A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (II)

Emigrou com os pais e os irmãos, aos quinze anos de idade. Saiu da Terceira com o entusiasmo imberbe de quem quer vencer depressa, embalando a imaginação com as estórias de encantamento que ouvira, como essa de sacudir as árvores e delas cair um Outono de dólares.

Álamo Oliveira, Contos D’América

Vamberto Freitas

I

Contos D’ América contém uma prosa caracterizada sobretudo pela ironia, comédia e pelo drama, tanto dos que se foram como dos que ficaram. Mexeu com a alma de nós todos. Nem deixa passar em branco que as crianças de um bem conhecido bairro da lata ao lado da Base das Lajes, e não só, as que foram dadas ou vendidas à tropa americana de vários escalões. Quem optou por nunca partir sofreu do mesmo modo dos que se foram. Por vezes, o narrador faz como que um riso vivo a auto-referências de outros romances seus que foram denunciados pela Igreja, como Murmúrios Com Vinho De Missa e Marta De Jesus (A Verdadeira), goza com a ficção de ter de se justificar perante o Vaticano. Não faltam sequer nestas páginas uma prostituta ou prostitutas com ganas dessa vida para dar de comer aos seus ou por gosto próprio, nos dois países que passariam a ser os seus, como no conto “A minha Estela”, e que em parte satisfaziam a fome sexual de americanos e de outros numa casa terceirense com o belo nome de Paz e Sossego.

Fiquemos por aqui, e sigamos com uma citação do conto “João, John Juan”, que nos mostra a transfiguração de uma personagem que percorre as mais variadas e inesperadas profissões e mundos nada comuns entre os nossos imigrantes, começando na ilha Terceira, passa alguns anos pela América e acaba no México. Trata-se de uma caminhada de vida singular, tão corajosa como cómica aos olhos de outros, aos que lerão estas novas páginas de Álamo Oliveira.

“João Pereira (nos Açores), John Perry (na Califórnia e Juan EL Portugês (no México) foi uma pessoa bastante conhecida… Da inteligência, dir-se-ão os sucessivos cursos tirados em Faculdades insuspeitas, todos voltados para a necessidade poética do ganha-pão, que fizeram com que mudasse de profissão como quem muda de camisa, numa cadência social muito alternada com prestígios, ora altos ora baixos. Começou por ordenhar vacas numa leitaria do Chino; vendeu automóveis e bolachas dietéticas na área da grande Los Angeles; preencheu declarações de indeclarantes que não sabiam ler nem escrever empurrando-os para o fisco; deu aulas de americano a indocumentados; foi orador sacro em concurso ganho pelo seu muito saber e talento: acabou num porta-a-porta cirúrgico, promovendo a venda de acrescentos de pénis a quem se sentisse mal servido…”.

Todos estes Contos D’América são um riso constante, sem nunca denegrir as personagens, a sua legitimação como seres ficcionais completos, nunca trespassam o drama ou a comédia que são, afinal, as vidas de nós todos. A capacidade poética do Álamo Oliveira é quase sempre transferida para a sua prosa desde os seus primeiros romances. Aliás, Emanuel Félix, o falecido supremo poeta açoriano, escreveu na contracapa da primeira edição do romance Não Gosto de Chocolates, referido anteriormente aqui. “Alguém o assinalou, de resto, com absoluta pertinência, ao falar de Álamo Oliveira e referindo já o sentido de humor, a tensão dramática e outras situações implícitas na prodigiosa humanidade com que o autor povoou centenas de páginas, todas elas marcadas por um incontestável virtuosismo estilístico”.

Todas estas palavras aqui citadas sinalizam essa sua consistência literária em toda a sua obra. Uma vida inteira a pensar a sua e nossa sorte entre dois mundos bem diferentes, mas que desde há muito fizeram parte do nosso destino. Sei que não se deve catalogar ou enredar um autor numa determinada visão da vida, em mutação constante. Álamo Oliveira é, no entanto, um existencialista, um escritor cujas personagens e escolhas do seu lugar na comunidade ou sociedade onde vivem é sempre da sua própria responsabilidade. Só que, desse modo, acaba por retratar um pouco de nós todos, e nesse processo de reinvenção, sim, a natureza da cultura ou mundividências colectivas.

II

Esta foi a estação de Álamo Oliveira. De uma vez publicou quatro livros. Para além dos contos que venho recenseando, tem ainda O Sábio Da Miragaia (romance), Caderno Das Letras (ensaios sobre literatura predominantemente açoriana), e Telas & Cores (sobre vários pintores das ilhas ao longo dos tempos). Um pouco antes mas ainda este ano saio Poemas Vadios, todos eles da Companhia das Ilhas, das Lajes do Pico, a editora empenhada também, creio, na reedição de toda a sua obra. Em qualquer um deles, directa ou indirectamente, as nossas comunidades de além-mar estão sempre presentes, fazendo das nossas ilhas continentes repartidos e alongados. Um dia vamos todos perceber que não é possível qualquer história credível da nossa contemporaneidade sem esse facto levarem em conta todo e qualquer historiador/a. O tempo dos nossos complexos quanto a um estatuto de e/imigrante desde há muito foi ultrapassado. Tal como os brasileiros já falam de “comunidades” abertamente, e de “favelas” só às escondidas, entre nós recusamos essa dualidade meramente linguística. Ser “emigrante” ou “migrante” é, outra vez, a condição de vida mais universal. Já não poderemos esquecer ninguém, nem sequer os luso-descendentes em toda a parte. O poeta, também ele vadio ou andarilho, sabe disso, e na sua escrita raramente lhe escapa. Eis aqui “as amigas de taunton”:

as amigas de taunton gostam

da américa devagar como se fosse de mim

sabem cantar como se bordassem a ponto cruz

e choram como se tomassem um remédio.

As minhas amigas de taunton descem

dos altares até perderem a inocência

e vão trabalhar porque o pão não é de graça

na américa têm tempo para beijar os filhos

amar os companheiros sempre que necessário

odiar os ventos maus da fita que bem merecem

o desprezo das minhas amigas de taunton

não se julgam de julgadas não se perdem

de perdidas e sempre se dão bem em cada estação.

Deixam ao passar um sorriso pacífico

– pássaros em formação de fuga para os açores.

As minhas amigas de taunton são guerreiras

de água e sal. Quando se juntam

formam um lindo ramo de sonhos.

As minhas amigas de taunton estão

como deve ser: velhas amigas como eu.

Eis aí, no plural, “como deve ser” toda a nossa história de povo que sempre embarcou ou voou não só em busca do Sonho, mas também – o que poucas vezes é dito ou escrito – em fuga a um país que apesar dos seus séculos de existência nunca se definiu ou acomodou com justiça e igualdade a maior parte da sua gente. Virado para dentro ou para fora da Europa e do Atlântico, pertenceu sempre a uma minoria de privilegiados, e o resto que se fosse amanhando como podia ou sabia. A emigração terminou? Isso só se deve às circunstâncias da globalização que se abre para a grande finança e se fecha para a humanidade. Como açorianos temos boa parte da Europa aos nossos pés, mas sem a nossa história de povo que chamam de periférico. Olhamos desde sempre para o grande Oeste. Não? Cabe agora à literatura reavivar a nossa longa e funda memória – individual ou colectiva. O que vai dar no mesmo para quem souber ler e reflectir o que está e não está escrito. Toda a arte é essa dualidade perante mente e olhos: domínio da nossa dignidade ou o susto da nossa sorte, toda a humanidade nas suas contingências de vida e morte, de felicidade e tristeza.

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Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. A segunda parte deste texto não foi parte do meu ensaio. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental do dia 14 de Maio de 2021.

A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (I)

Penso na grande viagem a que me propus, sujeitando-me a um continente de grandes fortunas e de não menores usurpações, revendo uma geografia até agora, por mim conhecida apenas em filmes.

Álamo Oliveira, Contos D’América

Vamberto Freitas

Escrever sobre Álamo Oliveira e a sua obra não é nada fácil dada a sua grandeza literária e o número de livros já publicados (mais de quarenta), muitos dos quais são uma espécie de dialogismo bakthiano uns com os outros e com a própria sociedade, ou então fundamentados em histórias que ele próprio viveu, transfigurando-as em personagens que não nos leva a reconhecer a origem da sua criação. Acontece que desde há muitos anos as suas visitas e estadias nos Estados Unidos são frequentes, indo lá como escritor e encenador, ou então para conviver com a família. A verdade é que a América tornou-se-lhe incontornável por essas, e ainda outras razões. É a partir dessas suas andanças e convivências que começam a brotar de si as mais variadas histórias da nossa imigração naquele país, incluindo alusões directas e indirectas nalguns dos seus poemas. Antes de mais, este autor pertence a um grupo que cortou na literatura com os então retratos caricaturais dos que tinham saído das nossas ilhas em busca do sonho americano, esses que se limitavam a meramente transcrever o que pensavam ser os seus compatriotas vivendo e fixando-se permanentemente no grande país a ocidente, de quando em quando, muitos deles regressando à sua terra atlântica de origem com roupas naturalmente muito próprias e linguagens recortadas entre duas línguas. Foi Álamo, tal como Vasco Pereira da Costa num brilhante livro de poesia intitulado My American Friends, que em Portugal cortaram com toda essa visão supostamente cómica, devolvendo aos seus compatriotas toda a sua humanidade e direito à diferença.

Hoje nos Açores esse modo de estar e ser tornou-se comum entre nós: estilo de vestir entre os mais novos, e um discurso que, de frase em frase, mete uma palavra em inglês, a maior das vezes mal pronunciada mas fazendo do seu falador um rapaz ou rapariga que acha conhecer o mundo através de uma ou outra canção anglo-saxónica, de filmes e séries televisivas. Nem conhecem a América, e muitos historiadores queixam-se que nem sequer a história do seu próprio país. Tudo isto só para reafirmar aqui que a décima ilha existe, desde o Canadá e os EUA até no Maranhão ao extremo sul do Brasil. Cabem à arte e a outros discursos recolocar tudo no seu lugar, enriquecendo o nosso cânone literário nacional, e manifestando a seriedade dos seres humanos que optaram por vidas diferentes, economia e cultura geral, tudo que determina o modo de estarmos no mundo, e isso não implica nada com o lados cómico ou existencial de vidas reinventadas, de linguagens diferentes mas cuja mistura fazem parte do mais íntimo ser e vivência quotidiano em qualquer sociedade. Toda a literatura, em qualquer dos seus géneros, é a memória de um povo ou povos, essa que vai além de nomes e datas, guerra ou paz, que são dado vivermos. Relembro neste momento que também a escrita em inglês por imigrantes de primeira geração acontece desde há muito, e a partir dos anos noventa entre muitos dos nossos descendentes, um pouco por toda a parte, muito especialmente na América do Norte e, uma vez mais, no Brasil. Em inglês ou português, são eles que nos perpetuam ou replantam as nossas raízes noutros solos.

Em Contos D’América Álamo Oliveira dá, de certo modo, continuidade a um outro romance seu situado na Califórnia, Já não gosto de Chocolates, primeiro editado em Lisboa pela extinta Salamandra em 1999, depois reeditado pela Companhia das Ilhas (que vem republicando muita da obra de Álamo Oliveira), das Lajes do Pico, em 2017. A relevância da primeira edição não só estava assim reconhecida, como muitos anos depois viria a ser traduzida na América para o inglês, e em Tóquio para o japonês. Apresenta-nos nesse outro romance a vida de fortuna e desfortuna de uma família imigrante e de luso-descendentes liderada por um protagonista de nome Joe Sylvia, com todos os gostos e desgostos de filhos que tanto andam na linha tradicional dos pais e dos seus antepassados num de trabalho contínuo e duro na agro-pecuária na sua época dourada californiana, como divergem nas suas orientações pessoais no que diz respeito a opções divergentes que, entre outras, envolvem a sexualidade de um dos seus filhos. É uma obra que fica como marco indelével da nossa existência longe da casa natal numa das nossas ilhas, que “humaniza”, repito, ou devolve a cada personagem a complexidade que é o existencialismo de qualquer ser humano. Sendo uma visão da América vinda simultaneamente de fora e de dentro (lembrando-me outro romance que foi escrito muito perto de mim), Álamo Oliveira disse definitivamente, uma vez mais, adeus à brincadeira de outros que residiam no arquipélago e nos olhavam como seres exóticos e igualmente ignorantes sobre o quanto aconteceu nos Açores após a nossa partida. Cheguei a ouvir que “a América era agora aqui” durante os anos iniciais da ajuda financeira europeia. É certo que hoje vivemos todos numa grande arca devastada, de vida e morte que pode acontecer no dia-a-dia. Também é certo que o nivelamento parece vir por baixo para todos os países, mas desconfio. Muitos emigrariam amanhã para a América se fosse de todo possível. Só que já (no momento em que escrevo) não aceitam os nossos transatlânticos aterrar nas suas pistas, e choram do mesmo modo a Base das Lajes sem grandes números de “américas” e sem os empregos e investimentos que mudaram uma ou mais ilhas açorianas para sempre.

O próprio título Contos D’América denota de imediato (ao contrário do que seria “Contos Americanos”) que se trata de uma visão dupla do nosso destino entre os Açores e os Estados Unidos, com a acção e personagens como que entaladas entre duas realidades, uma influenciando decisivamente a outra. São onze contos que criam ou reinventam personagens nas duas sociedades. Na minha leitura permanece a ideia de que dominam as mulheres na sorte de todos, famílias e relacionamentos pessoais, questões de um povo dividido por bens e lutas nos dois lados das suas vivências. O narrador, ele próprio, vai-se surpreendendo com o desfecho de cada narrativa, ironia e humor puro presentes em cada uma das suas histórias. Estou em crer, como muitos outros leitores, que a forma do conto é uma das mais difíceis para qualquer escritor. Tem de revelar, em pouquíssimas páginas, toda uma história com princípio, meio e fim, enquanto nos transporta para o interior de cada ser por ele inventado. Retira ainda em transfiguração total “personalidades” e o seu viver tanto da imaginação pura como utiliza, suponho, pedaços de vida que ele conheceu em directo tanto nos Açores como nas suas visitas à América. Como no seu já referido romance anterior sobre o mesmo tema, o narrador olha para as duas sociedades com a frieza e o calor que as duas sociedades lhe provocam. Dos Açores, serão pouquíssimos os que emigraram como “aventura”, e a vasta maioria por necessidade económica ou financeira. A pobreza da nossa terra contrasta gritantemente com o que ele encontra na América, mas não fica por aí. Olha e vê vivamente o outro lado da sociedade que sempre mais nos atraiu: vidas falhadas, famílias desfeitas, a comédia existencial de alguns personagens que fogem ao estereótipo que temos das comunidades a oeste.

Contos D’América não é só sobre os que se foram, mas boa parte também sobre os que ficaram na pasmaceira de décadas passadas, a braços com a sobrevivência e tendo depois de partilhar as suas propriedades com os que os visitam periodicamente, e têm de dividir a pouca ou muita terra e casas de que desfrutaram na ausência longínqua das suas famílias

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Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente e mais extensiva, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. Publicado ontem (7 de Maio, 2021) no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.

Eduíno de Jesus e o poder das suas palavras

macerar as palavras/até fazerem sentido/depois macerar o sentido/até fazer palavras

Eduíno de Jesus, Como Tenuíssima Espuma de Luz

Vamberto Freitas

Eduíno de Jesus é para a minha geração açoriana uma referência profunda, douradora e consequente. Não menciono neste momento os deuses que o precederam ou ainda viveram muitos anos na sua companhia literária. Por certo que não é o único que cultiva os vários géneros da literatura em língua portuguesa. No seu caso particular algo de absolutamente original acontece. Nos últimos anos tem desesperado alguns dos seus colegas e amigos por não trazer cá para fora em livro os escritos críticos e ensaístas que ele cultivou no início da sua carreira, que começa nos Açores e continua em Lisboa nos mais variados jornais e revistas, especialmente a crítica e ensaísmo ssobre as artes diversas que o comoviam e lhe chamavam a atenção, desde as artes plásticas ao teatro e a escrita em geral. Só que ele, nos anos mais recentes, já tinha uma obra substancial, e ascendeu ao topo do cânone literário nacional quando em a Imprensa Nacional-Casa da Moeda publicou um grande volume da sua poesia intitulado os Silos do Silêncio (1948-2004). Aliás, é como poeta que Eduíno de Jesus é quase sempre identificado nos nossos meios literários. No entanto, não poderemos nunca esquecer que ele foi um dos membros chave em Ponta Delgada (é natural dos Arrifes), juntamente com alguns outros rebeldes que do famoso e histórico Bar Jade e do Círculo Literário Antero de Quental trouxeram para a literatura açoriana o modernismo tardio, após leituras de outros escritores de fora, de Cabo Verde aos nordestinos brasileiros. Continuamos a esperar a sua escrita de então, a que foi produzida nos Açores e depois no Continente, quando ele parte em 1951 para a Universidade de Coimbra. Só para sintetizar aqui brevemente o percurso da sua rica vida académica, adicione-se que deu aulas no ensino primário e secundário, terminando justamente como regente da cadeira de Teoria da Literatura na Universidade Nova de Lisboa entre 1979-2000. Basta aqui de datas, títulos e circunstâncias mais relevantes da sua vida, e falemos da sua poesia que acaba de ser publicada, alguma dela inédita, outra dando uma segunda volta dado o facto que muita da sua obra permanece em páginas de jornais, revistas e antologias nacionais e internacionais em várias línguas.

Muitos têm sido os que escrevem sobre a poesia de Eduíno de Jesus, o que provavelmente vai acontecer com este Como Tenuíssima Espuma de Luz (Poética Fragmentária), que vem profusamente ilustrado com desenhos do seu amigo Artur Bual. Só discordo de “Poética Fragmentada”, pois lido de página a página temos a unidade temática o estado simultaneamente existencialista e simbolista de um grande poeta. Os temas aqui não metem lava nem bruma, mas para os mais atentos é inevitável topar um açoriano verdadeiramente universal pela sua subtileza verbal, a palavra trabalhada como se ele fora um artesão linguístico, e depois a Natureza como despoletadora das suas imagens e vida interior, que rejeita a dramatização e segue pelo dito quase indiferente sobre si próprio, ou então em recordações comovidas de outros lugares e conhecidos. Não será sem mais nem menos que ele dedica quase todos estes poemas a vários colegas ou dos afectos, que começam com um in memoriam a Vergílio Ferreira, e depois segue com um série de conhecidos (a lista aqui é parcial da minha parte) nomes açorianos: Alzira Silva, Eleonora Marino Duarte, José Enes, outro in memoriam a Jacinto Soares de Albergaria, Fernando Aires, António Dacosta, Carlos Alberto Moniz, Urbano Bettencourt, Maria João Ruivo, estes últimos três nomes felizmente entre nós. Se menciono estes entre outros nomes é com a intenção de também afirmar que a história da nossa literatura (essa história que está feita mas dispersa por várias publicações) nunca deixou que os grandes centros do país desfizesse o apego às origens. Aliás, em 2019 o Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, editou Eduíno de Jesus A Ca(u)sa Dos Açores em Lisboa: homenagem de amigos e admiradores, organizado por Onésimo Teotónio Almeida e Leonor Simas-Almeida. Atenção ao título que traz o “u” entre parênteses denominado desse modo o seu papel binário também como director cultural daquela instituição na nossa capital.

A poesia do presente livro é uma sinfonia de memórias e sentimentos, na qual, em certos versos, até a divisão de palavras funcionam com um ritmo próprio, como na voz de uma cantor ou a beleza discretamente colorida de uma pintura, tal como as do referido Artur Bual que é parte integrante destas páginas. Eduíno de Jesus esteve sempre consciente que a grande literatura do mundo é sempre a memória de um homem ou de uma mulher, todos contendo em si a memória do seu tempo e lugares. “A poesia de Eduíno de Jesus – escreve Urbano Bettencourt num passo da contracapa deste livro, e tirada do seu recente Sala De Espelhos, um extenso estudo sobre autores açorianos – seguiu por outros caminhos, num assumido subjectivismo e numa sobrevigiada elaboração formal, atenta ao poder da palavra e às potencialidades do seu manuseamento, desembocando por vezes no terreno do experimentalismo verbal e poético”. É precisamente o formalismo reinventado pela chamada Nova Crítica americana, teoricamente trabalhada a partir dos anos 40 por estudiosos e escritores do Sul do país como se fora uma mensagem aos de Nova Iorque que a grandeza de um texto ou de uma narrativa depende em primeiro lugar certeira manipulação da língua e das linguagens e nunca da geografia ou mesmo da história vivida, guerra e paz, amor e desamor, personagens e incidentes que a outros passariam sem significado algum podem ser a tradução, uma vez mais, de um indivíduo ou de toda uma comunidade. A poesia de Eduíno de Jesus tem por vezes sinais do confessionalismo americano dos anos 50-60, se bem que não tem a ver com a luta por causas ou o protesto ruidoso do famoso “Howl”de um Allen Ginsburg. Trata-se tão-só de uma poética que exterioriza o que lhe vai na alma, ou então numa tentativa de entender os que são vistos ou imaginados à sua volta ou um olhar irrequieto ou triste como no poema “Guitarra Portuguesa”. Música, mulheres, sensualidade quase escondida ou meramente insinuada em alguns destes versos e, sempre, a memória e o poder da palavra em vidas que não passam em vão ou ignoradas. Aqui vai um exemplo desse “macerar” artístico e literário em “As Palavras”.

As palavras, meu Deus, como são

imprecisas, volúveis. No entanto,

elas só (enquanto os homens passam)

guardam para sempre o sinal do tempo.

Delas nascem depois avisos,

as borboletas do ar, as larvas da terra;

elas próprias escavam os abismos,

abrem as asas e o voo (elas só afinal) desferem.

Imprecisas? Volúveis? Mas inamovíveis,

elas lá ficam na página branca

à espera de um Levanta-te e caminha

de qualquer voz humana.

Ler Como Tenuíssima Espuma De luz (Poética Fragmentária) é reencontramos o mais profundo do nosso ser ou, como diria a saudosa Maria Lúcia Lepechi, “… Com o teu saber dos sons, com a melodia inoculada em cada poema, em cada estrofe, em cada verso, tu ressuscitas nos teus leitores a magia dos primeiros encontros com o mundo sagrado da poesia”. Eduíno de Jesus produziu uma obra cuja grandeza, em qualquer género e ante os críticos e ensaístas, tornou-se desde há muito uma referência para a minha geração. Um encontro com ele quase se tornava num seminário sobre todas estas e outras questões da literatura. Vive num mundo restrito quanto à atenção que a maioria presta à literatura em geral. Só que não sabem que a sua indefinida identidade reside para sempre nestas e nas maiores literaturas do mundo. Digo tudo isto ainda em gesto de admiração e agradecimento pelo e ao poeta que, como também diria o também grandioso José Martins Garcia, saiu de uma ilha para o mundo. Ao contrário do autor da poesia em Temporal, Eduíno não se perdeu nesses seus mundos. Fixou-os indelevelmente para si, e nesse processo devolveu-nos com brilhantismo a nossa própria existência, vidas nem sempre conscientes nem da luz nem da inevitável escuridão, que só a grande arte (para lembrar aqui um título de Rubem Fonseca) em geral nos obriga a um novo olhar para dentro e para fora.

A obra de Eduíno De Jesus – descontando o que provavelmente está ainda na gaveta e antes do já mencionado Silos do Silêncio/Poesia (1948-2004) – inclui ainda Caminho para o Desconhecido, 1952, O Rei Lua, 1955, A Cidade Destruída Durante o Eclipse, 1957, todos estes publicados em Coimbra, e ainda a peça de teatro Cinco Minutos e o Destino, editada numa separata da Açória, nº 2.

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Eduíno De Jesus, Com Tenuíssima Espuma De Luz (Poética Fragmentária). Ponta Delgada, Nona Poesia/Nova Gráfica, 2021. Publicado ontem no meu “BorderCrossings”do Açoriano Oriental, 30 de Abril, 2021.