Da riqueza e da miséria existencial no nosso tempo

Margarida Rosa anda pela casa na desenvoltura de uma ave de grande porte, das que podem voar milhares de quilómetros que sabem sempre como voltar.

Rodrigo Guedes de Carvalho, Margarida Espantada

Vamberto Freitas

Margarida Espantada, o mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, é brutal tanto no sentido como agarra o leitor e como desenvolve uma história sobre a família do patriarca Carlos Duval, sócio rico de uma grande empresa nunca nomeada e residente com a mulher e seus quatro filhos em Colares, algures nos arredores de Sintra. Esta é uma estória em que o dinheiro não evita dentro daquela casa-mansão violência doméstica do marido com a mulher, Maria do Carmo, alcoólica inveterada e fumadora imparável. Mesmo assim aceita a sua sorte durante uma vida inteira, tendo o seu fim trágico de que falarei mais adiante. Os quatro filhos são todos diferentes uns dos outros como os dedos de uma mão. Nenhum segue as passadas dos pais, com a excepção de António Carlos, o mais velho entre os outros, que cedo se torna um encenador de renome em Lisboa, e exerce sobre as suas amantes e atrizes a mesma violência física e psicológica que nos leva a crer que é o resultado de uma vivência anterior em que tudo isso era a norma da sua infância e adolescência. A outra, ou talvez a principal protagonista, chama-se precisamente Margarida Rosa, e é ela que também nos vai guiando pelas palavras de um narrador omnisciente, cujos pormenores de cada personagem e incidentes nas suas escolhas de vida leva-nos ao interior não só do seu presente como aos antecedentes singulares de cada um. Os outros dois são de nome Manuel Afonso, quase escondido entre tudo e todos, e Joana Ofélia, a mais nova, que no início acha o seu próprio nome muito estranho, mas nós não, pois é um velho nome da nossa civilização, como está associado a uma mulher que foi uma espécie de namorada do nosso mais conhecido poeta do século passado, Fernando Pessoa. Sem surpresa, é ela que está no lado oposto a Carlos como de Margarida e das suas condições existenciais: torna-se uma académica dedicada ao estudo e raramente se metendo no que vai à sua volta dentro e fora de casa. Eventualmente, todos encontram um caminho cheio de curvas, e a tragédia é-nos prevista desde a primeira à última página, à morte de quase todos eles em circunstâncias sempre misteriosas, inclusive a dos pais. No entanto, este é um romance de “amor” desejado, e cujas vidas raramente são encontradas pelas personagens, tal como é o longo casamento e convivência dos pais. O dinheiro e a casa-grande de pouco valem aqui, só se torna motivo de mais mortes e mistérios que desvendamos nas últimas páginas, mas só até certo ponto. Tudo nos parece uma sociedade corrupta de alto a baixo, toda a narrativa parece ou é uma desconstrução da nossa mítica nacional e da condição humana em toda a parte. Temos assistido, em paralelo e na realidade, a tudo isto entre os mais bem-postos e supostamente bem pensantes e inteligentes da nossa sociedade.

Não se trata de uma ficção estritamente mimética, mas sim de um grande acto de reinvenção em que, como já disse vezes sem fim, tem a literatura como sendo indissociável da sociedade, uma qualquer geografia física e humana tornando-se inevitavelmente, desde que o romance foi inventado pelos antigos, um retrato-outro da condição humana, neste caso numa actualidade que todos conhecemos. A linguagem do autor é sempre marcada pela seu vigor, e apesar da extensão em número de páginas, trata-se de uma linguagem contida, sugestiva, sem respostas mas a cada passo nos interpela à reflexão e às mais variadas conclusões de cada um que as lê. Num comentário do próprio do autor relembra-se que a dureza aparente de uma narrativa não exclui, uma vez mais, o amor – e eu diria a compaixão – ante a existência ficcional dos seres reinventados. Devemos sempre resistir a uma leitura autobiográfica, que o pode ser ou não. Creio que neste romance isso está fora de causa. Só que cada autor carrega dentro de si gente e situações entre outros que lhe poderão não ser alheias. Mesmo assim, qualquer artista é capaz de imaginar e desenvolver o que pessoalmente lhe é desconhecido, ou então resultado da generalidade de vidas, dos mais ricos aos mais pobres que podem viver ao nosso lado e que pretendemos desconhecer numa atitude de indiferença ou um sentimento de que nos são alheios. O próprio autor está totalmente consciente do que acabo de dizer, e tem a audácia de o escrever na contracapa de Margarida Espantada. “Gosto da ficcão que é número arriscado de circo, com fogo e espadas, que nos faz chegar muito perto da queimadura que não vamos realmente sentir. Mas reconhecemos”.

Vamos acompanhando estas vidas mais ou menos desestruturadas, quase sempre evidenciando esses problemas mentais de que nos fala o próprio autor. Quando suspeitamos que será a personagem Carlos que detonará o desfecho infeliz da família por uma combinação de genialidade teatral (encena quase só os clássicos gregos e as suas tragédias), será Margarida Rosa que no fim nos “espanta” após a morte dos pais num voo saído de Moçambique, onde o patriarca tinha lutado na guerra colonial, e esse avião é deliberadamente atirado ao chão na máxima velocidade pelo piloto que se queria suicidar, fazendo lembrar (eis a memória da realidade) um co-piloto alemão que fez exactamente a mesma coisa há alguns anos na Europa, também num acto louco de suicídio. No caso de Margarida Espantada, é o co-piloto que vai à casa de banho e o comandante tranca a porta para levar a cabo o desastre. O narrador passa a conjecturar o que se havia passado, se a presença de um grande empresário português a bordo com a sua esposa, se se teria tratado de uma qualquer conspiração envolvendo os sócios para ficarem com a parte do malogrado homem de Colares. Esta é o que se chama uma viragem (radical) na narrativa. É o que já quase todos conhecemos nas nossas vidas: as partilhas entre os filhos. Margarida Rosa decide voltar às origens e morar na casa com o assentimento dos irmãos. Tal como em todo o romance, coisas estranhas e absolutamente inesperadas começam a acontecer: a morte ou desaparecimento misterioso de alguns seus irmãos, quer em frente à própria casa quer numa praia, como no caso do Carlos que sai destas páginas nesse momento, sem que o narrador perceba o que se terá passado, deixando ao leitor num fim indeterminável. É o lado escuro que se interliga entre o que temos por realidade e ficção, na qual só o leitor poderá imaginar ou opinar sobre qualquer incidente. Como um dia escreveu Ezra Pound, a grande literatura traz-nos sempre “notícias frescas”, talvez melhor do que os jornais e toda imprensa junta. Para além dos “factos” da vida diariamente relatados, só a arte é capaz de entrar na alma de seres fictícios, de introduzir todas as ambiguidade do coração humano que, como disse de igual modo William Faulkner, está sempre “em conflito consigo próprio”, a verdadeira essência da arte literária no seu melhor. Se disse que este era um romance “brutal” em todos os sentidos, é porque um pouco de nós todos está representado por qualquer uma das suas personagens, sempre a captar momentos estáticos em fotografias do presente, assim como as outras do passado guardadas na casa rica de Colares, e escondidas a sete chaves da restante família pelo pai na sua sala-escritório. Suspeita-se que é Margarida Rosa que quer ficar com toda a herança. O “amor” aqui fica sempre disfarçado entre pais e filhos, entre filhos e as mulheres e homens que vão para a cama com cada um dos irmãos.

“Margarida – diz-nos o narrador já fim no romance, quando o irmão desaparece sem sabermos o que lhe aconteceu – jurou em pequena que nada nesta vida lhe causaria dano. Portanto, se não surgir nenhuma alma reconhecível, qualquer corpo falante ou só aparecido num fugaz clarão, então que seja um silêncio bruto… Ocorre-lhe que não previu tudo, que não basta pensar que as coisas vão de de uma maneira e tudo se cumpre. Não antecipou que podemos sofrer bastante no processo de terminar com o sofrimento… Que venha a pedra sobre o assunto. O fim da dor.”

Toda a bibliografia de Rodrigo Guedes de Carvalho vem na capa. Relembro apenas que desde que começou a escrever ficção de fôlego em Daqui a Nada, de 1992, tem recebido os mais variados prémios nacionais e internacionais pela sua já substancial obra, assim como foi premiado em França pelo seu jornalismo televisivo. Ernest Hemingway disse um dia que o melhor treino para um escritor seria mesmo o jornalismo, em que ele próprio trabalhou algum tempo, pois a clareza e brevidade da palavra é o que faz sair vivamente uma ideia ou uma notícia. Não deveria era durar muito tempo, pois eventualmente estragaria a escrita de grande fôlego. Estou convencido que isso nunca aconteceu com Rodrigo Guedes de Carvalho. Pelo contrário. Faz da sua prosa como que um quadro de felicidades e infelicidades muito claras, levando cada leitor ao fundo da alma humana. Da sua considerável obra já li Casa Quieta (que me doeu a valer pelas circunstâncias da minha pessoal naquela altura e anos depois da sua publicação), O Pianista de Hotel (é uma personagem sem nome que é mencionado novamente aqui, assim como outras), e Jogos de Raiva. Impõe-se-me agora ir ao resto.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, Margarida Espantada, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 30 de Outubro de 2020.

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