Da União Soviética e do que viria depois

Claro que se trata de fragmentos da minha memória, mas não foram escolhidos com outro fim especial além daquele de mostrar a evolução de um jovem que nasce numa família de pescadores, frequenta um seminário católico, parte para a União Soviética e acaba por lá ficar quase 40 anos.

José Milhazes, As Minhas Aventuras no País dos Sovietes

Vamberto Freitas

Não houvesse mais do que as palavras que cito aqui em jeito de epígrafe, e só elas bastariam para despertar o interesse de qualquer leitor minimamente curioso sobre o destino português e as nossas “aventuras” de emigração em praticamente quase todos os países do nosso tradicional destino, a União Soviética constituindo definitivamente um caso único para além de um número relativamente reduzido dos nossos compatriotas, e suponho que quase todos eles alinhados, ou pelo menos intimamente relacionados, com o Partido Comunista Português. Este magnífico livro As Minhas Aventuras No País dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi é, adentro de um género praticado ou escrito por muitos autores internacionais que viveram situações públicas ou político-estatais pouco comuns, torna-se uma combinação de autobiografia e de memórias acerca de um tempo e de lugares profundamente vividos, em que as responsabilidades profissionais estão ligadas à vida pessoal ou familiar do seu autor. Depois, poucos de nós passaram toda uma juventude num país tão distante cultural e politicamente considerado, completando uma licenciatura numa universidade desse império enquanto se aprende a sua língua e linguagens num dia-a-dia de contínuo reajustamento a uma nova cultura e ideologia abertamente em luta permanente com boa parte do Ocidente, em busca de pão e de condições vivenciais nada fáceis, desde alojamentos e alimentação num clima totalmente oposto ao das suas condições pátrias. São estes outros factores que, a mim, só suscitam admiração e surpresa ante tanta vontade ou, quem sabe, resignação ou crença num projecto tanto pessoal como colectivo que poucos de nós aceitariam ou enfrentariam com tanta calma, por assim dizer, e integrar-se numa mundividência muito longe da nossa experiência sócio-económica e cultural em Portugal. Não posso deixar de mencionar aqui o meu fascínio por José Milhazes quando me aparecia via televisão de Moscovo, de Kiev e de outras localidades da União Soviética, de barba cumprida, de gorro enfiado até às orelhas e de casacos ultra pesados a relatar os últimos e dramáticos acontecimentos um pouco por toda a parte na então grande potência – para a maioria de nós misteriosa, e até temerosa, com a serenidade de quem está em casa ou perfeitamente confortável na Praça Vermelha. Para um telespectador ou ouvinte de rádio aqui isso era quase como rever o primeiro homem a chegar à Lua, ou a um país simultaneamente distante e estranho. Só que, depois da minha leitura deste inesperado livro percebi finalmente que as nossas andanças pelo mundo nunca foram convencionais ou de sonhos comuns – foram sempre de aventura na descoberta de um Outro, na descoberta das terras em tudo alheias que sempre nos seduziram desde a partida das primeiras naus, até hoje. As aventuras deste autor na antiga terra dos czares (que estão de volta) e de Lenine e dos seus muitos sucessores, nada de estranho nos deveria ser. Crença e coragem, força interior e capacidade intelectual e política fazem também parte do nosso ser, mesmo que a maioria opte for ficar onde nasceu, e enfrentar de caras os nossos próprios carrascos e malabaristas estatais de toda a espécie.

José Milhazes, filho de pescadores na Póvoa de Varzim, filia-se na juventude comunista e parte para Moscovo como estudante do ensino superior aos 17 anos de idade, em 1977, e só regressa ao seu pais de nascença em 2015, depois de já ter organizado a vinda para Portugal da sua esposa natural da Letónia e dois filhos, enquanto ele ficou para presenciar e relatar o que restava do antigo império soviético, o que intitula num dos capítulos desde livro, na fase de transição política “Os Malditos Anos 90”, e todo o drama violento vivido pela Federação Russa que hoje conhecemos, desde as conspirações e das contra-conspirações dos duros do regime soviético caído seguido de golpes e contra-golpes de Boris Yeltsin até à queda de Mikhail Gorbachov, e a chegada de Putin, num cenário das mais corruptas privatizações e gangsterismo de todos os tipos, com prisões, guerras civis em antigas repúblicas da União, mortes militares e actos terroristas, extrema miséria económica e ameaças de todo o género como modo de vida diárias. José Milhazes mantém-se no seu posto, e presencia em directo a Revolução Laranja em Kiev, a tomada pseudo-eleitoral e militar da Crimeia, assim como a suposta pacificação de outras repúblicas e territórios em guerra fratricidas. Pelo meio, vai convivendo a ajudando os seus vizinhos nos arredores de Moscovo, recebe e acompanha políticos portugueses em visita à potência caída, incluindo Mário Soares, Zita Seabra e outros, tudo isto enquanto lida com as suspeitas sobre o seu trabalho e ao serviço de quem. Hoje sabemos que ele era absolutamente independente, e desta leitura deduzo que a sua desilusão final vem com a queda do líder, que nunca deixou de ser comunista, Mikail Gorbachov, a sua última esperança de abertura e renovação de todo o sistema, e que manteria, pensava-se então, um comunismo de face humana. Durante este seu percurso na União Soviética percebemos que convive em perfeita harmonia com os seus vizinhos no prédio onde residia no seu apartamento com a família, mantinha as mais chegadas relações com colegas e amigos, estava na casa dos seus afectos e de longa vivência. As fotos que acompanham este livro, desde a sua juventude até aos últimos anos na Rússia, dão testemunho do alto apreço que tinha entre uns e outros, desde cidadãos comuns a todo o tipo de oficialidade. Nada comum para um filho de gente humilde no nosso país, nada comum entre a maioria que se havia refugiado no ou perseguido o sonho comunista da grande potência que um dia foi a União Soviética.

Permitam-me aqui uma nota pessoal, pela sua ironia. José Milhazes começou a sua carreira como tradutor de cinema e de outras artes e livros uma editora soviética responsável por todo o tipo de propaganda internacional, a Editora Progresso/Progress Publishers, situada naturalmente em Moscovo. No momento em que ele lá desempenhava as suas funções, eu era um jovem universitário no Orange County, no sul da Califórnia mais conservadora. De quando em quando, antes e depois de 25 de Abril, eu visitava com um outro colega e amigo açoriano a livraria do Communist Party USA, em Los Angeles, para comprar livros da literatura clássica russa, e não só, que eram enviados para lá a preços subsidiados muito baixos, de capa dura, ilustrados e magnificamente traduzidos. Foi lá que ouvi pela primeira vez o nome de Álvaro Cunhal, levando uma grande “lição” política de um velho militante por não saber quem era na altura o grande teórico comunista internacional. Tenho alguns desses cobiçados livros na minha estante aqui em Ponta Delgada, como o Selected Works in Two Volumes (1973), de Anton Chekhv, Soviet Russian Stories of the 1960’s and 1970’s, The City of the Yellow Devil, de Maxim Gorki (1972), entre alguns outros. Lembro-me ainda de visitar uma gigantesca exposição sobre a vida da União Soviética em Los Angeles, sabendo muito bem que éramos fotografados à entrada e à saída por alguns dos serviços secretos, inclusive pela polícia da própria cidade. Só me recordo disto: de ficar fascinado pela cordialidade e formação dos soviéticos que nos mostravam e explicavam cada amostra da vida soviética, nunca me esquecendo que era tudo parte propaganda e porventura parte da verdade. Até hoje recordo esses momentos como uma educação de como olhar para o Outro, que até então nunca me tinham parecido estranhos e malfeitores. Coisas da juventude, mas também coisas da nossa comum humanidade, para além de ideologias e desconcertos do mundo.

Ironia das ironias, o meu outro país de nacionalidade dupla é os Estados Unidos da América, e é governado por um Donald Trump, que recuso aqui a classificar, mas sei muito bem o que penso dele, e o medo que sinto pelo futuro desse país, onde vive praticamente toda a minha família. No caso de José Milhazes, tem Vladimir Putin. É um empate muito triste. Encontramos agora os dois nossos países de adopção nas mais abismais condições políticas. Tenho de concluir este texto com uma citação que encerra As Minhas Aventuras nos País dos Sovietes: A União Soviética tal com a vivi: “Quando se vive tão longe de Portugal, compreende-se de forma muito profunda que temos o melhor país do mundo, mas também se entende quão mal gerido ele é. É pena.”

É, sim. Só com uma grande diferença. Ainda não nos prendem à meia noite ou de madrugada, não nos assassinam, pelos menos fisicamente. O resto faremos, como sempre, à moda portuguesa – não vemos, não ouvimos, pretendemos não saber de nada. Os órgãos de informação falam sozinhos, de si para si. Temos o sol e a praia, a colorida luz de Lisboa. Só que após mais de oitocentos de História temos também a longa memória de “salteadores de estrada”, como dizia um grande poeta açoriano nas suas conversas, ainda por resolver.

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José Milhazes, As Minhas Aventuras No País Dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi (4ª edição), Lisboa, Oficina Do Livro/LeYa, 2017.

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Da geração seguinte e do seu mundo

Acabou a época da incapacidade acidental sem castigo. Saímos da água entre suspiros nostálgicos e já não amaldiçoamos a última areia que incomoda.

Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído

Vamberto Freitas

Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50. Não, não vou falar da sua carreira em Lisboa, e como ele entra na minha sala, sem pedir licença de quando em quando. Vejo-o e entendo-o em primeiro lugar como um escritor açor-continental, que cultiva a crónica, primorosa, a escrita na sua mais clara expressão, cheia de sentido, humor e significado. Quando o leio-o, vejo logo o seu sorriso, o que provoca o meu. Este seu mais recente livro, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído é demasiado açoriano, português. É o nosso encontro com vários mundos, é a nossa fascinação pelos outros e pelas suas terras. É, em suma, a descoberto do Outro, ou seja, a redescoberta de nós mesmos. Em pouco digo como o conheci pela primeira e única vez na Praia da Vitória, num dos mais improváveis eventos para mim. Um velho esquerdista numa convenção do PSD não é muito comum. Mas os homens livres cultivam estas coisas, sem medo nem piedade. Foram outros tempos, e um crítico literário não cultiva preconceitos desses, ou de outra natureza – sem culpa e muito menos sem desculpas de qualquer espécie.

Reabro Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, já todo sublinhado, páginas viradas, comentado nas margens, e tento encontrar o que mais me tocou na mente e na alma. Acompanhar o autor nas suas viagens é um passeio sem começo nem fim. Não é só a boa escrita, é a emoção sorridente, a descrição precisa, como se eu o tivesse acompanhado nas suas andanças como um açoriano do mundo. A sua prosa mete-me inveja, mas esse é um problema meu. Não há deslumbramento aqui, só surpresa e fascínio. Não tenho o seu modo de rir, mas tenho o seu modo de sentir. No estrangeiro vê e observa com grande astúcia os desconhecidos, por assim dizer, e na nossa terra-mãe vê os suspeitos do costume. Como eu gostaria de vos escrever assim. Raramente fala de si, só olha em sua só volta, e diz do que vê e pensa. Gosta de nós, e gosta dos “outros”. Umas vezes com gosto outras com desgosto. O cronista autêntico tem esta responsabilidade: não tem pontos de vista imutáveis ou definitivos na prosa, fala só do que quer e vê, sente ou não sente. Há uma e qualidade admirável na prosa de Luís Filipe Borges. Combina a seriedade absoluta com o seu modo peculiar de achar graça a quem o rodeia ou com ele convive. Um professor universitário não consegue esse privilégio da bondade, ou até da generosidade. Quem elogia quem, é que conta no dia-a-dia. Luís Filipe Borges nunca achincalha, ri com, e nunca de (como já escrevi sobre outro autor açoriano num contexto muito diferente deste), conhece a sua própria humanidade no seu melhor e pior. Faz-me lembrar aqui outros cronistas e escritores com quem me atrevo a comparar: João Pereira Coutinho (o genial autor de Conservadorismo e E Vamos ao que interessa, o distinto colunista da Folha de São Paulo), um dos “conservadores” que mais leio e aprecio, ou até Miguel Esteves Cardoso. Como homem de esquerda desde sempre, não cedo a muita gente, mas a estes sim, e com todo o prazer. Luís Filipe Borges pertence a uma geração mais ou menos da mesma área ideológica que nunca deixa de surpreender, e terem nascido na liberdade que tanto nos custou: seu irmão Alexandre Borges, Joel Neto, João Pedro Porto, entre alguns outros cujas obras não são chamadas para aqui neste momento. Só que o respeito intelectual e literário que cultivam por nós, que os precedemos na escrita e na idade e até nas mais variadas experiências académicas ou profissionais constitui a melhor homenagem que nos podiam prestar. Foi para isso que lutamos politicamente e escrevemos nos mais variados géneros O seu apego inabalável à sua terra de origem, essa homenagem que nos prestam sempre, quando nos citam ou mencionam, é de uma dignidade que me faz baixar a cabeça e dizer-lhes simplesmente obrigado, sabendo que a continuidade da nossa Tradição está mais garantida.

Entre a hospitalidade, a beleza natural, as práticas antigas – escreve Luís Filipe Borges – e a tecnologia desaparecida, ficamos todos no Pico, todos das Flores, de São Jorge, do Corvo e do Faial. Deixamos de ser cidadãos do mundo, como o outro, e queremos lá saber”.

Se incluo aqui esta breve citação sobre as suas andanças pelas nossas ilhas é porque também queria dizer que este e outros escritores da sua geração serão talvez os mais cosmopolitas por formação e experiências verdadeiramente citadinas, no bom sentido da palavra, sentem-se bem em toda a parte, mas um tema, creio, percorre quase todas as suas obras – o regresso a casa, os Açores sempre na sua alma e, até, postura na vida. Nunca em Lisboa deixam esquecer as suas origens, em conversas de televisão ou noutros meios de comunicação social, e muito menos nos seus livros. Podem, pois, imaginar como os da minha idade se sentem perante estes autores e livros. O seu respeito pela minha geração açoriana foi sempre constante, e isso é a melhor homenagem que nos poderiam prestar. A tradição literária nos Açores vem de longe, pelo menos desde o século XVI, com a publicação de Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, e estes jovens estão a garantir a sua continuidade. Devo ainda adicionar aqui que nestes anos mais recentes muito se tem publicado aqui nos e sobre os Açores, e muitas dessas obras são de inegável qualidade literária, desde o premiado João de Melo em Lisboa a Paula Sousa Lima, residente em São Miguel, mas cujo romance O Paraíso seria finalista do grande Prémio LeYa em 2016, e naturalmente publicado pela mesma editora. Foi lançado há poucos dias na Livraria SolMar a primeira grande tese de doutoramento na Universidade dos Açores sobre a obra suprema do falecido José Martins Garcia pelo meu colega Urbano Bettencourt, sob o título O Amanhã Não Existe, ele próprio um grande ensaísta, poeta e ficcionista. Como disse um dia o florentino Pedro da Silveira, a única região ou país no mundo de população comparável à nossa e respectiva produção literária tão profícua será só a Islândia. Pedro sabia destas coisas mais do que nós todos juntos.

Luís Filipe Borges viaja pelas mais próximas e longínquas cidades estrangeiras, desde Veneza por vezes mal cheirosa e frequentando os seus recantos mais escondidos, a uma Havana que parece fora do tempo, e até da História. O seu olhar agudo nunca nos deixa de fora, parece por vezes um espião dos tempos idos: “A estátua de Hemingway ao balcão da Floridita – diz-nos casualmente – envergonha o nosso Pessoa no Chiado”. Não haverá nada simultaneamente de mais dramático e cómico do que um português a ver o mundo, como imaginamos os descobridores lusos de outrora. No ensaio “Sátira em Salermo, II”, volta à memória e à sua vivência na nossa terra. Diz de uma conversa com um sérvio, esse cidadão de um outro país para nós mais do que estranho, mas ou menos parecido com Portugal. “Está interessado – escreve uma vez mais acerca do seu interlocutor distante – na esquizofrenia portuguesa tal como a apresentei na conferência. Um país cuja comédia ainda aprende a andar, marcada pela repressão do fascismo, e que hoje é algo bipolar – oscilando apaixonadamente entre o fado e o humor”. É esta capacidade de escrita que o distingue entre todos nós, o frase limpa e curta que diz tudo o que somos e como somos.

De resto, só direi que li Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído como quem lê um romance em sequência sobre um protagonista em viagens pelos mais diversos países em continentes distantes, mas que se tornam parte de nós. As linguagens de Luís Filipe Borges combinam, deixem-me repetir, erudição, ironia e humor. Depressa esqueci o personagem público, e concentrei-me no escritor. Bem sei que ele tem outras obras, e mencionarei apenas mais uma, pelo seu título significante para qualquer leitor português, A Vida É Só Fumaça. No caso deste autor é algo mais – é o prazer do texto, é a viagem sem fim, para os mais distraídos e para os que, como eu, digerem cada palavra sua como quem digere um grande momento feito e dito em língua portuguesa, com sotaque terceirense.

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Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, Lisboa, Marcador, 2017. Lido hoje na ilha do Pico, na Azores Fringe Festival.

Da geração seguinte e do seu mundo

Acabou a época da incapacidade acidental sem castigo. Saímos da água entre suspiros nostálgicos e já não amaldiçoamos a última areia que incomoda.

Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído

Vamberto Freitas

Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50. Não, não vou falar da sua carreira em Lisboa, e como ele entra na minha sala, sem pedir licença de quando em quando. Vejo-o e entendo-o em primeiro lugar como um escritor açor-continental, que cultiva a crónica, primorosa, a escrita na sua mais clara expressão, cheia de sentido, humor e significado. Quando o leio-o, vejo logo o seu sorriso, o que provoca o meu. Este seu mais recente livro, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído é demasiado açoriano, português. É o nosso encontro com vários mundos, é a nossa fascinação pelos outros e pelas suas terras. É, em suma, a descoberto do Outro, ou seja, a redescoberta de nós mesmos. Em pouco digo como o conheci pela primeira e única vez na Praia da Vitória, num dos mais improváveis eventos para mim. Um velho esquerdista numa convenção do PSD não é muito comum. Mas os homens livres cultivam estas coisas, sem medo nem piedade. Foram outros tempos, e um crítico literário não cultiva preconceitos desses, ou de outra natureza – sem culpa e muito menos sem desculpas de qualquer espécie.

Reabro Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, já todo sublinhado, páginas viradas, comentado nas margens, e tento encontrar o que mais me tocou na mente e na alma. Acompanhar o autor na suas viagens é uma passeio sem começo nem fim. Não é só a boa escrita, é a emoção sorridente, a descrição precisa, como se eu o tivesse acompanhado nas suas andanças como um açoriano do mundo. A sua prosa mete-me inveja, mas esse é um problema meu. Não há deslumbramento aqui, só surpresa e fascínio. Não tenho o seu modo de rir, mas tenho o seu modo de sentir. No estrangeiro vê e observa com grande astúcia os desconhecidos, por assim dizer, e na nossa terra-mãe vê os suspeitos do costume. Como eu gostaria de vos escrever assim. Raramente fala de si, só olha em sua só volta, e diz do que vê e pensa. Gosta de nós, e gosta dos “outros”. Umas vezes com gosto outras com desgosto. O cronista autêntico tem esta responsabilidade: não tem pontos de vista imutáveis ou definitivos na prosa, fala só do que quer e vê, sente ou não sente. Há uma e qualidade admirável na prosa de Luís Filipe Borges. Combina a seriedade absoluta com o seu modo peculiar de achar graça a quem o rodeia ou com ele convive. Um professor universitário não consegue esse privilégio da bondade, ou até da generosidade. Quem elogia que, é que conta no dia-a-dia. Luís Filipe Borges Nunca achincalha, ri com, e nunca de (como já escrevi sobre outro autor açoriano num contexto muito diferente deste), conhece a sua própria humanidade no seu melhor e pior. Faz-me lembrar aqui outros cronistas e escritores com quem me atrevo a comparar: João Pereira Coutinho (o genial autor de Conservadorismo e E Vamos ao que interessa, o distinto colunista da Folha de São Paulo) um dos “conservadores” que mais leio e aprecio, ou até Miguel Esteves Cardoso. Como homem de esquerda desde sempre, não cedo a muita gente, mas a estes sim, e com todo o prazer. Luís Filipe Borges pertence a uma geração mais ou menos da mesma área ideológica que nunca deixa de surpreender, e terem nascido na liberdade que tanto nos custou; seu irmão Alexandre Borges, Joel Neto, João Pedro Porto, entre alguns outros que estão cujas obras não são chamadas para aqui neste momento. Só que o respeito intelectual e literário que cultivam por nós, que os precedemos na escrita e na idade e até nas mais variadas experiências académicas ou profissionais constitui a melhor homenagem que nos podiam prestar. Foi para isso que lutamos politicamente e escrevemos nos mais variados géneros O seu apego inabalável à sua terra de origem, essa homenagem que nos prestam sempre, quando nos citam ou mencionam, é de uma dignidade que me faz baixar a cabeça e dizer-lhes simplesmente obrigado, sabendo que a continuidade da nossa Tradição está mais garantida.

Entre a hospitalidade, a beleza natural, as práticas antigas – escreve Luís Filipe Borges – e a tecnologia desaparecida, ficamos todos no Pico, todos das Flores, de São Jorge, do Corvo e do Faial. Deixamos de ser cidadãos do mundo, como o outro, e queremos lá saber”.

Se incluo aqui esta breve citação sobre as suas andanças pelas nossas ilhas é porque também queria dizer que este e outros escritores da sua geração serão talvez os mais cosmopolitas por formação e experiências verdadeiramente citadinas, no bom sentido da palavra, sentem-se em casa em toda a parte mas um tema, creio, percorre quase todas as suas obras – o regresso a casa, os Açores sempre na sua alma e, até, postura na vida. Nunca em Lisboa deixam esquecer as suas origens, em conversas de televisão ou noutros meios de comunicação social, e muito menos nos seus livros. Podem, pois, imaginar como as da minha idade se sentem perante estes autores e livros. O seu respeito pela minha geração açoriana foi sempre constante, e isso é a melhor homenagem que nos poderiam prestar. A tradição literária nos Açores vem de longe, pelo menos desde o século XVI, com a publicação de Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, e estes jovens estão a garantir a sua continuidade. Devo ainda adicionar aqui que nestes anos mais recentes muito se tem publicado aqui nos e sobre os Açores, e muitas dessas obras são de inegável qualidade literária, desde o premiado João de Melo em Lisboa a Paula Sousa Lima, residente em São Miguel, mas cujo romance O Paraíso seria finalista do grande Prémio LeYa em 2016, e naturalmente publicado pela mesma editora. Foi lançado há poucos dias na Livraria SolMar a primeira grande tese de doutoramento na Universidade dos Açores sobre a obra suprema do falecido José Martins Garcia pelo meu colega Urbano Bettencourt, sob o título O Amanhã Não Existe, ele próprio um grande ensaísta, poeta e ficcionista. Como disse um dia o florentino Pedro da Silveira, a única região ou país no mundo de população comparável à nossa e produção literária tão profícua como a açoriana será só a Islândia. Pedro sabia destas coisas mais do que nós todos juntos.

Luís Filipe Borges viaja pelas mais próximas e longínquas cidades estrangeiras, desde Veneza por vezes mal cheirosa e frequentando os seus recantos mais escondidos, a uma Havana que parece fora do tempo, e até da História. O seu olhar agudo nunca nos deixa de fora, parece por vezes um espião dos tempos idos: “A estátua de Hemingway ao balcão da Floridita – diz-nos casualmente – envergonha o nosso Pessoa no Chiado”. Não haverá nada simultaneamente de mais dramático e cómico do que um português a ver o mundo, como imaginamos os descobridores lusos de outrora. No ensaio “Sátira em Salermo, II”, volta à memória e à sua vivência na nossa terra. Diz de uma conversa com um sérvio, esse cidadão de um outro país para nós mais do que estranho, mas ou menos parecido com Portugal. “Está interessado – escreve uma vez mais acerca do seu interlocutor distante – na esquizofrenia portuguesa tal como a apresentei na conferência. Um país cuja comédia ainda aprende a andar, marcada pela repressão do fascismo, e que hoje é algo bipolar – oscilando apaixonadamente entre o fado e o humor”. É esta capacidade de escrita que o distingue entre todos nós, o frase limpa e curta que diz tudo o que somos e como somos.

De resto, só direi que li Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído como quem lê um romance em sequência sobre um protagonista em viagens pelos mais diversos países em continentes distantes, mas que se tornam parte de nós. As linguagens de Luís Filipe Borges combinam, deixem-me repetir, erudição, ironia e humor. Depressa esqueci o personagem público, e concentrei-me no escritor. Bem sei que ele tem outras obras, e mencionarei apenas mais uma, pelo seu título significante para qualquer leitor português, A Vida É Só Fumaça. No caso deste autor é algo mais – é prazer do texto, é a viagem sem fim, para os mais distraídos e para os que, como eu, digerem cada palavra sua como quem digere um grande momento feito e dito em língua portuguesa, com sotaque terceirense.

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Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, Lisboa, Marcador, 2017. Lido hoje na ilha do Pico, na Azores Fringe Festival.

De nós e da nossa diáspora

A presença portuguesa nos EUA tem uma longa tradição de registos que vão da história à literatura, da etnografia à sociologia. A literatura estende-se da mais artesanal, em edições de autor, à mais erudita, e a imprensa, já centenária, constitui um espólio muito rico e fonte inesgotável de dados importantes.

Onésimo Teotónio Almeida, O Peso do Hífen: Ensaios sobre a experiência luso-americana.

Vamberto Freitas

Não poderei esconder aqui, nem deverei, a minha íntima relação desde há muitas décadas com muita imprensa açoriana, toda ela sempre com espaço dedicado à nossa diáspora, desde a América do Norte e, um pouco menos, ao Brasil. Sobre quem nos lê dentro do arquipélago, ou na própria ilha em que o Açoriano Oriental é publicado, teremos alguma ideia, por mais vaga que seja. Creio que a maioria dos cidadãos minimamente informados sobre a nossa vida pública não dispensam diariamente o seu jornal, ou jornais. Todas as manhãs vejo nos cafés leitores a partilharem o jornal da casa, uns meramente folheando-o de página a página, outros concentrados numa das suas variadas seccões. Por mais importância que tenham as redes sociais no nosso dia-a-dia, a verdade é que uma sociedade não dispensa a informação que os profissionais, dentro e fora da redacção, vão recolhendo, investigando e depois filtrando-a nos seus pontos essenciais para um público anónimo mas que, por certo, faz parte dos que directa ou indiretctamente influem nos rumos que a política ou os negócios públicos vão tomando e que influem particularmente os que estão responsáveis pelo equilíbrio da vida comunitária a todos os níveis, desde a produção de bens à redistribuição de riqueza através dos mais variados programas ou leis implementadas. Um jornal sério não será necessariamente só um “vigia” do Poder e dos seus agentes, mas é o transmissor de tudo o que pode ou deverá mudar as nossas vidas para melhor, ou pior. Nesse sentido, um meio de comunicação social como o Açoriano Oriental tem obrigações acrescidas: está localizado na maior e mais poderosa cidade do arquipélago, vive ao lado do poder executivo, é vizinho do Campus principal da Universidade dos Açores, é publicado diariamente na cidade que recebe a maior parte dos visitantes às ilhas, quer venham como meros turistas ou ainda mais em negócios que movimentam toda a economia e finanças da nossa região.

Nenhuma destas palavras pretende menorizar a imprensa escrita, falada ou vista desta e de outras ilhas. Simplesmente relembro que lado a lado à sua longa tradição que carrega como o mais antigo jornal português, estas responsabilidades clamam todos os dias por ética de escrita e de cidadania no seu mais puro sentido – dizer sempre a verdade, repensar as suas opiniões, quer sejam expressas ou assinadas num gabinete editorial colectivo quer venham de um ou outro colaborador ou colaboradora. As suas páginas estiveram sempre em defesa da liberdade, mesmo em épocas de constrangimentos políticos ou de Estado, nunca poderá ser um espaço aberto para quem pense que tem o direito a uma voz pública numa publicação tão antiga e dignificada. O ódio ou a “fulanização” seja de quem for em termos pejorativos nunca serão ou deveriam ser permitidos.

Veio todo este prefácio a propósito do lugar do Açoriano Oriental na sua sociedade, no seu próprio espaço imediato ou à sua porta, e o seu papel e as suas responsabilidades e relacionamentos com nossa vasta diáspora espalhada um pouco por toda a parte. Será redundante repetir em detalhe que só através do seu site o jornal é lido nas mais longínquas paragens do globo, algo que é verificável pelo número de visitantes que se manifestam em todas as suas secções. Apesar das primeiras gerações de língua portuguesa estarem cada vais reduzidas numericamente, algo de novo começa a manifestar-se. No que me diz respeito pessoalmente como colaborador literário e cultural, sei muito bem do que falo. O Açoriano Oriental não será o primeiro grande jornal ilhéu a publicar com regularidade uma coluna literária que nunca ignora o que os escritores, poetas e ensaístas luso-descendentes escrevem e publicam. A reacção é sempre a mesma: de gratidão e orgulho. Sempre que deles ou das suas obras falamos, reagem directamente como se lhes tivéssemos oferecido a oportunidade de um regresso emotivo e intelectual às suas origens, à sua ancestralidade já velha de séculos. É o outro lado positivo da globalização: a reafirmação de identidades pessoais e culturais dos que convivem literalmente com o mundo inteiro, mas que só poderão contribuir algo de novo para um mundo de diversidades e múltiplas maneiras de ser e estar apresentando-se como filhos e filhas de uma geografia e história muito próprias. Não quero de modo algum utilizar este espaço para falar de mim, mas é o meu trabalho neste jornal que quero salientar, e muito especialmente lembrar as repercussões que tem tido nestes anos mais recentes. Com a abertura e a publicação do suplemento Açoriano Oriental Artes & Letras aqui há uns três anos a presença do jornal entre as classes mais cultas da nossa diáspora vem num crescendo que só nos pode orgulhar. Um exemplo, que creio ilustrar o que acabo de escrever: o poeta Michael Spring, descendente de mãe picoense e pai nativo-americano vinha publicando a sua magnífica poesia em revistas de papel e digitais americanas nunca suspeitando que era lido por gente da terra dos seus antepassados açorianos. Quando sobre ele comecei a escrever, a surpresa foi tão grande e o sentimento tão profundo que o levara a escrever-me que agora até lhe apetecia adicionar o nome “Garcia” na sua assinatura. Ele e outros já foram publicados neste jornal, por vezes mesmo só em inglês, outras em versões traduzidas ou bilingues. No caso de Spring, fez com que ele visitasse pela primeira vez as nossas ilhas o verão passado, e agora fala-me em “saudade” da terra, da necessidade que passou a sentir em estar entre nós. Quando recebe o Artes & Letras, em papel ou por outras vias, é como se recebesse um pedaço da terra-mãe, que é agora também a sua, uma terra-mãe constantemente lembrada nos confins do estado de Oregon, onde reside e escreve. Poderia adicionar muitos outros nomes, mas este serve para demonstrar o relacionamento que o Açoriano Oriental tem com os seus leitores tanto das primeiras como das demais gerações luso-descendentes.

Não partilho a ideia de que os jornais em papel vão desaparecer, como nenhum outro meio de comunicação desapareceu no processo evolutivo que é o das nossas sociedades globais. Um jornal faz parte da identidade da sua cidade, e Ponta Delgada conta com três grandes diários – não esqueçamos os também históricos Correio dos Açores e Diário dos Açores – que lhe dão voz, corpo e alma. Já escrevi em alguns jornais e revistas continentais, mas nunca por um minuto os considerei mais importantes do que este. Os leitores do Açoriano Oriental são tão inteligentes e críticos como serão os de qualquer outra grande ou pequena cidade. É a partir destas páginas que tenho chegado ao mundo, que tenho tentado honrar as nossas tradições culturais, e mais ainda fazer que os que estão longe fiquem cada vez mais perto e parte de nós, sejam esses leitores açorianos ou não. A sua longa e digna história, creio, garante que o futuro não o deixará cair no labirinto sócio-político e cultural em que se torna todos os dias a aldeia global. Escrever nas suas páginas tornou-se-me um dever, tão literário como cívico. Enquanto os seus responsáveis acharem que esta e outras presenças valorizam as suas páginas, nunca deixarei de dar o meu contributo a uma das mais eficazes vozes da vida pública açoriana.

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Parte deste ensaio foi originalmente publicado na edição comemorativa do aniversário de 182 anos de existência do ,Açoriano Oriental, a 18 de Abril, 2017.

Do intelectual público no nosso tempo – III

Por algum tempo os nossos líderes, tanto os demagogos como os honestos, andam a dizer-nos que nos movimentemos para um grande projecto, nacional e privado. Walter Lippmann sugere que os Estados Unidos se comportam como uma sociedade que se pensa completa, realizada, com nada mais a construir; que somos, para o mal e para o bem, quem somos, e os únicos perigos para o nosso conforto vêm do exterior.

Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992

Vamberto Freitas

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. Topemos apenas a sua corrosiva ironia. O seu discurso de intelectual público poderia não ser lido pela maioria dos americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república”, dizia, para um “império” arrogante e naturalmente dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do lugar que o império todo poderoso do século XX impunha ao mundo, e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temperava a raiva e o desgosto que ele sentiu durante quase toda a sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays (Daniel Shays liderou uma revolta armada poucos anos depois da independência contra o novo governo em Washinghton e o que eles perceberam ser já suas injustiças e políticas de desigualdade económica e financeira) não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso, é uma acusação sem resposta aos que se apoderaram do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria, fazendo dessa sua imortalidade como que um outro desafio sorridente aos que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo, e derramará sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados Unidos.

A visão de um rico continente vazio – escreve Gore Vidal em 1972, no ensaio que dá o título ao livro aqui citado – ainda faz parte do inconsciente americano apesar da sua numerosa população e consequentes misérias; e esta persistente crença num céu em que cada homem pode enriquecer através do seu trabalho duro e vivência puritana é a chave para entendermos o inabalável e aparentemente inalterável ódio da maioria para com os pobres, que mantém fora da sua visão aqui em terra própria, assim como no estrangeiro”.

Não sei o que pensaria Gore Vidal da actual e estranha experiência económico-financeira em curso no seu país, mas creio que as suas palavras carregam em si um pouco comum entendidemto ideológico dos Estados Unidos, ou melhor, da mítica que nunca deixou de ser alimentada. A maioria revoltada continua a acreditar que todos os seus falhanços são provocados pelos marginalizados e oprimidos, e nunca pela classe dominante, que Vidal dizia ter só um partido político escondido ou disfarçado nas palavras democrático e republicano – o Partido da Propriedade. Tal como Edmund Wilson já aqui referido quando dizia que já não se reconhecia naquele país, Vidal faria as malas e partiria mais ou menos permanentemente para a Itália após a reeleição de Richard Nixon. Manteve casa, sempre, na sua América, e até chegou a concorrer para governador da Califórnia nos anos 80. Só que nunca cedeu na sua visão da história dos EUA, e nunca poupou a classe política ao serviço dos grandes interesses e verdadeiros “donos” do país. Entre as previsões fictícias de um Sinclair Lewis em It Can´t Happen Here (1935), e os ensaios de Homage to Daniel Shays (1972) de Gore Vidal, a única mudança foi um surrealismo aprofundado da recente eleição presidencial e a estranha figura que dela sairia vencedora.

Edward W. Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo (escrito entre 1975-1976, e de que Noam Chomsky, entre outros, foi um dos seus primeiros leitores antes da publicação) transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com que olhávamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção essencialmente subjectiva que os escritores ocidentais, particularmente alguns autores britânicos, nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender outros mundos e povos. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria imagem, a nossa maneira de ser e estar num grandioso mosaico humano. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há naquelas páginas qualquer pretensiosismo cosmopolita, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as nossas linguagens comuns. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda estão juntos e andam por aí, actuam nos mais diversos países. Não será por mero acaso que Edward Said aparece bem no centro do recente romance Bússola, do francês Enard Mathias, uma brilhante ficção precisamente sobre as fantasias ocidentais de amores e desamores perante o Médio Oriente, no seu passado e presente.

Ao contrário dos americanos, dos franceses e dos britânicos – muito menos do que dos alemães, russos, espanhóis, portugueses, italianos, e suíços – têm uma longa tradição que chamarei aqui de orientalismo, um modo de encontro com o Oriente fundamentado num no lugar especial que esse Oriente – escreve Said precisamente na sua obra intitulada Orientalimo ocupa na experiência ocidental. O Oriente não é uma mera geografia adjacente à Europa; é também a geografia das suas mais antigas e ricas colónias, a fonte da sua própria civilização e línguas, o seu concorrente cultural, uma das mais profundas e recorrentes imagens do Outro”.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder, para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com quem dei início a estes meus textos. Obrigado, não só por seres quem foste e és sempre. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu na minha juventude ensaiava a minha própria reinvenção, redefinia a minha identidade luso-americana – e enfrentava desse modo a luta por uma nova vida californiana.

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Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992, New York, Random House, 1993.

Edward W. Said, Orientalism, New York, Vintage Books Edition, 1979.

Edward W. Said na foto.

Do intelectual público no nosso tempo – II

Eu sempre me pensei um patriota e sempre tive, no passado, a preocupação de comparar favoravelmente os Estados Unidos com a Europa e com a União Soviética; mas o nosso país tornou-se agora um gigantesco poder desatinado e controlado mais e mais por burocracias cujo governo está cada vez mais difícil de justificar numa tradição de individualismo americano; e porque não posso aceitar este poder ou estes propósitos ou os seus modos de o financiar, tenho finalmente sentido que este país, quer eu continue a viver nele ou não, já não é para mim.

Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest.

Vamberto Freitas

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência regional? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literature and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas dirigidas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e a seriedade intelectual e de cidadania. Nunca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica literária pura, ou mesmo uma de mera escrita circunstancial numa periódico generalista, como a revista Vanity Fair, ou na deliciosamente elitista The New York Review of Books, ou ainda na The New Republic, revista erudita onde ele acabaria a sua carreira, lugar que só George Steiner viria a ocupar depois da sua morte. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que queria dizer sobre o modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the 1870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties), indo ainda em busca da vida e das tradições culturais de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, uma tribo nativo-americana do norte do estado de Nova Iorque sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento económico, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essênios, tentando demonstrar a dignidade, valor artístico e lugar histórico na modernidade que marginalizava e esquecia essas nações isoladas num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as Caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publicando de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aberto aos seus leitores – The American Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar durante cinco anos nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este fazia em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pela Internal Revenue Office (IRS), condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, condenava-o a uma penúria quase absoluta, e por isso foi aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada significa, acima de tudo, a derrota que os nossos pais fundadores queriam para um novo país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exacto de que necessitamos”.

Wilson, nos seus últimos dias de vida, folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia nesse país, aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele nunca tinha sido fã, pois não se esquecia que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido ingloriamente a vida numa Hollywood que ele, uma vez mais, nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinham levado a ver sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

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Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest, Straus, Farrar And Company, 1963.

Do intelectual público no nosso tempo – I

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em que a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Um pouco depois de aluno já com licenciatura em Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, de um autor que me era então totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizado na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara severamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e nunca tinha visto o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e sabia muito bem o significado de “lusalândia”. Pensei de imediato que isto tudo tinha a ver também comigo, já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente ou indiferente ao que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvilleano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali escrito. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha, mas já mais minha do que eu pensava. Era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e as conseguia exprimir sem complexos ou medos públicos. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia ocupa um dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever comentários críticos sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu ambivalente relacionamento com o restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso, particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts. Escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios, A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinante no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, sendo acusados de “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinham de uma certa e pouco moderada esquerda residente em Lisboa e arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é que persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos anos de separação da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, vale tanto quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens, da sua terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua voz pública no continente, e muito menos nas ilhas.

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Onésimo Teotónio Almeida, Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, Coimbra, Atlântica Editora, 1975.

Ser um estranho em casa própria

A chegada a Lisboa, a vista do cais foi um desapontamento. Tudo aquilo me pareceu feio, desarrumado, mal-amanhado.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula II

Vamberto Freitas

Não estou certo se a palavra “pátria” aparece neste volume das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/MemóriasIILisboa (1947-1955), mas sei que as palavras “pelintra” e “pelintrice” abundam nesta sua magnífica prosa autobiográfica em praticamente tudo que diz respeito à vida quotidiana e intelectual do nosso país na época que vem demarcada no próprio título do livro. Antes de mais, será preciso explicar ou relembrar a alguns seus leitores que sendo este o segundo volume das suas memórias, foi o último a ser escrito, tal como nos explica o próprio autor numa nota inicial, por razões de idade e querendo ele “assegurar” os períodos mais marcantes da sua vida, desde o nascimento em Moçambique até aos diferentes períodos da sua vivência na terra natal, que terminaria como resultado do 25 de Abril de 1974, e de seguida a sua vinda definitiva para Portugal. Não vou repetir aqui o que já escrevi sobre esses seus outros momentos e incidentes numa longa viagem repartida por dois continentes e diversos países. Relembrarei só que estamos perante uma das mais originais e longas caminhadas de um português, desde a sua carreira em petrolíferas em Moçambique até a Adido Cultural na nossa Embaixada em Londres, Presidente da Comissão Nacional da Unesco, a Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro, por entre outras paragens internacionais e actividades intelectuais. Eugénio Lisboa fez das ideias e da arte literária a sua verdadeira e mais significante “pátria”, ou ainda um exemplo de como um filho relutante de um império caído teve de se movimentar para a salvação da própria família e insistência na concretização de uma realização literária. A diáspora lusitana contou sempre com alguns dos seus filhos e filhas mais distintas um pouco por toda a parte, mas Eugénio Lisboa foi dos poucos que acabaria, apesar da sua visão crítica da terra-mãe, por regressar e levar a bom porto a maior parte da sua obra literária, feita do mais sério e esclarecedor ensaísmo sobre muitos outros escritores, assim como a sua própria poesia em que sobressai A Matéria Intensa. O presente volume destas memórias é marcante de vários modos, pois relata-nos o seu primeiro embate com o que ainda era a capital do império, e depois a sua experiência “militar”, desde Mafra a Portalegre como relutante cadete e aspirante a oficial no nosso exército, aqui tratado como uma agremiação kafkiana, na altura sem guerra e provavelmente pensando-se sem inimigos à vista, até ao início, que viria poucos anos depois, da nossa última aventura sangrenta e decisiva em África.

Nunca tinha lido uma visão tão negra e deprimente da nossa terra, mas a sua prosa é de tal modo viva e genialmente estruturada que se torna arte pura – memória e imaginação que mais caracterizam um grande romance de época e de ideias, que acaba por nos lançar o “clarão” histórico de que nos falava Walter Benjamin, ou muito do que nos explica os dias que hoje vivemos, ou sofremos.

Era a primeira vez que o jovem africano de pais portugueses vinha a Lisboa, a cidade que nos diz ter imaginado dos livros, tal como já tinha imaginado Paris nas obras de outros escritores. Leitor omnívoro desde a infância, o mundo fora do Índico constituía um imaginário de pura grandeza e sofisticação em tudo que as artes retratavam ou transfiguravam. Nesse ano de 1947 encontra uma cidade que ele diz decrépita, claustrofóbica, de ruelas e bairros sujos, e acima de tudo triste. A II Guerra Mundial tinha acabado há dois anos, mas a sociedade salazarista pedia que não se falasse no “coitadinho” do Hitler, pois já tinha morrido. Quando ingressa no Instituto Superior Técnico haveria de viver uma das suas mais desesperantes experiências académicas – desde colegas de uma ignorância que ele nunca tinha presenciado nos seus estudos secundários laurentinos a professores de uma mediocridade quase indizível, ou então de uma arrogância e vinganças mesquinhas que pouco ou nada tinham a ver com a formação dos mais altos quadros técnicos do Estado ou de qualquer grande empresa cá ou nas colónias. De qualquer modo, Eugénio Lisboa continua a ler os mais diversos escritores estrangeiros, privilegiando sempre os clássicos ou os modernos franceses (Montherlant e Stendhal sempre na primeira linha), mas raramente encontra um colega que o acompanhe no seu irreprimível fervor intelectual. Passa quase todo o seu tempo a ir ao teatro, ou a comprar os livros da sua preferência que ia encontrando numa ou noutra livraria lisboeta, ou por onde passava e ficava por uns dias ali por perto. Quando chega ao quinto ano do curso é obrigado a continuar o seu treino militar em Mafra, e o que diz dessa experiência seria mais do que suficiente para qualquer polícia política de uma ditadura o encarcerar numa cela, desde a estupidez dos seus oficiais até aos treinos sem tino na artilharia daquele campo aonde D. João V tinha escravizado e gastado a fortuna maior de Portugal num “palácio”, que só séculos depois José Saramago (que Eugénio Lisboa me desculpe aqui a referência) descreveria no Memorial do Convento. O autor passa os seus dias com África na alma e na memória, a saudade vivida, que só as esporádicas visitas da família ou um ou outro reencontro com algum conterrâneo ou conhecido vai atenuando. Após uma relação mais ou menos amiga e íntima e a consequente a gravidez de uma companheira, que lhe daria o seu primeiro filho, regressa a Lourenço Marques destroçado por algum tempo, e antes de terminar a sua licenciatura.

Não queria aqui apenas resumir a parte fulcral desde volume de Acta Est Fabula, mas sim fazer perceber as razões principais que trazem o seu autor a Portugal, até então um país imaginário. Que me desculpem os meus conterrâneos continentais, mas tenho de dizer que um ilhéu açoriano lê estas páginas com uma empatia que só a portugalidade à distância permite. Do mesmo modo, este embate com o território historicamente “pátrio” provoca-nos uma sensação de “estrangeirados”, não como os que saem para o estrangeiro e depois regressam, mas sim entre os que lá nunca tinham estado. Só muito devagar, e só com a mesma língua acontece a aproximação ao país no seu todo e na sua diversidade, mesmo no contexto da pequenez territorial. Mais do que qualquer outro factor de suposta “identidade”, será talvez a literatura numa língua comum que nos permite ou oferece uma “comunidade imaginária”, um sentido de pertença.

O momento maior e, para mim, mais brilhante desta narrativa de Eugénio Lisboa é quando conhece e encontra em Portalegre pela primeira vez o escritor que ele já tinha lido minuciosamente, e cuja obra, até hoje, o levaria a escrever algumas das suas mais memoráveis e fundamentais páginas ensaísticas, – José Régio. Quer em tertúlias de café quer em visitas a sua casa, a presença e o diálogo constantes com o autor de O Jogo da Cabra Cega e Poemas de Deus e do Diabo permitiram-lhe aturar o resto dos dias em tarefas do que ele chama uma “tropa fandanga” encarregada de defender o país de uma hipotética e nunca vinda invasão castelhana. Absorvi estas páginas pelo seu humor, sarcasmo e ironia sem par nesta incomparável escrita autobiográfica. Retive destes seus momentos na presença de Régio algo muito parecido com o que eu próprio senti na presença de Eugénio Lisboa pela primeira vez, quando a escritora Teresa Martins Marques aqui há uns anos, na Costa da Caparica, me apresentou ao próprio autor de Acta Est Fabula, que já era um mestre meu sem ele saber, que eu já o tinha na conta dos que me haviam servido de exemplo em tudo que à literatura e à leitura diz respeito, um “significant other”, que me deixou quase sem palavras e receio de me espalhar com qualquer observação menos própria ou minimamente inteligente. O que Eugénio Lisboa diz desses dias com José Régio, e depois de uma vida a estudar e a comentar a sua obra, é mais do que literatura no seu pleno poder, é muito mais do que confessionalismo literário e existencial. Deveria servir de exemplo às gerações presentes que se esquecem ou nunca sequer ouviram dizer que ao seu lado estiveram e estão alguns dos melhores escritores do mundo, que não há a mínima contradição em admirá-los como parecem admirar outras referências literárias e culturais nas mais longínquas e até desconhecidas geografias. Ficariam pelo menos a saber que a chamada globalização é mais um conceito abstracto do que uma realidade, que não há como fugir a uma história, a uma língua, e sobretudo a uma Tradição que nada tem de superior ou inferior a qualquer outra, mas é a nossa.

Os cinco volumes de Acta Est Fabula ficarão, assim, como uma obra literária referencial. Vai além da mera manipulação da nossa língua. Distingue-se pelo uso da palavra exacta, da frase escorreita, da citação acertada e pertinente, da mais profunda ideia tornada clara para qualquer leitor atento. É uma fonte de sabedoria sobre como ter-se sido um português à distância e em casa, será talvez um imaginário da nossa mais vincada maneira de ser e estar no mundo. Muitos de nós saímos para uma diáspora. Outros regressaram com esses mundos para sempre presentes, e viveram Portugal simultaneamente como “pátria” ou “exílio” renovado. É o preço que pagamos pela história que fizemos, e teremos, cada vez mais, de aguentar.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/Memórias-II-Lisboa (1947-1955), Guimarães, Opera Omnia, 2016.

Do amor e da loucura

Os livros esquecidos, as autores ignorados são artífices do destino que subsiste debaixo da superfície.

Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam

Para a Adelaide, que voa sempre comigo

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, Nem Todas As Baleias Voam, o mais recente romance de Afonso Cruz, tem pouco ou mesmo nada a ver com um desses adoráveis mamíferos marítimos que faria de Herman Melville o mais canónico de todos os autores americanos canónicos, nem sequer nos fica na memória como símbolo ou metáfora maior deste inusitado romance na nossa língua. A sua audácia temática e as suas linguagens, tão claras como obscuras, como que num poema de um T. S. Eliot menos sisudo, são uma espécie de exercício entre um modernismo literário cada vez mais distante e um pós-modernismo que insiste em combinar a habitual revisitação à História, tanto imaginada como real, por entre a ambiguidade de significações que os quase esquecidos new critics consideravam uma das marcas maiores de qualquer texto que valesse a pena ser lido, meditado, dissecado. Se é verdade que na realidade a CIA tentou as maiores e frequentemente cómicas loucuras para derrotar a ex-União Soviética, o narrador de Afonso Cruz desdobra-se brilhantemente em contador de estórias privadas e arquivista de supostos “documentos” em que o protagonista Erik Gould é recrutado para organizar concertos de jazz no outro lado da Cortina de Ferro durante os anos 70 do século passado, e assim tentar cativar “corações e mentes” (como diziam no tempo escuro do Vietname) para a traição ao comunismo e de seguida adesão ao Ocidente, querendo dizer aos Estados Unidos, a cidade de Deus e do Wall Street. Só que Nem Todas As Baleias Voam é muito mais do que isso. Por detrás da História estão os seres humanos na sua solidão, no seu destino pessoal entre quatro paredes ou passeado numa rua em que mais ninguém conta ou exerce sequer a mínima interferência ou influência nas obsessões ou no coração que quem olha sem ver, de quem sonha sem esperança. Gould, diz o relatório da CIA escrito em secções intermitentes na narrativa, tinha só música dentro de si, e não a queria, magoava-se a si próprio numa tentativa de redenção pelo pecado que era a sua arte, que nele residia e que o oprimia. Arte e amor eram a sua dor. Colocar os dedos num teclado do seu piano para conquistar outros e fazê-los abandonar o seu mundo, sofrer a angústia de não ter a mulher que ama e que o havia deixado, levando-o a uma perseguição obsessiva de um reencontro, como um Ahab atrás da baleia branca que também o havia mutilado para sempre. Ódio e amor, restando todos os outros num palco sem mais enredo ou desfecho. Erik Gould tem um filho de nome Tristam, e que vive em Paris com um casal amigo, também eles reduzidos a encontros ocasionais dentro da mesma casa, a cama mero poiso de descanso ou onde se espera mais morte do que vida. Este é um romance feito de memórias deliceradas, mas em que o humor das palavras e das acções são o contraponto à impossibilidade de vidas com sentido ou da normalidade com alguma felicidade no dia ou na noite. No centro de tudo e todos está a espera do protagonista pela sua amada, Natasha Zimina. Já a meio do romance estamos em 1969, “Quando [Neil] Armstrong – relembra o narrador – pisou a Lua pela primeira vez… A Lua dos amantes nunca mais seria a mesma”.

O que mais impressiona num romance como Nem Todas As Baleias Voam é a quase ausência do sentido ou “espírito do lugar”, dado o momento histórico que que lhe serve de referência e a política da loucura que na realidade nos ameaçava a todos. Estamos, naturalmente, na América, na Europa deste deste lado, e depois na outra então no lado de lá. É impressionante como quase não sentimos, não vivemos, essas geografias já meio lembradas meio esquecidas. Afonso Cruz faz-me repensar o que tinha sido sempre o mais fundamental na arte literária – o lugar era um mero lugar, as personagens, a sua vida interior, os seus lamentos ou as suas lutas pela sobrevivência, pela sua integridade, pelo seu sentimento de culpa ou pela tentativa de salvação é sempre o que mais lembramos de uma significante peça literária. Nunca será a tentativa de uns serviços secretos sem nome nem identidade definida que retemos destas suas páginas. Muito menos será a luta entre um bloco ideológico ou militar e outro que o leitor vai registar na memória numa leitura deste romance. Vão ser as poucas as figuras (re)inventadas e os seus dizeres e desejos que ficarão connosco, a dor da perda, o desespero do nada num mundo em que adivinhamos em ebulição, a música como refúgio, a arte em geral como a obra maior da nossa própria humanidade. O registo histórico destas páginas, incluindo o que poderá ser parte dos arquivos reais de um tempo e fúria, servem apenas como como referência secundária e, de certo modo, palco esclarecedor de certas motivações de cada um, um tempo que provocou ou não decisões e comportamentos, um tempo que tinha outras e bem diferentes modos de ser e estar. A História é uma abstração para cada um de nós. As nossas vidas quotidianas, os nossos desejos, os nossos sonhos são quase sempre demasiado íntimos. Por entre as chamadas massas e as vozes dominantes, permanece a nossa alma, a nossa vontade de uma normalidade feita à nossa medida e na companhia de quem amamos, ou são os nossos mais íntimos outros. Erik Gould tem a falta da sua mulher amada, o seu filho não tem nem presente nem passado, guarda numa caixa de sapatos objectos banais, o que mais o vai definir após a morte, o casal amigo com quem vive, Tsilia e Isaac Dresner tenta redescobrir o amor e o desejo. Dresner tem uma livraria que se chama Humilhados & Ofendidos. Pois. Fiódor Dostoievski, ou o chamamento à nossa humanidade, em todas as geografias de afectos e memórias, de loucura, raiva e solidão.

O Escritor – escreve o narrador sobre ele próprio, ou sobre um outro ser imaginário – dizia que não era ele quem escrevia, que não era ele o autor, que era um escravo da inspiração, que a sua mão se mexia comandada por uma força estranha à sua vontade, que aquelas histórias não lhe pertenciam. Era um processo extremamente doloroso, em que ele servia de veículo. Muitos escritores sentem exactamente a mesma coisa e garantem que a inspiração lhes escorre pelos braços, pelo corpo, pela cabeça, num processo mágico em que a escrita parece contornar a consciência para ser algo que sai dos dedos, como a tinta sai das pontas das canetas. E tudo isto é acompanhado de uma dor imensa, como um parto, com sangue e com suor. Com o Escritor, era exactamente isso que se passava. Era literalmente isso que se passava”.

Desde há alguns bons anos, e nas mais variadas línguas, que que se fala na “morte do romance”. No nosso país, Vergílio Ferreira também fez questão de o afirmar por mais de uma vez. Nunca entendi bem de onde vem esta ideia, de onde vem a ideia que a arte literária acaba com uma qualquer geração. Não queria ser injusto aqui, mas creio que certos autores de renome nos seus países, ao chegar a certa idade ou exaustão, ou, mais problemático ainda, para ser delicado aqui, achavam-se os últimos mestres da forma e do conteúdo. Pior ainda, um Francis Fukuyama afirmava no seu famoso O Fim da História E O Último Homem que tínhamos chegado ao fim da caminhada político-ideológica, o liberalismo sócio-económico tinha-se tornado o futuro, a universalidade da vontade humana atingia o seu auge, a sua meta final. As fantasias académicas também são frequentes, e conseguem por algum tempo impor-se. Nem a história chegou ao fim, nunca, nem arte deixará, nunca, de transfigurar a condição humana. Em todas as línguas e culturas a literatura parece estar cada vez mais viva. Em Portugal, há uma nova geração de escritores que nada devem a ninguém. Sabem dos seus antecessores nacionais, e sabem dos outros. Sabem agora que há mais mundo para além do seu. Sabem que a sua língua pode e deve dizer do mundo sem fronteiras e preferivelmente sem preconceitos de qualquer espécie. Viram o dito de Fernando Pessoa ao contrário: Sou de toda a parte, como sou daqui. Já falei de alguns deles que publicaram em tempos muito recentes. Lembro agora também Afonso Cruz. O resto da sua obra, na literatura, nas artes plásticas, filmes de animação, músico e cineasta completam a sua visão do tempo que é o nosso, da condição humana em sociedades globalizadas enquanto reafirmam a sua individualidade, a sua diferença no mosaico humano que, apesar de certa retórica política do momento, a grande arte literária representa nas mais variadas línguas e tradições.

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Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam, Lisboa, Companhia das Letras/Penguin Random House, 2016.

Quando lemos quem amamos

E o dia acordava radioso; gotas suspensas, como rosário de contas, compunham um rendilhado incerto entre as folhas da madrugada.

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

Vamberto Freitas

Não será nunca só a indizível saudade que me faz reler a mulher que amo, não será só querer recordar a sua viva voz nos dias que foram os nossos. Da sua silenciosa existência, agora sei eu, acompanha-a todos os dias, e nem sempre o choro me faz abraça-la e dizer-lhe boa noite, olho-a como quem olha para o luar no lado de fora da nossa janela, mas vendo a sua cara, a sua alma a flutuar perto e longe de mim. Fecho-me numa outra sala, e reabro os seus livros, fixo-me por longos instantes nas suas palavras, e todo um mundo renasce em mim. Sou agora a sua memória, mas a sua prosa e poesia continuam a ser uma parte indelével da minha vida. Não é pouco, é todo um universo a que pertenço, esse que foi nosso e só nosso, que me deixou sem nunca nada me pedir, que me dá e dará sempre sentido a eu ter sido alguém a quem foi permitido estar junto dela, a luz a colorir a nossa casa e a noite a calar fundo as palavras inúteis, fazendo do seu toque e olhar tudo o que significava vida vivida e o desejo de um outro amanhã.

Não, não se foi, nunca partiu, apenas adiou um nosso reencontro num infinito sem dor, o que numas das suas poesias chamou Viagem ao Centro do Mundo. Adormece agora sem mais se recordar desses momentos ou das palavras, ditas e escritas não para qualquer glória futura, só para que permanecesse o “instante suspenso”, como diria de si próprio um outro amigo nosso nas suas horas de inquietude e desejo. Já não chora nem sei se sonha, olha apenas o invisível, o Nada que é o seu mundo sem princípio nem fim, não sei se me conhece ou se me lembra alguma vez, do beijo que dou fico só com o sabor da sua cara e os seus olhos sem expressão. Está aí, e nela me vejo, sei e saberei sempre quem é. Sei que sou a sua memória. As palavras que me deixou escritas são o seu ser inteiro e intacto. Derrama em mim não só a mulher que é, entrega-me a única razão de estarmos aqui, entrega-me o mundo que só alguns tiveram e têm a felicidade de conhecer e de viver. É muito, quer seja o espaço todo na sua escuridão misteriosa ou na sua luminosidade celeste. Tudo o resto nada diz, nada significa, ninguém nos salva ou nos condena. A sua escrita não são meras palavras para mim. São todo o seu ser na beleza que de quando em quando vivemos num passado que se afasta cada vez mais. Esqueçamos o resto. Já não me conhece, como me parece algumas vezes? Conheço-a eu, e um beijo meigo, a minha voz entrando no seu quarto, ainda lhe faz sorrir e tentar olhar-me. Que mais poderia desejar um homem?

Quando releio o seu Viagem ao Centro do Mundo, publicado em 1994, revisito com ela não só o seu mais profundo ser, o seu interior em estado de felicidade e saudade, como revejo todas as geografias dos seus grandes afectos, das suas saudades, das suas perdas, da sua infância, e sobretudo da mulher em busca de si própria. Não, não me entristece, faz-me caminhar a seu lado, faz-me admirar ainda mais uma vida feita de partidas e chegadas, relembra-me dos seus mais íntimos desejos, dos seus mais sentidos desgostos e amores. Ela e a natureza estiveram sempre em comunhão sagrada, cada pedaço da terra de Deus o seu porto seguro, cada memória dos seus em longínquas paragens americanas, mais do que uma presença, faziam-na reviver um tempo que havia sido, mas nunca por mim esquecido. Entrava nas suas aulas para transmitir não apenas o saber dos livros, mas também a sua pessoa como ser vivo e personagem. A literatura não eram só palavras, era vida, era história, era arte, era empatia por quem a ouvia e com ela aprendia. Entrou na política com a convicção de que o mundo também era de todos, e todos o deveriam reconstruir, um pobre não era um pobre, era um homem ou uma mulher em busca da dignidade e da vivência a que tinha direito. O poder era para ser combatido ou utilizado no bem comum, não admirado e muito menos bajulado. Tinha os seus maus momentos e raiva momentânea? Entrava numa igreja, só, e meditava.

Eu quero viver desesperadamente

Pôr emoções em movimento

Marcar rituais idos e por vir

Festejar o entusiasmo e a alegria.

Quero subir escadas, partir perna

Vogar no mar, livre e etérea.

Quero o palpitar do coração

No rosto uma flor em cada festa.

Quero cair, levantar, sair,

Ao estático nunca pertencer

Gargalhada quero em eco vibrante

Ressoar mundos dentro de mim.

Quero o choro em catadupa volante

Seguido de um sorriso de marfim

Quero o gesto do tacto desenhado

em doação e entrega sem fim.

Alguns anos depois viria a injusta sentença, mas antes de resumir toda a sua sorte de vida no quase profético e mais ou menos autobiográfico romance Sorriso Por Dentro Da Noite debruçava-se sobre toda uma vida açoriana e americana transfiguradas, outra metáfora da história do povo açoriano no seu destino de andarilho, e de rejeição à miséria, à injustiça, à prepotência medíocre de terra-tenentes e comunidades sujeitas às maiores indignidades e isolamento. Como em quase toda a literatura da nossa geração, eram só os navios vistos à distância em mares bravos e rumo à América que significavam e metaforizavam a nossa salvação. A sua autora muitos anos antes insistiria em regressar aos seus Açores, e aqui desafiar essa história e esse destino que agora prometiam uma outra maneira de viver a terra que é a nossa. Na sua outra poesia De Emigração Tecido havia de dizer da dor de uma “exilada” numa Nova Iorque que tudo prometia, mas a um preço, por vezes, quase desumano. Cada um de nós viveu e vive a sua própria sorte. Quando nos conhecemos, essa poesia mexeu comigo de modo muito especial, e ela não a publicava. Ser professora de literatura numa universidade portuguesa trazia certos constrangimentos (que hoje, parece, já não existem), era a inveja de uns e certa petulância de outros. Entretanto, haveria eu de a convencer a tirá-la da gaveta, numa carta enviada ainda Califórnia, e que agora está na sua contracapa.

Li De Emigração Tecido – escrevi então – e felicito-me por uma poesia do tempo perdido e apreendido, esse inescapável tema da nossa existência e arte atlânticas, esse quebrar o isolamento físico e psíquico, para uma vez mais tão brilhantemente agarrar de novo a vida. Estarei muito fora da tua escrita poética quando aí vejo a dor como passo fundamental para uma renascença e contínua aventura que é a vida de cada um e de todos nós? Quando nessa tua linguagem límpida e não-sentimental negas o niilismo que a muitos está corroendo nos confusos dias (como diria o falecido James Baldwin) de indizível caos da colectividade? Vejo ainda nas tuas comovidas páginas De Emigração Tecido uma tremenda luta entre o indivíduo que insiste em sobreviver bem vivo e uma Natureza que, no meio desse mar, conspira perpetuamente para amordaçar o Homem, ora aterrorizando-o, ora oferecendo-lhe miragens da sua indescritível beleza. É um triunfo absoluto da Vida e da Beleza; uma ode linda à força humana, ao seu optimismo, determinação e vontade de viver”.

Por agora, não lhe queria dizer mais nada. Tenho aqui à minha frente todos os seus outros livros, e aberto, uma vez mais, O Sorriso Por Dentro Da Noite.

Oh, vovó, Quem me dera, quem me dera – escreve Adelaide – ser pequenina, feita de nada; regressar aos tabiques da parede, esconder-me como quando era criança, voltar ao velho quintal, respirar o aroma de cada flor, sorver o rosa-lilás do pessegueiro, e saborear o araçá da cor do girassol, Eu quero é desaparecer daqui, vovó”.

Tenho, repito, todos os seus livros em minha frente, para além dos inúmeros escritos espalhados pelas mais diversas revistas universitárias e literárias. Está no seu descanso no quarto ao lado – e eu na minha turbulência de saudade, respeito, homenagem e gratidão.

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Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite, Braga, Editora Ausência, 2004. Publicado a minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Março, 2017.