As outras américas que não vivi

Como tantos cidadãos do mundo, devo aos Estados Unidos uma medida da minha educação liberal e do meu otimismo ontológico. E também da minha consciência libertária.

Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana

Vamberto Freitas

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, uma recolha de ensaios de Clara Ferreira Alves, ergue-se como um dos melhores livros sobre o grande país mítico a oeste das nossas memórias e obsessões políticas, culturais e imperialistas, esta última palavra fazendo lembrar Gore Vidal, que assim o denominava e que conhecia as suas origens nacionais e o papel internacional do país melhor do que ninguém. Tenho o dever de colocar as minhas cartas na mesa. Vivi na Califórnia, primeiro no Vale de São Joaquim e depois na Grande Los Angeles, cerca de 27 anos. Não conheço, nunca conheci, todas as “américas” que Clara Ferreira Alves viveu e interpelou nas suas constantes visitas desde a década de 70 até aos nossos dias, viajando de costa a costa, permanecendo em pequenas e grandes cidades, conversando e observando o que chamamos a América cosmopolita à beira do Atlântico e do Pacifico, e depois a América profunda das pradarias e das pequenas cidades sem rumo nem vida, sem consciência do passado e muito menos sem ideia do futuro. Dormiu e acordou numa Nova Iorque sem noite nem dia e entre as multidões do mundo arrastadas pelo Sonho Americano, viu a América da ferrugem e da decadência provavelmente irreversível dos que a globalização atirou para a rua ou para as casas à beira do colapso e da miséria generalizada. Não, nunca conheci essa América nos subúrbios sul-californianos onde vivi, estudei e leccionei, sem o mínimo desejo de sequer ir a Los Angeles, a minutos de distância, a não ser num ou noutro sábado à noite em Hollywood, mas só para ver a Sunset Boulevard como quem vai a um parque de diversões e olhar para os freaks que batiam em pandeiros pseudo-religiosos, pregavam o fim do mundo ou estavam deitados no passeio bêbados e drogados. Não tenho saudades algumas, a não ser da minha família e de amigos mais íntimos. Estes olhares de Clara Ferreira Alves não são de uma mera visitante ocasional, vêm de dentro para fora, vêm de quem sente a inteira pertença e sorte dos Estados Unidos como se lhe fora uma segunda pátria, e creio que é mesmo.

Bem sei que Nova Iorque é a cidade da autora, mas para mim era um lugar distante e pouco desejável. Das duas ou três vezes que a visitei, na companhia da minha mulher Adelaide, que lá tinha estudado e sofrido a vida numa cave discreta, só tenho duas ou três recordações memoráveis. O vasculhar nos alfabarristas à procura de primeiras edições da obra de Edmund Wilson, um musical na Broadway com Jerry Lewis, e sobretudo uma visita ao apartamento do recentemente falecido Gregory Rabassa, o melhor e mais famoso tradutor de literaturas hispânicas (One Hundred Years of Solitude, de Gabriel Garcia Marques, por exemplo) e portuguesas (João de Melo e António Lobo Antunes, entre uns poucos outros), e que havia sido professor da Adelaide na City University of New York, depois mais nada, odiando ver o sol aos quadradinhos por entre os arranha céus. Lembro-me de um apagão de Inverno e do que disseram os texanos, meus vizinhos naquelas partes: Let the bastards freeze in the dark. Só isso. Sou um homem, como já disse, dos calmos subúrbios, relva cortada e tosquiada todos os sábados, como um dos personagens menores num dos contos de Raymond Carver a regar o seu jardim e a mexericar a vida dos vizinhos. Um dia saí do meu bairro da classe média remediada rumo à escola onde era professor, e entrei nas ruas do outro lado onde morava a riqueza. Recuou da sua garagem de luxo um Mercedes azul escuro guiado por uma loira, mas cujo autocolante dizia simplesmente: Another shitty day in paradise, o humor de quem tudo tem sem nunca deixar de sentir o vazio existencial no paraíso, ou na Terra de Deus, como alguns se referem à Califórnia. Clara Ferreira Alves tem toda a razão em sentir o tédio e o asco por tanta ordem limpa, especialmente em Palo Alto e Arredores, quando se refere à Califórnia “perfeita” fora de São Francisco e outros centros sujos e de dinamismo humano. Só que em Cenas da Vida Americana vejo e sinto o resto do grande continente. Deixei de viver e ver a América pessoalmente e em directo no tempo de George Bush, pai. Ela continuou a ver e a viver tudo de lá, até aos nossos dias. Muito me ensina, e ainda mais desperta a minha memória. Disse à autora aqui há dias que ia brigar com ela por causa dessas páginas sobre o grande estado a oeste que foi e será sempre a minha outra pátria. Decidi mudar de rumo, e brigar comigo próprio por tanto ter ignorado, ou então fazia que não via ou queria.

Clara Ferreira Alves não deve, pela minha a parte, ser classificada politicamente, nem isso tem qualquer importância no contexto do ora sereno ora contundente Cenas Da Vida Americana. Só que a sua relação com os Estados Unidos é muito longa. Ela escreve sobre a grande nação como alguém que sente pertencer por inteiro aos destinos desse outro país. Faz-me lembrar, no entanto, as atitudes da Nova Esquerda/New Left, da qual eu venho e ainda hoje com a qual me identifico, apesar de também me identificar com uma outra esquerda socialista democrática que nos antecedeu, e que era a minha desde os tempos de faculdade, o crítico e ensaísta Irving Howe e a revista Dissent que ele dirigia e editava uma referência permanente. Para ela, o seu relacionamento com esse seu outro país da imaginação e de afectos é um de amor e ódio, a sua admiração pela sua cultura em geral, o seu modo se ser e estar lado a lado ao seu ódio a alguma da sua política interna e externa. O que mais admiro neste seu livro é o seu conhecimento da arte suprema americana, desde os escritores canónicos à musica e artes plásticas. A capa do seu livro diz tudo. O “Nighthawks”, de Edward Hopper, a solidão humana no que se depreende ser uma grande ou pequena cidade, a busca do amor e da cumplicidade possível no negrume da noite e na luz interior de um Café. Clara Ferreira Alves vê aqui todo o esplendor artístico da América, com a dor indefinível de um país-continente, a incerteza que desafia e amedronta a todos no dia seguinte. São as cenas de uma humanidade em busca de si própria, em busca de um silêncio fora do barulho de uma sociedade sem sossego, o mosaico completo e constituído literalmente por todas as nações do planeta. A autora viaja durante anos não só para as cidades metropolitanas, mas também rumo aos mais escondidos, esquecidos e miseráveis recantos dessa mesma América, e cada conversa parece uma prece aos deuses que fazem dos EUA um espaço tanto de todas as possibilidades como de todas as derrotas. Pouco me interessa no seu livro, em certas páginas, a ilusão de se querer moldar o mundo à imagem de Nova Iorque ou da suposta liberdade de um grande império. Fico pelas suas convivências, conversas e afinidades com os americanos que ela encontra nas suas perpétuas caminhadas e que fornecem o ethos do sofrimento interno e das batalhas estrangeiras, desde o Médio Oriente à América Latina. Prefiro as suas passagens por museus, livrarias, teatro e cinema. É por aí que ela me mostra o que eu nunca tinha visto ou pensado nesse meu outro país e pátria. Quando menciona o nome de um escritor, nos seus contextos múltiplos, diz-me tudo e ensina-me algo que eu desconhecia. Isto não é um livro de “crónicas”, é um conjunto de ensaios, como já referi atrás, menores ou maiores, que nos dão um retrato, não de todo agradável, mas de todo plausível nas observações de gente e símbolos, sensível na sua empatia, acreditável na sua dureza realista. A sua visita a Detroit é avassaladora, antológica, a decadência absoluta e mortífera, e depois o optimismo e a criatividade da reconstrução humana e económica, deixando sobressair o melhor do país: a sua energia e capacidade de renovação após as mais variadas catástrofes impostas pele natureza ou pelo próprio sistema.

Raramente – escreve a autora – se ouve um discurso de vitimização ou culpabilização. Apesar da privação e do sacrifício, do sofrimento, o ethos americano impede a nostalgia e o rancor. Ninguém culpa os industriais, os trabalhares, a segregação, os bancos, os maus governantes, a corrupção… O caminho é para a frente”.

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, tal como indica o título, contém textos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Lido em sequência, oferece-nos ou propõe visões das facetas e acontecimentos internos e externos mais dramáticos na história do país, especialmente o envolvimento do país no incendiado Médio Oriente e o alto preço humano e estratégico que os americanos continuam a pagar. De resto, o que ela diz de Trump, do longo processo eleitoral que o levou até à Casa Branca, fica para outros leitores deste magnífico livro. De página a página é como ler uma obra do chamado novo jornalismo de décadas passadas, é um “romance” que toma a acontecimentos reais como tema, o seu fio condutor sendo a própria “voz” da autora, como um Truman Capote ou um Norman Mailer faria noutros contextos e lugares. É esta a América que não vivi ou conheci durante toda a minha vida nos bairros assépticos do meu destino durante quase 30 anos, o país onde vivi a minha adolescência, onde me formei e me tornei professor do ensino secundário oficial da Califórnia. Digo-o sem quaisquer complexos ou vergonha – estas foram para mim páginas de ensino, mais o tal prazer do texto na grande arte da escrita em qualquer uma das suas formas ou género.

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Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, Lisboa, Clube do Autor, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Outubro, 2017.

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A América do nosso destino, e a arte literária de Álamo Oliveira

Era a revolver o passado que Mary procurava ludibriar a morte. Passava pelos pequenos factos que lhe tinham colorido os dias e parava nas surpresas tristes que a vida também lhe dera. Voltava a sorrir e a chorar e continuava a arrepiar-se com tudo o que fora obrigada a assimilar.

Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates

Vamberto Freitas

Esta é a minha primeira leitura do romance de Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates, cuja primeira edição saiu na (extinta) Salamandra, em 1999, então dirigida e coordenada pelo Dr. Bruno da Ponte, que fez questão de publicar mais de uma centena de obras de autores açorianos, ou outras que têm os Açores como espaço referencial geográfico e histórico. Saiu num tempo em que o meu cansaço literário excluía determinadas obras, e só agora me dou conta de que a perda foi toda minha. Por certo que outros escreveram, muito e bem, sobre esta ficção fundamental no cânone do próprio autor assim como da literatura de língua portuguesa em geral, e estou a pensar no Diniz Borges (que também o viria traduzir para o inglês juntamente com Kathie Baker), e do grande texto do escritor brasileiro Luiz António de Assis Brasil, que agora serve de prefácio a esta nova edição do livro pela Companhia das Ilhas. Foi ainda traduzido para o japonês pelo lusitanista Kiwamu Hamaoka, que tem dedicado especial atenção à nossa literatura, e publicado pela Random House Kdansha, em Tóquio. Álamo Oliveira dispensa aqui qualquer apresentação como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta, a sua obra é extensa demais para que eu escolha e cite aqui alguns desses títulos. Lembrarei apenas que o seu romance de guerra Até Hoje (Memorias de Cão) é considerado por alguns críticos nacionais como uma das melhores obras do género na nossa língua, que inclui outros nomes como João de Melo, António Lobo Antunes e Cristóvão de Aguiar. Devo ainda enfatizar aqui que a temática da nossa imigração na América do Norte nunca esteve ausente da sua escrita, nem sequer do seu teatro, servindo de exemplo Manuel Seis Vezes Pensei Em Ti. Vem de longe esta atenção à nossa presença americana, particularmente no Vale de São Joaquim, na Califórnia. Toda a sua família imediata, tal como a minha, está lá desde os anos 50, fazem parte de nação peregrina que é a nossa, incluindo naturalmente os luso-descendentes, que desde há umas décadas a esta parte perpetuam a nossa memória colectiva através da sua própria escrita, e principalmente através da sua vida em comunidade, centrada nas festividades religiosas e profanas. A grandeza de Já Não Gosto De Chocolates poderá ser comparada só a Gente Feliz Com Lágrimas, talvez o mais reconhecido romance de João de Melo, e que tem a nossa experiência imigrante no Canadá no seu centro temático.

As comparações ficam necessariamente por aqui. Álamo Oliveira reinventa uma família originária da Ilha Terceira, cuja pobreza leva à sua partida para o oeste americano, onde eventualmente compra uma vacaria substancial, e que mantém em prosperidade o protagonista Joe Sylvia, a sua mulher Maria de Fátima, e mais quatro filhos, todos eles (até à partida de John para São Francisco por razões de orientação sexual numa comunidade conservadora e hipócrita), residentes na cidade de Tulare, cuja população aí e nos seus arredores conta com milhares de açorianos, na sua maioria originários das ilhas centrais do nosso arquipélago. Os olhares do narrador são simultaneamente de grande compreensão pela condição humana nesta sua outra versão e crítica a toda uma sociedade – tanto a de origem como a de adopção – cuja pobreza e injustiça envia para fora boa parte da sua população trabalhadora, e depois o Sonho Americano, que poderá dar pão mas não evita a morte solitária e a infelicidade de cada um dos seus personagens. O título do romance serve como a metáfora aglutinadora de toda a narrativa – o sabor e o cheiro americanos que tanto seduziam os mais carentes nos seus recantos ilhéus depressa se torna amargo, em certas cenas pungentes destas páginas, um símbolo odioso para quem acaba uma vida de muito trabalho mas também de muita riqueza na maior solidão numa casa da terceira idade, reduzido a uma cadeira de rodas e simplesmente desejando que a morte o apanhe o mais brevemente possível, como é o caso de Joe Sylvia, e que vai contando os seus mundos perdidos a uma assistente social mexicana, de nome Rosemary, e de profunda humanidade perante os que lhe estão dependentes.

Já Não Gosto De Chocolates é feito de analepses que vão lembrando a pobreza da vida nas ilhas e o duro quotidiano americano em busca do sucesso que ideologicamente é – era – prometido a todos que se submetessem ao trabalho constante, quantas vezes insano. Digamos que estamos perante a tragédia “demasiado humana” – o amor e a morte andam de mãos dadas, o fim de cada um tudo menos o que sonhavam para si próprios. Dão-se duas mortes no fim da narrativa, a do velho patriarca e a do seu filho homossexual, que, como já foi referido, havia partida para longe, para a grande cidade a norte que cedo se distinguiu numa cultura conservadora pela sua tolerância, pela sua abertura aos mais variados estilos de vida, pelo seu real cosmopolitismo. É um romance que combina em si todos estes dramas com o humor e a sua originalidade estilística, tal como nos aponta Assis Brasil no prefácio, que só um mestre com Álamo Oliveira manobra em linguagens marcadas por símbolos, insinuações e surpresas nas viragens inesperadas da sua narrativa. Quando se sabe da morte de John após contrair a Sida num tempo ainda em que a medicina não sabia o que fazer, a comunidade faz de conta que se trata de um castigo pelas opções de vida da vítima; Joe Sylvia, seu pai, depois do desgosto que durou anos, dá-se conta de que John foi o seu mais fiel e generoso filho. Quando o velho, já viúvo, reúne a restante família para ler o testamento final e dizer-lhes que desejava morrer numa clínica, nenhum deles se opôs, muito pelo contrário, sentiram-se aliviados com o afastamento físico do pai, as suas visitas esporádicas e sempre breves. A inteligência aguda de Sylvia não deixa nada disto passar em branco, inteiramente consciente do ambíguo significado das nossas vidas. Tinha visitado os Açores duas vezes, a última já após o 25 de Abril. Reconhecia muito poucos (tinham morrido ou emigrado, a sina açoriana), e o novo rumo do país era-lhe totalmente alheio. Emigrar é, aqui, perder a essência do nosso ser, e nunca mais conseguir um enraizamento significante, o viveiro humano permanece sempre estranho, quando não totalmente desconhecido. Do Nada para Nada, parece querer dizer-nos este romance profundamente portador, diria, de um existencialismo filosófico que nos manda procurar individualmente os nossos valores e significados de vida em qualquer comunidade, somos sempre margens das e nas grandes sociedades, para além da riqueza que, uma vez mais, temos ou não temos.

Agora – diz o narrador da última visita que Joe Sylvia e a sua mulher fizeram aos Açores, quando o seu fim já se aproximava – tinha tempo de amortecer a morte pela desbobinagem e rebobinagem do passado, Mary recordava a decepção de Joe Sylvia quando foram à ilha pela segunda vez. Para ele, as pessoas tinham enlouquecido. A revolução de Abril não cabia no seu espartilhado sentido de democracia e a liberdade não podia confundir-se com aquela euforia de palavras cujo propósito não alcançava. Mary, porém, reconhecia que a vida, na ilha, tocara os valores necessários para banir muita da pobreza que afectara a sua infância. As roupas novas que levara já só espantaram pela cor e pelo cheiro e o ice-cream que oferecia às amigas nas touradas era retribuído com outro logo a seguir. A única coisa que não entendeu – e que tanto enfurecia Joe Sylvia – era que lhes chamasse moscas de verão.”

Por outras palavras, a pelintrice portuguesa, na versão açoriana, continuava – e continua – bem viva e petulante. Muita da literatura açoriana do século passado ficava-se sempre, repito-me aqui, pela caricatura, a unidimensionalidade dos personagens imigrantes e dos seus descendentes. Álamo Oliveira é um grande escritor, e como tal a humanidade e complexidade dos seus personagens, de todos os seus personagens, permanece inteira, mesmo que sem cedências à mediocridade das suas vidas, e muito menos das suas sociedades, quer em casa quer no além-fronteiras. Este seu romance faz parte do melhor do nosso cânone literário modernista. Lê-lo é olhar o espelho que nos devolve as nossas imagens, ora distorcidas ora reveladoras de quem somos e como somos.

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Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 6 de Outubro de 2017.

 

 

Da linguagem como parte do nosso ser e estar, da crónica como arte

…É desse parapeito que me debruço sobre o mundo e foi nas dimensões desta janela que aprendi a moldar a realidade e a ser parte dela.

Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra

Vamberto Freitas

Se há um livro que nos faz conhecer a sua autora em toda a sua dimensão interior assim como o seu lugar de nascença e eleição afectiva, Crónicas da Minha Terra, de Paula Cabral, natural da freguesia do Pico da Pedra, aqui em São Miguel, será por certo um deles. Claro que me vem de imediato à mente Viagens Na Minha Terra, de Almeida Garrett, mas isso não é chamado para aqui, nem eu pretendo qualquer simetria ou outras comparações neste espaço. Queria só dizer que lendo este seu primeiro livro, que reúne alguns dos seus escritos, quase todos eles curtos mas incisivos, escorreitos, onde cada palavra ou nome de “personagens”me parecem ou me lembram uma metáfora do nosso mais profundo ser ilhéu numa contínua “viagem para dentro” e para o mundo é ficar além do prazer que os textos nos proporcionam. Li-o como quem lê uma narrativa meio ficcional meio ensaística, completa no retrato, uma vez mais, da autora desde a sua mais tenra idade até ao seu presente (é professora numa escola do ensino secundário aqui na sua ilha), ficamos a conhecer cada rua dessa sua terra natal, e ainda mais de cada um que se atravessam na vida. Sem surpresa para mim, como não será para qualquer açoriano, a outra grande presença nesta prosa é a América, vista ao longe e de perto, através dos seus cheiros em sacas de roupa outrora enviadas para cá, ou ainda mais pelas visitas de familiares e amigos em tempos de festa ou de outras ocasiões ditadas pela vida. De início, nenhum destes textos trazia qualquer título, como se a autora nos quisesse sugerir uma história com princípio, meio e fim, e é assim que estas páginas funcionam.

A minha leitura foi num manuscrito, e espero que se mantenha nesta estrutura de “ensaio” ou “imaginação” do que fora os seus anos de crescimento e formação entre os seus, que tanto podem ser os seus pais e irmãos como a figura vista pela janela na entrada e saída de um café central ou da igreja mesmo em frente. A ilha, aqui, não um mero pedaço de terra rodeada de mar todos os lados – é o mundo inteiro vivido ou fantasiado pela autora. Não haverá também muitas outras freguesias como o Pico da Pedra, que pelo menos durante todo este século foi berço de nascença de tantos grandes escritores, hoje de nome nacional pelas suas grandes obras em diversos géneros: Onésimo Teotónio Almeida, no ensaio e na ficção, Cristóvão de Aguiar (primo da autora) autor de vários romances, contos e ensaios, sobressaindo, para mim, a trilogia Raiz Comovida, e o Osvaldo Cabral, seu irmão, conhecido jornalista da RTP/Açores, e agora do jornal micaelense Diário dos Açores, Gilberto Bernardo, Fernando Couto Alves, e isso só alguns do meu conhecimento directo. A história de um lugar, de qualquer lugar, raramente é feita por historiadores universitários ou famosos – é feita pelos seus escritores locais e cujos livros raramente são lidos por grandes números de leitores. William Faulkner dizia que quase toda a informação e ambiência geral da sua ficção era tirada de autores locais, por quase todos esquecidos para sempre nas estantes obscuras da sua pequena Oxford, em Mississippi. Creio que se passa o mesmo em Portugal, e muito especificamente nos Açores. Este livro de Paula Cabral resgata muito do que se aplica a nós todos, ou seja, a vida em pequenas comunidades virada para o mundo inteiro no outro lado do horizonte, ora nebuloso ora claríssimo, com a ilha em frente a desfazer a nossa solidão ou sentido de isolamento.

Eu sem escudo protector– escreve Paula Cabral a dado momento – me apresento à vida com a força do sonho. Não tenho o poder do caminho já traçado. Trago comigo a força convicta da minha consistência e com ela vou desbravando a adversidade do momento e da circunstância. Tento não capitular a vendas que me tolhem a lucidez ou a pôr à venda a liberdade do meu pensamento. A liberdade e o sonho, longe de caber na mão de um homem, não se configurarem ao tamanho de uma bandeira. São ambos apátridas. Têm a força de uma humanidade inteira… Sou do Pico da Pedra. Digo-o sempre com muito orgulho. Puxei deste galão para explicar a minha natureza reivindicativa a um colega de profissão. Curiosamente, o meu interlocutor percebeu o alcance da minha assertividade”.

Crónicas da Minha Terra é-me surpreendetemente, o primeiro livro de Paula Cabral. Eu já tinha lido uma ou outra “crónica” sua nos jornais locais, e um dia pedi-lhe que me enviasse uma ou duas colaborações para o suplemento Açoriano Oriental Ares & Letras, que coordeno com o escritor terceirense Álamo Oliveira. A sua humildade levou a que nunca me mande nada sem eu pedir. Só que isso agora vai mudar, quero-a presente sempre que lhe seja possível. Uma das freguesias açorianas que tem, ou deve ter, o orgulho dos seus escritores é precisamente o Pico da Pedra, a outra sendo a Achadinha, também aqui de São Miguel, quando foi e é fundo de romances e outra escrita como a de João de Melo, Adelaide Freitas, e Júlio Cabral, talvez o mais injustamente desconhecido de quase todos os leitores açorianos, cujas cartas enviadas de Lisboa onde residiu a maior parte da sua distinta vida como advogado, são de todo ignoradas, mas há alguns anos publicadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande. Leio um Prémio Nobel do mesmo modo e com o mesmo espírito aberto com que leio estes outros autores. Não é o “lugar” que faz um escritor, muito pelo contrário, é o escritor que faz o “lugar”. Isto é tanto verdade para nós como para qualquer país. Há algo ainda de maior importância. É a grande escrita que nos cria empatia perante qualquer povo, cultura ou país. Depois de lermos, por exemplo, e só para me reduzir aqui a uma geografia nacional, um Octávio Paz, um Carlos Fuentes, um Juan Rudolfo ou uma Laura Esquivel, nunca o México será o mesmo para os seus leitores. Os Açores nunca mais deixaram de entrar, mesmo que com limitações e só entre certa elite literária, no imaginário nacional português depois de Mau Tempo no Canal. Só resisto ao endeusamento de seja quem for. Depois deste e de outros escritores vieram muitos mais. Alguns deles não só ultrapassaram (é a sua obrigação) a chamada “ansiedade da influência” propagada por Harold Bloom, mesmo que só em certos sentidos positivos, como superaram, como deve ser, os seus mestres ou grandes antecessores. Depois de lermos a Paula Cabral, o seu espaço de eleição nunca mais será o mesmo. Quase vemos, quase o sentimos, e queremos visitá-lo. Pedir mais de prosa como esta seria injusto e ignorante. Ela junta-se, agora, ao melhor dos nomes picopedrenses que já mencionei, junta-se agora ao melhor da literatura açoriana. Para quem não for provinciano, digo ainda e sem apologia, ao melhor que se escreve dentro do seu género, no nosso país e, até, na nossa língua.

Pedir a um escritor ou a uma escritora que escreva mais do mesmo, ou no mesmo género e forma, é injusto e irracional. Só que quero dizer à autora de Crónicas da Minha Terra que vai-me ser difícil esquecer. Para além disso, eu próprio raramente saio fora da recensão ou crítica literária, a não ser para um ensaio de fôlego numa qualquer revista universitária, lida quase só entre pares. Não, o que lhe peço são estas palavras de uma clareza como nos impõe um anti-ciclone, do calor de como vê a humanidade em seu redor, do respeito pelo seu próximo, da palavra que tanto se torna metáfora com símbolo. Um elogio não de ser bajulação, e ante Paula Cabral não tenho as mínimas razões para isso, ou pelo menos, pela forma civilizada com que a vejo escrever ou tratar todos à sua volta. Não sei que aulas dá na sua escola, mas sei que deveria trabalhar a palavra escrita, a palavra como transmissão de pensamento e crítica aos seus alunos. Leio-a, repito, como quem encontra uma velha amiga, uma conterrânea de uma das minhas ilhas de afectos sem fim, uma colega a quem apetece dizer “bom dia”, e que nunca deixe de nos oferecer mais um ensaio, curto ou longo. Vejo-a, daqui, a olhar pela sua janela com um sorriso na cara, ou então com um certo desagrado pelo que ouve ou avista. A fachada da igreja que ela olha ou olhava na sua juventude é mesma que eu via, caminhando um pouco nas minhas Fontinhas. Não insinuo aqui, eu ou ela, qualquer crença ou opção religiosa – vejo, vemos, a génese de tudo que une o nosso povo, de tudo que faz festejar a sua existência, de tudo que incutiu em nós valores que partilhamos ou rejeitamos.

Crónicas da Minha Terra é esse tesouro da razão e do coração. Creio não termos o direito de pedir mais, nem a nós próprios nem aos outros, que connosco nasceram, tornaram-se adultos, ficaram ou emigraram. A sua presença, de qualquer modo, fica para sempre.

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Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra, Ponta Delgada, COINGRA, Lda., 2017. Este texto foi retirado do meu prefácio a este livro. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.

Da grande narrativa e do nosso tempo

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos.

Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel

Vamberto Freitas

O novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, uma narrativa de grande fôlego e estrutura mista nas diversas visões e transfigurações da nossa sociedade actual, sendo narrado na terceira pessoa é constituído pela polifonia das suas vozes agudas, conscientes da sua sorte, sobrevivendo em todos os estratos sócio-económicos e financeiros da sociedade que é a nossa, mas a sua geografia precisa não impede a universalidade do que habitualmente chamamos a condição humana nas suas mais diversas versões, ou seja, reconfirma aqui o famoso dito faulkneriano de que toda a grande literatura é feita ou tem como tema dominante o “coração humano em conflito consigo próprio”. Não gosto muito de comparações entre um escritor e outro, mas aqui vai outra: se Ernest Hemingway escreveu um romance de guerra sob o título de “Adeus às Armas”, é a busca do amor impossível num hospital que domina a temática e impulso dominantes da sua obra prima, ou então um Albert Camus a propor ou a relembrar-nos que todo e qualquer ser humano está condenado infinitamente a carregar a pedra montanha acima mesmo sabendo que a tarefa e o sofrimento serão intermináveis. É uma outra mostra da nossa capacidade de nunca aceitar a derrota. A humanidade, na sua infinita incapacidade de se aperceber do belo à sua volta, vive submergida, cada homem e mulher, na sua condição e circunstâncias, sendo essa alusão repetida a Ortega y Gasset em certas páginas como um refrão a uma tragédia grega, às origens da nossa própria incapacidade de ultrapassarmos tudo o que nos estava guardado ou ditado pelos deuses.

Esta mais recente obra do autor aqui em foco, o seu quarto romance publicado recentemente, leva-nos ao outro lado do estado da nossa humanidade na sociedade dos nossos dias: o desamor perpétuo entre quase todos os seus personagens principais, sem nunca nunca deles deixar de tentar dar uma nova direcção nas suas vidas, de recriar a cada passo os seus valores existenciais para sobreviverem por entre a indiferença generalizada numa sociedade que anda sem olhar nem ver mais ninguém à sua volta, numa azáfama de vida rumo a nenhures, tal como os vemos nas ruas de Lisboa aos encontrões, a multidão que nos parece acéfala e que se esconde depois em apartamentos de onde apenas se avista, quando se avista, as caras sem sorrisos e se ouve os buzinões dos frustrados ou raivosos. Praticamente toda a trama de O Pianista de Hotel gira em volta da vida de um hospital, dos seus médicos, enfermeiros e doentes, o sofrimento físico e psíquico o inevitável dia-a-dia de cada um, sem nunca se dar ou permitir a entrega fácil à desesperança e à morte. O que mais impressiona nesta magnífica e complexa ficção é que o leitor nunca se sente deprimido, bem pelo contrário, reencontra-se a si próprio, cada ser aqui reinventado contendo um pouco de nós todos, o humor, ora leve ora a roçar a sátira (“os médicos não entendem porra nenhuma de medicina”), fazendo-nos tomar consciência de que ninguém está só na sua pouca sorte, de que ninguém deixa de contrariar o que nós portugueses repetimos incessantemente como sendo o destino ou o nosso fado. Lemos a transfiguração de personagens e “realidades” – mas, para além desse acto de encontros com os outros, lemo-nos a nós próprios. Escrevi-o noutra parte quando comecei a ler estas páginas que a grande arte permanece sempre a grande arte, mas quando nos chega em certos momentos das nossas vidas torna-se ainda mais poderosa e bela no nosso pensamento e emoção, o que foi – não são chamadas para aqui as razões – o meu caso particular no encontro com esta prosa. Aliás, a única redenção para algumas destas vidas é o apego ou a apreciação da própria arte, nas suas muitas formas e géneros, como se depreende do próprio título, mesmo que só reconhecido por poucos entre todos eles, entre todos nós.

O Pianista de Hotel não tem um mas vários protagonistas que se encontram num entrelaçado de ocasionalidades ou coincidências, cada um deles e delas como que representando, como já referi, as mais diversas origens e sortes de vida: Maria Luísa, mulher de 27 anos de idade, criada de mesa num restaurante da classe abastada, vivendo só após abandono do pai e morte precoce da mãe, linda e cujo corpo é objecto de todos os olhares e desejos de homens e mulheres. Menciono esta personagem porque ela é que movimenta boa parte da narrativa, e é com ela que o romance chega ao fim enquanto se passeia sem rumo e é seguida nesse momento pelo enfermeiro Luís Gustavo, também só, de origem provinciana algures no norte do país, e que perde a coragem nesse momento de abordar decisivamente a mulher que bem o poderia aceitar na sua vida, e dar início a nova esperança de alguma felicidade. Pelo meio temos médicos sofridos mas dedicados, um homossexual que acaba todo partido no hospital após um espancamento numa rua da capital e que o leitor suspeita, sem nunca ser dito pelo narrador, quem foram os seus carrascos, assim como duas psiquiatras de alma atribulada, uma também pela sua orientação sexual, a outra, ela própria enquanto tenta ajudar os seus pacientes, em contínua psicanálise num combate aos seus próprios demónios. Nenhum deles foge ao seu inferno, à infelicidade quotidiana entre a casa e o seu lugar de trabalho. Edmund Wilson acreditava que um breve resumo de uma peça literária era em si próprio já uma “crítica” ou apreciação do seu leitor ao mais que o comove na palavra ou na arte em geral, a humanização de cada ser inventado reside precisamente nos pormenores mais inesperados das suas vidas, dos seus medos ou da superação ou não que os atormenta e afasta um mínimo de sentido das suas vidas, ou então na sua determinação de fazer a pedra às suas costas nunca o derrotar ou fazer temer o dia seguinte. Um romance é quase sempre e essencialmente a ordenação do caos entre os que compõem outros mundos ou de ser e estar, é uma aproximação permitida por um deus ex maquina ou por circunstâncias que os aproximam, mesmo quando incomuns ou inevitáveis. O fascínio de qualquer leitor mais atento vem desses encontros e desencontros, como um doente com o seu cuidador ou duas pessoas sentadas num bar a partilhar o que os rodeia, o que ouvem. Numa narrativa que muitas vezes nos parece algo joyceana na sua estrutura e pormenores quotidianos que quase sempre nos passariam despercebidos, com personagens e acontecimentos a serem descritos em simultâneo, o romance de Rodrigo Guedes de Carvalho nunca deixa o leitor pendurado em meras insinuações ou alusões obscuras, a sua prosa é de uma clareza e viveza pouco comuns na nossa literatura. Por certo que na chamada pós-modernidade literária a variedade de autores e obras forçam o leitor a definir os seus gostos muito próprios, a optar por um género sobre outro, cada um trazendo à sua leitura, olhar ou ouvido, o que misteriosamente o faz ver e sobretudo rever-se. O autor refere aqui, de quando em quando, que a palavra só por si não chega para espelhar no seu todo a nossa existência. É quase no fim do romance que juntamos as peças todas, e percebemos por inteiro o seu título.

Fascinado, porque constatou que o pianista – diz o narrador de uma visita ao hotel de um enfermeiro na companhia de um médico de nome Pedro Gouveia, que está também presente em todo o romance, e vão ouvir a mestria de um pianista sem fama e que toca para quase ninguémfazia alguns movimentos, algumas passagens entre teclas, alternava alguns acordes, iguais a algumas aulas que ele tem procurado na internet. Sendo que o Conde Melo é um pianista exímio, só os hóspedes do hotel não percebiam, e ao fazer o que fazia tudo parecia muito fácil, e Luís Gustavo espantou-se, feliz, a ver como dois ou três corrupios de dedos enchiam a sala numa nuvem harmoniosa… E algo nele disse, eu quero fazer isto”.

O Pianista de Hotel é essa peça de arte literária também exímia, e que deixa os seus leitores, uma vez mais, reverem as suas próprias circunstâncias nesta longa representação, e a sociedade em que todos vivemos. Creio ser o regresso de um certo existencialismo, e fica pelas sugestões de que cada personagem vive no isolamento da sua miséria ou dos seus sonhos, o passado assombrando, sempre, o presente de cada um deles. “Os meus mortos visitam-me regularmente”, relembra o narrador sobre um deles em busca de si e de outra existência, em “Depois Do Fim”, numa afirmação da e pela vida, seja ela qual for ou nos tenha colocado no labirinto indiferente do grande mundo que nos rodeia. A uma prosa por vezes crua junta-se a poesia pura de quem olha a vida pelos dois lados do espelho de onde sobressai a alma humana, que para sempre sonha com essa “nuvem harmoniosa” ou aponta o dedo aos demónios que nos habitam.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, Lisboa D. Quixote/LeYa, 2017.

Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, Ponta Delgada.

Urbano Bettencourt e a obra de José Martins Garcia

Num espaço cercado como o insular, a fuga constitui, aparentemente, um projecto de libertação que a experiência virá a desmentir.

Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe

Vamberto Freitas

Falar da obra de Urbano Bettencourt é falar do melhor que entre nós se escreve, e ele tem escrito em todos géneros e formas, poesia, ficção, e muito especialmente o ensaísmo em volta da literatura açoriana, assim escreve sobre literatura e questões culturais da Madeira, Cabo Verde e Canárias. Já o afirmei noutra parte, mas ele é como um T. S. Eliot destas ilhas – a sua poesia é escrita com o mais profundo conhecimento da sua teorização na nossa e noutras línguas, o seu ensaísmo liga e interliga obras e autores, épocas e geografias, quase sempre pouco conhecidas nos grandes meios, ou mesmo nas instituições de ensino superior. Poderá escrever sobre um autor de poesia ou ficção com um fio condutor que perpassa toda a sua obra, e isso tem essencialmente um objectivo primordial nas literaturas menos conhecidas, ou seja a legitimação de obras que se encontram fora das antologias nacionais e só muito raramente visada pela crítica nos grandes jornais e revistas, como aconteceria, por exemplo, com a poesia de Roberto de Mesquita, que só Vitorino Nemésio tentou resgatar do isolamento das Flores e das páginas regionais que sempre publicaram entre nós. Entre um humor corrosivo e a maior seriedade nos seus estudos desta outras literaturas insulares, repita-se, conhecidas fora dos seus meios (com algumas excepções de outros escritores açorianos que escrevem e publicam no Continente) Urbano ocupa um espaço absolutamente essencial na nossa literatura, e refiro-me a literatura de língua portuguesa em geral, inclusive a do Brasil. Para além de estar presente em antologias desses e de países tão distantes como a Letónia, Eslováquia e Hungria, ficam aqui alguns exemplos, nomeadamente África frente e verso, Que Paisagem Apagarás e três volumes de ensaio sob o título de O gosto das palavras. Ler Urbano é perceber como a partir de pequenas ilhas se universaliza uma escrita, a condição humana nas suas versões cercadas de mar por todos os lados, mas em viagem perpétua nas mais inesperadas ou longínquas geografias literárias e culturais. Basta só dizer que ele tem como referência de grande importância teórica para estas nossas literaturas o escritor francófono (da ilha Martinica) Edouard Glissant, cujos títulos de dois dos seus livros tudo explicam logo à partida, A Poética da Relação e Tout-Monde.

Sem qualquer surpresa para mim, está agora dedicado a novas edições da Companhia das Ilhas da obra completa do falecido José Martins Garcia, seu conterrâneo picoense, e durante anos seu colega no então Departamento de Línguas e Literaturas Modernas na Universidade dos Açores. Martins Garcia representa perfeitamente o dilema de ser escritor das e nas ilhas. Uma obra tão soberba como a sua, que inclui também poesia e ensaio, mantém-se fora da atenção nacional que muito merece, quase nunca figura na discursividade literária no nosso próprio país. A sua ficção, incluindo o grande romance de guerra Lugar de Massacre, que transfigura a sua experiência militar na Guiné-Bissau, raiado por vezes o surrealismo, por certo algumas das ferozes páginas satíricas sobre a guerra travada no mato e vivida entre o álcool e a mentira. Os seus outros romances, como O Medo e Imitação da Morte, têm como tema fundamental e constante o desespero existencial da vivência em pequenas ilhas e depois a fuga para fora, que resulta sempre na perdição dos seus personagens, ou, como me disse um dia numa entrevista publicada no Diário de Noticias: “nasci numa ilha e perdi-me no mundo”. Não são necessariamente autobiográficos mas contêm em si, na “pessoa” de alguns dos seus narradores toda a fúria e inteligência crítica do autor, assim se desenrolam na sua geografia natal e países e sociedades por vividas em directo. Este é trabalho mais do que meritório e uma aposta corajosa da editora com base na ilha do Pico, mas com uma projecção nacional pouco comum a outras experiências semelhantes no passado. Finalmente, a grande Imprensa lisboeta tem tomado nota em espaços de destaque, que só lhes prestigia e presta homenagem é um dos maiores e melhores escritores portugueses do século passado.

A representação – escreve Urbano Bettencourt – do espaço insular açoriano dá-nos, em primeiro lugar, a imagem de um ‘mundo abreviado’ (expressão de Vitorino Nemésio) em que as personagens se movimentam aparentemente mais por força de um desígnio exterior do que por uma vontade própria (desígnio que tanto pode resultar dos constrangimentos físicos, geográficos, como do peso do conservadorismo e das convenções sociais, familiares); incapazes, por vezes de romper o círculo em que os seus gestos e atitudes se repetem inevitavelmente, as personagens conseguem, noutros casos, escapar ao cerco da ilha para fazer a experiência do mundo, mas acabam por perder-se de formas várias.. A sátira, por seu turno, representa uma denúncia frontal desse mesmo mundo. A visão satirista é a de alguém que se situa perante um mundo degradado e que a si próprio atribui a missão de criticá-lo de forma directa e agressiva mesmo, com o propósito de agir sobre ele, transformando…”

É precisamente sobre tudo isto e muito mais na obra de José Martins Garcia que trata Urbano Bettencourt no seu novo livro, O Amanhã Não Existe, a sua tese de doutoramento (com algumas ligeiras modificações ou acertos de linguagens), defendida há poucos anos na Universidade dos Açores. É claro que num livro tão extenso como este a sua parte principal é uma sustentada e bem documentada análise de como a sátira na ficção de José Martins Garcia, e em livros de contos sui generis como Katafarauns, que junta agora os dois volumes originais Katafaraum é uma nação e Katafaraum ressurrecto, sobressai em tudo que fazem, dizem ou insinuam os seus personagens principais na clausura da ilha e na desorientação quase psiquiátrica quando optam pelo seu desterro nas grandes cidades, fazendo chamamentos à nossa historicidade, no caso dos Açores, e aludindo de quando em quando a outras obras, autores e figuras históricas do nosso arquipélago. A primeira parte do livro, para uma vasta contextualização das obras analisadas, debruça-se sobra a velha questão da Literatura Açoriana, a sua “existência” ou não, a teorização através do que se tem escrito em várias épocas e momentos históricos sobre este tema desde o século XIX até ao presente, questão que reaparece de esporadicamente quando alguns dos nossos escritores aqui nascidos reclamam para si um lugar no cânone literário português. O próprio José Martins Garcia, que foi Professor Catedrático na Universidade dos Açores, leccionou a cadeira precisamente de Literatura Açoriana, e creio que sem grandes preocupações teóricas sobre uma literatura autónoma ou não. No pós-25 de Abril, Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros relançariam o antigo debate a partir de Lisboa e pela revista A Memória da Água-Viva, enquanto Onésimo Teotónio Almeida faria o mesmo com um grande congresso na Brown University, a primeira instituição do ensino superior no mundo a incluir uma cadeira sobre a literatura que tem os Açores como referência, escrita ou não por ilhéus. Estão representados praticamente todos os nomes dos escritores, críticos e ensaístas que se debruçaram de modo sério a questão, percebendo-a através de variadas perspectivas, alguns deles aventurando comparações com a literatura produzida noutros países e noutras regiões, como nos casos, mais conhecidos da nossa geração, que incluem Borges Garcia, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Onésimo Teotónio Almeida, J. H. Santos Barros e o próprio José Martins Garcia. Discretamente, omite nestas páginas a sua importante escrita toda a questão, ele que foi um dos ensaístas e crítico que despoletou o nosso regresso ao pensamento teórico e prático sobre a Literatura Açoriana, ele, cuja poesia e ficção carregam com profundidade tudo o que distingue a nossa palavra criativa adentro da literatura portuguesa modernista.

O estudo daquilo que os textos significam (ou não) – reafirma o autor na primeira parte do livro – em termos de uma particular expressão e de um modo de ser açoriano corresponderia, segundo Eduíno de Jesus, a um segundo momento de aproximação. Ora, deste ponto de vista, os textos dispersos já existentes, monografias, ensaios, crítica literária, introduções a obras de conjunto, dissertações académicas, mesmo nãp constituindo uma história de literatura, fornecem elementos extremamente valiosos para o entendimento e a compreensão do processo literário açoriano no seu percurso histórico e estético. E, para dentro dele, proceder à abordagem de um autor ou de uma obra, como é o caso de José Martins Garcia.”

Por outras palavras, essa história já existe, só que está dispersa e à procura de quem a sintetize. O Amanhã Não Existe é outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte, começando com Gaspar Frutuoso no século XVI até ao nosso presente. A sua linguagem clara, livre do inútil e ofuscador jargão académico, a prosa de um grande estudioso e escritor que é Urbano Bettencourt traz-nos tudo que leva um leitor a abrir um livro para reafirmar o poder da literatura como representação da vida, da mundividência de um povo há mais de quinhentos anos no meio do mar e entre o continente da sua origem e o continente, a oeste, do seu destino.

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Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017.

Da grande narrativa e do nosso tempo

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos.

Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel

Vamberto Freitas

O novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, uma narrativa de grande fôlego e estrutura mista nas diversas visões e transfigurações da nossa sociedade actual, sendo narrado na terceira pessoa é constituído pela polifonia das suas vozes agudas, conscientes da sua sorte, sobrevivendo em todos os estratos sócio-económicos e financeiros da sociedade que é a nossa, mas a sua geografia precisa não impede a universalidade do que habitualmente chamamos a condição humana nas suas mais diversões versões, ou seja, reconfirma aqui o famoso dito faulkneriano de que toda a grande literatura é feita ou tem como tema dominante o “coração humano em conflito consigo próprio”. Não gosto muito de comparações entre um escritor e outro, mas aqui vai outra: se Ernest Hemingway escreveu um romance de guerra sob o título de “Adeus às Armas”, é a busca do amor impossível num hospital que domina a temática e impulso dominantes da sua obra prima, ou então um Albert Camus a propor ou a relembrar-nos que todo e qualquer ser humano está condenado infinitamente a carregar a pedra montanha acima mesmo sabendo que a tarefa e o sofrimento serão intermináveis. É uma outra mostra da nossa capacidade de nunca aceitar a derrota. A humanidade, na sua infinita incapacidade de se aperceber do belo à sua volta, vive submergida, cada homem e mulher, na sua condição e circunstâncias, sendo essa alusão repetida a Ortega y Gasset em certas páginas como um refrão a uma tragédia grega, às origens da nossa própria incapacidade de ultrapassarmos tudo o que nos estava guardado ou ditado pelos deuses.

Esta mais recente obra do autor aqui em foco, o seu quarto romance publicado recentemente, leva-nos ao outro lado do estado da nossa humanidade na sociedade dos nossos dias: o desamor perpétuo entre quase todos os seus personagens principais, sem nunca nunca deles deixar de tentar dar uma nova direcção nas suas vidas, de recriar a cada passo os seus valores existenciais para sobreviverem por entre a indiferença generalizada numa sociedade que anda sem olhar nem ver mais ninguém à sua volta, numa azáfama de vida rumo a nenhures, tal como os vemos nas ruas de Lisboa aos encontrões, a multidão que nos parece acéfala e que se esconde depois em apartamentos de onde apenas se avista, quando se avista, as caras sem sorrisos e os buzinões dos frustrados ou raivosos. Praticamente toda a trama de O Pianista de Hotel gira em volta da vida de um hospital, dos seus médicos, enfermeiros e doentes, o sofrimento físico e psíquico o inevitável dia-a-dia de cada um, sem nunca se dar ou permitir a entrega fácil à desesperança e à morte. O que mais impressiona nesta magnífica e complexa ficção é que o leitor nunca se sente deprimido, bem pelo contrário, reencontra-se a si próprio, cada ser aqui reinventado contendo um pouco de nós todos, o humor, ora leve ora a roçar a sátira (“os médicos não entendem porra nenhuma de medicina”), fazendo-nos tomar consciência de que ninguém está só na sua pouca sorte, de que ninguém deixa de contrariar o que nós portugueses repetimos incessantemente como sendo o destino ou o nosso fado. Lemos a transfiguração de personagens e “realidades” – mas, para além desse acto de encontros com os outros, lemo-nos a nós próprios. Escrevi-o noutra parte quando comecei a ler estas páginas que a grande arte permanece sempre a grande arte, mas quando nos chega em certos momentos das nossas vidas torna-se ainda mais poderosa e bela no nosso pensamento e emoção, o que foi – não são chamadas para aqui as razões – o meu caso particular no encontro com esta prosa. Aliás, a única redenção para algumas destas vidas é o apego ou a apreciação da própria arte, nas suas muitas formas e géneros, como se depreende do próprio título, mesmo que só reconhecido por poucos entre todos eles, entre todos nós.

O Pianista de Hotel não tem um mas vários protagonistas que se encontram num entrelaçado de ocasionalidades ou coincidências, cada um deles e delas como que representando, como já referi, as mais diversas origens e sortes de vida: Maria Luísa, mulher de 27 anos de idade, criada de mesa num restaurante da classe abastada, vivendo só após abandono do pai e morte precoce da mãe, linda e cujo corpo é objecto de todos os olhares e desejos de homens e mulheres. Menciono esta personagem porque ela é que movimenta boa parte da narrativa, e é com ela que o romance chega ao fim enquanto se passeia sem rumo e é seguida nesse momento pelo enfermeiro Luís Gustavo, também só, de origem provinciana algures no norte do país, e que perde a coragem nesse momento de abordar decisivamente a mulher que bem o poderia aceitar na sua vida, e dar início a nova esperança de alguma felicidade. Pelo meio temos médicos sofridos mas dedicados, um homossexual que acaba todo partido no hospital após um espancamento numa rua da capital e que o leitor suspeita, sem nunca ser dito pelo narrador, quem foram os seus carrascos, assim como duas psiquiatras de alma atribulada, uma também pela sua orientação sexual, a outra, ela própria enquanto tenta ajudar os seus pacientes, em contínua psicanálise num combate aos seus próprios demónios. Nenhum deles foge ao seu inferno, à infelicidade quotidiana entre a casa e o seu lugar de trabalho. Edmund Wilson acreditava que um breve resumo de uma peça literária era em si próprio já uma “crítica” ou apreciação do seu leitor ao mais que o comove na palavra ou na arte em geral, a humanização de cada ser inventado reside precisamente nos pormenores mais inesperados das suas vidas, dos seus medos ou da superação ou não que os atormenta e afasta um mínimo de sentido das suas vidas, ou então na sua determinação de fazer a pedra às suas costas nunca o derrotar ou fazer temer o dia seguinte. Um romance é quase sempre e essencialmente a ordenação do caos entre os que compõem outros mundos ou de ser e estar, é uma aproximação permitida por um deus ex maquina ou por circunstâncias que os aproximam, mesmo quando incomuns ou inevitáveis. O Fascínio de qualquer leitor mais atento vem desses encontros e desencontros, como um doente com o seu cuidador ou duas pessoas sentadas num bar a partilhar o que os rodeia, o que ouvem. Numa narrativa que muitas vezes nos parece algo joyceana na sua estrutura e pormenores quotidianos que quase sempre nos passariam despercebidos, com personagens e acontecimentos a serem descritos em simultâneo, o romance de Rodrigo Guedes de Carvalho nunca deixa o leitor pendurado em meras insinuações ou alusões obscuras, a sua prosa é de uma clareza e viveza pouco comuns na nossa literatura. Por certo que na chamada pós-modernidade literária a variedade de autores e obras forçam o leitor a definir os seus gostos muito próprios, a optar por um género sobre outro, cada um trazendo à sua leitura, olhar ou ouvido, o que misteriosamente o faz ver e sobretudo rever-se. O autor refere aqui, de quando em quando, que a palavra só por si não chega para espelhar no seu todo a nossa existência. É quase no fim do romance que juntamos as peças todas, e percebemos por inteiro o seu título.

Fascinado, porque constatou que o pianista – diz o narrador de uma visita ao hotel do enfermeiro na companhia de um médico de nome Pedro Gouveia, que está também presente em todo o romance, e vão ouvir a mestria de um pianista sem fama e que toca para quase ninguémfazia alguns movimentos, algumas passagens entre teclas, alternava alguns acordes, iguais a algumas aulas que ele tem procurado na internet. Sendo que o Conde Melo é um pianista exímio, só os hóspedes do hotel não percebiam, e ao fazer o que fazia tudo parecia muito fácil, e Luís Gustavo espantou-se, feliz, a ver como dois ou três corrupios de dedos enchiam a sala numa nuvem harmoniosa… E algo nele disse, eu quero fazer isto”.

O Pianista de Hotel é essa peça de arte literária também exímia, e que deixa os seus leitores, uma vez mais, reverem as suas próprias circunstâncias nesta longa representação, e a sociedade em que todos vivemos. Creio ser o regresso de um certo existencialismo, e fica pelas sugestões de que cada personagem vive no isolamento da sua miséria ou dos seus sonhos, o passado assombrando, sempre, o presente de cada um deles. “Os meus mortos visitam-me regularmente”, relembra o narrador sobre um deles em busca de si e de outra existência, em “Depois Do Fim”, numa afirmação da e pela vida, seja ela qual for ou nos tenha colocado no labirinto indiferente do grande mundo que nos rodeia. À crueza de uma prosa por vezes crua junta-se a poesia pura de quem olha a vida pelos dois lados do espelho de onde sobressai a alma humana, que para sempre sonha com essa “nuvem harmoniosa” como aponta o dedo aos demónios que nos habitam.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, Lisboa D. Quixote/LeYa, 2017.

A América do nosso destino, e a arte literária de Álamo Oliveira

Era a revolver o passado que Mary procurava ludibriar a morte. Passava pelos pequenos factos que lhe tinham colorido os dias e parava nas surpresas tristes que a vida também lhe dera. Voltava a sorrir e a chorar e continuava a arrepiar-se com tudo o que fora obrigada a assimilar.

Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates

Vamberto Fretas

Esta é a minha primeira leitura do romance de Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates, cuja primeira edição saiu na (extinta) Salamandra, em 1999, então dirigida e coordenada pelo Dr. Bruno da Ponte, que fez questão de publicar mais de uma centena de obras de autores açorianos, ou outras que têm os Açores como espaço referencial geográfico e histórico. Saiu num tempo em que o meu cansaço literário excluía determinadas obras, e só agora me dou conta de que a perda foi toda minha. Por certo que outros escreveram, muito e bem, sobre esta ficção fundamental no cânone do próprio autor assim como da literatura de língua portuguesa em geral, e estou a pensar no Diniz Borges (que também o viria traduzir para o inglês juntamente com Kathie Baker), e do grande texto do escritor brasileiro Luiz António de Assis Brasil, que agora serve de prefácio a esta nova edição do livro pela Companhia das Ilhas. Foi ainda traduzido para o japonês pelo lusitanista Kiwamu Hamaoka, que tem dedicado especial à nossa literatura, e publicado pela Random House Kdansha, em Tóquio. Álamo Oliveira dispensa aqui qualquer apresentação como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta, a sua obra é extensa demais para que eu escolha e cite aqui alguns desses títulos. Lembrarei apenas que o seu romance de guerra Até Hoje (Memorias de Cão) é considerado por alguns críticos nacionais como uma das melhores obras do género na nossa língua, que inclui outros nomes como João de Melo, António Lobo Antunes e Cristóvão de Aguiar. Devo ainda enfatizar aqui que a temática da nossa imigração na América do Norte nunca esteve ausente da sua escrita, nem sequer do seu teatro, servindo de exemplo Manuel Seis Vezes Pensei Em Ti. Vem de longe esta atenção à nossa presença americana, particularmente no Vale de São Joaquim, na Califórnia. Toda a sua família imediata, tal como a minha, está lá desde os anos 50, fazem parte de nação peregrina que é a nossa, incluindo naturalmente os luso-descendentes, que desde há umas décadas a esta parte perpetuam a nossa memória colectiva através da sua própria escrita, e principalmente através da sua vida em comunidade, centrada nas festividades religiosas e profanas. A grandeza de Já Não Gosto De Chocolates poderá ser comparada só a Gente Feliz Com Lágrimas, talvez o mais reconhecido romance de João de Melo, e que tem a nossa experiência imigrante no Canadá no seu centro temático.

As comparações ficam necessariamente por aqui. Álamo Oliveira reinventa uma família originária da Ilha Terceira, cuja pobreza leva à sua partida para o oeste americano, onde eventualmente compra uma vacaria substancial, e que mantém em prosperidade o protagonista Joe Sylvia, a sua mulher Maria de Fátima, e mais quatro filhos, todos eles (até à partida de John para São Francisco por razões de orientação sexual numa comunidade conservadora e hipócrita), residentes na cidade de Tulare, cuja população aí e nos seus arredores conta com milhares de açorianos, na sua maioria originários das ilhas centrais do nosso arquipélago. Os olhares do narrador são simultaneamente de grande compreensão pela condição humana nesta sua outra versão e crítica a toda uma sociedade – tanto a de origem como a de adopção – cuja pobreza e injustiça envia para fora boa parte da sua população trabalhadora, e depois o Sonho Americano, que poderá dar pão mas não evita a morte solitária e a infelicidade de cada um dos seus personagens. O título do romance serve como a metáfora aglutinadora de toda a narrativa – o sabor e o cheiro americanos que tanto seduziam os mais carentes nos seus recantos ilhéus depressa se torna amargo, em certas cenas pungentes destas páginas, um símbolo odioso para quem acaba uma vida de muito trabalho mas também de muita riqueza na maior solidão numa casa da terceira idade, reduzido a uma cadeira de rodas e simplesmente desejando que a morte o apanhe o mais brevemente possível, como é o caso de Joe Sylvia, e que vai contando os seus mundos perdidos a uma assistente social mexicana, de nome Rosemary, e de profunda humanidade perante os que lhe estão dependentes.

Já Não Gosto De Chocolates é feito de analepses que vão lembrando a pobreza da vida nas ilhas e o duro quotidiano americano em busca do sucesso que ideologicamente é – era – prometido a todos que se submetessem ao trabalho constante, quantas vezes insano. Digamos que estamos perante a tragédia “demasiado humana” – o amor e a morte andam de mãos dadas, o fim de cada um tudo menos o que sonhavam para si próprios. Dão-se duas mortes no fim da narrativa, a do velho patriarca e a do seu filho homossexual, que, como já foi referido, havia partida para longe, para a grande cidade a norte que cedo se distinguiu numa cultura conservadora pela sua tolerância, pela sua abertura aos mais variados estilos de vida, pelo seu real cosmopolitismo. É um romance que combina em si todos estes dramas com o humor e a sua originalidade estilística, tal como nos aponta Assis Brasil no prefácio, que só um mestre com Álamo Oliveira manobra em linguagens marcadas por símbolos, insinuações e surpresas nas viragens inesperadas da sua narrativa. Quando se sabe da morte de John após contrair a Sida num tempo ainda em que a medicina não sabia o que fazer, a comunidade faz de conta que se trata de um castigo pelas opções de vida da vítima; Joe Sylvia, seu pai, depois do desgosto que durou anos, dá-se conta de que John foi o seu mais fiel e generoso filho. Quando o velho, já viúvo, reúne a restante família para ler o testamento final e dizer-lhes que desejava morrer numa clínica, nenhum deles se opôs, muito pelo contrário, sentiram-se aliviados com o afastamento físico do pai, as suas visitas esporádicas e sempre breves. A inteligência aguda de Sylvia não deixa nada disto passar em branco, inteiramente consciente do ambíguo significado das nossas vidas. Tinha visitado os Açores duas vezes, a última já após o 25 de Abril. Reconhecia muito poucos (tinham morrido ou emigrado, a sina açoriana), e o novo rumo do país era-lhe totalmente alheio. Emigrar é, aqui, perder a essência do nosso ser, e nunca mais conseguir um enraizamento significante, o viveiro humano permanece sempre estranho, quando não totalmente desconhecido. Do Nada para Nada, parece querer dizer-nos este romance profundamente portador, diria, de um existencialismo filosófico que nos manda procurar individualmente os nossos valores e significados de vida em qualquer comunidade, somos sempre margens das e nas grandes sociedades, para além da riqueza que, uma vez mais, temos ou não temos.

Agora – diz o narrador da última visita que Joe Sylvia e a sua mulher fizeram aos Açores, quando o seu fim já se aproximava – tinha tempo de amortecer a morte pela desbobinagem e rebobinagem do passado, Mary recordava a decepção de Joe Sylvia quando foram à ilha pela segunda vez. Para ele, as pessoas tinham enlouquecido. A revolução de Abril não cabia no seu espartilhado sentido de democracia e a liberdade não podia confundir-se com aquela euforia de palavras cujo propósito não alcançava. Mary, porém, reconhecia que a vida, na ilha, tocara os valores necessários para banir muita da pobreza que afectara a sua infância. As roupas novas que levara já só espantaram pela cor e pelo cheiro e o ice-cream que oferecia às amigas nas touradas era retribuído com outro logo a seguir. A única coisa que não entendeu – e que tanto enfurecia Joe Sylvia – era que lhes chamasse moscas de verão.”

Por outras palavras, a pelintrice portuguesa, na versão açoriana, continuava – e continua – bem viva e petulante. Muita da literatura açoriana do século passado ficava-se sempre, repito-me aqui, pela caricatura, a unidimensionalidade dos personagens imigrantes e dos seus descendentes. Álamo Oliveira é um grande escritor, e como tal a humanidade e complexidade dos seus personagens, de todos os seus personagens, permanece inteira, mesmo que sem cedências à mediocridade das suas vidas, e muito menos das suas sociedades, quer em casa quer no além-fronteiras. Este seu romance faz parte do melhor do nosso cânone literário modernista. Lê-lo é olhar o espelho que nos devolve as nossas imagens, ora distorcidas ora reveladoras de quem somos e como somos.

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Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017.

Eugénio Lisboa entre o sonho e a realidade

anhã em Hollywood: Passeio da Fama, compra de bugigangas – o costume. Como seria de esperar, o sonho revelou-se maior (e melhor) do que a pífia realidade… Mas difícil reconciliar esta palhaçada com os grandes filmes que guardo na memória.

Eugénio Lisboa, Diário de Viagens Fora da Minha Terra

Vamberto Freitas

Diário de Viagens Fora da Minha Terra, de Eugénio Lisboa, tal como diz o autor na sua abertura, era para fazer parte do quinto volume das suas memórias, Acta est Fabula, mas tornar-lhe-ia longo demais. Pela minha parte só lhe agradeço pela decisão acertada, pois ter um novo livro do autor nas mãos, lê-lo frase a frase, regressar a páginas anteriores para me certificar de uma ou outra afirmação ou observação é dos meus mais belos momentos de leitura na nossa língua. Este diário data de 1996 até 2013, ou seja cobre os últimos anos de euforia generalizada no nosso país, e depois os anos de chumbo, que ainda não passaram totalmente. Viajar, para Eugénio Lisboa, fez sempre parte da sua já longa vida, a partir do momento que deixou Lourenço Marques em 1947, e depois no seu regresso a Moçambique após completar o curso em engenharia electrónica no Instituto Superior Técnico. Viria definitivamente para Portugal logo após o 25 de Abril, seguido de um também longo intervalo de 17 anos como Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Londres. O resto da sua distinta biografia é bem conhecida dos seus leitores, ou então será conhecida por futuros leitores seus. Do mesmo modo, a sua obra é tão extensa que ocupa um espaço muito maior do que este. Ler, por exemplo, José Régio sem ler o que Eugénio sobre ele comentou e analisou ao longo da vida seria perder alguma da mais inteligente e consequente interpretação ou hermenêutica (que me perdoe ele por este palavrão académico) na nossa língua, o mesmo aplicando-se a outros grandes escritores nossos como Jorge de Sena e Eça de Queirós. Exactamente por esta vasta experiência de vida com origens em África e pelas suas intermináveis leituras, abrir um livro de Eugénio Lisboa é viver a língua portuguesa na sua plenitude e presença mundial, é conhecer-nos de fora para dentro através de outras literaturas, especialmente a anglo-saxónica e a francesa. Pelo meio, ficamos a conhecer todo um distinto rol de escritores lusos que nasceram, viveram e vivem fora do nosso país, e cujos nomes e obras tenho mencionado noutras ocasiões e contextos. Pouquíssimos entre nós consegue escrever com a sua clareza e uma simplicidade que contêm em si o mais profundo e complexo pensamento sobre a arte literária, e não só, ninguém entre nós cita nos seus textos, sempre apropriadamente, tantos outros e outras das mais variadas línguas e tradições. Citando Harold Bloom no seu recente The Daemon Knows a propósito de outros, para Eugénio Lisboa “crítica é memória”, a literatura lembrada como outro arquivo criativo da História, a memória de termos sido e vivido nas mais variadas e distantes geografias.

O diário de Eugénio relata-nos as suas visitas a vários países e cidades, nomeadamente, e por esta ordem, Montevideo, Los Angeles, Peru, Viena, Budapeste, Praga, São Tomé, Havana, Paris e Marrocos. É claro que viajarmos com este autor é, em primeiro lugar, dar-nos conta do quanto não sabíamos nem sabemos. Se algumas das vezes vai principalmente ao encontro de familiares residentes no além-fronteiras, Eugénio nunca deixa de explorar minuciosamente cada recanto de umaa outra cultura, seja ou um famoso (Paris) museu ou outro menos conhecido ou esotérico (Peru), tudo em sociedades bem diferentes da nossa, e como leitor omnívoro nunca deixa de entrar nas livrarias à procura de um livro e quase sempre vivendo momentos de epifania ante um outro autor ou tema. Por vezes estamos perante uma prosa quase telegráfica, que nunca perde os significados mais consequentes no nosso próprio entendimento ou descoberta do que antes nos passara ao lado. O humor na sua prosa, que fica algures entre sátira arrasadora à moda portuguesa e a leveza anglo-saxónica, é outra qualidade constante da sua escrita. O autor de Portugaliae Monumenta Frivola, por exemplo, é um inveterado aficionado do romance policial ou thriller político, as suas companhias que ele vai comprando nos próprios aeroportos antes de embarcar, e de seguida manda uma piada a um Vergílio Ferreira (falecido em 1997), que se levava demasiado a sério e desdenharia destas leituras, vivendo angustiadamente, diz-nos Eugénio Lisboa, obcecado pelo Prémio Nobel, provavelmente só desdenharia destas outras leituras. Só que estas outras liteturas de Eugénio, segundo ele próprio, por vezes superam a mais séria pretensiosidade literária em pensamento e artifício entre nós. Faz-me lembrar um antigo mestre meu na Califórnia que nos fazia ler um pouco de tudo, sendo obrigatório um encontro com Raymond Chandler e o seu Lady In The Lake, entre alguns outros escritores que tinham os subterrâneos de Los Angeles como palco de corações atribulados e a constante manifestação do Mal. Por outro lado, sempre que ele se lembra de José Saramago, já sei que vou rir. Nesta celebração pessoana, – escreve enquanto voa para o Uruguai – que vai ter lugar em Montevideo (capital da cultura da América latina, em 1996) estava prevista a vinda de Saramago que, afinal, não vem. Porque seria? A mim, torna-me a viagem simplesmente mais agradável”. É esta prosa algo felina que se junta a uma espantosa erudição literária e à mais séria consideração sobre literatura e o seu lugar nas diversas civilizações. A partir de certa idade, decidi ler só os livros que me movem e comovem, e na nossa língua toda a obra de Eugénio Lisboa, que inclui poesia, é um dos meus grandes prazeres, o texto ainda como fonte de saber, de descoberta.

Havana. Confesso – escreve num passo datado de Dezembro de 2009 – que não tenho muita paciência para a incoerência – para lhe não chamar má fé – de certos escritores. García Márquez embirra solenemente com Hemingway e trata de denegri-lo, sempre que pode. Coloca-o, por exemplo, muito abaixo de Steinbeck e de Dos Passos, o que me dá vontade de rir. Mas, depois de dizer, em certo ponto, que Hemingway é o afortunado autor de muchos cuentos maestros e, adiante, que é o autor de vários cuentos – esos si extraordinários, prevê que a sua fama não resistirá e que se acabará mucho antes que la cuenta bancaria de sus herderos, etc. Como é que a fama de um autor de cuentos extraordinários e de cuentos maestros se apaga com tal presteza – é um mistério que não consigo decifrar.”

Deixei propositadamente para a última parte deste texto a visita de Eugénio Lisboa a Los Angeles, pois andei por lá boa parte da minha vida. As palavras da epígrafe aqui transmitem impressões que, se não são necessariamente consensuais, a verdade é que eu estou inteiramente de acordo. Entre o sonho que Hollywood sempre transmitiu ao mundo através do cinema e a realidade fica um fosso de fealdade e miséria humana. A Hollywood que vemos cá fora não tem nada a ver com as imagens de casas luxuosas, palmeiras ao vento, e uma california girl de cabelo a voar num descapotável topo de gama à beira-mar e a alta velocidade. Isso tudo fica em Beverly Hills e Malibu (já vamos lá), onde vivem os milionários e os seus criados, inclusive portugueses. Quase todos os seus actores mais famosos escolhiam outras paragens para a sua vida quotidiana. O mundo é pequeno, sabemos. Foi uma grande surpresa para mim quando topei neste diário de Eugénio um grande médico russo e judeu, de nome Boris Catz, falecido em 2013, e que fora o dedicado marido da falecida Rebecca Catz, também judia nova-iorquina e filha de russos que se doutorou com uma tese brilhante intitulada A Sátira Social de Fernão Mendes Pinto. Por vias que não preciso explicar aqui, cheguei a ir a casa deles mais do que uma vez, e tomar um copo com Boris, rico aposento onde se respirava cultura e arte, humanismo e inteligência. Publiquei, em 1980, no Diário de Notícias, uma longa entrevista com a autora sobre a sua obra. Entre muitas outras originalidades acerca do nosso clássico “oriental”, ela afirmava que se tratava do primeiro grande livro europeu anti-cruzada, anti-imperialista. A dedicação de Boris à memória da sua mulher e grande companheira de vida era de tal ordem que o levou a instituir uma conferência anual em Los Angeles sobre questões culturais lusas. Foi por isso que Eugénio lá foi em Março de 2005. Foi ainda nestas páginas que reencontrei o amigo Eduardo Mayone Dias, natural de Lisboa, mas que viveu a maior da sua vida naquela cidade e como Professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Injustamente esquecido no seu país natal, foi Mayone Dias que influenciou a minha geração quanto a história e outros estudos sobre as nossas comunidades imigrantes no oeste americano, na sua maioria oriundas dos Açores.

Diário de Viagens Fora da Minha Terra foi para mim, como será para outros, um passeio não da fama mas, sim, do saber, um passeio de descoberta e reencontro com vários países e cidades. A geografia das suas andanças denota logo o que nos vai dizer sobre escritores nessas suas cidades, como quando nos relembra quão estranho se sentiria Kafka dentro da grandeza de Praga, assim como outros escritores e artistas da Europa Central na encruzilhada da história, cultura e línguas diversas. Basta só uma insinuação, a citação de um nome ou obra para nos abrir a memória ou, melhor ainda, para nos indicar leituras essenciais ao nosso tempo e lugar planetário.

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Eugénio Lisboa, Diário de Viagens Fora da Minha Terra, Guimarães, Opera Omnia, 2017

As outras américas que não vivi

Como tantos cidadãos do mundo, devo aos Estados Unidos uma medida da minha educação liberal e do meu otimismo ontológico. E também da minha consciência libertária.

Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana

Vamberto Freitas

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, uma recolha de ensaios de Clara Ferreira Alves, ergue-se como um dos melhores livros sobre o grande país mítico a oeste das nossas memórias e obsessões políticas, culturais e imperialistas, esta última palavra fazendo lembrar Gore Vidal, que assim o denominava e que conhecia as suas origens nacionais e o papel internacional do país melhor do que ninguém. Tenho o dever de colocar as minhas cartas na mesa. Vivi na Califórnia, primeiro no Vale de São Joaquim e depois na Grande Los Angeles, cerca de 27 anos. Não conheço, nunca conheci, todas as “américas” que Clara Ferreira Alves viveu e interpelou nas suas constantes visitas desde a década de 70 até aos nossos dias, viajando de costa a costa, permanecendo em pequenas e grandes cidades, conversando e observando o que chamamos a América cosmopolita à beira do Atlântico e do Pacifico, e depois a América profunda das pradarias e das pequenas cidades sem rumo nem vida, sem consciência do passado e muito menos sem ideia do futuro. Dormiu e acordou numa Nova Iorque sem noite nem dia e entre as multidões do mundo arrastadas pelo Sonho Americano, viu a América da ferrugem e da decadência provavelmente irreversível dos que a globalização atirou para a rua ou para as casas à beira do colapso e da miséria generalizada. Não, nunca conheci essa América nos subúrbios sul-californianos onde vivi, estudei e leccionei, sem o mínimo desejo de sequer ir a Los Angeles, a minutos de distância, a não ser num ou noutro sábado à noite em Hollywood, mas só para ver a Sunset Boulevard como quem vai a um parque de diversões e olhar para os freaks que batiam em pandeiros pseudo-religiosos, pregavam o fim do mundo ou estavam deitados no passeio bêbados e drogados. Não tenho saudades algumas, a não ser da minha família e de amigos mais íntimos. Estes olhares de Clara Ferreira Alves não são de uma mera visitante ocasional, vêm de dentro para fora, vêm de quem sente a inteira pertença e sorte dos Estados Unidos como se lhe fora uma segunda pátria, e creio que é mesmo.

Bem sei que Nova Iorque é a cidade da autora, mas para mim era um lugar distante e pouco desejável. Das duas ou três vezes que a visitei, na companhia da minha mulher Adelaide, que lá tinha estudado e sofrido a vida numa cave discreta, só tenho duas ou três recordações memoráveis. O vasculhar nos alfabarristas à procura de primeiras edições da obra de Edmund Wilson, um musical na Broadway com Jerry Lewis, e sobretudo uma visita ao apartamento do recentemente falecido Gregory Rabassa, o melhor e mais famoso tradutor de literaturas hispânicas (One Hundred Years of Solitude, de Gabriel Garcia Marques, por exemplo) e portuguesas (João de Melo e António Lobo Antunes, entre uns poucos outros), e que havia sido professor da Adelaide na City University of New York, depois mais nada, odiando ver o sol aos quadradinhos por entre os arranha céus. Lembro-me de um apagão de Inverno e do que disseram os texanos, meus vizinhos naquelas partes: Let the bastards freeze in the dark. Só isso. Sou um homem, como já disse, dos calmos subúrbios, relva cortada e tosquiada todos os sábados, como um dos personagens menores num dos contos de Raymond Carver a regar o seu jardim e a mexericar a vida dos vizinhos. Um dia saí do meu bairro da classe média remediada rumo à escola onde era professor, e entrei nas ruas do outro lado onde morava a riqueza. Recuou da sua garagem de luxo um Mercedes azul escuro guiado por uma loira, mas cujo autocolante dizia simplesmente: Another shitty day in paradise, o humor de quem tudo tem sem nunca deixar de sentir o vazio existencial no paraíso, ou na Terra de Deus, como alguns se referem à Califórnia. Clara Ferreira Alves tem toda a razão em sentir o tédio e o asco por tanta ordem limpa, especialmente em Palo Alto e Arredores, quando se refere à Califórnia “perfeita” fora de São Francisco e outros centros sujos e de dinamismo humano. Só que em Cenas Da Vida Americana vejo e sinto o resto do grande continente. Deixei de viver e ver a América pessoalmente e em directo no tempo de George Bush, pai. Ela continuou a ver e a viver tudo de lá, até aos nossos dias. Muito me ensina, e ainda mais desperta a minha memória. Disse à autora aqui há dias que ia brigar com ela por causa dessas páginas sobre o grande estado a oeste que foi e será sempre a minha outra pátria. Decidi mudar de rumo, e brigar comigo próprio por tanto ter ignorado, ou então fazia que não via ou queria.

Clara Ferreira Alves não deve, pela minha a parte, ser classificada politicamente, nem isso tem qualquer importância no contexto do ora sereno ora contundente Cenas Da Vida Americana. Só que a sua relação com os Estados Unidos é muito longa. Ela escreve sobre a grande nação como alguém que sente pertencer por inteiro aos destinos desse outro país. Faz-me lembrar, no entanto, as atitudes da Nova Esquerda/New Left, da qual eu venho e ainda hoje com a qual me identifico, apesar de também me identificar com uma outra esquerda socialista democrática que nos antecedeu, e que era a minha desde os tempos de faculdade, o crítico e ensaísta Irving Howe e a revista Dissent que ele dirigia e editava uma referência permanente. Para ela, o seu relacionamento com esse seu outro país da imaginação e de afectos é um de amor e ódio, a sua admiração pela sua cultura em geral, o seu modo se ser e estar lado a lado ao seu ódio a alguma da sua política interna e externa. O que mais admiro neste seu livro é o seu conhecimento da arte suprema americana, desde os escritores canónicos à musica e artes plásticas. A capa do seu livro diz tudo. O “Nighthawks”, de Edward Hopper, a solidão humana no que se depreende ser uma grande ou pequena cidade, a busca do amor e da cumplicidade possível no negrume da noite e na luz interior de um Café. Clara Ferreira Alves vê aqui todo o esplendor artístico da América, com a dor indefinível de um país-continente, a incerteza que desafia e amedronta a todos no dia seguinte. São as cenas de uma humanidade em busca de si própria, em busca de um silêncio fora do barulho de uma sociedade sem sossego, o mosaico completo e constituído literalmente por todas as nações do planeta. A autora viaja durante anos não só para as cidades metropolitanas, mas também rumo aos mais escondidos, esquecidos e miseráveis recantos dessa mesma América, e cada conversa parece uma prece aos deuses que fazem dos EUA um espaço tanto de todas as possibilidades como de todas as derrotas. Pouco me interessa no seu livro, em certas páginas, a ilusão de se querer moldar o mundo à imagem de Nova Iorque ou da suposta liberdade de um grande império. Fico pelas suas convivências, conversas e afinidades com os americanos que ela encontra nas suas perpétuas caminhadas e que fornecem o ethos do sofrimento interno e das batalhas estrangeiras, desde o Médio Oriente à América Latina. Prefiro as suas passagens por museus, livrarias, teatro e cinema. É por aí que ela me mostra o que eu nunca tinha visto ou pensado nesse meu outro país e pátria. Quando menciona o nome de um escritor, nos seus contextos múltiplos, diz-me tudo e ensina-me algo que eu desconhecia. Isto não é um livro de “crónicas”, é um conjunto de ensaios, como já referi atrás, menores ou maiores, que nos dão um retrato, não de todo agradável, mas de todo plausível nas observações de gente e símbolos, sensível na sua empatia, acreditável na sua dureza realista. A sua visita a Detroit é avassaladora, antológica, a decadência absoluta e mortífera, e depois o optimismo e a criatividade da reconstrução humana e económica, deixando sobressair o melhor do país: a sua energia e capacidade de renovação após as mais variadas catástrofes impostas pele natureza ou pelo próprio sistema.

Raramente – escreve a autora – se ouve um discurso de vitimização ou culpabilização. Apesar da privação e do sacrifício, do sofrimento, o ethos americano impede a nostalgia e o rancor. Ninguém culpa os industriais, os trabalhares, a segregação, os bancos, os maus governantes, a corrupção… O caminho é para a frente”.

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, tal como indica o título, contém textos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Lido em sequência, oferece-nos ou propõe visões das facetas e acontecimentos internos e externos mais dramáticos na história do país, especialmente o envolvimento do país no incendiado Médio Oriente e o alto preço humano e estratégico que os americanos continuam a pagar. De resto, o que ela diz de Trump, do longo processo eleitoral que o levou até à Casa Branca, fica para outros leitores deste livro. De página a página é como ler uma obra do chamado novo jornalismo de décadas passadas, é um “romance” que toma acontecimentos reais como tema, o seu fio condutor sendo a própria “voz” da autora, como um Truman Capote ou um Norman Mailer faria noutros contextos e lugares. É esta a América que não vivi ou conheci durante toda a minha vida nos bairros assépticos do meu destino durante quase 30 anos, o país onde vivi a minha adolescência, onde me formei e me tornei professor do ensino secundário oficial da Califórnia. Digo-o sem quaisquer complexos ou vergonha – estas foram para mim páginas de ensino, mais o tal prazer do texto na grande arte da escrita em qualquer uma das suas formas ou género.

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Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, Lisboa, Clube do Autor, 2017.

 

Public Intellectuals and the resurgence of political dystopias

Do intelectual público no nosso tempo

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Ainda como aluno de licenciatura de Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana na LUSAlândia, de um autor que me era totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizada na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara abertamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e não entendia muito bem o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e lusalândia sabia muito bem o seu significado. Pensei de imediato que isto tinha a ver também comigo já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela da então editora coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, fundado em 1973, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente do que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvelliano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha mas já mais minha do que eu não conseguia realizar, era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e conseguia agora exprimir e, sem complexos ou medos, dizê-lo publicamente. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Sei hoje que Onésimo Teotónio Almeida esquece, ou quer esquecer, esse seu livro por razões que não entendo muito bem, mas eu não o esqueço, e mantenho-o num dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever critica sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu relacionamento com restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts, e que escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinantes no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinha de uma certa e moderada esquerda residente em Lisboa e nos arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos separados da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, valendo quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e direitos e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens à terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua actuação pública no continente e muito menos nas ilhas.

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência quiçá reduzida? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos dos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literatura and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e da seriedade intelectual e de cidadania. Nuca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica pura, ou mesmo uma de mera escrita e circunstancial numa periódico generalista, desde Vanity Fair e The New York Review of Books à The New Republic, revista erudita onde acabaria a sua carreira.. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que diria do modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the !870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de recensões e ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties) e vai ainda em busca da vida e das tradições de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento estadual, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essenes, tentando demonstrar a sua dignidade e valor artístico e lugar histórico na modernidade que os marginalizava e os colocava no esquecimento e em perigo num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publica de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aos seus leitores – The Americano Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este faz em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pelo IRS, condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, lhe faria ficar na penúria quase absoluta, e aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada, significa acima de tudo, o que os nossos fundadores queriam vir a ser um país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exactamente do que necessitamos”. Wilson nos seus últimos dias folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia neste nesse país aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele não tinha sido fã, pois nunca se tinha esquecido que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido a vida numa Hollywood que ele nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinha levado sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. O seu discurso de intelectual público que era o seu que poderia não ser lido pela maioria dos leitores americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e quem o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república” para um “império” arrogante e dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do ligar que o império todo poderoso do século XX impunha a mundo e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temparavaca raiva e o desgosto que ele sentia durante quase toda sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso,, é uma acusação sem resposta aos que se apoderarão do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria , e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência infinita um desafio sorridente as que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo e derrama sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados unidos.

Edward Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com víamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção falsificada que os escritores ocidentais, particularmente os britânicos nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria ….de ser e de nos vermos. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há fala de pretensioso cosmopolitismo, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as linguagens comuns, quer as entendêssemos ou não. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda andam por aí, e actuam. Esse palestiniano de assessor de Assar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com víamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção falsificada que os escritores ocidentais, particularmente os britânicos nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria ….de ser e de nos vermos. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há fala de pretensioso cosmopolitismo, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as linguagens comuns, quer as entendêssemos ou não. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda andam por aí, e actuam.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder. Para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com dei início a este meu texto. Obrigado, não só por seres quem foste e és. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu mais, na minha juventude, reinvenção da minha identidade e luta californiana, mais precisava delas

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Lido em “Public Intellectuals aand the reassurance of political dystopias”, Universidade dos Açores, a 31 de Maio de 2017, numa conferência à porta fechada. Algumas das traduções aqui são minha responsabilidade. Nas fotos:  Edward W. Said, Gore Vidal, Onésimo Teotónio Almeida e Edmund Wilson. Claro que foram tão-só figuras mencionadas na minha comunicação.