Uma Outra Visão Dos Açores

À procura da história, do temperamento, das curiosidades, da música, do humor, da beleza, de tudo aquilo que nos une muito mais do que separa.

Coordenadores, Mal-Amanhados: Os Novos Corsários Das Ilhas

Vamberto Freitas

Sem dúvida que foi uma das mais originais séries da RTP/Açores, e agora passa também no Canal 1, Internacional e África, dez programas às quintas-feiras no fim de 2020 sobre os Açores e protagonistas locais de cada ilha, com paisagens e cantos deslumbrantes que uns já conheciam, mas creio que a maioria não, e falo por mim próprio. Agora em formato de livro com 351 páginas de texto seguidas de um conjunto de fotografias deslumbrantes, tiradas em terra e por um drone, é um livro também que deixará ficar para sempre nos nossos arquivos estas visões absolutamente únicas, que nos informam ou representam o que já conhecíamos ou, uma vez mais, descobrimos pela pela primeira vez. Começando pela narração e conversas entre os escritores Luís Filipe Borges (terceirense) e Nuno Costa Santos (micaelense), naturais, pois, de duas ilhas amigavelmente (queria eu que assim fosse) rivais. A coordenação destes textos esteve a cargo de Luís Filipe Borges, com imagens de Diogo Rola e um extenso e empático prefácio de Onésimo Teotónio Almeida, que a dada altura confessa conhecer todos os cantos das nossas ilhas. Não só transcreveram cada palavra dita em cada programa, como incluíram as mensagens (a que chamam ecos) que iam recebendo um pouco de toda a parte, desde o arquipélago a vários países do mundo. Tem início no Pico e acaba em Santa Maria, e depois com o décimo programa, um resumo de toda experiência das suas inusitadas caminhadas. É certo que também dão breves palavras gravadas a alguns escritores residentes, agora reproduzidas nestas páginas, durante a tomada de um chá na famosa Gorreana em São Miguel. A excepção aconteceu nalgumas ilhas, mas creio ser absolutamente correcto dar a palavra a protagonistas desconhecidos, os que habitualmente ficam fora de todos os meios da comunicação social, especialmente na ruralidade da maioria da nossa gente, os que criaram ou deram continuidade aos nossos usos e costumes, desde os trabalhos da terra a artesãos e curadores de museus locais, e ainda a estrangeiros, particularmente ligados às artes, e que se fixaram nos Açores, ao que parece, definitivamente entre alguns deles. Diga-se desde já que Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos surpeenderam-se constantemente com o que viam e ouviam trocando entre si o humor que caracteriza boa parte das suas vidas, ora como escritores de poesia e prosa, ora como comediantes e guionistas televisivos em Lisboa. Dizem-nos a dada altura neste livro que era um sonho que já vinha desde os anos de faculdade: uma declaração de amor à sua terra natal e desfazer muita da então ignorância pura de muitos dos nossos conterrâneos continentais. Foram viagens seguidas que exigiram grande preparação e concretização, e que agora vão seduzir muitos outros a quererem visitar-nos, aliás como muitas das mensagens que lhe foram enviadas demonstram, enquanto na nossa vasta Diáspora encheu a alma dos que emigraram ou são já nossos descendentes, especialmente nas Américas, de norte a sul, com especial ênfase para o Canadá, Estados Unidos e Brasil.

“À dupla dos bem-amanhados Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges – escreve Onésimo Teotónio Almeida no prefácio – ocorreu a brilhante ideia de revisitar o seu arquipélago, agora providos de um olhar tocado pela experiência da diáspora, conhecedores do que os meios por onde circulam ignoram acerca dos Açores. Acumularam anos de contacto com a ignorância, ou mero descuido de conhecimento; carregaram às costas um pesado saco de perguntas e dispuseram-se a viajar pelas ilhas pensando nas respostas a transmitir”.

Durante todas estas viagens pelas ilhas, agora em formato de um livro magnificamente concebido em termos gráficos e os seus conteúdos, os dois apresentadores intercalam as palavras da conversa com que vão mantendo com um ou outro interlocutor, com citações de escritores pelo meio, como Vitorino Nemésio, Natália Correia, João de Melo e Victor Rui Dores (entre alguns outros), e muito especialmente a obra As Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão, publicado após a sua visita aos Açores em 1924, livro que influenciou de modos diversos como nos entendemos e nos olhamos. Este Mal-Amanhados: Os Novos Corsários Das Ilhas lê-se como quem lê um romance, história, uma biografia ou autobiografia. Polifónico da primeira à última página, são as paisagens sem igual em qualquer das ilhas, são as palavras de gente de carne e osso que nos educam sobre um quotidiano sempre determinado por um tempo instável e a possibilidade de desastres naturais. Montes, pastos, caldeiras, vulcões ainda activos, são-nos retratados com as surpresas e comentários quase em voz baixa dos dois caminhantes à descoberta de si próprios, à descoberta de nós todos. Chamam o Corvo a Ilha das Ilhas, pela sua distância, pelos seus modos próprios de vida. A série teve uma audiência substancial e apaixonada, como já disse, a partir dos Açores e de uma boa parte do mundo, e agora com as novas transmições internacionais ainda mais. Cada ilha no livro é apresentada pelos autores antes dos diálogos entre os dois apresentadores e das inúmeras entradas dos telespectadores, a que os autores chamam mensagens enviadas em garrafas “a navegar no mundo virtual”, alguns lamentando que no fim ficariam sem saber o que fazer ou não ver a cada semana sem os Mal-Amanhados nos seus ecrãs. Passam a ter o livro para tudo reviver e estontear-se com cada passo da leitura. Creio que foi a informalidade das conversas e piadas entre entre Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos que se sobrepuseram a qualquer texto que tivesse sido escrito como guião ou meras sugestões para a abordagem de cada recanto citadino, rural ou do mato, que criou esta proximidade entre todos que os acompanharam de perto e de longe.

Num texto de abertura baseado em posts, Luís Filipe Borges fala da sua emoção de ver um velho sonho finalmente realizado e levado a muitos de todos nós:

“Quem me acompanha por aqui (redes sociais) recordará os meses em que postei diariamente sobre a rodagem dum sonho com 21 anos: uma série sobre a minha terra. O grupo nesta foto… tirada numa das paisagens avassaladoras da ilha das Flores – constitui o dream team que há um ano viajou pelas 9 ilhas dos Açores com paixão, talento, carinho e atenção máxima. Comecei a trabalhar naquela que é também a minha estreia absoluta como produtor na manhã seguinte ao meu 40º aniversário – dois anos e meio para chegar aqui – e não podia estar mais feliz com o resultado final”.

Nem nós, caro Luís Filipe. Vocês, quase todos responsáveis pelos mais diversos programas artísticos numa cidade como Lisboa, trouxeram e trazem uma sensibilidade agudizada pelo afastamento da vossa terra-mãe que são os Açores. “O açoriano leva”, leva tanto e devolve às suas ilhas não só a saudade de lágrimas, mas parte indelével da nossa história e modos de estar no mundo, entre a sua e as mais variadas culturas, línguas e etnias. Espero muito que de seguida cheguem com o mesmo projecto às distantes geografias que nunca nos separam, que sempre se completam, umas à beira-mar outras rodeadas de terra por todos os lados. Esta série e este livro são um outro e eloquente antídoto aos dias que vivemos desde o ano passado. Não mostra medo nem cultiva o que nos aterroriza nestes dias que passam devagar e em isolamento. Mal-Amanhados : Os Novos Corsários das Ilhas (lembrem-se de Nemésio), nem nos recorda que vivemos em terras frágeis e a qualquer momento perigosas com a sua natureza, muito pelo contrário. É um rico testemunho da dureza e coragem de todo um povo que sobreviveu até aos anos mais recentes o isolamento e atrevimento de sucessivos regimes no outro lado mar. Bem sei que as palavras podem mitificar seja que terra for, ilha ou continente. Mas a câmera não mente, fica indiferente aos olhos e noções várias cultivadas por cada um de nós. Terra dos Bravos são todas as nossas ilhas (com as minhas desculpas aos meus conterrâneos terceirenses). Só que temos de valorizar sempre as novas gerações que nos vão perpetuar na memória cá e “lá fora”, expressão recorrente neste livro, em que o Continente português está incluído.

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Mal-Amanhados: Os Novos Corsários das Ilhas, Coordenação de Luís Filipe Borges Com Alexandre Borges e Nuno Costa Santos, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 26 de Março, 2021.

Correntes do pensamento modernista europeu e das suas tragédias

Apesar da visão sempre irónica, o meu mundo da criação artística é uma procura de absoluto, para além das palavras, uma espécie de perda de identidade, onde todos os antagonismos se equilibram e o bem e o mal se confudem.

Teolinda Gersão, O regresso de Júlia Mann a Paraty

Vamberto Freitas

O mais recente livro de Teolinda Gersão, O regresso de Júlia Mann a Paraty, comemora também os seus quarenta anos de vida literária. Diz-se na contracapa que são três novelas “que se entrcruzam de modo surpreendente”. Creio, no entanto, que se trata de um romance em forma diferente, mesmo que um dos seus protagonistas saia de cena quando chegamos à parte final, na qual a mãe do grande escritor Thomas Mann regressa definitivamente ao Brasil, o seu país natal. Chama-se Júlia da Silva Bruhns, filha de brasileiro e alemão, que eventualmente a traz para a Alemanha, com todo o dramatismo que isso implica na mudança para uma cultura e língua que nada ou pouco tinham a ver com ela. Entre os factos biográficos de todos, está a imaginação da autora. Aliás, Júlia da silva testemunhou sempre uma sociedade marcada pelo racismo e desconfiança, até mesmo dentro da sua família. Teve alguns filhos e filhas, mas os que mais se viriam a distinguir foi Henrich Mann, irmão de Thomas, e que iniciou a sua carreira de escritor um tanto à esquerda antes daquele que viria até hoje ser um romancista que permanece no topo da literatura modernista do século XX, Thomas Mann (1875-1955). A rivalidade entre os dois é quase cómica, cada um a tentar responder ás obras um do outro.

Pertencem todos eles a uma família de bem, com um pai aparentemente indiferente a tudo e a todos para além dos seus negócios. No centro da narrativa há muito mais, e mencionar todas as personagens seria um abuso neste texto. Boa parte da civilização ocidental é aqui descortinada entre cartas trocadas entre Sigmund Feud e Thomas Mann, este sempre a rejeitar a psicanálise e outra ciência do seu eminente interlocutor de Viena, para fascínio alargado dos leitores. Freud conhece bem o autor de Buddenbrooks, o seu primeiro romance publicado em 1901, e que o editor queria reduzir, tendo vencido a vontade do autor, que previa que o romance, de qualquer modo, alcançaria poucos leitores. Só que a sua audiência acabaria por dar-lhe enorme importância, tendo-o tornado como um dos mais respeitados escritores daquela época, o que, uma vez mais, perdura até aos nossos dias. Eu próprio fui obrigado a ler na minha faculdade A Montanha Mágica (1924), que pelo menos um membro do júri do Prémio Nobel, quando o concederam em 1929, diria que era inferior ao seu primeiro romance. Seja como for, desde o jornalismo e ensaísmo que também foram géneros cultivados por Mann, são ainda relembrados por muitos. Numa carta a Freud confessa que toda a sua ficção é metaforicamente sobre ele próprio e a sua família, por mais complexos que poderiam ser para certos leitores e admiradores. Freud sabe da sua homossexualidade reprimida, mas nunca consegue que ele se sente numa cadeira ou divã para o libertar de um modo ou outro desse seu complexo intimista, quando Mann mais tarde explicitamente num outro romance marcante, Morte em Veneza (1912), transfigura o seu protagonista numa espécie de alter ego, e se apaixona por um adolescente polaco num hotel e praia da mesma cidade, com o nome ficcional de Tadzio. Dá-nos o seu nome verdadeiro, mas isso ficará à descoberta de quem ler este livro de Teolinda Gersão: “Atraía-me quase sempre o mesmo tipo masculino: jovem, educado, elegante, inteligente e culto, com um corpo admirável e um rosto magnificamente esculpido, onde sobressaíam cabelos loiros e olhos claros, em geral azuis”.

A prosa de Teolinda Gersão é sempre cintilante, com a precisão de cada palavra ou frase, e todos os seus romance são de uma ironia absoluta quanto às suas personagens todas e a própria sociedade alemã, simultaneamente das mais civilizadas e inteligentes nas artes todas, só que, pelo menos no século passado, que é o que mais nos interessa aqui, descamba periodicamente na maior barbárie bélica e preconceituosa. Thomas Mann é um escritor superior, mas mantém um longo diálogo com Freud (judeu) por escrito, era anti-semita e anti-raças de cor, sendo a própria mãe de origem em parte índia no Brasil (que a família regozijava não aparecer negra de origem africana, e toda a sua sociedade considerava o sul, (incluindo da Europa) de gente inferior, menos a Itália, onde muitos passavam férias ou ficavam por muito tempo seguindo as visitas do grande Joahan Wolfgang von Goethe, o poeta, romancista e cientista, cujas obras mais conhecidas continuam a ser lidas por uma minoria de literatos, como A Paixão do Jovem Werther e Faust, romance e poesia ainda hoje lidos nas melhores cadeiras de literatura a nível superior. Aliás – e disto Teolinda Gersão sabe muitíssimo mais do que eu – a maior parte da literatura germânica tem como uma característica indelével a ironia, tal como acontece em O Regresso do Júlia Mann a Paraty. Tanto Sigmund Freud como Thomas Mann acabariam no exílio quando os nazis chegam ao Poder, mas muitos anos antes ele próprio, apesar do seu anti-semitismo, já tinha casado uma mulher judia, que lhe deu seis filhos. Viajamos um pouco com estas figuras eminentes, desde a Alemanha aos Estados Unidos (onde Thomas Mann se tornaria cidadão daquele país), e Suiça, onde haveria de falecer. A sua querida Alemanha tinha-se tornado terra proibida para escritores e outros artistas e cidadãos não-alinhados. Freud partiria para Londres. Cruzam-se aqui vários tempos e lugares, amores e desamores, racismo ou xenofobia, e invejas. No entanto, nenhum dos seus romances, os de Mann, são contra ninguém, são simplesmente o desnudar da essência da humanidade, seja em que versão ou geografia desenvolva as suas vidas.

“Como seria bom falar consigo,– escreve Mann a Freud em 1930 na segunda novela deste romance de Teolinda Gersão, oito anos depois do médico psicanalista lhe ter escrito na primeira novela intitulada “Freud Pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1930” – como um amigo a outro, sem esconder nada, deixar vir as palavras em torrentes, sem filtro, sem medo de me tornar transparente para si.

Tenho pensado nisso muitas vezes. Até porque o senhor tem mais dezanove anos do que eu, conta já setenta e três, e, pela ordem das coisas, não viverá muito mais.

Se eu falasse agora consigo, saberia que, o que quer que lhe contasse, o senhor em breve o levaria para a sepultura. Essa ideia da reduzida possibilidade de o senhor me trair é imensamente tranquilizadora”.

Neste romance de Teolinda Gersão, na sua verdade artística, é como se a imagem de todos fosse o verdadeiro mundo que desejamos para nós mesmos, no bem e mesmo no mal, a condição humana escondida dentro de nós, a que Freud tentou desvendar em Thomas Mann, proferindo poucas palavras e ouvindo em silêncio muitas de outros e outras.

“Agora – escreve a narradora na última parte do romance quando Júlia Mann decide voltar às suas raízes tropicais – triunfava contra Lubeck, e as vozes do mundo eram-lhe, mais do que nunca, indiferentes, chamassem-lhe o que quisessem, dissessem o que quisessem daquela estrangeira, mulher do senador, ela não queria saber, faria o que quisesse, rindo e troçando deles, em gargalhadas selvagens”. Júlia regressa à sua língua e cultura natais, às estreitas ruas e casas pintadas de azul bem vivo, um mar, também muito azul, sempre convidativo a quem desejava renovar forças e esquecer tudo o resto. A relação íntima que Teolinda Gersão mantém com os dois países e as suas artes literárias vem de longe, e é natural que delas conhece o melhor e o pior que caracterizam duas culturas tão distantes uma da outra, modo de ser e estar, cada uma destas duas sociedades em hemisférios que condicionam o pensamento e o seu lugar adentro da universalidade humana.

Esta última parte do livro, Do regresso de Júlia Mann a Paraty contém toda a temática e fluxo verbal, chaves da narrativa unificada para que entendamos um pouco mais claramente as três novelas que, estou em crer, como já referi, constituem um grande romance. Nos tempos incertos que todos vivemos no mundo, vem-nos relembrar a nossa própria insatisfação e infelicidade, até que encontremos a possível saída do labirinto, da dor e da busca da liberdade possível longe de quem nos olha de lado como se olha um qualquer velho obejecto sem valor. Lê-se Teolinda Gersão com o prazer e consciência de quem lê sobre a sua própria pessoa vista através de um Outro, em todos os sentidos e sentimentos.

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Teolinda Gersão, O regresso de Júlia Mann a Paraty, Lisboa, Porto Editora, 2021. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 19 de Março, 2021.

Um mundo de mulheres e conspirações

Desejei para o nosso país grandeza, progresso e liberdade. Tudo isto à república está vedado.

Henrique Levy, Segredo Da Visita Régia Aos Açores

Vamberto Freitas

Comecemos por reafirmar que Henrique Levy é um dos mais fascinantes escritores residentes em São Miguel depois de uma vida que o levou de Lisboa a viver outras culturas de uma ponta do mundo ao outro, incluindo a misteriosa e distante Mongólia em anos idos. Este seu recente romance, Segredo Da Visita Régia Aos Açores segue uma já vasta obra que inclui Maria Bettencourt – Diários de Uma Mulher Singular, assim como uma nova edição da majestosa poesia, ainda hoje desconhecida pela maioria de nós, de Mariana Belmira de Andrade, natural de São Jorge onde vivei toda a vida, A Sibylla – Versos Philosophicos, publicado em 1884, e que ele fez sair também há pouco tempo numa edição primorosa. O autor não só (re)descobriu o livro como escreveu nesta nova edição inúmeras notas de rodapé e páginas inteiras com outra informação. Para além disto tudo, publicou uma vasta obra, que inclui outros romances e naturalmente poesia ou prosa-outra. É claro que se refere no presente romance à ida à Madeira e a vinda aos Açores pela primeira vez, em 1901, dos soberanos da então monarquia, D. Carlos I e a Rainha D. Amélia, no cruzador D. Carlos.

O trama foca-se quase todo em Lisboa, assim como na própria viagem aos Açores, aqui limitado à ilha de São Miguel, apesar de ter andado por outras ilhas. Descreve minuciosamente a chegada para a alegria e patriotismo das elites e do povo, com foguetório, jantares, e actuação de três bandas de música. Quando o vapor foi avistado a entrar no porto da cidade, zarparem em gesto de honra tudo o que eram pequenas embarcações locais. As principais razões que o trouxe até cá (continuo por dentro do texto) foi, em parte, demonstrar aos ingleses, que o acompanharam em navios de guerra como defesa à viagem do rei, a soberania dos Açores, depois do famoso Ultimato em África. Os autonomistas ficaram desconfiados e a imprensa republicana fez uma cobertura limitada, e assim mesmo a queixar-se ou a acusar o Rei e a Rainha de desbaratarem o dinheiro que o Estado não tinha, enquanto todo o país vivia na miséria absoluta da rua, as mesmas que os aristocratas nelas se passeavam, fazendo que nada viam ou então nunca se importando com a sorte de um povo mendigo, sem comida nem saúde, e muito menos um sistema de educação igualitário. Tudo isto é-nos contado pela protagonista, cujo nome permanece no limbo enquanto fala de uma irmã mais nova, Margarida, e da criada de casa, de nome Vitorina, das amigas da mãe, e, já viúva, até dos cocheiros que entravam e saiam da sua vida. É a filha mais velha de uma família burguesa, cujo pai conservador e monárquico passa a maior parte da sua vida numa herdade do Alentejo, comicamente obcecado por estatísticas, e pelo facto da mulher ter uma colecção de livros que ele desaprova mas não mexe nas escolhas da esposa. Acha, entre esses livros, a obra de Eça de Queirós que ele considera indecente para quem tem duas filhas que os poderão ler. De resto, são as visitas para o chá diário, mexericos gerais, e a vida no centro da cidade. A protagonista permanece indiferente a quase tudo isso, menos às lojas de roupa fina por encomenda na baixa de Lisboa, e a uma chapelaria muito especial, que dá origem precisamente ao segredo de que fala o título deste romance e que coincidirá com eventos que mudaram o nosso país para um novo regime republicano a 5 de Outubro de 1910.

A viragem na narrativa, que se havia já tornada magistral desde a primeira página e abordava o dia-a-dia de aristocratas e burgueses, acontece quando a protagonista casa com um deputado da monarquia constitucional, Vaz-Castro, que acaba por ser convidado pelos monarcas a acompanhá-los na visita às ilhas. Numa das muitas compras de novos vestidos e chapéus, a protagonista-narradora é apanhada de surpresa na loja da sua costureira, local que era um nicho de assumidos republicanos e militantes da Carbonária, quando as autoridades fazem uma rusga às instalações. A protagonista agarra depressa o seu chapéu e sem querer traz dentro um pedaço de pano verde e vermelho, escondendo-o de todos, transportado-o para os Açores. O marido adoece com tifoide muito grave e morre. A esposa coloca o dito pano debaixo do seu cadáver embalsamado a caminho de Lisboa, e consegue retirá-lo antes do enterro. Acontece-lhe uma espécie de epifania e ela desenha e costura os respectivos símbolos republicanos, entregando a bandeira à dona na sua chapelaria. Segue-se o sentimento de culpa, e a memória do marido que havia carregado o símbolo republicano debaixo dele no seu caixão de chumbo para que nunca fosse descoberto por outros, precisamente no navio do Rei. Ela tinha feito a viragem do conservadorismo indiferente para o lado oposicionista da monarquia. Independente em pensamento, não deixa de descrever toda a discriminação contra os pobres e doentes da capital ainda de um império espalhado desde África até Timor e Macau. Adiciono aqui que Henrique Levy consegue o difícil acto da verdade histórica com a ficção pura na sua imaginação quanto às mais variadas questões e personagens. Anos depois a protagonista cede a novos amores, e a vida continua, agora sob um regime, que falharia, como previram os monárquicos, acabando numa ditadura de quase meio século. O país continuou pobre, com algum progresso vagaroso num ou noutro sector da colectividade de todo o seu povo, que viveu um pouco mais de liberdade, mas permaneceu na sua condição miserável e sem equidade na distribuição de riqueza nas décadas que se seguiram. Até hoje, como sabemos. Ela torna-se como que um símbolo da liberdade, morando em casa própria, toca piano e fuma os charutos cubanos do marido, comprando ainda mais na Casa Havaneza.

“Quando saí do edifício da Rua de São Julião, resolvi – descreve pormenorizadamente logo nas primeiras páginas do romance, numa espécie de pronúncio contrastante do que viria na sua vida – regressar a casa a pé. Nunca, como naquele dia, havia reparado na quantidade de crianças subnutridas que proliferavam pela cidade, nos velhos miseráveis sentados de mão estendida nas esquinas das ruas, nas jovens varinas descalças com um rancho de filhos ranhosos à cintura, nos rostos esfaimados dos explorados operários… Enquanto meditava nesta Lisboa onde desfilavam pregões, ruas cheias de vendedores ambulantes a tentar sobreviver, observava os aguadeiros que levavam água ao domicílio, as lavadeiras a carregarem pesadas trouxas de roupa, os saloios com jumentos cheios de produtos frescos, resgatados da terra ao esforço da enxada na labuta diária… Concluindo. Nesta cidade, que se diz capital de um império, nem todos têm água canalizada, obrigando-se muitos a mergulhar no Tejo para o banho semanal. Está imunda. As doenças proliferam, e são poucos os cuidados de saúde com os mais pobres, excluídos pela sociedade na qual me incluo em lugar cimeiro…”

Desculpem as reticências porque os pormenores antecedem e continuam ainda mais neste passo narrativo preciso, histórico e verdadeiro para quem lê um pouco da nossa história, para quem quiser ter uma ideia de Portugal radicalmente desigual. O que se passa hoje entre nós no mesmo país não é chamado para aqui neste momento. Só que quem ler este romance vai ser obrigado/a a pensar o seu lugar na sociedade onde nasceu e onde permanece, entenderá um pouco melhor o abandono de milhões de portugueses antes e depois da monarquia. A certa altura a narradora adiciona, entre outras linhas, que vibram na sua verdade: “Este pensamento envergonhou-me como mulher e como portuguesa. Durante muito tempo tentei afastá-lo, arrumá-lo escondido num lugar que não afetasse o meu quotidiano burguês”.

Este é o segundo romance de Henrique Levy que recenseio. O seu estilo é tão limpo, as suas frases acutilantes, as suas linguagens não tentam nunca impressionar os seus leitores como aqueles que pouco têm a dizer e escondem-se por detrás de um certo academismo que desde há muito cheira a bolor e pouco diz. Lê-lo é voltar ao chamado prazer do texto, como acontece com toda arte noutros géneros ou por outros meios. Segredo Da Visita Régia Aos Açores vem de novo comprovar o interesse do autor pelas paragens geográficas e históricas que fazem parte de uma vida, repita-se, que esteve sempre repartida por uma boa parte do mundo. Poderá ele estar a dar continuidade ao melhor da literatura modernista portuguesa, só que colocando no centro a história e meio ambiente em que se movimenta e cria vida vivida, consciente sem falha do que é o seu próprio destino, dando aos seus leitores, na sua vida açoriana, livros que permanecerão no topo do nosso cânone. Não deve provocar qualquer surpresa. Raul Brandão fez o mesmo no século passado em As Ilhas Desconhecidas, mesmo sem viver cá para além dos seus dias de viagem por algumas das nossas ilhas. Só que a grande literatura já não tem fronteiras, e quase está a desfazer a sua nacionalidade. É toda do mundo e para o mundo.

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Henrique Levy, Segredo Da Visita Régia Aos Açores, Lisboa, Plátano Editora, 2020. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no jornal Açoriano Oriental, 12 de Março de 2021.

A Nossa Existência Entre O Caos E A Racionalidade

Que coisas sabemos/Sem saber, que texto invisível lemos antes/ De vir para a vida às escondidas de nós mesmos?

Alexandre Borges, Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio

Alexandre Borges não precisa aqui de qualquer introdução, para além de relembrar aos leitores que ele nasceu em Angra do Heroísmo, e quando foi para Lisboa estudar, nunca esqueceria os Açores como porto de abrigo e emoções fortes. Tem já uma obra substancial em vários géneros, entre o seu trabalho de guionista para a televisão nacional, e é actualmente colaborador do Obervador, depois de ter escrito como crítico noutros jornais lisboetas. Pertence a uma nova geração de escritores açorianos que nunca deixou que Lisboa os fizesse esquecer as suas ilhas. São defensores acérrimos da nossa cultura com as suas características próprias adentro da Portugalidade, praticamente todas as suas obras fazem chamamentos constantes à sua terra natal, para além de regressos pessoais frequentes às suas ilhas de nascença. De resto, são universais, no melhor sentido da palavra, e tanto escrevem sobre nós como partem para outras realidades vividas ou imaginadas. Têm, todos eles a minha geração como referência, tal como nós tivemos os grandes nomes que nos antecederam desde Antero Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Na literatura e nas suas palavras por outros meios dão-nos a continuidade que esperamos sempre dos que nos seguem, e reafirmam assim desse modo o nosso contributo a toda a literatura de língua portuguesa, incluindo a que vem saindo da nossa Diáspora espalhada pelo mundo.

Neste seu Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio, o seu segundo livro de poesia, demonstra uma vez mais a sua ligação à vida de outros por ele reconstituída, ou ficcionada, tendo com centro temático e corrente de pensamento destes poemas o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), de quando em quando voltando aos Açores e ao seu passado em família. Interpreto o título deste magnífico livro como uma tirada filosófica e empírica sobre as vidas que levamos e a agonia dos nossos dias, precisamente a incerteza do que significamos num abalado mundo, e o comboio que anda sem directo ou em curvas mas sem deixar de chegar ao seu destino. É no “intervalo” entre uma experiência e outra que podemos tentar decidir o rumo das nossas vidas, e tentar ainda que a “razão” kantiana se sobreponha a tudo e todos que nos rodeiam, a geografia das terras continentais sendo nada mais que a expansão dos que iniciaram a vida em territórios como os Açores, que aliás estão aqui bem presentes. Quase todos os poemas oscilam entre o drama que é o saber intuir a nossa “realidade” com a ignorância pasmada que passa ao nosso lado, e o humor leva-nos sempre ao sorriso de quem sabe que nada mudará na condição humana. O poeta contrapõe a Kant, que levava uma vida tão organizada que, diz-se, os seus vizinhos acertavam o relógio quando ele passava pelas suas casas a passear o cão, enquanto o seu criado ou mordomo da casa, eis-militar aqui de nome Lampe, andava a passo de tropa prussiana mesmo dentro da casa, no silêncio habitual de quem não tem uma única palavra a dizer. O livro vai desde esse passado ao presente, cada poema abordando magistralmente momentos recordados e um presente, uma vez mais, de desilusão mas nunca mata o riso de estar vivo e inteiramente consciente da sua sorte, gostos e desgostos, nem sequer a nossa emigração é esquecida de modo crítico mas de imediato reconhecido por quem abandonou o seu “terreno do coração” em busca de uma outra vida qualquer, como no poema “This Is Not Américo”. Por outras palavras, trata o exílio interior de todos no seu próprio país, tal como os dele saíram, aludindo directamente a outros grandes poetas portugueses, como em “Também O Sino Da Minha Aldeia”.

O sino da minha aldeia

Continua a bater

certo ou errado

o que se acabe de fazer.

Dá as seis

Dá as sete

Não importa a que horas me deite

Nem com quem

Ou sequer se lá estou

Podes voltar a casa

depois da volta ao mundo,

Que lhe importa se é o fim de tudo

Ou segunda-feira?

O sino da minha aldeia continua a bater

da mesma maneira.

Num outro livro que acabei de ler e em que Alexandre Borges faz parte da sua coordenação, uma das pessoas, a pedido dos protagonistas de um programa que passou na nossa televisão pública, define o que acha ser-se açoriano: é “o que leva”. Poder-se-ia interpretar este sentimento ou ideia de duas maneiras: o que tem de lutar em toda a parte, ou então o transporta consigo o que é a sua cultura, o que leva consigo toda história pessoal e colectiva. Prefiro esta segunda definição de grande originalidade. Do mesmo modo, Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio devolve-nos o poder da grande poesia em linguagens ou versos a universalidade da pequenez territorial à vivência nas maiores metrópoles do Mundo, e aqui Lisboa é a que nos fica mais perto. O mundo é todo feito de “ilhas” cujo existencialismo aflige ou deixa saudades a uns e outros, a “força das raízes” é muito profunda, mas nunca deixamos de olhar para o horizonte e imaginar o que está no outro lado. A poesia de Alexandre Borges é esse gesto: Lisboa tem o Tejo, que nas palavras de um poeta cabo-verdiano, “leva ao mar e o mar à minha terra”. A poesia de que falamos, a de Alexandre Borges é simultaneamente narrativa e confessional, cruza tempos idos com o agora, lamenta e ri, chama a si o que cada geração enfrenta no caos ou cultiva a racionalidade de que Kant pensou e escreveu numa pequena cidade alemã, o contraste absoluto do que o seu próprio país viveria muitas décadas após a sua morte. Num destes poemas, “O Corte De Cabelo De Kant”, fala ou deixa correr a imaginação sobre a morte do grande filósofo que seria o fundador da nossa postura vivencial que perdura entre todos que absorvem as ideias antes impensáveis, e mudam o mundo e o mundo as ideias: “Imagina/coisa lamentável/ Uma coisa ridícula/De cabeça rapada/ E diziam que nunca tinha havido homem maior/ Nem eles visto morto mais seco”. Segue-se uma estrofe em que poeta exerce, como já referi, a seriedade com o mais fino humor: “Ao menos, deixem-me escolher/ Ficar ao pé talvez dum busto de Cervantes/E da máquina de pastilhas”. O poeta não viveu a ditadura política do nosso país (nasceu pouco de pois do avassalador terramoto que quase ia destruindo toda sua cidade e outros locais da Terceira), mas cresceu e viveu nas décadas do Nada que se mantêm até hoje, ouvindo música de que não gostava, fantasiando mulheres e outras andanças, já descrente em tudo que o rodeou ou rodeia. A grande literatura nasce sempre dessa tendência para introspecção, sátira, raiva e, sim, o tal humor que marcam boa parte das melhores obras portugueses, e muito acentuadamente a que parte dos autores açorianos desde sempre. Vida e morte, visto tudo com a bonomia de autor que olha para si, e recusa recolher-se a uma existência não-pensada, recusa ficar-se pelo bater do sino da sua aldeia, ou uma vida regimentada mesmo que produza uma obra imortal como a de Kant. Até com isso dá um riso entre a admiração e o desprezo. Diz ele que não acredita em deuses ou outros fantasmas da nossa tradição, o estado da humanidade sempre entre as violências físicas e mentais que as sociedades impõem a todos para melhor os aprisionar no seu caos e nos intervalos da caminhada própria ou a sós durante toda sua vida. As suas medusas, declara num outro poema, são águas-vivas “que são 99º água/ que não têm ao menos sistema digestivo/ nem excretor, nem deus, nem alma, têm a vida eterna”.

Falta só dizer que estes poemas de Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio é também um supremo acto de ironia bem disposta, como quase sempre na sua obra. Tenho na minha estante alguns dos seus livros de prosa, com especial destaque para Histórias Secretas De Reis Portugueses, que já vai na 5ª edição. Creio que virão outros tantos nos anos que se seguem. Este leitor agradece-lhe de nunca se esquecer do regresso ao abrigo açoriano, e depois a vigorosa escrita que segue a esses dias fora das suas lides profissionais em Lisboa. Tanto faz, o seu acto literário vai sempre dar conta do que mexe consigo e com muitos outros à sua volta.

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Alexandre Borges, Atenção Ao Intervalo Entre O Caos E O Comboio, Ponta Delgada, Edição de Nona Poesia/Nova Gráfica, 2021. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 5 de Março, 2021.