Do Holocausto e da nossa herança judaica

O pai desenvolvera uma teoria segundo a qual tudo o que acontece está interligado por finos filamentos de causa e efeito, que normalmente não conseguimos ver. Chamava-lhes os fios incandescentes, porque dizia que emitiam uma luz quente, pelo menos para os com visão mística suficiente para os verem.

Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco

Vamberto Freitas

     O novo romance de Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, o quinto livro do seu chamado ciclo Sefardita, aborda a (pouca) sorte dos judeus na Europa desde Lisboa no século XV à Polónia do século passado, e noutras imensas geografias até aos nossos dias em Nova Iorque. É uma obra prima, nada menos. A tradução de Daniela Carvalhal Garcia é tão competente que depressa esquecemos que foi originalmente escrito noutra língua. Raramente se vê esta capacidade literária entre nós, cada personagem uma descoberta do outro lado da nossa própria humanidade e desumanidade, a ironia, e mesmo o humor, dominam a narrativa. Por certo que o Holocausto judeu já mereceu centenas, ou milhares, de livros de todo o género, mas creio que ninguém como Richard Zimler ficcionou esta História tão sistematicamente, nem sequer os outros judeus americanos nos Estados Unidos, que a partir dos anos 30 praticamente revolucionaram toda a literatura do seu país, particularmente na forma de ensaio e ficção. Zimler tem outra distinção: detém a cidadania dupla americana e portuguesa, e foi a história e mítica judaica lusa que o apaixonou desde sempre a partir da publicação de O Último Cabalista de Lisboa. Tem ainda outra singularidade na publicação da sua escrita. Por vezes é a tradução portuguesa que é publicada primeiro, e só depois em inglês, recebendo de imediato recensões críticas em muitos dos melhores jornais do mundo, inclusive no seu país de nascença e adopção, na Grã-Bretanha e em todo o mundo de língua oficial inglesa, assim como no próprio Jerusalem Post. No centro de toda esta obra sefardita (Zimler tem outros romances com as mais variadas temáticas identitárias, por assim dizer) estão os descendentes da família Zarco, literalmente queimada na praça pública em Lisboa ou então exilada para os mais distantes países na Europa e nas Américas. Já li outros romances do autor, e sobre os quais escrevi, mas quanto aos quatro livros deste ciclo, este é o primeiro que leio. Não perdemos nada do fio à meada sem termos lido os primeiros volumes. Aliás, a encerrar Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco. o narrador inclui um documento fundador de todas estas histórias escritas pelo cabalista-mor lisboeta do século XV, de nome Berequias Zarco, referido de quando em quando nesta longa narrativa quando os personagens tentam entender a sua má sorte, particularmente durante a II Guerra Mundial e o poder nazi na sua tentativa de exterminação total de todo um povo, assim como de outras minorias dentro e fora da Alemanha.

Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco abre no ano de 2007, e vai oscilando no tempo até aos nossos dias, estando no centro a Polónia e o levantamento judeu no gueto de Varsóvia em 1944, que provocaria o resto da catástrofe total até ao fim da guerra a meados do ano seguinte. Cada capítulo é narrado pelos descendentes dos sobreviventes, que vivem assombrados por esse passado quase indizível em palavras. Ethan, nascido em Nova Iorque e agora professor e artista plástico em Boston, conta a história de Benni, seu pai já nos últimos anos da sua vida, recria ainda um dos mais fascinantes personagens da literatura contemporânea, de nome Shelly, primo do seu pai, bissexual mas vivendo a felicidade de um longo casamento com uma canadiana não-judia, depois de ter viajado e amado homens e mulheres desde os seus anos de refúgio em Argel, e o narrador reinventa, ostensivamente, dois cristãos polacos, um homem de nome Piotr que havia escondido o seu pai ainda menino, levando-o com pressa para casa de uma antiga professora sua de música, Ewa, cristã, que faz tudo para que os nazis ou os seus simpatizantes polacos nunca o levassem para um dos “campos da morte”. Eventualmente Benni e George, antigo amante de Shelly, vão à sua procura depois da guerra para levá-la para a América, já idosa, onde faleceu alguns anos depois. Que nenhum leitor se intimide com um grupo de protagonistas todos inter-relacionados, pois a prosa de Zimler é de uma clareza luzidia, levando-nos a virar página após página, cada uma com as maiores surpresas ou viragens na narrativa, como diriam os new critics (hoje fora de moda no mundo universitário) americanos acerca de qualquer grande romance. O título na versão original dá-nos precisamente essa ideia de linearidade: The Incandescent Threads, ou seja, os “os fios incandescentes” que iluminam estes mundos de vida, amor e morte. Zimler é formado em Religião Comparada pela Duke University, fez um mestrado em Jornalismo na Stanford University, e vive no Porto desde 1990, onde também deu aulas até se dedicar totalmente à escrita e ao diálogo imparável nas escolas e noutras instituições culturais. Creio que tudo isto faz dele o grande escritor que é. Nada ofusca, os seus passos metafóricos e simbolistas nunca nos deixam na dúvida, muito pelo contrário. Em passo após passo, o leitor quer ir lendo devagar para digerir toda esta riqueza de linguagens e imagens. Não se trata de um romance acusatório perante seja quem for. É a noção do amor e da redenção (aliás como se afirma na contracapa) dos seus seres inventados e de nós próprios que dominam toda a narrativa. Se a arte retrata frequentemente o pior de nós, também faz o contrário: reafirma o valor da vida e da luta. Algumas das cenas dos anos 60 neste livro envolve protestos activos desses sobreviventes contra a guerra no Vietname. Como que a dizer: nenhum povo merece a morte em nome seja do que for.

“Provavelmente para compensar o vazio – escreve Ethan, filho de Benni – dentro de mim – e que tinha a forma e o tamanho exato do meu pai –, em breve o meu trabalho começou a ficar mais habitado. Tudo o que sabia sobre ele e o seu passado entrou nos quadros e desenhos mitológicos – Glukl, a papagaia cor de esmeralda, a camisola de lã azul que Ewa tricotara para ele, os cigarros e o isqueiro, o Centro de Recrutamento Militar em Nova Iorque, as exigentes ereções de Shelly e as gravatas indianas de George, a fotografia de Louis Armstrong que era do avô Morrie, as tulipas que o pai e Shelly haviam plantado, as mantas de retalhos que a minha mãe recebera de presente de Belle, a sua fita métrica e a máquina de costura preferida, o tapete que Piotr o enrolara quando fugiram de Varsóvia… E os olhos dele – as noites sem luar em que eu iria viajar para sempre”.

Isto não é só prosa brilhante sobre a memória, a dor e a saudade. É sobretudo o relembrar de tragédia sem igual na modernidade, o relembrar dos que a sofreram em directo e na carne um dos maiores assassínios de toda a História, e depois a dor de filhos e de todos os que tiveram de reviver e reimaginar esses anos ainda bem recentes dos que passaram a uma realidade que nunca se tornou na normalidade após testemunhar a barbárie absoluta. Richard Zimler devolve-nos, uma vez mais, a redenção de um Portugal que tem nas suas páginas um passado bem cruel e desumano para com os seus filhos judeus. Mais do que uma vez neste romance, as vítimas dos nazis falam em procurar as suas famílias ancestrais no nosso país. Nos tempos de uma Europa nazi, e agora de novo em instantes de intolerância em vários outros Estados da suposta “União Europeia”, a temática do medo generalizado está de regresso. Assim mesmo, é de uma ternura sem igual na literatura perante tudo o que aqui é reinventado ou relatado. Este “ciclo sefardita” em quatro grandes romances merece mais do que críticas simpáticas ou acolhedoras, merece um outro tipo de reconhecimento que lhe é devido por este que é o país por ele livre e conscientemente adoptado.

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Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco (tradução de Daniela Carvalhal Garcia), Lisboa, Porto Editora, 2018. Publicado no “Açoriano Oriental” de 2 de Novembro, 2018.

 

 

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De Carlos Cordeiro e de nós

A metrópole tem certas generosidades consideráveis com as colónias. Assim, com os Açores – que não são uma colónia, mas que pela distância, pelo abandono, pela separação de interesses, têm toda a fisionomia colonial… Portugal para com os Açores é inesgotável – de desembargadores!

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre

Vamberto Freitas

I

     Num ensaio que escrevi para o livro História, Pensamento E Cultura: Estudos em Homenagem a Carlos Cordeiro falei essencialmente de como ele se tinha posicionado ao longo dos seus anos na Universidade dos Açores entre e perante a nossa geração de estudiosos e defensores da cultura e literatura açorianas, falei do seu trabalho incansável quer como ensaísta de grande fôlego e ainda participante nos mais variados encontros sobre estas questões. Deixou-nos um legado intelectual nesta área de estudos quase única na Universidade dos Açores. Com ele e o Urbano Bettencourt mantive sempre um diálogo aberto, nunca deixando que as nossas opções ideológicas impedissem um inabalável respeito mútuo, ainda ouço a sua voz forte a rir em momentos de humor e até auto-crítica.

A minha saudade dele tem muito a ver com o facto de ele ter sido uma das primeiras pessoas e colegas que me acolheu desde a minha participação nos já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, e depois do meu regresso definitivo aos Açores, agora na companhia da Adelaide. Lembro-me desses gestos do Carlos porque vivemos numa cultura de desconfiança quando alguém vem de fora, ou então optou por uma vida familiar fora do convencionalismo de pequenas sociedades como nossa. Sempre nos apoiou nesse começo de vida, convidando-nos para um jantar em sua casa e na presença de toda a sua família, visitava-nos no Pópulo quando o tempo lhe permitia, sempre disponível para a troca de informação e opiniões em volta das temáticas que aqui já referi. Foi ele a primeira pessoa que me mostrou boa parte da ilha aquando dos encontros da Maia, e sempre com aquela boa disposição e orgulho de quem amava a sua terra mas mantinha uma visão muito alargada em tudo que dissesse respeito a nós açorianos da diáspora americana e brasileira. Sinto muito a sua falta, uma espécie de desamparo com o seu desaparecimento físico, mas terei sempre os seus escritos como companhia e referência perpétua. Baixo a cabeça, e agradeço a todos os deuses esses anos de fulgurância intelectual, e sempre com a participação apaixonada da minha Adelaide. Considero essas memórias, primeiro das pessoas que foram e depois a sua obra, um dos maiores privilégios que nem todos têm a sorte de viver. Somos todos agora, os seus amigos e colegas, quem manterá sempre a sua presença nas nossas vidas, somos a consciência deles na sua rica passagem por este mundo. Obrigado, Carlos.

II

     Na sequência desta homenagem a um grande amigo e colega, gostaria de dizer – repetir – algo mais. O nosso aparente complexo de inferioridade ante o restante país é de todo injustificável, e vai contra os factos da nossa história ao longo de mais de cinco séculos. Não recuemos mais, só iremos ao fim do século XIX e a todo o século XX, ficando com o mundo da arte literária. Já imaginaram a literatura portuguesa sem os açorianos mais distintos entre nós? Antero de Quental era tão universal e português que escolheu a sua terra de nascença para morrer. Não vou falar do primeiro presidente da república ou de outros na política, do jornalismo e das artes em geral. Que o façam os nossos historiadores, e têm-no feito, mesmo que lidos ou notados a nível nacional só em certas circunstâncias. A verdade é que sem o contributo constante dos nossos melhores escritores (e faltarão aqui alguns) a literatura portuguesa seria muito menos do é que hoje. Só para mencionar uns poucos, que poderiam ter sido legítimos candidatos ao Nobel, se bem que as grandes letras de uma cultura e língua não dependem em nada de um prémio atribuído em Estocolmo. Falemos dos que ou já pertencem ao nosso cânone literário antes de essa confirmação de grandeza existir, ou de alguns mais novos que se identificam com a minha geração na escrita criativa ou na crítica literária pública. Só na nossa época Portugal conta com Vitorino Nemésio e Natália Correia, que poderiam ter sido legítimos candidatos ao Nobel. Alguns outros, vivos e mortos, que menciono só parcialmente para não provocar rancores, são também de um outro alcance artístico nas nossas letras. Podem incluir estes e outros autores e poetas nesta lista algo curta, de grandes escritores e poetas, com ou sem prémios de qualquer espécie, como um Roberto de Mesquita, João de Melo, José Martins Garcia, J. H. Santos Barros, Emanuel Félix, Pedro da Silveira, Borges Martins, Carlos Bessa, Garcia Monteiro, Eduíno de Jesus, Luiz Fagundes Duarte, Renata Botelho, Madalena Férin, Leonardo Sousa, Manuel Tomás, Daniel de Sá, João Pedro Porto, Joel Neto, Marcolino Candeias, Nuno Costa Santos, Victor Rui Dores, Ivo Machado, Norberto Ávila, Cristóvão de Aguiar, Urbano Bettencourt, Manuel Machado, Rui-Guilherme de Morais, Emanuel Jorge Botelho, Álamo Oliveira, Eduíno de Jesus, Dias de Melo, Fernando Aires, Vasco Pereira da Costa, Diniz Borges, Francisco Cota Fagundes, José Manuel Dias de Melo, José Francisco Costa, Paula de Sousa Lima, Madalena San- Bento, Adelaide Freitas, Ângela Almeida, Judite Jorge, Fátima Borges, Maria Luísa Soares, Leonor Sampaio da Silva e Gabriela Funk. Merecem, todos eles e elas, muito mais reconhecimento a nível nacional do que têm recebido para além de uns poucos mas dos mais prestigiados intelectuais e outros estudiosos da literatura do nosso país sem fronteiras. São estes apenas os que conheço em profundidade, e não vou aos grandes escritores antes deles. Se Lisboa não fosse o centro editorial e publicitário do nosso país, quase ditatorial nestas questões, muito haveria ainda a dizer do eixo supostamente “cultural” Lisboa-Coimbra, e felizmente agora o Porto. Os outros nunca existem e nunca existiram. Na diáspora temos alguns dos mais importantes pensadores da portugalidade expandida no mundo, como Onésimo Teotónio Almeida, mas também ele e outros parecem excluídos dos grandes prémios literários. Isso vai sempre para os que vivem no outro lado da rua ou do bairro genial à beira Tejo. É só aparecer numa página ou num ecrã as palavras “Açores”, “açorianos” ou “açorianidade” para levantar todo o tipo de suspeitas nessa outra margem da nossa nação. Somos demasiado “ilhéus” na nossa escrita. Eles, mesmo que não saibam disso, são demasiado “lisboetas” para alguns nós, quando deveríamos ser apenas e só portugueses.

Actualmente, alguma da mais sofisticada escrita entre nós aqui destes lados conta com todo o apoio da nossa Imprensa. Foi-nos sempre mais do que evidente que seríamos nós a tratar da nossa própria identidade no contexto do país, ou cairíamos num poço de ignorância pura, e sempre em preconceitos que resultam dessa mesma ignorância. Por lá, mandam-nos baixar a bola, a fasquia, porque os novos leitores de jornais supostamente pouco sabem de literatura. Não tenho tanta certeza disso, não assumo nada sobre o que eu e todos os outros na realidade não conhecem. Poderão essas novas gerações simplesmente já não se identificarem com as nossas linguagens, mas ninguém tem provas definitivas que não lêem, ou são mais indiferentes do que foram muitos de todas as gerações ao mundo das artes em geral.

III

     Toda a grande escrita universal parte de ume geografia específica, de uma cultura, de uma língua, de uma História própria, e ainda intensamente das diásporas de cultivam uma identidade própria e indelével, esses que não têm nem consideram fronteiras de qualquer espécie. Raramente em Portugal se sabe valorizar a nossa riqueza literária e cultural praticamente no mundo inteiro. Ao contrário desses outros “metropolitanos” lusos de que já falei, o nosso arquipélago desde há muito que criou estruturas próprias de debate e divulgação de como somos e vivemos, de como chegámos aqui e sobrevivemos há mais de quinhentos anos. Não pedimos desculpa a ninguém, nem aceito que a se justifiquem perante os outros. Quem não conhece é que está em falta, não nós. Se levantamos suspeitas, ceptícismo ou descrença quando nos encontram de quando em quando nas mais variadas páginas ditas “nacionais”, corrijam a sua estreiteza de visões ou entendimento.

Estamos “longe” e fora da vista, bem sei. Mas quem diz ou se quer “universal” nunca poderá ignorar o vizinho ao lado, muito menos os seus compatriotas e a sua luta pela dignidade num pequeno país que nunca soube apreciar a sua própria riqueza humana em toda a parte, e os seus contributos à vida criativa ou, uma vez mais, identitária. A literatura é isso, e só isso. O resto são pretensões que acabam por nos diminuir a todos. Sim, quando leio um escritor do continente, leio-me a mim próprio ou revejo-me nas suas personagens e temática. Tal como quando leio um “estrangeiro” de qualquer país ou língua. Só assim vemos como vivem ou pensam todos os outros, que somos nós em qualquer outra parte ou tradição.

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A primeira parte deste comentário foi publicada num suplemento do Correio dos Açores em homenagem a Carlos Cordeiro, Professor da Universidade dos Açores, e recentemente falecido. No Açoriano Oriental de 26 de Outubro, 2018.

 

De um outro existencialismo e de um mundo de sombras

     É simples: não há história sequencial. Cada novo texto revê o anterior. Cada noite a da véspera. Assim, tudo, para ele era borrão, excepto o último.

Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível

Vamberto Freitas

     Da vasta obra de Ernesto Rodrigues, que inclui ensaio, poesia e ficção, retenho com especial interesse os seus romances Passos Perdidos (2014) e Uma Bondade Perfeita (2016), este que viria a vencer o Prémio Pen Clube Português no ano seguinte. Acabo agora de ler a sua mais recente peça de ficção, Um Passado Imprevisível, cujo título já contém em si essa ironia de nunca nos conhecermos por completo, muito menos os outros e os relacionamentos mais marcantes das suas e nossas vidas. Há aqui uma tentação de considerar, pelo menos parcialmente, este livro um romance um tanto autobiográfico, mas seria um erro elementar de leitor, como diriam certos críticos americanos acerca de textos ou narrativas complexas. De facto, Ernesto Rodrigues, hoje professor na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa e director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, foi também leitor de Português na Universidade de Budapeste nos anos 1981-1986, os anos de chumbo daquele país que ainda nem suspeitava, (suponho) que todo o sistema sócio-político estava prestes a ruir em pouquíssimo tempo como resultado da queda da União Soviética. É também verdade que o autor – que viria a tornar-se o mais distinto tradutor no nosso país da melhor literatura húngara — deixou por lá laços de amor e família, muito do que nos levaria à tentação de o ler interligando realidade presente e passado num acto de ficção como este. Só que na obra de Ernesto Rodrigues existem estruturas narrativas que à primeira vista nos parecem desligadas, e a sua escrita torna-se um exercício complexo da imaginação pura, e em que o leitor vai desfrutando de frases lapidares que podem ou não significar os múltiplos sentidos de um tema que esconde em si não só o mundo dos outros mas mais ainda o estado interior do seu narrador, que, tal como nós na tentativa de interpretação, nunca sabe claramente o que aconteceu ou vai acontecendo no seu próprio mundo ou noção de existência entre os mais diferenciados seres humanos aqui inventados ou reinventados. Estamos dentro de um enigma que vai da vida académica e amorosa em Budapeste a Moçambique dos nossos dias em busca de uma mulher de nome Andrea. Este é um romance de poucas personagens centrais, mas os seus relacionamentos e as respectivas implicações para as várias representações aqui encenadas são algo complexas, deixando o leitor como que num jogo de xadrez e a olhar demoradamente cada peça e cada movimento.

Um Passado Imprevisível faz-me lembrar, de certo modo, o Finnegans Wake, de James Joyce, que levaria o grande crítico norte-americano Edmund Wilson, que introduziu nos anos 20 o modernismo europeu aos seus leitores enquanto olhava atentamente os seus colegas que no país ou residentes na Europa também respondiam a uma literatura que havia sido até então provinciana, ignorando quase tudo que se passava além-fronteiras. Wilson, falecido em 1972, leu e releu a ficção de Joyce, e não teve meias medidas: se era praticamente incompreensível, ele procedeu a uma interpretação muito original, quer coincidisse ou não com o que o autor irlandês teria em mente quando o escreveu. Faço o mesmo agora aqui. Um Passado Imprevisível tem um narrador que se identifica com um personagem principal de nome J. C. no seu regresso a Budapeste no presente depois de lá ter sido professor de Português na universidade principal do país. Vai à jubilação de um colega oriundo da Eslovénia, mas que será devidamente homenageado, e neste caso chamado simplesmente de “Z”, pois o seu nome é tão longo e complicado que tira do leitor o primeiro riso e perplexidade, e que nem me atrevo a escrever neste texto, depois de um alerta, ou de quem leu com atenção, que se tratava de todas as letras do alfabeto, numa brincadeira algo gratuita com o leitor, creio eu. De resto, será lembrar os anos passados e as mulheres da sua vida, ambas de nome Nídia, mãe e filha, que nos levam a tentar decifrar quem é o pai, se J. C. ou Z. Seja como for, o romance leva-nos mais ao ambiente internacional dos nossos dias na Europa, e termina, como já referi, em Moçambique aonde se encontra Andrea, uma outra possível amante, numa missão humanitária e que não espera um encontro com esse seu passado amoroso na Hungria. Pelo meio, acompanhamos a viagem num navio criminoso, que se dedica ao tráfico de tudo, inclusive de crianças. A violência durante essa viagem entre a Europa e África é extrema, e constitui uma outra visão do mundo actual, do mundo que permitimos no silêncio ou na nossa indiferença. Entre o passado dos anos 80 do século XX num país comunista retornamos à actualidade, testemunhamos o pior dos mundos. Resta ao indivíduo consciente reorientar-se e actuar dentro do perigo perante o que vê e vive. É o regresso ao tal existencialismo filosófico, que combina realidade e arte para denunciar os infernos que criamos, e ao mesmo tempo a possibilidade de apagar os fogos quando pode e onde pode. Este é um livro de prosa simbólica e poética, com frases tão contundentes e significantes que prendem nos seus leitores a força de irmos de página em página à procura de significações escondidas, dos mistérios ou segredos da vida de cada personagem.

“Ora, outros perigos irrompem nesta distracção. A pólvora da História deixa resíduos em qualquer um. Seja palavra, na tabuleta da loja, seja nome de rua, ou música descida de longe, que a rádio filtra, o peso da vida volta, velado em passado, que a mão esquerda dela, numa paragem brusca, entoa melhor, ao tocar-lhe no joelho, dois dedos, indicador e média, pormenor que lhe lembra outros dedos, talvez outro tempo, o que nem sempre coincide…”

Por fim, Um Passado Imprevisível dá continuidade a essa obra ficcional de Ernesto Rodrigues de que já falei anteriormente, um mundo de sombras ominosas ou meramente pessoais, e na qual o leitor encontra na sua prosa o caos e os relacionamentos misteriosos entre uns e outros, especialmente o que se chama na sociologia de significant others. Certa Europa permanece algures entre a civilização e o desastre, com as relações de cada um ou uma servindo como que de metáfora a todo o tipo de ameaça indefinida. A viagem para a África acontece, uma vez mais, num navio de loucos, e Moçambique como memória de um passado português pouco feliz, e agora dependente da ajuda e da criminalidade dos que pensam levar todos à salvação.

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Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível, Lisboa, Gradiva, 2018.

 

 

 

 

 

 

 

Em memória de Carlos Cordeiro

Vamberto Freitas

     Num ensaio que escrevi para o livro História, Pensamento E Cultura: Estudos em Homenagem a Carlos Cordeiro falei essencialmente de como ele se tinha posicionado ao longo dos seus anos na Universidade dos Açores entre e perante a nossa geração de estudiosos e defensores da cultura e literatura açorianas, falei do seu trabalho incansável quer como ensaísta de grande fôlego e ainda participante nos mais variados encontros sobre estas questões. Deixou-nos um legado intelectual nesta área de estudos quase única na Universidade dos Açores. Com ele e o Urbano Bettencourt mantive sempre um diálogo aberto, nunca deixando que as nossas opções ideológicas impedissem um inabalável respeito mútuo, ainda ouço a sua voz forte a rir em momentos de humor e até auto-crítica.

A minha saudade dele tem muito a ver com o facto de ele ter sido uma das primeiras pessoas e colegas que me acolheu desde a minha participação nos já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, e depois do meu regresso definitivo aos Açores, agora na companhia da Adelaide. Lembro-me desses gestos do Carlos porque vivemos numa cultura de desconfiança quando alguém vem de fora, ou então optou por uma vida familiar fora do convencionalismo de pequenas sociedades como nossa. Sempre nos apoiou nesse começo de vida, convidando-nos para um jantar em sua casa e na presença de toda a sua família, visitava-nos no Pópulo quando o tempo lhe permitia, sempre disponível para a troca de informação e opiniões em volta das temáticas que aqui já referi. Foi ele a primeira pessoa que me mostrou boa parte da ilha aquando dos encontros da Maia, e sempre com aquela boa disposição e orgulho de quem amava a sua terra mas mantinha uma visão muito alargada em tudo que dissesse respeito a nós açorianos da diáspora americana e brasileira. Sinto muito a sua falta, uma espécie de desamparo com o seu desaparecimento físico, mas terei sempre os seus escritos como companhia e referência perpétua. Baixo a cabeça, e agradeço a todos os deuses esses anos de fulgurância intelectual, e sempre com a participação apaixonada da minha Adelaide. Considero essas memórias, primeiro das pessoas que foram e depois a sua obra, um dos maiores privilégios que nem todos têm a sorte de viver. Somos todos agora, os seus amigos e colegas, quem manterá sempre a sua presença nas nossas vidas, somos a consciência deles na sua rica passagem por este mundo. Obrigado, Carlos.

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De um outro desassossego interior

   Refere ser complicada a sua vida… E, com essa afirmação, sentenciou-se. Limitando-se ao pensamento redutor e à quietude paralisante, não deixa que a aventura lhe toque…

Fernanda Mendes, Fios Tecidos Ao Vento

Vamberto Freitas

     Fernanda Mendes, psiquiatra, política e governante aposentada, publicou o seu primeiro livro em 2014, intitulado Sexualidade Redonda e Circular, que tive o prazer de apresentar publicamente num ambiente algo diferente para mim, precisamente no Hospital do Divino Espírito Santo, aqui em Ponta Delgada. O desafio que a autora então me lançou foi complexo: estivemos perante um público que combinava leitores vindos de todos os quadrantes da vida, mas também médicos e sexólogos híper-especializados vindos de outras sofisticadas paragens, como Allen Gomes. Também ela é uma conhecida sexóloga, e a sua prosa de então foi decididamente um acto de coragem numa terra habituada a literatura sisuda e quase toda de meras insinuações sexuais nas suas páginas. Em Sexualidade Redonda e Circular a linguagem era bem outra, integrava o desejo e prazer, ou a dor de cama numa tradição conservadora como a nossa e dominada ainda pela hipocrisia social e religiosa, uma cultura do silêncio que acha estranho falar-se publicamente nestas questões, que também já dominam quase obsessivamente, como se sabe, até o discurso político noutros países. Só que a surpresa para mim foi encontrar um grupo de leitores e pensadores que aceitaram abertamente esse desafio médico-intelectual lançado nessa singular obra entre nós.

Agora, neste seu Fios Tecidos Ao Vento temos uma escrita epigramática, mas retirando a parte que diz respeito à sátira ou a outras significações mais negativas, mesmo que em certas entradas essas linguagens prevaleçam, sem nunca a autora perder a sua inclinação poética e de generosidade perante a condição humana em que vivemos todos, e ela olha muito atentamente, ouve sem perder pitada dos que lhe comunicam ou ficam no silêncio. Estamos aqui noutro livro bem diferente. Parece um diário, mas não é. São os seus pensamentos e memórias que lhe comunicam situações e gente em tempos diferentes. Fernanda Mendes vai anotando não só o que ouve das mais diferenciadas experiências de vida, como ouve a daqueles que ela conhece ou com quem convive, registando sempre ou a solidão ou o desespero de cada encontro. Trata-se de uma narrativa em curtos parágrafos ou breves frases do que ela pensa sobre a sua própria vivência em tempos que são os nossos. Diz-nos de si e dos outros, sem nunca ninguém identificar. Uma escritora psiquiatra é sempre “perigosa”, mas no melhor sentido da palavra. Sobressai não aquela que “julga” ou “sentencia”, mas a de quem entende o coração humano nos seus dilemas e medos. A capacidade de amar, ou não, a liberdade ou prisão interior dos sujeitos que ela encontra na vida, uma mulher tanto dona do seu destino como observadora desses “prisioneiros” e das suas circunstâncias. As palavras que escreve a qualquer dia ou da noite carregam em si quase sempre a empatia solidária e um entendimento da alienação numa sociedade sem regras nem as referências institucionais reguladoras de outrora. Em qualquer das circunstâncias, há o seu humanismo e a tentativa de entrar na alma dos seus interlocutores, ou o dos que ela experiencia em pensamento, quer seja solidária, mas também por vezes castigadora sem os juízos de valor que geralmente o acompanham, ou de maldade a eles inerente. Como em certos escritores, é o estado de espírito, seu e dos outros, que definem a nossa sociedade e o que essa sociedade nos impõe, como seres humanos, como amantes, como conhecidos, como ocasionais faladores de si e da sua sorte. É, uma vez mais, o desassossego de estarmos vivos na infelicidade e na má sorte do nosso destino. Nesse processo, a autora vai-se definindo como vai definindo os outros. Não se trata de pessimismo ou de alegria ante a vida: trata-se, antes, da nossa existência num labirinto que frequentemente dificulta qualquer saída.

“Estranho sol – escreve Fernanda Mendes — que não queima, estranha dor que não mata, estranho momento que não morre ao vento, estranhas vozes que nascem do meu espanto… Tudo requer estranheza”.

Permitam-me abrir aqui um parêntese. Cada livro ou cada frase abre espaços e feridas pessoais que nunca poderemos esquecer, e nunca nos deixa ignorar o que nos dizem pessoalmente. Toda a prosa que lemos ou é pessoal, se torna pessoal, ou de nada vale, nem sequer a dos textos arrogantes de alguns grandes escritores, quer sejam a poesia ou prosa. Leio um texto como que se fosse sobre a minha própria vida, mas nisso não há nada de estranho ou novo. A autora trouxe-me ao mais profundo ser a minha vida pessoal na companhia da minha grande companheira, a Adelaide. Foi uma escritora, académica e política, e muito mais do que isso, muito mais significante, o meu grande amor. Não, não vou ser lamechas aqui, queria só apontar a verdade directa destas palavras da Fernanda Mendes. Assisti durante quase 20 anos a uma doença na minha casa que mata a vida antes de matar o corpo. Não haverá nada de mais cruel. Ainda hoje essas “estranhas vozes” assombram-me nos meus dias e nas minhas noites. Nunca saber se me reconheces, ou estás comigo. Isto só para dizer do que nós, os vivos, fazemos todos os dias, sejam amigos ou só conhecidos. Estás comigo, ou estás comigo sem me ver ou reconhecer? Não me reconheces? Reconheço-te eu a ti, e isso basta porque o teu regresso não é possível. Um sorriso, um olhar terno ou mesmo indiferente, um beijo mole e olhos no infinito, deixava-me feliz. Os vivos não sabem disto. Sabem só os poucos seres humanos verdadeiramente conscientes da nossa sorte. Queria só dizer que se a psiquiatria ou uma escritora não encontra solução para os que vivem alienados e descontentes poderá ser uma tragédia, mas com a qual eu não ofereço a mínima simpatia ou empatia. Se não, em saúde e em vida normalizada te afundas, bom, temos outros e muito piores problemas a tratar ou a resolver. Sei que outros não vão gostar destas palavras. Paciência. Eu também recebi a mais forte lição da Adelaide, não ter medo ou aceitar a minha sorte futura. Uma depressão de outros ou a incapacidade de amar até se trata com comprimidos. Se isso não for possível é, para mim, um problema menor.

“Estranha forma de vida”, como no fado de Pedro Homem de Mello, cantado em som e voz arrepiantes pela Amália. Que Fernanda Mendes se tornou uma autora tão original entre nós não me surpreende. A autora tem vidas em várias geografias do nosso ser, desde uma pequena aldeia algures em Portugal continental ao Brasil, e depois a sua vivência aqui nos Açores. Só olhar simultaneamente o exterior e a nossa própria casa nos permitem certas perspectivas de vida a que não estávamos de todo habituados. Alguma escrita de gente que passou por aqui algum tempo e depois deixou um “testemunho” tem uma relevância muito relativa. Os que de “fora” vivem entre nós fazem parte da cultura e da vivência inteiramente açorianas. É deles e com eles que nos revemos. A autora de Sexualidade Redonda e Circular e de Fios Tecidos Ao Vento é, uma vez mais, do Continente, do Brasil e dos Açores. O seu e nosso círculo fica completo na sua escrita. Esqueçam os clichés do costume. De bruma e basalto eu, pelo menos, já estou farto. Nunca da nossa humanidade na melhor da literatura.

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Fernanda Mendes, Fios Tecidos Ao Vento, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2018.

 

Da nossa história e de outras distopias

De que servem, eu vos digo, as cóleras dos ventos e dos mares, as impassibilidades das calmarias, se os homens conseguem fazer tempestades mais tenebrosas dentro de uma casca de noz, buraco de Deus esquecido?

Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato

Vamberto Freitas

     Chego tardiamente ao grande romance de Ana Margarida de Carvalho, mas as grandes obras não têm prazo de validade ou de quando devem ser abordadas em termos críticos ou ensaísticos. Não se pode morar nos olhos de um gato, o seu segundo romance que venceu o Prémio APE depois De que Importa a Fúria do Mar. Vai aqui um pequeno passo que resume toda a sua temática e reinvenção do passado e presente. O romance é um misto de formas e técnicas narrativas. Estou a ler ficção ou poesia no seu melhor? Parece o poema “The Waste Land” de T.S. Eliot, agora no mar e em outras geografias, mas naturalmente muito mais elaborado e consequente adentro no contexto da nossa literatura, um outro olhar à história trágico-marítima, e não só a portuguesa. Tenho de confessar que este é a primeira obra de ficção que leio da autora. Não interessa assim tanto, ou como me diziam os meus mestres na Califórnia ligados ao New Criticism, que depois dos anos 40 e dos sulistas que o elaboraram para responderem aos nova-iorquinos e a todos os outros arrogantes da academia nacional. Muito pouco, pouquíssimo, viria depois na teoria da literatura. Cada texto, diziam eles, vale por si próprio, esqueçam a biografia do autor ou da autora, de nada vale, fixe a sua atenção no livro que lê. Tenho duas ou três mensagens a enviar aos que aqui nos Açores, Madeira e no Continente escrevem sobre livros, em forma de “crítica” ou de “ensaio”. Primeiro, a crítica judicativa é uma perda de tempo, é doloroso ler um livro de que não gostamos, e ainda mais doloroso escrever sobre essas mesmas páginas. Segundo, a inveja e os preconceitos são absolutamente anti-literários e de igual modo uma perda de tempo. Terceiro, julgar um autor ou autora pela sua biografia ou modo de ser entre tertúlias e outras situações informais é ainda pior. Um romance ou poema ou vale por si, ou não vale, e a vida é muito curta para gastarmos as nossas horas sem desfrutar do prazer do texto. De onde vem uma ideia para um grande romance não me interessa muito. Mas quando reconheço que vem da uma história pessoal reinventada ou ordem coleciva, reconheço logo a sua legitimidade e grandeza. Foi o que me aconteceu com esta peça ficcional: grandiosa, numa linguagem límpida sem nunca deixar de utilizar a metáfora e o símbolo como significantes de um acto literário original, dando continuidade ao melhor da literatura ocidental da nossa época. Ana Margarida de Carvalho não só consegue esse feito, como o leva um pouco mais longe. Não temos aqui apenas mais uma versão da história trágico-marítima lusitana, como temos fatias-de-vida da nossa maior tragédia expansionista, que desde há muito dá também pelo nome de Brasil, que continuou até aos fins do século XIX, quando aquele país já era independente e república, mas a presença de portugueses ainda se fazia sentir, e nos mais negros termos da nossa existência comum. Leio e admiro muitos dos críticos e ensaístas portugueses, do mesmo modo que cultivo um desprezo mais ou menos cómico pelas palavras de outros – fazem comentários sem ler os livros, a não ser descrições da contracapa, escrevem muitas vezes um chorrilho de asneiras não sobre o livro, que não leram, mas pelo ódio ou antipatia que têm pelos seus autores. A ética entre eles não existe, muito menos a seriedade literária.

Não se pode morar nos olhos de gato, ou seja, na indiferença ou calculismo oportunista de certas criaturas sem alma nem sequer maldade calculada. Cada homem e mulher tem de enfrentar o seu passado, e ainda mais o seu presente, que neste romance é simultaneamente de uma crueldade atroz, ou então um destino que não vem só ao acaso, mas sim de um passado que leva à “sorte” de cada personagem. Estamos aqui num barco negreiro, mesmo após a abolição da escravatura, que sai de Salvador da Baía rumo ao Rido de Janeiro mas depressa fica parado numa calmaria extrema, enquanto lá dentro se começam a agredir uns aos outros pelo medo e pela falta de tudo, em busca de bodes expiatórios, com uma santa de pau, Nossa Senhora das Angústias, que fica pousada na proa do navio a olhar o mar, também indiferente aos seres que a rodeiam. Temos nestas páginas uma amostra da miséria humana da época, desde escravos ilegalmente transportadas ainda para venda a “criados” mais ou menos já libertos, à esposa do proprietário da frota desses barcos (em fuga na companhia de uma filha) que é o próprio marido. Após o naufrágio do navio são estes poucos que escapam numa barcaça improvisada, levando ainda consigo, entre outros ainda mais pobres mas de coração nobre, um padre oriundo de família das serranias no norte de Portugal, e que havia sido criado no esterco de uma gruta de pedra algures numa pequena vila. Cada leitor que descubra os seus nomes e o modo como sobrevivem algumas semanas numa faixa de areia entre as escarpas da rocha e o mar, cujos alimentos se reduzem a algum peixe e mariscos que conseguem captar, com uma poça de água doce que a maré cheia consegue tornar inútil com a regularidade com que a natureza ora nos dá vida ora nos ameaça com a morte. É nessa pequena “comunidade” que vemos o coração humano na sua mais acentuada bondade e maldade, metáfora perfeita da sociedade de onde provém este grupo, que poderíamos ser todos nós numa determinada época histórica, ou então em qualquer período das nossas vidas em circunstância extremas na luta pela sobrevivência. Só existe aqui o presente, as horas que passam, ou a noite a destruir o dia e o dia a destruir a noite, como em certa canção americana. A possibilidade do canibalismo anda sempre a rondar naquele pedaço de areia, mas em vez disso comem um cavalo que já havia sido mutilado nos porões do navio e de repente dá à praia dos refugiados. Tem sido raro a criação de distopias na nossa literatura moderna, mas este é um livro único tanto na sua visão da História como no modo como poetiza o melhor e o pior da nossa (des)humanidade. Todos os grandes escritores recebem influências de várias línguas e obras, e este é um romance absolutamente faulknariano: cria-se uma situação de provação extrema, e de seguida vêmo-la através dos olhos, pensamentos e relatos na voz que o narrador dá a cada um dos seus personagens. Com o leitor fica a dúvida e interrogações de vária espécie, e, uma vez mais, a finura e crueza das linguagens que tornam a narrativa num longo poema anti-épico, ou, como diria a falecida americana Rebecca Catz, que provavelmente sabia mais do que ninguém da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, um dos melhores livros anti-cruzada, o contraponto perfeito, digamos, a Camões e ao seu diálogo com os deuses em defesa dos portugueses.

     “Na cavidade da rocha, — escreve o narrador já no fim e com uma certa salvação à vista para todos – concha da arriba, altar de santa amputada, já não havia uma correnteza de pedras brança e pretas, mas um montículo em equilíbrio instável, ameaçando derrocada. Muitas mais pedras negras do que brancas. Ultimamente, Marcolino sentia Teresa distante. Uma sucessão de dias maus, a que ele perdera, havia muito, a conta. Tinha esta sensação, mas podia estar equivocado, podia ser da doença, da febre, da fome. Essa, sim, uma pedra negra a crescer no estômago, tão pesada, retumbava, convocava todos os demónios para a praia. E lembranças mal soterradas, vindas ao de cima, ao mínimo deslizamento de terra, ou a erosão do mar bastava, sempre que uma onda embatia, alguma coisa bulia dentro deles…”

Não se pode morar nos olhos de um gato, repita-se, junta um pequeno grupo náufragos nesse exíguo espaço entre a terra e o mar, todos os avisos vindos de um céu tropical que tanto queima como poderá ameaçar com as maiores tempestades e tudo engolir. Creio que este é um romance mais afirmativo da vida do que da morte, apesar da tragédia marítima que lhe dá origem. Entre as noções do Bem e o Mal, um dos mais antigos temas de toda a grande literatura, ficamos nós numa prova constante de desafio aos deuses, a vontade de viver em luta perpétua contra a possibilidade real do fim definitivo. Estes são personagens também tornados símbolos de nós todos. Estamos em zonas cinzentas das nossas almas, somos anjos tal como somos demónios. Como se repete neste romance constantemente, tornando-se num leitmotiv: “Os deuses não dormem, nós é que os sonhamos”.

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Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato, Lisboa Teorema/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 28 de Setembro de 2018.

 

 

Os Açores vistos da Califórnia por Diana Marcum

Li uma vez um estudo que distinguia quais os factores que nos trariam felicidade. Depois das questões de saúde e necessidades básicas, os investigadores acharam que não era dinheiro ou sucesso ou educação. Eles resumiram tudo a duas questões: um sentido de gratidão e dormidas tranquilas.

Diana Marcum, The Tenth Island

Vamberto Freitas

     Cada livro terá muitas leituras. Pode ser que a “informação” que este nos traga não seja nada de novo. Mas um “olhar” diferente também será sempre a originalidade das suas páginas. Quando não dizem o que esperamos ou sabemos, esse “olhar” nunca deixará de ser original, e tanto melhor. Afinal, toda a literatura é uma repetição do que sabemos desde os primórdios. Resta só ver o modo diferente como se olha um povo, uma comunidade, uma nação. Em quase toda a escrita sobre os Açores por escritores que estão fora, noto uma atitude algo estranha. A primeira geração de imigrantes acha que sabe tudo sobre as ilhas de origem. Depois, desconfiam dos da segunda ou demais gerações que escrevem já inglês. Há aqui, parece-me, um certo equívoco qualquer, pois a “realidade” terá sempre as mais diferentes interpretações. A visão dos que nunca cá viveram vem de outras fontes: memórias da família que lhes são passadas em conversa de cozinha, que lhes vêem de cartas, das fotos, e da pura imaginação. Isso não significa só a criatividade da imaginação desses escritores e poetas, significa a grandeza da geografia ancestral, ou uma descoberta ao acaso. Nunca vi um comentário igual sobre as asneiras e racismo puro de um Mark Twain em Innocents abroad dessas mesmas vozes, que chamou os faialenses de “porcos”. Esses escreveram sobre as nossas ilhas com certa hostilidade, e procuram logo o pior por falta de conhecimento. Vem tudo isto a respeito do recente livro de Diana Marcum, The Tenth Island, que aborda de modo racional e em prosa brilhante as nossas comunidades na Vale de São Joaquim, devido à seca que tem fustigado aquele estado norte-americano nestes últimos anos, essa vastíssima terra no interior central da Califórnia, e que de seguida lhe provoca duas visitas prolongadas aos Açores, principalmente à Ilha Terceira, e por uns dias a São Jorge na companhia de um velho companheiro americano. Escrevia ela então no Fresno Bee, e logo depois passou ao grande e referencial Los Angeles Times. Venceu o Pulitzer Prize por essas reportagens, e nunca mais a deixou sossegada até não conhecer em directo as ilhas distantes e misteriosas do nosso arquipélago. Poderá não me ter trazido nada de novo sobre a nossa vivência a meio mar, mas trouxe algo de mais precioso e relevante: o seu olhar exterior, o modo como nos viu, viveu e percebeu a nossa terra. Em poucos meses, Diana Marcum não foi apenas uma turista e escritora. Antes, tornou-se parte de nós. Vivendo na Serreta e arredores, nem sequer deixou de ir a lançamentos de livros, como foi o caso de Da Vida no Campo, de Joel Neto, em 2014, assim como tem conversas profundas com o grande artista terceirense Luís Gil Bettencourt sobre a natureza do amor, da arte e de outras questões humanas. Faz amizade com um bombeiro local, que lhe guia na ilha e lhe diz o que deve ver e absorver. Faz amizade com vizinhos, viaja pela ilha, tenta um sentido de pertença de quem havia chegado e faz destas ilhas como que uma segunda pátria. Raro, muito raro, nos nossos tempos. Não falo de estrangeiros entre nós há anos. Referi-mo a uma grande escritora que não deixa passar em branco os seus dias felizes numas ilhas até então desconhecidas para si, que no século XIX eram mero objecto de oportunismo, negócios de laranja ou responsabilidades diplomáticas. Esses construíram palácios, jardins, tomavam conta de cabos submarinos, e tinham escolas privilegiados para os seus filhos alemães, britânicos e americanos? Sim. Mas livros como este de puro afecto e descoberta, canto a canto, no nosso século, só este livro vem de surpresa e sem outros motivos para além da gentiliza das gentes, do cheiro e forma da natureza e da amizade pura.

A história começa de modo quase surrealista. Estava ela sentada na sua secretária de trabalho no Fresno Bee e aparece-lhe pela frente um dos fotógrafos do jornal, que lhe estende uma fotografia de um agricultor, que suponho ser da área de Tulare, a lavrar a terra nos anos da seca com uma espécie de arado de discos rolantes puxado por dois bois. Pergunta-lhe o dito fotógrafo: achas que há aqui uma história? Ela olhou e decidiu logo que sim. Foi à procura do dito cultivador da terra, e conseguiu encetar um diálogo com ele. A partir desse momento ficaram amigos ou pelo menos de confiança mútua. No seu trabalho de repórter ou escritora acaba por encetar uma incursão na nossa comunidade agrícola luso-americana, e começa a ser convidada para festas particulares em casa de um ou outro, ou para as festas comunitárias da nossa gente naqueles lados. Diana Carmum faz aqui uma confissão pouco habitual, diz que nem sabe da sua própria ancestralidade, pois os dois pais faleceram bem novos. A sua admiração pelas nossas comunidades toma tais proporções que ela decide ir conhecer as origens de tão forte gente, e vem aos Açores pela primeira vez. A sua paixão nunca mais a deixou, e cerca de sete anos depois, já a partir do ano 2014, resolve voltar, desta vez por um tempo prolongado. Compra um carro e viaja pela ilha toda, fazendo amizades, conversando com todos à sua volta, com o seu olhar sempre atento ao que nós por cá não vemos ou não queremos ver. Muitos da nossa primeira geração deveriam ter isto em mente – chegamos cá com ideias feitas, ou os referenciais da infância ou da adolescência nunca nos deixou ir além dessas nossas memórias. O visitante geralmente ocasional topa o que nunca topamos. Não percebemos o que os outros encontram pela primeira vez. Nem vizinhos, nem amigos, nem sequer lugares que antes nunca tinham sido vistos ou pensados. É isso mesmo que o estranho em terra estranha é capaz de olhar e ver, de nos dar outra interpretação ou de nos colocar universalmente entre todos os outros. Há quee diga quem emigra nunca, “sai” de cá. Isso é falso. Sai de cá, mas depois só se reencontra no regresso. O mistério da chamada “pertença” é muito mistificado, ou mitificado. Só os de fora nos completam. Seja na nossa maneira de ser, seja nos pormenorizados recantos das nossas origens. Há um complexo, repito, de que sofremos todos – sem os outros nunca saberemos quem somos. The Tenth Island é um misto de memórias e de ficção (a autora confessa que nunca consulta as suas notas e reinventa diálogos), tudo numa prosa escorreita, directa, como se de um relato jornalístico do chamado “human interest” se tratasse. Já ouvi algumas críticas a esta escrita, mas para mim é precisamente aonde reside a sua eloquência e prazer da leitura.

“Só estar aqui, tranquila, — escreve Diana Marcum num dado passo acerca da sua estadia na Ilha Terceira e recordando a sua Califórnia – fez-me dar conta que tinha passado a vida a manobrar entre as coisas-tal-como-elas-são, aceitando que a violência seria sempre uma possibilidade, nunca consciente de que existem outros lugares onde não nos sentimos assim. Por certo, o meu pai já me tinha dito isto: Os outros poderão ter outras maneiras de fazer as coisas no outro lado do rio”.

Tenho de referir aqui que Diana Marcum tem um grande amigo açoriano há muitos anos residente na Califórnia, e que no decurso das suas intenções e andanças atlânticas a foi guiando e sugerindo tanto a escolha de casas na ilha, como as idiossincrasias do seu povo. Elmano Costa é Professor de Educação na California State University, Stanislaus, na cidade de Turlock, uma das nossas mais conhecidas comunidades imigrantes naquele estado. De palavra em palavra, de frase em frase, a autora foi-se adaptando ao meio, desde Angra do Heroísmo à Praia da Vitória e a todas as freguesias que ficam pelo meio. Uma vez mais, poucos leitores encontrarão nestas páginas uma geografia desconhecida, e muito menos novidades culturais, sejam elas os já tradicionais festivais de verão ou as touradas-à-corda, que ela classifica como sendo algo de cómico e trágico. Uma leitura mais atenta trará o que de melhor nos oferece este livro, que tanto é literatura de viagens como um hino a uma outra terra só agora descoberta.

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Diana Marcum. The Tenth Island, New York, Little A. New York, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 7 de Agosto de 2018.

 

Da modernidade desfeita rumo à sua desconstrução

Se queria um livro para o futuro, que avisasse os homens dos perigos da desordem para o futuro, receava que a projecção para dali a quarenta anos se transformasse num aviso extemporâneo, receava que se não visasse uma data anterior, aí talvez já não houvesse Terra nem homens, tal como a conhecemos e somos…

Lídia Jorge, Estuário

Vamberto Freitas

     Uma das frases mais certeiras que vem na capa deste novo romance de Lídia Jorge, Estuário, descreve perfeitamente toda a sua obra: “…Lídia Jorge dá rosto à modernidade para dela desocultar os seus efeitos escondidos”. Creio que poucos dos seus leitores e mesmo críticos poderiam em tão poucas palavras sintetizar a sua temática persistente desde O Dia dos Prodígios até à obra presente e destes nossos tempos mais do que atribulados, de transição histórica rumo aos temerosos e desconcertantes acontecimentos vividos praticamente no mundo inteiro. O mais básico na leitura de um grande romance é nunca procurar respostas e muito menos explicações para a condição humana vivida em qualquer época, fica-se por nos apresentar outras vidas com toda a sua estranheza, as que nunca deixam de ser nossas também, para além do lugar que ocupamos numa determinada sociedade e tempo, o estado social ou financeiro dos seus personagens quase sempre uma questão secundária. Os escritores das nossas preferências, desde o realismo do século XIX até ao ultrapassado pós-modernismo do nosso presente, levaram-nos constantemente ao interiorismo tanto de aristocratas e outros da classe dominante em diversos sistemas como nos levaram à alma dos mais pobres ou deserdados. O privado torna-se o público, ou vice-versa. Estuário tem como referência principal uma Casa Grande do Largo Do Corpo Santo no Porto, e na qual vivem três gerações de uma família de bem, que tem como patriarca Manuel Galeano, rodeado de filhos e filhas, cada um e cada uma enfrentando a infelicidade do seu lugar dentro e fora de casa. Família próspera de armadores em decadência que parece sem retorno, o símbolo maior deste romance são os seus dois navios, Horizonte e Batalha, os que restam de uma frota maior, agora ancorados num país africano à espera do impossível, convertidos para transportarem água para outros pontos do mundo onde o deserto nega a vida e mesmo a sobrevivência. Num Portugal do século XXI, África continua uma espécie de refúgio e esperança para um povo que lá foi derrotado ainda há poucas décadas, mas não deixa de olhar aquele continente banhado em sangue e raiva de ser a sua velha esperança de salvação, ou algo mais. De todos os personagens e protagonistas deste romance, é Edmundo Galeano que sobressai por diversas razões, cada clã decadente tem a sua luz. Tinha saído da faculdade e retirou-se logo para auxiliar num campo de refugiados, Dadaab, a cuidado da CARE no Quénia, onde perdeu três dedos da mão direita, regressando com a intenção de escrever um livro futurista que avisasse a breve chegada de um futuro sem futuro, de um mundo que caminhava a passos largos para a autodestruição ou esquecia um tempo de grandiosidade. Emanuel Galeano, como explica a autora numa espécie de posfácio, tinha a Ode Marítima de Fernando Pessoa como ponto de partida ou influência angustiada, como também diria Harold Bloom. A única vez que a “nova” Europa é mencionada vem como queixa dos seus regulamentos e limitações castradoras. África aparece-nos ao longe. Temos aqui um Portugal supostamente regenerado mas perdido no que diz respeito à União Europeia e talvez ao resto do mundo.

Inevitavelmente, no país que é o nosso e nele cabe todos os mundos, desde o mais primitivo ao mais moderno, uma grande família vive os seus últimos dramas por entre a comédia e tragédia, com desentendimentos, desejos de vida que vão desde quem tem por única missão escrever um livro ou de saber quem é o verdadeiro pai do seu filho, por entre cenas de carinho, má cara, desconfiança e alienação psiquiátrica. Estamos aqui num velho e novo Portugal, e no qual a noção de pertença reduz-se agora à salvação de cada um, todos na sua infelicidade muito privada, com os mais antigos sem já nada entenderem ou com que se identificar, a não ser com memórias de todo irrelevantes para os dias presentes. O título do romance, Estuário, é também um símbolo e uma metáfora – as águas doces de um rio romântico chegam inevitavelmente ao mar maior, onde nada e ninguém representa seja o que for, onde o perigo de afundamento espreita em cada onda, como os barcos meio encalhados num país distante e sem qualquer noção nos que nele atracam, do que pretendem ou para onde irão eventualmente se não morrerem nas costas do continente da nossa maior infelicidade e desejo perpétuo. Batalha e Horizonte, uma vez mais, é o resumo perfeito da história de toda uma nação. Lídia Jorge tem tido sempre o passado e presente de Portugal como os seus temas principais. A grande literatura, de qualquer país ou língua, tem uma geografia reconhecida, mas o coração humano, as obsessões e delírios de cada um dos seus personagens nunca têm um momento de paz, ou sequer serenidade no seu desejo de partidas e chegadas. Uma Casa Grande não representa aqui estabilidade ou felicidade, antes representa a vontadde de fuga para todos, menos para os velhos ou já sem vida activa. Não há aqui rejeição do que já foi, há o desejo do que poderia ter sido ou o desgosto do falhanço, seja em termos profissionais e de paixão por um outro. Sílvio, um dos filhos distantes de Manuel Galeano, é um advogado que já nem consegue ler ou decidir sobre os casos que deve resolver no seu escritório. Charlote disputa a paternidade do seu filho entre um amante e outro. Estão, todos eles, no cruzamento de uma sociedade e mundo que já ninguém entende, ou entende como se fora o mistério de um universo que arde e queima, estremece e abate tudo em sua volta. Entretanto, não julguem este um romance de pessimismo ou negação da vida, muito pelo contrário. Perante tudo e todos à sua volta, cada um procura o seu lugar num mundo de Nada e de Ninguém. Não é a sociedade que se salva, são os que nela perduram ou, como diria William Faulkner que percebia dos caídos e derrotados, “perseveram” ante as mais atrozes realidades.

“Mas agora, naquela noite chuvosa que havia viajado até ao coração da história da gente concreta e humilde – pensava Edmundo Galeano para o seu livro sobre tudo isto – que vivia em redor da casa do Largo do Corpo Santo, Edmundo Galeano tinha os olhos repletos das suas vidas, e por mais que quisesse amar figuras colectivas, longínquas e abstractas, voando sobre a Terra desfeita para recriarem uma nova pátria, os rostos que lhe eram familiares surgiam na sua frente e ocupavam por inteiro o cenário da terceira parte. Do apocalipse da segunda, ele via apenas aqueles que no seu livro, se o escrevesse, seriam sobreviventes. Caminhando ao longo do passeio desfeito aqui e ali pela enxurrada, o espaço liberto de gente, e as brancas embarcações imóveis, amalhadas nos cais, Edmundo confundia no seu livro os regeneradores com os salvados, e via claramente quem haveria de sobreviver. Na terceira parte do seu livro, salvam-se aqueles que lhe tinham passado por perto, independentemente do bem e do mal, da comédia e da tragédia que haviam interpretado”.

Ignoremos aqui a pseudo-terminologia da crítica ou do ensaísmo literário, como meta-ficção, que a minha geração teve de engolir nas faculdades nos anos 60-70, numa tentativa de tornar a interpretação literária num acto supostamente “científico”. Como diria muito acertadamente José Saramago, o autor é o narrador, em cada personagem, para além das suas ambíguas qualidades humanas, estamos todos nós. O romance que Edmundo Galeano, invenção fictícia, pensa querer escrever, mas não o faz, é o grande romance que Lídia Jorge escreveu. Toda a sua obra literária é uma sequência do nosso ser e viver, em termos temáticos e estilísticos. A grandeza de uma literatura é feita deste modo.

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Lídia Jorge, Estuário, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental de 24 de Agosto, 2018-

Luís Costa Ribas: Um jornalista português nos Estados Unidos

Assim são os Estados Unidos. O quartel general-general da humanidade, com pessoas de todas as opiniões políticas, todas as religiões, todas as etnias, com vastos exemplos ao longo da sua história e do melhor e do pior que existe no ser humano, do mais sublime ao mais nojento.

Luís Costa Ribas, Uma Vida em Directo

Vamberto Freitas

     Ironicamente, este passo que cito em epígrafe vem por outras palavras diferentes num livro de Edmund Wilson sobre a tomada do poder soviético de Vladimir Lenine nos primeiros anos da revolução em Moscovo (The headquarters of humanity), quando ainda o eminente crítico norte-americano se identificava com o marxismo em prática, e via na “nova” sociedade” uma solução para uma humanidade oprimida e explorada em quase todo o mundo, inclusive no seu. Só que Wilson não falava “no mais sublime ao mais nojento”, simplesmente acreditava na revolução que supostamente libertaria a humanidade de milénios de injúrias e violências de toda a espécie. Claro que Luís Costa Ribas não alude a nada que se pareça e muito menos acredita no que simplesmente descrevia o crítico americano sobre uma outra época bem distante, e que acabaria derrotada em todos os sentidos. Uma Vida em Directo: 38 anos de Aventuras da Casa Branca a Timor-Leste, o seu primeiro livro, é outro e bem diferente, um misto de memórias pessoais e profissionais, e que nos dá conta de como um jornalista que começa humildemente em Lisboa em semanários como o Tempo e a Rádio Renascença (na sua fase bem conservadora e controlada) acaba em Washington em 1984 na Voz da América, para depois se tornar um dos mais acreditáveis correspondentes de vários órgãos de informação em Lisboa, desde a TSF, Público e SIC (entre outros meios de comunicação), numa convivência pouco comum no que ele chama “a mesa redonda” na capital norte americana, em que interagem políticos ao mais alto nível, desde o Congresso até à Casa Branca, jornalistas e agentes lobistas de todo o poder económico-financeiro daquele país. Só comecei a ouvir e a ver na rádio e televisão o Luís Costa Ribas a partir de 1991, quando regressei para sempre ao nosso país. De imediato, reconheci que estava perante um repórter credível e muito bem informado e formado sobre tudo o que passava nesse meu outro país: continuava eu a ler e a ouvir noticiários americanos, e sabia e reconhecia muito bem a sua presença, e ainda muito mais a sua informação que outros ignoravam ou faziam por esquecer. Havia uma diferença muito significativa: ele nunca se deixava ficar pela fala oficial dos poderosos, e dava-nos constantemente uma outra perspectiva do que acontecia, do que se dizia ou pretendia dizer, contornava o que hoje se chama, na linguagem de um Donald Trump, de fake news. Ido de um pequeno país como o nosso, conseguia e consegue sempre contornar os serviços de supostas relações púbicas que nos tentam convencer que o dia é noite e a noite o dia. Vivi na América 27 anos, em Orange County e na Grande Los Angeles, mas não conheço uma ínfima parte do que ele conhece, desde a natureza do Poder no país aos maquinismos de decisões que tanto podem tornar o nosso mundo num espaço de paz como de guerra mundiais. Muito viajou ele dentro e fora da capital americana, muito descobriu ele desde a Ásia, Africa, América Latina e Caraíbas. Testemunhou guerras fratricidas, viu fomes devastadoras e outos sofrimentos extremos, cidades inteiras caídas pela força das armas ou pela força da Natureza, ouviu mentiras e todo o tipo de chicana política nesses palcos internacionais sempre em disputa. Raros, muito raros, são os livros narrativos de correspondentes de grandes jornalistas portugueses no estrangeiro.

Tenho de abrir aqui um parênteses, ideologicamente pouco agradável para alguns eventuais leitores, mas essencial na minha leitura deste livro de Luís Costa Ribas. O outro único correspondente “estrangeiro” cujas memórias eu li ainda há pouco tempo foi o As Minhas Aventuras No País Dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi, de José Milhazes. A verdade é que não só muito aprendi sobre um país e as suas várias culturas, que desconhecia e desconheço ainda hoje quase por completo (a não ser através de livros de vários géneros) como percebo entre este e o livro de Luís Costa Ribas ironias gritantes. Um está situado num país que era comunista até há poucos anos, o outro no que era então o seu adversário absoluto. Hoje, as semelhanças são quase gritantes: Milhazes, comunista quase toda a sua vida, abandona a Federação Russa por discordância com um líder que outrora fora dos serviços secretos da sociedade em que ele acreditou até a certa altura na sua carreira, e Luís Costa Ribas enfrenta um novo governo numa sociedade democrática cujos líderes politicamente maioritários baixam a cabeça a certo autoritarismo de outra espécie, fazendo lembrar o romance de Sinclair Lewis, ironicamente intitulado It Can’t Happen Here (traduzido recentemente no nosso país com o título de Isso não pode acontecer aqui, e também publicado pela D. Quixote/LeYa). Não vou repetir o que já escrevi sobre o livro de Milhazes, mas queria relembrar que Uma Vida em Directo termina com dúvidas inquietantes sobre o destino da mais antiga e até há pouco estável democracia do Ocidente, que se tornou uma fonte de nervosismo ou inquietação para Luís Costa Ribas e milhões de cidadãos. Resta-lhe, sem qualquer dúvida, a crença na força das instituições enraizadas dos Estados Unidos, mas o seu trabalho tem de avaliar constantemente o que é verdade e mentira, quem manda ou quem, em última instância, decide. Isto não difere muito de uma ditadura disfarçada, ou de um líder com saúde mental ou problemas psiquiátricos. Para um correspondente de meios de comunicação estrangeiros, mesmo que ele seja cidadão de nacionalidade dupla, com filhos inteiramente americanos (tal como eu), não deve ser fácil. Conheço muito bem o estatuto de se ser cidadão americano nascido noutro país, e a desconfiança que isso já provocava em anos muito mais amenos. Ri quando ele escreve que o confundem por vezes como sendo “árabe” ou “latino-americano”, dentro e fora dos Estados Unidos. Só espero que aguente como o grande jornalista que é, pois atrás de um tempo vem outro tempo. Para Portugal, tê-lo como correspondente no centro do Poder é demasiado importante. Nem que seja só para lembrar também aos próprios americanos onde fica o nosso país ou que somos um dos seus mais antigos aliados desde a sua independência. Os políticos lusodescendentes (até mesmo Devin Nunes, um dos maiores apoiantes de Trump) sabem disso, e sabemos nós. Quando o ouço na nossa televisão sei que estou a ouvir a verdade, ou a possível parte dela. Aguente o desafio.

“Os Estados Unidos – escreve o autor já em jeito de conclusão — são um desafio a definições simplistas. Na região de Boston vivem dezenas de cientistas portugueses, a maior concentração de génios lusitanos fora de terras lusas (ou até talvez dentro), que morrem de saudades do seu país, mas não são capazes de regressar a Portugal e lá trabalhar. Não conseguem conceber sair da terra das oportunidades. Como eles, senti-me e vivi dividido durante muito anos. Mas há uma potente força centrípeta americana que me fascina e impede de sair. Disse, há anos, ao site português Coração Luso que, se pudesse levar coisas portuguesas para os Estados Unidos, [levava] a nossa comida e a convivência com os amigos. Dos Estados Unidos para Portugal, [levava] a pontualidade e a eficácia”.

Li Uma Vida em Directo: 38 Anos De Aventuras Da Casa Branca A Timor-Leste (que vem prefaciado por António Ramalho Eanes e com um posfácio de Rogério Alves) poucos dias depois de ler Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho, neste caso uma obra de ficção que aborda a temática do papel desempenhado pelos vários meios de comunicação social, mas muito especialmente certas redes sociais e o “novo” jornalismo televisivo em Portugal. Tanto um como outro conhecem a fundo a dinâmica em curso de como a cativação de audiências leva ao sensacionalismo e frequentemente ao descarado atropelo da ética que deveria enformar a sua profissão, absolutamente indispensável a uma sociedade democrática, aberta, mais justa. Se a ficção tem o poder e a liberdade de tentar penetrar o interiorismo de cada personagem maior, de o colocar no contexto mais vasto que o rodeia ou que nasce da sua história pessoal ou familiar, um livro de memórias como este de Luís Costa Ribas tem de se cingir aos “factos” e variadas “interpretações” e ao que o jornalista vê e ouve em cada uma das suas missões. Leva o leitor não só às mais distantes geografias como o faz entender muito melhor os meandros do Poder nos seus mais dramáticos momentos, permite-nos entrar em bastidores que de outro modo a maioria de nós nunca conheceria e muito menos suspeitaria de como uma negociata, a qualquer nível, pode levar-nos a todos a uma guerra ou desfrutar por mais algum tempo o luxo da paz e de alguma prosperidade, a mesma que provoca raivas e as mais mortíferas violências, até já mesmo no chamado Ocidente. Isto, sim, faz parte do grande e melhor jornalismo e das melhoras narrativas.

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Luís Costa Ribas, Uma Vida em Directo: 38 Anos de Aventuras Da Casa Branca a Timor-Leste, Lisboa, Oficina do Livro/LeYa, 2018.  Publicado no Açoriano Oriental, 17 de Julho de 2018.

Dois grandes poetas em conversa

         Que ninguém lhes toque/se as não sabe amar/como os vivos amam, Violently.

                 Let no one touch them/if he does not know how to love/as the living love,Violently.

Pedro da Silveira e George Monteiro, “Palavras/Words”, Poems In Absentia

 

Vamberto Freitas

     Reler poemas de Pedro da Silveira pela mão de George Monteiro é como estarmos presente numa conversa íntima entre dois artistas sem que eles nunca dêem pela nossa presença ao lado. Disse-me um dia uma conhecida escritora luso-descendente que mesmo quando não nos lemos mutuamente a nossa escrita inevitavelmente se encontrará nas suas metáforas e imagens, pois ou olhamos a mesma “realidade” ou a memória da nossa ancestralidade é comum, o passado uma partilha indelével se bem que sempre subjectiva por parte de cada um que a viveu e recorda. É impossível olharmos o mesmo objecto, relembrar essa história ou esse passado comum sem pelo menos nos encontrarmos nalguns detalhes ou momentos mais marcantes e significantes. Permitam-me afirmar desde já que, para mim, George Monteiro é de longe o luso-americano de ancestralidade continental mais açoriano entre nós. Para além de ser o Professor Emérito do Departament for Portuguese and Brazilian Studies, da Brown University, a literatura açoriana nunca lhe foi alheia, a ela fez e faz constantes chamamentos, num gesto literário e intelectual que ele por certo considera parte indelével de toda a sua própria herança lusa no país americano. Ele próprio é um poeta de largos recursos formais e temáticas universalmente abrangentes, o seu The Coffee Exchange, com ilustrações de capa e interior pelo falecido artista açoriano Rogério Silva, noutras páginas uma homenagem ao poeta de todas as nossas identidades e angústias filosóficas, “Almada’s Pessoa”, tal como o seu próprio Double Weaver’s Knot é esse conjunto de imagens e metáforas poéticas em busca de respostas sobre o ser e o estar, de como se pertence a duplos mundos, a múltiplas lealdades emotivas, e muito mais. Tenho ainda de dizer aqui sem rodeios que George Monteiro é um dos meus mestres noutra área que tem ocupado boa parte da minha vida crítica – é ele o primeiro e mais consistente estudioso e ensaísta da literatura luso-descendente, é ele que nos abriu caminho em direcções que nos anos 70 ainda nos eram ou alheias, ou sem a certeza de que na academia e fora dela teríamos muito mais a dizer ou a considerar num contexto universitário que por toda a parte nos ignorava, ou fazia que não existíamos. Tudo isto, juntamente com o seu grande amigo e colega na mesma Brown University e no já mencionado centro de estudos que depressa estaria sempre sob a sua influência e trabalho incessante, eventualmente promovido a Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, agora abordando outras áreas lusófonas de geografias dispersas e internacionalmente reconhecidas e essenciais. Em 1980 apareceria o primeiro número sob a direcção editorial de Onésimo Teotónio Almeida, a revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, que incluía já um conto seu, “Criação”. A sua atenção sistemática às literaturas da nossa diáspora e mundo lusófono em geral, não só se intensificava, como a escrita açoriana, dentro e fora do arquipélago, passava a ser uma das suas fontes na procura, uma vez mais, da beleza da nossa arte literária e das múltiplas questões que rodeavam as nossas identidades de tronco comum em toda parte. No caso de Pedro da Silveira e de George Monteiro, pois, muito mais os une do que essa fatalidade de um passado ligado a esses mundos de afectos e memórias sem fronteiras, mesmo nos tempos de luta cerrada em várias frentes intercontinentais pelo reconhecimento de um Portugal literário multifacetado, mas que se desconhecia na sua existência a meio Atlântico, esse feito de ilhas rodeadas de mar – e de terra por todos os lados no continente a oeste da velha e auto-centrada Europa.

Se nestes poemas de Pedro da Silveira temos alguns dos que sempre pensei constituirem o seu mais famoso livro, A Ilha e o Mundo, sem dúvida que um deles, “Ilha/Island”, que o próprio George Monteiro traduziu e publicou na colectânea que reúne vários poetas açorianos e outros às ilhas ligados por diversas afinidades, The Sea Within, precisamente numa edição da chancela Gávea-Brown, em 1983, corroborando o que já disse nas palavras anteriores, quanto ao seu interesse pela literatura açoriana em geral. Serão talvez os cinco versos mais citados pela minha geração :

Só isto:

O céu fechado, uma ganhoa.

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,

Califórnias perdidas de abundância

*

Only this:

Closed sky, hovering heron. Open sea.

A distant boat’s hungering prow

eyeing forever those bountiful Californias.

 

Deve ser mera coincidência que um dos nossos maiores poetas de sempre nasceu e viveu por alguns anos na mais afastada ilha do arquipélago, a mais próxima da América, uma das mais limitadas nos seus recursos de sobrevivência materialista, e por isso mesmo a mais paradigmática, creio, da sorte histórica dos Açores. Se a poesia de Pedro da Silveira é um resume inigualável da melhor arte literária açoriana já no seu modernismo cosmopolita, nas suas formas mais ou menos livres, e ainda mais na sua temática que combina a condição existencialista e intimista do seu autor com a fúria simultaneamente de registo dos condicionalismos da nossa precariedade de vida e do consequente protesto, o seu andamento real e metafórico entre todas as fronteiras verdadeiras e imaginárias tornam-no a poderosa referência, talvez mesmo génese de tudo que se escreveria a seguir. A ironia da sua poesia é também a ironia do seu destino literário. Não tenho dúvidas que passará a ser melhor conhecido e lido entre os que agora têm a possibilidade de absorver a sua poesia em inglês do que no resto do nosso país, que dos Açores lembra pouca mais do que o anti-ciclone, e assim mesmo sem saber muito bem o que isso quer dizer em termos meteorológicos. Só que Pedro da Silveira não é apenas um poeta “açoriano” – representa como poucos uma cultura e sorte nacionais, que por acaso têm as suas ilha como imagem e metáfora de todo um país, que diz ser do mar ou para ele virado mas já esquecido da aventura e do que seriam a suas vivas e sentidas consequências.

     Poems in Absentia/Poemas Ausentes não é só um título de apartamento, ou de quem partiu e parte – é um resumo magnífico de tudo o que significa, de tudo quanto transmite a nossa mais profunda e inquieta condição. As traduções de George Monteiro não são apenas as de quem conhece profundamente as duas línguas e a história humana a elas associadas. Os certeiros significados, a sua beleza sonora e rítmica, as suas imagens ora exactas ora aproximadas são de quem também as viveu e vive, são as de quem mantém na memória familiar o horizonte no seu olhar fixo, a partir da terra ou do mar, como mistério e, sobretudo, como possibilidade de fuga. Para além do mais, George Monteiro conhece perfeitamente essa outra obsessão identitária da nossa poesia, o ter de explicar ao resto da nossa própria nação quem fomos e somos, onde e como vivemos. Ter sido um americano hifenizado, mesmo outrora nos tempos em que isso era como que esquecido ou propositadamente ignorado, trá-lo de novo, na sua língua natal, ao nosso íntimo encontro.

Não creio que haverá palavras em Poems in Absentia que melhor transmitam a relação entre um poeta e outro, entre Pedro da Silveira e George Monteiro, entre toda a polissemia de cada palavra e versos em duas línguas, o português de um e o inglês interpretativo de outro. “As Palavras/Words”, ou como dizem: “Que ninguém lhes toque/Let no one touch them”. Leiam-nas, recitem-nas. A partir delas, que abrem esta maravilhosa coletânea de traduções de alguma da nossa mais significante poesia, a viagem acabará sempre num outro regresso muito mais rico à Ítaca de nós todos.

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Pedro da Silveira, Poems In Absentia/Poemas Ausentes (tradução de George Monteiro) de um livro a sair brevemente nos EUA na Tagus Press da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, e da Universidade de Brown. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 3 de Agosto de 2018.