A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (II)

Emigrou com os pais e os irmãos, aos quinze anos de idade. Saiu da Terceira com o entusiasmo imberbe de quem quer vencer depressa, embalando a imaginação com as estórias de encantamento que ouvira, como essa de sacudir as árvores e delas cair um Outono de dólares.

Álamo Oliveira, Contos D’América

Vamberto Freitas

I

Contos D’ América contém uma prosa caracterizada sobretudo pela ironia, comédia e pelo drama, tanto dos que se foram como dos que ficaram. Mexeu com a alma de nós todos. Nem deixa passar em branco que as crianças de um bem conhecido bairro da lata ao lado da Base das Lajes, e não só, as que foram dadas ou vendidas à tropa americana de vários escalões. Quem optou por nunca partir sofreu do mesmo modo dos que se foram. Por vezes, o narrador faz como que um riso vivo a auto-referências de outros romances seus que foram denunciados pela Igreja, como Murmúrios Com Vinho De Missa e Marta De Jesus (A Verdadeira), goza com a ficção de ter de se justificar perante o Vaticano. Não faltam sequer nestas páginas uma prostituta ou prostitutas com ganas dessa vida para dar de comer aos seus ou por gosto próprio, nos dois países que passariam a ser os seus, como no conto “A minha Estela”, e que em parte satisfaziam a fome sexual de americanos e de outros numa casa terceirense com o belo nome de Paz e Sossego.

Fiquemos por aqui, e sigamos com uma citação do conto “João, John Juan”, que nos mostra a transfiguração de uma personagem que percorre as mais variadas e inesperadas profissões e mundos nada comuns entre os nossos imigrantes, começando na ilha Terceira, passa alguns anos pela América e acaba no México. Trata-se de uma caminhada de vida singular, tão corajosa como cómica aos olhos de outros, aos que lerão estas novas páginas de Álamo Oliveira.

“João Pereira (nos Açores), John Perry (na Califórnia e Juan EL Portugês (no México) foi uma pessoa bastante conhecida… Da inteligência, dir-se-ão os sucessivos cursos tirados em Faculdades insuspeitas, todos voltados para a necessidade poética do ganha-pão, que fizeram com que mudasse de profissão como quem muda de camisa, numa cadência social muito alternada com prestígios, ora altos ora baixos. Começou por ordenhar vacas numa leitaria do Chino; vendeu automóveis e bolachas dietéticas na área da grande Los Angeles; preencheu declarações de indeclarantes que não sabiam ler nem escrever empurrando-os para o fisco; deu aulas de americano a indocumentados; foi orador sacro em concurso ganho pelo seu muito saber e talento: acabou num porta-a-porta cirúrgico, promovendo a venda de acrescentos de pénis a quem se sentisse mal servido…”.

Todos estes Contos D’América são um riso constante, sem nunca denegrir as personagens, a sua legitimação como seres ficcionais completos, nunca trespassam o drama ou a comédia que são, afinal, as vidas de nós todos. A capacidade poética do Álamo Oliveira é quase sempre transferida para a sua prosa desde os seus primeiros romances. Aliás, Emanuel Félix, o falecido supremo poeta açoriano, escreveu na contracapa da primeira edição do romance Não Gosto de Chocolates, referido anteriormente aqui. “Alguém o assinalou, de resto, com absoluta pertinência, ao falar de Álamo Oliveira e referindo já o sentido de humor, a tensão dramática e outras situações implícitas na prodigiosa humanidade com que o autor povoou centenas de páginas, todas elas marcadas por um incontestável virtuosismo estilístico”.

Todas estas palavras aqui citadas sinalizam essa sua consistência literária em toda a sua obra. Uma vida inteira a pensar a sua e nossa sorte entre dois mundos bem diferentes, mas que desde há muito fizeram parte do nosso destino. Sei que não se deve catalogar ou enredar um autor numa determinada visão da vida, em mutação constante. Álamo Oliveira é, no entanto, um existencialista, um escritor cujas personagens e escolhas do seu lugar na comunidade ou sociedade onde vivem é sempre da sua própria responsabilidade. Só que, desse modo, acaba por retratar um pouco de nós todos, e nesse processo de reinvenção, sim, a natureza da cultura ou mundividências colectivas.

II

Esta foi a estação de Álamo Oliveira. De uma vez publicou quatro livros. Para além dos contos que venho recenseando, tem ainda O Sábio Da Miragaia (romance), Caderno Das Letras (ensaios sobre literatura predominantemente açoriana), e Telas & Cores (sobre vários pintores das ilhas ao longo dos tempos). Um pouco antes mas ainda este ano saio Poemas Vadios, todos eles da Companhia das Ilhas, das Lajes do Pico, a editora empenhada também, creio, na reedição de toda a sua obra. Em qualquer um deles, directa ou indirectamente, as nossas comunidades de além-mar estão sempre presentes, fazendo das nossas ilhas continentes repartidos e alongados. Um dia vamos todos perceber que não é possível qualquer história credível da nossa contemporaneidade sem esse facto levarem em conta todo e qualquer historiador/a. O tempo dos nossos complexos quanto a um estatuto de e/imigrante desde há muito foi ultrapassado. Tal como os brasileiros já falam de “comunidades” abertamente, e de “favelas” só às escondidas, entre nós recusamos essa dualidade meramente linguística. Ser “emigrante” ou “migrante” é, outra vez, a condição de vida mais universal. Já não poderemos esquecer ninguém, nem sequer os luso-descendentes em toda a parte. O poeta, também ele vadio ou andarilho, sabe disso, e na sua escrita raramente lhe escapa. Eis aqui “as amigas de taunton”:

as amigas de taunton gostam

da américa devagar como se fosse de mim

sabem cantar como se bordassem a ponto cruz

e choram como se tomassem um remédio.

As minhas amigas de taunton descem

dos altares até perderem a inocência

e vão trabalhar porque o pão não é de graça

na américa têm tempo para beijar os filhos

amar os companheiros sempre que necessário

odiar os ventos maus da fita que bem merecem

o desprezo das minhas amigas de taunton

não se julgam de julgadas não se perdem

de perdidas e sempre se dão bem em cada estação.

Deixam ao passar um sorriso pacífico

– pássaros em formação de fuga para os açores.

As minhas amigas de taunton são guerreiras

de água e sal. Quando se juntam

formam um lindo ramo de sonhos.

As minhas amigas de taunton estão

como deve ser: velhas amigas como eu.

Eis aí, no plural, “como deve ser” toda a nossa história de povo que sempre embarcou ou voou não só em busca do Sonho, mas também – o que poucas vezes é dito ou escrito – em fuga a um país que apesar dos seus séculos de existência nunca se definiu ou acomodou com justiça e igualdade a maior parte da sua gente. Virado para dentro ou para fora da Europa e do Atlântico, pertenceu sempre a uma minoria de privilegiados, e o resto que se fosse amanhando como podia ou sabia. A emigração terminou? Isso só se deve às circunstâncias da globalização que se abre para a grande finança e se fecha para a humanidade. Como açorianos temos boa parte da Europa aos nossos pés, mas sem a nossa história de povo que chamam de periférico. Olhamos desde sempre para o grande Oeste. Não? Cabe agora à literatura reavivar a nossa longa e funda memória – individual ou colectiva. O que vai dar no mesmo para quem souber ler e reflectir o que está e não está escrito. Toda a arte é essa dualidade perante mente e olhos: domínio da nossa dignidade ou o susto da nossa sorte, toda a humanidade nas suas contingências de vida e morte, de felicidade e tristeza.

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Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. A segunda parte deste texto não foi parte do meu ensaio. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental do dia 14 de Maio de 2021.

A América Vista Dos Açores E Os Açores Vistos Da América (I)

Penso na grande viagem a que me propus, sujeitando-me a um continente de grandes fortunas e de não menores usurpações, revendo uma geografia até agora, por mim conhecida apenas em filmes.

Álamo Oliveira, Contos D’América

Vamberto Freitas

Escrever sobre Álamo Oliveira e a sua obra não é nada fácil dada a sua grandeza literária e o número de livros já publicados (mais de quarenta), muitos dos quais são uma espécie de dialogismo bakthiano uns com os outros e com a própria sociedade, ou então fundamentados em histórias que ele próprio viveu, transfigurando-as em personagens que não nos leva a reconhecer a origem da sua criação. Acontece que desde há muitos anos as suas visitas e estadias nos Estados Unidos são frequentes, indo lá como escritor e encenador, ou então para conviver com a família. A verdade é que a América tornou-se-lhe incontornável por essas, e ainda outras razões. É a partir dessas suas andanças e convivências que começam a brotar de si as mais variadas histórias da nossa imigração naquele país, incluindo alusões directas e indirectas nalguns dos seus poemas. Antes de mais, este autor pertence a um grupo que cortou na literatura com os então retratos caricaturais dos que tinham saído das nossas ilhas em busca do sonho americano, esses que se limitavam a meramente transcrever o que pensavam ser os seus compatriotas vivendo e fixando-se permanentemente no grande país a ocidente, de quando em quando, muitos deles regressando à sua terra atlântica de origem com roupas naturalmente muito próprias e linguagens recortadas entre duas línguas. Foi Álamo, tal como Vasco Pereira da Costa num brilhante livro de poesia intitulado My American Friends, que em Portugal cortaram com toda essa visão supostamente cómica, devolvendo aos seus compatriotas toda a sua humanidade e direito à diferença.

Hoje nos Açores esse modo de estar e ser tornou-se comum entre nós: estilo de vestir entre os mais novos, e um discurso que, de frase em frase, mete uma palavra em inglês, a maior das vezes mal pronunciada mas fazendo do seu falador um rapaz ou rapariga que acha conhecer o mundo através de uma ou outra canção anglo-saxónica, de filmes e séries televisivas. Nem conhecem a América, e muitos historiadores queixam-se que nem sequer a história do seu próprio país. Tudo isto só para reafirmar aqui que a décima ilha existe, desde o Canadá e os EUA até no Maranhão ao extremo sul do Brasil. Cabem à arte e a outros discursos recolocar tudo no seu lugar, enriquecendo o nosso cânone literário nacional, e manifestando a seriedade dos seres humanos que optaram por vidas diferentes, economia e cultura geral, tudo que determina o modo de estarmos no mundo, e isso não implica nada com o lados cómico ou existencial de vidas reinventadas, de linguagens diferentes mas cuja mistura fazem parte do mais íntimo ser e vivência quotidiano em qualquer sociedade. Toda a literatura, em qualquer dos seus géneros, é a memória de um povo ou povos, essa que vai além de nomes e datas, guerra ou paz, que são dado vivermos. Relembro neste momento que também a escrita em inglês por imigrantes de primeira geração acontece desde há muito, e a partir dos anos noventa entre muitos dos nossos descendentes, um pouco por toda a parte, muito especialmente na América do Norte e, uma vez mais, no Brasil. Em inglês ou português, são eles que nos perpetuam ou replantam as nossas raízes noutros solos.

Em Contos D’América Álamo Oliveira dá, de certo modo, continuidade a um outro romance seu situado na Califórnia, Já não gosto de Chocolates, primeiro editado em Lisboa pela extinta Salamandra em 1999, depois reeditado pela Companhia das Ilhas (que vem republicando muita da obra de Álamo Oliveira), das Lajes do Pico, em 2017. A relevância da primeira edição não só estava assim reconhecida, como muitos anos depois viria a ser traduzida na América para o inglês, e em Tóquio para o japonês. Apresenta-nos nesse outro romance a vida de fortuna e desfortuna de uma família imigrante e de luso-descendentes liderada por um protagonista de nome Joe Sylvia, com todos os gostos e desgostos de filhos que tanto andam na linha tradicional dos pais e dos seus antepassados num de trabalho contínuo e duro na agro-pecuária na sua época dourada californiana, como divergem nas suas orientações pessoais no que diz respeito a opções divergentes que, entre outras, envolvem a sexualidade de um dos seus filhos. É uma obra que fica como marco indelével da nossa existência longe da casa natal numa das nossas ilhas, que “humaniza”, repito, ou devolve a cada personagem a complexidade que é o existencialismo de qualquer ser humano. Sendo uma visão da América vinda simultaneamente de fora e de dentro (lembrando-me outro romance que foi escrito muito perto de mim), Álamo Oliveira disse definitivamente, uma vez mais, adeus à brincadeira de outros que residiam no arquipélago e nos olhavam como seres exóticos e igualmente ignorantes sobre o quanto aconteceu nos Açores após a nossa partida. Cheguei a ouvir que “a América era agora aqui” durante os anos iniciais da ajuda financeira europeia. É certo que hoje vivemos todos numa grande arca devastada, de vida e morte que pode acontecer no dia-a-dia. Também é certo que o nivelamento parece vir por baixo para todos os países, mas desconfio. Muitos emigrariam amanhã para a América se fosse de todo possível. Só que já (no momento em que escrevo) não aceitam os nossos transatlânticos aterrar nas suas pistas, e choram do mesmo modo a Base das Lajes sem grandes números de “américas” e sem os empregos e investimentos que mudaram uma ou mais ilhas açorianas para sempre.

O próprio título Contos D’América denota de imediato (ao contrário do que seria “Contos Americanos”) que se trata de uma visão dupla do nosso destino entre os Açores e os Estados Unidos, com a acção e personagens como que entaladas entre duas realidades, uma influenciando decisivamente a outra. São onze contos que criam ou reinventam personagens nas duas sociedades. Na minha leitura permanece a ideia de que dominam as mulheres na sorte de todos, famílias e relacionamentos pessoais, questões de um povo dividido por bens e lutas nos dois lados das suas vivências. O narrador, ele próprio, vai-se surpreendendo com o desfecho de cada narrativa, ironia e humor puro presentes em cada uma das suas histórias. Estou em crer, como muitos outros leitores, que a forma do conto é uma das mais difíceis para qualquer escritor. Tem de revelar, em pouquíssimas páginas, toda uma história com princípio, meio e fim, enquanto nos transporta para o interior de cada ser por ele inventado. Retira ainda em transfiguração total “personalidades” e o seu viver tanto da imaginação pura como utiliza, suponho, pedaços de vida que ele conheceu em directo tanto nos Açores como nas suas visitas à América. Como no seu já referido romance anterior sobre o mesmo tema, o narrador olha para as duas sociedades com a frieza e o calor que as duas sociedades lhe provocam. Dos Açores, serão pouquíssimos os que emigraram como “aventura”, e a vasta maioria por necessidade económica ou financeira. A pobreza da nossa terra contrasta gritantemente com o que ele encontra na América, mas não fica por aí. Olha e vê vivamente o outro lado da sociedade que sempre mais nos atraiu: vidas falhadas, famílias desfeitas, a comédia existencial de alguns personagens que fogem ao estereótipo que temos das comunidades a oeste.

Contos D’América não é só sobre os que se foram, mas boa parte também sobre os que ficaram na pasmaceira de décadas passadas, a braços com a sobrevivência e tendo depois de partilhar as suas propriedades com os que os visitam periodicamente, e têm de dividir a pouca ou muita terra e casas de que desfrutaram na ausência longínqua das suas famílias

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Álamo Oliveira, Contos D’América, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2021. Publicado originalmente, em forma ligeiramente diferente e mais extensiva, na revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal Of Portuguese-American Letters And Studies, Volume 43, Brown University, 2021. Publicado ontem (7 de Maio, 2021) no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.

Eduíno de Jesus e o poder das suas palavras

macerar as palavras/até fazerem sentido/depois macerar o sentido/até fazer palavras

Eduíno de Jesus, Como Tenuíssima Espuma de Luz

Vamberto Freitas

Eduíno de Jesus é para a minha geração açoriana uma referência profunda, douradora e consequente. Não menciono neste momento os deuses que o precederam ou ainda viveram muitos anos na sua companhia literária. Por certo que não é o único que cultiva os vários géneros da literatura em língua portuguesa. No seu caso particular algo de absolutamente original acontece. Nos últimos anos tem desesperado alguns dos seus colegas e amigos por não trazer cá para fora em livro os escritos críticos e ensaístas que ele cultivou no início da sua carreira, que começa nos Açores e continua em Lisboa nos mais variados jornais e revistas, especialmente a crítica e ensaísmo ssobre as artes diversas que o comoviam e lhe chamavam a atenção, desde as artes plásticas ao teatro e a escrita em geral. Só que ele, nos anos mais recentes, já tinha uma obra substancial, e ascendeu ao topo do cânone literário nacional quando em a Imprensa Nacional-Casa da Moeda publicou um grande volume da sua poesia intitulado os Silos do Silêncio (1948-2004). Aliás, é como poeta que Eduíno de Jesus é quase sempre identificado nos nossos meios literários. No entanto, não poderemos nunca esquecer que ele foi um dos membros chave em Ponta Delgada (é natural dos Arrifes), juntamente com alguns outros rebeldes que do famoso e histórico Bar Jade e do Círculo Literário Antero de Quental trouxeram para a literatura açoriana o modernismo tardio, após leituras de outros escritores de fora, de Cabo Verde aos nordestinos brasileiros. Continuamos a esperar a sua escrita de então, a que foi produzida nos Açores e depois no Continente, quando ele parte em 1951 para a Universidade de Coimbra. Só para sintetizar aqui brevemente o percurso da sua rica vida académica, adicione-se que deu aulas no ensino primário e secundário, terminando justamente como regente da cadeira de Teoria da Literatura na Universidade Nova de Lisboa entre 1979-2000. Basta aqui de datas, títulos e circunstâncias mais relevantes da sua vida, e falemos da sua poesia que acaba de ser publicada, alguma dela inédita, outra dando uma segunda volta dado o facto que muita da sua obra permanece em páginas de jornais, revistas e antologias nacionais e internacionais em várias línguas.

Muitos têm sido os que escrevem sobre a poesia de Eduíno de Jesus, o que provavelmente vai acontecer com este Como Tenuíssima Espuma de Luz (Poética Fragmentária), que vem profusamente ilustrado com desenhos do seu amigo Artur Bual. Só discordo de “Poética Fragmentada”, pois lido de página a página temos a unidade temática o estado simultaneamente existencialista e simbolista de um grande poeta. Os temas aqui não metem lava nem bruma, mas para os mais atentos é inevitável topar um açoriano verdadeiramente universal pela sua subtileza verbal, a palavra trabalhada como se ele fora um artesão linguístico, e depois a Natureza como despoletadora das suas imagens e vida interior, que rejeita a dramatização e segue pelo dito quase indiferente sobre si próprio, ou então em recordações comovidas de outros lugares e conhecidos. Não será sem mais nem menos que ele dedica quase todos estes poemas a vários colegas ou dos afectos, que começam com um in memoriam a Vergílio Ferreira, e depois segue com um série de conhecidos (a lista aqui é parcial da minha parte) nomes açorianos: Alzira Silva, Eleonora Marino Duarte, José Enes, outro in memoriam a Jacinto Soares de Albergaria, Fernando Aires, António Dacosta, Carlos Alberto Moniz, Urbano Bettencourt, Maria João Ruivo, estes últimos três nomes felizmente entre nós. Se menciono estes entre outros nomes é com a intenção de também afirmar que a história da nossa literatura (essa história que está feita mas dispersa por várias publicações) nunca deixou que os grandes centros do país desfizesse o apego às origens. Aliás, em 2019 o Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, editou Eduíno de Jesus A Ca(u)sa Dos Açores em Lisboa: homenagem de amigos e admiradores, organizado por Onésimo Teotónio Almeida e Leonor Simas-Almeida. Atenção ao título que traz o “u” entre parênteses denominado desse modo o seu papel binário também como director cultural daquela instituição na nossa capital.

A poesia do presente livro é uma sinfonia de memórias e sentimentos, na qual, em certos versos, até a divisão de palavras funcionam com um ritmo próprio, como na voz de uma cantor ou a beleza discretamente colorida de uma pintura, tal como as do referido Artur Bual que é parte integrante destas páginas. Eduíno de Jesus esteve sempre consciente que a grande literatura do mundo é sempre a memória de um homem ou de uma mulher, todos contendo em si a memória do seu tempo e lugares. “A poesia de Eduíno de Jesus – escreve Urbano Bettencourt num passo da contracapa deste livro, e tirada do seu recente Sala De Espelhos, um extenso estudo sobre autores açorianos – seguiu por outros caminhos, num assumido subjectivismo e numa sobrevigiada elaboração formal, atenta ao poder da palavra e às potencialidades do seu manuseamento, desembocando por vezes no terreno do experimentalismo verbal e poético”. É precisamente o formalismo reinventado pela chamada Nova Crítica americana, teoricamente trabalhada a partir dos anos 40 por estudiosos e escritores do Sul do país como se fora uma mensagem aos de Nova Iorque que a grandeza de um texto ou de uma narrativa depende em primeiro lugar certeira manipulação da língua e das linguagens e nunca da geografia ou mesmo da história vivida, guerra e paz, amor e desamor, personagens e incidentes que a outros passariam sem significado algum podem ser a tradução, uma vez mais, de um indivíduo ou de toda uma comunidade. A poesia de Eduíno de Jesus tem por vezes sinais do confessionalismo americano dos anos 50-60, se bem que não tem a ver com a luta por causas ou o protesto ruidoso do famoso “Howl”de um Allen Ginsburg. Trata-se tão-só de uma poética que exterioriza o que lhe vai na alma, ou então numa tentativa de entender os que são vistos ou imaginados à sua volta ou um olhar irrequieto ou triste como no poema “Guitarra Portuguesa”. Música, mulheres, sensualidade quase escondida ou meramente insinuada em alguns destes versos e, sempre, a memória e o poder da palavra em vidas que não passam em vão ou ignoradas. Aqui vai um exemplo desse “macerar” artístico e literário em “As Palavras”.

As palavras, meu Deus, como são

imprecisas, volúveis. No entanto,

elas só (enquanto os homens passam)

guardam para sempre o sinal do tempo.

Delas nascem depois avisos,

as borboletas do ar, as larvas da terra;

elas próprias escavam os abismos,

abrem as asas e o voo (elas só afinal) desferem.

Imprecisas? Volúveis? Mas inamovíveis,

elas lá ficam na página branca

à espera de um Levanta-te e caminha

de qualquer voz humana.

Ler Como Tenuíssima Espuma De luz (Poética Fragmentária) é reencontramos o mais profundo do nosso ser ou, como diria a saudosa Maria Lúcia Lepechi, “… Com o teu saber dos sons, com a melodia inoculada em cada poema, em cada estrofe, em cada verso, tu ressuscitas nos teus leitores a magia dos primeiros encontros com o mundo sagrado da poesia”. Eduíno de Jesus produziu uma obra cuja grandeza, em qualquer género e ante os críticos e ensaístas, tornou-se desde há muito uma referência para a minha geração. Um encontro com ele quase se tornava num seminário sobre todas estas e outras questões da literatura. Vive num mundo restrito quanto à atenção que a maioria presta à literatura em geral. Só que não sabem que a sua indefinida identidade reside para sempre nestas e nas maiores literaturas do mundo. Digo tudo isto ainda em gesto de admiração e agradecimento pelo e ao poeta que, como também diria o também grandioso José Martins Garcia, saiu de uma ilha para o mundo. Ao contrário do autor da poesia em Temporal, Eduíno não se perdeu nesses seus mundos. Fixou-os indelevelmente para si, e nesse processo devolveu-nos com brilhantismo a nossa própria existência, vidas nem sempre conscientes nem da luz nem da inevitável escuridão, que só a grande arte (para lembrar aqui um título de Rubem Fonseca) em geral nos obriga a um novo olhar para dentro e para fora.

A obra de Eduíno De Jesus – descontando o que provavelmente está ainda na gaveta e antes do já mencionado Silos do Silêncio/Poesia (1948-2004) – inclui ainda Caminho para o Desconhecido, 1952, O Rei Lua, 1955, A Cidade Destruída Durante o Eclipse, 1957, todos estes publicados em Coimbra, e ainda a peça de teatro Cinco Minutos e o Destino, editada numa separata da Açória, nº 2.

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Eduíno De Jesus, Com Tenuíssima Espuma De Luz (Poética Fragmentária). Ponta Delgada, Nona Poesia/Nova Gráfica, 2021. Publicado ontem no meu “BorderCrossings”do Açoriano Oriental, 30 de Abril, 2021.

Luís Filipe Sarmento: de um poeta português para outros mundos

E vieste ver a nossa festa, brindámos com Porto e a luz de Lisboa penetrou-te nas veias a memória da tua ascendência.

Luís Filipe Sarmento, Para Lawrence Ferlinghetti no Dia Mundial da Poesia, a 24 de Março

Vamberto Freias

Aqui vão o poema e o texto de Luís Filipe Sarmento. Este poema foi traduzido por mim. Da tradução do texto em homenagem a Lawrence Felinghetti falo na segunda parte desta minha coluna.

*

Casa dos mundos irrepetíveis

Se digo mãe, digo Itália; se digo avó, digo ilha,
se digo bisavô, digo Galiza; se digo trisavó, digo França

um tetravô na Grécia outro em Damasco;
um perdido na Índia cigana outra nas ruas da Palestina,
se chegar aos décimos avós sou de todos os lugares,
venho de todas as origens, concebido em todas as religiões;
venho de um pirata e seguramente de uma puta,
de um marajá e de uma cortesã, uma geisha
e um traficante de sedas; uma amazona das estepes
e um boiardo; um vizir e uma poeta,
família de assaltantes nos idos dos avós doze,

marinheiros das austrálias, perdidos nos infernos
de ser gente do mundo e no mundo parental
chego depois de várias incidências
a esta Lisboa remodelada; na Mouraria um primo
outro no Quartier, uma prima no Magrebe
outra em Moscovo e mais uma no Congo
e milhares no Brasil, o meu ADN é o mundo,
as minhas células do universo
sou um homem feito de mulheres em verso.
Nas minhas veias há um refugiado profundo
Afinal onde está o meu berço?

*

I Am A Man Born Of Women In Verse

If I say mother, I mean Italy; if I say grandmother, I mean an island,

if I say great-grandfather, I mean Galicia; if I say great-grandmother, I mean France

One great-great grandfather in Greece, another in Damascus;

One a gypsy lost in India, another in the streets of Palestine,

If I reach to the tenth grandparents, I’ll be from everywhere,

I have my origins everywhere, conceived in all religions;

I come from a pirate and surely from a whore,

from a maharajah and from a courtesan, a geisha

and from a dealer in silks; from an amazona of the steppes;

and a boyar; a vizier and a poet,

from a family of robbers in times long ago,

Australian sailors, lost in hell

for being people of the world, a parental world

then I come from various coincidences

to this reformed Lisbon; at Mouraria a cousin

another in the Quartier, a female cousin in Magreb

another in Moscow and yet another in the Congo

thousands in Brazil, my DNA is the world,my cells are the universe.

I am a man born by women in verse.

In my veins lives a profound refugee

I ask where is the crib of my birth?

II

Lawrence Ferlinghetti, em parte de descendência portuguesa e de mãe judia sefardita. Leitor dos nossos melhores escritores e poetas, como Fernando Pessoa, faleceu há poucas semanas aos 101 anos de idade, um pouco antes de completar os 102 a 24 de Março de 2021. Desde sempre à frente da mais famosa livraria americana, City Lights, em São Francisco, centro que despoletou toda a Geração Beat a partir dos anos 50. Luís Filipe Sarmento, ele próprio amigo de Ferlinghetti, e que com ele se encontrou e passeou em Lisboa, viria um pouco mais tarde a ser convidado a participar com um poema, “Casa dos mundos irrepetíveis”, e que eu viria traduzir com o título “I am a man born of women in verse”.Sarmento foi o único poeta português a ser convidado para publicar a versão em língua inglesa numa antologia sob o título Building Socialism, coordenada por Jack Hishman, representante de um grupo de poetas mundiais que se denomina Revolutionary Poets Brigade/Brigada de Poetas Revolucionários, com base em São Francisco, na Califórnia. No dia em Ferlinghetti celebraria 102 anos de idade o grupo organizou uma sessão virtual para leitura de alguns desses poetas como uma comemoração da sua longa e produtiva vida e sobretudo da influência que exerceu sobre várias gerações de escritores americanos e, creio eu, em boa parte do mundo. City Lights, uma vez mais, tornar-se-ia rapidamente uma livraria mítica, ainda hoje de porta aberta. Luís Filipe sarmento Sarmento contribuiu com um texto especial (traduzido pelo poeta luso-americano Scott Edward Anderson) na dita transmissão precisamente em homenagem a Lawrence ferlinghetti. O já mencionado Jack Hirscham também coordenou este evento, muito especial para alguns de nós, e o texto de Luís Filipe Sarmento, que foi lido por mim em Inglês.

Para Lawrence Ferlingetti no Dia Mundial da Poesia

“Como tu costumavas dizer, Lawrence, o amor é difícil de acontecer nos mais velhos e quando te li no Verão de 1975 não pensei nas mutações do sabor e do beijo que a idade em comboio apressado alquimiza e transmuta por estas planícies que, agora, nos são comuns. Nesta idade, 45 anos depois, os cabelos ainda me descem pelas costas sem obstáculos da moda e do mainstream e sigo no vapor dos dias lunares ou nas cápsulas das noites solares com essas primeiras palavras tão modernas como a liberdade conquistada com a revolução dos cravos. E vieste ver a nossa festa, brindámos com Porto e a luz de Lisboa penetrou-te nas veias a memória da tua própria ascendência. O teu sorriso silencioso aplaudiu os jovens amantes entre as poeiras da revolução e descobriu os velhos amantes saídos da clandestinidade e sem saber o que fazer com a transparência da liberdade. Sentámo-nos à beira do Tejo e contaste-me que em Central Park atiravas moedas para uma fonte onde surgira nu um arlequim. E eu disse-te que dentro do Tejo estavam adormecidas as Tágides, as ninfas do rio, que seriam acordadas com os teus poemas do mar. O que tu riste, Lawrence. Colocaste a tua mão em cima do meu ombro e recitaste um poema sobre a verdade da dança das ondas e um manto mágico trouxe à realidade tritões e sereias e ninfas e arlequins e ficámos sem saber se Lisboa era San Francisco ou se San Francisco era Lisboa com as suas pontes gémeas a cintilarem à entrada da noite. E como tu costumavas dizer que não podias deixar de pensar que a realidade era quase tão real como a recordação que levaste daquele dia. O rio Tejo transformara-se num imenso palco. O reflexo da ponte eram as luzes da ribalta e as ninfas dançaram só para ti a mais íntima coreografia do fado de Lisboa. E disseste-me: não escrevas epitáfios”.

Luís Filipe Sarmento tem já uma vastíssima obra poética, e em 2020 publicou uma antologia com mais de mil páginas, Ao Rubro, da Poética Edições. Muito ligado aos Açores pelas várias amizades que mantém com escritores de cá, e outros. Tem participado activamente no festival Arquipélago de Escritores, organizado por Nuno Costa Santos e seus colaboradores. Tive a honra de apresentar um dos seus livros de poesia KNK (Kant, Nietzche, Kafka) em Lisboa. A sua escrita é incessante, lida e muito bem considerada pelos leitores mais sensíveis à palavra que vem das margens do mainstream, e como sabemos são essas melhores obras que tendema operdurar no tempo e eventualmente ascendem ao cânone nacional e internacional.

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“Casa dos mundos irrepetíveis”, in Building Socialism, Revolutionary Poets Brigade, organizado por Jack Hirschman, John Curl, Karen Melander e Scott Bird, São Francisco, 2020. Adicione-se que esta antologia contém 108 poetas dos mais diversos países. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 23 de Abril de 2021.

Os dias da peste

Uns morrem, outros vendem-se/outros conformem-se e outros esquecem…

Obras de Jorge de Sena: Antologia Poética

Vamberto Freitas

Melhor dizendo, não foi nem é fácil (para nós e para ninguém no mundo) viver o Covid-19 na ilha de São Miguel, e como Leitor de Língua Inglesa durante 29 anos na Universidade dos Açores. Num dia de Março do ano passado eu tinha dado as minhas aulas de manhã, e depois desci à baixa de Ponta Delgada com um colega e amigo, doutorado numa área bem diferente da minha. Durante todos os meus anos naquela instituição de Ensino Superior, um dos meus grandes prazeres foi descer à cidade ao lado do jardim da universidade, e depois subir com o mesmo prazer, para as aulas da tarde. Naquele dia, no nosso regresso aos nossos gabinetes ou aulas, encontramos um campus muito diferente, muito surpreendente. Quase não havia carros no estacionamento, e apenas víamos um ou dois alunos à distância. Olhámos um para o outro e perguntamo-nos: que se passa aqui? Na entrada da nossa faculdade, Faculdade de Estudos Sociais e Humanos saiu um colega de pasta na mão. Olhou-nos surpreendido. Não leram o e-mail do nosso Reitor? Não. Era hora do almoço e descanso. Ele acaba de encerrar a universidade devido à “peste” que agora assola boa parte do mundo. Ficámos como que atónitos. Diz-nos ele: vão buscar as suas pastas e sigam para casa. Um dia ou dois depois vem a nova ordem ou pedido. A passar de agora, será o ensino à distância. Eu tinha entregue os meus documentos de aposentação definitiva em Fevereiro, mas estava sob contrato até Agosto. E agora? Agora foi toda a ajuda da minha Faculdade e da Reitoria. Faremos o melhor que nos seja possível, mesmo que a maioria dos docentes não estivesse treinados para tal tarefa, comunicaram os nossos superiores hierárquicos. Pânico – da minha parte.

Tudo viria a correr bem, sem que eu o esperasse, o assunto foi resolvido. Vamberto em casa em todo o seu trabalho, sereno – e a ler e a escrever, ele faz parte da história desta instituição, e nunca dela se desligaria. Não se pode pedir mais do que esta cordialidade e profissionalismo, por assim dizer. Medo, ansiedade, paralisia mental, desgosto do fim de carreira que contava com 14 anos de ensino numa secundária no sul da Califórnia (Cerritos High School) e, uma vez mais, 29 anos de Universidade dos Açores, sem mácula e sem nunca rejeitar ou desobedecer às tarefas que me estavam destinadas em todas e quaisquer circunstâncias. Para além do que já disse, são agora as saudades que tenho das minhas aulas, dos almoços com colegas, de entrar no meu gabinete, a dor de desfazer todos aqueles anos atirando para fora tudo quanto tinha acumulado, desde ficheiros, capas cheias de anotações, revistas e jornais. Levou-me algumas horas durante dois dias a desfazer uma vida que tinha sido pautada pela felicidade, que todos aqueles anos deviam já contar milhares de alunos. Tenho de adicionar isto. Quando chegou à colecção de livros que eu mantinha nas minhas largas estantes fiquei sem saber o que faria. Numa universidade não se queimam livros nem se os manda para o lixo. A minha Presidente da Faculdade entrou no meu gabinete e simplesmente me garantiu que iriam todos para o seu próprio espaço de trabalho. Dias depois, tive de entregar a chave do gabinete que tinha sido o meu desejado reduto de trabalho e alegria. Desci as escadas sozinho, com uma lágrima no olho, mas também com o sentido de missão cumprida entre todos que me tinham sido queridos, companhias nos piores momentos de certos dias, meus salvadores quando a inevitável e essencial burocracia me deixava sem habilidade ou saber. A Covid-19 veio-me revelar coisas inesperadas, e muito especialmente momentos de generosidade e cumplicidade.

Agora no plural. Temos o privilégio de viver em ilhas, todas elas, em termos relativos, com baixos índices do Covid-19, mas que que vão agora aumentado diariamente aqui em São Miguel. Estamos atentos ao mundo, particularmente ao resto do nosso país, e isso provoca-nos muita preocupação. Duas coisas a acontecerem que não nos conforta de modo algum. Primeiro, evitamos viajar para fora, até mesmo para Lisboa ou qualquer outra cidade continental. Segundo, passamos a temer pela a vida seja de quem for no mundo. Tudo isto está a causar, quanto a mim, e não só, uma certa resistência e desejo de alguns que não nos apareçam por cá. Por certo que o número de casos positivos são menores ou mesmo inexistentes nalgumas ilhas. Seja como for, neste momento viajam para as cidades do resto do país quase só os estudantes ou os doentes que lá têm consultas inadiáveis. Quanto a outros, e volto aqui ao singular, morro de saudades de Lisboa e dos seus arredores. Apesar de ter nascido numa ilha (Terceira) com vivência de quase 30 anos nos Estados Unidos, já me chamaram um “continental” no “exílio”. Exagero, mas nem tanto. Tenho saudades de terra firme e do resto do meu país. Um amigo em Sintra, poeta e escritor, avisa-me que aguente mais uns tempos até que chegue a limpeza desta peste mortífera. Custa-me muito, e logo agora que estou livre para viajar, abrir as minhas outras portas e janelas no outro lado mar, ver o céu azul que contrasta com este cinzento quase diário e ameaçador. Para consolo um bocado egoísta, recordo a História e outros séculos ainda muito piores, grafado para sempre no Decameron a meados do século XIV, com todo o humor, riso e “histórias picantes” para se contrapor à morte e terror que ceifou metade da população europeia. Só que não tinham o que hoje temos: o saber científico ou farmacêutico que nos promete salvar a todos em poucos meses…

Como quase todos os outros no mundo, andamos de máscara, que ora tiramos ora colocamos por cima da boca e do nariz. Cenas mais ou menos surrealistas e até cómicas quando amigos íntimos se cumprimentam de cotovelos ou braços. Por vezes confiamos no facto de vivermos em ilhas e quebramos algumas das regras. Rimos meio consternados, mas rimos. Também tem a ver com confiança no nosso sistema de saúde, tudo tem a ver com uma esperança cega na nossa sobrevivência. Tudo mudou. Diz-me um médico amigo especializado em pneumologia: já vi tanta gente com tantos problemas respiratórios em todas as condições que já não me preocupo muito. Já agora, avisa-me ele – deixa de fumar para não me dares, suspeito, trabalho ou preocupação no bloco hospitalar a meu cuidado. Yes, doctor. A partir de amanhã será assim. Ele dá à cabeça que sim. Sabe que eu estou a mentir, e puxa do seu cigarro, e partimos para a política e literatura, futebol e comida regional. Eu cito de imediato o Fernando Pessoa: “Venha o que vier ou não não venha o que não vier”. Viver no medo não são modos saudáveis – nem para a mente nem para o resto do corpo. Covid-19 nos Açores? Apesar de tudo, e por enquanto, tenho muito mais medo dos terramotos vulcânicos ou tectónicos. Esses, sim, são o nosso outro terror nas ilhas.

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Os Dias Da Peste é um livro internacional do P.E.N. (Poets, Essaysts, Novelists/Poetas Ensaístas, Romancistas), uma associação de escritores mundiais que está presente em 145 países e em várias línguas, incluindo Inglês, Francês, Espanhol e Português. No nosso país tem como Presidente a escritora Teresa Martins Marques, da Universidade de Lisboa. Foi ela que fez questão em estarem presentes, como membros activos e colaboradores, alguns autores açorianos. Vai ser publicado pela editora Gradiva (Lisboa) já nos próximos meses. Este meu texto faz parte desse livro, que rencensearei na íntegra.

Esta versão, ligeiramente diferente, foi publicada ontem na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 16 de Abril 2021.

De Pedro Arruda e do seu Café Royal

Todas as semanas, ao longo de quatro anos, desde Janeiro de 2017, procurei sempre cultivar, em cafés curtos e fortes, a liberdade, a crítica franca e aberta, a exigência ética, moral e a transparência nas políticas públicas e, de uma forma geral, na cidadania.

Pedro Arruda, Tudo O Que Não Se Pode Dizer

Vamberto Freitas

Feliz o jornal que tem um colunista de imensa relevância e civilidade como Pedro Arruda. Este seu novo livro Tudo O Que Não SE Pode Dizer: Apontamentos insulares sobre pandemias e eleições junta agora parte dos seus comentários no Açoriano Oriental e do seu blogue. Um outro foi publicado no Diário dos Açores. Desde Janeiro de 2020 que o leio infalivelmente com um prazer do texto muito fora de um certo género jornalista. A sua prosa vai muito além disso. O autor destas crónicas alia o estilo ao conteúdo, com alguma variação mas sempre dando continuidade ao seu pensamento. Na verdade, ele é um escritor agora especializado na brevidade do texto, e conheço poucos, tanto em Português como até em Inglês, que consegue transmitir as ideias ou críticas num léxico que oscila entre o mais sofisticado a uma linguagem que recria os seus mundos que vão desde os Açores a todo o restante país, e abordando ainda toda a ebulição que acontece além-fronteiras, como o leitor poderá confirmar quando ele fala, só por exemplo, num Donald J.Trump e das suas, digamos, excentricidades inesperadas numa América que passou boa parte da sua história a querer dar lições democráticas ao mundo inteiro. Pelo meio cita apropriadamente nomes ou figuras do mundo literário ou intelectuais de vários países e línguas como Rudolf Virchow, em epigrafes relevantes, como ainda no caso de Bernard-Henri Lévy e Wlliam Shakespeare, entre muitos outros. Coloca as cartas na mesa logo na primeira crónica para que futuros leitores não sejam surpreendidos política ou ideologicamente. Não tendo vivido os anos da ditadura salazarista, os anos de chumbo, declara sem apologia que Mário Soares é a sua principal referência quanto a ética na vida pública e na sua luta por um autêntico socialismo democrático.

Sinaliza, desse modo, ao mesmo tempo com elegância e veemência, os oportunistas que se encostam ao poderes societais, e demonstra a sua solidariedade aos que combatem pelo bem comum e justo. Reafirma os seus valores como cidadão consciente de toda a sua sociedade ou, uma vez mais, de além-fronteiras, como George Steiner e a sua tese de que a grande parte da cultura europeia nasceu em conversas de Cafés, e daí, creio eu, intitula a sua coluna Café Royal, como que querendo envolver todos os que o leem num debate imparável, marcado também sobretudo pelos seus saberes que ora se juntam ora divergem ao que provavelmente pensarão alguns dos seus leitores. Este é um grande livro feito dessa escrita ditada pela clareza de pensamento e elegância das suas frases que conseguem conter em si o mais profundo entendimento da condição humana. Não hesita nunca em louvar ou criticar as acções de uns e outros ou outras na vida pública. Basta atender ao que ele diz da esquerda, que governou os Açores durante várias décadas passadas, e agora, do mesmo modo, a direita retalhada, que tomou as rédeas temporárias da nossa vida colectiva. Fala do crescente ódio ao Partido Socialista/Açores, que nas últimas eleições levaria à perda de cinco deputados, deixando o campo aberto a uma oposição em que ele definitivamente não acredita, e muitos menos a desejava no Poder, apoiada que está por certos partidos ainda mais questionáveis, que ele denomina de extrema direita. Não é o meu papel aqui concordar ou discordar, mas um livro como este, já comentado publicamente por outros, não poderia nem deveria passar em branco.

Pedro Arruda traz-nos uma multiplicidade de vivências que vão desde a sua formação superior em Lisboa, onde nasceu, ao turismo nos Açores e outras áreas económicas e financeiras, assim como o impacto nefasto que as medidas de confinamento estão a provocar numa economia as maiores baixas entre os pequenos e médio empresários; que já estamos ou inevitavelmente vamos cair na nossa pior depressão desde todo o século passado. Num país como o nosso, que ele frequentemente nos relembra que é pobre – e não só materialmente – ele não tem nem terá a oportunidade de escrever a tempo inteiro, tal como a vasta maioria dos escritores portugueses e estrangeiros. Só que o esperamos uma vez por semana pelo que afirma e reafirma numa coluna quase sempre de parágrafo único. Espero que a sua recente despedida pública no Açoriano Oriental acabe por ser temporária. Lê-lo agora em livro é, repito a palavra, acompanhar a sua astúcia crítica, a sua capacidade na manipulação certeira da nossa língua. Não teme nada e ninguém, e a certa altura, em jeito de aviso a alguns outros, que não se trata de qualquer ressentimento ante seja quem for. Faz-me relembrar de imediato um velho dito que acompanha na primeira página o The New York Times: “Without fear or favor/Sem medo nem favores”. É isto que se espera de um escritor-cidadão. Termina o livro com as crónicas, como ele próprio diz na sua abertura, no fim de 2020, e chega aos primeiros textos de 2021. Espero, e muito, que o volume seguinte já esteja a ser organizado. Pedro Arruda, que foi formado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa, entende os nossos dias de pandemia com um olhar claro sobre o que a humanidade tem sofrido desde tempos muito antigos, e vê a actualidade com a mais vigorosa crítica aos que nos governam nos Açores e no Continente, sem poupar os mais diversos países e as medidas que ele considera radicais para eliminar um vírus que mata quase uma pequena percentagem da população mundial quando nos dá as estatísticas das mortes de milhões por outras doenças que nada têm a ver a Covid- 19 e as suas mutações. Diz em directo que estamos assim a afundar toda uma civilização, e a condenar as novas gerações ao medo sem fim, e ainda mais a um miserável futuro. Quanto aos Açores, afirma que as duas piores doenças, agora praticamente esquecidas ou relegadas pelos serviços de saúde para uma condição secundária, ou pior: a percentagem da diabetes ou obesidade no nosso arquipélago.

“Perdoem-me – escreve o autor a dada altura – os homens de Rosto do Cão e as mulheres de Rabo de Peixe e todos os outros bravos açorianos de cartão de cidadão (eu sou um ocasional açoriano de São Domingos de Benfica, por opção filial, e isso não faz de mim nem mais nem menos ilhéu), mas o que está aqui em causa não é uma profunda causa autonómica, isto não é um ataque de centralismo lusitano contra o orgulho basáltico, o que está aqui em causa é mais profundo do que isso, é saber em que tipo de sociedade queremos viver: se uma sociedade que tem como princípio fundamental a liberdade individual, seja ela qual for e contra que inimigo for, e o respeito pelos direitos dos cidadãos, ou uma sociedade fechada sobre si própria, receosa, autoritária e dominada pelo medo. Hoje o ‘inimigo’ é um vírus que mata menos que a gripe, amanhã (se é que já não é hoje) serão todos aqueles que não pensam da mesma maneira que os móveis de Santana…”.

Lido em sequência, concorde-se ou não, Tudo O Que Não Se Pode Dizer (e que eu saiba) torna-se na primeira grande narrativa deste género sobre a pandemia e a correspondente política nos Açores.

Tudo O Que Não Se Pode Dizer vem prefaciado por Carlos Guilherme Riley. “Os textos aqui reunidos – escreve o Professor da Universidade dos Açores – são o log book de um navegador solitário no exercício da mais sagrada das liberdades, a liberdade de pensamento e de expressão”.

Não é, nem Pedro Arruda quereria que fosse, um livro de pacífica leitura ou pensamento, mas sim o contrário da opinião corrente sobre a nossa vivência actual em luta contra um inimigo que é invisível como um guerrilheiro escondido no mato e a atirar esporadicamente contra uns e outros. Como em qualquer guerra, as opiniões divergentes devem estar salvaguardadas pela liberdade Constitucional de se dizer publicamente ou pensar o que muito bem quiser e entender. É a cidadania activa a que muitos ainda não se habituaram.

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Pedro Arruda, Tudo O Que Não Se Pode Dizer: Apontamentos insulares sobre pandemias e eleições, Ponta Delgada, Edição de Autor, 2021. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 9 de Abril, 2021.

Da Ficção Distópica Na Literatura Americana

A época nuclear, matando a fé dos homens na sua capacidade de influenciar o que acontece, poderia destruir os Estados Unidos mesmo que nenhuma bomba seja atirada contra nós.

Fletcher Knebel & Charles W. Bailey II, Seven Days In May

Vamberto Freitas

Seven Days In May foi publicado em 1962, e de imediato conheceu sucessivas edições, tornando-se um dos mais vendidos na América, e com brevidade deu origem ao filme com o mesmo título, apresentado com nomes pesados como Burt Lancaster, Kirk Douglas e Frederico March, Só agora o li, ainda faltava dois anos para eu chegar àquele país, e nos primeiros tempos de América havia mais do que fazer, e sobretudo o impedimento da língua inglesa. Só comecei a ouvir falar deste thriller já na Faculdade, mas nessa altura um livro deste género nunca entrava na lista de leitura em qualquer curso das humanidades, e eu tinha muito mais do que ler nas cadeiras obrigatórias. Entretanto, o romance nunca me saiu da cabeça, e agora resolvi lê-lo pelas razões que li It Can’t Happen Here, de Sinclair Lewis, que recebeu o primeiro Prémio Nobel em 1930, por outras obras. Este seu romance, ironicamente nunca recebeu a atenção que merecia pela sua audácia imaginativa. Foi necessário Donald J. Trump chegar à Casa Branca para que os leitores começassem a procurá-lo pelas razões que todos conhecemos. Foi traduzido no nosso país por José Roberto e publicado pela D. Quixote do grupo LeYa, Isso Não Pode Acontecer Aqui. A “profecia” de Lewis esteve quase a realizar-se, não só pelo autoritarismo da administração Trump, mas ainda mais com uma tentativa, já nos nossos dias, de um golpe de estado por outros meios levado a cabo por civis e alguns ex-militares disfarçados quando cercaram, invadiram, demoliram, mataram e procuravam senadores, congressistas e até o Vice-Presidente Michael Richard Pence, que acabava de certificar a legitimidade do voto nacional que deu a vitória a Joe Biden e à sua Vice-Presidente Kamala Harris. Tudo indica que queriam assassinar Pence assim como Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Representantes do Congresso. Nada disto, o 6 de Janeiro de 2021, tinha acontecido na história da democracia americana: um bando de marginais e fanáticos encorajados repetidamente pelo próprio Presidente, nesse fatídico momento escondido na Casa Branca, e como sempre a comunicar com os supostos líderes da revolta, que também destruiu parte do Capitólio e roubaram documentação pertinente que se encontrava nas mesas dos congressistas em sessão.

O livro agora aqui em questão é uma outra tentativa de imaginar um golpe de estado liderado por quatro generais de alta patente responsáveis pelo Estado Maior (Pentágono), pois o comandante da Marinha, que na altura se encontrava com a sua frota no Mediterrâneo, perto de Gibraltar, recusou-se a dar o seu nome a tal loucura. Desta vez, é um Presidente que iria ser violentamente deposto, e uma ditadura militar se instalaria. Em Seven Days In May nunca aparece uma só data, só acontecimentos que leva o leitor a um futuro próximo, digamos que ao fim dos anos 60 ou princípio dos anos 70. John F. Kennedy é mencionado como um dos antecessores do Presidente em funções, o fictício Jordan Lyman, cujos colaboradores mais chegados descobrem a traição após uma visita à Casa Branca de um Coronel de nome Casey, que desempenha uma espécie de secretário do Pentágono ao seu mais alto nível, e ouve subrepticiamente certas conversas entre eles que ele entendeu colocavam a segurança nacional em perigo, e relata tudo o que sabia ao Presidente da República. Não vou mencionar aqui todos os nomes envolvidos, só os que colaboram no desmantelamento da conspiração, que foi organizada pelo Chefe-Maior do Pentágono, General Scott. O momento parece-lhe ideal. O país estava economicamente em baixo, as sondagens de popularidade do Presidente eram das piores, e tanto alguns militares como a população em geral estava absolutamente discordante do tratado que o Presidente havia assinado com o Kremlin para se começar a destruir por etapas as armas nucleares, e quase todos nos EUA desconfiavam da honestidade dos soviéticos. Tinha sido descoberto que enquanto neutralizavam alguns desses desarmamentos, o inimigo comunista estava já a construir secretamente uma base na Sibéria para recomporem as ogivas que desapareciam no tratado. O General Scott não teve meias medidas e utilizou fundos guardados para emergências maiores, mandando construir uma base secreta perto de El Paso (Texas) no deserto do estado Novo México, sob o código “Y”, e com o acrónimo ECOMCON, que significava Emergency Communications Control/Controlo Das Comunicações Numa Emergência, que visava cortar e tomar conta de todos os média nacionais para que só a nova junta tivesse acesso e falaria em termos exclusivos à população civil depois de instalados à força no Poder máximo em Washington. Tudo acontece, pois, em sete dias, e o romance está dividido pelos dias e horas da semana. Tudo seria descoberto por diversas manobras, e os superiores do Estado Maior são imediatamente demitidos e acusados de traição ao Governo eleito e à própria Constituição. Iria acontecer o “inimaginável” naquele país. Já agora, para tentar trazer o leitor ao presente, refiro que os generais tinham um certo apresentador de rádio como aliado histérico, mas que era ouvido por milhões. Só certos escritores pensam a América a sério em romances políticos, e espera-se que Seven Days In May nunca passe de mera ficção popular, aquela que nos faz querer virar cada página. Mais do que uma vez, o título de It Can´t Happen Here é citado em palavras (em letra minúscula e sem aspas) de conversas sem que, provavelmente, a maioria dos leitores nunca se apercebesse do seu verdadeiro significado, que vinha de um escritor de uma geração anterior.

“Olha cá – diz o Presidente a um colaborador já quase nas últimas páginas, e depois de terem vencido contra os conspiradores – tenho esperança que o povo deste país sinta como eu sinto – o que está delineado em papel é impensável aqui. Ray, você sabe o que penso sobre os políticos que não dizem a verdade. Mas prometo-te aqui e agora que vou mentir sem qualquer hesitação sobre todos estes acontecimentos, se assim tiver de ser. Creio ser importante que o público nunca suspeite que este golpe foi tentado”.

Seven Days In May pertence a um género, como já disse, pouco lido formalmente nas universidades. Esse facto pouco interessa a muitos leitores de outros géneros, inclusive os clássicos de qualquer língua ou cultura. Ignoram muitos a imaginação necessária na criação de acções ou manobras que nos parecem improváveis, enquanto reinventam personagens que vivem em mundos longe de nós, mas cujos estados de alma são-nos de imediato reconhecíveis. Só anos depois sabemos o que nas nossas costas estava possivelmente a passar-se, ou mesmo a ameaçar a nossa existência. O século XX esteve, de facto, à beira do colapso nuclear total, como ficou na História mundial. Não esqueçamos que quando este romance foi publicado estava no poder John F. Kennedy, que olhou olhos nos olhos a possibilidade do armagedão. A 22 de Novembro de 1963 seria assassinado, e ainda hoje ninguém sabe exactamente por quem ou a mando de que forças no país, e muito menos ao que levou a essa barbárie. Foram os anos mais quentes da Guerra Fria, e os militares dos dois lados desconfiavam das intenções do outro lado. Ler este romance é uma delícia quanto a entretimento puro, e em linguagens muito superiores ao que pensam, ou acham que pensam, não merecer o seu tempo de leitura. Estou em boa companhia, conheço pessoalmente um grande escritor português que a primeira coisa que procura num aeroporto ou numa livraria é um policial ou uma conspiração política. Jorge de Sena, li algures, para descanso intelectual não prescindia de um bom volume de Agatha Christie.

Esta tradição da distopia sócio-política já vem de longe na literatura americana. Inclui, entre inúmeros outros, Day of the Locusts/O Dia dos Gafanhotos, de Nathanael West, Lady in the Lake/A Dama do Lago, de Raymond Chandler, e entre os quais devemos ainda incluir o grande escritor brasileiro Rubem Fonseca, em quase toda a sua grandiosa obra, e aqui com especial destaque para o romance Agosto, que também aborda conspirações políticas que levam ao suicídio de Getúlio Vargas. Isto só para não falar nos britânicos Aldous Husley e George Orwell. Não é por acaso que alguns destes livros, particularmente o romance 1984, estão a conhecer uma segunda vida, por assim dizer. O momento histórico em que vivemos, quer se pense em saúde ou novas formas de autoritarismo disfarçado em democracias corruptas em quase todo o mundo requer uma contínua reflexão de todos, leitores ou não.

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Fletcher Knebel & Charles W. Bailey II, Seven Days In May, New York, Bantam Books,1962. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 2 de Abril de 2021.

Uma Outra Visão Dos Açores

À procura da história, do temperamento, das curiosidades, da música, do humor, da beleza, de tudo aquilo que nos une muito mais do que separa.

Coordenadores, Mal-Amanhados: Os Novos Corsários Das Ilhas

Vamberto Freitas

Sem dúvida que foi uma das mais originais séries da RTP/Açores, e agora passa também no Canal 1, Internacional e África, dez programas às quintas-feiras no fim de 2020 sobre os Açores e protagonistas locais de cada ilha, com paisagens e cantos deslumbrantes que uns já conheciam, mas creio que a maioria não, e falo por mim próprio. Agora em formato de livro com 351 páginas de texto seguidas de um conjunto de fotografias deslumbrantes, tiradas em terra e por um drone, é um livro também que deixará ficar para sempre nos nossos arquivos estas visões absolutamente únicas, que nos informam ou representam o que já conhecíamos ou, uma vez mais, descobrimos pela pela primeira vez. Começando pela narração e conversas entre os escritores Luís Filipe Borges (terceirense) e Nuno Costa Santos (micaelense), naturais, pois, de duas ilhas amigavelmente (queria eu que assim fosse) rivais. A coordenação destes textos esteve a cargo de Luís Filipe Borges, com imagens de Diogo Rola e um extenso e empático prefácio de Onésimo Teotónio Almeida, que a dada altura confessa conhecer todos os cantos das nossas ilhas. Não só transcreveram cada palavra dita em cada programa, como incluíram as mensagens (a que chamam ecos) que iam recebendo um pouco de toda a parte, desde o arquipélago a vários países do mundo. Tem início no Pico e acaba em Santa Maria, e depois com o décimo programa, um resumo de toda experiência das suas inusitadas caminhadas. É certo que também dão breves palavras gravadas a alguns escritores residentes, agora reproduzidas nestas páginas, durante a tomada de um chá na famosa Gorreana em São Miguel. A excepção aconteceu nalgumas ilhas, mas creio ser absolutamente correcto dar a palavra a protagonistas desconhecidos, os que habitualmente ficam fora de todos os meios da comunicação social, especialmente na ruralidade da maioria da nossa gente, os que criaram ou deram continuidade aos nossos usos e costumes, desde os trabalhos da terra a artesãos e curadores de museus locais, e ainda a estrangeiros, particularmente ligados às artes, e que se fixaram nos Açores, ao que parece, definitivamente entre alguns deles. Diga-se desde já que Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos surpeenderam-se constantemente com o que viam e ouviam trocando entre si o humor que caracteriza boa parte das suas vidas, ora como escritores de poesia e prosa, ora como comediantes e guionistas televisivos em Lisboa. Dizem-nos a dada altura neste livro que era um sonho que já vinha desde os anos de faculdade: uma declaração de amor à sua terra natal e desfazer muita da então ignorância pura de muitos dos nossos conterrâneos continentais. Foram viagens seguidas que exigiram grande preparação e concretização, e que agora vão seduzir muitos outros a quererem visitar-nos, aliás como muitas das mensagens que lhe foram enviadas demonstram, enquanto na nossa vasta Diáspora encheu a alma dos que emigraram ou são já nossos descendentes, especialmente nas Américas, de norte a sul, com especial ênfase para o Canadá, Estados Unidos e Brasil.

“À dupla dos bem-amanhados Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges – escreve Onésimo Teotónio Almeida no prefácio – ocorreu a brilhante ideia de revisitar o seu arquipélago, agora providos de um olhar tocado pela experiência da diáspora, conhecedores do que os meios por onde circulam ignoram acerca dos Açores. Acumularam anos de contacto com a ignorância, ou mero descuido de conhecimento; carregaram às costas um pesado saco de perguntas e dispuseram-se a viajar pelas ilhas pensando nas respostas a transmitir”.

Durante todas estas viagens pelas ilhas, agora em formato de um livro magnificamente concebido em termos gráficos e os seus conteúdos, os dois apresentadores intercalam as palavras da conversa com que vão mantendo com um ou outro interlocutor, com citações de escritores pelo meio, como Vitorino Nemésio, Natália Correia, João de Melo e Victor Rui Dores (entre alguns outros), e muito especialmente a obra As Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão, publicado após a sua visita aos Açores em 1924, livro que influenciou de modos diversos como nos entendemos e nos olhamos. Este Mal-Amanhados: Os Novos Corsários Das Ilhas lê-se como quem lê um romance, história, uma biografia ou autobiografia. Polifónico da primeira à última página, são as paisagens sem igual em qualquer das ilhas, são as palavras de gente de carne e osso que nos educam sobre um quotidiano sempre determinado por um tempo instável e a possibilidade de desastres naturais. Montes, pastos, caldeiras, vulcões ainda activos, são-nos retratados com as surpresas e comentários quase em voz baixa dos dois caminhantes à descoberta de si próprios, à descoberta de nós todos. Chamam o Corvo a Ilha das Ilhas, pela sua distância, pelos seus modos próprios de vida. A série teve uma audiência substancial e apaixonada, como já disse, a partir dos Açores e de uma boa parte do mundo, e agora com as novas transmições internacionais ainda mais. Cada ilha no livro é apresentada pelos autores antes dos diálogos entre os dois apresentadores e das inúmeras entradas dos telespectadores, a que os autores chamam mensagens enviadas em garrafas “a navegar no mundo virtual”, alguns lamentando que no fim ficariam sem saber o que fazer ou não ver a cada semana sem os Mal-Amanhados nos seus ecrãs. Passam a ter o livro para tudo reviver e estontear-se com cada passo da leitura. Creio que foi a informalidade das conversas e piadas entre entre Luís Filipe Borges e Nuno Costa Santos que se sobrepuseram a qualquer texto que tivesse sido escrito como guião ou meras sugestões para a abordagem de cada recanto citadino, rural ou do mato, que criou esta proximidade entre todos que os acompanharam de perto e de longe.

Num texto de abertura baseado em posts, Luís Filipe Borges fala da sua emoção de ver um velho sonho finalmente realizado e levado a muitos de todos nós:

“Quem me acompanha por aqui (redes sociais) recordará os meses em que postei diariamente sobre a rodagem dum sonho com 21 anos: uma série sobre a minha terra. O grupo nesta foto… tirada numa das paisagens avassaladoras da ilha das Flores – constitui o dream team que há um ano viajou pelas 9 ilhas dos Açores com paixão, talento, carinho e atenção máxima. Comecei a trabalhar naquela que é também a minha estreia absoluta como produtor na manhã seguinte ao meu 40º aniversário – dois anos e meio para chegar aqui – e não podia estar mais feliz com o resultado final”.

Nem nós, caro Luís Filipe. Vocês, quase todos responsáveis pelos mais diversos programas artísticos numa cidade como Lisboa, trouxeram e trazem uma sensibilidade agudizada pelo afastamento da vossa terra-mãe que são os Açores. “O açoriano leva”, leva tanto e devolve às suas ilhas não só a saudade de lágrimas, mas parte indelével da nossa história e modos de estar no mundo, entre a sua e as mais variadas culturas, línguas e etnias. Espero muito que de seguida cheguem com o mesmo projecto às distantes geografias que nunca nos separam, que sempre se completam, umas à beira-mar outras rodeadas de terra por todos os lados. Esta série e este livro são um outro e eloquente antídoto aos dias que vivemos desde o ano passado. Não mostra medo nem cultiva o que nos aterroriza nestes dias que passam devagar e em isolamento. Mal-Amanhados : Os Novos Corsários das Ilhas (lembrem-se de Nemésio), nem nos recorda que vivemos em terras frágeis e a qualquer momento perigosas com a sua natureza, muito pelo contrário. É um rico testemunho da dureza e coragem de todo um povo que sobreviveu até aos anos mais recentes o isolamento e atrevimento de sucessivos regimes no outro lado mar. Bem sei que as palavras podem mitificar seja que terra for, ilha ou continente. Mas a câmera não mente, fica indiferente aos olhos e noções várias cultivadas por cada um de nós. Terra dos Bravos são todas as nossas ilhas (com as minhas desculpas aos meus conterrâneos terceirenses). Só que temos de valorizar sempre as novas gerações que nos vão perpetuar na memória cá e “lá fora”, expressão recorrente neste livro, em que o Continente português está incluído.

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Mal-Amanhados: Os Novos Corsários das Ilhas, Coordenação de Luís Filipe Borges Com Alexandre Borges e Nuno Costa Santos, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 26 de Março, 2021.

Correntes do pensamento modernista europeu e das suas tragédias

Apesar da visão sempre irónica, o meu mundo da criação artística é uma procura de absoluto, para além das palavras, uma espécie de perda de identidade, onde todos os antagonismos se equilibram e o bem e o mal se confudem.

Teolinda Gersão, O regresso de Júlia Mann a Paraty

Vamberto Freitas

O mais recente livro de Teolinda Gersão, O regresso de Júlia Mann a Paraty, comemora também os seus quarenta anos de vida literária. Diz-se na contracapa que são três novelas “que se entrcruzam de modo surpreendente”. Creio, no entanto, que se trata de um romance em forma diferente, mesmo que um dos seus protagonistas saia de cena quando chegamos à parte final, na qual a mãe do grande escritor Thomas Mann regressa definitivamente ao Brasil, o seu país natal. Chama-se Júlia da Silva Bruhns, filha de brasileiro e alemão, que eventualmente a traz para a Alemanha, com todo o dramatismo que isso implica na mudança para uma cultura e língua que nada ou pouco tinham a ver com ela. Entre os factos biográficos de todos, está a imaginação da autora. Aliás, Júlia da silva testemunhou sempre uma sociedade marcada pelo racismo e desconfiança, até mesmo dentro da sua família. Teve alguns filhos e filhas, mas os que mais se viriam a distinguir foi Henrich Mann, irmão de Thomas, e que iniciou a sua carreira de escritor um tanto à esquerda antes daquele que viria até hoje ser um romancista que permanece no topo da literatura modernista do século XX, Thomas Mann (1875-1955). A rivalidade entre os dois é quase cómica, cada um a tentar responder ás obras um do outro.

Pertencem todos eles a uma família de bem, com um pai aparentemente indiferente a tudo e a todos para além dos seus negócios. No centro da narrativa há muito mais, e mencionar todas as personagens seria um abuso neste texto. Boa parte da civilização ocidental é aqui descortinada entre cartas trocadas entre Sigmund Feud e Thomas Mann, este sempre a rejeitar a psicanálise e outra ciência do seu eminente interlocutor de Viena, para fascínio alargado dos leitores. Freud conhece bem o autor de Buddenbrooks, o seu primeiro romance publicado em 1901, e que o editor queria reduzir, tendo vencido a vontade do autor, que previa que o romance, de qualquer modo, alcançaria poucos leitores. Só que a sua audiência acabaria por dar-lhe enorme importância, tendo-o tornado como um dos mais respeitados escritores daquela época, o que, uma vez mais, perdura até aos nossos dias. Eu próprio fui obrigado a ler na minha faculdade A Montanha Mágica (1924), que pelo menos um membro do júri do Prémio Nobel, quando o concederam em 1929, diria que era inferior ao seu primeiro romance. Seja como for, desde o jornalismo e ensaísmo que também foram géneros cultivados por Mann, são ainda relembrados por muitos. Numa carta a Freud confessa que toda a sua ficção é metaforicamente sobre ele próprio e a sua família, por mais complexos que poderiam ser para certos leitores e admiradores. Freud sabe da sua homossexualidade reprimida, mas nunca consegue que ele se sente numa cadeira ou divã para o libertar de um modo ou outro desse seu complexo intimista, quando Mann mais tarde explicitamente num outro romance marcante, Morte em Veneza (1912), transfigura o seu protagonista numa espécie de alter ego, e se apaixona por um adolescente polaco num hotel e praia da mesma cidade, com o nome ficcional de Tadzio. Dá-nos o seu nome verdadeiro, mas isso ficará à descoberta de quem ler este livro de Teolinda Gersão: “Atraía-me quase sempre o mesmo tipo masculino: jovem, educado, elegante, inteligente e culto, com um corpo admirável e um rosto magnificamente esculpido, onde sobressaíam cabelos loiros e olhos claros, em geral azuis”.

A prosa de Teolinda Gersão é sempre cintilante, com a precisão de cada palavra ou frase, e todos os seus romance são de uma ironia absoluta quanto às suas personagens todas e a própria sociedade alemã, simultaneamente das mais civilizadas e inteligentes nas artes todas, só que, pelo menos no século passado, que é o que mais nos interessa aqui, descamba periodicamente na maior barbárie bélica e preconceituosa. Thomas Mann é um escritor superior, mas mantém um longo diálogo com Freud (judeu) por escrito, era anti-semita e anti-raças de cor, sendo a própria mãe de origem em parte índia no Brasil (que a família regozijava não aparecer negra de origem africana, e toda a sua sociedade considerava o sul, (incluindo da Europa) de gente inferior, menos a Itália, onde muitos passavam férias ou ficavam por muito tempo seguindo as visitas do grande Joahan Wolfgang von Goethe, o poeta, romancista e cientista, cujas obras mais conhecidas continuam a ser lidas por uma minoria de literatos, como A Paixão do Jovem Werther e Faust, romance e poesia ainda hoje lidos nas melhores cadeiras de literatura a nível superior. Aliás – e disto Teolinda Gersão sabe muitíssimo mais do que eu – a maior parte da literatura germânica tem como uma característica indelével a ironia, tal como acontece em O Regresso do Júlia Mann a Paraty. Tanto Sigmund Freud como Thomas Mann acabariam no exílio quando os nazis chegam ao Poder, mas muitos anos antes ele próprio, apesar do seu anti-semitismo, já tinha casado uma mulher judia, que lhe deu seis filhos. Viajamos um pouco com estas figuras eminentes, desde a Alemanha aos Estados Unidos (onde Thomas Mann se tornaria cidadão daquele país), e Suiça, onde haveria de falecer. A sua querida Alemanha tinha-se tornado terra proibida para escritores e outros artistas e cidadãos não-alinhados. Freud partiria para Londres. Cruzam-se aqui vários tempos e lugares, amores e desamores, racismo ou xenofobia, e invejas. No entanto, nenhum dos seus romances, os de Mann, são contra ninguém, são simplesmente o desnudar da essência da humanidade, seja em que versão ou geografia desenvolva as suas vidas.

“Como seria bom falar consigo,– escreve Mann a Freud em 1930 na segunda novela deste romance de Teolinda Gersão, oito anos depois do médico psicanalista lhe ter escrito na primeira novela intitulada “Freud Pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1930” – como um amigo a outro, sem esconder nada, deixar vir as palavras em torrentes, sem filtro, sem medo de me tornar transparente para si.

Tenho pensado nisso muitas vezes. Até porque o senhor tem mais dezanove anos do que eu, conta já setenta e três, e, pela ordem das coisas, não viverá muito mais.

Se eu falasse agora consigo, saberia que, o que quer que lhe contasse, o senhor em breve o levaria para a sepultura. Essa ideia da reduzida possibilidade de o senhor me trair é imensamente tranquilizadora”.

Neste romance de Teolinda Gersão, na sua verdade artística, é como se a imagem de todos fosse o verdadeiro mundo que desejamos para nós mesmos, no bem e mesmo no mal, a condição humana escondida dentro de nós, a que Freud tentou desvendar em Thomas Mann, proferindo poucas palavras e ouvindo em silêncio muitas de outros e outras.

“Agora – escreve a narradora na última parte do romance quando Júlia Mann decide voltar às suas raízes tropicais – triunfava contra Lubeck, e as vozes do mundo eram-lhe, mais do que nunca, indiferentes, chamassem-lhe o que quisessem, dissessem o que quisessem daquela estrangeira, mulher do senador, ela não queria saber, faria o que quisesse, rindo e troçando deles, em gargalhadas selvagens”. Júlia regressa à sua língua e cultura natais, às estreitas ruas e casas pintadas de azul bem vivo, um mar, também muito azul, sempre convidativo a quem desejava renovar forças e esquecer tudo o resto. A relação íntima que Teolinda Gersão mantém com os dois países e as suas artes literárias vem de longe, e é natural que delas conhece o melhor e o pior que caracterizam duas culturas tão distantes uma da outra, modo de ser e estar, cada uma destas duas sociedades em hemisférios que condicionam o pensamento e o seu lugar adentro da universalidade humana.

Esta última parte do livro, Do regresso de Júlia Mann a Paraty contém toda a temática e fluxo verbal, chaves da narrativa unificada para que entendamos um pouco mais claramente as três novelas que, estou em crer, como já referi, constituem um grande romance. Nos tempos incertos que todos vivemos no mundo, vem-nos relembrar a nossa própria insatisfação e infelicidade, até que encontremos a possível saída do labirinto, da dor e da busca da liberdade possível longe de quem nos olha de lado como se olha um qualquer velho obejecto sem valor. Lê-se Teolinda Gersão com o prazer e consciência de quem lê sobre a sua própria pessoa vista através de um Outro, em todos os sentidos e sentimentos.

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Teolinda Gersão, O regresso de Júlia Mann a Paraty, Lisboa, Porto Editora, 2021. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 19 de Março, 2021.

Um mundo de mulheres e conspirações

Desejei para o nosso país grandeza, progresso e liberdade. Tudo isto à república está vedado.

Henrique Levy, Segredo Da Visita Régia Aos Açores

Vamberto Freitas

Comecemos por reafirmar que Henrique Levy é um dos mais fascinantes escritores residentes em São Miguel depois de uma vida que o levou de Lisboa a viver outras culturas de uma ponta do mundo ao outro, incluindo a misteriosa e distante Mongólia em anos idos. Este seu recente romance, Segredo Da Visita Régia Aos Açores segue uma já vasta obra que inclui Maria Bettencourt – Diários de Uma Mulher Singular, assim como uma nova edição da majestosa poesia, ainda hoje desconhecida pela maioria de nós, de Mariana Belmira de Andrade, natural de São Jorge onde vivei toda a vida, A Sibylla – Versos Philosophicos, publicado em 1884, e que ele fez sair também há pouco tempo numa edição primorosa. O autor não só (re)descobriu o livro como escreveu nesta nova edição inúmeras notas de rodapé e páginas inteiras com outra informação. Para além disto tudo, publicou uma vasta obra, que inclui outros romances e naturalmente poesia ou prosa-outra. É claro que se refere no presente romance à ida à Madeira e a vinda aos Açores pela primeira vez, em 1901, dos soberanos da então monarquia, D. Carlos I e a Rainha D. Amélia, no cruzador D. Carlos.

O trama foca-se quase todo em Lisboa, assim como na própria viagem aos Açores, aqui limitado à ilha de São Miguel, apesar de ter andado por outras ilhas. Descreve minuciosamente a chegada para a alegria e patriotismo das elites e do povo, com foguetório, jantares, e actuação de três bandas de música. Quando o vapor foi avistado a entrar no porto da cidade, zarparem em gesto de honra tudo o que eram pequenas embarcações locais. As principais razões que o trouxe até cá (continuo por dentro do texto) foi, em parte, demonstrar aos ingleses, que o acompanharam em navios de guerra como defesa à viagem do rei, a soberania dos Açores, depois do famoso Ultimato em África. Os autonomistas ficaram desconfiados e a imprensa republicana fez uma cobertura limitada, e assim mesmo a queixar-se ou a acusar o Rei e a Rainha de desbaratarem o dinheiro que o Estado não tinha, enquanto todo o país vivia na miséria absoluta da rua, as mesmas que os aristocratas nelas se passeavam, fazendo que nada viam ou então nunca se importando com a sorte de um povo mendigo, sem comida nem saúde, e muito menos um sistema de educação igualitário. Tudo isto é-nos contado pela protagonista, cujo nome permanece no limbo enquanto fala de uma irmã mais nova, Margarida, e da criada de casa, de nome Vitorina, das amigas da mãe, e, já viúva, até dos cocheiros que entravam e saiam da sua vida. É a filha mais velha de uma família burguesa, cujo pai conservador e monárquico passa a maior parte da sua vida numa herdade do Alentejo, comicamente obcecado por estatísticas, e pelo facto da mulher ter uma colecção de livros que ele desaprova mas não mexe nas escolhas da esposa. Acha, entre esses livros, a obra de Eça de Queirós que ele considera indecente para quem tem duas filhas que os poderão ler. De resto, são as visitas para o chá diário, mexericos gerais, e a vida no centro da cidade. A protagonista permanece indiferente a quase tudo isso, menos às lojas de roupa fina por encomenda na baixa de Lisboa, e a uma chapelaria muito especial, que dá origem precisamente ao segredo de que fala o título deste romance e que coincidirá com eventos que mudaram o nosso país para um novo regime republicano a 5 de Outubro de 1910.

A viragem na narrativa, que se havia já tornada magistral desde a primeira página e abordava o dia-a-dia de aristocratas e burgueses, acontece quando a protagonista casa com um deputado da monarquia constitucional, Vaz-Castro, que acaba por ser convidado pelos monarcas a acompanhá-los na visita às ilhas. Numa das muitas compras de novos vestidos e chapéus, a protagonista-narradora é apanhada de surpresa na loja da sua costureira, local que era um nicho de assumidos republicanos e militantes da Carbonária, quando as autoridades fazem uma rusga às instalações. A protagonista agarra depressa o seu chapéu e sem querer traz dentro um pedaço de pano verde e vermelho, escondendo-o de todos, transportado-o para os Açores. O marido adoece com tifoide muito grave e morre. A esposa coloca o dito pano debaixo do seu cadáver embalsamado a caminho de Lisboa, e consegue retirá-lo antes do enterro. Acontece-lhe uma espécie de epifania e ela desenha e costura os respectivos símbolos republicanos, entregando a bandeira à dona na sua chapelaria. Segue-se o sentimento de culpa, e a memória do marido que havia carregado o símbolo republicano debaixo dele no seu caixão de chumbo para que nunca fosse descoberto por outros, precisamente no navio do Rei. Ela tinha feito a viragem do conservadorismo indiferente para o lado oposicionista da monarquia. Independente em pensamento, não deixa de descrever toda a discriminação contra os pobres e doentes da capital ainda de um império espalhado desde África até Timor e Macau. Adiciono aqui que Henrique Levy consegue o difícil acto da verdade histórica com a ficção pura na sua imaginação quanto às mais variadas questões e personagens. Anos depois a protagonista cede a novos amores, e a vida continua, agora sob um regime, que falharia, como previram os monárquicos, acabando numa ditadura de quase meio século. O país continuou pobre, com algum progresso vagaroso num ou noutro sector da colectividade de todo o seu povo, que viveu um pouco mais de liberdade, mas permaneceu na sua condição miserável e sem equidade na distribuição de riqueza nas décadas que se seguiram. Até hoje, como sabemos. Ela torna-se como que um símbolo da liberdade, morando em casa própria, toca piano e fuma os charutos cubanos do marido, comprando ainda mais na Casa Havaneza.

“Quando saí do edifício da Rua de São Julião, resolvi – descreve pormenorizadamente logo nas primeiras páginas do romance, numa espécie de pronúncio contrastante do que viria na sua vida – regressar a casa a pé. Nunca, como naquele dia, havia reparado na quantidade de crianças subnutridas que proliferavam pela cidade, nos velhos miseráveis sentados de mão estendida nas esquinas das ruas, nas jovens varinas descalças com um rancho de filhos ranhosos à cintura, nos rostos esfaimados dos explorados operários… Enquanto meditava nesta Lisboa onde desfilavam pregões, ruas cheias de vendedores ambulantes a tentar sobreviver, observava os aguadeiros que levavam água ao domicílio, as lavadeiras a carregarem pesadas trouxas de roupa, os saloios com jumentos cheios de produtos frescos, resgatados da terra ao esforço da enxada na labuta diária… Concluindo. Nesta cidade, que se diz capital de um império, nem todos têm água canalizada, obrigando-se muitos a mergulhar no Tejo para o banho semanal. Está imunda. As doenças proliferam, e são poucos os cuidados de saúde com os mais pobres, excluídos pela sociedade na qual me incluo em lugar cimeiro…”

Desculpem as reticências porque os pormenores antecedem e continuam ainda mais neste passo narrativo preciso, histórico e verdadeiro para quem lê um pouco da nossa história, para quem quiser ter uma ideia de Portugal radicalmente desigual. O que se passa hoje entre nós no mesmo país não é chamado para aqui neste momento. Só que quem ler este romance vai ser obrigado/a a pensar o seu lugar na sociedade onde nasceu e onde permanece, entenderá um pouco melhor o abandono de milhões de portugueses antes e depois da monarquia. A certa altura a narradora adiciona, entre outras linhas, que vibram na sua verdade: “Este pensamento envergonhou-me como mulher e como portuguesa. Durante muito tempo tentei afastá-lo, arrumá-lo escondido num lugar que não afetasse o meu quotidiano burguês”.

Este é o segundo romance de Henrique Levy que recenseio. O seu estilo é tão limpo, as suas frases acutilantes, as suas linguagens não tentam nunca impressionar os seus leitores como aqueles que pouco têm a dizer e escondem-se por detrás de um certo academismo que desde há muito cheira a bolor e pouco diz. Lê-lo é voltar ao chamado prazer do texto, como acontece com toda arte noutros géneros ou por outros meios. Segredo Da Visita Régia Aos Açores vem de novo comprovar o interesse do autor pelas paragens geográficas e históricas que fazem parte de uma vida, repita-se, que esteve sempre repartida por uma boa parte do mundo. Poderá ele estar a dar continuidade ao melhor da literatura modernista portuguesa, só que colocando no centro a história e meio ambiente em que se movimenta e cria vida vivida, consciente sem falha do que é o seu próprio destino, dando aos seus leitores, na sua vida açoriana, livros que permanecerão no topo do nosso cânone. Não deve provocar qualquer surpresa. Raul Brandão fez o mesmo no século passado em As Ilhas Desconhecidas, mesmo sem viver cá para além dos seus dias de viagem por algumas das nossas ilhas. Só que a grande literatura já não tem fronteiras, e quase está a desfazer a sua nacionalidade. É toda do mundo e para o mundo.

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Henrique Levy, Segredo Da Visita Régia Aos Açores, Lisboa, Plátano Editora, 2020. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no jornal Açoriano Oriental, 12 de Março de 2021.