A poesia da proximidade e da intimidade

Sou ilha de lava/Nascida do fogo/E do caos telúrico/Que o tempo serenou/A desordem deu lugar à quietude/A escuridão à luz/E despontei verde/ Enlaçada de azuis.

Aníbal C. Pires, Esperança VelhaEOutros Poemas

Vamberto Fretias

Já apresentei e escrevi sobre dois livros de Aníbal C. Pires: a poesia intitulada O Outro Lado, (2014) e a prosa ensaística de Toada do Mar e da Terra: Volume I (2017). Fiz sempre questão de não falar da sua intervenção política e partidária, ou da sua importante actividade cívica na nossa região, onde vive há muitos anos e para sempre estará ligado. Nunca escrevi sobre esta a minha atitude por uma ou duas razões. Muitos dos escritores do mundo escrevem a partir não das suas opções políticas, mas sim de como as palavras se aplicam a todos, ou pelo menos aos seus eventuais leitores, e não o seu lugar no partidarismo que actualmente corrói boa parte das nossas sociedades. O autor aqui em questão nunca utilizou a sua obra para advogar ou convencer seja quem for para tomar qualquer atitude ideológica. Para ele, a literatura nunca deixou de estar ligada em geral à sociedade onde vive e actua, como cidadão consciente da nossa condição, da nossa satisfação ou desgosto, mas nunca manifestou qualquer interesse em mudar as nossas posições ideológicas. Só lhe tem ficado bem, e o tem marcado como um escritor autêntico que cultiva a arte sem segundas intenções, dirigindo-se constantemente aos mais variados leitores. A literatura poderá ser é um acto de passar mensagens, também é verdade, mas sem nunca agredir os que com ele não concordam com a sua vida de militante deste ou de qualquer outro partido político. A sua obra foi sempre de aproximação ao outro, num gesto democrático, ou, melhor dito, num gesto de representar em cada poema ou prosa a sua uma sociedade pluralista, desde o Continente até às ilhas, desde as nossas comunidades ao resto do mundo. A sua escrita, em qualquer dos seus dois géneros preferidos, foi sempre uma de descoberta e aprendizagem. Oferece-nos a beleza de toda a sua obra, que já é substancial. Isto é uma das marcas de um grande escritor, de um pensador, de quem respeita sobretudo a arte literária como representação de toda uma sociedade. Tanto leio atentamente os seus livros, como falo com ele frequentemente em momentos de trocas de opinião, ou ainda mais de apreciação à obra de outros aqui por perto, como à obra dos que estão mais longe, mas que nos falam directamente da nossa trágica condição humana.

Uma ressalva essencial: esta poesia de Esperança VelhaEOutros Poemas diz-nos tudo sobre o seu autor: as sua opiniões menos positivas nunca deixam de passar a sua alegria de vida, do seu apego aos que ele valoriza (falo de escritores, necessariamente), nunca deixa que ele exprima a sua “esperança” num futuro mais justo e ajustado à vontade de vida da maioria dos que partilham com nós todos uma rua ou o mundo inteiro. Digo tudo isto, mas raramente nos nossos encontros falamos de política: antes de família, amigos e, claro está, dos que preferimos longe de nós. Esta é uma poesia que junta o seu passado além-mar com a sua gente numa ilha açoriana. É uma poesia que celebra os mais próximos e, como já disse, os mais de longe. Quando me fala na sua visita ou visitas à América quase me parece um colega daqueles lados, onde vivi 27 anos e tenho praticamente toda minha família imediata na Califórnia. A sua escrita nunca esquece nada disto. Ter como amigo um escritor deste calibre e um “companheiro de viagem” é como ter o melhor de tudo, como se fosse um irmão a escrever-me cartas quase todos dias ou de quando em quando, e depois dar-lhe um lugar destacado na minha longa estante.

Esperança Velha EOutros Poemas traz ilustrações maravilhosas de Ana Rita Afonso. Não é preciso ser um especialista em artes plásticas para adorar nestas páginas os seus quadros. Também não sei ler música, mas sei do prazer quando ouço a 5ª ou 9º sinfonias de um Beethoven, ou de qualquer outro grande compositor antigo ou moderno, assim como olhar um quadro de Jackson Pollock, à procura de um sentido, mesmo que nunca o encontro, os meus olhos fixos perante a genialidade de uma tela mais do que singular. Ana Rita Afonso inclui neste novo livro de Aníbal C. Pires as mais variadas representações de mulheres açorianas do antigamente até ao abstracto de cores e formas que complementam toda esta poesia, o local conhecido transformando-se por vezes no cosmopolitismo que dependerá da sensibilidade de quem as olhar. Para mim, sublime. Citação do texto “Tocar O Mundo”, inserido numa página brilhante deste livro: “A mostra que assumiu a designação ‘Tocar o Mundo’, apropriando do título do texto que a Renata Correia Botelho escreveu para o efeito, não se limitou apenas à contemplação visual e sensações e interpretações que, só por si, são induzidas no observador mais ou menos atento, mais ou menos conhecedor das artes visuais e plásticas”. A poesia de Aníbla C. Pires, repito, é de total aproximação a todos que fazem parte dos dos seus mundos imediatos, e a todos os outros, por referência directa ou indirecta, que partilham o tudo quanto é existência e rituais dos mais longínquos povos.

Do poema “Caminhantes”:

A cada passo

A cada curva

O viajante

Ganha alento

E caminha

O Andarilho

Traçou destino

Não é romeiro

Nem peregrino

Anda

O caminho

Da beira-mar

O caminho

Da beira terra

Caminha

Nas margens

Da ilha

E do sonho

De outras ilha

Digamos agora que os poetas portugueses dos Açores têm o seu imaginário muito próprio, com as suas imagens, metáforas e linguagens que os distinguem, mas de modo especial, nem superior nem inferior, a quaisquer outros escritores e poetas de língua portuguesa, que tem as suas pátrias em variados continentes e arquipélagos. Não, não vou mencionar um certo rótulo literário que parece assustar muita gente, quando não reacções hostis. Agora vou ser mau, sobre uma ignorância primária e complexada. Já não lhes presto a mínima atenção ou contemplação. As ilhas açorianas sempre deram parte do melhor da literatura lusíada. Não vale a pena falar mais nisso em termos específicos. Aníbal C. Pires ocupa entre nós na literatura um lugar muito especial, pelas suas origens e apego às ilhas, pela sua autenticidade artística, de que falava noutros contextos e língua, o genial ensaísta e romancista assumidamente judeu-americano Lionel Trilling, e que redefiniu a América de todos nós de todos e dos outros que ainda no seu tempo ou não tinham voz própria na literatura, ou então eram quase completamente ignoradas na academia e por muitos leitores. Em Portugal, parece proibido ou de mau gosto dizer coisas semelhantes. Que fiquem bem. Por minha parte tento sair sempre do que estamos habituados, e olhar as letras dos outros com olhos e hermenêutica pessoais. Quando olhamos as mesmas paisagens, gentes e as suas mundividência, vemo-las ou as entendemos de modos diferentes, mas no caso da literatura que as deve transfigurar, é assim que creio acrescentarmos, em cada interpretação, elevamos as palavras ao seu máximo. Cada bom escritor ou poeta, por mais íntimos que sejam as suas narrativas ou versos, acaba por devolver-os um pouco de nós. É isso que faz da boa literatura um acto simultaneamente localizado numa determinada geografia e universal, para além da língua em que está escrita, para além da cultura que a enforma. Aníbal C. Pires está inteiramente dentro ou pertencente a essa categoria dos artistas da palavra.

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Aníbal C. Pires, Esperança Velha E Outros Poemas (capa e ilustrações Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições. 2020. Parte deste texto foi originalmente publicado como de prefácio a este livro. Publicado em versão mais extensa na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 18 de Dezembro, 2020.

Quando se regressa a casa sem nunca a ter deixado

Cinquenta e seis anos desprovido disto, mas agora não consigo desligar-me,/as minhas raízes crescem mais profundamente em cada visita,/a saudade penetra-me o coração.

Scott Edward Anderson, Azorean Suite: Suite Açoriana: Um poema do momento.

Vamberto Freitas

Este é um poema que sai felizmente em de forma livro, com a versão original em Inglês, e a tradução integral feita por José Francisco Costa, imigrado nos EUA, e por Eduardo Bettencourt Pinto, imigrado na Canadá, ambos poetas e prosadores reconhecidos entre nós aqui no arquipélago e em muitas outras partes. Scott Edward Anderson é um dos mais originais escritores por múltiplas razões. Primeiro, a tardia redescoberta da sua ancestralidade, e logo depois a sua irreprimível vontade de escrever sobre o poder que os Açores, nomeadamente São Miguel, de onde partiram para a América os seus bisavós, e ainda o encontro com um bom número os seus familiares presentes na ilha, e que o receberam com o maior carinho. Os seus bisavós emigraram para o Novo Mundo em 1906, mas ele a dada altura recua a outros séculos idos, e desconfia que os primeiros da sua árvore genealógica foram Cristãos-Novos, e pelo menos alguns desses mesmos antepassadas foram julgados e queimados na fogueira do Rossio entre 1559-1576, contando com de alguns 104 micaelenses condenados. Continua noutros poemas com esta história do terror. “Suite” aqui refere-se às peças musicais clássicas, que leva Nuno Júdice a escrever na contracapa que “Ao ler a Suite Açoriana todas as peças se juntam, como num puzzle, e assistimos ao desenvolvimento desse combate pela memória que traz de volta os nomes familiares, os cenários outrora perdidos, as viagens que conduziram ao exílio heróis anónimos a que Scott Edward Anderson restitui os nomes e a aventura interminável de uma emigração cruzada com o exílio”. A descoberta das origens do autor e que inspirou este longo poema (falarei noutra poesia sua mais adiante) aconteceu quando ele foi convidado pela também luso-americana Oona Patrick e Brendan Bowles a participar no evento literário Disquiet, que tem o seu centro anualmente em Lisboa, mas em 2018 começou a concretizar parte das suas sessões também nos Açores.

Azorean Suite: Suite Açoriana, A poem of the moment – Um poema do momento é de uma originalidade que creio sem par entre nós. Recorre às palavras ou versos e prosa de inúmeros escritores açorianos, continentais, e ainda, por exemplo, a outros como Herman Melville e o seu Moby Dick e os seus elogios deste ocasionais deste autor aos baleeiros das ilhas. “Tomei como modelo a Trilogia Seculum de Peter Dale Scott, especialmente Ouvir a Vela: Um Poema sobre Impulso, que, como um crítico descreveu, ut1liza elementos autobiográficos, bem como citações de várias fontes, de forma estender os limites da história pessoal e esticar o percurso emocional do poeta… O poema [de Scott Edward Anderson] tem a forma de uma Suite, que consiste, tipicamente, em quatro movimentos sobre um tema relacionado, mas diferindo de tom e forma”. Emoção, história regional e alguma nacional, é uma autobiografia sem quaisquer disfarces, numa linguagem simultaneamente do nosso quotidiano e erudita, todo ele de uma luminosidade que leva o leitor a nunca o deixar linha a linha, verso a verso, tanto em Inglês como em Português. Traz os muitos nomes dos seus antepassados, assim os que hoje ainda vivem na ilha. Tiram-me muito espaço numa página de jornal para os nomear a todos. O autor faz agora parte de um já considerável número de escritores luso-americanos que consistentemente tem os Açores – e nalguns casos o Continente – como tema principal na sua escrita. Pertencem por inteiro à nova literatura norte-americana, mas fazem inegavelmente, como já referi noutras ocasiões, parte do nosso melhor e moderno espólio literário.

Scott Edward Anderson teve uma longa carreira no seu país em questões ligadas ao meio-ambiente. Essa sua vocação transfere-se agora para estas ilhas, que passam a ser uma pátria sua, principalmente São Miguel por razões óbvias e de que já referi nas minhas palavras. Nada escapa à sua atenção, nem as gentes e os seus ritos, nem naturalmente o mar azul ou de chumbo e os seus efeitos nas restantes paisagens dramáticas desta ilha, nem sequer a literatura açoriana e outras de autores continentais ou mesmo de outros países. Por agora absorve-o o trabalho de traduções para o Inglês de certos escritores nossos, e creio que por estes dias na sua residência em Brooklyn, Nova Iorque, dedica-se a certos livros de Vitorino Nemésio. Quanto à sua obra presente agora publicada entre nós, vai ao ponto de identificar os locais de nascimento ou antiga vivência de alguns dos seus antepassados. Para surpresa minha, alguns com nome de Borges foram daqui do Rosto do Cão em São Roque (São Miguel), a dois passos da condomínio que habito há quase trinta anos, e que ele imagina terem sido pescadores, e um deles, de nome António Borges, médico. Esta é uma poesia de longa memória, minuciosamente investigada por ele. Tive o prazer de o conhecer e de com ele falar demoradamente sobre estas e outras questões, o seu entusiasmo e alegria de por fim se redescobrir um outro foram-me contagiantes. Agora continuamos em contacto virtual praticamente todos os dias. Ainda não li toda a sua obra, mas ser-me-á inevitável, com acrescido interesse, o prazer do texto.. No título dos seus poemas neste livro vem numa sequência quase romanesca, segurando o leitor a cada palavra ou verso.

“Os meus sentidos aumentam, emergem,

quanto mais me ligo a esta ilha

e à minha herança de cá –

Como é que vivi tanto tempo sem esta ligação,

sem as ligações à família e amigos

que já fiz aqui?

Cinquenta e seis anos desprovido disto, mas agora não consigo desligar-me,

As minhas raízes crescem mais profundamente em cada visita,

a saudade penetra-me o coração

cada vez que saio –

as minhas saudades da terra

agarram-se ao meu coração e à minha alma.

Como se o destino, também, me tivesse sequestrado,

e abrisse o meu coração a uma casa

que não sabia possuir – ”

Os espaços aqui tentam aproximar-se da forma com que escreveu os seus poemas, “pode-se nascer numa ilha – escreve Eduardo Bettencourt Pinto na capa deste livro – de duas maneiras. Do corpo de uma mulher ou pelo fulgor da sensibilidade… o premiado poeta Scott Edward Anderson explora a natureza do que é nascer do esplendor da sensibilidade das suas ilhas ancestrais. Usando elementos autobiográficos bem como citações de poetas, cientistas e naturalistas açorianos, Anderson estende os limites da história pessoal e expande a viagem emocional do poeta”.

Para além dos prémios que recebeu por outras obras o ano passado, a Editora Letras Lavadas, que emitiu cinco Certificados de Reconhecimento de livros de vários géneros publicados em 2019 por diferentes editoras, Anderson foi um dos premiados pelo seu livro de prosa FALLING UP: A Memoir of Second Chances, publicado pela Little Bound Books Essay Series,e aclamado por vários escritores dos EUA. Os Açores também estão presentes nesse volume. De resto, publicou ainda Dwelling: an ecopoem, que na última parte inclui alguma prosa sob o sub-título The Questions of “Dwelling” & Heidgger. Nas últimas páginas de Suite Açoriana: Um poema do momento ele inclui a lista bastante inclusive de todos os escritores que ele cita, e grande número de açorianos do passado e do presente, menciono novamente, figuram proeminentemente.

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Scott Edward Anderson, Azorean Suite: Suite Açoriana: A poem of the momento – Um poema do momento. (tradução de Eduardo Bettencourt Pinto, com José Francisco Costa), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado no meu ” BorderCrossings ” do Açoriano Oriental, 11 de Dezembro de 2020.

Da Autonomia e de Outras Questões Açorianas

De que serve aos Açores a competência para planear o seu desenvolvimento e a sua política orçamental se os instrumentos tiverem de ser os nacionais e os estímulos e incentivos forem os mesmos.

Álvaro Dâmaso, Autonomia Política E Razão De Estado

Vamberto Freitas

Antes de mais uma advertência essencial antes de desenvolver este texto. Quando o Dr. Álvaro Dâmaso, numa conversa privada, me apresentou este livro para que fosse eu a fazer uma das suas apresentações, olhei atentamente o seu título, quedei-me calado por um instante, e de seguida disse-lhe que Autonomia Política E Razão De Estado: Quinhentos Anos de Antinomia estava fora da minha praça, e que melhor seria outro que o deveria abordar de modo formal e conhecedor do que pensei logo ser o seu conteúdo especializado. Mesmo assim, abri aleatoriamente algumas páginas e li parágrafos inteiros em voz alta. Silêncio da parte dele. Topei de imediato que era um livro sobre cidadania, e tinha sido escrito tanto para especializados nestas questões, como era dirigido ao cidadão comum. Continuei a ler por uns momentos na presença do autor, e vi que esta era uma prosa cintilante, de uma lógica que suponho ser de advogados, de quem sabe escrever com todo o respeito para com os seus leitores que têm a vontade de aprender ou aprofundar aquilo que pensavam saber do seu lugar e história num território tão disperso e único de ilha para ilha que tiveram as suas origens humanas permanentes a meados do século XV. Pareceu-me, o que eu viria a descobrir quando o li em sequência e rabisquei quase todos os seus parágrafos, assinalando ainda os passos que me iam consciencializando com toda a clareza o que fora e continua a ser o nosso destino como povo, antes nove ilhas que mal se conheciam umas às outras, e depois se tornaram numa Região cuja luta pelos seus direitos e inteira dignidade permanecem vivas, e passo a passo vão conseguindo os seus objectivos que visam a sua inteira liberdade. Outra advertência importante: não se trata de qualquer defesa de separatismo ou independência, mas sim da igualdade política e cívica totais perante a restante Nação de que fazem parte. Acontece algo neste livro que o distingue de tantos outros saídos das universidades, em teses ou outros escritos que são de natureza académica nas suas linguagens e obscurantismo de inúmeros nomes, datas, incidentes e ideias em geral. Álvaro Dâmaso menciona nas suas páginas apenas dois nomes: D. José I e o seu Primeiro-Ministro Marquês de Pombal. Da nossa contemporaneidade, nem um só nome, nem um só partido que tenha actuado antes ou na fundação da nossa democracia a partir de 1976. Trata-se, na minha leitura, tanto de um livro sobre o relacionamento institucional das atribuladas relações entre os Açores e a República, como de uma visão da nossa identidade criada por mais de 500 anos de separação e frequentes desentendimentos sobre a Constituição, e há mais de 40 anos sobre o Estatuto Autonómico que determina a nossa vida pública. Defende ainda e em palavras que não liguei a interpretações equívocas que como deveríamos ter um Presidente dos Açores, contra a denominação que persiste, e constitui, na minha interpretação, num outro rebaixamento e a arrogância da própria República.

Entendo agora as razões do autor em querer a reacção de um cidadão comum, e ligado à vida e história literária das ilhas, e não de um político ou pessoa ligada ao Estado. A confluência é mais do que evidente. Foi precisamente a partir dos anos 70-80 que do nosso lado renascia a questão da literatura portuguesa com origem ou referência declarada sobre o que, simultaneamente, tentava afirmar ao país no seu todo que permite uma sociedade livre. São precisamente as suas diferenças adentro de um Todo inseparável e sobretudo enriquecedor que o autor desejava ouvir. O que Onésimo Teotónio Almeida chamou num dos seus livros A Questão da Literatura Açoriana nada e tudo tem a ver com este Autonomia Política E Razão De Estado. Um pequeno país agora tripartido num continente e dois arquipélagos não pode nem deve defender com coerência a sua presente unicidade política ou cultural. Já que desde há muito nos relacionamos com os EUA e mais recentemente com a União Europeia deveríamos tomar conta da natureza da pluralidade humana nalguns desses ou em quase todos esses países, da pluralidade de interesses, deveres e partilha da sua riqueza ou falta dela. Ser comandados à distância é uma aberração ou imposição que um povo livre nunca deve aceitar. Viver na desconfiança é um sinal de menoridade estatal, especialmente, no caso açoriano, em que mais nada temos feito do que amparar e defender a Mãe-Pátria. Basta lembrar as lutas liberais e os bravos que saíram destas ilhas para defender o liberalismo e a decência contra o atávico absolutismo lusitano. Álvaro Dâmaso concentra-se na dúbia legalidade que amarra os açorianos à vontade quase exclusiva de Lisboa, mas não se fica por aí. Este livro foi pensado e escrito antes das recentes eleições regionais, e rejeita por completo o facto de nos imporem ora um Ministro ora um chamado Representante da República. Nunca um açoriano foi nomeado para tal cargo, que Dâmaso considera quase um insulto, e o insulto inclui o facto de tal figura ter de existir quando existem os tribunais ao mais alto nível para julgarem qualquer queixa ou inconstitucionalidade. Mais um sintoma da sobranceria nacional. O autor não o aceita, não percebe (ou percebe por inteiro porque conhece muito bem o seu país), e chama a seu favor outros países que o permitem – a ilegalidade de partidos exclusivamente regionais. Uma vez mais, não defende nunca o separatismo, mas defende a liberdade dos cidadãos das ilhas e do continente. Nem quero falar na sua dignidade, após firmes e constantes pressões dos seus colegas de partido no Continente, para formar um governo de coligação quando em 1976 ganhou tantos deputados açorianos como o seu então adversário na corrida à presidência da Região Autónoma dos Açores. Outra prova contundente de que quem deve mandar nos Açores, insiste o autor, são os açorianos. Regresso aqui à sua noção da nossa identidade diferenciada, mas nunca antagónica à pertença por direito histórico às suas e nossas ilhas. Suspeito que me escolheu para falar deste livro devido a várias razões. Uma delas é que para ele certo pensamento político vale tanto (vou parafrasear Nemésio) quanto a História, e quando me quer aborrecer diz não ler clássicos das ilhas ou do Continente.

“A democracia assenta também as suas raízes mais profundas no respeito pelo direito à diferença. A autonomia política consagra precisamente o reconhecimento de uma identidade populacional diferenciada no âmbito nacional. A existência de partidos regionais que defendam a autonomia política de um território com características geográficas, económicas, sociais específicas e permanentes não constitui nenhuma espécie de perigo para a unidade da soberania… Os partidos regionais concorrem também para a expressão da vontade popular no respeito pelos princípios da independência nacional e da unidade do Estado para a qual a autonomia política territorial constitui um contributo poderoso e não um perigo ou plataforma secessionista”. José Medeiros Ferreira dizia que Portugal tinha sempre de recompensar os açorianos de forma concreta, pois éramos nós quem garantia a sua soberania, especialmente em tempos que éramos cobiçados por outras potências atlânticas. A Inglaterra, por exemplo e já em décadas recentes, queria uma ilha depressa afundada dos Capelinhos, e ficou a ver um mar azul e raso.

Um livro sobre política e questões de Estado pode também ser literatura. Creio este ser um deles, que raramente aparecem entre nós. Lê-lo foi além do prazer da boa escrita, foi de aprendizagem e de novas perspectivas ligadas à nossa vida de açorianos, aqui e em toda a parte. Não admira. Desde jovem que escreve e é crítico nos jornais regionais e do Continente. Quase todos conhecem a sua carreira fulgurante em instituições do topo em Lisboa, inúmeras demais para nomeá-las neste espaço. Estão na capa do livro. Falamos com frequência, e Álvaro Dâmaso diz-me sempre que não lê literatura portuguesa para além de Camões. Depois diz-me, sem qualquer vergonha na cara, que eu só escrevo sobre livros que não “prestam”. Bem-vindo ao clube, Álvaro.

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Álvaro Dâmaso, Autonomia Política E Razão De Estado: Quinhentos Anos De Antinomia, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2020. Publicado no Açoriano Oriental, 4 de Dezembro de 2020.