Quando a História se Torna Ficção e a Ficção História

E agora parecia que Pitigliano se ia aprontando aos poucos para qualquer coisa espantosa. Sei que ninguém deu por isso, nem mesmo eu era capaz de dizer o que seria, mas bastava ver as ruas para perceber os sinais.

João Pinto Coelho, Um Tempo A Fingir

Vamberto Freitas

Um Tempo A Fingir, o mais recente dos romances de João Pinto Coelho, faz parte de uma trilogia ficcional pouco ou nada comum em Portugal, por várias razões. Começou com os primeiros dois romances, que roçam a genialidade literária: Perguntem A Sarah Gross (2015) e Os Loucos Da Rua Mazur (2017), este recebeu o Prémio anual da Leya num júri sob a presidência de Manuel Alegre. Não deixem que o título da obra presente os levem a conclusões fora do contexto. O autor, cuja biografia principal deixo aqui de fora para não me roubar espaço limitado na página de um jornal, mas tenho de referir inevitavelmente um facto essencial, que vou buscar à própria capa dos seus livros. Entre 2009-2011 pertenceu ao Conselho da Europa que investigou em pormenor, juntamente com outros, o Holocausto, tendo proferido várias conferências sobre a maior tragédia do século passado. Sim, todos os seus livros abordam esses tempos e acontecimentos. Se os primeiros dois volumes se situam na Polónia, o primeiro em Auschwitz, o segundo foca o mesmo país, só que agora a perseguição e assassínio dos judeus por católicos polacos simpatizantes ou ao serviço dos nazis alemães. Um Tempo A Fingir muda toda a sua trama para a Itália sob o comando de Benito Mussolini, e o modo como a forma eventualmente tratados os mesmos os judeus: prisão e pela morte sob ordens primárias de Hitler. Mussolini chegou a ser preso, mas a Resistência não pôde evitar que comandos às ordens de Berlim o libertassem e ele regressasse aos seus crimes políticos e cívicos. Este novo romance de João Pinto Coelho traz-nos outras “verdades” e “humanidade”. Cria personagens na sua vida quotidiana e familiar, um romance de amores imaginados e dias que nos parecem normais, mas o leitor sabe que o não são, o medo uma constante, e sobre tudo amores imaginários pela protagonista de nome Annina. Não vou aqui levantar o teor principal do romance, tal as suas surpresas de frase a frase e de página a página, tal a grandeza das suas linguagens, que estão entre a pura poesia e a prosa mais dura. Não conheço outro escritor português que tenha escrito tão brilhantemente sobre temas que nos dizem respeito só quase indirectamente no período em questão, a audácia de tratar de uma história europeia mais ou menos ao longe, e de modo tão corajoso como com tanta criatividade e verdade histórica. As personagens são muitas, mas parecem ou são saídas só da imaginação da sua figura principal, de nome Annina. Vai tudo desde os 1934, com uma passagem por 1952, em que ficamos sem saber se ainda continuam quase todos vivos e de memória clara sobre as tremendas circunstâncias que viveram ou sofreram. É um romance de vozes diferentes, falam no presente do seu tempo tal como memorizam outros passos da sua vida que haviam deixado escritos. O amor é aqui algo de muito especial. Annina vive conflictos sexuais entre ela e uma outra personagem imaginária, com que sonha ter relações sexuais às escondidas. Só que cabe ao leitor seguir o que é ficção no seu estado mais puro, e o que na realidade foi a história de um país latino apanhado entre a bandidagem política que ia dado cabo de todo um continente.

Há uma viragem na narrativa que diz respeito aos três romances de João Pinto Coelho. Da Polónia para a Itália, pensem os que quiserem pensar, quanto à História (assim com letra maiúscula) e à ficção que lhe correspondem nesse momento de desgraça e crueldade. Acontece aqui uma mudança quase radical: o assassínio generalizado e sem tréguas da Alemanha sob o comando de um louco sanguíneo e a tradição humanística de um país do sul europeu, mesmo que eu saiba, como toda a gente, da violência de Espanha na Guerra Civil e na crueldade da nossa própria colonização de vários povos pertencentes a outros continentes. A “verdade” desta ficção de João Pinto Coelho não deixa alguns desses factos pelo caminho. Mesmo que Mussolini tenha acabado pendurado publicamente de cabeça para baixo numa praça pública, o livro aqui em questão nunca o menciona, está patente aqui outro tipo de crueldade, mas também de uma humanidade que faz as personagens sentarem-se constantemente a lamber gelados e em conversas pessoais que nada têm a ver com o inferno mais a norte ou parcialmente a sul. Um Tempo A Fingir nunca foge à sua temática principal: o amor real ou fingido, desejos, como diria o outro, “demasiado humanos”, ao dia-a-dia da luta pela sobrevivênciamútua de cada um em trabalhos mal pagos e de vária natureza. A certa altura, já em 1952, Ulisse, o irmão de Annina, visita as memórias que ela também ia escrevendo sobre si e outros, e conta-nos um passado já quase esquecido por todos. Não há ódio constante neste romance, antes a existência ora brutal, ora amena, do trabalho diário de cada um, ou então das loucuras de gente nova, que reconhecemos como naturais até nos nossos dias. Um Tempo A Fingir, como diria certo autor ou autores norte-americanos, é mais uma “afirmação da vida” do que a morte ou o sofrimento do coração de cada um. Não, não levanto aqui o véu total do romance, nem mesmo um sumário do seu conteúdo, que seria também uma espécie de crítica ou outro posicionamento meu perante Um Tempo A Fingir. Cada um dos passos, em parágrafos narrativos ou em diálogo faz-nos querer virar as páginas em busca do que acontecerá a seguir. Muitos outros escritores raramente o conseguem. Este, como as outras narrativas deste escritor, nunca nos leva para o tédio, muito menos para querer deixar o livro a meio. Chegamos às últimas palavras com vontade de mais. A própria capa mostra-nos uma estilização de um bela mulher com um comprido vestido vermelho. Ela, a protagonista, veste-o, assim como uma outra, quase o tornando uma outra “personagem”. Palavras e arte juntam-se num conjunto de mistérios e obsessões – sensuais, desejosas, cada leitor as querer ser reais e vir ter connosco. A mestria da grande prosa, repito. O resto fica com cada leitor.

“Para melhor a idealizar – diz-nos Annina sobre a sua grande amiga, que fazia duvidar da sua sexualidade, e mais – é ir excluindo uma a uma todas as características que me davam o encanto: se eu tinha a altura certa e formas incendiárias, Alessia era alta demais e estreitinha por igual; se eu tinha o meu cabelo preto acabava a meio das costas, o dela, tão mal cortado, lembrava repas de palha que nem chegavam aos ombros. Ainda assim, era bonita; estranha, mas fascinante, muito por culpa do rosto grosseiramente entalhado nalguma madeira exótica, ou daqueles olhos rasgados sempre um pouco contraídos, como quem olha para o mundo com suspeição”.

Quase todos – não todos, entenda-se, especialmente em Portugal, e sem dúvida noutros países e línguas – são humildes e tantas vezes inseguros, é o que me tem parecido ao longo dos anos na América e aqui no nosso país, perante a sua própria grandeza. Foi isso, a humildade que encontrei em João Pinto Coelho, e não preciso dizer em que circunstâncias ou lugar. A verdade é que espero sempre um novo livro dele. Leva-me a mundos que desconheço quase por completo. É na ficção que vem toda a verdade de um povo, acontecimentos históricos, os seus demónios, raivas e ódios, e, sim, amor e desamor. A sua obra contém tudo isso, o quotidiano dos que sofrem e dos que mandam. O castigo de uns e outros é sempre implacável. Toda a grande literatura é um testemunho dos nossos destinos, de boa ou má sorte. Quando a literatura atinge o seu melhor, é nós que somos os seus protagonistas. Não se pode pedir mais dos artistas das palavras ou das outras grandes artes em qualquer género ou forma.

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João Pinto Coelho, Um Tempo A Fingir, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Novembro, 2020

Contra a nossa tristeza e ansiedade

Porém, as palavras são o que temos/e só com elas ao nosso dispor/iremos fazer o que podemos:/dar ao nosso mundo alguma cor.

Eugénio Lisboa, poemas em tempo de peste

Vamberto Freitas

Muito tenho escrito sobre a obra prolífica e de grande alcance, quer no ensaísmo, volumes de diários, memórias e poesia. Para mim, tornou-se um mentor, tal como Edmundo Wilson na América, com a sua eloquente prosa, e, sim, o humor que também o mais famoso e respeitado crítico americano dirigia a si próprio e a outros, especialmente nalguma da sua poesia. Há aqui uma diferença grande: enquanto Wilson nunca foi levado a sério neste género de escrita, Eugénio Lisboa já recebeu grande reconhecimento da sua poesia com o livro de há alguns anos A Matéria Intensa. Reconhecido internacionalmente, foi-lhe conferido um doutoramento honoris causa pela Universidade de Aveiro, onde leccionou como Professor Catedrático Convidado durante alguns anos, assim como pela Universidade de Nottingham, da Grã-Bretanha, onde viveu 17 anos como conselheiro cultural na nossa Embaixada em Londres. Não me vou alongar mais com a sua numerosa bibliografia, só dizer que o especialista sobre a obra de escritores como José Régio e Jorge de Sena já tem a apreciação superior da comunidade intelectual de língua portuguesa e estrangeira, e poucos entre nós conhecerão as mais variadas literaturas do mundo, entre as quais a francesa e anglófona predominam e são constantemente citadas nos seus escritos em quase todos os géneros. Em pessoa, muito falei e aprendi com ele em esporádicas conversas na Costa da Caparica, quando ele visitava a sua amiga Teresa Martins Marques, e depois num ou dois almoços na sua casa de São Pedro do Estoril. Falamos à distância sobre um pouco de tudo com alguma frequência. Escreve agora estes poemas satíricos, cómicos, destemidos, com a sua ferve de sempre, que nunca poupa situações caricatas, e mesmo determinadas figuras na literatura e em outros sectores públicos da nossa sorte em todos os tempos, agora coléricos e de “peste” que nos ameaça a todos com doença e morte. Já passou os seus grandes desgostos e dores pessoais, mas nada disso o verga ao que temos por “destino”. Poemas em tempos de peste não é só helariante, é uma gargalhada para se opor à tristeza e ansiedade que todos sentimos no confinamento forçado e sem quase a convivência de amigos e conhecidos.

Nunca se ri dos que já sofrem na pele o maldito vírus: ri-se da pretensiosidade inconsciente de outros, de Christine Lagarde (A Senhora Christine Lagarde/acha que os velhos vivem de mais;/ pra que a economia se resguarde/há que apressar os ritos finais); Gonçalo M. Tavares (o que diz não faz sentido/e põe-me os olhos em bico) por com 50 anos de idade já ter alguns 60 livros que, goza Eugénio, nada dizem, e ainda de Pinto da Costa (mas a pandemia estraga o engenho/e faz-nos uma data de negaças/que fornicam o mais completo empenho), porque o futebol de ontem já não é possível hoje. O resto são as suas boas memórias em África, fazendo chamamentos a antigos amigos na sua Lourenço Marques do passado, alguns dos quais já não estão entre nós, como, por exemplo os inesquecíveis Reinaldo Ferreira e Rui Knofli. De resto, vai ainda à cabeça de Nuno Melo, que Eugénio diz ser do Cê Dê Esse. Por outro lado, dá pancada noutros pequenos partidos, como o Chega, e a jovens conservadores (Não há coisa mais ridícula/que ser jovem de direita/a esse nem a clavícula/sequer se lhe aproveita!). Um escritor da velha guarda não desarma nunca nestes poemas. Ficam-lhe, em termos positivos ou de elogio, Camões, a língua portuguesa e um lamento sobre a sorte e a solidão de Fernando Pessoa em vida e na morte em Lisboa (plantado em pedra aqui no Chiado./Palhaço de turistas me fizeram,/ só, entre papalvos, alarpardado!…). Eugénio Lisboa tem, uma vez mais, uma escrita totalmente única entre nós: ninguém teme na literatura nacional ou de além fronteiras. Num dos seus ensaios, publicado mais tarde noutro volume, confessa: relembra, só como exemplo, que Jorge Amado tinha sido uma das suas referência maiores em jovem, mas anos depois corrigiu essa atitude para nos dizer do seu quase afastamento da obra do autor brasileiro. Em Portugal, nos últimos anos tem levado à parede nomes de grande “prestígio” entre nós, como António Lobo Antunes, e, com mais azedume subtil, como noutro texto que não este, a Eduardo Prado do Coelho, ainda em vida e até mesmo quando este já se encontrava sepultado há um bom tempo. No entanto, nunca poupa elogios ou meiguice ao seu passado e às pessoas da sua vida, com grande destaque saudoso da sua mulher Maria Antonieta, aos seus autores eleitos, e à sua única companheira de agora, a gata Ísis e as suas traquinices nesta mesma poesia carregada de sátira ardente e humor generalizado, em versos fulminantes e sempre numa linguagem livre do habitual jargão ou teorias da literatura em moda. É, uma vez mais, mestre na citação de inúmeros escritores quando quer reforçar um ponto de vista sobre determinados textos críticos os ensaístas. Os leitores, mesmo os que só se ficam pela sua coluna no JL lisboeta, sabem muito bem disto. As crónicas e ensaios de outro livro publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em 1996, para além de tudo mais que menciono aqui, Eugénio Lisboa reforçou indelevelmente a sua credibilidade e capacidade literária. Poemas dos anos da peste indica que andamos todos rodeados dela, mesmo que de outra natureza, desde a sua juventude em Lourenço Marques (nunca o vi escrever “Maputo” nos anos seguintes), já em Portugal. Neste poemas em tempo de peste escreve em formas várias, decassílábicos (mais ou menos, como ele próprio afirma), em redondilhas maiores, heptassílabos, sonetos, e ainda no que ele chama pentassílabos. Vai desde as antigas figuras, como referi, a outros dos nossos dias em acções variadas na nossa sociedade.

Quando o seu grande amigo Rui Knopli, repito aqui, faleceu, Eugénio Lisboa lutou convictamente para que o seu espólio fosse poupado e devidamente arquivado. Eis aqui o seu outro lado de generosidade e respeito absoluto pelos que o mereciam em quaisquer circunstâncias.

“Em tempos de peste e de confinamento – escreve o autor na introdução ‘Poemas para baratinar a peste’ – mais ou menos rigoroso, tendemos todos à melancolia, quando não ao desespero. É nestas alturas que se recorre e deve recorrer ao humor e à faceirice, para desanuviar o ambiente. [Recorda o célebre Decamoron de Giovanni Boccassio, 1313-1375], segundo o qual aqueles protagonistas, para fugirem aos horrores e ao perigo da peste negra, se isolaram num cerco isolado a contarem-se histórias ladinas, picarescas, apimentadas, licenciosas, para afastarem do espírito a mortandade que, lá fora, assolava as populações”.

Eugénio Lisboa não é só um dos nossos grandes críticos e ensaístas literários, como de tudo o resto que lhe causa asco e desgosto. Como já ficou vincado aqui, vai além da literatura, desde políticos aos mais corruptos em altas posições, especialmente em bancos e outros sectores. O ter vontade de rir e da sátira não é novo, especialmente a partir de Eça de Queirós e outros da mesma geração. Eugénio Lisboa enxerga toda a nossa e outras sociedades que conhece de perto ou intimamente. Por entre as suas muitas palavras de acidez, vai sempre ao ponto com o resto. A sua disponibilidade generosa são firmes em defender os mais pobres e indefesos, os mais velhos ou os que caíram na rua sem rede. Rebelde e humanista durante uma longa vida, que felizmente continua a passear-se vivamente ali nos arredores mais apetecíveis de Lisboa, não desarma nunca perante a escuridão que tem sido parte das nossas vidas, e agora ameaça-nos com uma cama no hospital e, nalguns casos, a morte. Nunca se rende a nada e ninguém. Do poema “Versinhos De Um Poeta Com Algumas Dificuldades de Conjugação”, e em que ele brinca com e louva a própria língua portuguesa, com uma das suas muitas notas de rodapé para divertir os seus leitores, pede como que uma desculpa a quem ler este seu livro: “com um muito humilde pedido de desculpas por isto não ser tão bom como, digamos, Os Lusíadas”:

O Trump, fodido, irá-se

embora se a peste vá-se.

Que chatice se ele ficasse

no governo e nos lixasse!

Que bom se ele se fixasse

na sua Torre e se calasse!

Se o Almada ainda falasse,

diria que o Trump, sem classe,

cheira mal da boca – Hélas!

O semanário Expresso resolveu há umas semanas publicar alguns outros destes poemas. Fizeram bem. Imagino que alguns dos seus leitores muito se riram, e por uns momentos esqueceram a nossa presente situação e tragédia. Rir de nós próprios é outro sinal de saúde e alguma esperança que nem tudo vai correr mal.

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Eugénio Lisboa, poemas em tempo de peste, Lisboa, Guerra & Paz, 2020.

Um romance açoriano que está dentro e fora da nossa literatura

Um coro de risos e de aplausos irrompe espontâneo. Estão felizes até mais ver, as filmagens acabaram. Antecipam os festejos. Abraçam-se. Levam a comoção até às lágrimas.

Artur Veríssimo, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas.

Vamberto Freitas

Artur Veríssimo, terceirense que já reside há muitos anos em Sâo Miguel e sempre se dedicou a questões do ensino público, com publicações na sua especialidade, é um dos nossos grandes romancistas. Como me disse há dias um conterrâneo da minha ilha natal, nunca deu ou nunca quis dar nas vistas. Só que isso se torna impossível a dada altura na sua carreira também de escritor. Premiado por alguns dos seus trabalhos, a sua atitude distante ou aversa a questões da publicidade das obras de literatura, por assim dizer, quer ele queira ou não, não vai durar muito mais tempo daqui em diante. Aliás, vem na sequência de outro grande romance seu, Uma rapariga celta sentada num javali, e que na altura também sobre ele escrevi. Calado, discreto, sem qualquer ambição de fama ou outros reconhecimentos, este seu recente romance, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas, vai inevitavelmente dar nas vistas e encontrar alguns leitores que estão habituados a outro tipo de ficção entre nós. Hesito em mencionar “literatura açoriana”, e prefiro aqui literatura saída dos Açores, mesmo que se enquadre inevitavelmente no corpo literário referente às nossas ilhas, a prosa inquestionavelmente parte da “vida em ilha”, parte das nossas andanças por toda a parte mas sempre com o regresso previsto. Há uma originalidade neste corajoso livro de Artur Veríssimo. A maior parte da nossa paisagem física fíca de fora, e reside quase exclusivamente na alma de cada personagem, parte delas em movimento constante entre Lisboa, Terceira, São Miguel, Tailândia e América. É no interiorismo da cada personagem que residem os seus mundos, os mundos que determinam o seu destino, a alegria e a tristeza da sua existência. A forma do romance foge também do mesmo modo da escrita a que estamos habituados. Um jornalista-escritor aqui de de nome Gabriel Rocha, que é uma personagem meio calma e melancólica, vai escrevendo o seu romance duplamente, pois o romance vai dar lugar a um filme já em produção. Está desde sempre apaixonado por Clara, que acaba por partir para a Bélgica e outros países durante dez anos, deixando o narrador-autor em angústia constante pelo seu retorno. Enquanto constrói o seu romance vai tirando nesse texto o tal guião, que ora obedece ao romance, ora parte para os desejos do realizador, de nome José Santa-Marta (que desconfio quem é na vida real), que o vai filmando aos poucos, na ilha e noutras partes do mundo aqui mencionadas, em Lisboa e depois com imagens no estrangeiro e nos Açores. Aliás, toda esta narrativa de Artur Veríssimo parece um diálogo vivo com certos escritores açorianos, alguns deles citados em nome com epígrafe em certos capítulos (como João de Melo, Onésimo Teotónio Almeida e José Martins Garcia, por exemplo), assim como outros escritores e poetas nossos que reconhecemos nas alusões mais crípticas do romance, e depois com referências a outros autores estrangeiros, a filmes e peças musicais, tanto populares como eruditas.

A personagem mais curiosa inventada nestas páginas é um luso-tailandês, Anuchyd Pòr, um dos protagonistas principais do romance e do filme em progresso. De resto, temos outros e outras figuras de importância secundária, mas sempre inquietantes. A certa altura o narrador deixa cair na sua prosa, em forma pelo menos dúbia, mas sem deixar de ser uma cortesia, que se vai aludir a duas outras escritoras conhecidas entre nós, e que se referem ao seu helariante penúltimo romance, já aqui mencionado, Uma rapariga celta sentada num javali, desta vez pela sua amada Clara que, diz o narrador, “passou-o a um outro, Gilberto Melrinho, à socapa, a um primo das Fontinhas que, por sua vez, o deixou nas mãos de um tal Freitas, crítico literário, amigo do congressista que, em Angra do Heroísmo, o tresleu, ao jeito de uma cavalgada erótica. Não se pode pode confiar em terceirenses. Querem todos ser capinhas”. Claro que ri à brava como leitor, observador, e interpretador das palavras, quase sempre as dos outros. O humor deste autor é constante, como constante é a delícia de o ler.

A Felicidade Das Coisas Imperfeitas (a história que já vinha nos búzios) é um romance escrito na primeira e segunda pessoas pelo mesmo narrador, narrativa e filme à sua conta. Abre com uma citação de Friedrich Nietzsche, e com um passo do livro de Urbano Bettencourt, Que paisagem apagarás. Este romance de Artur Veríssimo traz-nos algo pouco comum entre nós. Nunca demora na descrição das geografias das ilhas, mas antes concentra-se emcenas e em paisagens que estão na alma de cada personagem, nelas vivem e os obceca a todos os momentos. Vai por certo certo espantar os habituais leitores da nossa literatura com as cenas imparáveis de sexo, ou desejo dele. Trata, sem complexos, durante todo o seu percurso narrativo, uma vez mais, de sexo, bissexualismo e homossexualismo numa desconstrução implacável das sociedades que lhe servem de fundo, de angústias, de prazer e, sim, de felicidade e ansiedade de uma nova geração que se segue à minha. Os seus leitores não podem sofrer dos mais estúpidos preconceitos contra a natureza humana. O mesmo que dizer: o presente romance é um acto de coragem artística, dado ainda, creio eu mas poderei estar errado, à nossa pequenez como à suposta “tradição” de silêncio e faz-de-conta, ainda impressiona sobre vivências diferentes das que nos ensinaram nos anos mais ignorantes de um passado que nunca nos saiu da memória. Artur Veríssimo leva anos a publicar uma nova obra, mas quando se senta a escrever é sem amarras e fica com o mundo a seus pés. Um escritor com medos, não é um escritor, é apenas alguém que quer partilhar palavras e frases inócuas. A arte fica longe de si.

“Tenho muita dificuldade – confessa o narrador a dada altura – em ouvir José Santa-Marta. Penso em Maria Amália, no meu filho, em Clara, em Anuchhyd Pòr e não me fico por aí. Em tudo menos naquilo que o realizador quer. Não me apetece nada discutir com ele a cena de cama em que Gabriel e Désirée vêem, na televisão, O Retrato de Dorian Gray. Acho mesmo que não devia ter proposto. Na verdade, nunca vimos o filme juntos. Nunca vimos sequer um filme na cama… Desejo antes falar da fotografia que ela tem à sua frente. É da atriz que faz de Clara, no filme. O fotógrafo surpreendeu-a, de sorriso largo e confiante, a sair de The Egg. Adivinha-se, por detrás dos óculos escuros da personagem, que a ficção de José de Santa-Marta levou à América, um piscar de olhos à realidade. É Clara que regressa, pelo menos no filme”.

Como já referi, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas é um outro tipo de diálogo com variados escritores açorianos e estrangeiros, entre outros artistas estrangeiros da pintura e da música, nem sequer esquecendo o folclore das nossas ilhas. Nesse sentido, é um romance profundamente açoriano, mas igualmente algo muito mais. Não posso nem quero passar isto no nada: por duas vezes neste longo romance o narrador menciona, em itálico, Sorrido Por Dentro Da Noite, o título do romance da Adelaide Freitas. Fiquei perplexo nessas páginas – até chegar ao fim da obra. Na crítica de língua inglesa chama-se foreshadowing, ou uma insinuação do que está para vir no resto do romance. Clara, o amor de Gabriel, regressa finalmente à ilha. Todos os amigos que se sentam com ela em conversas de ocasião e sobre a sua ausência estranham algo que bem conheço fora da ficção: os seus olhos distantes, o seu silêncio ou palavras desconexas, e de seguida a retomada da sua atenção sem desvios. Tinha uma doença degenerativa, mas não a da falecida autora de Sorriso Por Dentro Da Noite. Não quero mencionar o que me pareceu. Afinal, trata-se de ficção rente às piores realidades. Os búzios atiram-se às mesas, e nem sempre mentem. Como as nossas vidas: um mistério de sorte, dor ou morte. Uma das

suas referências vem logo numa segunda epígrafe na abertura do romance, como já referi, e é da autoria de Urbano Bettencourt, tirada do seu livro Que paisagem apagarás – “O narrador observou demoradamente as personagens. E foi peremptório: Recuso-me a andar com gente destas”. Ironia, pois, sobre ironia, humor sobre humor.

A um tempo um romance sobre a tragédia de um amor perdido e da morte anunciada, e comédia pura nalgumas páginas, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas é sem qualquer dúvida uma das mais distintas narrativas dos nossos dias. Vai muito além das suas próprias geografias para se tornar ainda um dos principais romances de língua portuguesa publicados nos tempos mais recentes.

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Artur Veríssimo, A Felicidade Das Coisas Imperfeitas, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2020. Publicado no Açoriano Oriental a 13 de Novembro, 2020.