Nemésio, Intelectual Público

Às vezes penso que um facto acintoso espia os valores portugueses para os baralhar ou denegrir. Para os baralhar, sobretudo.

Vitorino Nemésio, Sob os Signos de Agora

Vamberto Freitas

Não será de admirar que a obra de Vitorino Nemésio desde há muito suscite a maior atenção nas nossas páginas nacionais e em estudos sucessivos um pouco por toda a parte. Tudo confirma Nemésio, tirando a sua presença popular na televisão também nacional, sempre foi assim, sobre isso escreveu David Mourão-Ferreira, entre alguns outros especialistas na sua obra, como o Professor Doutor António Machado Pires e o falecido José Marins Garcia. A obra de Nemésio corre agora, como sempre, outros riscos institucionais – o de pertencer a um grupo de escritores mais citados do que lidos, feito “propriedade” quase pessoal de minorias e assim permanecendo na serenidade falsa dos esquifes intelectuais em que frequentemente se tornam as publicações universitárias. Um estatuto canónico poderá ser também uma certidão de óbito literária, e no caso de Nemésio essa seria a maior das injustiças àquele que foi o nosso homem de letras por excelência, aquele para quem a escrita em todos os seus géneros foi um acto tanto intelectual como vivencial, conjugando a tradição do escritor que se dirige ao grande público e simultaneamente em diálogo permanente com o seus pares intelectuais, os pressupostos teóricos da escrita em convivência com os relatos ficcionados ou jornalísticos, a sua poesia sendo de igual modo ora uma representação da condição interior e saberes do indivíduo perante o seu tempo ora a representação passional perante as geografias dos seus afectos e memórias, assim como as variadas fases ideológicas da nação. Nemésio é efectivamente o nosso escritor total: pertence aos  escaparates públicos da literatura mais viva e deveria ser inescapável de todo e qualquer leitor não-profissional ou de carreira. Nemésio é o diálogo abrangente entre o leitor e o seu país e cultura durante a segunda metade do século passado, o nosso autor ao mesmo tempo absorvido pelo espírito do lugar e em viagem constante pelos mais escondidos recantos do mundo, desde Coimbra e Lisboa até ao Nordeste e outras partes do Brasil – e com os Açores como centro sentimental, e depois a na Sapateia Açoriana como centro político de emergência. Ler Nemésio, para a minha geração, será sempre voltar a casa.

Uma leitura ou releitura de Sob os Signos de Agora, os ensaios e outra escrita do início dos anos 30 é uma dessas impressionantes viagens nemesianas pelo mundo do pensamento a partir da literatura, da história, da política e, sim, das suas múltiplas geografias num mmento em que toda a “casa comum” europeia já ameaçava desabar, como em brve viria de facto a acontecer. Não é o professor universitário que escreve nestas páginas, é o intelectual público inteiramente comprometido com a linguagem civilizada sobre as raízes do nosso ser e do nosso particular lugar que então ocupávamos ou havíamos desde há muito ocupado no concerto das nações vizinhas e distantes, no lugar especificamente cultural que então era Portugal na Europa – lugar desconhecido de todo pelos outros, mas que Nemésio não desdenhava nem desprezava simplesmente por ser o seu lugar, por lhe ter cabido a sorte de nascer e viver e de se comover com o seu chão-pátrio. Cabe aqui, nestes Signos, um pouco de tudo que então definia os interesses e os posicionamentos de uma toda uma vida – os Açores como palco de histórias “locais” e “nacionais”, a crítica literária em volta de poetas como João de Deus sempe ampliada e enformada pelo comparativismo do intelectual a outros meios e criações, a interligação da arte e biografia, as evidentes e nem sempre evidentes metáforas nacionais na literatura e os nomes estrangeiros que já nos deviam, nessa recuada época, ser conhecida pela sua proximidade e pertinência, como no caso de Unamuno. Qualquer revisitação à diversificação e por vezes ocasional escrita de Nemésio faz ressaltar como redundantes se tornaram os termos universalista e universalidade quando a ele aplicados com a insistência de quem parece valorizar qualquer obra especificamente em relação – no afastamento e na aproximação – a imaginados ou a impostos centros de pensamento; redundantes e logo inúteis por tão óbvia ser essa a qualidade subjacente à sua postura de vida e à sua criação na ficção, poesia, ensaio ou mero comentário de ocasião, e em que centros para ele existiam e eram totalmente interiores, parte da sua natureza e educação em geral, restando, restando ao intelectual e ao escritor destes Signos perceber a humanidade em todas as suas latitudes e contingências históricas ou momentâneas. Ler Nemésio, qualquer página de Nemésio, é experimentar o que Herman Melville disse ser o choque do reconhecimento: a condição humana, apesar das suas variantes locais aqui e ali, da língua e das culturas, são de imediato entendidas e empaticamente transmitidas de enunciador para receptor. Em vão se procura a portuguesa violência verbal em Nemésio, antes deparamo-nos com a fina ironia do homem culto e generoso, do homem atento aos seus mundos circundantes e simultaneamente às vastas geografias do seu imaginário pátrio e intelectual – nessa aproximação de tudo e por tudo que seja humano, uma vivência, uma escrita onde nada lhe é alheio ou estranho: For genius, all over the world – escreveria Melville, o autor com quem Nemésio terá demasiadas afinidades temáticas, particularmente em Mau Tempo no Canalstands hand in hand, and one shock of recogniton runs the whole circle round.

Uma vez mais, ler e reler livros, por exemplo, como os Signos de Agora, é lembrar-nos de que a nossa geração não lhe pode fugir nem na escrita nem na atitude fundamental perante o nosso lugar no mundo ou simplesmente no país português; ler Nemésio na sua totalidade é reencontrar o conforto de sabermos que antes de nós aqui nos Açores alguém já nos tinha transmitido o “essencial” da nossa condição humana. João de Melo disse-me um dia que Nemésio não era o nosso pai ou sequer avô literário. Talvez, dado que o conceito de literatura nacional se dilui quase por completo e as suas leituras também vêm em maior quantidade de escritores de outras línguas e de outras geografias. Só que Nemésio foi quem nos legou directamente a visão de que ser-se português dos Açores não era de modo algum estar preso às definições e as mais das vezes discriminações do eixo político e cultural Lisboa/Coimbra, era antes estarmos atentos aos ruídos de todo o mundo, desde o pescador da Praia da Vitória ao imigrante nos EUA e outras partes, desde Unamuno a Raul Brandão. Nesse sentido, a nossa atitude actual é de pouca originalidade, foi herdade de Nemésio como de mais ninguém. Toda a sua escrita, por sua vez, tem tanto de heranças europeias como do mundo anglo-saxónico, é feita de ideias e de experiências quotidianas, a fala, a festa e o trabalho dos homens e mulheres em consonância com a citação mais intelectualizada. Nemésio mais do que tudo é um escritor e um intelectual público, logo referência alargada e consequente para além do mundo universitário, uma suposta serenidade dando lugar à paixão, como no já mencionado Sapateia Açoriana, um dos últimos livros de poemas no qual ele é capaz de resumir noções de um coração em conflito quase total, a lealdade e a traição, o amor e o corte radical com o mundo pátrio amado, o manter em equilíbrio dois pensamentos absolutamente contraditórios (como diria um escritor americano noutras circunstâncias e noutra longínqua época), nesse tão claro sinal de inteligência e grandeza de alma. Nemésio é, dentro do país português, o autor sem par do nosso pensamento e da nossa angústia a meio mar, o autor do conflito permanente que é o de ser-se português dentro e fora da Europa.

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Uma Página Sobre Vitorino Nemésio, Curadoria/coordenação: António Machado Pires, Rio de Janeiro, Organização do Gabinete do Secretário Regional da Presidência para as Relações Externas, 2018. Este ensaio foi reescrito de um outro que publiquei em 1996. O livro será apresentado amanhã na Casa dos Açores do Rio de Janeiro. Publicado no Açoriano Oriental, 20 de Abril, 2018.

 

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A doença como metáfora de todo um país

Respiravam todas. Contavam respirar no dia seguinte. Não tinham nenhuma moléstia que as inquietasse. Uma rapariga, esbarrando nele, deixou cair a bolsinha de mão. Ernest apanhou-a num movimento rápido e devolveu-lha; sorriram um para o outro com o mesmo embaraço simpático. Era bonita. ‘Se esta sonhasse que eu sou, ou fui, tísico…’”

Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis

Vamberto Freitas

Depois de ler este segundo romance de Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, a minha primeira reacção foi tirar da estante aqui em casa o livro da falecida Susan Sontag, Illness As Metaphor (1997), creio que escrito pouco depois da autora ter contraído uma das doenças mais temerosas do nosso temo, que os nossos jornais costumam designar por “doença prolongada”, a palavra cancro ainda carregando uma semântica medonha, em que a morte é o primeiro pensamento que nos vem à mente, a condenação sem remédio nem retorno. No entanto, ao reler partes do livro de Sontag constatei o que me parecem duas verdades incontestáveis. Primeiro, a doença não é uma metáfora para vidas infelizes ou condenadas pelos deuses do mal. Segundo, nem todas as formas de doença, por mais que a história assim o ateste, levam ao fim de uma vida, com as devidas excepções como sempre. Illness As Metaphor traz na contracapa palavras que se aplicam por inteiro aqui. “Durante muito tempo – escreve Susan Sontag — a tuberculose era identificada como uma bactéria infeccional, e acabou com a ideia de representar um desaparecimento romântico do doente ou de um temperamento artístico sensível, e poderia ser tratada e curada. Do mesmo modo, deveremos hoje acabar com a noção de que o cancro é um sinal do fim, um castigo ou um sinal de uma personalidade reprimida, e sim uma doença reconhecida pelo que de facto é: uma doença entre tantas outras e frequentemente recepectiva de uma cura”. O novo romance de Isabel Rio Novo não me foi uma surpresa completa, pois aqui ainda há poucos anos o açoriano Nuno Costa Santos publicou também uma grande peça de ficção intitulada Céu Nublado com Boas Abertas, uma espécie de meta-ficção na qual conta a história de um avô que havia deixado na estante um manuscrito sobre a sua sorte nos Açores no princípio do século passado e acaba tuberculoso no famoso sanatório na serra do Caramulo. Não há aqui qualquer outra comparação possível. O romance de Isabel Rio Novo distingue-se de outros modos, as suas linguagens são fulminantes na sua clareza, na sua precisão, na historiografia de todo um país subdesenvolvido, que vai desde o século XIX até aos dias pós-25 de Abril, quando se inicia a história.

A originalidade de A Febre das Almas Sensíveis vem ainda de outras formas narrativas e da própria construção de personagens. A saber, uma jovem investigadora decide passar algum tempo nas ruínas do Caramulo em busca de documentos perdidos, desde cartões postais a cartas pelas quais reconstrói vidas inteiras no contexto do seu tempo e condição social. Por outras palavras, a metáfora aqui nunca deixa de existir, mas refere-se mais à sociedade do que ao doente ou doentes. Os nomes dos personagens são muitos, mas a narradora nunca deixa o leitor pendurado em incertezas ou insinuações. Quase hesito em utilizar esta designação formalista, só que a Febre das Almas Sensíveis se assemelha ao que então se chamava nos Estados Unidos “realismo romântico”, a realidade da esperança e a força de cada um ou uma de vencer perante o pior das situações pessoais ou mesmo familiares. Todos eles vivem, como creio ter escrito Jorge de Sena num poema quando contraiu também uma “doença prolongada”, a morte social antes da previsível morte física. Todos se desviam, todos pretendem certa preocupação ao longe, todos vivem no medo do seu meio ambiente e das notícias que partem de quem está gravemente doente. “Em casa, — escreve a narradora — acautelando o contágio, Natália separava a louça de Armando, destinando-lhe um prato e uma malga para uso próprio, sacudia-lhe as roupas e deixava-as apanhar o ar na varanda durante a noite”. O período mais focado no romance é precisamente a época salazarista. Isso poderá levar-me a uma conclusão contrária às palavras da eminente autora americana atrás citadas.

A Febre das Almas Sensíveis, apesar do que acabo de dizer anteriormente, pode na verdade tornar-se essa metáfora, não da doença, mas de todo o país, desde o seu tempo ficcional aqui. Faz-me lembrar – não há qualquer imitação aqui – A Montanha Mágica (1924) de Thomas Mann e do seu protagonista Hans Castorp poucos anos após a I Grande Guerra, com ele num sanatório para tísicos algures no alto da Suíça. Não é o doente que se torna metáfora, é toda a ambiência de país ou de uma sociedade e continente em guerra e na absoluta precariedade de uma certa modernidade. O período mais mencionado nesta ficção de Isabel Rio Novo é precisamente o salazarismo, e toda a sua hipocrisia quando escondia a doença que arrasava ainda o nosso país, mas a alegria da pobreza e miséria era propagandeada como uma virtude quase sagrada. Não posso deixar de lembrar que nestes meses mais recentes alguma da nova literatura portuguesa tem focado a doença e a morte como temas fundamentais. Ainda há poucas semanas recebi de Eugénio Lisboa o seu Epílogo Acta Est Fabula, a conclusão dos seus cinco volumes de memórias, só que agora em forma de diário que documenta os últimos dias da sua grande companheira de vida, a sua solidão, e ainda mais a sua descrença no suposto bem-estar da nossa terra. É dilacerante porque acaba por ser um espelho que prevê o destino de nós todos. Toda a arte Ocidental, literária ou não, vem desta tradição que remonta aos gregos antigos, a condenação dos deuses e a nossa inevitável obediência perante a sua ira. Também muito recentemente recebi um livro de memórias do Professor Francisco Cota Fagundes, jubilado da Universidade de Massachusetts, nada menos doloroso na sua perfeição linguística e formal, Viagem Pela Escuridão, que nos conta o sofrimento de um filho único que desde criança sofre de um tumor cerebral. Nenhuma desta prosa nos é deprimente na sua leitura, são-nos os tais espelhos em que da escuridão se faz luz, e consciencializa-nos do que nos espera para que nunca deixemos de viver plenamente o dia-a-dia. Como nalgumas pinturas de Picasso, o sofrimento extremo não anula a beleza da vida, muito pelo contrário. A Febre das Almas Sensíveis é tudo isso: o amor e a solidariedade de uns e a indiferença de outros, a obrigação da luta de cada sofredor sem nunca deixar de acreditar na bondade do seu destino, muito mais do que na medicina. Metáfora, sim, de todo um país. De quando em quando o narrador vai-nos relembrando que a cura da tuberculose já se encontrava ao alcance de outros naquela época, menos entre nós, pela nossa pobreza, pelas prioridades do regime. A prosa deste romance poupa nos adjectivos sem nunca perder a fulgurância de uma escrita aliciante, a tragédia convivendo com certo humor e a forte ironia passo a passo. A capa do romance é um quadro de Munch, “Separação”. Como o “Grito” do mesmo pintor numa ponte, por entre o que parece ser uma tempestade mortífera. Este também traz a representação da dúvida e da morte, mas ao lado uma mulher vestida de branco caminhando para vida. Todo este simbolismo oferece igualmente ao leitor as mais variadas interpretações do texto que vem dentro. Se um representa a espera da morte, a outra parte, uma mulher caminhando em busca de salvação. As contradições, quero interpretar assim, da nossa própria sociedade.

“Pousado – diz a a narradora sobre a rapariga que investiga os documentos do Caramulo entre as ruínas – no seu colo, o livro da lombada espessa recorda-lhe que a medicina portuguesa, até meados do século vinte, sem recursos farmacológicos para combater a tuberculose, se voltava para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção. O meio nacional parecia invadido por um movimento benéfico em favor da sanidade pública. As grandes questões da higiene individual e social, ventiladas nas escolas e sustentadas na investigação científica, configuravam uma espécie de cruzada de propaganda de princípios salutares, uma fase visível das transformações no modo de vida de uma sociedade que, apesar das peias que a tolhiam, queria muito progredir”.

Citei de propósito este passo positivo de uma sociedade, como todas as sociedades, marcada pelas suas contradições. Antes, durante e depois do salazarismo sabemos que as pequenas elites mais bem colocadas no nosso país nunca se interessaram pela sorte do seu povo. A autora de A Febre das Almas Sensíveis é inteligente e sabedora demais para castigar a sociedade em termos de classe ou mesmo governantes. Retrata apenas um povo deixado quase só à sua sorte, sem juízos ideológicos ou acusações de qualquer outra espécie. Só que sabe que uma classe governante tem apenas duas saídas: ou salvar a maior parte da sua gente ou ficar sem país para governar. Salazar achava que os portugueses eram alegremente pobres até que a doença em massa o ia dizimando pela enésima vez na sua história. A Febre das Almas Sensíveis não é um romance político, sem nunca deixar de projectar o país que fomos e somos. A sua arte não é acusadora, é, isso sim, reveladora de um povo a saque, e só. Mostra tão simplesmente a condição humana, os seus anjos e demónios. Um romance como este limita-se a esse discurso do lamento e choro de uma humanidade no seu sofrimento e eventual salvação. Nos tempos que correm, não podemos pedir mais de uma grande obra literária como esta. É tanto uma história do passado como um aviso ao presente. Vai perdurar nesta sua grandeza.

A autora foi finalista do Prémio Leya com o seu primeiro romance Rio do Esquecimento, e agora com A Febre das Almas Sensíveis. Já venceu vários outros prémios literários no nosso país. Escritora também de contos, doutorada em literatura comparada, lecciona várias artes ligadas naturalmente à literatura e ao cinema. Ler este seu romance foi um dos meus grandes prazeres e privilégios.

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Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, Lisboa, Dom Quixote/LeYa, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Abril 2018.

 

Da poética ancestral luso-americana

I found a ship bound for the old country, so I travel back to a past I never lived, to the life of my great grandmother, the woman who started my story/Encontrei o barco que rumava ao torrão natal, para um passado que nunca vivi, para a vida da minha bisavó, a mulher que iniciou a minha história.

Lara Gularte, Kissing the Bee

Vamberto Freitas

Kissing the Bee/Beijando a Abelha, a mais recente poesia da luso-americana Lara Gularte, é de uma grandeza desusada entre alguns outros nomes cujas obras de temática luso-descendente também já foram escritas e publicadas nestas décadas mais recentes. Não vale a pena repetir alguns desses nomes de que já falei noutros textos e recenseei ocasionalmente, mas este, repito, é um livro muito especial. Deduzo pelos contínuos chamamentos ancestrais aos antepassados de Lara Gularte, que são das ilhas do Faial, Pico e Flores, pela insistência com que a poeta se refere a estas geografias dos seus afectos e memórias. Natural do norte da Califórinia e descendente de açorianos que para lá foram a meados do século XIX, dedicados, entre outras actividades, à terra, à agricultura, todos eles enterrados em várias partes naquela parte do estado, a poeta escava constantemente tanto a história que lhe foi legada através de papéis e outros documentos, como visita as sepulturas dos seus, e sobretudo imagina como teriam sido ou não as suas vidas. Vemo-la em campo na sua presente vida de mulher mais ou menos rural mas formada numa universidade metropolitana, a California State University, em San Jose, onde reside desde sempre uma das nossas maiores e mais activas comunidades no oeste americano, como vemo-la dentro de casa olhando para fora e revisitando, despertando as suas memórias sobre aqueles que eram o seu pequeno mundo ou o seu grande mundo numa continuidade que agora só é registada, revivida, na sua poesia e prosa poética. Toda a escrita é sempre autobiográfica, ou, como diria um antigo professor meu na Califórina, se não nos “factos” definitivamente nos “sentimentos”. Lara Gularte ao escrever consistentemente sobre o passado dos seus e a saudade memorial de cada um deles passa a ser parte da nossa história colectiva, a que nos levou desde sempre a navegar e a reconstruir as nossas vidas, a criar novos mundos, a redefinir quem somos num destino histórico que tem literalmente o mundo como um palco nosso. Dito de outro modo, a sua poesia, como a de muitos dos seus colegas na América do Norte, dá continuidade a uma portugalidade ou açorianidade-outra, a língua inglesa como meio privilegiado de comunicação e arte. Na nossa Diáspora global não há nada de igual na grande literatura do além-fronteiras, e desde há séculos. Escrevem, todos eles, não necessariamente para quem com eles partilha estas memórias da terra ancestral, mas sim para leitores em geral no seu país, mas só agora chegando, finalmente, a nós aqui na geografia atlântica dos seus antepassados. Por enquanto são poucas as traduções na nossa língua, e isso permanece uma grande perda. A nova literatura já quase não tem nacionalidade, tem o mundo inteiro como objecto e sujeito em qualquer língua ou meio de comunicação. Poesia como esta é tanto americana como é portuguesa, a força das raízes, como já escrevi noutra parte, não nos permite, nunca, esquecer as origens, e muito mais tentar entende-las ou reclamar a pertença ao passado de todo um país, que neste caso é o nosso, e absorver ou já ter absorvido a sua cultura erudita e antropológica. Não será meramente acidental que estes escritores e poetas cada vez mais regressam a nós participando nos variados encontros literários, de que o programa anual Disquiet desde há muito se tornou um evento lisboeta que congrega artistas da palavra de várias origens, luso-descendentes e outros, assim como alguns dos escritores nacionais mais conhecidos.

Kissing the Bee vem na sequência de outros livros da mesma autora, Days Between Dancing, entre outros, e publica constantemente nas mais variadas revistas de prestígio literário, quer em papel, quer no digital. Identifica-se perante todos como sendo luso-americana, e também tem colaborado ao longo dos anos com algumas das nossas revistas e suplementos literários em Portugal, assim como visita de quando em quando os Açores e o Continente. Aliás, a sua poesia tanto poderá abordar a sua chegada a um recanto das ilhas como aos mais escondidos ou conhecidos recantos de Lisboa, aos quais dedica muitos dos seus versos. O seu poder poético, que toma várias formas, vem de uma linguagem simultaneamente clara e irónica, quase sempre uma elegia ao passado dos seus mortos e às imagens que lhe foram transmitidas por pais e avós muito antes de ela cá vir e nos conhecer em pessoa, cada casa, cada igreja, cada monumento mais um testemunho do seu ser e, uma vez mais, do seu sentimento de pertença e de uma saudade indefinida dos que há muito partiram mas deixaram a segurança de sabermos quem somos e como somos num mosaico humano tão diversificado como são os Estados Unidos, e muito particularmente a Califórnia natal da poeta. Ler estes seus poemas em sequência – o que raramente faço com outras obras do género – é como ler uma história inteiramente saída da sua imaginação e capacidade linguística, provocada por uma visita ou vivência na ruralidade da sua preferência, como após ler, simplesmente, uma pedra tumular de um dos seus, os que, como em “Bound”, já aqui citado em parte, a fazem querer rumar ao início de tudo neste lado do Atlântico. Para ela uma fazenda, “rancho” da sua família, não era apenas um espaço de onde se retirava o pão e a felicidade possível, uma ilha não é apenas uma ilha – são berços antigos do seu nascimento, são as terras próximas e distantes que a definem e lhe dão uma identidade binacional desejada e firme. Citá-la ou recitá-la é vermo-nos a nós próprios, como um luso-americano ou nortenho luso mudado para uma outra cidade, Lisboa, por exemplo. Em cada primeira oportunidade, rumam os que podem às origens numa tentativa de recuperar a completude do seu ser; a língua será a mesma, mas as linguagens de imediato denotam outras afinidades, outro estado existencialista. Thomas Wolfe, do modernismo romântico norte-americano, intitulou um dos seus livros You Can’t Go Home Again/Não Se Pode Regressar A Casa, e não será de estranhar que era um dos escritores anglo-americanos lido e tido em conta pelos judeus já nascidos naquele país de pais e avós imigrantes, esses escritores hoje de nome mundial que nos anos 30 iniciavam a sua própria carreira, criando uma outra mítica do seu país. Talvez não, não se possa “regressar a casa”. Só que foi sempre parte inevitável da nossa mais íntima humanidade a reinvenção da nossa própria pessoa, a geografia tornando-se nós próprios, todo o nosso interiorismo, e nunca o que nos rodeia.

Acontece que mesmo antes de eu ler esta poesia de Lara Gularte tinha acabado de ler uma espécie de memórias de Joan Didion com o título ao mesmo tempo simples e devastadoramente irónico, Where I Was From, também ela californiana (Sacramento) cedo transplantada para Hollywood e para Nova Iorque, e agora com seu livro num exercício de rever e tentar compreender por outros ângulos e história a sua terra natal à beira do Pacífico. A poesia de Kissing the Bee é algo de muito semelhante no seu impulso temático, mesmo que naturalmente através de outras formas e linguagens. “Sou estrangeiro aqui como em todo a parte”, escreveu Fernando Pessoa. Toda a literatura, atreve-mo a dizer, é isso mesmo: a busca pelo nosso ser e lugar a que poderemos chamar de casa nossa, ou então recriarmos as nossas pátrias imaginárias e interiores.

“The island she remembered was dressed in crags and calderas. She said to me in broken English that when the lava stopped boiling, fish came to the shore and begged to be caught. Her hand filled with sky, breakers flowered on the beach, stones showed their frowning faces. She helped me understand the waves, close and far. Showed me how to pass through air, pass through water, enter salt/A ilha que ela recordava era vestida de penhascos e caldeiras. Ela disse-me num inglês despedaçado que quando a lava deixava de arder os peixes voltavam à costa e imploravam para serem recolhidos. A sua mão cheia de céu, as ondas tornavam-se fortes e floriam na praia, as pedras manifestavam a sua cara zangada. Ela ajudou-me a perceber essas ondas, de perto e de longe. Mostrou-me como atravessarmos o ar, navegar as águas, entrar no sal”.

Kissing the Bee é muito mais do que isto, e os seus poemas, diga-se uma vez mais, tomam as mais variadas formas, imagens e metáforas. Todos eles contam uma história, a narrativa profunda de se ser o Outro em qualquer parte, mesmo como descendente de sucessivas gerações vindas do outro lado mar e de um imenso continente. Lamento que escritores e poetas como Lara Gularte ainda não sejam largamente conhecidos entre os leitores mais sérios ou exigentes do nosso país. Poderá acontecer um dia – e verão o quanto a nossa literatura, mesmo noutra língua, já deve aos que afinal partiram mas nunca nos deixaram.

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Lara Gularte, Kissing the Bee, The Bitter Oleander Press, Fayetteville, New York, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

História e mítica da Califórnia, ou uma metáfora do sonho americano no seu extremo

Tal era o poder da história na qual eu me tinha criado e crescido que me invadiu este pensamento que se tornou uma revelação: o povoamento do Oeste, mesmo que inevitável, não tinha sido levado a cabo para o bem de todos, nem tinha a qualquer nível beneficiado até mesmo aqueles que se tinham apoderado das riquezas mais óbvias.

Joan Didion, Where I Was From

Vamberto Freitas

Entre os livros que acabo de ler, alguns deles de memórias de autores famosos na cultura literária norte-americana, nenhum deles me tocou tão profundamente como “Where I Was From/De Onde Eu Era”, de Joan Didion (1993), a grande escritora do Norte da Califórnia, Sacramento, a capital do grande e mais rico estado da mais rica nação do mundo. 27 anos de vivência naquela parte da América, no extremo real e metafórico da sua fronteira a oeste permite-me agora entende-la numa outra completude e condição existencialista. Não é só sobre a história de uma das mais enigmáticas geografias culturais e ideológicas dos EUA, tratando-se de uma obra sobre a condição universal, a dor de cada um de nós em qualquer parte do mundo. Cito aqui uma das suas mais lapidares e certeiras declarações, que vai ao fundo do coração humano: “There is no real way to deal with everything we lose/Não há nenhuma maneira de enfrentar tudo e todos que perdemos nas nossas vidas”. Estas suas memórias, autobiografia e história social e económica da Califórnia, fazem parte de uma das mais distintas autoras, que nasceu em 1934, e continua a viver em Nova Iorque, para onde se mudou cedo na sua carreira. Creio que poucos outros autores conhecem o seu lugar de nascença e onde viveu até à sua formação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, como Joan Didion. A autora começa a escrever com distinção desde os seus tempos de faculdade, e ainda hoje permanece como a mais distinta estilista e consequente ensaísta e ficcionista da sua geração, em que olha com uma lupa intelectual e realista todo o seu país, e até a América Latina. Tenho muitos dos seus livros aqui na minha estante, e tenho na mente alguns dos seus mais pertinentes e criativos ensaios publicados em grandes periódicos do seu país, que já fazem parte de um vasto cânone, como The White Album, Plat It As It Lays, e especialmente Slouching Towards Bethhelem, Miami e El Salvador. Não, não os li todos, mas li boa parte deles. Na ficção, li Democracy, no qual a ironia e a mentira do seu próprio país é o tema predominante, tal como, já depois de viver nos Açores, li a sua obra incomparável de ensaios simplesmente intitulados After Henry. Ter sido, como fui, imigrante ou cidadão de dupla nacionalidade no estado da autora, a sua descoberta foi sempre para mim um momento do chamado choque de reconhecimento: que uma nativa de sete gerações numa Califórnia de absolutos contrastes me esclarecia a minha própria sorte e estilo de vida foi ou foram momentos de grande emoção e pensamento. Joan Didion não só nos apresentava as contradições da nossa vivência, sonhos que disso não passavam, uma existência em suspenso sem saída ou meta clara a atingir – avisa-nos de que a mais longínqua e indefinida fronteira americana era uma de vida e morte, de ilusões e muito particularmente de perdas irreparáveis e do esquecimento do passado e dos que nos tinham antecedido na aventura, quer tenhamos partido da Europa ou de outras geografias mais longínquas, quer tenhamos nascido no próprio território feito de minas ilusórias e do mais desenfreado capitalismo selvagem, muito do qual ironicamente iniciado e depois financiado pelos governos estaduais e federais.

O estilo de Joan Didion vem do chamado novo jornalismo dos anos 60, no qual a mistura de factos documentados se juntam à intromissão pessoal, ou no qual a autora se mete “dentro do texto”, contrastando discursos oficiais com a sua própria experiência de vida, dia-a-dia, ano após ano. Fala aqui de acontecimentos que então eu vivia de perto nos meus 27 de América, como fala dos mais estranhos momentos de violência comunitárias que eu já acompanhava ao longe aqui dos Açores. Fala de uma Califórnia que conheci e vivi de perto nas comunidades rurais de Tulare, no Vale de São Joaquim e arredores, como fala de muitas geografias que me eram íntimas, em certas cidades na Grande Área de Los Angeles onde eu vivia simultaneamente com medo e sentido de realização. Fala da Califórnia da minha alegria e das minhas aflições. Sou filho, também, das mais estáveis e até prósperas comunidades luso-americanas, mas sempre consciente de um sistema e de uma classe governante capitalista sem moral nem piedade, que havia recebido a sua infinita riqueza dos governos estaduais e federais, da qual comíamos as migalhas que caíam da mesa e nos davam a ilusão de que estávamos nos melhores dos mundos. A grande narrativa de Joan Didion começa em 1846, quando o roubo de terras e os monopólios dos caminhos de ferro tudo controlavam e amedrontavam. Até hoje. A sua história começa com a travessia continental dos desgraçados em busca de terras e pátria, e acaba com a destruição de comunidades inteiras após a retirada tanto da indústria de defesa durante a Guerra Fria até à indústria aeroespacial e ao domínio do Silicon Valley, em que ela diz que todo o Norte da Califórnia se tornou num gigantesco San Jose, a cidade quase sem fronteiras e estendida por toda a parte, no qual os açorianos, mais ou menos, ainda predominam. De “portugueses”, só fala numa página, e ainda assim para castigar o discurso de certos protagonistas do famoso romance do “socialista”, absolutamente hipótrica e de nome Jack London, pelo menos na sua ficção de The Valley of the Moon. Fala-me de Tulare, Visalia, Delano, e assim por diante. Não vejo aqui os bandidos do Pacific Railroad, ladrões de guerras subsidiadas e criminosos contra os pequenos agricultores. Vejo a minha gente açor-americana: trabalhadora e inteligente, que um dia controlou cerca de sessenta por cento da indústria da produção do leite, assim como da agricultura em geral, constituindo ainda algumas das melhores e, repito, mais estáveis comunidades da Califórnia. Só que entendo e aceito a história de Joan Didion do seu estado natal, e a sua criminalidade na distribuição de terras às grandes empresas supostamente agro-pecuárias.

“Californianos – escreve Joan Didion nestas impressionantes memórias – de um certo espírito programático durante muitos anos apresentaram estas mudanças pós-Guerra como sendo positivas, o génio maior do lugar: era convencional mencionar o sistema de autoestradas, a indústria aeroespacial, o Plano Maior da Universidade da Califórnia, o Silicon Valley, o plano massivo de desvio das águas que era financiado quando Pat Brown era governador, todo o pacote, a celebrada promessa que a Califórnia estaria dedicada a criar e a educar uma aparentemente infinita e expansiva classe-média. A mais recente atitude programática foi continuar as mesmas mudanças negativas, promessas falsas: as autoestradas que facilitam o crescimento desordenado, a indústria aeroespacial que já se foi, a Universidade da Califórnia que tem perdido professores e salas de aula e a redução de orçamentos, o Silicon Valley que aumentou os preços das casas para além das posses dos residentes não-técnicos na Califórnia, e quase todo o estado continua sem água”.

Joan Didion é, sem dúvida, uma das maiores escritores norte-americanas do nosso tempo – no melhor jornalismo e na ficção. Conhece o seu estado de origem como ninguém, filha das gerações que atravessaram todo um continente, mesmo antes da independência do país em 1776. Viveu directamente como poucos de nós a Califórnia de ponta a ponta, inclusive aquele enclave muito estranho e decadente chamado Hollywood, onde trabalhou com o seu marido, o romancista de renome John Gregory Dunne, Play-Land, Crooning e The Red White And Blue, entre alguns outros romances, que também tenho na minha estante aqui em casa, na escrita de guiões para filmes de todo o género.

Joan Didion, que eu saiba, ainda não esta traduzida no nosso país. É um outro mistério para mim.

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Joan Didion, Where I Was From, London, Harper Perennial, 2014. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Quando o alter ego de Philip Roth se justifica perante os seus e os outros

Gostaria de pensar que, se e quando nascer o dia em que receberás o teu convite para ires a Estocolmo receber um Prémio Nobel, teremos dado um modesto contributo com a vista a despertar a tua consciência para as responsabilidades da tua vocação.

Philip Roth, O Escritor Fantasma

Vamberto Freitas

As palavras aqui citadas em forma de epígrafe são escritas numa longa carta de um juiz amigo do pai de Nathan Zuckerman, o protagonista ficcional que domina uma parte da vastíssima obra de Philip Roth, e são palavras de um dos seus mais distintos romances publicados a meia carreira do autor, em 1979, sob o título de The Ghost Writer, e que mais tarde faria parte de uma trilogia chamada Zuckerman Bound, que inclui ainda Zuckerman Unbound The Anatomy Lesson/A Lição de Anatomia (este fazendo parte da já longa colecção traduzida na nossa língua) a que juntou um longo Epilogue: The Prague Orgy, que levaria o autor até à Europa então sob o domínio da União Soviética, e em defesa aberta dos seus escritores mais perseguidos ou já no exílio, que também resultaria num outro livro de ensaios e entrevistas. Não será surpreendente que este romance aqui em foco tenha sido dedicado já na primeira edição a Milan Kundera, como agora na magnífica tradução de Francisco Agarez para D. Quixote, lançado o ano passado. Philip Roth nasceu em 1933, tendo anunciado há poucos anos que deixaria de escrever por completo, e que agora dedicar-se-ia exclusivamente à leitura, e redescobrindo o prazer do texto escrito por outros autores. O seu primeiro livro Goodbye, Columbus And Five Short Stories saiu em 1959, e nunca mais o autor deixou de ser uma das mais controversas vozes da literatura norte-americana da nossa época, provocando com igual intensidade de ira tanto os judeus como muitas mulheres, por razões mais ou menos diferentes, mas têm a ver com uma nova visão da sua sociedade, o humor e sátiras imparáveis ao serviço da criação de nada menos do que a visão sobre um novo espaço que era até então totalmente dominado pela literatura anglo-saxónica, tendo as novas vozes das primeiras gerações judias nascido apenas já na década de trinta e permanecendo até aos nossos dias. Ainda assim, muito depois de obras-primas afro-americanas, que vinham desde o tempo da escravatura até aos nossos dias. As palavras que citei têm outro propósito aqui: a ironia de Philip Roth constatar das listas do Prémio Nobel desde há muitos anos, sem nunca o ter recebido. Nem precisa. Toda a sua obra tem sido premiada ao mais alto nível por outras instituições dentro e fora dos Estados Unidos. Os suecos, diria ele mais ou menos o ano passado, não devem gostar do “sexo” na sua ficção. Os seus leitores gostam, e fizeram dele uma das vozes literárias supremas desde o século passado até ao presente. Poucos serão os escritores que atingem este estatuto de permanência e admiração, pelo menos no Ocidente e arredores mais abertos e libertos. Quando publicou um dos seus mais controversos romances em 1967, Portnoy’s Complaint/O Complexo de Portnoy, levantou tal furor na comunidade judia-americana que até levou uma comissão informal a sugerir que os seus livros não fossem mais publicados no país. Religiosidade e história estavam por detrás dessa insatisfação e raiva, mas Philip Roth nunca cedeu na sua visão de judeu americano e no seus direito artístico de despejar a sua alma e razão em sucessivas obras, que atingiriam o seu apogeu internacional nos longos romances American Pastoral/Pastoral Americana e The Conspiracy Against America/A Conspiração Contra América, hoje um dos mais lidos nos EUA devido à actual situação política, mesmo que se trate de um tempo ficcional dos anos 30/40 e do movimento pró-nazi naquele país.

O Escritor Fantasma será talvez um dos mais “calmos” romances do seu cânone pessoal, pela sua temática como pela contenção das suas linguagens. O seu narrador/protagonista, escritor conhecido, vive em Nova Iorque, mas decide visitar por uns dias um escritor/mestre, aqui de nome E. L. Lonoff e também judeu-americano, que vive no campo algures na Nova Inglaterra e casado como uma mulher de famílias patrícias e representante da classe mais antiga e dominante desde os primórdios dos Estados Unidos. “Era uma mulher – diz Zuckerman—pequena, de amáveis olhos cinzentos e suaves cabelos brancos e uma infinidade de rugas finas que sulcavam a palidez da pele. Até podia ter sido, como dizem os jocosos intelectuais, ‘a aristocrática herdeira ianqui’ de Lonoff…” Recebe inevitavelmente visitas periódicas de admiradores e admiradoras, sempre civilizadamente. “Pureza. Serenidade. Simplicidade. Reclusão”, diz logo de início Zuckerman sobre o seu ídolo, que alguns críticos identificaram como sendo o escritor de contos e romances Bernard Malamud, falecido em 1986, cujas obras se tornariam parte do cânone literário nacional, um escritor de minorias que não iam nem vão atrás das máquinas publicitárias que hoje dominam o mundo editorial um pouco por toda a parte. Zuckerman limita-se aqui a conversas serenas, a ouvir os conselhos do velho escritor que na altura tem também de visita em sua casa uma mulher muito mais nova, e que Zuckerman sendo Zuckerman, suspeita eventualmente ser amante do velho escritor, e que ele próprio, já se sabe, começa a desejar. Este é um romance de grandes ironias. Zuckerman procura a redenção depois das suas obras mais controversas, como que pede desculpe e a bênção dos mais velhos adentro do mundo ancestral, que começa como filho de imigrantes em Nova Jersey, de onde era realmente Philip Roth, a linguagem entre a sua biografia e ficção sempre muito fina e deliberadamente levando o leitor à confusão, ou melhor, despertando nesse leitor a sua imaginação. A verdade é que Philip Roth/Nathan Zuckerman também desfrutava de grande amizade entre os que haviam lançado uma nova literatura norte-americana a partir de grandes cidades metropolitanas, inclusive Chicago onde já vivia, leccionava e escrevia Saul Bellow, talvez o escritor que mais influência exerceu sobre o autor.

“Na longa e interessante conversa que mantivemos – escreve um juiz amigo do pai de Zuckerman a propósito de conto com o título de ‘Estudos Superiores’ e já manifestando o escândalo que o seu autor provocaria ante a família e outros leitores – aqui nos meus aposentos, informei-o de que tradicionalmente, ao longo dos tempos e em todos os países, o artista sempre se considerou além dos costumes da comunidade em que vivia. Grandes artistas, reza a história, são muitas vezes ferozmente perseguidos pelos temerosos e incultos, que não compreendem que o artista é uma pessoa especial que tem um contributo ímpar a dar à humanidade”.

Não, não creio que Philip Roth, através de Nathan Zuckerman, está a auto-engrandecer-se, antes pelo contrário. A ironia é outra vez um recurso seu que se dirige à ignorância e intolerância dos que, dentro da sua própria tradição ou ancestralidade judia, tentavam não esquecer o passado, mas sim criar um espaço na nova sociedade que lhes era negada, e nunca reivindicada pelos antigos antepassados que lá tinham chegado no XIX e princípio do século passado, em fuga à histórica barbaridade europeia, ao anti-semitismo irracional, à violência que atingiria o genocídio na II Guerra Mundial. Estes novos escritores judeus não ignoravam e muito menos desculpavam o sofrimento de todo um povo que era o seu. Simplesmente, sabiam que do passado, relembrando-o tanto na história como na arte, só os manteria nas margens, e o seu talento e vontade de pertença ditavam que a sua condição era o que era, e que a sua arte faria chamamentos, umas vezes subtis outras abertamente, a esse passado, mas que o seu grupo tinha de ser representado nas letras como parte íntegra da vida quotidiana, os seus sonhos de vida, as suas angústias e triunfos, agora numa outra e bem diferente geografia, seriam os temas fundamentais de uma nova literatura em língua inglesa. Por outras palavras, a escrita de Philip Roth, muito ao contrário do que era assumido, colocava essa sua comunidade de origem em Nova Jersey, Nova Iorque ou Chicago como fazendo parte da condição humana em geral, com todas as suas virtudes e até criminalidade. Foi uma literatura tão nova e radical que para sempre mudaria a cultura do país, e durante décadas até conduziria todo o debate literário, e mesmo político, no seu país de nascença e livremente adoptado pelos seus pais e avós.

Creio que O Escritor Fantasma é também sobre isto, numa leitura mais atenta, como é sobre o acto criativo em si, com mestres e discípulos, a chamada meta-literatura, ou seja a palavra artística virada para si própria como um outro tema inescapável da modernidade e da reinvenção do próprio romance.

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Philip Roth, O Escritor Fantasma (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 23 de Março de 2018.

Do riso e do choro

Não, a sério, digam lá se o maior temor não é o de que afinal de contas os rabinos têm razão? Que o inferno exista mesmo? A assistência ri sem entusiasmo, as pessoas baixam os olhos, com relutância em olhar para ele.

David Grossman, Um Cavalo Entra Num Bar

Vamberto Freitas

Quando pensamos em Israel, ou em qualquer país do Médio Oriente, raramente vamos além da sua política e do seu perpétuo estado de guerra, do terrorismo, das injustiças cometidas diariamente contra os palestinianos, das imagens de Israel a bombardear ou a ameaçar com caças potencialmente devastadores e mortíferos em Gaza, ou da ocupação ilegal de terras na Cisjordânia. O resto geralmente fica esquecido, quanto a uns e outros, especialmente a vida quotidiana dos seus cidadãos que tentam a normalização possível das suas vidas, os sonhos partilhados com toda a humanidade de dias melhores e de paz. Essa existência implica não só o desenvolvimento económico que dê o sustento à maioria daquele povo, como a criação da arte em todos os seus géneros. Vou falar aqui de um grande escritor israelita, como poderia falar de grandes outros escritores no outro lado da fronteira, como Edward W. Said, nascido no Egípto, mas palestiniano, e que antes de falecer aqui há uns anos foi assessor do também falecido Yasser Arafat e que havia sido o líder máximo da OLP, como poderia mencionar os nomes de grandes poetas como Adonis, presentemente exilado na França, e que visitou o nosso país ainda há pouco para falar da sua obra, candidato desde há anos ao Prémio Nobel.. Acabo de ler o romance Um Cavalo Entra Num Bar, de um dos grandes escritores judeus e de todo universalista, David Grossman, primeiro publicado originalmente em 2014, e agora traduzido para a nossa língua e lançado pela D. Quixote/LeYa. Grossman nasceu em Jerusalém de mãe nascida naquele país e de pai ido para lá da Polónia, cuja língua era também o iídiche, de posses humildes, ideologicamente sionista. Grossman, por outro lado, identifica-se com a esquerda do seu país e é um defensor do entendimento entre todos que partilham aquela geografia bíblica e islâmica. Grossman estudou, segundo a sua biografia, filosofia e dramaturgia, tendo-se dedicado à rádio, entre outras actividades profissionais. Na minha estante tenho mais dois livros da sua vasta obra literária, editados nos Estados Unidos quando eu ainda vivia lá: See: Under Love (que nunca li) e The Yellow Wind, um ensaio que o autor escreveu depois de atravessar a fronteira no outro lado sua cidade e ouvir o que os supostos “inimigos” tinham a dizer sobre todo o labirinto violento que se tornou o relacionamento entre judeus e os que defendem um estado único para os dois povos, ou então a divisão em dois estados definitiva e internacionalmente reconhecidos. Tem alguns outros livros traduzidos no nosso país, mas Um Cavalo Entra Num Bar, que recebeu o Prémio Man Booker Internacional em 2017, é a primeira ficção dele que leio, depois de ter lido um dos seus mais conhecidos colegas e amigos Amos Oz. Claro que não leio hebraico, e a minha avaliação de uma tradução, neste caso feita por Lúcia Liba Mucnik, é muito simples: basta-me, após ler as primeiras páginas, esquecer-me que o livro foi escrito noutra língua. Um dos primeiros mandatos éticos de uma tradução é que se seja fiel ao original, sem que isso impeça toda a criatividade linguística do tradutor ou da tradutora. Estamos perante um romance aliciante, que relega política e história para um espaço meramente sugerido, e foca-se na condição humana universalizada, nos desejo e medos do coração humano.

Um Cavalo Entra Num Bar é um romance singular na sua estrutura, só ao alcance de um grande escritor. Durante mais de 200 páginas o narrador, de nome Avishai Lazar, intercala a sua narrativa com a do comediante em palco, Dovaleh, fazendo o leitor entrar nas reacções mistas da audiência num clube nocturno, e todos aparentemente de várias condições sócio-económicas e culturais. São horas noite dentro num palco em que o standupista (a primeira vez que vez que vejo a palavra em português, a tradução de stand-up comidian), expressa através dos seus bizarros movimentos em palco e das tiradas verbais, tudo o que faz rir os seus fãs,ou então quedar-se perplexos ou até envergonhados, mudando ao longo do seu acto para a tragédia e tristeza de se estar vivo e pertencer por inteiro à sua sociedade. Com frequência nomeia a cidade onde decorre o seu acto teatral, e depreendemos que não se trata de um grande centro metropolitano, mas em que a humanidade de todos está a saque, a vivência entre o riso e o choro, por entre eventuais alusões ao estado de guerra em curso, em que até os mais jovens começam o treino militar como se de pioneiros ou escuteiros se tratasse, fora da família e sob as instruções de oficiais militares. Por outras palavras, a condição judia em tudo se assemelha a todos os outros povos em todas as geografias e nacionalidades, com chamamentos a certas figuras que ficaram na história literária pela sua capacidade de nos transmitir o absurdo, incerteza e insegurança que são as nossas vidas, Kafka é mencionado por um dos seus escritos em que só o pior nos espera ou nos pode acontecer a qualquer momento. Não entram, nem o comediante nem o seu narrador, em questões do conflito sempre presente naquele país, mas sim na normalidade e anormalidade do dia-a-dia dos o que ouvem, tomando as suas bebidas, trocando olhares ora envergonhados pelo que vêem e escutam do palco, oram rindo e sorrindo no seu momento de catarse e reconhecimento de si próprios, como se o autor fosse todos eles nas mais variadas condições e sorte de vida. Alguns vão abandonando a sala em desgosto e vergonha, outros permanecem e esperam o que der e vier dos gestos corporais e palavras do actor. Nunca este se comove nem com as palmas nem com a deserção do seu público, esta é uma noite de verdades raramente ditas, uma vez mais, a comédia e a tragédia numa espécie de diálogo que nos vem desde os poetas e dramaturgos gregos antigos. Sentados em grupo ou sós à sua mesa, bebendo ou não, olhar para o palco é como se olhassem para um espelho que os retrata ou devolve a imagem a cada um e a todos eles.

“Um momento – diz o narrador a finalizar – passa e outro. O gerente da sala olha para a direita e para a esquerda, limpa a garganta, bate com ambas as mãos nas coxas grossas e começa a levantar as cadeiras. As pessoas levantam-se e saem em silêncio sem olharem umas para as outras. Algumas mulheres fazem-lhe um sinal com a cabeça. A sua expressão é apagada. A mulher alta de cabelos grisalhos aproxima-se do palco e despede-se dele com uma inclinação da cabeça. Ao passar pela minha mesa, em direção à saída, pousa em cima um bilhete dobrado. Reparo nas rugas do sorriso à volta dos olhos rasos de lágrimas”.

Um dos críticos internacionais citados na contracapa de Um Cavalo Entra Num Bar relembra-nos o óbvio – que certas verdades só podem e são ditas nas melhores das ficções, e fala-nos ainda nas “sociedades disfuncionais” em que todos vivemos, e que outros provavelmente chamariam de “pós-modernas”. Estamos de novo no tempo em que as antigas instituições não funcionam, estamos desorientados, todos, na nossa tentativa de mera sobrevivência, em que uns falam de armamentos cada vez mais aterrorizadores em futuras guerras quentes, enquanto outros assassinam impunemente os que são considerados inimigos ou perigosos para os poderes instituídos. Este grande livro de David Grossman parece querer dizer-nos isso mesmo. “Este é um romance — diz The Guradian – para a nossa Idade de Ofensa – ofensa facilmente aceite e interminavelmente praticada”. Não conheço uma única sociedade no mundo da nossa época que não se reconheça nestas palavras do romancista, os muitos dos seus críticos e leitores. A arte celebra a vida, por certo, tal como denuncia os que subvertem e tentam dominá-la a qualquer custo para todos os outros. Atiram-nos cá para fora números que pretendem significar felicidade ou falhanço, falhanço nunca dos governantes, mas dos seus servidores, que somos quase todos os nós. A palavra artística desdiz a mentira, e sobretudo reconfirma e reafirma a nossa humanidade, a vida no seu melhor e no seu pior, na sua alegria e na sua tristeza.

É esse mesmo o poder deste romance. Basta a palavra e um gesto num palco para revermos a nossa condição como cidadãos do mundo, sempre em conflito de um modo ou outro.

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David Grossman, Um Cavalo Entra Num Bar (tradução de Lúcia Liba Mucznik), Lisboa, D. Quixote, 2018.

 

 

A portugalidade na nossa história

 

Os textos deste livro foram escritos no estrangeiro ao longo de três décadas, ao escrevê-los, nunca me senti de fora. É bem largo o Atlântico, mas visto da Nova Inglaterra, é um oceano que parece um rio.

Onésimo Teotónio Almeida, A Obsessão Da Portugalidade

Vamberto Freitas

A obra de Onésimo Teotónio Almeida é já tão vasta que me é impossível nomear mesmo alguma parte mais significativa, e não é esse o propósito deste meu texto. Residente nos Estados Unidos desde os anos 70 e formado nos seus estudos superiores primeiro na Universidade Católica Portuguesa, depois na Brown University onde se doutorou em filosofia sobre questões de ideologia, ascenderia a Professor Catedrático na mesma instituição em 1991, onde continua a leccionar uma cadeira sobre Valores e Mundividências. Se menciono estes factos bem conhecidos pelos seus colegas e leitores mais atentos é para dizer que, uma vez mais, é-me difícil ou mesmo impossível pensar o autor como alguém que vive e desempenha as suas funções académicas noutro país que não o nosso. Ele próprio o diz de quando em quando que nunca saiu de Portugal, e muito menos ainda dos Açores, e a sua fulgurante carreira universitária, de escritor ensaístico e criativo assim o comprovam, tal como o comprovam claramente o referencial em quase todas as suas obras. Vive Portugal e a sua versão da portugalidade a cada momento da sua vida, inclusive nas suas constantes presenças no nosso país. Já o disse publicamente à sua frente, e agora escreve-o: Onésimo vive de facto em Portugal mas tem uma casa de férias na América, que visita periodicamente. O seu estatuto entre nós é tão desusado que nenhum dos termos habituais podem descrever o seu estatuto de cidadania na América: nem é propriamente imigrante, expatriado ou exilado nos significados habituais destas palavras. Toda a sua obra ficcional tem esse chamamento americano, assim como grande parte das suas crónicas publicadas em Lisboa e em jornais da nossa diáspora, mas é como se ele fosse um autor que vigia os seus personagens e geografias através de um drone, toda a sua outra obra ensaística tem Portugal ou a história das ideias ocidentais ao longo dos séculos como temas fundamentais. Bem sei que outros já o disseram, talvez de modo diferente do meu, mas o homem e a obra aí está – Onésimo vive nesse espaço que nunca deixa de ser português, e não foi sem pensar a sua própria mundividência que o levaria a criar e a definir o neologismo lUSAlândia, que ele diz ser um pequeno Portugal, ou ilha, se assim preferem, rodeada de América por todos os lados. Estes ensaios que constituem uma grande narrativa em A Obsessão Da Portugalidade são provenientes de vários encontros universitários ou de escritores, mas convergem numa impressionante unidade que tenta definir, ou pelo menos esclarecer, a ideia de portugalidade ao longo dos séculos, particularmente a partir do Marquês de Pombal até aos nossos dias, essa noção de ser-se português e como, para parafrasear aqui Jorge Sena no que creio ter sido o seu último ensaio, “Ser-se imigrante e como”, publicado pelo próprio Onésimo no primeiro número da revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, em 1980. No entanto, e para além deste seu modo de ser e estar entre nós, nunca deixou de prestar atenção às produções literárias dos lusodescendentes na América do Norte. Onésimo Teotónio Almeida é para mim uma espécie de Fernão Mendes Pinto, mas sem as supostas mentiras, o mundo todo a seus pés sem nunca sair da sua casa lusa.

A Obsessão Da Portugalidade: Identidade, Língua, Saudade & Valores, aliás como indica o subtítulo, é uma tour de force através da nossa história, e como os defensores da tradicionalidade e os reformadores ou regeneradores se enfrentaram ao longo dos séculos, a centralidade de uma mundividência constantemente posta em causa por quem havia absorvido as ideias do Iluminismo, e isso tanto poderia vir dos que tinham tido outras experiências fora de Portugal como de residentes que também tinham assimilado a ideia do atraso barroquista do nosso país, desde os primórdios aos nossos dias. O autor combina vários campos de estudo que incluem história, filosofia (a questão da saudade e os seus múltiplos significados) e os debates já posteriores e no início de uma modernidade tardia que começa a abalar o Estado monárquico no fim do século XIX até ao marxismo que tentou dominar os primeiros tempos do 25 de Abril de 1974, e que Onésimo relembra aqui que não se passou de outra coisa senão de um regresso à ideia de utopia e à originalidade de uma certa mundividência entre todos os outros, mesmo entre os que na altura partilhavam dessa ideologia em muitos outros países a leste e nas Américas. Os nomes associados a esses diversos debates através de livros, revistas e conferências são como que uma pauta de chamada aos que, em termos intelectuais ou na rua lutaram pela manutenção do status quo, ou por mudanças de fundo e ideológicas na estrutura da sociedade portuguesa. Desde os utópicos Padre António Vieira e Fernando Pessoa da Mensagem a historiadores e pensadores da nossa modernidade, como Jorge Borges de Macedo ou ainda ensaístas como António Sérgio e Teixeira de Pascoaes (tomando posições contrárias durante toda uma carreira literária), o leitor vai-se dando conta de como na verdade nenhum de nós conseguiu ficar nunca indiferente à geografia, cultura e língua que lhe foi dado viver na sorte ou circunstâncias de vida dentro e/ou fora do país. Até a osmose entre língua e cultura é tratada aqui num ensaio para mim muito esclarecedor, “Língua e mundividência – ou como a língua reflete a cultura”. Uma passagem pelos índices onomástico e analítico é deveras avassalador na erudição e conhecimento que o ensaísta nos proporciona, e isso inclui ainda historiadores estrageiros que se têm debruçado, já na nossa época, sobre as grandes questões ou acontecimentos portugueses, como, eis aqui apenas um exemplo entre muitos outros de vários países, o norte-americano Kenneth Maxwell. Comparável a Onésimo Teotónio Almeida e a sua postura ante toda a questão da portugalidade, e falando só dos que viveram a maior parte das suas vidas nos EUA e aí produziram grande parte da sua obra literária, só José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena. Entre nós, e nascido em Moçambique, só o escritor e poeta Eugénio Lisboa. Como quase todos os portugueses com reconhecida voz pública, Onésimo Teotónio Almeida guarda o discurso crítico para os seus conterrâneos, e defende o seu país, com exemplos da história da nossa independência perante Espanha ao quotidiano criativo da nossa actualidade quando de nós fala a estrangeiros. A “obsessão da portugalidade” também aqui não deixa ninguém indiferente.

“Mas Portugal – escreve no ensaio de encerramento ‘Portugal em versão para estrangeiros’, e contrariando a nossa condição quase psiquiátrica entre a euforia e a depressão, e assim definindo-se ante o que nos parece ser um país finalmente regenerado – é uma caixinha de surpresas. Tal como a sua paisagem, que num espaço geográfico tão exíguo surpreende a cada esquina com novos ângulos, muitas vezes dando a impressão de que se mudou de país, assim é a sua gente. É só esgravatar um pouco à superfície e descobre-se uma camada jovem a mover-se num frenesi de criatividade a todos os níveis. Parece não existir um único ramo de realizações humanas – das artes e letras às ciências e tecnologias – que, dia sim dia não, não produza notícias de mais um ou uma jovem galardoada internacionalmente, de outro membro de uma equipa descobridora de um dado científico, de uma nova voz, ou de mão hábil que pintou algo inesperado, ou de um invento com grandes possibilidades de comercialização. Até no fado, a tradicionalíssima marca de música do País, não param de surgir vozes novas e transformarem-no e a tornarem essa música, desde sempre tão presa aos bairros e às vielas da velha Lisboa, em algo que no Japão ou em Nova Iorque se ouve e se aprecia por retinir uma corda da sensibilidade humana, universal”.

A Obsessão Da Portugalidade confirma e reconfirma Onésimo Teotónio Almeida como um dos grandes pensadores e escritores portugueses da nossa época. Foram outros que o disseram muito antes da saída deste seu mais recente volume de ensaios, que se tornam, uma vez mais, numa narrativa coesa do que nos fez quem somos e até onde chegámos. Sobre os seus contos já começaram a aparecer teses universitárias, como no caso de O Sonho Americano: (SAPA)TEIA AMERICANA, de Maria Teresa Maia Bento Amarelo Carrilho. Miguel Real inclui uma alongada secção sobre a sua obra ensaística no monumental O Pensamento Português Contemporâneo: O Labirinto da Razão e a fome de Deus, de 2011. João Maurício Brás também publicou um extenso volume (331 páginas) sob o título Identidade, Valores, Modernidade: O Pensamento de Onésimo Teotónio Almeida, em 2015.

No entanto, Onésimo Teotónio Almeida conseguiu sempre equilibrar a investigação académica e o diálogo entre pares com a constante intervenção jornalística, fazendo dele, sem qualquer dúvida, um dos mais consequentes intelectuais públicos do nosso país e tempo, a sua portugalidade nunca desfez a intensidade da sua açorianidade, demonstrando eloquentemente que não há qualquer contradição em ser-se português do Continente, das ilhas, ou de qualquer outra parte.

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Onésimo Teotónio Almeida, A Obsessão Da Portugalidade, Lisboa, Quetzal, 2017.

Da linguagem como personagem, da imaginação como história

Durante a manhã, o sol percorria a cabeça, subindo pelas crinas. Ao meio-dia tocava no dorso e ao poente começava a bater-lhe na garupa, descendo lentamente pelas patas.

Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por uma confissão inevitável. Quando este romance de Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo, foi originalmente publicado em 1995 (pela D. Quixote) eu andava quase totalmente dedicado ao estudo da literatura açoriana contemporânea, e pouco depois às obras de escritores luso-descendentes na América do Norte. Muita da nossa literatura de escritores continentais passou-me ao lado, pois o tempo não chegava para tudo, muito menos para leituras atentas de outros grandes autores. Ultimamente, as reedições de muitas destas obras têm-me facilitado este regresso essencial a alguns dos livros que mais marcaram a literatura moderna portuguesa, como acontece aqui com a reedição deste romance no fim do ano passado, que na altura recebeu o Prémio APE, e recebeu justamente um rol apreciável de recensões e críticas tanto em Portugal como no Brasil, onde a autora viveu dois anos, para além de ter dado aulas em países como a Alemanha, acabando a sua carreira académica na Universidade Nova de Lisboa. Primeira observação da minha leitura: mais dos que os próprios protagonistas e personagens secundários, esta é uma peça literária em que a própria linguagem domina a atenção e a nossa leitura devoradora, numa combinação de obscurantismos metafóricas e imagísticos como nas viragens de tom, tempo ficcional, ritmo, seriedade, ironia, e sobretudo humor. A trama do romance acaba por tomar um lugar quase secundário, sem que deixe de sobressair a história de uma região e de um país que cobre séculos de vida até à contemporaneidade, em que tudo já não existe, inclusive a casa e os seus mais excêntricos habitantes aristocratas e seus servidores, com olhares momentâneos ao resto da aldeia algures no norte do país onde se situa toda esta geografia de serranias e de uma humanidade que apenas vive um quotidiano repetitivo e sem quaisquer consequências ou interesse para além da sua própria sobrevivência quieta e calada. Não queria utilizar expressões ou classificações que já se tornaram clichés, como realismo mágico, mas que esta prosa da autora toma inesperadas formas fantasmagóricas também não pode ser ignorado, tal como, de certo modo, já havia acontecido com a sua novela Passagens, no qual tanto ouvimos a voz da morta como dos que a rodeiam no seu velório, por vezes fazendo lembrar Finnegan’s Wake, de James Joyce. Aliás, A casa da cabeça de cavalo faz-me ainda pensar noutros grandes romances como Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez e A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Estamos aqui num Portugal mítico em que, uma vez mais, a história está ligada à fantasia pura, os costumes da comunidade em conflito com os desejos ou crenças de cada um.

A casa da cabeça de cavalo já não existe no começo do romance, a besta colada na sua parede tem a capacidade de correr pela vila, espantando e amedrontando os seus habitantes, tal a imaginação e memórias passadas de geração em geração. Praticamente toda a acção do romance passa-se portas adentro, com namoros desejados ou proibidos, com patriarcas à vigia e ameaçadores perante qualquer prevaricação. De resto, a memória colectiva aqui leva-nos a um Brasil desejado e ainda colónia aquando da chegada lá da corte de D. João VI em fuga perante a grande invasão francesa, ou então pela emigração de aristocratas indigentes, até à chegada à vila de um Francês de nome Filipe, também em fuga a qualquer coisa feita na sua terra, a mulheres que passam os dias entretidas com afazeres caseiros e vigiando os outros pelas janelas da casa senhorial à moda desses séculos passados e turbulentos. Os nomes dos personagens são tantos que se tornaria cansativo recitá-los num texto como este. Basta dizer de que um Januário tem sempre em sua frente um bloco notas, e vai tentando recriar ou não o passado da família ou do clã. Nenhum deles se safa de juízos maléficos, e o francês é olhado sempre como intruso representativo não só dos violadores, destruidores e ladrões de um Portugal sem governo e à deriva, como ingleses também denunciados como supostos aliados cuja intenção principal era pilhar o país e tomar controlo do melhor da cidade do Porto e arredores. Sim, a história e fantasia provocam na autora a maior audácia de linguagens que descrevem a casa, a vila, e por inferência o pobre país que, pelo menos na época, na passava de um aglomerado de aristocratas caídos e miseráveis de rua ou em cafés e esquinas pouco aconselháveis. “Uma rede de múltiplas vozes – escreveu João Barrento sobre a primeira edição deste romance — que emergem sem aviso prévio de um passado brumoso para entrarem num complexo jogo narrativo… O fascínio do simbolismo e a beleza da linguagem criam um universo singular e inconfundível”. Se recorro aqui a um dos nossos grandes ensaístas e críticos é porque, muito simplesmente, as suas palavras descrevem na perfeição este quase inqualificável romance de Teolinda Gersão, Barrento definindo, estou em crer, todas as qualidades e técnicas da grande literatura Ocidental.

Quando Edmund Wilson, o crítico americano que antes de ninguém apresentou aos leitores mais sofisticados do seu país o modernismo europeu a partir de Proust até James Joyce decidiu aventurar um ensaio sobre o Finnegans Wake, já aqui mencionado, seria esse talvez o mais ilegível de todos os romances saídos naquela altura. A sua interpretação não ficou nem poderia ficar pelos passos mais obscuros, que incluía palavras inventadas e frases mais do que contorcidas. Procedeu então ao que mais ninguém faria: imaginou o que o morto estava a dizer aos que o velavam e sobre o que ele outros iam dizendo ou lembrando, uma coisa ou outra. A grande arte literária tem momentos assim, cada leitor terá de decifrar os significados de cada passo narrativo ou diálogo sobre acontecimentos incertos, acontecidos ou meramente imaginados pelas vozes que nos vão contando a história de cada outro personagem ou acontecimentos colectivos dentro e fora das geografias referenciais de qualquer ficção. Acontece algo de semelhante em A casa da cabeça de cavalo: as palavras ou acções de um personagem são quase sempre relatadas por outro personagem que testemunhou ou imaginou situações que nos poderão proporcionar os mais improváveis ou mesmo falsos significados. Ficamos sempre pela fluência das linguagens, mas nunca pela sua “verdade” ou “mentira”. Michael Holland, que foi professor de literatura comparada numa faculdade californiana e um dos meus grandes mestres, para quem a nova crítica vinda dos anos 40 ainda lhe dizia alguma coisa, avisava-nos sempre que tivéssemos cuidado com a “fiabilidade” do protagonista-narrador ficcional, teríamos de decidir se ele estava a contar a história com “seriedade” ou simplesmente querendo levar o leitor a interpretações falsas, mas plausíveis. Quando os mortos falam, mais ambíguas se tornam as suas afirmações e recordações.

“No segundo degrau – diz o narrador no encerramento do romance – o mundo dos vivos ficava mais distante, esbatiam-se os contornos nítidos das coisas e percebia-se que a parede fina, de vidro ou de água, não ficava adiante, impedindo o acesso à vida, mas atrás, vedando acesso a outro lugar da morte. Nessa altura em que se atravessava a parede muita coisa se esfumava na lembrança, embora se recordassem, com grande nitidez, pormenores aparentemente sem importância, a que gostavam de apegar-se, porque sentiam que, se os esquecem-se, ficavam desligados do universo que lhes continuava a ser familiar e entravam no desconhecido”.

Estas são estórias interligadas, cada uma quase funcionando como um conto integral, e juntas tornam-se no grande romance que é A casa da cabeça de cavalo. Se lermos a ficção posterior de Teolinda Gersão, nem a sua temática nem as suas formas literárias tomaram rumos muito diferentes. Esta unidade da sua obra faz parte da grande escritora que ela é, da sua originalidade absoluta entre uma geração de notáveis escritoras portuguesas desde o século passado até aos nossos dias.

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Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo, Porto, Porto Editora, 2017.

Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 26 de Janeiro de 2018.

VAMBERTO FREITAS: os olhos atentos da nossa escrita

Álamo Oliveira

Vamberto Freitas publicou, há poucos dias, o livro 4 de borderCrossingsleituras transatlânticas IV. Os seus leitores já não estranham que este ensaísta os vá contemplando com dádivas tão necessárias de se ter e ler. Na verdade, os quatro livros são a arrumação de um criterioso trabalho de escrita que incide sobre a escrita dos outros. A ficção narrativa e a ensaística que, de alguma forma, refletem a açorianidade na sua dispersa, mas importante posição geográfica, bem como a escrita anglo-americana, que deu a Vamberto Freitas saberes e vivências socioculturais marcantes, aparecem, nestes quatro livros, com transatlântica persistência crítica. Isto é: os textos incluídos foram, primeiramente publicados em jornais e revistas em separado, embora, quando agrupados, ganhem a coerência de um tratado, aqui entendido pela unidade de critérios analíticos que assentam em princípios teóricos criticamente aceites. Porém, as análises feitas por Vamberto Freitas não se espartilham no rigor matemático das teorizações, bastas vezes antagónicas, apesar de, muitas vezes, terem sido conquistadas em debates académicos de prestígio. Os seus textos surgem sob uma linguagem clara, direta, apelativa, relevando sempre a ideologia prevalecente, a capacidade discursiva e a estruturação da obra analisada. Vamberto Freitas expressa-se de forma a fazer com que o leitor aceite a importância de determinado livro, criando aliciantes, mas justificando sempre e com rigor os motivos das suas sugestões de leitura.

A muitos, parecerá que Vamberto Freitas nunca escreve nada de negativo sobre um livro ou um leitor. Não é assim. Quem tem seguido os seus textos encontra exemplos que chamam a atenção para a mediocridade, sendo até mais exigente sempre que está em referência um autor que tem a obrigação de saber e de conhecer melhor sobre o que escreve. Claro que ele, para além de gozar de uma independência académica e cultural reconhecida publicamente, faz as suas escolhas de leitura e, destas, volta a escolher o que quer analisar escrevendo.

Sobre os escritos ensaísticos de Vamberto Freitas, escreveram um naipe notável de opiniões, também elas críticas, conceituadas, justas e deferentes. Leia-se Teresa Martins Marques, Eugénio Lisboa, Carlos Bessa, Urbano Bettencourt, Aníbal C. Pires, Diniz Borges, Onésimo Teotónio Almeida, entre outros, têm borderCrossings 4 como ponto de atenções. São três textos de autores exigentes e de créditos firmados nas Letras portuguesas.

Ao referenciar criticamente autores anglo-americanos, Vamberto Freitas alia os escritores luso-americanos, informando que estes não podem temer comparações (quase sempre inevitáveis) com escritores de outras proveniências geoculturais quanto à qualidade literária. A denominada Literatura étnica nos Estados Unidos tem merecido uma atenção muito especial por parte de V. Freitas, salientando os problemas decorrentes da integração sociocultural, com chamadas pertinentes para os da diáspora açoriana.

Pelas ilhas, onde escasseiam leitores e espaços de divulgação da paradoxal abundância editorial, Vamberto Freitas continua a militar, quase isoladamente, na escrita e na publicação dos textos críticos sobre os livros que vai lendo, divulgando, sobretudo, o que tem vindo a sair dos prelos de autoria ou de interesse açorianos.

A disciplinada persistência de Vamberto Freitas na publicação dos seus textos críticos tem permitido que autores e livros sejam conhecidos em muitos outros espaços, nomeadamente nos Açores e Continente português, nos Estados Unidos da América e do Brasil. Os escritores açorianos (e não só) devem-lhe a generosa divulgação de centenas e centenas de livros que, de outra forma, nem se conheceria a sua existência.

Finaliza-se com a calendarização, também ela muito regular, de borderCrossing – leituras transatlânticas, a saber: livro 1 data de 2012; livro 2, 2014; livro 3, 2016; livro 4, finais de 2017.

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Publicado no “Açoriano Oriental Artes & Letras”, número 29, de 22 de Janeiro de 2018.

 

 

BorderCrossings: Leituras Transatlânticas

SANTOS NARCISO

Leituras Transatlânticas são o retrato de que há sempre fronteiras para atravessar e o único passaporte é o desejo de deixar conhecimento onde muitos conhecimentos não podem chegar. Escrevi isto há mais ou menos um ano. E hoje volto a repetir, depois de ler mais um volume – já o IV – do BorderCrossings, de Vamberto Freitas.

Como muito bem escrevem José Ernesto Resendes, Gerente da Nova Gráfica/Publiçor/Letras LAVAdas e José Andrade, até há pouco Director Editorial da Letras LAVAdas, Vamberto Freitas orgulha e prestigia, ainda mais, a carteira de autores desta chancela editorial. E não é para menos! Como já afirmei diversas vezes, Vamberto Freitas é um Apóstolo da Literatura. Sem fronteiras, no sentido literal, essencialmente quando se trata de Literatura Açoriana, Portuguesa e Americana, das duas costas dos Estados Unidos, passando pelo Canadá e indo até ao Brasil.

Mais ainda: ele afirma-se pela literatura e pela sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas ou espelhadas na prosa, poesia ou no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. E é neste “pela literatura e pela sociedade” que Vamberto Freitas afirma, com a frontalidade que se lhe conhece, a determinação da sua escrita e daquilo que espera das suas leituras: Se não há nada a dizer ou a representar, não haverá forma que salve qualquer escrito! Porque, esclarece, o experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica e suspeita.

Para quem lê as dezenas de ensaios, crónicas e recensões espalhadas pelas três centenas e meia de páginas deste BorderCrossings IV há algo que ultrapassa a vasta cultura literária, a capacidade de entender os outros e a sua escrita e o domínio dos assuntos que apresenta e comenta. Vamberto Freitas surpreende – ou, se calhar, não – pelo coração e pela dimensão afectiva com que escreve. E vou citar um só caso, que podia multiplicar por dezenas: A páginas 99 desta edição há um título assim – Quando lemos quem amamos!
Nem precisei de mais para perceber. E li aquelas quatro páginas, uma duas e três vezes. Porque ali está o Vamberto, eterno menino das Fontinhas, com todo o coração a falar para a sua Adelaide – Sei que sou a sua Memória. Se todo o livro é bom, este capítulo é sublime e vale mais do que toda esta magnífica obra, porque o tal Instante suspenso nos toca e nos transporta ao mundo de quem sabe estar no mundo. Por isso mesmo sinto e partilho a alegria de Vamberto Freitas quando anuncia que a primeira edição em inglês do Sorriso Por Dentro da Noite, de Adelaide Freitas, sai na Primavera nos EUA pela Universidade de Masssachusetts (Dartmouth) e pela Brown University. E faço minhas as palavras e razões de Álamo Oliveira: ela foi (é) uma brilhante escritora açoriana da Língua portuguesa; a mais sublime: ela foi (é) sempre um sorriso por dentro da vida”.

Voltando a estas Leituras Transatlânticas IV, curioso é referir a esquematização do livro dividido em três partes e uma coda, esta constituída por uma interessante conversa com Rui Dores e um ensaio sobre Intelectuais públicos no nosso tempo. Na primeira parte do livro tudo gira à volta das Ilhas na Diáspora e da Diáspora nas Ilhas, enquanto a segunda encerra diversos ensaios Do Nosso tempo e a na terceira parte, não menos fascinante, somos convidados a uma viagem a Outros Imaginários Americanos.

Muitos textos reunidos em mais este volume que foi apresentado, em Novembro, por Urbano Bettencourt e Carlos Bessa, no espaço de eleição de Vamberto Freitas, a Artes e Letras, Livraria Leya, foram publicados na coluna que o escritor mantém no Açoriano Oriental ou foram proferidos em encontros seminários e sessões culturais e académicas em que tem participado. Contrariamente aos que dizem e escrevem que este tipo de livros não têm muitos leitores, eu creio que acontece – ou devia acontecer – precisamente o contrário. Nem todos os que se interessam pela literatura, pelas questões literárias ou pela produção literária têm hipótese e possibilidade de estar nos muitos acontecimentos que neste sector cultural se desenrolam e muito menos têm ocasião de ler e seguir o que vai sendo editado. E muitas vezes, o academismo e elitismo com que as coisas são apresentadas criam como que uma redoma, onde os mesmos se olham e contemplam. Livros como estes borderCrossings que Vamberto vai apresentando são o sair dessa redoma e são um ar fresco da cultura posta ao serviço da sociedade. E o seu autor nem se deve preocupar muito com o facto de serem pouco ou muito vendidos. Aqui deve funcionar a lógica de que a mesa está posta e com suculentas refeições. O apetite maior ou menor, pertence a cada um! E uma coisa é certa: Vamberto Freitas tem o dom de fazer com que cada texto lido seja sempre aperitivo para a leitura seguinte. É um dom de quem é professor. E ele próprio admite isto. Ainda no passado dia 31 de Dezembro de 2017, numa grande entrevista concedida à jornalista Carla Dias, do jornal Correio dos Açores, o mesmo jornal onde durante cinco anos Vamberto Freitas produziu o inesquecível SAC – Suplemento Açoriano de Cultura e a sua coluna Mar Cavado que em 1998 daria um livro com o mesmo nome, com chancela da Salamandra, dizia ele que para se escrever em qualquer país parte-se especialmentede duas profissões: o jornalismo e o ensino. Ainda hoje, ver um artigo meu assinado num jornal local me traz mais satisfação do que num jornal nacional. Isso para mim é um estimulante constante de nunca parar.

E este “nunca parar” tem muito fundo, porque na vida de Vamberto Freitas, nas actuais circunstâncias derivadas da doença de Adelaide Freitas, escrever é um acto de solidão, como ele próprio reconhece na mesma entrevista: Um dia perguntaram-me porque é que leio tanto e escrevo tanto. Faço isso porque passo a maior parte da minha vida sozinho e na mesma casa onde as coisas aconteciam de outra maneira e eu quero que essas coisas continuem a acontecer, como uma homenagem a ela. Eu não tenho um único livro, talvez só o primeiro porque não a conhecia, que não seja dedicado a ela. Porque eu estou a escrever muitas vezes e penso o que diria a Adelaide deste parágrafo.

Também daqui, neste abraço, e nestas Leituras do Atlântico, o que posso dizer que é que quero que Vamberto continue, até porque, agora, tem responsabilidades acrescidas. Em Maio de 2017 foi distinguido pelo Congresso Americano pelo trabalho desenvolvido em prol da literatura norte-americana, imigrante e lusodescendente. No mesmo ano recebeu também o diploma de reconhecimento da cidade de Tulare o que confirma o mérito internacional do reconhecimento autonómico que já lhe havia sido prestado em 2015, pelos Açores. E, com o espírito que lhe é próprio, os galardões nunca serão para Vamberto Freitas, passaportes para a fama, que bem merece, mas estímulo para o trabalho com que nos vai continuar a brindar.

Parabéns, Vamberto! E foi de propósito que quis que este teu livro fosse a matéria da minha primeira página Leituras do Atlântico escrita já neste ano de 2018.

E vou repetir aqui o que já escrevi: BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras!

 

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Publicado no semanário “Atlântico Expresso” de 8 de Janeiro, 2018.