Vamberto Freitas — Literatura e culturas

Uma leitura que se faça deste IV volume de borderCrossings–leituras transatlânticas, um livro   tão heterogéneo ou tão diverso (para utilizar o termo de E. Glissant), tem de seleccionar algumas linhas de força e socorrer-se delas de modo a construir um quadro suficientemente abrangente do seu sentido (ou sentidos) e também da sua dinâmica interna.

É do conhecimento comum a proveniência dos textos reunidos neste volume: a página ou coluna de título homónimo que VF mantém semanalmente no Açoriano Oriental: uma página de crítica ou ensaio literário que constitui uma espécie de oásis e parêntesis num espaço público e comunicacional em que o literário se veio rarefazendo

Neste contexto, essa presença semanal (e ainda o suplemento mensal que VF e Álamo Oliveira fazem sair no mesmo jornal) constitui um acto de persistência ou de teimosia, daquela teimosia do poema nemesiano em que o fio de água continua a cair sobre a rocha, «na esperança de um cântaro desponte» e ela se torne útil. E isto abre caminho a um primeiro modo de ver este livro: em termos directos ou indirectos o que ele traduz é ainda a crença optimista no poder da literatura, a convicção de que ela pode desempenhar um papel social, um papel que se exerce sempre a nível individual num primeiro momento (enquanto escrita e objecto de leitura).

Mesmo sendo uma «contra-afirmação do mundo» (G. Steiner), ou talvez mesmo por sê-lo, a literatura tem a capacidade de interrogar o mundo e desvendar os seus labirintos mais secretos, que são primordialmente os do homem, as suas perplexidades, fantasmas e contradições, e de, no mesmo passo, levar-nos a aprofundar o conhecimento e os mecanismos da desumanização e da barbárie, mas também da generosidade e da entrega (e sem necessidade de se confundir tudo isto com a prescrição de um qualquer código de conduta estética para uso de filiados e devotos).

Essa atitude ou modo de abordar a literatura não é, no entanto, dissociável de uma presença textual em que se ancora e radica, ou seja, a figura de Edmund Wilson («o maior crítico americano», escreveu recentemente Pedro Mexia no Expresso). Em capítulo exclusivo sobre o crítico literário ou em simples referências avulsas ao longo do livro, aí fica registada a centralidade de E. Wilson na definição de um modo de entender a literatura nas suas relações com o seu tempo histórico e social e, simultaneamente, na descrição do que deva ser o discurso crítico no seu papel de mediador entre o texto e o leitor. Um breve excerto ajudará  a explicitar essa filiação no pensamento de E. Wilson: «Ter lido o seu póstumo Letters on Literature and Politics 1912-1972 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece.» (p. 346; sublinhados meus).

Ora, o que borderCrosssings IV nos deixa é precisamente essa presença de culturas várias e de olhares diferenciados sobre o mundo actual, seja o olhar do próprio VF, seja o dos autores por ele convocados e objecto do seu discurso ensaístico. As diferentes secções em que se encontra organizado o livro assinalam, de facto e em primeiro lugar, uma atenção às diversas escritas do mundo, numa dispersão correspondente à pluralidade de interesses pessoais do autor e proporcional à natureza do mosaico cultural e literário que é o do nosso dia a dia. Essa organização constrói, por outro lado, uma imagem de conjunto das representações que essas escritas nos deixam de um mundo caótico e complexo, feito de descentramentos sucessivos e de novos recentramentos, num processo de instabilidade constante em que as formas culturais e os imaginários se entrechocam e interpenetram, se adaptam e refazem, e que E. Glissant designa por crioulização.

Neste sentido, a primeira secção do livro é particularmente elucidativa, enquanto chama atenção para a re-leitura trans-atlântica, isto é, americana, de um imaginário açoriano que, parecendo ainda ser o mesmo, é já uma coisa outra na escrita da segunda e terceira gerações de imigrantes, que o receberam por transmissão, não por experiência directa, e o reformulam no interior de outra língua e de outra cultura. É apenas um exemplo mais óbvio, para falar do resto, afinal.

Aqui ficam, portanto, estas anotações gerais sobre um livro a ler demoradamente, na sequência dos três anteriores e que, em conjunto, representam ainda um repositório daquilo que de essencial se tem publicado nos Açores ou sobre os Açores e sem perder de vista o que por outros lados se vai dizendo sobre a nossa particular condição humana neste tempo perigoso que nos vai sendo dado viver.

Parafraseando, em síntese, um título de E. Glissant, poderia dizer que o livro de Vamberto Freitas é mais um contributo para um ensaísmo do diverso.

 

Urbano Bettencourt

Ponta Delgada, 17.11.2017

 

 

 

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Da literatura e de uma vida vivida

Na pulsação do espaço/e no espasmo do silêncio/a sobreposição dos sentidos!/No fundo…/um espírito intacto,/comovido.

Adelaide Freitas, De Emigração Tecido

Vamberto Freitas

Quando me olhas com ternura, quando te digo uma só palavra e ouço a tua tentativa de me dizeres algo, sei que estás comigo e sei que estás em mim. A tua doença devora o teu corpo, mas regressas sempre à tua cama aqui em casa. A tua amiga “AP” faz-te um carinho e aperta a tua mão, e tu não queres nunca deixar que ela se vá, que te abandone. Saboreavas, quando ainda te era possível, as tuas comidas com gosto, e quando te levam à sala principal dos nossos livros, vemos o sorriso em ti, como olhas as flores na tua varanda e reages com a alegria que sobressai da tua cara e conforto das tuas companhias. Por vezes dormes serenamente, outras em grande agitação, nunca sei se de dores ou sonhos. Sei isto: quando nos aproximamos ficas calma. Muitas vezes as tuas cuidadoras dizem-me que estás de olhos abertos e só dormes quando te dou o beijo da noite e do amor. Depois volto à nossa sala cheia de estantes com as tuas fotos e livros, olho serenamente, por vezes falo contigo, sempre como se estivesses a meu lado, e eu mandar-te piadas políticas – a literatura que fizeste é outra questão e falarei dela em linhas mais à frente. Não foste só uma distinta Professora Associada na Universidade dos Açores, especializada, uma das primeiras entre todos em Portugal, em literatura norte-americana, com o teu Moby Dick: A Ilha E O Mar – Metáforas Do Carácter Do Povo Americano. Foste uma colaboradora política que ajudou a fundar e depois dirigiste com mão segura e consciência aberta o então Instituto de Acção Social nos Açores, para quem os mais pobres e vulneráveis foram a tua missão durante cinco anos. Adoro ver a tua foto num Congresso do PSD, aos microfones, cheia de vida e de garra, de convicções, nas quais obviamente acreditavas e sobre as quais agias diariamente. Passo por ti nessas imagens, e só digo que vocês, laranjinhas, arranjaram muito bem, particularmente quando certo líder chamou a Portugal a uma denominada troika, que eles, os europeus, sem qualquer vergonha na cara, haviam adotado de uma expressão perfeitamente russa. Depois vejo-te numa outra foto em Nova Iorque comigo, com a mulher de João de Melo, carinhosamente chamada de Tita. Nada em nós morreu, amor, viverá tudo para sempre enquanto tu estiveres aí e eu aqui. Não, eles não sabem nada da tua doença. Sei eu e as mulheres que estão a teu lado todos os dias. Sabemos que tens uma vida, e agimos como tal. Em tudo. Não falas connosco, mas falamos sempre contigo. Escondo as minhas lágrimas porque sei que te comoveriam ainda mais. Quando dormes serenamente, eu fecho o meus olhos e tento dormir um pouco. Acordo e beijo-te outra vez. Depois apetece-me dizer aos arrogantes e cheios de si que encontro todos os dias aqui e ali: façam o favor de visitar as urgências no hospital para vermos o quanto não valemos. Quando um desses tristes me diz que a tua “não é uma vida”, eu respondo quase sempre de modo indelicado: Não, a Adelaide tem uma vida, é a vida que tem, e a nossa obrigação é zelar por ela. Quando te internam por uns dias, o teu quarto vazio é a minha dor e a minha saudade. Sem a tua presença a nossa casa fica vazia, sem sentido, nem rumo, sem o mínimo significado.

Vivemos anos intensos, cheios de vida, de risos e choros. Não tenho saudades de nada –sem ti. Nem sequer de sair da ilha, já vi todos os museus que queria ver, todas as catedrais que foram erguidas por escravos em toda a Europa, todas as ruas que as classes dominantes ordenavam, todos os hotéis da classe média e todas as suas lojas. De universidades, nem falar, muito menos dos seus pedantes e falsos sabedores. Só tenho saudades tuas. Ter saudades de quem está ao nosso lado, e a olhar-me, é a maior crueldade de sempre. Releio os teus livros, a tua prosa crítica fulminante, a tua poesia, ficção e ensaio. Tenho saudades de quando me davas um texto para ler antes de o publicares, e tenho ainda mais saudades de quando eu estava a escrever, e caladamente te colocavas atrás de mim sem eu dar por isso, e depois tocavas no me ombro e dizias: Vamberto, isso é violento, não és tu, a tua alma não é essa. Eu respondia só que escrevia o que queria e entendia. Voltavas ao teu espaço de trabalho, eu relia, e sabia que tinhas razão. Mudava logo certas palavras e apreciações menos agradáveis. Hoje volto a reler, e só vejo sabedoria, elegância e generosidade da tua parte. Muitos escreveram sobre a tua obra, aqui nos Açores, no Continente, e em vários outros países, especialmente nos Estado Unidos e no Brasil. A tua tese, uma vez mais, aborda sem medos ou complexos o mais canónico de todos os romances canónicos norte-americanos. Nunca me falavas disso, mas eu não esqueço. A tua prosa continua a ser a maior referência minha. Quando se ama a escritora que eras não posso nunca esquecer, não posso nunca de deixar aprender contigo.

“O mar — escreves nessas páginas — já não é, como nos tempos clássicos, um perigo assombrado, violento, aterrorizador… À maneira do período anglo-saxónico, um símbolo natural da vida espiritual. Não representa, como em Shakespeare, o sofrimento; nem é sagrado, nem protector: de força impessoal, através da qual o homem media a sua coragem ou medo, institui-se como situação real a ser apreendida no medonho e no belo que reúne, impondo-se como objecto estético a ser fruído. O seu perigo, movimento e força excitam, a sua solidão e profundeza abissais inspiram respeito, a sua beleza faz pasmar de encanto aqueles que a contemplam”. Isto é de uma escritora a falar do mar como se fosse rodeado de ilhas como a nossa, onde é em terra que paira o terror e não nas águas profundas à nossa volta.

Depois da tortura bela que foi a escrita da tua prosa doutoral, sentiste o resto, a necessidade da poetização do teu passado e presente. Estava para vir a tua poesia e prosa ainda mais maravilhosa, emotiva, razão e coração sem os protocolos da academia. Veio a poesia De Emigração Tecido, João de Melo e a Literatura Açoriana, Viagem Ao Centro do Mundo, Regresso a Casa: Uma Proposta de Intervenção Social, em que, ainda no Governo Regional dos Açores, advogavas que os velhos e doentes deveriam ficar em casa a cuidado dos seus e o com o apoio sem favores do Estado, e depois o romance (para nós profético) Sorriso Por Dentro Da Noite. “Na força expressiva – escreve Ana Marques Gastão no Diário de Notícias – do seu verbo, na fluidez da frase, na discreta modulação do ritmo, na clareza da narrativa conseguida sem grande artifício, no esboçar das personagens, umas psicologicamente mais densas, outras menos, Adelaide Freitas dá-nos um romance que, na ductilidade que oferece, uma história de sangue e ternura no movimento e vida interiores”. Não haverá escritor que não desejasse estas palavras, e foram apenas algumas entre outras de nomes como Álamo Oliveira, Diniz Borges, Luiz António de Assis Brasil, Onésimo Teotónio Almeida e Fernanda Rodrigues Garcia. Por fim, os teus ensaios de Nas Duas Margens: da Literatura Norte-Americana e Açoriana. Quero que saibas que nada disto será esquecido, nem por mim nem sequer pelos menos atentos, pois a minha voz nunca se calará, a todo o custo e contra toda a ignorância ou desmemória, entre os que muito te devem e que deveriam respeitar o teu contributo ao bem-estar da sociedade açoriana, e ainda mais à nossa literatura.

Cruzas os teus, nossos, dois mundos como poucos o fizeram, pelo menos neste lado do Atlântico. Portugal e a América não eram para ti meras abstrações e muito menos as chamadas “comunidades imaginárias”. Foram o teu território, vivido e sofrido diariamente, em directo ou ao longe. Foi, sempre, a tua Viagem ao Centro do Mundo. Como já escrevi tanta vez, se és o meu passado e presente, eu serei sempre a tua memória. Resides permanentemente em mim. A tua obra literária e a tua dedicação, mesmo partidária, mas nunca dogmática, aos Açores e ao seu povo é a maior das minhas heranças. Como tenho a certeza que são também parte da história do país de onde nos foi dado nascer, assim como ao país no outro lado do mar onde hoje residem, vivem e morrem alguns dos nossos mais queridos familiares, amigos e colegas.

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Foto de Adelaide Freitas no princípio dos anos 90, durante uma intervenção sua num congresso do PSD/Açores, aqui em Ponta Delgada.

Vida e morte numa sociedade à deriva

Bem sei que a epígrafe acima é longa, mas a verdade é que poucos romances me tocaram de maneira tão pessoal como directa. Também tenho a perfeita consciência que uma peça literária (ou qualquer forma ou género de arte) deve ser lida e apreciada com o distanciamento de quem observa atentamente os infindáveis mundos e vidas aí retratadas. Quando escrevi aqui há tempos sobre o mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, abri de seguida este seu outro romance publicado em 2005, e que já ia na 11ª edição em 2009, tendo a levar-me a concluir que haveria uma continuidade temática e formal muito próxima da minha experiência de vida durante os últimos anos. Só o título A Casa Quieta tornou-se-me inquietante, e depois de o folhear tomei consciência que doença, solidão e perdição de vidas reinventadas nestas suas páginas eram os seus temas predominantes, e que seriam uma espécie de espelho pessoal, tão claro como naturalmente contorcido. As palavras que citei aqui pareciam uma descrição perfeita da minha própria casa, com os seus quartos vazios e o silêncio de uma mulher prostrada já sem consciência de si, de mim, e provavelmente de tudo que a rodeia. Harold Bloom escreveu no seu recente The Daemon Knows, e volto a reproduzir as suas palavras mais contundentes, agora neste outro contexto: “Toda a crítica é memória, e o único método crítico sou seu”. Esta é uma leitura muito pessoal da minha parte. Se um ensaísta da estatura de Bloom o diz em relação ao acto interpretativo, um romance como este não me é só memória. Mais do que isso, parece-me uma espécie de “autobiografia”, e o aconchego ao texto ficcional torna-se inevitavelmente um gesto tão intelectual como emotivo, mas não sentimentalista no pior significado da palavra. A Casa Quieta, nas suas múltiplas vozes na primeira pessoa concedidas pelo protagonista de nome Salvador (arquitecto de profissão, que nunca construiu uma casa própria) aos seus vários personagens, às mulheres e aos homens que lhe estão simultaneamente perto e longe, quer no seu interiorismo quer nos seus modos de vida, torna-se numa narrativa joyceana que combina o mais puro realismo com fugas de imaginação poética sobre a sua condição presente com os momentos mais marcantes do seu passado enquanto Mariana (professora) definha num quarto até à sua morte. Quando o romance abre em 2005, ela já está ausente, sem terem deixado filhos, só uma vida existencialista que ia sendo pensada e desenvolvida ao acaso e perante a ameaça sempre presente da morte. Por mais que estas minhas palavras poderão levar um eventual leitor a pensar, não se trata de uma ficção deprimente ou que nega o valor da vida, as suas próprias vidas e tudo que constitui o seu e o nosso dia-a-dia. A arte literária não necessita de passar mensagens – deve colocar-nos perante nós próprios, e ainda mais perante os outros que olham, vêem e entendem as coisas de modos diferentes, mesmo que permaneçam na mesma sociedade e perante dilemas semelhantes, a condição humana nas suas mais inesperadas circunstâncias, mas que em nada difere de uns para outros.

A Casa Quieta tem como referencial fora de portas Lisboa, ou melhor, um país à deriva, cada um no seu nicho interior e solitário, as multidões passam despercebidas, ou então olham-se com toda a indiferença, um motorista zangado apita a outro em aviso numa cidade, agora sim, irrequieta. O pai de Salvador e sogro de Mariana torna-se numa espécie de outro protagonista ausente de si próprio, que também foi arquitecto, acaba sozinho, como todos os outros aqui. Este não é um “romance de ideias”, é um romance que vai ao mais profundo interiorismo do nosso ser, de personagens que se cruzam sem se falar nem olhar-se em elevadores, frequentam restaurantes da moda ou prestigiados e que lhes fornecem em gestos de mero reconhecimento de quem lhes paga os seus pratos favoritos numa rotina sem sentido e muito menos carinhosa. Dos parágrafos narrativos passamos a poemas (que não o parecem, mas são) ou frases avulsas, mas que nunca perdem o seu significado no contexto da história. Como diriam certos teóricos brasileiros da literatura, estamos aqui, página a página, num imparável “fluxo de consciência”, por vezes sem sabermos se estamos no presente ou no passado. A legibilidade desta prosa, no entanto, é sempre claríssima. Por entre a consciência da dor e da perda nunca perdemos de vista o destino inevitável, o fim de tudo, o nada do nada, o não-significado de cada uma destas vidas, ou sentido trágico da nossa existência tal como já o entendiam os gregos antigos.

Aqui há tempos li The Nearest Thing To Life, um conjunto de ensaios sobre ficção e outros temas das nossas vidas de James Wood, crítico-mor do The New Yorker. Aconselhava a outros: mete-te dentro dos textos sobre os quais escreves. É sexta-feira à noite, e eu estou a ler A Casa Quieta estou na minha casa, sim, “quieta”, ouvindo só a respiração da minha companheira deitada, ora tranquila ora agitada, no seu quarto, e rodeada das mais várias lembranças de si e de nós. Isso não é, nesses momentos, um livro de ficção, é a minha vida, a minha companhia dialogante no seu silêncio sem remissão. Não tenho jornais por perto na minha secretária, não os desejo, muito menos a televisão ruidosa e quase sempre fútil e cheia de cores que nada têm a ver com o meu estado de alma. Olho o vasto oceano da minha janela, e regresso logo depois ao romance que tenho entre mãos. Fico a saber que não estou só na minha sorte, nas minhas ausências, repito, sem regresso possível. Sei que estas outras vidas vividas ou imaginados de A Casa Quieta sou eu próprio, ou quase o que penso ser ou o que estou a viver. Volto a dar mais um beijo terno na testa da minha companheira depois de fechar o livro e tentar dormir sem pesadelos. Quando a arte nos toca assim, estamos dentro do texto, como diria o já citado James Wood, estamos na companhia de quem nos fala em directo, de quem nos mostra como até nestes momentos a beleza de estarmos vivos é a nossa própria força contra o sofrimento dos outros.

“Tu eras. E – diz o narrador a dada altura – passo a citar. Uma voz ao fundo do corredor assim que ouvias as minhas chaves na mesinha de vidro. Eras as luzes acesas. Eras a fechadura a rodar mil vezes. Para um lado e para o outro mais mil vezes, a fechares o mundo lá fora, até suspeito que os vizinhos. Suspeitavam que tínhamos ponte levadiça e fossos com jacarés… Tu eras. Passo a citar. Nós. Ainda há pouco vi que já não somos mais. Sou um homem de pé num hall de entrada que sabe que escusa de tirar o sobretudo, descalçar. Os sapatos que me magoam. Tu eras as luzes acesas. Eras uma casa à minha espera. Ainda há pouco cheguei, poisei as chaves e a minha casa já não é a minha casa ou pelo menos. Já não importa, não és”.

A Casa Quieta é um desses romances que me faltava depois de toda uma vida inteira a ler. Não há gratidão de um leitor devido a qualquer autor. Há a grande sorte e a alegria de o ter descoberto num determinado livro e momento. Foi este o meu caso aqui. Foi-me “doloroso” lê-lo. Só que toda a grande literatura provoca isso em nós. Vou regressar às suas páginas. A beleza das palavras têm por vezes este poder sem igual – rever-nos uma vida, e o leitor pensar-se como um dos seus personagens.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, “A Casa Quieta”, Lisboa, 2009. Publicado a 12 de Janeiro de 2018..

Do amor, do ódio e da nossa desumanidade

No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência conduziram-nos até um celeiro que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças.

João Pinto Coelho, Os Loucos Da Rua Mazur

Vamberto Freitas

Leio o novo romance de João Pinto Coelho, Os Loucos Da Rua Mazur (Prémio LeYa 2017), com a Polónia como referencial geográfico e humano, em primeiro plano, antes e durante a II Guerra Mundial. Vem no seguimento do seu primeiro grande romance, Perguntem a Sarah Gross (2015), que também tem a Polónia como fundo referencial durante a II Guerra Mundial e o Holocausto como sorte de uma distinta família daquele país que havia regressado da América às origens logo depois da I Grande Guerra. Já nesse seu romance João Pinto Coelho demonstrou não a raiva ou a paixão contra nacionalidades, mas sim a sua quase não compreensão de tanta crueldade inerente ao ser humano. Entre essa Europa e os Estados Unidos demonstrou com toda a ironia de um grande escritor a sua perplexidade ante a nossa capacidade de morte e amor nos mais extremos da crueldade e do bem-querer ao próximo. Não, não será só esta outra narrativa fabulosa de Os Loucos da Rua Mazur, fundamentada na História e na imaginação do próprio autor que me volta a surpreender. São as suas linguagens, a estrutura perfeita da sua prosa a vários tempos e geografias europeias, o seu equilíbrio na descrição entre o Bem e o Mal, “o coração humano em conflito consigo próprio”. Grande narrador, este, que tem a coragem de sair de temas mais do que velhos na nossa pátria, e que nos traz genialmente a condição humana nos seus piores e melhores momentos. Dá continuidade aos séculos da miséria, fazendo-nos lembrar, sem nunca nada disso mencionar, as matanças e fogueiras do Rossio. Amor e ódio, uma vez mais, o ser humano em todas as suas contingências e contradições da alma e da razão. A epígrafe que dá início a este meu texto resume perfeitamente a história aqui recontada, e vem numa nota final do livro como testemunho verdadeiro do que aconteceu naquela pequena cidade dividida em dois bairros separados entre cristãos e judeus, algures no nordeste da Polónia, perdida entre densas florestas e praticamente fora de contacto com o resto do país e do mundo. Abre com o primeiro e o último capítulos em Paris, intercalando os acontecimentos no pequeno povoado nos anos entre 1934, quando ainda os seus habitantes nem imaginavam o que viria em poucos anos da Alemanha e da União Soviética, e 1941, quando sob o olhar alemão a chacina dos judeus pelos seus vizinhos cristãos quase se torna uma festa numa chamada Praça do Mercado, e acaba no inferno autêntico, num celeiro nos seus arredores.

A estrutura do romance movimenta-se entre esses tempos e os primeiros anos que começam em 2001, onde está a ser escrito o romance dentro da própria narrativa, e que relata finalmente o que os seus três protagonistas haviam vivido e sofrido, safando-se do grupo em ira e na irracionalidade de séculos entre a cristandade e o judaísmo em praticamente toda a Europa central e de leste desde tempos imemoriáveis. Creio que a primeira consideração de qualquer leitor atento a um romance que combina toda a violência documentada já em milhares de volumes de História e arte pura das suas linguagens é que nenhum dos seus narradores fictícios leva a culpas cegas de um ou outro grupo, falam do que viram e viveram agora a um distanciamento de tempo suficiente para que a dor de estarmos vivos sobressair ou impor-se a qualquer ódio entre uns e outros. Se eu fosse polaco e cristão não sentiria que se trata nem de um ajuste contas literário, e muito menos de um libelo anticristão ou nacionalista, mas sentiria a obrigação de um mea culpa absolutamente devida aos judeus como país, tal como e muito especialmente a Alemanha e a União Soviética. Poucos povos europeus estarão livres da mesma tragédia ou da mesma convivência, que poderá ser insegura mas que tenta não repetir o passado. Entretanto, chego à última página deste grande romance e custa-me resistir a analisá-lo adentro do contexto de uma certa Europa de hoje que vem manifestando de novo toda a intolerância, preconceitos e raivas do passado, não só perante os judeus como perante outros cidadãos, hoje refugiados entre nós. Um romance, ou qualquer peça de arte nos mais variados géneros, não tem nem deve ser um aviso, e este, estou em crer, não o é. Desperta a nossa memória, isso sim, inevitavelmente. Os seus três protagonistas são de nome Yankel, judeu, Erik, cristão, e Shionka, filha de uma mãe cigana, e que perde a voz na sua infância. A ternura e amor entre os três na Polónia antes e depois da chegada dos assassinos do seu povoado é de uma originalidade raramente vista na nossa literatura, ou em qualquer outra. Os três conseguem sobreviver à matança na sua aldeia, e conseguem chegar a uma outra Europa. Yankel é cego mas torna-se um livreiro numa livraria sua em Paris e simbolicamente rodeado de relógios que fazem lembrar a passagem do tempo mas não da tragédia “demasiado humana”, como diria um dos grandes filósofos alemães antes da loucura total, e que escreveu que ser anti-semita era um sinal de idiotice absoluta. Erik chega à Bélgica, muda de nome e torna-se um escritor de referência, e Shionka passa a ser Viviene, que recupera a fala na sua nova liberdade e dignidade, e torna-se editora e amante do agora autor chamado Paul Lestrange, que está a morrer e procuram os dois o velho amigo e íntimo companheiro Yankel em Paris para completar o romance, tudo o que tinham vivido na Polónia. São três dos mais estranhos personagens em literatura portuguesa, e, no entanto, são símbolos da perdição de nós todos, em guerra ou em paz. Não conseguimos fugir da, ou negar a sua profunda humanidade, a sua amizade, os seus ciúmes, as suas infâncias, as sortes de vida tão diferentes como comuns. Depressa esquecemos os seus carrascos, os que em toda a parte, tanto num lado como no outro da sua aldeia (que se torna símbolo do mundo inteiro), e em que uma reduzida e arrogante elite em tudo manda e pretendem decidir. Fica-nos na memória, acima de tudo, a coragem da sobrevivência, e os laços indestrutíveis entre três amigos-amantes que não só dão continuidade à vida como nos relembram do inferno como parte do nosso quotidiano. João Pinto Coelho – e resisto a comparar grandes escritores – mostra-nos a crueldade de sociedades derrotadas na guerra, e nessa queda a crueldade que se segue entre uns e outros. Os Loucos Da Rua Mazur pode aludir a uma comunidade isolada em tempos que gostaríamos de esquecer, mas é sobretudo uma metáfora do mundo em que nós próprios vivemos hoje, e em toda a parte. Desde a Europa às Américas e a todos os outros continentes vivemos tempos de grandes incertezas e ameaças. Não conheço outro romance, pelo menos na nossa língua, que tenha a coragem de ligar um passado ainda recente aos nossos dias, e que ameaça o regresso da morte e da desgraça. Tal como nestas páginas de prosa histórica e realista e de poetização pouco comum, o romance de João Pinto Coelho parece um quadro semelhante a “Guernica”, de Picasso – a nossa agonia não tem fim à vista, e a sua natureza ou origem totalmente inexplicáveis.

O que virá a seguir deste singular autor, não tenho a mínima ideia, nem me cabe a mim sugerir e adivinhar. Sei que se ele seguisse este romance com a heróica revolta do Gueto judeu em Varsóvia durante a selvajaria alemã constituiria uma trilogia perfeita, e sem igual na nossa literatura. Ser um autor português desta grandeza é ser um autor europeu do mesmo nível. Em Portugal, andamos sempre obcecados com a nossa própria história. Só que o nosso destino, a partir da descolonização africana, foi um regresso ou entrada pela primeira vez na vida do continente europeu a que pertencemos por inteiro e por direito. O destino judaico neste mesmo espaço tem tudo a ver connosco, mesmo quando o nosso próprio Estado tentava virar a cara durante a II Guerra Mundial, e negava as suas responsabilidades. O anti-semitismo tem tudo a ver com o nosso destino. São romances como este que nos deveriam lembrar dos nossos próprios crimes – e eventualmente redenção. Os Loucos Da Rua Mazur é tanto uma história polaca como portuguesa, e sobretudo de tantos outros países na vizinhança. É uma obra maior – na sua arte e na sua memória.

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João Pinto Coelho, Os Loucos Da Rua Mazur, Lisboa, LeYa, S. A., 2017.

Paula Cabral na apresentação de “borderCrossings: leituras transtânticas 4”

Antes de assumir a função de porta-voz de Carlos Bessa, queria felicitar o Prof. Vamberto pela 4.ª edição de BorderCrossings.

É efetivamente um trabalho de inestimável mérito na consagração da literatura com raiz açoriana, na divulgação de novos valores e no apoio que a sua palavra de referência representa para muitos desses novos escritores.

Eu sei o que representou para mim a sua aprovação. Sinto-me igualmente reconhecida por estar aqui a partilhar este momento consigo de forma tão particular.

Um amigo comum, que muito admiramos e estimamos, Onésimo Almeida, disse-nos uma vez que o Vamberto era a única pessoa que ele conhecia que tinha uma janela com vista para o mar tapada com livros!
Não é de espantar. O Prof. Vamberto vive o mundo através dos livros.

A literatura revela o mundo, é diálogo inato, é a vida a construir-se. O próprio afirma-o:
Para mim, a literatura foi sempre um ato profundamente identitário, através da qual vemos o outro, o que nos obriga à autorreflexão de quem somos e como somos”.
Escreve, pois, sobre os livros, janelas sobre o mundo, como quem discorre sobre paisagens de mar infinito. Abrindo caminhos de leitura, as suas abordagens são parapeitos onde nos debruçamos com a confiança da referência e da orientação num mundo em que, no dizer do autor,  “ o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países (…), é quase, felizmente, um acontecimento diário”.

Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo“, defende o autor em desacordo com outras correntes da crítica, pois interessa-lhe essencialmente essa marca humana do indivíduo integrado no todo. “Toda a literatura é memória” e “a crítica é também a memória de quem a escreve”, pelo que o mar, por pouco que se aviste da sua janela, representará sempre o horizonte da memória por detrás dos inúmeros escritos transatlânticos que ainda, decerto, nos irá oferecer. Obrigada, Professor Vamberto, pela generosidade de os partilhar connosco.

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Paula Cabral no lançamento do meu livro borderCrossibgs: leituras transatlânticas $ a 17 de Novembro de 2017, a 17 de Nvembro de 2017, na Livraria Solmar em Ponta Delgada.

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VAMBERTO FREITAS — borderCrossings: leituras transatlânticas 4

 

BORDERCROSSINGS: LEITURAS TRANSATLÂNTICAS 4

 

Carlos Bessa

 

Comecemos pelo óbvio, Vamberto Freitas é um caso raro. Porquê? Porque faz da literatura um métier. Porque escreve sobre os livros de que gosta e está atento às novidades. Porque o faz num tempo em que se publica muito, mas parece ler-se pouco, como se deduz pelas baixas tiragens e também pelo tipo de livros que se publica. Porque é um reconhecido especialista em literatura contemporânea de língua inglesa produzida por luso ou açor–descendentes na América do Norte e um leitor atento do que a açorianidade produz. Por muitas outras razões que têm tudo a ver com literatura, mas também com a sua generosa maneira de ser e de ler.

Com este intróito pretende-se, pois, desde logo destacar o que nos junta hoje aqui, a publicação e apresentação de mais um tomo, o quarto, de BorderCrossings: leituras transatlânticas. Tomo em que o autor colige mais um extenso conjunto de ensaios literários e culturais, a maior parte publicados na coluna homónima que mantém no Açoriano Oriental, mas também noutros jornais.

Ensaios onde constantemente se evidenciam as operações complexas que a literatura e a leitura solicitam de nós, leitores, aliando, às especificidades estéticas, problemáticas éticas, assim como um rol de interrogações e inquietações indissociáveis do tempo e do espaço que são os nossos. Um tempo e um espaço que, precise-se, não se circunscrevem ao imediato, pois a literatura há muito nos preparou para incluirmos nessas duas dimensões aspectos como a imaginação, a diferença, a alteridade, o outro. Ora é precisamente neste ponto que creio residir um dos momentos altos de BorderCrossings, de que as suas quatro secções, intituladas “Ilhas da Diáspora, Diáspora nas Ilhas”, “Do Nosso Tempo”, “Outros Imaginários Americanos” e “Coda” são bem a prova.

 

Vamberto Freitas é há muito um exegeta destas questões e podia fazer dele as palavras que Eduardo Lourenço disse em tempos: “o problema da cultura portuguesa não é o da censura que vem do exterior ou do poder político, mas da censura que nós próprios fazemos uns aos outros”. Pois, como muito bem sabem os leitores de Vamberto, ele vai para lá do ensimesmamento, abre fronteiras, amplifica o que é nosso e lê o agora através dos livros que comenta. E, ao fazê-lo, descobre afinidades ou sublinha diferenças, ri-se ou zanga-se, confronta-se com inquietações particulares ou com questões universais. Mostra-nos que escrever nos Açores ou a partir dos Açores é tão vasto como escrever a partir de qualquer outro lugar. Recorda-nos que o que é nosso é do mundo e o que é do mundo é nosso. Ler assim é estar receptivo ao novo, é reconhecer os meandros da sedução e os labirintos da manipulação, porque a literatura também se faz entre estes pólos. Ler, como Vamberto o faz, é receber e reconhecer vozes e ecos de outras vozes, e fazê-lo com método, com rigor, com paixão. Porque hoje, como ontem, continua a partilhar connosco os autores e as obras que descobre e continua incansável no árduo trabalho de divulgar autores, de criar leitores, de aumentar o raio de acção dos escritores açorianos.

Cada tomo de BorderCrossings é não só uma viagem pelo mundo da língua portuguesa, como também pelo universo anglo-saxónico. Uma viagem cujo diário de bordo nos relata, a par das inflexões do tempo, as vicissitudes do isolamento, o anseio de evasão, as aventuras e as anedotas do entrementes, o regresso às origens ou a casa. Cada tomo de BorderCrossings constitui-se como uma narrativa que tem como ponto de partida a literatura que, em português ou inglês, reflecte, representa e reinventa a nossa experiência de vida, mormente no arquipélago, mas também nos Estados Unidos da América, no Canadá, no Brasil e até noutras paragens ou latitudes.

Vamberto é, pois, um autor ecléctico, quer no que toca a géneros, quer quanto a autores, gerações ou línguas. Um autor que pratica aquilo que poderemos designar como um verdadeiro serviço público. Que semanalmente reflecte sobre um livro, para prazer de tantos. E que o faça nos dias que correm, em que os livros já não têm nem o espaço público nem o lugar remuneratório de outrora, é algo que a todos nos enche de júbilo. Porque se Vamberto tem espaço para muitos caracteres, num tempo em que os livros são

corridos nos meios de comunicação a notas de rodapé ou a algo que se assemelha a twitters, isso acontece pelo valor que lhe é reconhecido pelos seus pares e pelos seus leitores.

E permitam-me que faça aqui um parênteses para recordar que, quando os meios de comunicação reduziram o espaço da literatura e do ensaio, muitos foram os que se regozijaram (silenciosa ou alarvemente) com o sucedido. Mas quando começar a saber-se que as elites políticas e financeiras de todo o mundo estão a ler os clássicos, estão a ler os grandes autores e os ensaístas, os filósofos e os historiadores, os poetas gregos e latinos, não se espantem da reviravolta. Veremos, então, os que hoje se auto-comprazem com a mediocridade a fazer-se esquecidos e a aparecer na linha da frente dos que acham que é necessário ler-se mais e ler-se melhor. Então poderemos dizer ainda mais alto, nós temos o Vamberto. Com ele descobrimos obras e autores. Com ele percebemos o quanto a literatura fornece chaves para a condição humana. Com ele sabemos que “quem não conhece é que é ignorante”. É preciso que alguém nos diga coisas assim tão simples para percebermos que nos livros, como em tudo o mais, há regras básicas e que se o negócio se faz com números, também se faz com minorias, porque sem minorias resta a banalidade. As minorias revivificam, acrescentam, abrem horizontes. E cada comunidade de leitores, por ínfima que seja, faz mais pela vida do que hordas de ignorantes. Abençoado Vamberto que partilha com várias comunidades de leitores as suas impressões de leitura, as suas análises atentas de obras. Somos vários os que colecionamos os seus textos e lhe agradecemos a oportunidade de os ter reunido em livro. Podemos guardar os recortes do Açoriano Oriental mas não é a mesma coisa. O livro facilita a consulta e a releitura.

Nele, no BorderCrossings, podemos saber quem são os autores luso-descendentes, quais as obras de temática açor-americana, que autores nacionais ou regionais publicaram obras de relevo. E ficamos também a par das filias do autor. Um autor que pode começar um texto assim: “Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50.” Ou seja, um leitor que é capaz de estar tão atento ao novo da literatura açoriana, como àqueles autores que ganharam já estatuto de

 

canónicos. E são muitos. Enumerá-los agora aqui seria retirar o prazer dos que já estão com o livro nas mãos. Refira-se apenas que cada autor e cada livro recenseados são analisados sem modelos prévios e sem pressupostos académicos, como se Vamberto reconhecesse à partida que cada livro é único na sua diferença, pelo que cada leitura é também única e diferente. Não há cardápio. Há sim um prazer contínuo, o de acompanhar o livro nos seus meandros e o de situar os autores nos seus lugares. Um prazer com algo anárquico, dionisíaco, para usar uma expressão grata a um poeta madeirense que faleceu há dois anos. O prazer de uma leitura crítica ou que reflecte a partir de questões levantadas por cada texto específico, modo de Vamberto evocar os seus mestres neste tipo de leitura, sejam Edmund Wilson, Michael Holland, William Koon ou até Harold Bloom.

Não menos relevante é que Vamberto Freitas, tal como Plínio, o Velho (ou Caio Plínio Cecílio Segundo), cumpre essa máxima que diz nulla dies sine linea, ou seja, nem um dia sem ler ou escrever pelo menos uma linha. De facto, para os grandes leitores e para os grandes escritores, a escrita é algo afim da vida. É a grande batalha que se trava contra o mundo e a sua natureza finita.

Vamberto, como justamente se assinala no fim deste BorderCrossings, foi distinguido pelo Congresso dos Estados Unidos da América e pelo Tulare County Board of Supervisors pelo seu trabalho em prol da literatura e da divulgação de autores de ambos os continentes, americano e europeu. Está, portanto, de parabéns. Duplamente de parabéns. Pelos prémios e por mais este interessante volume de leituras.

E eu queria deixar aqui o meu vivo agradecimento por ter feito questão que eu partilhasse com ele e com todos os presentes este momento, a alegria de estar perante uma vasta e sábia comunidade de leitores, a quem endereço um bem-haja.

 

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Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas 4, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Este texto foi lido na apresentação do meu novo livro “borderCrossings: leituras transatlântica 4”, na Livraria SolMar no dia 17 de Novembro de 2017.

 

Dos nossos tempos e das nossas vidas

Habituado, que estou, aos índices de humidade mais elevados e às temperaturas mais amenas se S. Miguel, confesso-vos que já é difícil aguentar com as altas temperaturas e com o ar seco de verão na interioridade continental onde nasci e cresci.

Aníbal C. Pires, Toada do mar e da terra

Vamberto Freitas

Aqui há algum tempo tive o prazer e a honra de prefaciar e apresentar O Outro Lado: palavras livres como o pensamento (2014), alguma da poesia de Aníbal C. Pires. Evitei propositadamente algumas palavras, especialmente “político” e “política”, assim como qualquer menção a ideologia ou opções partidárias. Não que a literatura esteja livre de ideologia, que diz, sempre, algo não só sobre o estado de alma do seu autor, como, directa ou indirectamente insinua a natureza da sociedade, a sua historia, o seu tempo. Este não é o primeiro livro de prosa do autor (que mencionarei mais à frente), mas nestas páginas ser-me-ia impossível, e até desonesto, aludir às posições cívicas tomadas e partilhadas por um autor consciente de toda a problemática da sua sociedade, e que não hesita nem na crítica, na sugestão de posições, de soluções, ou pelo menos não hesita na tentativa de abrir um diálogo com os seus leitores sobre o quotidiano que vivem e as possibilidades de um outro futuro. Certas palavras aqui, portanto, são inevitáveis e muito bem-vindas, por entre alguns textos de cariz abertamente poético e de celebração à chamada “vida em ilha”, como um dia me mencionou uma alta figura de um dos primeiros governos regionais do nosso arquipélago. Ante de mais, devo confessar que o próprio titulo de crónicas e ensaios em Toada do mar e da terra remete-me de imediato para um outro autor progressista do nosso cânone literário, o falecido Dias de Melo, com quem suspeito por parte de Aníbal C. Pires afinidades memoriais sócio-económicas, e sobretudo culturais. Este é um primeiro volume, que data dos anos 2003-2008, e este facto é para mim de grande significado, pois foram o início dos meus próprios anos de chumbo devido a “catástrofes” familiares de doença e as subsequentes sequelas que ainda hoje permanecem – e vão permanecer – em mim. Ler sobre o que vivia e pensava, e seria depois uma das figuras políticas açorianas durante esses anos é como ler e dar-me consciência pela primeira vez do que ia à minha volta, do que enfrentava a minha sociedade. Não deve haver nada de mais “egoísta” do que a doença, quando nos força a virar-nos totalmente para dentro, pouco ou mais nada fazendo sentido para além das agonias pessoais, ou o sofrimento indescritível de quem amamos. Ler Toada do mar e da terra foi para mim ainda mais do que isso: foi ler um dos nossos melhores colunistas da imprensa regional, com as suas linguagens de clareza inequívoca, intelectualmente honestas, de uma grande riqueza lexical – e depois as destemidas posições que nos apresenta sem nunca insinuar numa só frase o desrespeito pelos que com ele discordam, ou então travavam duras lutas políticas dentro e fora das estruturas partidárias.

De seguida, queria lembrar que Aníbal C. Pires é natural do interior de Portugal, mas encontra-se a viver nos Açores há muitos anos, onde tem exercido com distinção o professorado no ensino público da região (São Miguel), e durante os anos mais recentes foi deputado pela CDU na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Esta pouca informação biográfica tem só um objectivo neste meu escrito – relembrar que ser-se açoriano pouco tem a ver com o lugar de nascença ou mesmo de ancestralidade. Muito mais do que isso, será um estado de espírito que invade quem connosco decide viver e enfrentar o destino a partir de pequenas ilhas a meio atlântico, olhando para sempre o resto do país ou do mundo na condição de “ilhéu” universalizado pela sua experiência e contacto diário com as mais longínquas geografias. Nas palavras da epígrafe que uso aqui, numa tentativa de resumo de tudo que vos desejo comunicar sobre este livro, Aníbal C. Pires diz quase tudo. Visitar as origens de nascença, alguns dos seus mais próximos que lá ficaram para sempre, nunca deixará de ser um imperativo pessoal e uma outra viagem de saudade, mas o seu verdadeiro lar português fica neste lado do Atlântico. Aguentar outro clima é naturalmente possível, mas todo o nosso ser clama pelo “território do coração”, pela convivência com a família, com os amigos, com os colegas, com a luta diária pela pequena sociedade Coisa estranha da minha parte ante este poeta e escritor. Nunca penso nele, nem nas nossas conversas algo frequentes, e muito menos na sua escrita, como militante político, antes no activo e agora provavelmente só nos bastidores. Não estarei só. Na apresentação que fiz da já aqui referida poesia, perante uma grande audiência no Coliseu Micaelense, olhava para todos e via gente de todo os partidos políticos, desde os mais conservadores de direita aos mais radicais de esquerda, numa demonstração saudável do respeito mútuo e da apreciação da arte para além das questões momentâneas da política ou do combate parlamentar. Se olhássemos a grande literatura pela perspectiva ideológica dos melhores autores do mundo, garanto-vos que as nossas leituras seriam muitíssimo mais reduzidas, perderíamos o melhor que a humanidade nos oferece, as visões infindáveis da nossa condição, dos nossos desesperos, dos nossos desejos e sonhos, perderíamos a capacidade de tentar perceber a vida dos “outros” e do modo como enfrentaram e sobrevivam bem ao nosso lado, quer na mesma rua da nossa residência e afectos quer nos mais desconhecidos lugares do planeta, da sua originalidade em modos de vida que em quase tudo diferem dos nossos, menos a condição primordial da humanidade. Andamos todos em busca da felicidade e da eliminação do sofrimento num mundo que nunca foi, apesar de tudo e de saberes maiores, pacífico e solidário. Toada do mar e da terra traz-nos até ao presente numa crónica de 2007, intitulada “Por uma Cidadania Plena”.

“Portugal não foi. Portugal é um país de emigrantes. Mas Portugal, fruto do desenvolvimento e das transformações sociais, culturais, políticas e económicas que se verificaram depois da Revolução de Abril de 1974 e da sua integração europeia, ganhou capacidade de atração, ou melhor, aumentou essa capacidade de atrair imigrantes. Porque receber cidadãos estrangeiros, sempre recebeu. Cidadãos provenientes das mais diversas origens e com motivações igualmente, distintas. Mas se a história portuguesa é feita de constantes partidas e chegadas, hoje, mais que no passado, as chegadas, não pelo seu número, mas, pelo seu impacto social e económico e, sobretudo pela situação internacional decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, assumem uma atenção e preocupação redobrada”.

Aí está. A visão de Aníbal C. Pires em Toada do mar e da terra faz-me lembrar a “poética da relação” do grande escritor francófono Édourd Glissant, natural da ilha de Martinica, nas Caraíbas. Li a versão em língua inglesa de Poetics of Relation, em que ele propõe que as ilhas nunca foram lugar de isolamento, mas sim de encontros, absorvendo constantemente os que nos vêm de fora, e sobretudo confirma não as nossas diferenças, mas o que nos une para além de línguas, sotaques e um ou outro modo de ser. É o que temos nestas belas páginas do autor de Toada do mar e da terra, a vida múltipla de um povo, e sobretudo o seu olhar constante para além do horizonte. Não se trata só aqui do relacionamento entre nove ilhas há mais de 500 anos em busca do seu encontro fraterno e sócio-económico. Sobretudo, de como os Açores têm e terão sempre de desenvolver ainda mais os seus relacionamentos com o exterior, tanto nas suas partidas históricas para todos os cantos do mundo, como agora num mais vasto recebimento dos seus convidados, que começam a visitar-nos e a conhecer-nos em números nunca vistos.

Toada do mar e da terra, pelas datas em cada crónica, faz-me recuperar alguns anos da minha desatenção, como aliás já mencionei. É isto que nos deve proporcionar a história, e ainda mais a história comentada, fazendo-nos adquirir novas perspectivas, mesmo que divergentes ou controversas, despertando o nosso pensamento e um melhor entendimento de nós próprios, do nosso lugar e do nosso tempo. Nem só o passado nos define. A consciência de termos sido é também a consciência de quem somos, ou gostaríamos de ser. A propósito, Aníbal C. Pires publicou ainda em 2009 a sua tese de mestrado intitulada significantemente Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração.

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Aníbal C. Pires. Toada do mar e da Terra/volume I 2003-2008, (ilustrações de Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Parte deste texto foi retirado do prefácio ao presente

Habituado, que estou, aos índices de humidade mais elevados e às temperaturas mais amenas se S. Miguel, confesso-vos que já é difícil aguentar com as altas temperaturas e com o ar seco de verão na interioridade continental onde nasci e cresci.

Aníbal C. Pires, Toada do mar e da terra

Vamberto Freitas

Aqui há algum tempo tive o prazer e a honra de prefaciar e apresentar O Outro Lado: palavras livres como o pensamento (2014), alguma da poesia de Aníbal C. Pires. Evitei propositadamente algumas palavras, especialmente “político” e “política”, assim como qualquer menção a ideologia ou opções partidárias. Não que a literatura esteja livre de ideologia, que diz, sempre, algo não só sobre o estado de alma do seu autor, como, directa ou indirectamente insinua a natureza da sociedade, a sua historia, o seu tempo. Este não é o primeiro livro de prosa do autor (que mencionarei mais à frente), mas nestas páginas ser-me-ia impossível, e até desonesto, aludir às posições cívicas tomadas e partilhadas por um autor consciente de toda a problemática da sua sociedade, e que não hesita nem na crítica, na sugestão de posições, de soluções, ou pelo menos não hesita na tentativa de abrir um diálogo com os seus leitores sobre o quotidiano que vivem e as possibilidades de um outro futuro. Certas palavras aqui, portanto, são inevitáveis e muito bem-vindas, por entre alguns textos de cariz abertamente poético e de celebração à chamada “vida em ilha”, como um dia me mencionou uma alta figura de um dos primeiros governos regionais do nosso arquipélago. Ante de mais, devo confessar que o próprio titulo de crónicas e ensaios em Toada do mar e da terra remete-me de imediato para um outro autor progressista do nosso cânone literário, o falecido Dias de Melo, com quem suspeito por parte de Aníbal C. Pires afinidades memoriais sócio-económicas, e sobretudo culturais. Este é um primeiro volume, que data dos anos 2003-2008, e este facto é para mim de grande significado, pois foram o início dos meus próprios anos de chumbo devido a “catástrofes” familiares de doença e as subsequentes sequelas que ainda hoje permanecem – e vão permanecer – em mim. Ler sobre o que vivia e pensava, e seria depois uma das figuras políticas açorianas durante esses anos é como ler e dar-me consciência pela primeira vez do que ia à minha volta, do que enfrentava a minha sociedade. Não deve haver nada de mais “egoísta” do que a doença, quando nos força a virar-nos totalmente para dentro, pouco ou mais nada fazendo sentido para além das agonias pessoais, ou o sofrimento indescritível de quem amamos. Ler Toada do mar e da terra foi para mim ainda mais do que isso: foi ler um dos nossos melhores colunistas da imprensa regional, com as suas linguagens de clareza inequívoca, intelectualmente honestas, de uma grande riqueza lexical – e depois as destemidas posições que nos apresenta sem nunca insinuar numa só frase o desrespeito pelos que com ele discordam, ou então travavam duras lutas políticas dentro e fora das estruturas partidárias.

De seguida, queria lembrar que Aníbal C. Pires é natural do interior de Portugal, mas encontra-se a viver nos Açores há muitos anos, onde tem exercido com distinção o professorado no ensino público da região (São Miguel), e durante os anos mais recentes foi deputado pela CDU na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Esta pouca informação biográfica tem só um objectivo neste meu escrito – relembrar que ser-se açoriano pouco tem a ver com o lugar de nascença ou mesmo de ancestralidade. Muito mais do que isso, será um estado de espírito que invade quem connosco decide viver e enfrentar o destino a partir de pequenas ilhas a meio atlântico, olhando para sempre o resto do país ou do mundo na condição de “ilhéu” universalizado pela sua experiência e contacto diário com as mais longínquas geografias. Nas palavras da epígrafe que uso aqui, numa tentativa de resumo de tudo que vos desejo comunicar sobre este livro, Aníbal C. Pires diz quase tudo. Visitar as origens de nascença, alguns dos seus mais próximos que lá ficaram para sempre, nunca deixará de ser um imperativo pessoal e uma outra viagem de saudade, mas o seu verdadeiro lar português fica neste lado do Atlântico. Aguentar outro clima é naturalmente possível, mas todo o nosso ser clama pelo “território do coração”, pela convivência com a família, com os amigos, com os colegas, com a luta diária pela pequena sociedade Coisa estranha da minha parte ante este poeta e escritor. Nunca penso nele, nem nas nossas conversas algo frequentes, e muito menos na sua escrita, como militante político, antes no activo e agora provavelmente só nos bastidores. Não estarei só. Na apresentação que fiz da já aqui referida poesia, perante uma grande audiência no Coliseu Micaelense, olhava para todos e via gente de todo os partidos políticos, desde os mais conservadores de direita aos mais radicais de esquerda, numa demonstração saudável do respeito mútuo e da apreciação da arte para além das questões momentâneas da política ou do combate parlamentar. Se olhássemos a grande literatura pela perspectiva ideológica dos melhores autores do mundo, garanto-vos que as nossas leituras seriam muitíssimo mais reduzidas, perderíamos o melhor que a humanidade nos oferece, as visões infindáveis da nossa condição, dos nossos desesperos, dos nossos desejos e sonhos, perderíamos a capacidade de tentar perceber a vida dos “outros” e do modo como enfrentaram e sobrevivam bem ao nosso lado, quer na mesma rua da nossa residência e afectos quer nos mais desconhecidos lugares do planeta, da sua originalidade em modos de vida que em quase tudo diferem dos nossos, menos a condição primordial da humanidade. Andamos todos em busca da felicidade e da eliminação do sofrimento num mundo que nunca foi, apesar de tudo e de saberes maiores, pacífico e solidário. Toada do mar e da terra traz-nos até ao presente numa crónica de 2007, intitulada “Por uma Cidadania Plena”.

“Portugal não foi. Portugal é um país de emigrantes. Mas Portugal, fruto do desenvolvimento e das transformações sociais, culturais, políticas e económicas que se verificaram depois da Revolução de Abril de 1974 e da sua integração europeia, ganhou capacidade de atração, ou melhor, aumentou essa capacidade de atrair imigrantes. Porque receber cidadãos estrangeiros, sempre recebeu. Cidadãos provenientes das mais diversas origens e com motivações igualmente, distintas. Mas se a história portuguesa é feita de constantes partidas e chegadas, hoje, mais que no passado, as chegadas, não pelo seu número, mas, pelo seu impacto social e económico e, sobretudo pela situação internacional decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, assumem uma atenção e preocupação redobrada”.

Aí está. A visão de Aníbal C. Pires em Toada do mar e da terra faz-me lembrar a “poética da relação” do grande escritor francófono Édourd Glissant, natural da ilha de Martinica, nas Caraíbas. Li a versão em língua inglesa de Poetics of Relation, em que ele propõe que as ilhas nunca foram lugar de isolamento, mas sim de encontros, absorvendo constantemente os que nos vêm de fora, e sobretudo confirma não as nossas diferenças, mas o que nos une para além de línguas, sotaques e um ou outro modo de ser. É o que temos nestas belas páginas do autor de Toada do mar e da terra, a vida múltipla de um povo, e sobretudo o seu olhar constante para além do horizonte. Não se trata só aqui do relacionamento entre nove ilhas há mais de 500 anos em busca do seu encontro fraterno e sócio-económico. Sobretudo, de como os Açores têm e terão sempre de desenvolver ainda mais os seus relacionamentos com o exterior, tanto nas suas partidas históricas para todos os cantos do mundo, como agora num mais vasto recebimento dos seus convidados, que começam a visitar-nos e a conhecer-nos em números nunca vistos.

Toada do mar e da terra, pelas datas em cada crónica, faz-me recuperar alguns anos da minha desatenção, como aliás já mencionei. É isto que nos deve proporcionar a história, e ainda mais a história comentada, fazendo-nos adquirir novas perspectivas, mesmo que divergentes ou controversas, despertando o nosso pensamento e um melhor entendimento de nós próprios, do nosso lugar e do nosso tempo. Nem só o passado nos define. A consciência de termos sido é também a consciência de quem somos, ou gostaríamos de ser. A propósito, Aníbal C. Pires publicou ainda em 2009 a sua tese de mestrado intitulada significantemente Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração.

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Aníbal C. Pires. Toada do mar e da Terra/volume I 2003-2008, (ilustrações de Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Parte deste texto foi retirado do meu prefácio ao presente livro.

Da crónica como poesia, da poesia como memória

Por causa de um texto que me foi pedido sobre Ponta Delgada, dou passos amargos no chão da cidade. Como se da alma caíssem lágrimas feridas e o caminho fosse, apenas, o recorte de uma lembrança.

Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas

Vamberto Freitas

Primeira afirmação: escrevo sobre parte da obra de Emanuel Jorge Botelho, agora a 2ª edição do em dois volumes do que ele decide chamar de “crónicas”, desde os anos 80, poesia e escrita-outra. Se digo “escrita-outra” é porque a classificação de formas e géneros que não consigo distinguir. Os versos da sua dita prosa criativa, formalmente ambígua (no melhor sentido da palavra), são, uma vez mais, quase inclassificáveis, como suponho ser toda a grande literatura moderna, ou mesmo de todos os tempos em que a palavra foi grafada de vários modos. Emanuel Jorge Botelho não é um escritor qualquer, é dos melhores manipuladores da nossa língua em qualquer parte a que já nos habituamos a chamar de lusofonia. Que o faz a partir de uma pequena ilha açoriana, tanto melhor, só demonstra que a grande literatura não tem geografia nem circunstâncias especiais. Sai do artista a palavra significante em qualquer parte, com ou sem divulgação especial, com ou sem a palavra supostamente decisiva dos “críticos” ou “ensaístas, institucionais ou independentes. Raramente a grande escrita é reconhecida no seu próprio tempo, e muito menos ainda no seu próprio lugar ou país. James Joyce sabia, suponho, tal como William Faulkner o sabia, entre tantos outros e em toda a parte. Faz parte da ironia da própria arte, faz parte da nossa desatenção e tendência para as modas do momento ou, ainda pior, para atenção que prestamos às máquinas publicitárias, especialmente da pós-modernidade, nas grandes cidades onde se localizam as editoras e periódicos de voz supostamente de autoridade inquestionável. As ironias que marcam a obra do micaelense Emanuel Jorge Botelho são muitas, e todas a seu favor. Dos mais “açorianos” de todos os escritores açorianos é ele que nunca escreve certas palavras que delimitam a sua geografia e, no entanto, é ele que mais intensamente a vive, tornando a ilha o mundo inteiro, e o mundo inteiro a sua ilha. Rua a rua, prédio a prédio, personagem a personagem, vida real e a vida imaginada, passado nunca esquecido, perda a perda, quer de entes queridos amigos chegados ou mentores escolares, a sua poesia e “prosa” é uma de memória indelével e de alma aberta, que nenhum leitor poderá deixar de se rever, de se repensar, de se reinventar mesmo, nos seus recantos perdidos e reencontrados sob outras formas e modos de vida. Dito de outra maneira, o mais açoriano de todos os escritores açorianos poderá só ter Vitorino Nemésio como figura comparável, na poesia ou no acto artisticamente universal. Só com uma grande diferença: Nemésio vivia a saudade ao longe e um tanto sentimental. Emanuel Jorge Botelho vive a saudade no meio da sua cidade de nascença e vivência quotidiana. Desde sempre, e até hoje. De Nemésio temos o cheiro a mero sentimentalismo à distância. A do autor aqui em foco, Emanuel Jorge Botelho, vive a sua ilha diariamente nas ruas que foram suas, e já não são. A “verdade” da palavra faz toda a diferença. A arte literária não tem nada de ser “honesta”. A verdade da palavra não tem nada de corresponder ao momento da sua criação. Só tem de ser autêntica, a “autenticidade” de que nos falava o nova-iorquino Lionel Trilling. É o que temos nesta incomparável obra do autor de 30 Crónicas (em dois volumes), e de inúmeros livros de poesia pura.

Pela enésima vez peço ajuda a Edmund Wilson numa tentativa de entrar dentro desta fabulosa escrita de Emanuel Jorge Botelho. Wilson acreditava (erradamente, como o tempo veio a comprovar) que a prosa modernista acabaria por absorver a poesia até então só entendida em forma de versos. Só que não errou na recorrência mais diversa, entre os melhores autores do seu e do nosso tempo, à poetização da palavra em prosa. Emanuel poderá chamar o que quiser, em termos de género, à literatura que produz desde há muito, mas estas 30 Crónicas são algo muito mais do que isso. Foram publicadas originalmente como tal no extinto quinzenário Terra Nostra, e já então por esse meio eu lia-o com outro espírito e interpretação. São como que poemas em verso livre, todos eles com um determinado fio condutor, e um tom elegíaco a gente amada desaparecida, aos lugares da sua infância, ao sentido mais profundo de pertença a uma pequena cidade açoriana que virava um continente imenso de vida e afazeres, e todos os continentes se tornavam, parafraseando um filósofo de cá, a “casa do seu ser”. Nada e ninguém lhe escapava na felicidade ou na tristeza do momento ou do que ficou para sempre no seu sangue, no seu modo de ser e estar, quer no passado quer nos dias presentes. São as “crónicas” das suas perdas, de um mundo sem retorno, mas que nele vive o seu olhar sobre as coisas e as gentes. Poderá falar de uma vizinha costureira, simplesmente, mas torna-a uma personagem inesquecível, busca e encontra a sua humanidade, com a qual o leitor se identifica sem complexos nem sentimentos absurdos do riso sem razão ou da lágrima sentimental. Ler a descrição de uma rua que já nada tem do seu tempo de infância e juventude, é como passearmo-nos numa cidade que nunca conhecemos, mas que se torna parte de nós. Essa Ponta Delgada de outrora não era apenas uma pátria que nos dá vida – é todo um universo que desperta a nossa imaginação e nos dá um outro sentido de saudade, em que o remorso das perdas convive com a alegria dos que nos rodeavam e protegiam, faziam de nós algo mais do que seres isolados, irrequietos, alienados, marcados por ódios e invejas provindas de nunca vermos o outro como nosso par ou vizinho e que comunga da nossa sorte na vida. A palavra não dita tem tanto poder significante como a que ele escreve, inserida numa prosa poética tão curta como vasta. Numa entrevista que lhe fiz nos idos de 1993, dizia-me algo de semelhante, e a que recorro agora.

“O intimismo é uma conquista solitária ou, pelo contrário, uma síntese sitiada, da solidariedade?

Quando pouso (ouso pousar…) os punhos no papel, sei que os tenho fechados, e que estou sozinho.

Mas desconheço por completo, se estarei só”.

Esse “intimismo” de que nos fala está sempre guardado nos seres e nos lugares que lhe deram vida, e sobretudo significado de vida, nos seus dias perdidos. Mantém uma memória viva das suas irremediáveis perdas, mas que continuam presentes no seu “silêncio”. Algumas das páginas mais contundentes não só se dirigem à família que o rodeia no seu quotidiano, mulher, filhos e até os bichos que se passeiam nos quartos da sua casa, como muito especialmente à recordação do olhar do seu falecido pai. Recria nestas páginas o seu companheirismo em cenas inesquecíveis. Ir à praia com ele diariamente pelas seis e pouco da tarde, e sentar-se na areia a vê-lo dar os mergulhos da saúde, e mais tarde lembrar que a sua carreira exemplar de carteiro seria menosprezada por uma comissão de gente que entendeu reduzir-lhe a quantia da reforma a que tinha direito pela sua dedicação e profissionalismo. Di-lo, como sempre, em pouquíssimas palavras, mas abre-nos o retrato de todo um país doente e injusto desde sempre. A primeira parte da sua dedicatória neste segundo volume das “crónicas” não deixa dúvidas a ninguém: “em memória de José Maria Botelho, o meu pai”. Para um poeta e prosador como Emanuel Jorge Botelho, que tem o mundo inteiro na mente e na alma, não deixa de ser irónico, ou então o mais honesto de todos os nossos escritores. Somos os nossos mais chegados antepassados, e a nossa terra o chão de todos os afectos e memórias, a terra que nos define e nos proporciona a nossa mais profunda identidade. Nenhum escritor será do mundo antes de ser da sua casa e do seu “território do coração”, como diria outro escritor numa outra língua.

Por fim, diga-se que os dois volumes sob o título de 30 Crónicas são ilustrados pelo não menos genial Urbano, cuja biografia e vida artística vêm anotadas nas últimas páginas. O melro preto pousado ou em voo está em perfeita sintonia com esta escrita da terra açoriana e do espaço sem fim com símbolos predominantes. Ler Emanuel Jorge Botelho e olhar a beleza desta edição é um reencontro com nós próprios, com tudo o que nos traz memória e vida vivida. É raro na nossa literatura encontrar tanta beleza e verdade.

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Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas (com ilustrações de Urbano), Ponta Delgada, Letras Lavadas/Artes e Letras, 2017.

Crime e castigo dos inocentes durante a ditadura salazarista

O que Carlos Ildefonso Tomé não sabia era que esse mesmo exemplar do Diário de Lisboa iria ter importância decisiva no seu futuro.

Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por dizer que este é o primeiro livro de ficção de Carlos Tomé que leio, se bem que lia atentamente aqui há uns bons anos as suas crónicas na revista dominical do Açoriano Oriental, e já cultivava então a minha admiração pela sua prosa limpa e curta sem nunca defraudar os seus leitores quanto à relevância dos seus temas em foco. Autor sempre atento à História e ao seu próprio envolvimento na vida dos nossos tempos, este seu novo romance Um Perigoso Leitor De Jornais foi uma das melhores surpresas da literatura açoriana de temos recentes. Se digo literatura açoriana claro que também, como sempre, quero dizer literatura portuguesa, até porque o seu tema é a injustiça, arbitrariedade e o sofrimento tanto dos militantes como dos inocentes durante os piores anos do regime salazarista, nestas páginas todo ele situado na cidade de Ponta Delgada, e depois no Castelo de São Baptista em Angra do Heroísmo, em “celas” tão demoníacas como cruéis, denominadas de Poterna. O tempo ficcional desta narrativa política e ideológica vai de 1937 a 1940, mas quero realçar que se trata de uma obra literária que ultrapassa essas questões no retrato que nos devolve da nossa própria humanidade e desumanidade, particularmente na criação de alguns personagens inesquecíveis. Aliás, são poucos os escritores entre nós que conseguem fugir das ideias e focar-se no interiorismo dos seus seres inventados ou reinventados, como é definitivamente o caso de Um Perigoso Leitor De Jornais. A última nota deste romance, curta e escrita em itálico, não deixará dúvidas a ninguém. Trata-se de uma espécie de biografia romanceada, sem o sentimentalismo ou pregação de um neorrealismo que dominou a nossa literatura há umas poucas décadas. Na verdade, a trama política dá lugar aqui a descrições que por vezes parecem quadros das vidas naquela época, e de todos os estratos sociais, com o seu protagonista micaelense como excepção predominante, que vai permanecer como um vivo símbolo da pobreza, da seriedade, da aceitação do seu lugar na comunidade, mas sem que nada dessa realidade o proteja da perseguição cega de uma ditadura que actuava permanentemente na desconfiança e paranóia. É o perfeito contraponto – particularmente quando ainda alguns tentam afirmar a benevolência do regime em relação a outros do mesmo continente europeu e em vários países que nos levariam ao holocausto e a um inferno que queimou milhões de seres humanos.

Que houve aturada investigação histórica para este romance, não tenho qualquer dúvida, por melhor que seja o conhecimento do autor do passado da sua família e o seu instinto de jornalista-escritor. Do mesmo modo, as suas conotações ideológicas estão claríssimas para qualquer leitor, a defesa da liberdade está implícita no tratamento dos que o regime entendia como inimigos, ou meros colaboradores desses dissidentes, todos os que não alinhavam activamente com o chamado Estado Novo. Dito isto, tenho agora de afirmar que poucos escritores entre nós têm a capacidade de construir personagens e protagonistas tão inesquecíveis, pela capacidade do autor em fazer o que a crítica americana diz ser bringing out character, ou seja, deixar que entremos no seu interiorismo emocional ou em qualquer outro estado de ser e estar num dado momento do seu percurso de vida. Carlos Ildefonso Tomé é um humilde carteiro na cidade de Ponta Delgada, com nove filhos e uma esposa para sustentar dia-a-dia, criando juntamente com eles nos seus serões da noite açoriana daquele tempo pequenos soldados de chumbo para certos colecionadores. É leitor de jornais locais, e a dada altura topa que de quando em quando entrega o Diário de Lisboa, que chega sempre num nome que não corresponde ao habitante de certo endereço. Começa a questionar quem recebe o jornal, que sabe muito bem cujo verdadeiro nome difere do que vem na badana colocada em Lisboa, e ameaça deixar de entregar o jornal por pensar que se trata de uma ilegalidade que lhe pode trazer problemas com os seus superiores. Por outras palavras, Carlos Ildefonso Tomé não se envolve ou sequer discute política, é um cidadão que convive como pode e sabe numa sociedade amordaçada. Só que o habitante de nome falso não pode nem quer deixar de receber um outro jornal que vem escondido dentro do periódico permitido pelo governo de António Oliveira Salazar e a sua primeira polícia política, PVDE (antecedente da não menos tenebrosa PIDE), a que tinha olhos e ouvidos em todos os recantos do país, não fora o tempo da mais feroz guerra civil ali no outro lado da fronteira, e toda a Península Ibérica e as suas possessões ameaçadas pelo mais feroz dos exércitos sob a aliança do Eixo.

Dentro do jornal que o carteiro entrega vem escondido o Avante!, voz oficial, como todos sabemos, do Partido Comunista Português, e o verdadeiro nome do seu destinatário aqui em Ponta Delgada chama-se António Faria, jovem, discreto, e sem qualquer mandato para “recrutar” novos militantes. Tem de o confessar a Carlos Ildefonso Tomé, que se vê agora numa situação muito ambígua pelo respeito que parece cultivar pelo cidadão em causa. Em sucessivas conversas, o carteiro pede e aceita ler alguns números antigos da publicação comunista, o que lhe traz uma outra e radicalmente diferente versão da realidade, folhas que o expõem a uma retórica até então completamente desconhecida pela sua radicalidade oposicionista interna e pelos seus relatos de acontecimentos históricos na batalha entre espanhóis na defesa da república, que incluía comunistas pró-soviéticos, contra os fascistas liderados pelo General Francisco Franco. Após uma delação local, são inevitavelmente todos presos, uns enviados para Angra do Heroísmo, outros para o campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde, construído, relembra-nos aqui o narrador, segundo os que já existiam nos países esmagados pelo regime de Berlim. O dilema do carteiro Carlos Ildefonso Tomé fica redobrado, pois também desde há muito que recebe o Diário de Notícias, jornal histórico publicado em New Bedford e enviado por uma irmã sua lá residente. A prosa de Carlos Tomé é de uma clareza e linearidade exemplares, toda ela dividida em pequenos capítulos, que mais parecem contos autónomos mas interligados e levando o leitor à totalidade da história de ficção biográfica, deixando sempre que símbolos e metáforas despertem as mais variadas interpretações. Nem sequer alguns dos colaboradores do regime acreditavam na sua missão. A “vida em ilha”, como um dia me diria um alto dirigente político açoriano, requeria certo palavreado, e, quando necessário, boca calada perante a brutalidade oficializada, tal como em Peniche ou em Caxias, por exemplo.

“O polícia – diz a o narrador no momento da má sorte do carteiro – continuou a falar, sempre no mesmo tom de quem quase pede desculpa. Carlos é que deixou de o ouvir, atingindo a brutalidade pela certeza de que lhe estava a acontecer irremediável. Sentia-se desfalecer, as pernas mal aguentando o peso do corpo, e a cabeça parecia-lhe estar deslocada, pairando no meio da espécie de neblina que lhe invadira o campo de visão. Sabia estar na Rua do Lameiro, já terminando a distribuição daquele dia, e ainda lhe parecia ouvir o polícia com aquele ‘Boa tarde, senhor Tomé’ tão constrangido quanto anacrónico”.

Carlos Tomé é um dos escritores menos falados entre nós, por razões que nem eu sei explicar, e muito menos justificar. Sei que esta é a sua terceira obra de ficção, e uma delas foi mesmo estudada periodicamente na Universidade de Brown, nomeadamente o seu romance de “guerra” Morreremos Amanhã (2007). Tem ainda A Noite dos Prodígios e outras histórias (2002). Para além de jornalista aposentado e reconhecido por várias entidades, a sua vida profissional foi uma das mais distintas entre nós, tendo recebido a honra de Cidadão Honorário de Porto Alegre, Brasil, e a Medalha da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Muito do seu trabalho tem sido premiado aqui e ao longe. Falta-nos agora, falta-me a mim, pelo menos, ler o resto da sua obra, e sobretudo dar-lhe o lugar merecido ao lado dos nossos melhores escritores açorianos.

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Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2017.

 

 

 

De mim e do meu trabalho – II

True criticism recognizes itself as a mode of memoir… I believe there is no critical method except myself.

Harold Bloom, The Daemon Knows

Vamberto Freitas

 

 

Aqui está o borderCrossings: leituras transatlânticas IV. Segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados, no entanto, estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é a condição humana. Para mim, a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos. O experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica, e suspeita. Se não há nada dizer ou a representar, não haverá forma alguma que salve qualquer escrito. As palavras contam histórias, e essas histórias não perdem a sua complexificação quando escritas em linguagens claras, depuradas, e nas quais a metáfora e o símbolo universalizam, ou devem universalizar, o ser humano em qualquer geografia ou circunstância histórica. No centro da minha intervenção desde há muito que estão também as literaturas açoriana e luso-descendente, na América do Norte, ambas vindas ou intimamente associadas a duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, inclusive os chamados escritores canónicos bem mais conhecidos, mas não mais importantes para quem quer conhecer as suas próprias origens, a ancestralidade que nos colocou nos variados mundos do nosso destino, ou aos quais chegámos em busca de uma sobrevivência digna, ou vontade de ultrapassar os nossos próprios horizontes. Vitorino Nemésio, uma das nossas referências maiores, acertou por inteiro quando afirmou que “para nós a geografia vale tanto quanto a história”. Não conseguimos até hoje a projecção que desejamos, e porventura merecemos? As “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nessa suposta legitimação vinda de outros. Quem não conhece é que é ignorante, não os que sabem de si, e também dos outros. No mundo lusófono, os açorianos e os seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas ou do grande continente a oeste, que é a sua primeira pátria. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana,e a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

De resto, estarão aqui as minhas abordagens às mais variadas obras de ficção, poesia e ensaio que, em língua portuguesa, são essenciais a uma mais alargada contextualização das realidades que vivemos numa contemporaneidade já sem fronteiras limitativas para a nossa imaginação ou sentimento de pertença a espaços e a culturas que ainda há poucas décadas residiam só na nossa imaginação, por certo, mais míticas do que reais, como nos casos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil, que já recordei aqui nalguns textos referentes a obras de jovens escritores brasileiros. Vivemos desde sempre, e intensamente, a nossa história nacional, essa que esporadicamente foi decidida a partir das ilhas açorianas, e, por sua vez, cada decisão tomada em Lisboa sempre teve, tem e terá imediato impacto directo nas nossas vidas a meio atlântico. Somos parte integrante da Nação, mas, como açorianos, não pertencemos de todo ao seu imaginário. Porém, quanto a literatura e escritos-outros, o nosso contributo tem sido imenso – desde Antero de Quental e outras conhecidas figuras dos séculos XIX e XX, até a um rol cada vez mais conhecido de escritores e poetas nossos contemporâneos. Se entre eles encontrarem um ou outro livro de autores vindos de outras línguas, é porque falar de nós sem termos consciência do nosso lugar no resto do mundo seria, no mínimo, estranho. A verdade é que hoje o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países por todas as capitais, ou nos mais variados eventos literários e culturais, é quase, felizmente, um acontecimento diário.

Não me seria possível escrever sem me dirigir à literatura norte-americana, parte primeira da minha formação na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton. Presto aqui homenagem a dois dos meus grandes mestres que leccionaram na minha alma mater: William Koon, pela introdução, e depois estudo profundo, da literatura sulista, e não só, redefinindo o que é “regionalista” ou “nacional” numa cultura moderna e pluralista, como é a dos Estados Unidos; Michael Holland, um dos últimos new critics na academia americana nos primeiros anos da década de 70, formado que era em literatura europeia, dizendo-me repetidamente que quase toda a teoria da literatura que então despontava nos departamentos de línguas e literaturas por toda a parte era um waste of time/tempo perdido, e saber ler e interpretar qualquer texto, de qualquer género, requer apenas sensibilidade crítica e estética, procedendo ele depois à definição do que torna um texto uma peça de arte, ou outra coisa. Michael exagerava brilhantemente — achava que o close-reading, com a sua atenção ao tempo ficcional, ao tom da linguagem ou à sua ironia ou não, ao andamento rítmico da narrativa (leiam sempre em voz alta, quando vos for possível, aconselhava ainda ele, para não perderem a musicalidade bela de um bom texto), ao ponto de vista do narrador ou da narradora, a sua fiabilidade na história que nos conta, era a única chave essencial à desconstrução ou descodificação de um texto. Não havia muito mais a levar em conta – esqueçam a biografia de um autor, o texto ou valia por si, ou não valia nada, o nome do autor apenas um nome, absolutamente dispensável para além de o podermos identificar e arrumar na estante. De acordo com tudo – menos neste último ponto. Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo. Edmund Wilson, que dizia detestar a nova crítica, tornar-se-ia a minha referência inescapável quanto a biografismo e historicismo na percepção ou interpretação de uma peça literária. Um olhar de cada extremo para o meio da ponte, o equilíbrio possível, suspenso na dúvida ou na interrogação, que qualquer leitura aprofundada requer. Por outro lado, a literatura tem de ser algo mais do que “forma” ou mero acto “estético”.

Para mim não há beleza sem significado, não há beleza sem o olhar humano, sem a perspectiva de quem recebe palavras, imagens e sons. Creio que era Jorge de Sena quem dizia que uma foto espacial, sem qualquer indício da presença do humano, não lhe interessava minimamente. Poderá ser um modo discutível de colocar a questão, mas a verdade é que toda a nossa exploração do Universo parece ter esse o primeiro e último objectivo – encontrar sinais de vida, de qualquer vida, nessa distância galáctica. A literatura é esse registo de como vivemos e sobrevivemos, sobretudo em comunidade, parte de um todo simultaneamente como sujeitos activos e decisivos e como indivíduos cujas obrigações incluem decididamente a “obediência” a regras de convivência e justiça entre todos os que connosco partilham os nossos espaços, cada vez mais, como já referi, sem fronteiras de qualquer espécie. A crítica é também a memória de quem a escreve, o registo de como vemos e vivemos o nosso tempo transfigurado na literatura mais séria, numa tradução mais ou menos livre da epígrafe que aqui vai tirada de um texto de Harold Bloom. Toda a literatura é memória.

É isso a essência do que tento fazer nestas páginas semanalmente. A vida é curta e preenchida de mais para que eu gaste um segundo com livros sem qualidade estética ou relevância temática, ou simplesmente livros que não me dizem seja o que for adentro dos meus interesses ou preocupações sócio-culturais e políticas, o que, para mim, é o todo, ou o quase todo, de uma sociedade. Entretenha-se quem quiser com jogos de palavras vazias, com acrobacias formais tão ao gosto de certas teorias da literatura – e sabemos aonde nos levaram estas, dentro e fora dos seus contextos institucionais.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas IV, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

Parte deste texto serviu de prefácio ao meu volume BorderCrossings: leituras transatlânticas III, publicado em Março de 2016, e agora, em forma mais longa, a este IV volume do livro.