigante da língua portuguesa recentemente falecido no Brasil, tem essa outra função: reavivar a nossa memória e ver-nos através do Outro. Sem desculpa para o protagonista deste romance, é isso mesmo que consegue em a Visão das Plantas. Djaimilia Pereira de Almeida pertence a um novo grupo de escritores portugueses que revêm o nosso passado. Afinal, a recordação literária da nossa pirataria assassina é uma outra espécie de redenção, e, de certo modo, um pedido de desculpa, por assim dizer, a todos os que oprimimos em vários continentes e ilhas.

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Djaimilia Pereira de Almeida, A Visão das Plantas, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2019. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 22 de Maio de 2020.

 

Da arte e dos seus grandes criadores

Curiosamente, nesta época em que Gustave Caillebotte se afastava da capital, concentrando-se nos seus jardins, nos seus barcos, na sua vida pacata aumentava muito o interesse dos pares e da crítica pela sua pintura.

Isabel Rio Novo, Rua De Paris Em Dia De Chuva

Vamberto Freitas

O novo romance de Isabel Rio Novo, Rua De Paris Em Dia De Chuva, sobre um dos mais famosos pintores impressionista/realista, o francês Gustave Caillebotte, é tão rico e denso em saber e forma perfeita que deixa um leitor como eu quase estonteado em cada passo do livro com o mesmo título da pintura mencionada acima, lado a lado com inúmeras ou quase todas as obras que deixou após a sua morte precoce aos 45 anos de idade. Nasceu em 1849 numa família rica de Paris, o que lhe facilitou a vida como artista e o apoio constante aos seus colegas que começavam a ir além do impressionismo para outras telas retratando ora o seu dia.a-dia, ora cenas de rua e das mais diversas paisagens. Não sou crítico de artes plásticas, mas o romance de Isabel Rio Novo não requer isso de nós. Lemos as suas páginas como ficção, mas por vezes senti-me que estava a ler um extenso ensaio sobre a arte que continua cada vez mais a levar os seus apreciadores a vários museus, ficando provavelmente de fora os que foram adquiridos na altura por colecionadores particulares. Esta nota é indispensável aqui: a autora, para além de ser doutorada em Literatura Comparada, é também uma especialista “em cinema e outras artes, tendo assinado diversas publicações académicas nessas áreas”. Já tinha lido com o maior entusiasmo um dos seus outros romances, A Febre das Almas Sensíveis (2018). Se aí o tema predominante é a morte em tempos recuados de outra pandemia (tuberculose), estamos agora em páginas que celebram a vida e arte, tornando-se o livro numa memória histórica do melhor da humanidade. Por entre biografias ficcionadas em Rua De Paris Em Dia De Chuva, acompanhamos o desenvolvimento desenfreado e em todas as frentes que era a Cidade Luz. De uma mais ou menos miserável urbanidade Paris torna-se no que a autora chama a capital do mundo. Claro que isso passaria com as sucessivas guerras e revoluções de grande convulsão, incluindo os anos fatídicos da Comuna (que é fundada em 1871), e duraria bem pouco tempo pelo medo que incutiu na alta burguesia e aristocracia. De resto, trata-se de um romance de aprendizagem, creio eu, para a maioria dos seus leitores, com inúmeras personagens e artistas que entram e saem de cena, como os mais famosos da sua época: Renoir, Camille Pissarro, Monet Cézanne, entre alguns outros que contestaram a noção académica da arte clássica, tal como viriam a fazer os escritores realistas e naturalistas. Estes estão fora do romance, naturalmente, com a excepção de Emile Zola, que cedo admiraria os novos artistas cujas obras, desde o início, causavam oposição ou mesmo repúdio. A narradora relembra que quando passou a tempestade intelectualizada, até Edgar Degas e Vincent Van Gogh foram profundamente influenciados, e deram início ao chamado pós-impressionismo. De resto, é a vida quotidiana entre família e amigos que oscilava entre o amor, respeito e hostilidades insinuadas dentro e fora de casa, ou casas no caso do protagonista desta grandiosa obra de ficção.

Uma das inovações de Rua De Paris Em Dia De Chuva são as duas personagens que dão forma ao livro, uma estudiosa de nome Helena, que está a investigar a vida de Gustave Caillebotte para uma tese doutoral, e uma narradora simplesmente chamada Autora, que está a escrever o romance e pesca informação da sua interlocutora, quase sempre em Cafés e num ambiente de informalidade total. Posso errar aqui, mas talvez não: Isabel Rio Novo inventou-as como se fossem dois heterónimos seus, como um também inventado Álvaro de Campos olhava com agrado e comentava a necessidade da modernidade, o suposto engenheiro naval e intelectual que representava um outro lado da personalidade e crenças de Fernando Pessoa. Frequentemente é mencionada como a Autora deste livro, e nada mais, a não ser as suas irritações e questionamentos constantes do que ouve de Helena enquanto depois escreve o seu próprio romance. Caillebotte pertence a uma família de novos ricos, que fizeram grande fortuna no comércio durante o primeiro desenvolvimento modernista de Paris, como já foi referido, após sucessivas aventuras militares, com notável destaque para a guerra que a França declarou à Prússia em 1870. Caillebotte não só exibia a sua obra em vários locais fora das galerias oficiais, como apoiava os seus colegas com dinheiro e compra das suas obras. Tratava de igual modo o pessoal doméstico de casa, ou outros com necessidades prementes. Num determinado momento descobrem quase todos que os americanos eram muito mais abertos a inovações em todas as artes, e levaram muitos dos seus trabalhos para aquele país, que eram comprados com rapidez e apreciação especial. A capa de Rua De Paris Em Dia De Chuva é como se fora uma lição completa, pelas expressões de um casal sob um guarda chuva e que se desconheciam mas caminham juntos pela gentileza do homem que encontra a mulher desprotegida da água que caía, ambos trajando a roupa em voga naquela época, e que sobressai de imediato aos olhos de cada leitor pelos detalhes, assim como a outra fisionomia arquitectónica do lugar em que se encontram.

As pinceladas soltas, – diz a Autora inventada por Isabel Rio Novo – as tonalidades abertas, os efeitos de luz, fazem lembrar as cenas náuticas de Monet. o leito tranquilo do Sena está coberto de veleiros; alguns permanecem amarrados; outros já navegam, entre os quais aquele em que viaja o pintor. Nesse, um companheiro que a Autora não consegue identificar, de frente para o rio e de costas para o espectador, está concentrado em ajustar as velas. Sentado atrás, de remo pousado, Gustave vigia o leme. Do conjunto das embarcações em marcha, de velas desfraldadas, todas singram a favor do vento, afastando-se da margem. O barco de Gustave é o único que navega contra o vento. Gustave, o timoneiro, está ligeiramente curvado. Volta-se na direcção do espectador, e é nesse instante, nesse momento captado, que a Autora deste livro se sobressalta. Porque o ponto de vista imposto, muito próximo, não é o de quem esteja situado na margem, mas antes o de quem viaje num barco mesmo atrás do pintor”.

Esta longa citação foi deliberada para que o leitor, espero eu, se dê conta das linguagens simultaneamente realistas e simbólicas, tal como tudo o resto que compõe este magnífico livro, quase imitando, mais do que descrevendo, o próprio quadro de Gustave – o de saber e arte pura de contar uma história muito complexa. Dizia-me um grande mestre do New Criticismn numa faculdade da Califórnia que uma crítica ou ensaio sem conter algumas palavras do autor ou autora analisada era como um “esqueleto sem carne”. Outra coisa em que insistia era “get it, but get it right”, traduzido aqui livremente como “escreve, mas não falhes”. É isso mesmo que tentei neste meu texto, e com os livros de outros. A interpretação de um livro como este pode ter vários ângulos, perspectivas ou pontos de vista. Estes são os meus. Isabel Rio Novo tem já uma obra substancial, e, como já referi, não é a primeira vez que escrevo sobre um romance seu. Falta-me agora preencher o meu prazer da leitura com vários outros. Antecedeu o presente romance com O Poço e a Estrada, que é uma biografia de uma outra grande autora, já falecida, Agustina Bessa-Luís. Só que tenho na minha secretária para leitura futura um outro livro seu que não queria deixar passar em branco, entre outros mais, Rio Do Esquecimento, publicado já há alguns anos. A grande literatura é, no entanto, sempre intemporal. Apenas reavivamos a memória dos seus leitores, ou, na melhor das hipóteses, levamos outros à sua leitura.

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Isabel Rio Novo, Rua De Paris Em Dia De Chuva, D. Quixote/LeYa, Lisboa, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 15 de Maio de 2020.

Conversa com Nuno Costa Santos

 

Manteve sempre uma ligação com as comunidades açorianas nos EUA, no Canadá e no Brasil, escrevendo sobre livros de autores descendentes de açorianos. O seu interesse pelas literaturas norte-americanas manteve-se sempre, representando hoje uma das pessoas mais competentes para escrever sobre livros de autores americanos de diferentes proveniências.

Nuno Costa Santos, revista Grotta 4

Vamberto Freitas

A epígrafe aqui é um pequeno passo da introdução que o escritor Nuno Costa Santos escreveu à minha longa entrevista com ele no encerramento no grande evento “Açores: Arquipélago de Escritores”, a segunda edição que aconteceu em Ponta Delgada a 14-17 de Novembro, 2019, e depois reproduzida em grande extensão na revista Grotta que acaba de ser lançada ao público.

Nuno Costa Santos –  Quais as tuas primeiras memórias da vida nos EUA

Vumberto Freitas – Da bondade das pessoas em geral. O chamado Future Schock (1970) escrito pelo sociólogo Alvin Toffler num dos seus mais famosos livros foi um dos primeiros avisos do que aí vinha. Não me aconteceu. Pode parecer inacreditável, mas ainda hoje não guardo uma única má memória desses tempos. Só a alegria de estar numa grande sociedade, mesmo que as nossas primeiras residências tenham sido rurais, pois o meu pai começou desde logo a ser empregado de luso-americanos ligados à agro-pecuária. Depois os cheiros e os sabores de tudo. Bastará dizer que o meu primeiro amigo foi Anthony Barcellos, descendente de terceirenses, e meu colega na escola primária, onde tive de completar o oitavo ano. Ainda hoje somos amigos. Ele viria a tornar-se num distinto professor universitário e um grande romancista, cuja primeira ficção de fôlego se intitula precisamente Land of Milk and Money. Com toda a ironia e sabedoria vivencial que isso implica.

NCS – Como é que foi crescer nos EUA, tendo nascido nos Açores?

VF – Em parte, a resposta já foi dada na primeira pergunta. Só que os Estados Unidos não são a sociedade que se pensa cá fora. Num país de imigrantes, fazem-nos de imediato sentir em casa. Esta época de Donald Trump é uma aberração da cultura e política do país. Pois. Havia provavelmente quem nos olhava com suspeições de vária natureza, mas a maioria com quem nos cruzávamos nunca nos fazia sentir fora de casa, ou como estranhos em terra estranha. Comecei a ver as minhas possibilidades de vida desde o início. Foram-se concretizando passo a passo. Quando estava pronto a candidatar-me a uma faculdade, foi um amigo anglo-saxónico que quase me pegou pela mão e levou-me à admissão no ensino superior. Ainda hoje tenho saudades dele. Estou a falar do final dos anos 60.

NCS – Como é que te começaste a interessar por literatura e como é que resolveste escolher fazer estudos na área?

VF –  Tive grandes professores na California State University, em Fullerton, aliás mentores no verdadeiro sentido da palavra. Primeiro, Nancy Terry Baden, especializada na língua portuguesa e na literatura brasileira. Depois, Michael Holland, doutorado numa universidade europeia e especialista em literatura comparada. Quanto a literatura norte-americana, fiz vários seminários em pós-graduação com William Koon, sulista e, tal como os outros aqui mencionados, um crítico de primeira água. Formei-me em Estudos Latino-Americanos precisamente porque tinha a nossa língua e literaturas portuguesa e brasileira como cadeiras obrigatórias. Venero a memória de cada um deles, e de outros mestres. Li as várias literaturas americanas, mas foi a sulista, especialmente a obra de William Faulkner, que me levou não só a outros escritores da mesma parte do país como me levou aos modernistas associados a Nova Iorque, mas que escreviam, muitos deles, a partir de Paris e de outros países europeus. Quando comecei a ler os escritores judaico-americanos o círculo estava completo: sentia-me livre para definir ou perceber a América à minha maneira, e a partir da minha identidade de leitor híbrido. A América tornou-se-me num caleidoscópio que cada um vivia ou interpretava a partir das suas próprias origens ou identidade nacional ou étnica. Foram eles todos que me fizeram aceitar e a rever a literatura açoriana à minha maneira. Sabia que uma literatura chamada “nacional” consistia ou partia necessariamente das mais variadas geografias e história diferenciada adentro do mesmo país ou cultura em geral. Onésimo T. Almeida faria o resto comigo, já nos anos 70. Mandava-me ou sugeria-me livros dos Açores ou aos Açores referentes. Quando o Diário de Notícias me pediu para explicar aos seus leitores predominantemente do Continente para eu explicar o que era a nossa escrita e as suas origens, o meu destino nesta área ficou marcado para sempre. Não mudarei o rumo, mesmo ante os ignorantes ou os que sofrem de um suposto complexo de inferioridade ante a também dita “metrópole”. Os “universalistas” são os para que sabem decifrar na arte a condição humana. Menos nós em oequenas terras como os Açores. Achas que eu aceito isto?

Depois descobri o grande crítico e ensaísta Edmund Wilson, que tinha falecido aos 77 anos de idade em 1972. Era uma espécie de “besta negra” perante a academia porque não tinha um doutoramento, mas escrevia nas mais prestigiadas revistas e outras publicações americanas. Foi o suficiente para que eu querer conhecer a sua vastíssima obra. Tinha sido uma das consciências éticas e estéticas da geração modernista, conhecia-os todos. Comecei, não pelos seus fulminantes ensaios, mas pelas suas cartas editadas postumamente, Letters on Literature and Politics 1912-1972, onde escreve a toda gente, tanto da sua vida pessoal como no trabalho em mão sobre certos escritores e as suas obras. Foi-me decisivo. Passei a ler toda a sua obra, assim como tudo que foi escrito sobre ele. Hoje, é mais biografado e analisado que os escritores americanos de maior fama. O recentemente falecido Harold Bloom, considerado “elitista”, declarou-o o crítico canónico americano de todo o século passado. Quando o leio sinto-me um ninguém perante tanta eloquência, clareza e astúcia crítica. Mas foi ele também que me fez dedicar-me à literatura provinda das mais inesperadas paragens. Foi o primeiro grande crítico que deixou de escrever sobre os modernistas, e passou o resto da sua carreira a escrever sobre minorias e as suas próprias memórias. Sobre os russos também, uma das suas áreas de estudo e crítica. Tanto elogia como castiga todos sobre quem escreveu. É a minha outra ou primeira referência.

NCS – Sei que começaste a tentar perceber a América através das suas várias literaturas. Cada lugar tem a sua literatura, muita dela ligada à identidade do lugar onde é criada.

VF – Nenhuma literatura de valor é alheia à sua geografia, ou circunstâncias de vida de cada autor nessa mesma geografia. No entanto, a chamada “universalidade” vem dos sentimentos humanos com os quais cada leitor se identifica. Fica ainda a História como referência inescapável. Literatura e sociedade são indissociáveis. Nem um T.S.Eliot foge a esta verdade literária. O seu The Wasteland/Terra Erma nasce do seu sofrimento pessoal, íntimo, e do momento que vive num país que não é o seu, a Inglaterra. O resto é conversa académica sem sentido nem qualquer relevância. Ele goza à brava com os universitários estudiosos, até dando notas de rodapé falsas ou levando a referências sem qualquer sentido. Fá-lo de propósito. Ou para outros gastarem todas as suas energias em teses doutorais que nunca serão inteiramente lidas, se calhar nem pelos júris envolvidos. A questão da identidade de cada um ou da sua colectividade de origem nunca escapa à grande literatura. Ainda há escritores açorianos que rejeitam esse rótulo. São da China? São de Lisboa? Então o que é que os leva a chamamentos açorianos em quase todos os seus livros? Estou em crer que mesmo os que nunca escreveram a palavra Açores, os leitores continentais nunca deixam de os chamar “escritores” açorianos ou dos Açores. São escritores portugueses, sem dúvida alguma, mas não podem escapar às suas origens. Conhecem algum escritor francês, americano ou japonês que rejeitou o seu lugar de origem? Os Açores não são Portugal?

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Grotta: arquipélago de escritores, Direcção de Nuno Costa Santos e Coordenação de Diogo Ourique, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019-2020. O que aqui vai, uma vez mais, é apenas uma pequena parte de uma extensa entrevista na mesma revista. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 8 de Abril de 2020.

Diniz Borges, ou a diáspora no seu melhor

 

Nesta comunidade, que tem mais de 140 anos de existência, estamos, pouco a pouco, a consciencializarmos do facto que é necessária a nossa integração sem uma diluição total.

Diniz Borges, À Sombra da Saudade

Vamberto Freitas

À Sombra da Saudade: Vivências Portuguesas na Califórnia, o mais recente livro do professor e ensaísta Diniz Borges, que emigrou para a Califórnia aos 10 anos de idade, mais tarde licenciando-se pelo Chapman Çollege, tendo depois feito um mestrado em Literatura Étnica dos Estados Unidos na California State University, em Dominguez Hills. Hoje aposentado do ensino secundário oficial da Califórnia, é docente convidado de Português no mesmo sistema universitário, mas agora no polo de Fresno. Desenvolve nas suas novas funções lectivas uma actividade quase frenética na defesa da nossa língua e cultura a vários níveis. Anteriormente, pertenceu também à faculdade de um Community College, College of the Sequoias, na cidade de Visalia. Tenho seguido a sua carreira desde o seu tempo de jovem, quando já fazia rádio para as comunidades circundantes da cidade onde sempre viveu, Tulare (cidade irmã de Angra do Heroísmo), onde reside um grande número de açorianos tradicionalmente ligados à agro-pecuária, mas hoje disperso pelas mais variadas profissões, denotando desde logo o seu sucesso no mundo trabalhista. Não tenho espaço aqui para referir toda a sua biografia pessoal e profissional. Posso dizer, no entanto, que embora sempre a viver numa pequena comunidade no Vale de São Joaquim, no interior central da Califórnia, a sua luta foi sempre constante: manter viva a língua portuguesa, advogar a sua escrita, e ao mesmo tempo apoiar a nossa integração na sociedade americana, fazendo das duas línguas e culturas o centro da nossa vida em todo o país. Não é o único a dedicar-se a esta causa, mas é indubitavelmente um distinto lutador incansável para que a nossa gente nunca deixe de pertencer por inteiro à sociedade que a acolheu com civilidade e admiração. Falo do que eu próprio vi e vivi pessoalmente durante 27 anos. Para além dos mais variados reconhecimentos dos dois países, Diniz Borges foi nomeado há alguns anos Cônsul Honorário de Portugal da área onde vive e sob a jurisdição do Consulado Português na cidade de São Francisco. De resto, é um militante de força em associações políticas luso-americanas ligadas a congressistas e a outras altas patentes em Washington, todos os nossos descendentes, tendo alguns deles prestado serviço na Casa Branca.

Há muito mais, como já sugeri. Mas tenho de agarrar-me ao essencial que é este gigantesco volume de ensaios publicados em jornais de língua portuguesa nas nossas comunidades, desde os Estados Unidos ao Canadá e aqui nos Açores. Já os tinha lido quase todos, e agora fui aos poucos lendo os que faltavam. Um pormenor importante: À Sombra da Saudade contém alguns artigos em inglês, numa tentativa de chegar com a sua mensagem às gerações seguintes que já não leem português. Serão eles, dada a diminuição drástica da nossa emigração para aquele país, os continuadores do portuguesismo em língua inglesa, digam o que disserem os puritanos ou nacionalistas entre nós.

Esta escrita nunca foi feita sobre o joelho: é pensada, avaliada e dirigida a um público que garantirá – repita-se aqui sem reticências – todas as nossas tradições, lealdade à sua ancestralidade, e ainda mais pontas de lança dos interesses do nosso país numa sociedade etnicamente muito complexa, com cada grupo a defender a sua primazia no poder norte-americano a todos níveis – local, estadual e federal. A grande novidade deste livro de Diniz Borges é o seu optimismo e confiança no futuro e que, por inferência das suas claríssimas palavras, envolve a dignidade das suas duas pátrias e as relações de aliança entre ambas e em todos os sentidos. Estamos em presença do maior comentador luso de tendências esquerdistas dentro do Partido Democrático, um autor que rejeita toda e qualquer discriminação contra os que dele poderão discordar da concretização dos seus projectos, continuamente discutidos em diálogos de uma ponta à outro do grande país.

As comunidades açorianas – escreve Diniz Borges no ensaio ‘Santos de Casa Também Fazem Milagres’ – apesar da enorme distância geográfica que as separa das ilhas de bruma, ainda continuam a apostar nas suas vivências sócio-culturais. São muitas as comunidades que têm o seu grupo de folclore, a sua banda de música, a sua equipa de futebol, e onde está a gente da terra dos bravos, lá está o ganadero e a tourada. São os açorianos, e os seus descendentes, a apostarem na continuidade do seu legado cultural. São as novas gerações que começam a despertar interesse pelas terras e as tradições dos seus antepassados. E entre todo este entusiasmo há que olhar ao que transmitimos, e ao que poderá perder-se na inevitável miscigenação. Há que salvaguardar as tradições mais genuínas e há que preocuparmo-nos com a evolução a que as nossas comunidades também têm, obviamente, o direito. É que cada vez mais se vai às actividades da comunidade portuguesa por opção e não por necessidade”.

À Sombra da Saudade: Vivências Portuguesas na Califórnia tanto aborda as nossas tradições populares e a sua importância na preservação da nossa identidade em terras tão longínquas geográfica e culturalmente da nossa, como aborda o que já apontei atrás em termos políticos ou de activismo público, ou ainda como fala de escritores de ambos os países e as suas respectivas obras. Não creio ter sido por acaso que o autor se especializou na melhor literatura americana escrita por outros autores “minoritários” de várias etnias. Hoje, muita dela já faz parte do cânone literário americano, onde alguns dos nossos autores começam a entrar, esse escalão intelectual de reconhecimento literário, independentemente de condescendência ou apologia. Quando um Frank X. Gaspar, que se identifica totalmente em toda a sua obra com as suas raízes portuguesas na América (Fernando Pessoa e José Saramago estão frequentemente no centro da sua escrita, entre alguns outros) publica um poema em The New Yorker, ou uma Katherine Vaz é recenseada nas melhores publicações do seu país, algo de novo ou em crescente está a acontecer à nossa presença nacional americana, pelo menos no que diz respeito às artes literárias e outras. Por certo que já tinha acontecido com outros autores e autoras, e que referi noutros textos. Livros como este de Diniz Borges e muito dos trabalhos como os de Onésimo Teotónio Almeida continuam a dar conta a outros que o nosso povo, com toda a sua dignidade, tem ido muito além das fábricas da Costa Leste ou das vacarias do Oeste. Não quero aqui palavras de valorização de uns sobre os outros. Só sublinhar a solidez e a dignidade da nossa gente que teve a coragem de começar e recomeçar as suas vidas em todos os quadrantes da vida pública e privada num país tão diferente do nosso, apesar de sempre governado por outros – na cultura e na política.

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Diniz Borges, À Sombra da Saudade: Vivências Portuguesas na Califórnia, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2019. Publicado originalmente na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume XLI, 2019, Brown University. Publicado também no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 1 de Maio de 2020.

 

ADELAIDE FREITAS: A INOCÊNCIA E A DOR

João de Melo

 

O povo americano convive desde sempre com a realidade diária das comunidades imigrantes, originárias de todo o mundo, e que ao longo dos anos elegeram o país como destino e como factor da sua história. A inserção dessas comunidades na sociedade da América faz-se em regra de uma forma lenta e progressiva, à medida das suas aquisições: primeiro o domínio da língua inglesa, depois a absorção de novos usos e costumes, mais tarde o “american way of life” e, talvez remotamente, o seu próprio “american dream”. Não pretendo deter-me na análise dos problemas dessa integração, como sejam o isolamento grupal e o culto conservador da cultura do seu quotidiano, enquanto explicação da sua resistência ao esplendor do Mundo Novo. Disso sabem os próprios americanos muito mais do que eu, pese embora o facto de também ter visto toda a minha família emigrar dos Açores para o Canadá e para os Estados Unidos. Hoje, eles são para mim uma espécie de tribo sem nome: irmãos, cunhados, sobrinhos e sobrinhos-netos que me são “estrangeiros”.

Não é disso que nos fala o livro de Adelaide Freitas, Sorriso por dentro da noite. Este romance leva-nos ao encontro da realidade subjacente à condição emigrante, que julgo algo ignorada no seio desse vosso “país de estrangeiros”, unido estado a estado, e dos seus cidadãos naturais, os americanos. O caso é bem outro, e a mim pertence explicá-lo na dupla condição de leitor e de sujeito dessa experiência de vida traumática – como era e foi para nós a partida dos nossos pais para a grande América, em busca da liberdade económica que não existia nas ilhas dos Açores nem no Portugal continental. A amargura e a solidão dos filhos deixados para trás, nas ilhas, resume-se ao facto de ficarem entregues a familiares que os educavam à sua maneira, com amor ou sem amor nenhum, quantas vezes perdidos e ausentes das suas imagens de pai e mãe. A autora de Sorriso por dentro da noite faz jus à metáfora do título, com o qual confronta os leitores. O “sorriso” opõe-se à “noite” do tempo e da memória, porque a ilumina e vence a sua escuridão. O triunfo sobre as adversidades do mundo faz-se através da dor e da luta cerrada contra os traumas da ausência e as perdas eternas da infância.

Adelaide Freitas recorre a uma narradora oculta para nos falar da inocência de Xana (certamente o seu alter-ego), personagem infantil, sensível, toda ela inocente na aventura dolorosa e no abandono dos pais, que a deixam aos cuidados da avó materna (também ela com um passado emigrante). A essa avó Xana chama “mãe” durante toda a infância. Porque há nela a estranheza de uma mãe inexistente, cuja imagem só existe nos retratos da casa e nas palavras da avó. Mais tarde, no dia do regresso aos Açores dessa sua mãe apenas imaginária, Xana sente-se traída por uma mulher afinal autoritária e fria que a obrigam a tratar por mãe, mas que se lhe revela destituída de amor maternal, seca e prepotente, a ponto de submergir a figura do marido, o pai de Xana, na de um homem reprimido, incapaz de lidar e de se opor à arrogância da sua mulher.

Falo da inocência e da dor dessa menina, neste livro. Xana personifica o drama interior da autora, também ela prisioneira dos seus fantasmas. A criança que não cresceu e que se recusa a ser adulta tanto na família como no mundo dos outros. No próprio dia da chegada dos pais ao cais de desembarque, vindos da América, Xana é levada pela avó à cidade não exactamente para os esperar, mas para os conhecer na realidade. É o momento emotivo mais forte do livro. É o milagre e o assomo da literatura contra a realidade. A menina Xana aceita o pai e foge da mãe. Esta nem ao menos abraça a filha. Pelo contrário, assusta-a com o seu excesso de determinação e com o poder familiar que ela manifesta. A estranheza desse poder da mãe sobre a família, incluindo o marido, vem-lhe do facto de não ser feminino, mas sim matriarcal, contranatura, sem correspondência com a imagem materna que até então ocupava a imaginação hipotética de Xana. Tal imagem transfere-se de novo para a pessoa da avó, e passa a ser a miragem de um desencanto, através da falência futura de uma relação que opõe mãe e filha e não mais as reconcilia. Estamos, assim, perante um conflito psicológico que se torna tão absoluto quanto definitivo, e que molda para sempre o espírito da menina – onde parece não luzir razão nem sentimento, nem ânimo, nem vontade de viver.

Mas há outros demónios na mente e no coração de Xana. A primeira menstruação, por exemplo, revela-se uma tragédia pessoal para ela, que desconhece os mistérios

e os segredos do seu corpo. Aí teremos algo de parecido com uma doença nervosa da mente dela para toda a vida. Também um simples acto de amor nocturno na cama dos pais se lhe revela terrível na sua violência fictícia. E, de cada vez que os ouve planear em segredo uma nova “fuga” para a América, vemos Xana descer aos infernos do desamparo e à perda familiar, sobretudo da ternura compreensiva do pai. A América deste livro vibra entre o desejo de alguns e a maldição dela; entre a liberdade alheia e a clausura de Xana na casa da ilha; e entre a abundância e o vazio daquilo que o dinheiro não compra, não dá, nem compensa só por si.

Finalmente, a afirmação mais óbvia: em termos de análise pura, este livro abre perante nós duas geografias humanas, dois países, dois tempos sistémicos – sendo único no modo como expõe a América à vertigem dos nossos sentidos. Não basta lê-lo, é preciso vivê-lo também. Foi escrito com o sentimento poético da dor e da inocência, por amor às raízes insulares da autora e à terra do seu povo.

Adelaide Freitas (1949-2018) viveu uma dupla história de vida, portuguesa e americana. Estudou em duas Universidades do Massachusetts e numa de New York. Foi professora de literatura e cultura americanas na Universidade dos Açores; e doutorou-se com uma tese sobre Herman Melville, Moby Dick, a Ilha e o Mar: Metáforas do Carácter do Povo Americano. Além desse estudo académico, deixou-nos várias obras publicadas (ensaio literário e sociológico, poesia e textos de viagem) – e, sobretudo, a saudade do seu nome e da sua pessoa. Perdura em nós, acima de tudo, a beleza do seu sorriso, uma luz perpétua que permanece acesa na noite da sua morte.

(Lisboa, 26 de Setembro de 2019)

Ontem foi publicado um ensaio sobre “Similing In The Darkness” no Diário dos Açores escrito por João de Melo. Afinal a versão que escolheram foi esta que agora vai aqui, e foi traduzido para Inglês. Qualquer um deles descreve minuciosamente a vida e obra de Adelaide Freitas.

ADELAIDE FREITAS: A INOCÊNCIA E A DOR

 

João de Melo

Adelaide Freitas (1949-2018) viveu uma dupla história de vida, portuguesa e americana. Estudou na Universidade de Southeastern Massachusetts University, pela qual se licenciou, e na City University of New York, onde obteve o Mestrado com que completou a parte curricular para o P.H.D. Regressando a Portugal em 1978, foi convidada pela Universidade dos Açores para ali ensinar Literatura e Cultura Americanas, tendo-se doutorado em 1987 com uma tese sobre Herman Melville: Moby-Dick, A Ilha e o Mar: Metáforas do Carácter do Povo Americano. Além deste estudo académico, deixou-nos outras obras (ensaio literário e sociológico, poesia e textos de viagem) e, sobretudo, a saudade do seu nome e da sua pessoa. Perdura em nós, acima de tudo, a beleza do seu sorriso cheio de vida, uma luz perpétua que ainda hoje permanece acesa na noite da sua morte – tão prematura quanto injusta ela foi.

Sorriso Por Dentro Da Noite é um romance que nos leva ao encontro da realidade subjacente à condição emigrante dos seus protagonistas. Não no interior do meio imigrante dos Estados Unidos, mas na terra de origem, neste caso o arquipélago português dos Açores, situado a meio caminho marítimo entre dois continentes: a Europa e a América. Era no tempo em que nos nossos pais e irmãos mais velhos partiam deixando-nos ao cuidado de um ou outro familiar. Iam em busca de uma liberdade económica que não existia nas ilhas dos Açores nem no Portugal do continente. Ficávamos nós para trás, com o amor dos avós ou sem o amor nenhum, quantas vezes perdidos e ausentes das nossas imagens acerca do pai e da mãe.

A autora de Sorriso Por Dentro Da Noite viveu essa experiência de uma maneira que faz jus à metáfora do título. Opondo o “sorriso” da sua determinação à “noite” do tempo e da memória; iluminando e vencendo a sua escuridão. Esse seu triunfo sobre a adversidade do mundo faz-se pelo trilho da dor e da perda, mas através de uma luta de resistência íntima, de dentes cerrados contra os traumas da ausência e o sacrifício eterno da infância.

A escritora recorre, nesta história de vozes e silêncios, a uma narradora oculta que nos fala da inocência de Xana, personagem infantil, sensível, centrada na aventura dolorosa da retaguarda familiar e no abandono dos pais, que a entregam aos cuidados da avó materna (também ela com um passado emigrante, e que a menina ama de verdade). Xana chama “mãe” a essa avó durante toda a infância. Porque há nela a estranheza da outra mãe inexistente, cuja imagem só existe nos retratos da casa e nas palavras da avó. Mais tarde, no dia do regresso aos Açores dessa sua mãe até então imaginária, a pequena Xana sente-se como que destruída ante uma mulher autoritária e fria que a obrigam a tratar por mãe, mas que se mostra incapaz de qualquer gesto maternal, seca e prepotente a ponto de submergir a figura do marido, pai de Xana, na condição de um homem reprimido, incapaz de lidar e de se opor à arrogância e ao poder conjugal da sua mulher.

Falo da inocência e da dor dessa menina, neste livro. Xana personifica o drama interior que nós próprios conhecemos na história da autora, aprendiz de família e afinal prisioneira dos seus fantasmas; a criança que não cresceu e se recusa a ser adulta tanto no seio da família como no mundo distante dos outros. Nesse dia da chegada dos pais ao cais de desembarque, vindos da América, Xana é levada pela avó à cidade não exactamente para os esperar, mas para os conhecer na realidade. É esse o momento emotivo mais forte do livro. E o mais impiedoso. Só o milagre e o assomo da literatura o pode descrever. A realidade da vida torna-se, também ela, literária. Ainda no cais, a menina Xana aceita a ternura do pai e foge da mãe. Esta nem ao menos abraça a filha. Assusta-a com o seu excesso de determinação. A estranheza desse poder da mãe sobre a família, incluindo o marido, vem-lhe do facto de não ser feminino, e sim matriarcal, um pouco contranatura no conceito da criança, e sem correspondência com a imagem materna que até então ocupava a imaginação hipotética de Xana. Por conseguinte, é a pessoa da avó que serve de refúgio e de defesa contra a imagem de uma mãe, que passa a ser uma miragem, um desencanto, a falência de uma relação que opõe mãe e filha, e que não mais as reconcilia. Esta é a história desse conflito psicológico, absoluto e talvez definitivo, o qual molda para sempre o espírito da menina. Na sua alma inocente, não luz uma razão, nem um ânimo, nem um sentimento, nem a vontade de viver.

Existem outros demónios na mente e no coração de Xana. Por exemplo, a sua primeira menstruação revela-se uma tragédia pessoal para ela, que desconhece os mistérios e os segredos do seu corpo. O choque desse momento provoca-lhe algo de parecido com uma doença nervosa para toda a vida. Também um simples acto de amor nocturno na cama dos pais se lhe revela terrível, dando-lhe uma ilusão de violência física entre o casal. E ainda: de cada vez que os ouve planear em segredo uma nova “fuga” para a América, Xana desce aos infernos do desamparo e à perda de si mesma, porque ficará sem a presença nem o amparo do pai. Em suma, a América deste livro vibra entre o desejo de partida e de redenção, por um lado, e a ideia de orfandade e de maldição, pelo outro – significando clausura e abandono para Xana na casa da ilha, e para os pais a abundância e a salvação da família. Só que há um vazio espiritual entre as duas situações: os filhos não conhecem o amor dos pais, e estes não recebem dos filhos nenhum sinal de conhecimento ou de gratidão. O dinheiro ganho por eles na América pode comprar roupas, brinquedos e sonhos; mas não o direito à felicidade nem a infância de ninguém.

Finalmente, a afirmação mais óbvia: em termos de análise pura, este livro abre perante nós duas geografias humanas, inversas entre si, e dois países, dois tempos sistémicos – sendo por isso único e original no modo como expõe a América à vertigem dos nossos sentidos. Não basta lê-lo, precisamos de o viver, ou de o ter vivido já. Foi escrito com o sentimento poético da dor e da inocência, por amor às raízes insulares da autora e à terra do seu povo. Haverá sempre meninas, como a Xana deste livro, que não tiveram infância nenhuma, e gente emigrante que não se cumpre a si mesma, numa margem ou noutra dos seus mundos, porque nada mais dá aos filhos do que pão para a boca e uma dor imensa na inocência do olhar.

(Lisboa, 26 de Setembro de 2019)

Publicado hoje no Diário dos Açores, 1 de Maio de 2020.