Da independência dos Açores e de certos mitos

As ilhas não mais seriam iguais, nem a noite o dia o saber os sonhos de cada um

João de Melo, Livro De Vozes E Sombras

Vamberto Freitas

Vamos ao que mais interessa na prosa de João de Melo. Sem qualquer dúvida, escreve aqui uma brilhante ficção, a sua linguagem nunca deixa os seus leitores por um segundo sem o êxtase de ler uma combinação de realismo e, diria, pura poesia. Introduz-nos aos mais variados personagens ou protagonistas. Não é que a sua linguagem não mude de romance para romance. Cativa-nos de um modo singular. Posso agora parecer um herege regionalista, mas poucos dos seus leitores deixam de abordar as ilhas açorianas desta maneira brilhante. Estou grato ao autor por despertar em mim tanta “fúria”, como a vontade de não ficar fora do circuito que sempre deu sentido à minha vida na América e em Portugal.

Queria começar por dizer que estou tão longe da FLA como de Júpiter, o quer não dizer que eu, como democrata e cidadão português dos Açores não concorde do que muito disse esse movimento ou se pronunciou desde o inicio. Um democrata nunca falha em perceber certas verdades. LIVRO DE VOZES E SOMBRAS, a nova obra de João de Melo, traz-nos desafios algo problemáticos tanto na sua estrutura como no tema quente da FLA (Frente de Libertação dos Açores), mesmo que venha relatado ficcionalmente mais ou menos 20 anos depois. A sua abertura começa por trazer alguns problemas aos leitores açorianos (os continentais raramente perceberam todo processo). Chega ao porto de Ponta Delgada uma jornalista enviada por um jornal aqui chamado Quotidiano, que identifico logo, erradamente ou não, pelo Diário de Notícias. Uma personagem de nome Cláudia Lourenço vem entrevistar Mariano Franco, um suposto bombista e terrorista ao serviço dos independentistas, que a vai receber, e de imediato pede-lhe que feche os olhos durante o percurso até chegarem, ao destino, Capelas. Ora um leitor da ilhas sabe muito bem que o único líder da FLA que lá vivia era o Dr. José de Almeida (e que o narrador nunca nomeia,chamando sempre o Outro). Tudo isto foi-me confirmado por quem andava muito perto dos bastidores do movimento. Falta ainda só dizer aqui que o líder máximo da FLA nem era bombista nem terrorista. O autor pode bem esconder-se atrás dos seus narradores e colocar-lhes na boca o que quiser e entender. Não pode é falhar nos dados históricos que estão subjacentes ao resto que vai ser imaginado, e às suas palavras naturalmente ficcionais que muito bem quiser e entender, mesmo que as topemos como fora das realidades vividas ou sofridas. Pronto, falha menor num romance que merece ser lido com toda a atenção – e dúvidas. O romance é quase todo narrado pelo dito terrorista, mas já numa fase de arrependimento, mais ou menos. Por outro lado, cometeu os seus crimes a mando do Directório da FLA, ou então actuou por conta própria, como muitos outros “capangas” o fizeram na perseguição e pancadaria em continentais mais conhecidos e até mesmo a outros açorianos anti-independentistas ou separatistas. Por certo que muitos deles praticaram terrorismo “avulso”, mas que alguns pensam que foi a mando do Directório. Ninguém o pode provar. Depois da estrondosa e histórica manifestação 6 de Junho em 1975 em Ponta cerca de 35 cidadãos, principalmente de São Miguel e da Terceira, foram presos e barbaramente mandados para uma prisão na Ilha Terceira. Um pouco mais adiante falarei que quem perseguiu e praticou violência entre nós, mas contra os açorianos, especialmente a partir desse histórico 6 de Junho. O narrador de João de Melo afirma ainda sem meias palavras que o movimento era só dos ricos e terra-tenentes. A maioria dos seus militantes mais aguerridos era gente do campo, do pequeno comércio e outros trabalhadores. Fala ainda constantemente na entrega do arquipélago à protecção dos americanos. Só por vontade dos de cá esravam por aqui até ao Verão de 1975, pois nem quer a CIA, e muito menos a Secretaria encarregada dos Negócios Estrangeiros dos Estados Norte-Americanos estavam atentos ou desejosos de ir atrás de outro problema aguda na seio da Europa ou dos seus arquipélagos. Sobre isso irei citar adiante o maior especialista açoriano sobre a presença dos Estados Unidos aqui nas ilhas

Permitam-me agora um pouco de biografia e auto-biografia. Em 1982 receberia de Mário Mesquita, então Director do Diário de Notícias, que seguisse as andanças do Dr. José de Almeida na América quando foi lá fundar um “governo no exílio”, creio que em Fall River. A prestigiada revista Boston tinha publicado um extenso artigo sobre o assunto, que eu agora resumia as suas palavras sobre a FLA, e depois, disseram-me de Lisboa, que visitasse algumas comunidades açor-americanas sobre a sua aderência ou oposição. Depressa enviaria uma longa reportagem intitulada “A conspiração separatista nos Açores”, que foi publicada em grande destaque no suplemento Internacional. Depois do relato pedido, rematei a reportagem com as seguintes palavras, nunca desditas por ninguém aqui nos Açores, e o Dr. José de Almeida leu, na altura, e um pouco mais tarde a comentaria comigo em pessoa. O grupo tinha viajado depois para a França, mais ou menos em secretismo, e realizou uma reunião, no mínimo estranha.
Nas palavras de Fred Strasser e Brian Mac-Tigue numa outra reportagem num outro jornal americano sob o título “The Fall River Conspiracy” escrevem: “A reunião do Hotel Raphael dissolve-se num ambiente de impotência, animosidade, e recriminação. Os açorianos que tinham servido de fachada, voluntária ou involuntariamente, aos agentes da OAS [organização terrorista francesa, que havia actuado durante a luta pela independência da Argélia] perderam a sua honra, perderam a sua credibilidade nas comunidades da América e das ilhas… A República dos Açores sonhada pelos secessionistas afundou-se mesmo antes de ser lançada”. Antes desta afirmação, os mesmo jornalistas tinham escrito: “Na reunião decisiva de 5-7 de Setembro no Hotel Raphel de Paris convocada exactamente para a formalização dos acordos entre a Continental Resources Corporation (uma organização criminosa de Nova Iorque ) e a FLA, com o contrato do já trabalhado e retrabalhado, mas Dr. José de Almeida recusou-se terminante a assiná-lo. “Era um contrato”, afirmou o Dr. José de Almeida, para a escravatura e não independência. Previa a prostituição dos Açores”. Foi precisamente nesse momento em que a primeira FLA começou a afundar-se entre intrigas, desacordos e palavras em voz alta entre os restantes dirigentes aqui no arquipélago. Por outras palavras, O Dr. José de Almeida tomou de imediato a certa criminalidade norte-americana interessada mesmo na luta armada por eles financiada em troca de favores, como a construção de casinos e malas diplomáticas. O narrador nunca se esquece de falar na América como refúgio de uma hipotética república açoriana. Está enganado, e creio que está enganado.

“O mar cavado, as suas sete ondas a baterem contra o exterior da muralha e a virem quebrar no calhau rolado. Nuvens, poucas e altas, e paradas no firmamento quais penedos deles suspensos. Um ruído de mastros a baterem nas alturas. A água a saltitar, a arremeter contra o casco das embarcações. Gil estranha não ver ninguém de serviço ao cais: nem guarda nem guarita da entrada, nem vigias às mercadorias descarregadas no chão da doca, nem plantões de sentinela Fotaleza. Outra tripulação do cargueiro ancorado que espera a ordem de largada. Só a talvez porosa da tarde, com a sua luz crua, talvez pouco fiável no Outono das ilhas”.

É certo que os Estados Unidos, começaram a prestar atenção aos Açores mesmo antes do Verão Quente de 1975, mas intensificaram a sua acção quando o Partido Comunista demonstrou a sua possibilidade de tomar o Poder à maneira soviética. Foi o Embaixador Frank Carlucci que em Washington se atirou contra o maquiavélico Henry Kissinger perante o Presidente Gerald Ford, que desejava, Kissinger, um Portugal comunista como uma pretensiosa vacina contra a Itália e Espanha, que ameaçavam tomar o poder por eleições. Kissinger perdeu a jogada.

O maior especialista da presença dos norte-americanos nos Açores, o jornalista Armando Mendes da Antena/1 dos Açores e do Diário Insular, particularmente na Ilha Terceira e da Base das Lajes, escreveria no seu magistral Entre O Carro De Bois E O Avião: Uma Pequena Comunidade No Centro De Uma Rivalidade Global:

“A 31 de Maio de 1975, A CIA, num memorando dirigido a Kissinger, dá como certo que o um golpe separatista nos Açores pode estar por dias. Os receios da CIA estão muito relacionados de forma muito clara com a Base das Lajes. O memorando contabiliza as forças com que os separatistas podem contar e as forças de Lisboa, tal como como equaciona as possibilidades de o golpe ter sucesso ou ser derrotado através de forças enviadas do continente. A preocupação central da CIA, que coincide com as preocupações já manifestadas por Carlucci, é os EUA serem responsabilizados pela situação no caso de o golpe ser mal sucedido, gerando-se as possibilidades de renegociação da presença nas Lajes”.

Nem uma coisa nem outra. Hoje já não sei se temos mais queixas contra os Estados Unidos, a CIA ou a chamada União Europeia. Cada um pense por si, e com ideologia própria. O que sei de certeza é que o novo romance de João de Melo, é uma mescla de temas bem integrados (que envolve África, Lisboa e, ao centro, a luta da FLA nos Açores), que nos faz pensar, contrariar ou estar de acordo com as suas ideias. Um romance sem este poder não vale muito. Sim, livro de vozes e sombras.

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João de Melo, Livro De Vozes E Sombras, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020.