Da melancolia da ilha e de uma fuga louca em busca da América

Apesar da brisa daquela noite clara, Mané sentia-o debaixo da pele: os tempos da pobreza iam acabar.

Almeida Maia, IlhaAmérica

Vamberto Freitas

Permitam-me e desculpem-me de começar com uma auto-referência. Em 1999 publiquei um livro sob o título A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, mas trata-se de uma mera selecção de ensaios maiores e menores que eu havia publicado sobre a condição vivida nos Açores durante aquela época ou no passado. Menciono-o aqui só para vos dizer que este novo grande romance de Almeida Maia, IlhaAmérica, é precisamente sobre a mesma ideia de que os Açores são o tal “viveiro” nemesiano, onde se planta parte da humanidade para logo a seguir tentar ser replantada noutras geografias, que no nosso caso, logo desde quase o início da povoação queria dizer as Américas, e a partir do século dezoito até aos nossos dias isso queria dizer os Estados Unidos e mais adiante o Canadá. É certo que outros escolheram ou foram forçados a outros destinos, mas a América permaneceu sempre a nossa “miragem”, como um dia escreveu José Martins Garcia. Essa miragem levou em 1960 à mais dramática e corajosa tentativa de chegar a esse outro destino de vida nossa. Também é certo que Manuel Ferreira escreveria O Barco e o Sonho, depois tornado filme, mas essa foi uma aventura de mar que acabou bem, ao contrário do que acontece neste romance de Almeida Maia. Um rapaz, aqui de nome Mané, natural das Furnas mas cedo mudado para Santa Maria com a família para que o pai trabalhasse no então mais importante aeroporto dos Açores, pois era lá que a aviação da época fazia escala rumo ao Novo Mundo, de norte a sul. Este romance tanto insinua a então pobreza dos Açores como por vezes a brutalidade das vidas domésticas, e é a isso que um jovem de 16 anos de idade quer fugir a todo o custo. Antes de mais, esta ficção histórica é o resultado de uma aturada investigação do autor (de que dá conta em quase quatro páginas de notas e agradecimentos), que cruzou de novo continentes e outras ilhas, é baseada num caso verídico que suspeito muitos outros sabem dele. Se já mencionei outros autores que escreveram sobre a aventura americana é com o intuito de colocar a narrativa presente no seu devido contexto, mesmo que as circunstâncias sejam as mais dramáticas imagináveis, em que a realidade e a ficção se juntam numa prosa brilhante, colocando desde já este IlhaAmérica no cânone superior da literatura açoriana ou entre a melhor ficção contemporânea de língua portuguesa. Outra questão que me parece de importância vital: no fim do romance vemos como os nossos apregoados “brandos costumes” não passam de um mito que séculos de vivência sobre os mais variados absolutismos quis fazer passar para dentro e para fora. Um adolescente poderia não saber disso, mas sentia-o na pele desde a vida em casa e o que ia à sua volta. O título deste livro não se refere à América, mas sim à própria ilha de Santa Maria devido ao seu trânsito aéreo e à presença dos americanos, que na Terceira e de outro modo se fechavam na Base arredores lá perto. Era da ilha mariense que saíamos todos em busca de nova vida numa América, que nada tem a ver com o que hoje lá acontece. Eu também parti de lá em 1964, mas no conforto de uma cadeira e rodeado pela minha família imediata. Nada disso tem a ver com a sorte de Mané que se meteu no vão da roda da frente de um Locheed Super Constellation venezualano que ia para Caracas e escala na Bermuda. Mané poderá não se ter dado conta disso,e aterraria no que aqui se chama a Terra Prometida.

Mané está no aeroporto e espreita o avião. Quando ninguém aparecia à sua volta mete-se, só com a roupa do corpo e três papo secos, uma vez mais, no vão que lhe poderia ter sido fatal por várias razões. Diria mais tarde o co-piloto, quando o avião levanta voo, “Fue esta luz que me avisó… Pensábamos que era una avería, porque oímos um ruído áspero, como alguien golpeando algo”. O jovem teve a inteligência de recuar ou se mover mais um pouco, a roda fechou segundos antes de o comandante decidir abortar o voo e regressar à pista. Quando aterram na Bermuda, o jovem saiu e foi logo descoberto pelos pilotos, que ficaram atónitos com a coragem do jovem. O comandante, aqui de nome Diego, dir-lhe-ia o resto, já em sua casa de Caracas, onde o acolheu com a maior admiração e carinho, que foram de tal grau que até brincou com a possibilidade de Mané casar com uma das suas filhas. Fez-lhe entender ainda, agora nas palavras do narrador de IlhaAmérica, a enorme sorte do rapaz foi que não tinham voado à altitude habitual de 20.000 pés mas sim a 8.000 pés. “Se voassem uma nisquinha mais acima, o oxigénio teria faltado”. Sem quaisquer documentos, Mané foi entregue ao consulado português naquela cidade, e de imediato enviado para Lisboa sob a acusação de emigração ilegal, e ele acabou no Aljube, em que a PIDE, nos seus comportamentos muito conhecidos entre nós, o interrogou numa das suas salas frias e intimidativas sobre a façanha, mas sem qualquer simpatia e muito menos admiração, dirigindo-lhe palavras duras, acabando por o reenviar para a ilha. Contraste-se este comportamento com a empatia e paixão dos pilotos venezualanos. Acaba por fazer a tropa na guerra colonial, mas o sonho americano nunca o deixaria, e este, descobrimos nas últimas páginas, é um romance de fim feliz. Disse-me o autor e outro amigo que Almeida Maia tentou por todos os lados entrar em contacto com ele, que hoje deve ter 75 anos, e pensa-se que vive algures na zona de Fall River. Almeida Maia acrescentou que ele não quer falar com ninguém sobre a sua imensa aventura em anos já muito idos. O resto, creio, deve ficar para a leitura e interpretação de cada um. É claro que todos os nomes aqui são fictícios, por isso não os mencionei todos neste texto. Sobre a linguagem deste inusitado romance só tenho a dizer que é de um brilhantismo que atravessa toda a narrativa, caracterizada pela sua clareza e contenção verbal, é um romance de frases lapidares raiando a tragédia não só de um jovem de coragem quase sem par entre nós, recria enfaticamente a condição existencialista do desespero e da escuridão que dia-a-dia caía sobre a maioria dos açorianos aquela época. Não diz nada sobre a vida de Mané que finalmente e legitimamente chega anos mais tarde ao que o narrador chama várias vezes a Terra Prometida, sendo o próprio autor também tocado por familiares que emigraram para aquele país. Por outras palavras, a América, apesar destes últimos anos, repito, continua no nosso coração, o símbolo e a realidade da nossa salvação em tempos ainda muito próximos.

“Deu o primeiro passo – diz o narrador quando Mané consegue concretizar a sua vontade inabalável anos depois, e agora entra legitimamente noutro avião, sentado e engravatado – na escada, e sentiu o destino a corresponder-lhe, o coração a abastecer-lhe os músculos com raiva boa, os pés a desejarem dançar, a boca a sorrir em espasmos. Desceu, degrau a degrau: aquele chão sobrenatural a aproximar-se, degrau a degrau, a Terra Prometida ali mesmo, degrau a degrau, a vontade de a beijar a tomar conta de si… até que pisou a pista. Mané tinha firmado os pés no solo sagrado. Tinha chegado à América”.

Como muitos leitores de Almeida Maia já sabem, e talvez muito melhor do que eu, o autor tem uma sólida formação universitária, especialmente como psicólogo organizacional, e via-o quase todos os dias na nossa faculdade da Universidade dos Açores. Nunca se coloca em bicos de pé, mas merece desde algum tempo toda a nossa atenção como leitores, vai ficar como um notável escritor português a partir dos Açores. Na contracapa deste IlhaAmérica o crítico-mor do JL lisboeta diz que “Maia ampliou o género policial no romance açoriano”. Só que é, no mesmo espaço, Santos Narciso que coloca as coisas no seu verdadeiro lugar. “Relativamente – escreve Santos Narciso – a Almeida Maia, ele tem a capacidade de, no urdir do enredo, associar um saudável regionalismo a um assumido universalismo, fugindo de lugares comuns, sem nunca abandonar a matriz insular que enforma a sua escrita”. Cito aqui colegas meus que crescentemente têm valorizado a nossa literatura. Cada grande livro tem de estar aberto a variadas interpretações, e quanto mais activa for a nossa crítica ficaremos a saber que os escritores açorianos não ficam a dever nada a ninguém. Crítica literária, como um dia citei Harold Bloom, o autor de livros como O Cânone Ocidental, é também “memória”. Memória de um lugar e tempo da condição humana em toda a parte. Almeida Maia já tem uma considerável obra em vários géneros, tendo continuamente recebido os mais variados prémios literários. Destaco neste momento dois desses livros também contundentes: Capítulo 41: A Redescoberta da Atlântida e A Viagem de Juno, que já fazem justamente parte do Plano Regional da Leitura. Pedro Almeida Maia já passou, com IlhaAmérica, de uma promessa a um autor consolidado. Não queria estar no seu lugar. A sua responsabilidade literária está agora mais pesada, os seus leitores à espera de outros livros, como este, marcantes no seu percurso literário. Pela minha parte, vou ler ou reler parte da sua obra anterior. Está ele agora ao lado dos nossos melhores escritores, e nunca só dos Açores. O seu engrandecimento deveria ser também o de nós todos.

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Almeida Maia, IlhaAmérica, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 23 de Outubrode 2020.

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