Luís Filipe Sarmento: de um poeta português para outros mundos

E vieste ver a nossa festa, brindámos com Porto e a luz de Lisboa penetrou-te nas veias a memória da tua ascendência.

Luís Filipe Sarmento, Para Lawrence Ferlinghetti no Dia Mundial da Poesia, a 24 de Março

Vamberto Freias

Aqui vão o poema e o texto de Luís Filipe Sarmento. Este poema foi traduzido por mim. Da tradução do texto em homenagem a Lawrence Felinghetti falo na segunda parte desta minha coluna.

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Casa dos mundos irrepetíveis

Se digo mãe, digo Itália; se digo avó, digo ilha,
se digo bisavô, digo Galiza; se digo trisavó, digo França

um tetravô na Grécia outro em Damasco;
um perdido na Índia cigana outra nas ruas da Palestina,
se chegar aos décimos avós sou de todos os lugares,
venho de todas as origens, concebido em todas as religiões;
venho de um pirata e seguramente de uma puta,
de um marajá e de uma cortesã, uma geisha
e um traficante de sedas; uma amazona das estepes
e um boiardo; um vizir e uma poeta,
família de assaltantes nos idos dos avós doze,

marinheiros das austrálias, perdidos nos infernos
de ser gente do mundo e no mundo parental
chego depois de várias incidências
a esta Lisboa remodelada; na Mouraria um primo
outro no Quartier, uma prima no Magrebe
outra em Moscovo e mais uma no Congo
e milhares no Brasil, o meu ADN é o mundo,
as minhas células do universo
sou um homem feito de mulheres em verso.
Nas minhas veias há um refugiado profundo
Afinal onde está o meu berço?

*

I Am A Man Born Of Women In Verse

If I say mother, I mean Italy; if I say grandmother, I mean an island,

if I say great-grandfather, I mean Galicia; if I say great-grandmother, I mean France

One great-great grandfather in Greece, another in Damascus;

One a gypsy lost in India, another in the streets of Palestine,

If I reach to the tenth grandparents, I’ll be from everywhere,

I have my origins everywhere, conceived in all religions;

I come from a pirate and surely from a whore,

from a maharajah and from a courtesan, a geisha

and from a dealer in silks; from an amazona of the steppes;

and a boyar; a vizier and a poet,

from a family of robbers in times long ago,

Australian sailors, lost in hell

for being people of the world, a parental world

then I come from various coincidences

to this reformed Lisbon; at Mouraria a cousin

another in the Quartier, a female cousin in Magreb

another in Moscow and yet another in the Congo

thousands in Brazil, my DNA is the world,my cells are the universe.

I am a man born by women in verse.

In my veins lives a profound refugee

I ask where is the crib of my birth?

II

Lawrence Ferlinghetti, em parte de descendência portuguesa e de mãe judia sefardita. Leitor dos nossos melhores escritores e poetas, como Fernando Pessoa, faleceu há poucas semanas aos 101 anos de idade, um pouco antes de completar os 102 a 24 de Março de 2021. Desde sempre à frente da mais famosa livraria americana, City Lights, em São Francisco, centro que despoletou toda a Geração Beat a partir dos anos 50. Luís Filipe Sarmento, ele próprio amigo de Ferlinghetti, e que com ele se encontrou e passeou em Lisboa, viria um pouco mais tarde a ser convidado a participar com um poema, “Casa dos mundos irrepetíveis”, e que eu viria traduzir com o título “I am a man born of women in verse”.Sarmento foi o único poeta português a ser convidado para publicar a versão em língua inglesa numa antologia sob o título Building Socialism, coordenada por Jack Hishman, representante de um grupo de poetas mundiais que se denomina Revolutionary Poets Brigade/Brigada de Poetas Revolucionários, com base em São Francisco, na Califórnia. No dia em Ferlinghetti celebraria 102 anos de idade o grupo organizou uma sessão virtual para leitura de alguns desses poetas como uma comemoração da sua longa e produtiva vida e sobretudo da influência que exerceu sobre várias gerações de escritores americanos e, creio eu, em boa parte do mundo. City Lights, uma vez mais, tornar-se-ia rapidamente uma livraria mítica, ainda hoje de porta aberta. Luís Filipe sarmento Sarmento contribuiu com um texto especial (traduzido pelo poeta luso-americano Scott Edward Anderson) na dita transmissão precisamente em homenagem a Lawrence ferlinghetti. O já mencionado Jack Hirscham também coordenou este evento, muito especial para alguns de nós, e o texto de Luís Filipe Sarmento, que foi lido por mim em Inglês.

Para Lawrence Ferlingetti no Dia Mundial da Poesia

“Como tu costumavas dizer, Lawrence, o amor é difícil de acontecer nos mais velhos e quando te li no Verão de 1975 não pensei nas mutações do sabor e do beijo que a idade em comboio apressado alquimiza e transmuta por estas planícies que, agora, nos são comuns. Nesta idade, 45 anos depois, os cabelos ainda me descem pelas costas sem obstáculos da moda e do mainstream e sigo no vapor dos dias lunares ou nas cápsulas das noites solares com essas primeiras palavras tão modernas como a liberdade conquistada com a revolução dos cravos. E vieste ver a nossa festa, brindámos com Porto e a luz de Lisboa penetrou-te nas veias a memória da tua própria ascendência. O teu sorriso silencioso aplaudiu os jovens amantes entre as poeiras da revolução e descobriu os velhos amantes saídos da clandestinidade e sem saber o que fazer com a transparência da liberdade. Sentámo-nos à beira do Tejo e contaste-me que em Central Park atiravas moedas para uma fonte onde surgira nu um arlequim. E eu disse-te que dentro do Tejo estavam adormecidas as Tágides, as ninfas do rio, que seriam acordadas com os teus poemas do mar. O que tu riste, Lawrence. Colocaste a tua mão em cima do meu ombro e recitaste um poema sobre a verdade da dança das ondas e um manto mágico trouxe à realidade tritões e sereias e ninfas e arlequins e ficámos sem saber se Lisboa era San Francisco ou se San Francisco era Lisboa com as suas pontes gémeas a cintilarem à entrada da noite. E como tu costumavas dizer que não podias deixar de pensar que a realidade era quase tão real como a recordação que levaste daquele dia. O rio Tejo transformara-se num imenso palco. O reflexo da ponte eram as luzes da ribalta e as ninfas dançaram só para ti a mais íntima coreografia do fado de Lisboa. E disseste-me: não escrevas epitáfios”.

Luís Filipe Sarmento tem já uma vastíssima obra poética, e em 2020 publicou uma antologia com mais de mil páginas, Ao Rubro, da Poética Edições. Muito ligado aos Açores pelas várias amizades que mantém com escritores de cá, e outros. Tem participado activamente no festival Arquipélago de Escritores, organizado por Nuno Costa Santos e seus colaboradores. Tive a honra de apresentar um dos seus livros de poesia KNK (Kant, Nietzche, Kafka) em Lisboa. A sua escrita é incessante, lida e muito bem considerada pelos leitores mais sensíveis à palavra que vem das margens do mainstream, e como sabemos são essas melhores obras que tendema operdurar no tempo e eventualmente ascendem ao cânone nacional e internacional.

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“Casa dos mundos irrepetíveis”, in Building Socialism, Revolutionary Poets Brigade, organizado por Jack Hirschman, John Curl, Karen Melander e Scott Bird, São Francisco, 2020. Adicione-se que esta antologia contém 108 poetas dos mais diversos países. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 23 de Abril de 2021.

Os dias da peste

Uns morrem, outros vendem-se/outros conformem-se e outros esquecem…

Obras de Jorge de Sena: Antologia Poética

Vamberto Freitas

Melhor dizendo, não foi nem é fácil (para nós e para ninguém no mundo) viver o Covid-19 na ilha de São Miguel, e como Leitor de Língua Inglesa durante 29 anos na Universidade dos Açores. Num dia de Março do ano passado eu tinha dado as minhas aulas de manhã, e depois desci à baixa de Ponta Delgada com um colega e amigo, doutorado numa área bem diferente da minha. Durante todos os meus anos naquela instituição de Ensino Superior, um dos meus grandes prazeres foi descer à cidade ao lado do jardim da universidade, e depois subir com o mesmo prazer, para as aulas da tarde. Naquele dia, no nosso regresso aos nossos gabinetes ou aulas, encontramos um campus muito diferente, muito surpreendente. Quase não havia carros no estacionamento, e apenas víamos um ou dois alunos à distância. Olhámos um para o outro e perguntamo-nos: que se passa aqui? Na entrada da nossa faculdade, Faculdade de Estudos Sociais e Humanos saiu um colega de pasta na mão. Olhou-nos surpreendido. Não leram o e-mail do nosso Reitor? Não. Era hora do almoço e descanso. Ele acaba de encerrar a universidade devido à “peste” que agora assola boa parte do mundo. Ficámos como que atónitos. Diz-nos ele: vão buscar as suas pastas e sigam para casa. Um dia ou dois depois vem a nova ordem ou pedido. A passar de agora, será o ensino à distância. Eu tinha entregue os meus documentos de aposentação definitiva em Fevereiro, mas estava sob contrato até Agosto. E agora? Agora foi toda a ajuda da minha Faculdade e da Reitoria. Faremos o melhor que nos seja possível, mesmo que a maioria dos docentes não estivesse treinados para tal tarefa, comunicaram os nossos superiores hierárquicos. Pânico – da minha parte.

Tudo viria a correr bem, sem que eu o esperasse, o assunto foi resolvido. Vamberto em casa em todo o seu trabalho, sereno – e a ler e a escrever, ele faz parte da história desta instituição, e nunca dela se desligaria. Não se pode pedir mais do que esta cordialidade e profissionalismo, por assim dizer. Medo, ansiedade, paralisia mental, desgosto do fim de carreira que contava com 14 anos de ensino numa secundária no sul da Califórnia (Cerritos High School) e, uma vez mais, 29 anos de Universidade dos Açores, sem mácula e sem nunca rejeitar ou desobedecer às tarefas que me estavam destinadas em todas e quaisquer circunstâncias. Para além do que já disse, são agora as saudades que tenho das minhas aulas, dos almoços com colegas, de entrar no meu gabinete, a dor de desfazer todos aqueles anos atirando para fora tudo quanto tinha acumulado, desde ficheiros, capas cheias de anotações, revistas e jornais. Levou-me algumas horas durante dois dias a desfazer uma vida que tinha sido pautada pela felicidade, que todos aqueles anos deviam já contar milhares de alunos. Tenho de adicionar isto. Quando chegou à colecção de livros que eu mantinha nas minhas largas estantes fiquei sem saber o que faria. Numa universidade não se queimam livros nem se os manda para o lixo. A minha Presidente da Faculdade entrou no meu gabinete e simplesmente me garantiu que iriam todos para o seu próprio espaço de trabalho. Dias depois, tive de entregar a chave do gabinete que tinha sido o meu desejado reduto de trabalho e alegria. Desci as escadas sozinho, com uma lágrima no olho, mas também com o sentido de missão cumprida entre todos que me tinham sido queridos, companhias nos piores momentos de certos dias, meus salvadores quando a inevitável e essencial burocracia me deixava sem habilidade ou saber. A Covid-19 veio-me revelar coisas inesperadas, e muito especialmente momentos de generosidade e cumplicidade.

Agora no plural. Temos o privilégio de viver em ilhas, todas elas, em termos relativos, com baixos índices do Covid-19, mas que que vão agora aumentado diariamente aqui em São Miguel. Estamos atentos ao mundo, particularmente ao resto do nosso país, e isso provoca-nos muita preocupação. Duas coisas a acontecerem que não nos conforta de modo algum. Primeiro, evitamos viajar para fora, até mesmo para Lisboa ou qualquer outra cidade continental. Segundo, passamos a temer pela a vida seja de quem for no mundo. Tudo isto está a causar, quanto a mim, e não só, uma certa resistência e desejo de alguns que não nos apareçam por cá. Por certo que o número de casos positivos são menores ou mesmo inexistentes nalgumas ilhas. Seja como for, neste momento viajam para as cidades do resto do país quase só os estudantes ou os doentes que lá têm consultas inadiáveis. Quanto a outros, e volto aqui ao singular, morro de saudades de Lisboa e dos seus arredores. Apesar de ter nascido numa ilha (Terceira) com vivência de quase 30 anos nos Estados Unidos, já me chamaram um “continental” no “exílio”. Exagero, mas nem tanto. Tenho saudades de terra firme e do resto do meu país. Um amigo em Sintra, poeta e escritor, avisa-me que aguente mais uns tempos até que chegue a limpeza desta peste mortífera. Custa-me muito, e logo agora que estou livre para viajar, abrir as minhas outras portas e janelas no outro lado mar, ver o céu azul que contrasta com este cinzento quase diário e ameaçador. Para consolo um bocado egoísta, recordo a História e outros séculos ainda muito piores, grafado para sempre no Decameron a meados do século XIV, com todo o humor, riso e “histórias picantes” para se contrapor à morte e terror que ceifou metade da população europeia. Só que não tinham o que hoje temos: o saber científico ou farmacêutico que nos promete salvar a todos em poucos meses…

Como quase todos os outros no mundo, andamos de máscara, que ora tiramos ora colocamos por cima da boca e do nariz. Cenas mais ou menos surrealistas e até cómicas quando amigos íntimos se cumprimentam de cotovelos ou braços. Por vezes confiamos no facto de vivermos em ilhas e quebramos algumas das regras. Rimos meio consternados, mas rimos. Também tem a ver com confiança no nosso sistema de saúde, tudo tem a ver com uma esperança cega na nossa sobrevivência. Tudo mudou. Diz-me um médico amigo especializado em pneumologia: já vi tanta gente com tantos problemas respiratórios em todas as condições que já não me preocupo muito. Já agora, avisa-me ele – deixa de fumar para não me dares, suspeito, trabalho ou preocupação no bloco hospitalar a meu cuidado. Yes, doctor. A partir de amanhã será assim. Ele dá à cabeça que sim. Sabe que eu estou a mentir, e puxa do seu cigarro, e partimos para a política e literatura, futebol e comida regional. Eu cito de imediato o Fernando Pessoa: “Venha o que vier ou não não venha o que não vier”. Viver no medo não são modos saudáveis – nem para a mente nem para o resto do corpo. Covid-19 nos Açores? Apesar de tudo, e por enquanto, tenho muito mais medo dos terramotos vulcânicos ou tectónicos. Esses, sim, são o nosso outro terror nas ilhas.

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Os Dias Da Peste é um livro internacional do P.E.N. (Poets, Essaysts, Novelists/Poetas Ensaístas, Romancistas), uma associação de escritores mundiais que está presente em 145 países e em várias línguas, incluindo Inglês, Francês, Espanhol e Português. No nosso país tem como Presidente a escritora Teresa Martins Marques, da Universidade de Lisboa. Foi ela que fez questão em estarem presentes, como membros activos e colaboradores, alguns autores açorianos. Vai ser publicado pela editora Gradiva (Lisboa) já nos próximos meses. Este meu texto faz parte desse livro, que rencensearei na íntegra.

Esta versão, ligeiramente diferente, foi publicada ontem na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 16 de Abril 2021.

De Pedro Arruda e do seu Café Royal

Todas as semanas, ao longo de quatro anos, desde Janeiro de 2017, procurei sempre cultivar, em cafés curtos e fortes, a liberdade, a crítica franca e aberta, a exigência ética, moral e a transparência nas políticas públicas e, de uma forma geral, na cidadania.

Pedro Arruda, Tudo O Que Não Se Pode Dizer

Vamberto Freitas

Feliz o jornal que tem um colunista de imensa relevância e civilidade como Pedro Arruda. Este seu novo livro Tudo O Que Não SE Pode Dizer: Apontamentos insulares sobre pandemias e eleições junta agora parte dos seus comentários no Açoriano Oriental e do seu blogue. Um outro foi publicado no Diário dos Açores. Desde Janeiro de 2020 que o leio infalivelmente com um prazer do texto muito fora de um certo género jornalista. A sua prosa vai muito além disso. O autor destas crónicas alia o estilo ao conteúdo, com alguma variação mas sempre dando continuidade ao seu pensamento. Na verdade, ele é um escritor agora especializado na brevidade do texto, e conheço poucos, tanto em Português como até em Inglês, que consegue transmitir as ideias ou críticas num léxico que oscila entre o mais sofisticado a uma linguagem que recria os seus mundos que vão desde os Açores a todo o restante país, e abordando ainda toda a ebulição que acontece além-fronteiras, como o leitor poderá confirmar quando ele fala, só por exemplo, num Donald J.Trump e das suas, digamos, excentricidades inesperadas numa América que passou boa parte da sua história a querer dar lições democráticas ao mundo inteiro. Pelo meio cita apropriadamente nomes ou figuras do mundo literário ou intelectuais de vários países e línguas como Rudolf Virchow, em epigrafes relevantes, como ainda no caso de Bernard-Henri Lévy e Wlliam Shakespeare, entre muitos outros. Coloca as cartas na mesa logo na primeira crónica para que futuros leitores não sejam surpreendidos política ou ideologicamente. Não tendo vivido os anos da ditadura salazarista, os anos de chumbo, declara sem apologia que Mário Soares é a sua principal referência quanto a ética na vida pública e na sua luta por um autêntico socialismo democrático.

Sinaliza, desse modo, ao mesmo tempo com elegância e veemência, os oportunistas que se encostam ao poderes societais, e demonstra a sua solidariedade aos que combatem pelo bem comum e justo. Reafirma os seus valores como cidadão consciente de toda a sua sociedade ou, uma vez mais, de além-fronteiras, como George Steiner e a sua tese de que a grande parte da cultura europeia nasceu em conversas de Cafés, e daí, creio eu, intitula a sua coluna Café Royal, como que querendo envolver todos os que o leem num debate imparável, marcado também sobretudo pelos seus saberes que ora se juntam ora divergem ao que provavelmente pensarão alguns dos seus leitores. Este é um grande livro feito dessa escrita ditada pela clareza de pensamento e elegância das suas frases que conseguem conter em si o mais profundo entendimento da condição humana. Não hesita nunca em louvar ou criticar as acções de uns e outros ou outras na vida pública. Basta atender ao que ele diz da esquerda, que governou os Açores durante várias décadas passadas, e agora, do mesmo modo, a direita retalhada, que tomou as rédeas temporárias da nossa vida colectiva. Fala do crescente ódio ao Partido Socialista/Açores, que nas últimas eleições levaria à perda de cinco deputados, deixando o campo aberto a uma oposição em que ele definitivamente não acredita, e muitos menos a desejava no Poder, apoiada que está por certos partidos ainda mais questionáveis, que ele denomina de extrema direita. Não é o meu papel aqui concordar ou discordar, mas um livro como este, já comentado publicamente por outros, não poderia nem deveria passar em branco.

Pedro Arruda traz-nos uma multiplicidade de vivências que vão desde a sua formação superior em Lisboa, onde nasceu, ao turismo nos Açores e outras áreas económicas e financeiras, assim como o impacto nefasto que as medidas de confinamento estão a provocar numa economia as maiores baixas entre os pequenos e médio empresários; que já estamos ou inevitavelmente vamos cair na nossa pior depressão desde todo o século passado. Num país como o nosso, que ele frequentemente nos relembra que é pobre – e não só materialmente – ele não tem nem terá a oportunidade de escrever a tempo inteiro, tal como a vasta maioria dos escritores portugueses e estrangeiros. Só que o esperamos uma vez por semana pelo que afirma e reafirma numa coluna quase sempre de parágrafo único. Espero que a sua recente despedida pública no Açoriano Oriental acabe por ser temporária. Lê-lo agora em livro é, repito a palavra, acompanhar a sua astúcia crítica, a sua capacidade na manipulação certeira da nossa língua. Não teme nada e ninguém, e a certa altura, em jeito de aviso a alguns outros, que não se trata de qualquer ressentimento ante seja quem for. Faz-me relembrar de imediato um velho dito que acompanha na primeira página o The New York Times: “Without fear or favor/Sem medo nem favores”. É isto que se espera de um escritor-cidadão. Termina o livro com as crónicas, como ele próprio diz na sua abertura, no fim de 2020, e chega aos primeiros textos de 2021. Espero, e muito, que o volume seguinte já esteja a ser organizado. Pedro Arruda, que foi formado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa, entende os nossos dias de pandemia com um olhar claro sobre o que a humanidade tem sofrido desde tempos muito antigos, e vê a actualidade com a mais vigorosa crítica aos que nos governam nos Açores e no Continente, sem poupar os mais diversos países e as medidas que ele considera radicais para eliminar um vírus que mata quase uma pequena percentagem da população mundial quando nos dá as estatísticas das mortes de milhões por outras doenças que nada têm a ver a Covid- 19 e as suas mutações. Diz em directo que estamos assim a afundar toda uma civilização, e a condenar as novas gerações ao medo sem fim, e ainda mais a um miserável futuro. Quanto aos Açores, afirma que as duas piores doenças, agora praticamente esquecidas ou relegadas pelos serviços de saúde para uma condição secundária, ou pior: a percentagem da diabetes ou obesidade no nosso arquipélago.

“Perdoem-me – escreve o autor a dada altura – os homens de Rosto do Cão e as mulheres de Rabo de Peixe e todos os outros bravos açorianos de cartão de cidadão (eu sou um ocasional açoriano de São Domingos de Benfica, por opção filial, e isso não faz de mim nem mais nem menos ilhéu), mas o que está aqui em causa não é uma profunda causa autonómica, isto não é um ataque de centralismo lusitano contra o orgulho basáltico, o que está aqui em causa é mais profundo do que isso, é saber em que tipo de sociedade queremos viver: se uma sociedade que tem como princípio fundamental a liberdade individual, seja ela qual for e contra que inimigo for, e o respeito pelos direitos dos cidadãos, ou uma sociedade fechada sobre si própria, receosa, autoritária e dominada pelo medo. Hoje o ‘inimigo’ é um vírus que mata menos que a gripe, amanhã (se é que já não é hoje) serão todos aqueles que não pensam da mesma maneira que os móveis de Santana…”.

Lido em sequência, concorde-se ou não, Tudo O Que Não Se Pode Dizer (e que eu saiba) torna-se na primeira grande narrativa deste género sobre a pandemia e a correspondente política nos Açores.

Tudo O Que Não Se Pode Dizer vem prefaciado por Carlos Guilherme Riley. “Os textos aqui reunidos – escreve o Professor da Universidade dos Açores – são o log book de um navegador solitário no exercício da mais sagrada das liberdades, a liberdade de pensamento e de expressão”.

Não é, nem Pedro Arruda quereria que fosse, um livro de pacífica leitura ou pensamento, mas sim o contrário da opinião corrente sobre a nossa vivência actual em luta contra um inimigo que é invisível como um guerrilheiro escondido no mato e a atirar esporadicamente contra uns e outros. Como em qualquer guerra, as opiniões divergentes devem estar salvaguardadas pela liberdade Constitucional de se dizer publicamente ou pensar o que muito bem quiser e entender. É a cidadania activa a que muitos ainda não se habituaram.

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Pedro Arruda, Tudo O Que Não Se Pode Dizer: Apontamentos insulares sobre pandemias e eleições, Ponta Delgada, Edição de Autor, 2021. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 9 de Abril, 2021.

Da Ficção Distópica Na Literatura Americana

A época nuclear, matando a fé dos homens na sua capacidade de influenciar o que acontece, poderia destruir os Estados Unidos mesmo que nenhuma bomba seja atirada contra nós.

Fletcher Knebel & Charles W. Bailey II, Seven Days In May

Vamberto Freitas

Seven Days In May foi publicado em 1962, e de imediato conheceu sucessivas edições, tornando-se um dos mais vendidos na América, e com brevidade deu origem ao filme com o mesmo título, apresentado com nomes pesados como Burt Lancaster, Kirk Douglas e Frederico March, Só agora o li, ainda faltava dois anos para eu chegar àquele país, e nos primeiros tempos de América havia mais do que fazer, e sobretudo o impedimento da língua inglesa. Só comecei a ouvir falar deste thriller já na Faculdade, mas nessa altura um livro deste género nunca entrava na lista de leitura em qualquer curso das humanidades, e eu tinha muito mais do que ler nas cadeiras obrigatórias. Entretanto, o romance nunca me saiu da cabeça, e agora resolvi lê-lo pelas razões que li It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, que recebeu o primeiro Prémio Nobel em 1930, por outras obras. Este seu romance, ironicamente nunca recebeu a atenção que merecia pela sua audácia imaginativa. Foi necessário Donald J. Trump chegar à Casa Branca para que os leitores começassem a procurá-lo pelas razões que todos conhecemos. Foi traduzido no nosso país por José Roberto e publicado pela D. Quixote do grupo LeYa, Isso Não Pode Acontecer Aqui. A “profecia” de Lewis esteve quase a realizar-se, não só pelo autoritarismo da administração Trump, mas ainda mais com uma tentativa, já nos nossos dias, de um golpe de estado por outros meios levado a cabo por civis e alguns ex-militares disfarçados quando cercaram, invadiram, demoliram, mataram e procuravam senadores, congressistas e até o Vice-Presidente Michael Richard Pence, que acabava de certificar a legitimidade do voto nacional que deu a vitória a Joe Biden e à sua Vice-Presidente Kamala Harris. Tudo indica que queriam assassinar Pence assim como Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Representantes do Congresso. Nada disto, o 6 de Janeiro de 2021, tinha acontecido na história da democracia americana: um bando de marginais e fanáticos encorajados repetidamente pelo próprio Presidente, nesse fatídico momento escondido na Casa Branca, e como sempre a comunicar com os supostos líderes da revolta, que também destruiu parte do Capitólio e roubaram documentação pertinente que se encontrava nas mesas dos congressistas em sessão.

O livro agora aqui em questão é uma outra tentativa de imaginar um golpe de estado liderado por quatro generais de alta patente responsáveis pelo Estado Maior (Pentágono), pois o comandante da Marinha, que na altura se encontrava com a sua frota no Mediterrâneo, perto de Gibraltar, recusou-se a dar o seu nome a tal loucura. Desta vez, é um Presidente que iria ser violentamente deposto, e uma ditadura militar se instalaria. Em Seven Days In May nunca aparece uma só data, só acontecimentos que leva o leitor a um futuro próximo, digamos que ao fim dos anos 60 ou princípio dos anos 70. John F. Kennedy é mencionado como um dos antecessores do Presidente em funções, o fictício Jordan Lyman, cujos colaboradores mais chegados descobrem a traição após uma visita à Casa Branca de um Coronel de nome Casey, que desempenha uma espécie de secretário do Pentágono ao seu mais alto nível, e ouve subrepticiamente certas conversas entre eles que ele entendeu colocavam a segurança nacional em perigo, e relata tudo o que sabia ao Presidente da República. Não vou mencionar aqui todos os nomes envolvidos, só os que colaboram no desmantelamento da conspiração, que foi organizada pelo Chefe-Maior do Pentágono, General Scott. O momento parece-lhe ideal. O país estava economicamente em baixo, as sondagens de popularidade do Presidente eram das piores, e tanto alguns militares como a população em geral estava absolutamente discordante do tratado que o Presidente havia assinado com o Kremlin para se começar a destruir por etapas as armas nucleares, e quase todos nos EUA desconfiavam da honestidade dos soviéticos. Tinha sido descoberto que enquanto neutralizavam alguns desses desarmamentos, o inimigo comunista estava já a construir secretamente uma base na Sibéria para recomporem as ogivas que desapareciam no tratado. O General Scott não teve meias medidas e utilizou fundos guardados para emergências maiores, mandando construir uma base secreta perto de El Paso (Texas) no deserto do estado Novo México, sob o código “Y”, e com o acrónimo ECOMCON, que significava Emergency Communications Control/Controlo Das Comunicações Numa Emergência, que visava cortar e tomar conta de todos os média nacionais para que só a nova junta tivesse acesso e falaria em termos exclusivos à população civil depois de instalados à força no Poder máximo em Washington. Tudo acontece, pois, em sete dias, e o romance está dividido pelos dias e horas da semana. Tudo seria descoberto por diversas manobras, e os superiores do Estado Maior são imediatamente demitidos e acusados de traição ao Governo eleito e à própria Constituição. Iria acontecer o “inimaginável” naquele país. Já agora, para tentar trazer o leitor ao presente, refiro que os generais tinham um certo apresentador de rádio como aliado histérico, mas que era ouvido por milhões. Só certos escritores pensam a América a sério em romances políticos, e espera-se que Seven Days In May nunca passe de mera ficção popular, aquela que nos faz querer virar cada página. Mais do que uma vez, o título de It Can´t Happen Here é citado em palavras (em letra minúscula e sem aspas) de conversas sem que, provavelmente, a maioria dos leitores nunca se apercebesse do seu verdadeiro significado, que vinha de um escritor de uma geração anterior.

“Olha cá – diz o Presidente a um colaborador já quase nas últimas páginas, e depois de terem vencido contra os conspiradores – tenho esperança que o povo deste país sinta como eu sinto – o que está delineado em papel é impensável aqui. Ray, você sabe o que penso sobre os políticos que não dizem a verdade. Mas prometo-te aqui e agora que vou mentir sem qualquer hesitação sobre todos estes acontecimentos, se assim tiver de ser. Creio ser importante que o público nunca suspeite que este golpe foi tentado”.

Seven Days In May pertence a um género, como já disse, pouco lido formalmente nas universidades. Esse facto pouco interessa a muitos leitores de outros géneros, inclusive os clássicos de qualquer língua ou cultura. Ignoram muitos a imaginação necessária na criação de acções ou manobras que nos parecem improváveis, enquanto reinventam personagens que vivem em mundos longe de nós, mas cujos estados de alma são-nos de imediato reconhecíveis. Só anos depois sabemos o que nas nossas costas estava possivelmente a passar-se, ou mesmo a ameaçar a nossa existência. O século XX esteve, de facto, à beira do colapso nuclear total, como ficou na História mundial. Não esqueçamos que quando este romance foi publicado estava no poder John F. Kennedy, que olhou olhos nos olhos a possibilidade do armagedão. A 22 de Novembro de 1963 seria assassinado, e ainda hoje ninguém sabe exactamente por quem ou a mando de que forças no país, e muito menos ao que levou a essa barbárie. Foram os anos mais quentes da Guerra Fria, e os militares dos dois lados desconfiavam das intenções do outro lado. Ler este romance é uma delícia quanto a entretimento puro, e em linguagens muito superiores ao que pensam, ou acham que pensam, não merecer o seu tempo de leitura. Estou em boa companhia, conheço pessoalmente um grande escritor português que a primeira coisa que procura num aeroporto ou numa livraria é um policial ou uma conspiração política. Jorge de Sena, li algures, para descanso intelectual não prescindia de um bom volume de Agatha Christie.

Esta tradição da distopia sócio-política já vem de longe na literatura americana. Inclui, entre inúmeros outros, Day of the Locusts/O Dia dos Gafanhotos, de Nathanael West, Lady in the Lake/A Dama do Lago, de Raymond Chandler, e entre os quais devemos ainda incluir o grande escritor brasileiro Rubem Fonseca, em quase toda a sua grandiosa obra, e aqui com especial destaque para o romance Agosto, que também aborda conspirações políticas que levam ao suicídio de Getúlio Vargas. Isto só para não falar nos britânicos Aldous Husley e George Orwell. Não é por acaso que alguns destes livros, particularmente o romance 1984, estão a conhecer uma segunda vida, por assim dizer. O momento histórico em que vivemos, quer se pense em saúde ou novas formas de autoritarismo disfarçado em democracias corruptas em quase todo o mundo requer uma contínua reflexão de todos, leitores ou não.

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Fletcher Knebel & Charles W. Bailey II, Seven Days In May, New York, Bantam Books,1962. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 2 de Abril de 2021.