BORDERCROSSINGS 6

O TANGO LITERÁRIO DE VAMBERTO FREITAS

Henrique Levy

do redor de um tempo recuperado para a vida

A crítica literária tende a ordenar o que literatura concebeu numa expressão de veracidade afastada da lisura do motivo para o surgimento de um poema ou da trama traçada numa novela.

Em primeira instância, o crítico literário remete-se a criar a disposição para supor leitores, permitindo-se, assim, participar da vida das obras recenseadas com o olhar de um místico arrebatador em defesa das palavras, quantas vezes, imprudentemente, deixadas a navegar pelos leitores desolados na gélida infinitude de leituras melancólicas, frágeis, aguerridas e que buscam na construção literária a resposta para ausências ou o simples deleite de um tempo não-esgotado na leitura de um livro. Ao crítico literário cabe decidir da justeza de certas construções sintáticas para construir ou alterar o inefável lugar das palavras ora surgidas como ouro, ora desprezadas como no episódio de Babel. Assim se vão decidindo novas referências aos leitores, mesmo sem eles disso darem conta. Um bom crítico deve propor novas estruturas à volta de um jogo literário em que o autor e o leitor se encontram não em campos opostos, mas num caos complementar. Um não vive sem o outro, e ambos não se sugerem sem que a crítica venha golpear a infinita tentativa para recuperar o sentido e a força das palavras. Assim se destaca uma nova interpretação da estrutura da obra, quantas vezes perdida em partituras, que o tempo da leitura faz avançar sobre a arte de criar Literatura. Se um texto balança num aglomerado de sentidos, e se a mudança de outro desempenho dos significados se cola à dúvida do leitor, então a desconstrução da crítica reveste-se da essência vertida nos íntimos desígnios dos versos, das tramas ficcionadas nos romances e dos leitores, cuja capacidade de indignação surge muito antes da leitura. Toda a interpretação de uma obra tem mais valor quanto mais longe do conceito verdade o leitor se encontrar.

da revelação da vida ao acesso a distintas probabilidades

Não foi sem surpresa que recebi o convite de Vamberto Freitas para me referir ao sexto volume de borderCrossings.

Para um poeta, habituado a consagrar o pensamento a horizontes escoados de versos, a tarefa de escrever sobre uma obra do mais inspirado e respeitado crítico literário da nossa Região afigura-se íngreme e sempre incompleta.

A minha amizade e admiração por Vamberto Freitas não me permitiu renunciar a tão imerecida tarefa.

Vamberto Freitas, através do seu borderCrossings editado regularmente no jornal Açoriano Oriental, vai revelando a importância da Literatura e da sua capacidade de representação da cultura. Abrangendo, também, as preocupações dos leitores em perseverar a possibilidade do conhecimento, dos movimentos das Sociedades Humanas e da Natureza, contido nestas nove ilhas e devolvido nos quatro Continentes, a par de uma indossincrática forma de olhar o mundo.

Vamberto Freitas emerge na crítica literária como uma voz singular dedicada a suprimir, com êxito, as escassas notícias ou artigos sobre Literatura publicados nos jornais dos Açores, tentando resgatar do olvido alguns escritores açorianos, por nascimento ou por opção, que deram vida a textos poéticos ou de ficção, a que Vamberto Freitas procura, através das suas recensões, criar a curiosidade necessária para cativar futuros leitores.

Um dia, Vamberto confessou-me que só escreve sobre livros de que gosta, que presumem mudança ou a feliz continuidade ao aparato literário açoriano.

do bolso que leva as chaves de várias casas

Com sofisticada linguagem, Vamberto Freitas empresta-nos a sua visão do mundo, surgida em textos de maior ou menor literariedade. Cada texto deste borderCrossings desencadeia um novo processo onde o crítico literário se reinventa cultivando no leitor, da sua coluna no Açoriano Oriental, a amplitude desejável para a uma diferente compreensão do universo dos mais variados autores, onde enaltece a habilidade linguística, a criatividade e a transfiguração ideológica do texto a que entrega a possibilidade de uma nova leitura, nunca desvendando o essencial da trama narrativa, ou as possibilidades que um poema tem de nos fazer sentir.

Dotado de inteligência metódica e rigorosa, Vamberto Freitas, sempre generoso para com os autores, cujas recensões publica neste tomo, é dos poucos intelectuais que se entrega à crítica literária publicada regularmente nos jornais da nossa Região.

Inseparável da convicção que só pela instrução o Homem alcança a verdadeira liberdade, Vamberto Freitas em todos os seus textos propõe-se reclamar, para os Açores, Cálice Sagrado da Literatura, o berço do que de melhor se escreve em Portugal. Fascinado pela alma humana, exposta em poemas ou em obras de ficção, o autor deste borderCrossings 6usa um estilo cuidado ao expor ideias e ao indicar diversificadas possibilidades de leitura, concebendo as obras estudadas como construção da existência humana através da uma original criatividade da produção literária. Vamberto Freitas empresta-nos a arte de persuadir a leitura, oferendo-nos uma interpretação que se inspira na distinção entre as essências do universo psicológico e as experiências emocionais vividas pelos autores estudados/apresentados.

Vamberto Freitas encontra sempre a tendência para confiar nos efeitos benéficos da atividade da leitura, não deixando de abordar as obras de um ponto de vista ideológico, tendo em vista a importância da publicação dos seus estudos para a difusão da Literatura produzida nos Açores.

da indiferença e do sentido da ausência

A divulgação das especificidades da Cultura Açoriana não pode estar plasmada nas iniciativas de meia dúzia de deslumbrados por si próprios. O arquipélago é formado por nove ilhas em espaço atlântico e não por uma concha fechada sobre aqueles a quem certa Comunicação Social resolveu conferir espaço de divulgação em detrimento de todos os outros que, respeitando a História e a Cultura do povo açoriano, demonstram coragem de pensar pela sua própria cabeça, desprezando o aceitável e o politicamente correto.

Quando nos propõem apresentar a candidatura de Ponta Delgada e dos Açores a Capital Europeia de Cultura 2027, lembramos um horizonte próximo centrado na discussão de um boi empalhado e no arremesso insultuoso de um responsável político ao digníssimo director de um museu. Não esquecemos querelas mesquinhas entre intervenientes culturais ao serviço de interesses mais ou menos obscuros, enquanto a maioria das ilhas não tem uma livraria e mantêm ao abandono cineteatros e outros recintos que deviam ser ocupados com eventos culturais. Construíram-se espaços museológicos que estão vazios. Não se investe na educação cultural. A dinâmica das bibliotecas municipais e/ou escolares limita-se a convidar autores, a propor horas de leitura e pouco mais. Não podemos esquecer que, segundo estatísticas, (9,4%) dos açorianos são analfabetos. Quase 1/3 dos alunos entre os 18 e os 24 anos não termina os estudos, numa população onde a esmagadora maioria não consegue concluir o ensino secundário. A política cultural dos sucessivos governos da Região Autónoma dos Açores consistiu no receio de saber que um povo com livre acesso à cultura é um povo livre e por isso dificilmente manipulado por realidades externas ao progresso das suas competências culturais, nada acrescentando à autodeterminação cultural, direito consagrado a todos os povos.

da consciência e do refúgio

Mais uma vez, ao publicar o sexto volume de borderCrossings, Vamberto Freitas leva-nos a refletir que a ausência de certas capacidades do cidadão comum está diretamente relacionada com a escassez de bens culturais. Em metáforas sublimadas nos seus textos, o autor aponta a recusa dos sucessivos governos da Região em incrementar uma atenção especial a políticas públicas voltadas para a cultura, especialmente, na divulgação da cultura popular açoriana.

Os textos de Vamberto Freitas relevam, na dinâmica interna da nossa Literatura, um umbral que sustenta a cultura da chamada açorianidade, na medida em que é pela Literatura de temática açoriana que Vamberto Freitas articula o diálogo entre as existências literárias e a História de um heróico povo por elas exaltadas.

Através das suas apreciações críticas, Vamberto Freitas realça as disposições do valor estético na Literatura Açoriana, tornando-o no mais vivo crítico literário disposto a compreender e dar a conhecer as tradições histórico-culturais da Literatura produzida no nosso arquipélago ou que a ele se dirige. Assim se sustém a referência ao ensaio do crítico literário, como ator cultural que não se suspende numa interpretação neutra afastada das pertenças virtudes da obra analisada, mas, pelo contrário, fundamenta-as em critérios articulados por uma metodologia teórica expressa numa linguagem de fácil acesso ao comum dos leitores. Vamberto Freitas junta a este processo a sua capacidade de acerto, intransigência, firmeza e coesão, condições próprias da epistemologia da investigação.

das nítidas aves em voo

Em Nota Breve a borderCrossings 6, Vamberto Freitas afirma: Todos estes trabalhos fazem parte do meu imaginário.

Henrique Levy

Casa da Mediana

junho de 2021

Publicado no “Açoriano Oriental”, 25 de de Junho de 2021.