A arte do riso e a realidade da arte

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O homem que eu amava deixou-me por outra e eu entrei em desespero e matei-o. Provavelmente enlouqueci. Mas talvez não seja eu realmente culpada.

Teolinda Gersão, Prantos, amores e outros desvarios

Vamberto Freitas

Já sabemos que um conto tem de surpreender o seu leitor de imediato, e o seu fim ser caracterizado por uma radical viragem na narrativa. Tudo o que esperávamos não acontece, e o que nos parece ou nos disseram ser a “realidade” distorce-se numa subversão textual que, assim mesmo, não pode perder a plausibilidade. Dir-se-ia que isto é verdade sobre qualquer peça de ficção, mas o conto por regra constitui uma fatia-de-vida que só vale a pena ser relatada como que numa parábola, não necessariamente para ensinamento seja de quem for, mas para nos colocar do outro lado do espelho de onde vemos e nos vemos ora em mundos que não pensávamos comuns, ou sequer reconhecíveis por outros, ora aonde, afinal, vivemos a felicidade do inatingível ou o pesadelo de todos os nossos medos, ou ainda a estranheza do que nos é meramente diferente mas sem ameaças ou prazeres de qualquer espécie. Por outras palavras, o conto deverá retratar e devolver a nossa própria humanidade guiada, sempre, pela complexidade da consciência humana, que nos leva e traz imparavelmente em viagens imaginárias de dentro para fora e de fora para dentro. Somos nós que reinventamos a realidade, e é, simultaneamente, essa mesma realidade que nos forma e deforma. Para dar aqui só um exemplo extremo de uma outra literatura, diremos que do fantástico aterrorizador de um mestre como Edgar Allan Poe ao hiper-realismo dito “sujo” de um Raymond Carver cabem todas as nossas fantasias e medos, todos os nossos prazeres e desgostos da mais afastada modernidade até aos nossos dias quase inomináveis a partir de ideologias reinantes, mundividências ou representações artísticas nas letras e nas outras artes. Queria apenas colocar esta obra de Teolinda Gersão num outro contexto, que não o habitual realismo, por mais brilhante que seja, da nossa própria tradição. A autora de Prantos, amores e outros desvarios não só parte quase sempre do quotidiano, como creio alguém já ter observado, para o reinventar na sua arte, como nesse processo cria os mais inesperados universos paralelos, desconstruindo não só esses seus dias presumivelmente vividos e lembrados, como desconstrói implacavelmente outros mundos contidos em literaturas que a influenciaram, ou pelo menos de um modo ou outro entraram nos seus múltiplos imaginários literários. “Alice in Thunderland”, o último conto deste livro, é uma revisitação nada inocente e de todo surpreendente ao famoso romance Alice in Wonderland/Alice no País das Maravilhas, publicado em 1885 sob o pseudónimo de Lewis Carrol, e que contém em si toda a temática que tende ser recorrente em muita da sua obra – a génese da própria literatura, e depois a realidade que a provocou ou inspirou nos seus diversos contextos, e vice-versa. Todos estes contos são, para citar aqui o título de uma outra autora que me é muito querida, um “sorriso por dentro da noite”. Aliás, desde a primeira à última linha desta escrita, é o humor que mais sobressai em cada personagem ou situação defrontada, nunca retirando a seriedade da sua temática, desde o amor e desamor à injustiça das e nas nossas vidas, como em “O meu semelhante” e “Décimo mandamento”, até à natureza da mentira como verdade, que é naturalmente a essência de toda a grande literatura, a vida escondida no sonho, ou o pesadelo do dia-a-dia disfarçado no sentido de missão e obrigação perante os outros, como em “Vizinhas”.

A escrita de Teolinda Gersão traz luz à nossa escuridão, mesmo que a loucura espreite a cada momento. O primeiro conto desta colectânea, “Pranto e riso da noiva assassina” é uma magnífica tirada a uma condição universal que é o amor entre dois seres humanos, seguida pela humilhação da rejeição, a raiva íntima sentida num momento de uma vida tornada para sempre numa comédia posterior, o que mais nos move e comove enterrado inevitavelmente na sucessão de relacionamentos abertos ou escondidos, ou na aceitação da solidão e saudade. A morte de que aqui se fala “acontece” com um realismo quase assustador, mas apenas num estado onírico. Cabe à literatura dar sentido e reorganizar as verdades e falsidades das nossas vidas, desfazer o mistério das coisas perante coincidências sem qualquer sentido ou origem deliberada – os “desvarios” que todos vivemos uma vez ou outra, com ou sem consequências maiores. Por mais individualistas, ou mesmo narcisistas que sejam estes personagens masculinos ou femininos (a autora dá voz a narradoras e a narradores), a grande sociedade que os rodeia está sempre presente, sem nunca se pronunciar certas palavras-chavões que julgam ou sentenciam a nossa condição colectiva, está reflectida irremediavelmente nos valores que cada um segue, profere ou justifica o que faz ou deixa de fazer. Mesmo na clausura de um prédio citadino, aqueles que o “homem subterrâneo” de Dostoievski rejeitava como sendo parte de um outro inferno da modernidade, residem as múltiplas metáforas da condição humana que nos é dado viver e testemunhar, palavras e acções uma clara reprodução e fingimento do que vai e predomina no lado de fora da porta. Desde uma empregada de limpeza a um banqueiro demasiado reconhecível na nossa actualidade, estão lado a lado a consciência magoada de quem virou as costas ao sofrimento momentâneo de outro com a crueldade da hipocrisia beatificada da chamada sociedade aberta e compassiva. Pode a autora extrair a mais bela poesia do buraco negro que também envolve e afoga a nossa existência, mas nunca o esconde. Poderá ser que só a ficção fala a verdade, como ainda há dias nos relembrava a escritora Anna Solomon em “Writer, Writer Pants on Fire”, num mini-ensaio de The New York Times: “As mentiras da ficção – escrevia ela – são mais verdadeiras do que a própria verdade”. Não vejo melhor descrição – ‘Escritora, Escritora, Calças a Arder’ – desta e de outras obras de Teolinda Gersão. A quase indescritível confusão e insegurança das nossas vidas nos tempos presentes e escuros, parafraseando uma outra grande autora do século passado, tem levado a um certo fascínio de escritores, portugueses e estrangeiros, pelas artes e estudos clássicos de outros séculos, como que numa tentativa de melhor se perceber as origens da tragédia moderna. Ler estes contos da nossa urbanidade é como olharmos solitariamente pela janela, vendo o que vai na rua – poderemos estar sós, mas fazemos parte de um todo, somos apenas mais uma peça do mosaico, indesligável, por mais que queiram certos existencialistas, da sorte de todos os outros.

Viu-se no brilhante papel de benemérito – eis aqui o pensamento do banqueiro em ‘Décimo Mandamento’, e que a caminho da igreja que frequenta assiduamente topa um mendigo cheio de fome, provocando-lhe pensamentos que não só se assemelham a muito do que ainda se pensa e diz por palavras variadas e bem mais estudadas, como engloba boa parte da história europeia recente – a assinar um compromisso de serviços gratuitos aos mendigos: distribuição ilimitada de pão, vinho e carne, tratamento nas clínicas geridas pelo Banco, garantia de todos os encargos com a sua cremação ou enterro… A abundância de comida pouco variada mantê-los-ia fartos e gordos, mas não saudáveis, por um tempo relativamente curto. E, vivos ou mortos, os seus corpos tornavam-se um manancial de lucro, desde recolha de sangue e venda de órgãos, campo livre para testar novas substâncias, para já não falar do que, como a gordura, poderia ser aproveitado no campo da cosmética. Bastava saber como fazer as coisas, mas nisso ele era perito e tinha uma enorme rede a colaborar com ele”.

Aqui como noutros contos, Prantos, amores e outros desvarios é um diálogo com alguma da mais duradoura literatura satírica e modernista a partir de Jonathan Swift, como se vê na citação anterior, a talvez Aldous Huxley e George Orwell, consciente ou mesmo que apenas sub-conscientemente. O último conto, já referido, “Alice in Thunderland”, significativamente o mais longo desta colectânea, é uma peça antológica, na sua forma e no seu tema, na sua perfeição contextual com que escava a possível génese não só de Alice no País das Maravilhas, mas da literatura em geral e pelos motivos mais diversos, quer pessoais, religiosos, ideológicos ou meramente artísticos. A ficção toda inocente do livro que se tornou um clássico no mundo inteiro, imortalizado ainda mais pelos estúdios da Disney, poderá ter a sua génese no que hoje é considerado o mais sujo desejo, a pedofilia, o professor de nome Charles Lutwidge Dodgson escondendo numa história sem sentido ou nexo a voracidade com que fotografava e se passeava com raparigas e rapazes. O choque literário deste texto não deveria surpreender ninguém para além de ser uma astuta narrativa, só a capacidade interpretativa da sua narradora. Fez-me lembrar de imediato outra criação desde há muito icónica e lendária na cultura universal do século passado, e igualmente até aos nossos dias – a origem da balada “Over the Rainbow”. Foi escrita pelo judeu-americano nova-iorquino, e comunista pró-soviético Edgar Ypsel Harburg – que acabaria na lista negra de Hollywood durante a perseguição anti-esquerda dos anos 50 – para o filme Wizard of Oz, em 1939, mas a sua mensagem era bem outra, que não a canção de embalar meninos e meninas, mas sim o equivalente ideológico, digamos, dos nossos “amanhãs que cantam”, tendo o letrista escondido nas suas palavras a implícita crítica ideológica e política àquele momento histórico do seu país e do mundo, os perpétuos desvarios do nosso destino.

Prantos, amores e outros desvarios dá continuidade a uma extensa obra literária da nossa autora. “O que a Teolinda faz é escrever a vida”, afirmou noutra parte e vem reproduzido na contracapa deste livro a professora e ensaísta Maria Alzira Seixo. São os nossos irremediáveis estados de alma – com princípio, meio e fim, mesmo que das realidades textuais não o reconheçamos. Somos nós do outro lado do espelho a espreitar a nossa própria humanidade. Aliás, os três substantivos do título destes contos significam talvez na totalidade toda a condição humana, no imaginário destes personagens e na realidade das nossas próprias vidas.

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Teolinda Gersão, Prantos, amores e outros desvarios, Lisboa, Porto Editora, 2016. A informação sobre o autor de “Over the Rainbow” foi tirado de American Dreamers: How The Left Changed A Nation, de Michael Kazin.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 2 de Dezembro, 2016.

Arte, ou a nossa humanidade no escuro e ao espelho

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À sua volta, as coisas escureceram, deixando de poder ser nomeadas, e Antonia pressentiu qualquer coisa indizível: um verdadeiro medo e a estranheza da esperança.

Cristina Drios, Adoração

Vamberto Freitas

Há entre alguns dos escritores e escritoras portuguesas de uma nova geração o que creio ser uma tendência identitária que vai muito para além do seu território íntimo e natal. Dirão que no processo histórico mundial em curso essa disponibilidade para ver o mundo nos seus infindáveis contextos linguísticos, culturais e artísticos é uma inevitabilidade. A nossa literatura entre outras gerações quase sempre esteve e ainda permanece obcecada com o nosso modo de ser e estar ante os outros. Tem sido uma temática constante, e produziu muitas das obras primas que têm uma noção de portugalidade como referência primordial. Do mesmo modo, o nosso impulso e visão universalistas vêm desde Camões e Fernão Mendes Pinto até ao modernismo de um Fernando Pessoa, desdobrado num tremendo jogo de espelhos que reflecte toda a tradição ocidental, toda a mítica da antiguidade até à nossa modernidade no labirinto de uma cidade europeia outrora capital imperial, e que, mesmo no seu marasmo decadente, não esquecia nem deixava de desejar as viagens longínquas ao encontro de um outro nas terras distantes. Toda a grande literatura, diz-nos a tradição crítica, é um diálogo que acolhe ou rejeita os seus antecedentes e antecessores, as “multitudes” de um Walt Whitman metamorfoseadas na pluralidade do nosso ser pessoano. Em Adoração, o novo romance de Cristina Drios, a palavra Portugal aparece uma única vez, e simplesmente em relação à visão artística desta prosa que tem como ponto de partida e chegada um diálogo entre as artes, nomeadamente entre a própria literatura, a palavra e os seus limites, e a pintura caravaggiana dos séculos XVI e XVII, tendo como fundo naturalmente a Itália ainda repartida por feudos e cidades-estados de norte a sul, ou espalhadas por ilhas no mediterrâneo de toda a beleza e tragédia. “Na verdade – diz o narrador ou narradora deste romance – sois feito daquilo que o Caravaggio nos seus quadros pinta, sois feito de luz e sombra, de vida e morte, de culpa e perdão”. Creio que haverá poucas definições ou interpretações da grande arte ocidental que consigam resumir tão eloquentemente a natureza do gesto que é a humanidade tentar entender-se através do acto criativo, ou da sua imaginação expressa por qualquer meio extra-científico. Edmund Wilson diria um dia que o modernismo literário do século passado, especialmente a partir de James Joyce e das suas reinvenções linguísticas, quase faria desaparecer a poesia nas suas formas conhecidas, pois a nova prosa ficcional estava a encarregar-se de juntar ao seu realismo descritivo e psicológico toda a beleza poética e imaginativa das nossas emoções. Poderá ter exagerado nas suas previsões e leituras, mas a verdade é que um romance como este aqui em foco é esse brilhante jogo de luz e sombras, da palavra rude e realista seguida ou integrada em frases tão doces e melódicas que se assemelham ao que porventura sentirá um observador de qualquer quadro do artista que lhe serve de sujeito, criador para sempre e parte indelével ou inesquecível do que efectivamente é o nosso imaginário da maldade e da beleza, da bondade e crueldade das lendas e dos mitos que nos fazem quem somos, ou pensamos ser. Um diálogo entre as artes, só por si, poderá não ter nada de original, faz parte das mais variadas obras, mas Adoração, creio, integra-se agora num dos mais sofisticados e clássicos cânones das literaturas portuguesa e europeia. Dizer literatura “portuguesa” poderá insinuar também aqui outra discussão teórica, mas digo-o assim e por agora porque vem de uma autora nacional e que escreve na sua língua natal.

Antes de mais, é preciso advertir o leitor que não é preciso entender ou sequer ser admirador do grande pintor italiano que se dedicou à transfiguração na tela de temas predominantemente bíblicos, e não poucas vezes parodiantes de outros artistas, antes ou do seu próprio tempo, para ser ler Adoração. Um dos grandes feitos deste romance de Cristina Drios é precisamente transportar-nos da nossa actualidade por demais conhecida para os séculos da luz e da escuridão, tal como nos quadros de fundo negro e figuras luminosas, que eram a marca inconfundível de Caravaggio, o verdadeiro protagonista do romance, e em cujo mundo e lendas ou factos biográficos se enredam os outros personagens principais: Antonia Rei, filha de bem, mais ou menos, residente num velho e recuperado palácio de Palermo, essa capital ilhoa governada simultaneamente por políticos e pela histórica máfia, cuja dicotomia não é sempre clara, e o polícia Salvatore Amato precocemente viúvo e sentimentalmente magoado por obra e graça desses verdadeiros donos da sociedade, os de arma e faca em punho e o silêncio tribal como única filosofia de vida. Estamos em 1992, quando a história tem início numa rua da cidade e em frente a um café, de vida normalíssima, mas o momento em que Antonia assiste a pouca distância a um assassínio clássico levado a cabo com uma caçadeira e fuga numa mota, sendo pouco tempo depois interrogada informalmente por Salvatore, que acontece viver no mesmo bairro e vizinho da mulher aterrorizada com o que acaba de testemunhar. Tudo o que acontece e nos é contado a partir desse momento tem como motivação única, verdadeira e histórica o roubo da tela de Caravaggio intitulada Natividade com S. Francisco e S. Lourenço ou A Adoração, a 17 de Outubro de 1969, “e que continua desaparecida. Tudo o mais – informa-nos a autora numa nota prévia – é ficção ou quase”. Quase, porque Cristina Drios reconstrói toda uma época por ela investigada, toda uma ambiência habitada por personagens reais (outros artistas, mecenas, figuras amigas e inimigas, autoridades políticas e religiosas) presentes nas histórias da arte do seu e nosso tempo. É nesse acto de imaginação pura e nas diversas linguagens do romance que vão desde documentos arquivados ou inventados pela narradora que Adoração se ergue como uma singular obra literária, uma vez mais, em diálogo com alguma da pintura mais memorializada da história europeia e universal, a sua temática toda uma reinterpretação da religiosidade e mítica que passou a definir-nos a vida e a morte, o amor e o ódio, a solidariedade e a traição. Algures entre uma espécie do romance policial e histórico, todo caos do nosso presente é contraposto a um passado nada menos instável e cruel, em que o bem e o mal se entrecruzam na continuidade sem fim que foram e são desde sempre as nossas vidas colectivas, ou na solidão da miséria de rua ou da frieza indiferente de palácios e jardins que só na arte nos parecem ou viram paraísos oníricos. São várias e de tempos próximos e distantes as vozes que nos falam nestas páginas sem uma única resposta para os enigmas e mistérios da vida vivida ou representada. Cada frase, ora depuradamente realista ora de uma poética lírica que nos faz querer lê-la em voz alta, é uma interpelação ao leitor sobre como olhar em seu redor, e depois admirar-se no jogo de espelhos em que nos vemos em várias dimensões, ou nas distorções da nossa própria fealdade, a luminosidade da nossa auto-consciência ensombrada pela escuridão em que Caravaggio colocava os seus míticos seres e espaços reinventados.

Com passos decididos, – diz o narrador de Antonia quando ela regressa ao palácio paternal após testemunhar o crime na praça do Teatro Massimo, definindo-a perfeitamente, definindo o seu estatuto, introduzindo ao mesmo tempo toda a trama que vai guiar a sua história de surpresa, medo e fascínio, fascínio dela e nosso – Antonia subiu a escadaria, olhando pela janela. O céu tomara tons de um azul extremo, violento, sem nuvens: a obra de Deus, na sua infinita beleza, a não precisar de assinatura, a bastar-lhe a nossa adoração. E se Caravaggio nunca assinara as suas telas, pensou ela, talvez fosse porque também lhe bastasse apenas a adoração da sua obra, já que não deixava de ser o demiurgo desse universo, compreendido ou não. Nesse instante, porque lhe dissera ser quase um vizinho, pensou no comissário Salvatore Amato e logo depois, estranhamente, no pai com um nó na garganta e uma sensação amarga de abismo e perda…”

Se há uma característica textual que mais marca Adoração, creio, é a subtileza da sua ironia, a capacidade de movimento entre vários tempos ficcionais, sem que o leitor se perda num emaranhado de acções, ou dos múltiplos personagens secundários que giram em volta da vida e obra de Caravaggio. Cristina Drios consegue retratar uma sociedade de um renascentismo que parece já em fase tardia e em anunciada decadência, com todo o seu dramatismo histórico, político e artístico, uma espécie de caos criativo que em muito pouco difere dos nossos próprios dias, como comprovam os acontecimentos que dão início e fim a Adoração. Por certo que o melhor dos romances ditos “históricos” tentam quase sempre imprimir esta noção de que a passagem do tempo não implica necessariamente a progressão de ser e estar, a que chamaríamos de Iluminismo e depois Modernidade, a separação do tempo da Inquisição e da criminalidade generalizada da nossa própria era está suspensa num ténue fio de suposta moralidade e civilidade. Talvez seja esse um outro tema deste romance audaz: quase todos os quadros de Caravaggio, relembra-nos a narradora, são representações dos homens e mulheres saídos da mítica religiosidade civilizacional a que pertencemos, mas cujos figurantes eram as caras e os corpos dos seus contemporâneos, quando não do próprio artista. Adoração traz-nos essa outra originalidade – a arte literária revendo-se a si própria, olhando outras formas e eternas representações do tempo e da vida.

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Cristina Drios, Adoração, Lisboa, Teorema/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 18 de Novembro, 2016.

Sião a saque, ou na terra de Judas

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Esta história decorre no inverno de finais do ano 1959 princípios de 1960. Há nela engano e desejo, desilusão de amor e uma certa questão religiosa que ficou por responder.

Amos Oz, Judas

Vamberto Freitas

A citação que vai aqui como epígrafe é a abertura do romance Judas, do israelita Amos Oz, recentemente traduzido e publicado no nosso país. Não, não tem nada a ver, como noutro contexto me recordaria um velho mestre meu na faculdade californiana se soubesse destas minhas leituras, com o sexo e a violência do Velho Testamento. Ou melhor, tem a ver também com tudo isso, mas como uma fantástica tirada artística não sobre os antigos que moldaram todo o nosso destino, mas sim sobre a condição humana numa modernidade nada mais reconfortante, a fundação de Israel vista na sua essencialidade trágica, e sobretudo o individuo, ou cada ser humano, no seu isolamento e desespero perante a História, e o que esta faz de nós quando na luta e construção de uma sociedade se esquece que cada homem e mulher tem um coração autónomo, independente, e nem sempre os seus sonhos ou busca de uma utopia, sagrada ou profana, coincidem ou lhe atribuem um lugar em que a sua própria identidade ou felicidade esteja em paz com a restante comunidade. Não se trata de um romance sobre o Judas bíblico, se bem que é ele que fornece a esta narrativa a continuidade de como nos tratamos mutuamente, tornado-se um fio condutor de como hoje, à semelhança do que se sucedeu há dois mil anos, permanecemos equivocados pelas linguagens que raramente fazem mais do que distorcer a verdade, ou recriar a “realidade” que depois nos esmaga ou mata, nos faz esmagar e matar. Por entre as linhas-mestras da História, estão os homens e as mulheres, sentados na sua velhice ou na azáfama do seu quotidiano, a imitar uma ideia de normalidade nas suas vidas, digerindo todas as feridas do passado e tentando escapar à brutalidade em que vive cada nação, país, cidade ou aldeia. Israel, pois, somos nós todos, mesmo os que a querem fazer arder num fogo apocalíptico e supostamente redentor. Sião, símbolo do que desejaríamos ser mas não somos, refúgio que nos convida mas nos mata. “É óbvio – diz o protagonista de Judas – que não lhe agrada andar sozinha de madrugada no Monte Sião. E também não é nada seguro”. Não precisamos de saber muito da história da fundação moderna de Israel, e do Holocausto que apressou boa parte do mundo a autorizá-la, nem é preciso saber muito dos textos sagrados para a leitura deste romance. Ajuda, mas será, em primeiro lugar, o reconhecimento identitário, em termos estritamente humanos, que o leitor terá de descodificar para perceber logo de início que a obra que tem em sua frente é tão-só uma outra visão da nossa comum condição, a contingência da História, repita-se, um pano de fundo onde veremos o outro, e de onde ele olha intensamente dos dois lados desse espelho as nossas pessoas, que se fundem, seja esse um desejo mútuo ou não. Sim, Judas aqui é também essa outra imagem e ficção que tanto sangue tem feito derramar, tanta dor sofrida. A ficção pela qual nos guiamos. Só que o “traidor” desta narrativa também se chama Shaatiel Abravanel, que foi um pensador e militante judeu do seu tempo, tendo acabado os seus dias na solidão do seu quarto, incessantemente a ler e a escrever após ser expulso da comunidade pelos primeiros líderes do seu país porque não os apoiava na luta por um estado hebraico. A genialidade deste romance está no facto de um dos protagonistas ser um doutorando falhado que queria fazer uma tese sobre como os judeus viram e vêem Judas Iscariotes, e o velho militante sionista com quem vive durante quatro meses apresenta-lhe o seu falecido amigo e compadre, em que, uma vez mais, o conceito de traição segura tudo ou quase tudo quanto nos é apresentado nestas páginas.

Judas tem no seu centro como protagonistas e condutores de toda a narrativa Gershom Wald, patriarca e um dos fundadores do Estado de Israel (que havia estado ao lado de David Ben-Gurion, seu primeiro presidente e combatente desde sempre), Atalia Abravanel, sua nora, e Samuel Asch, que responde a um anúncio visto na sua faculdade a oferecer um emprego na casa dos dois para fazer companhia ao idoso, mais ou menos já imobilizado, mas intelectualmente activo. A chegada de Samuel, um estudante de vinte e poucos anos, à velha casa numa rua periférica de Jerusalém vai despoletar não só as analepses sustentadas sobre a história antiga e moderna do país hebraico na voz do veterano em repouso, como leva Samuel a desejar intimidade ou um relacionamento sério com Atalia, de quarenta e cinco anos, e viúva do filho único de Wald, selvaticamente morto há uns anos numa patrulha militar na Galileia. Nesta sua estrutura linear e simples o romance leva-nos  continuamente ao contacto com as mais variadas figuras ligadas à fundação e à condução de Israel, aqui ainda antes das grandes batalhas que viriam a eclodir nos anos 60 até aos nossos dias, como nos recoloca na sequência de eventos e nomes mais marcantes da história e cultura recentes. Temos na narrativa que Wald vai revivendo e equacionando página a página as três gerações em convivência no tempo ficcional de Judas, cada uma com as suas angústias existenciais e desejos pessoalíssimos, em harmonia ou não com os acontecimentos colectivos do seu passado, ou abertos a todos os argumentos que lhes possam colocar, quer no que diz respeito à sua sorte pessoal como ao destino que lhes trouxe até à realidade do presente, e mais ainda a um futuro em tudo incerto e ferozmente contestado por outros logo ali ao lado. Creio ser intencional por parte de um grande autor como Amos Oz, pessoalmente conotado com a esquerda dialogante e pacifista do seu país, que pede um diálogo com todos os seus vizinhos e actores político-militares, sem que ponha em causa a sua lealdade ao novo estado do Médio Oriente, não enfatizar directamente nem o selvagem passado europeu que leva às decisões da geração mais velha e a que pertence Wald, como deixa também ao leitor a imaginação sobre todos os outros nos arredores. O seu humanismo não esquece e muito menos trivializa seja quem for, pois o outro espreita constantemente quer nos relatos de Wald quer nos avisos de Samuel quanto ao seu desconforto nas ruas da sua cidade natal. O tema fundamental do romance é essa tentativa de equilíbrio entre uma História que coloca os seus personagens na situação que é a sua, sem que possa haver recuos, e os seus desejos íntimos, pessoalíssimos, a busca do amor na solidão dos dias e perante a morte natural ou anunciada que os ameaça por todos os lados. Não se trata propriamente de um romance de ideias, no sentido clássico que a crítica tem das suas formas, mas sim um mosaico discursivo e de todo intelectualizado, que só lhe acrescenta profundidade, e permite ao leitor mais comprometido com a literatura séria desfrutar do grande saber e sabedoria do autor em relação à humanidade nas suas infindáveis contingências, ou ainda a universalidade da nossa comum condição, em que o medo ou euforia de viver se estende de uma ponta do planeta à outra.

A ironia e humor estão constantemente presentes numa narrativa que nunca deixa estes dois fios condutores, a interpretação histórica de um povo, e a singularidade de cada ser humano apanhado nas suas teias. A tese de doutoramento de Samuel Asch nunca é concluída, mas tanto ele como o seu interlocutor na velha casa de Jerusalém discutem constantemente se Judas Iscariotes foi um traidor, ou, pelo contrário, tal como poderá ser entendido pelos judeus, foi o mais fiel apóstolo de Jesus, que o levaria ao suicídio num momento de reconhecimento da ausência da sua própria fé ou de qualquer divindade daquele que fora o seu Senhor. O pai de Atalia, falecido com a idade naquela mesma casa partilhada com a Atalaia e o seu sogro Wald, foi um outro “Judas” para os seus companheiros de luta pelo Estado de Israel, se aceitarmos a calúnia cristã que associa o seu nome à mais vil traição dos que se consideram e se consideravam estar no lado “correcto” da História. Shaatiel Abravanel foi expulso da vida pública do seu novo país quando se opôs à fundação de um Estado que excluiria os palestinianos, esses sendo os novos expulsos do seu lar, a sua História negada, o seu direito a uma identidade autónoma na sua própria terra como que proibida. De quando em quando Samuel passeia-se pelo lado de cá do muro que divide a cidade, nunca o atravessando, insinuando assim a separação de facto entre as duas comunidades, cada qual com a sua reivindicação pela nascença ou pelos textos antigos das suas origens. Mais do que a violência física num modo de ser e estar, sentimos a violência interior, a violência de alma entre estes seres que se querem honestos consigo próprios. Os seus conhecimentos intelectuais não permitem um alheamento de toda a complexidade que os rodeia no labirinto de vida e morte muito antigas na cidade que é a génese de todo o sofrimento e de toda a esperança. Ler Judas é reencontrarmos tudo o que, dentro ou fora daquela geografia, nos foi incutido desde a infância.

Entre uns e outros está Atalia, silenciosa quanto a tudo isto, mas num rodopio constante na sua vida profissional e íntima. Sim, eventualmente, deita-se com Samuel, mas a sua viagem na vida é outra, que permanece aqui meio misteriosa, meio vazia. Está em paz, parece, com as suas perdas e as suas inseguranças. Mais do que as descrições físicas da mulher bonita e matura, é esse quotidiano movimentado e em parte passado nos cafés e outros poisos sociais da cidade que recria para nós a sua sensualidade, a mulher que também encarna uma História muito antiga e cruel, ao mesmo tempo que persegue os seus prazeres e equilíbrios interiores. Estes não são só os novos habitantes de Sião, somos nós todos nos templos das nossas crenças e (in)felicidades.

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Amos Oz, Judas (tradução de Lúcia Liba Mucznik), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 11 de Novembro de 2016.

Revisitação A Sangue Frio, ou o outro lado do sonho americano

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O crime fora um acidente psicológico, virtualmente um acto impessoal; era como se as vítimas tivessem sido mortas por um raio. Salvo uma coisa: haviam sofrido um terror prolongado, uma lenta agonia.

Truman Capote, A Sangue Frio

Vamberto Freitas

Há um outro passo neste grande livro de Truman Capote que retive na memória de modo especial. A Sangue Frio, publicado nos EUA em 1966, entrava na consciência literária dos seus leitores por muitas e inquietantes razões. Obra experimental na sua forma, Capote conseguia aliar o jornalismo de investigação da época com a fluência e todas as restantes técnicas narrativas do romance psicológico e realista. Suspeito que havia lido John Dos Passos, que criava uma frase descritiva como quem aponta uma câmara cinematográfica ao seu personagem ou ambiente circundante, ou simplesmente seguiu o seu instinto e conhecimento de certo dramatismo ambíguo – quando não hipócrita – na cultura popular americana, ou a surpresa ante o óbvio, neste caso a violência e a morte instituídas como último reduto de justiça e castigo absoluto – tanto por parte do criminoso como por parte do estado. “Só desejo – diz Richard Hickcock já com a corda ao pescoço na tarde de 22 de Junho de 1965, e minutos depois do seu comparsa, Perry Smith, ter sofrido a mesma sorte – afirmar que não quero mal a ninguém. Vocês mandam-me para um mundo melhor do que este”. Estas suas últimas palavras perante as testemunhas do seu enforcamento numa prisão do Kansas fazem-me lembrar, agora nesta minha (re)leitura da mais recente edição portuguesa do romance após um longo período de tempo, do personagem de Charles Dickens no seu clássico A Tale of Two Cities, quando é também executado numa praça jacobina de Paris – vou para um mundo muito melhor do que este, diz, onde nunca estive. Aliás, creio haver qualquer coisa de Dickens nesta incomparável obra de Truman Capote, mesmo que não exista nada em comum entre uma grande Londres do século XIX e uma pequena aldeia chamada Holcomb na pradaria do médio oeste americano no século seguinte – os infelizes a braços com a sua sobrevivência numa sociedade de minorias ambiciosas e de maiorias deserdadas, em que o puritanismo da classe dominante se contrapõe firmemente aos supostos perdedores e à sua insanidade, ou, no mínimo, desespero numa sociedade em que a ostentação da riqueza e bem-estar lhes lembra a cada momento o seu fracasso, nunca assumido como sendo pessoal, mas sim porque alguém os impediu de atingir certa igualdade ou funcionalidade no seu quotidiano. São as últimas palavras, as de Hickock, de quem não se arrependeu da sua transgressão levada aos limites, que é o roubo da vida a outros, mas também de quem não quer deixar de sentenciar um mundo que ele acha que lhe foi injusto e de todo mau. A Sangue Frio é esse thriller psicológico de uma história vivida, que se ergue ao mesmo tempo como uma rara peça de beleza literária, quer nas suas linguagens frias, duras e pretensamente distanciadas dos seus sujeitos, quer como um retrato completo de um determinado tempo e lugar, em que os antecedentes histórico-sociais – como as origens nacionais e étnicas dos seus personagens principais – colocam comportamentos, andanças, cenas e visões do mundo num contexto que é familiar ao leitor melhor informado ou formado. Não é aconselhável especular sobre a intencionalidade de um autor numa determinada obra, mas aqui parece-me mais do que claro que Truman Capote quis fotografar minuciosamente todas as contradições da sociedade em que na altura lhe foi dado viver e testemunhar. A originalidade desta narrativa não está em separar os “bons” e os “maus”, algo muito comum na visão maniqueísta na mundividência daquele país – é uma tirada de força e arte sobre a tragédia que é a vida humana, sobre a ambígua condição sempre periclitante da nossa vivência em comunidade, dos secretos estados de alma de quem connosco convive, ou aleatoriamente nos condena à marginalidade.

O narrador que é Truman Capote junta aqui todos os pedaços factuais da madrugada de 15 de Novembro, quando dois indivíduos de nome Perry Smith e Richard Hickcock, ambos saídos recentemente de uma penitenciária do Estado de Kansas e que lá se haviam conhecido, rumam até à próspera mas discreta fazenda da família do patriarca Herbert William Clutter e da sua atribulada esposa Bonnie, e dos filhos adolescentes Nancy e Kenyon, que se encontravam deitados nas vésperas do Dia de Graças, quando esperavam toda a restante família vinda de fora, inclusive mais duas filhas, uma casada, outra comprometida. Perry e Richard (Dick), este residente numa cidade um pouco maior e vizinha, tinha sido alertado por um outro recluso da sua área que os Clutter tinham em casa um cofre, e provavelmente bem recheado dado a estatura do seu dono na comunidade, e especialmente o respeito em que lhe tinham todos em Holcomb, inclusive na sua igreja de uma denominação protestante. Conservador e bem educado, trata todos com a dignidade que lhe é devolvida em toda a parte. Enganam-se os seus assassinos – anda sempre com pouquíssimo dinheiro, não tem cofre nenhum em casa, e após um dos mais assustadores actos de violência contra os quatro membros da família, encontram e levam uma quantia entre os quarenta e cinquenta dólares. O detalhe com que Truman nos descreve cada passo dos dois bandidos e das suas vítimas constitui por si só uma narrativa cuja tensão, acredito, nunca foi superada numa obra semelhante. Não foram só os documentos do tribunal, conversas com a polícia e a imprensa local, escrutinado tudo por assistentes e colegas durante alguns cinco anos, inclusive o trabalho aturado em entrevistas de Harper Lee com as mais variadas figuras, uma das suas colaboradoras a quem o livro é dedicado e sua grande amiga de infância, já na altura a famosa autora do premiado To Kill A Mocking Bird/Não Matem a Cotovia. Ele próprio viria a desenvolver certa intimidade com os assassinos presos, em longas conversas sobre todo o seu passado e condições de vida até ao momento fatídico em Holcomb. O que mais impressiona o leitor é a absoluta fluência com que eles falam das suas vidas e o entendimento que delas tinham, o modo racional como viam o seu lugar na sociedade ou entre a família e amigos antes dos dias de roubos e prisões bem mais leves. Estas transcrições – e por vezes escritos dos próprios assassinos – são de uma frieza aterrorizadora. Descrevem ao autor em pormenor cada minuto do seu assalto aos Clutter, cada movimento das suas vítimas, cada suplício de todos eles para que salvassem a sua vida. Procedem à matança de cada membro da família nos seus próprios quartos, ouvem as suas preces a pedir misericórdia, mas procedem com faca e caçadeira sem pestanejar, e ainda mais sem qualquer sentimento, até ao ponto de Perry deitar numa caixa de papelão Herbert Clutter para que morresse, como confessa ao autor, nalgum “conforto”. Nunca uma peça literária tinha conseguido um efeito tão misto nos seus leitores, nunca um relato tão frio e objectivo havia exercido tanto fascínio – ou medo – até à hora da execução dos dois homicidas. Alguns anos depois, Norman Mailer faria o mesmo com um caso notório de outro crime levado a cabo por um Gary Gilmore, no Estado de Utah, em The Executioner’s Song, publicado em 1979. Mailer era fascinado pela vida e crimes hediondos do seu tempo, e este seu livro, que ele próprio considerava o seu magnum opus, foi do mesmo modo classificado como “não-ficção criativa”, tendo recebido o Pulitzer Prize logo de seguida. No entanto, nunca entraria, ou até hoje não entrou, na memória literária do país como entrou e ficou A Sangue Frio.

Uma das imagens recorrentes em A Sangue Frio é o gigantesco comboio de carga visto ao longe das casas agrícolas no meio dos campos imensos ou por entre as pequenas aldeias, o seu apito ouvido na distância desperta como que um sentimento de solidão e lonjura, relembra-nos do isolamento conformado das suas personagens. É o mundo que corre em nossa frente, não para e não desembarca passageiro nenhum, recordamos apenas que estamos sós, mas é também um momento em que nos damos conta de que fazemos parte de todo um mundo muito maior do que o que nos coube no nosso destino. Quando lemos os últimos momentos deste romance de não-ficção, o enforcamento destes dois assassinos não nos é tão clarificador como talvez gostássemos que fosse. Aliás, na pequena aldeia e nos campos de Holcomb existem muitos outros que, pela sua religiosidade ou filosofia de vida, clamam contra a pena máxima do seu Estado. Como nesse comboio a alta velocidade que passa ao longe, ficamos e partimos, sem saber a que lugar pertencemos, ou queremos pertencer, sem resolver se queremos ou não para o sentenciado castigo in extremis – ou escutar o outro lado da nossa alma.

Truman Capote era já então um escritor e dandy citadino em Nova Iorque, mas havia nascido e crescido no sul profundo. Essa outra América ruralizada e isolada seria porventura o seu imaginário mais significante e memorizado. Nos meus longos anos de América, eu via e ouvia com alguma frequência Truman Capote a ser entrevistado ou em conversa em programas televisivos mais ou menos literários, ou na coscuvilhice habitual e sem nexo de outros encontros no pequeno ecrã. Trabalhava o seu jeito efeminado nos gestos e olhares, era devastador na má língua ante outros escritores e figuras diversas da sociedade. Criava com estas suas linguagens improvisadas empatia ou repulsa, mas nunca nos deixava indiferentes. Só que reler esta sua obra, já canónica, é reencontrar o poder da grande literatura, ou como a sua linguagem torce e retorce a nossa “realidade”, e sobretudo as nossas mais profundas crenças.

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Truman Capote, A Sangue Frio (tradução de Maria Isabel Braga, 9ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado na minha coluna “BoderCrossings” do Açoriano Oriental, 04 de Novembro, 2016.

Eliezer ben Natan, ou a morte seguida de vida

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Os déspotas do nosso mundo têm medo dos homens que insistem em narrar as suas próprias histórias até ao fim. Querem controlar o modo como a contamos, mas não devemos deixá-los.

Richard Zimler, O Evangelho segundo Lázaro

Vamberto Freitas

Foi para mim a partir de um dos últimos capítulos de O Evangelho segundo Lázaro que me apercebi que toda a viagem desta narrativa, relatada e comentada na primeira pessoa pelo homem que a mítica cristã diz ter ser sido ressuscitado dois dias após a sua morte em Betânia, na Judeia, pelo seu amigo de infância de nome Yeshua ben Yosef, nos levava para a recriação e lembranças de um Poder exercido sobre todos os outros, da contra-natura que é o domínio de uma cultura sobre uma outra, da impostura militar e política como meio de opressão e escravidão. Certas religiões ou igrejas preferiam que a leitura de textos tido como sagrados fosse deixada aos sacerdotes, as suas parábolas, metáforas e simbolismo estando para além da compreensão dos seres comuns e razoavelmente inteligentes, pensadores desencartados. Poucos de nós, suspeito, alguma vez foi exposto na catequese da sua tradição ao ponto de vista que porventura mais esclarecedor seria – o que pensam e dizem os próprios judeus, daquele tempo e do nosso, de tudo o que levaria a Gólgota um compatriota nazareno de Lázaro, ou, ainda mais, o que possivelmente disseram, pensaram e testemunharam os que com ele conviveram e sofreram a maior convulsão do mundo antigo, os seus descendentes para sempre condenados à fúria assassina de quase todos outros? Como viu ou vê, este mesmo povo, cujos mitos da Criação são os nossos, que não falava as línguas do Poder e que fora colocado pelas circunstâncias históricas numa determinada geografia, essa que perdura no nosso imaginário como sendo o sítio genesíaco do Bem e do Mal, as figuras principais de um drama sem igual nas nossas raízes e tradição greco-romana e judaica? Tudo isto permanece fora do nosso conhecimento e sensibilidade, e é a um escritor, estou em crer, que cabe tentar preencher esses espaços em branco, em que imaginação se alia obrigatoriamente à documentação existente, quer nas páginas bíblicas quer nos documentos e objectos que continuam a ser desenterrados pelos mais variados estudiosos e ramos do saber académico. Antes e depois de chegarmos a este ponto fulcral do romance, Richard Zimler presenteia o seu leitor com alguma da melhor prosa na literatura dos nossos dias, mesmo numa tradução que depressa nos faz esquecer que a língua original em que foi escrito este livro é o inglês – a viveza metafórica e simbolista absolutamente essencial a uma grande história como esta, o inesperado dito de um personagem ou então a sua reinvenção simultaneamente seguidora e apócrifa do que sabemos ou não acerca de cada um deles, a audácia de humanizar os detentores ou inventores do mistério que é a noção de Deus e do nosso destino na vida e na morte. Aliás, a linguagem realista e descritiva é outro marco eloquente da narrativa, como que um contraponto à ofuscação de textos que nos pedem fé e não raciocínio, algo que o próprio Lázaro, nestas páginas, rejeita logo após a seu regresso à vida. A ironia e o humor fazem o resto. Lázaro perde a fé por nada ter “visto”, nada ter experimentado, de nada se lembrar daqueles dias de morte. Faz-me recordar aqui um outro grande romance, Judas, do israelita Amoz Oz – Judas perde a fé quando vê Jesus na cruz e sem salvação, enforcando-se de seguida, não pela traição que dizem ter cometido contra Jesus, mas pelo vazio de viver na ausência de qualquer crença. Zimler consegue recordar-nos de algo histórico e documentado – a convivência pacífica, que hoje nos é tão alheia, entre os mais diversos grupos étnicos e linguísticos, de crenças que iam desde o zoroastrismo persa até ao judaísmo semita e politeísmo greco-romano. Só a exploração imperial de sempre produzia a violência e o ódio, “esta necessidade – diz o narrador a dada altura – de ser o dono dos outros”.

Deixo aos estudiosos e filósofos o lado teológico desta narrativa, cinjo-me ao que constitui uma grande obra literária, como é este Evangelho segundo Lázaro. O relato informal do indefectível amigo de Yeshua/Jesus está a ser feito no exílio da ilha de Rodes, para onde foi Lázaro desde a crucificação do seu amigo, o Mar Egeu a separá-lo dos que lhe tirariam a vida para que ele nunca mais falasse de nada e de ninguém. Está a ditar as suas memórias ao neto Yaphiel porque sabe que a sua vida foi algo de extraordinário, inexplicável no momento em que sai da morte para a vida, mas restando-lhe sobretudo a memória de uma vida em família e comunidade, particularmente nos anos em que Yeshua anda a pregar por todo o Sião, desde a Galileia das suas origens à Jerusalém do seu fim, enquanto ele, Lázaro, regressa à sua profissão de ladrilhador de mosaicos nos palácios dos romanos e de judeus colaborantes com o ocupante desde há décadas, e que não respeita minimamente a identidade do povo que governa e de que extrai toda a riqueza em volta. Nada de novo aqui, outros escritores já haviam proposto ou insinuado a confusão entre pregadores, místicos e feiticeiros e a insurgência da palavra deliberada ou que resultou na denúncia de quem desafiou os sacerdotes do Templo na sua submissão ao conquistador e à sua vida absolutamente faustosa e corrupta. O que não sabemos, o narrador imagina e recria, a vida quotidiana dos que trabalham e tentam sobreviver com um mínimo de dignidade, o seu desespero calado levando à busca de misericórdia por qualquer meio ao seu alcance, a espera de um Messias a mais velha profecia do seu Livro. Lázaro, viúvo de Lia, traça-nos um retrato de minúcia psicológica e realista das suas duas irmãs, Marta, que suspeita das mais vis traições e invejas, e Miriam na sua aparente seriedade e dedicação ao bem-estar do pequeno clã, assim como Yirmi, o seu filho que o acompanha e ajuda nos seus trabalhos diários, um observador adolescente mas atento às ameaças de toda a natureza que envolve vida dos seus, cada rua de Jerusalém vigiada pelos espiões dos romanos e dos sacerdotes irados. Pelo meio, Lázaro recorda ainda outras figuras que os textos sagrados canonizaram mas nunca explicam, Pilatus aqui um arrogante governador de província sem qualquer sentido de justiça ou humanidade. Até a língua do ocupante é odiada, numa viragem de grande ironia e significado, pois seria essa mesma fala que viria a reger a nova religião no império após a morte de Yeshua, que, como se sabe, nunca conheceu ou ouviu a palavra “cristão”, muito menos de uma igreja que não poderia ser sua – nasceu, viveu e morreu judeu. Ao contrário de outras ficções da mesma temática, a figura Yehudah de Cariote, Judas, continua aqui suspeito do que viria a ser a outra mítica sobre a sua pessoa, até hoje, a traição nunca provada mas que Lázaro também suspeitava. Esta é uma narrativa que também cabe no género que consideramos o romance histórico, sendo algo mais, muito mais. Entre os factos históricos e as suposições celestiais ou de um mundo-outro estamos perante uma narrativa que parte de tudo isso para reinventar um mundo tão misterioso como plausível, tão humano como deificado. Cabe a um escritor assumidamente judeu, uma vez mais, essa reinvenção, e mesmo desconstrução da fantasia, ou do não evidente aos nossos olhos. A ética da arte literária está também aqui – nenhum leitor se esquecerá do sofrimento humano que todo um povo tem vivido desde então até hoje, o fundamento principal dessa implacável violência nada mais do que um conjunto de textos de origens mistificadas, que uns aceitam quase literalmente, outros não. A identidade de Yeshua aqui é só uma – a luta pela dignidade e justiça numa sociedade que havia sido conquistada pela força das armas e teria evoluído em exclusivo a benefício dos ricos e poderosos. Na literatura, é o ponto de vista – a perspectiva – que determina o efeito que uma obra exerce no seu leitor. Neste caso, os crentes continuarão crentes, os não-crentes ficarão agradecidos por uma inimitável tirada artística sobre os mais velhos temas da humanidade – vida e morte, amor e ódio, lealdade e traição, o sagrado e o profano. Os últimos dias de Yeshua carregam em si tudo isto, a metáfora suprema da nossa condição de sempre e em toda a parte.

Yaphiel, meu querido, – adverte Lázaro ao seu neto escritor, numa espécie de meta-narração em que se torna este romance, o contar de uma história que subverte a já conhecida, a profecia do Livro – agora que estou numa idade em que os boatos sobre as minhas falhas morais e as das minha irmãs já pouco me afetam, vou contar-te um segredo: ambas as tuas tias-avós foram apanhadas numa tempestade de areia quando atravessavam o deserto da adolescência, e essa tempestade chamava-se Yeshua. No que respeita ao narrador deste texto, deixo que sejas tu a decidir como foi que ele singrou nessa mesma tempestade avassaladora que – como se veio a verificar – acabou por lhe mudar a vida”.

Tempestade de areia” em que, supõe-se, a visão de todos fica inquestionavelmente distorcida, e enquanto se fecha os olhos perde-se o resto do cenário, o coração dessa tempestade para sempre mitificado pelos que a viveram. O Evangelho segundo Lázaro poderá não ser um romance de ideias, no sentido crítico tradicional, mas é de uma inquestionável riqueza na construção de cenários que todos conhecemos, mas não entendemos de todo. Um dos muitos momentos de bom humor e profunda humanidade neste romance é quando Lázaro duvida da sua própria morte. Não terá sido um engano das irmãs que confundiram um tempo de inconsciência com a paragem cardíaca definitiva? Yeshua diz-lhe que não, pois elas colocaram o ouvido duas vezes sobre o seu peito, não havia mais nada. Lázaro não aceita nem deixa de aceitar. Retoma a narrativa sem igual do seu amigo de infância, desde o momento em que lhe salvou de um afogamento num rio galileu, para a gratidão infinita da Miriam, a mãe de Yeshua. Esquecemos também de quem se trata nestas páginas, e vemos só homens e mulheres no seu esplendor ou fealdade humana.

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Richard Zimler, O Evangelho segundo Lázaro (tradução de Daniela Garcia), Lisboa, Porto Editora, 2016. O autor manteve aqui os nomes dos personagens em hebraico.

*Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 28 de Outubro de 2016.

Bem-vindos à anti-utopia orwelliana

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Pediram-me para escrever um prefácio para a tradução ucraniana de ‘Animal Farm’… mas primeiro gostaria de dizer algo sobre mim mesmo e sobre as experiências que me conduziram às minhas posições políticas.

George Orwell, Ensaios Escolhidos

Vamberto Freitas

É raríssimo o escritor cujo nome – pseudónimo neste caso – vira adjectivo reconhecido de imediato, mesmo por gerações que provavelmente nunca o leram. Dizer orwelliano é dizer totalitário, levando em conta a carga semântica que a palavra carrega em si, denominando a sociedade onde a liberdade individual nunca existiu ou deixou de existir. Em volta do autor George Orwell, cujo verdadeiro nome é Eric Arthur Blair, nascido na Índia em 1903 de pais que lá prestavam serviço ao governo de sua Majestade, criou-se todo o tipo de mitos, inclusive em tudo que diz respeito às posições políticas e ideológicas que cultivou e manteve até à sua morte precoce em 1950, muito antes ainda da fama e influência discursiva que alguns dos seus romances iriam ter nos tempos que se seguiram, até hoje. O seu impulso anti-totalitário vem de longe, e poderá ter começado com o que ele viu na Birmânia aos vinte e poucos anos de idade, como membro da Polícia Imperial Indiana, tal como nos relata no ensaio “Matar Um Elefante”, quando escreve que “Quanto ao meu trabalho odiava-o mais amargamente do que seria talvez capaz de explicar. Num emprego como aquele observamos de perto o trabalho sujo do império”. Por certo que pouco depois, já em 1933, faz sair um dos seus mais famosos romances, uma alegoria e sátira sob o título de Animal Farm/O Triunfo dos Porcos, ou A Quinta dos Animais, numa edição mais recente da Antígona. O caminho para o romance que o tornaria um nome comum no mundo inteiro teve as suas origens mais directas na sua participação activa na Guerrra Civil de Espanha, onde lutou ao lado não das lendárias brigadas internacionais, mas sim integrado, juntamente com a sua mulher, na milícia trotskista do POUM, sofrendo na pele, como ele próprio deixou escrito no seu também muito conhecido e admirado Homenagem à Catalunha, publicado logo após essa sua experiência, em 1938, a perseguição mortífera que lhes foi movida pelos comunistas estalinistas integrantes da governo da República em luta contra os nacionalistas de Francisco Franco. No entanto, manteve-se um socialista democrático toda a sua vida, confessando a dada altura num destes escritos do presente George Orwell: Ensaios Escolhidos, que se identificava com a ala esquerda do Partido Trabalhista. Não deixará de ser mais do que uma mera curiosidade verificar que tudo na sua vida leva-o ao estatuto canónico que persiste e parece aprofundar-se entre os leitores da vasta aldeia global. Ainda na escola privada de Eton, que ele só conseguiu frequentar com uma bolsa governamental, o seu professor de francês foi Aldous Huxley, que poucos anos depois publicaria a nada menos seminal obra ficcional que imagina um outro tipo de totalitarismo, Admirável Novo Mundo, em 1932, assim como, já nos anos 60 publicaria o nada menos distópico Island/Ilha, sobre o qual escrevi noutra parte. O grande romance de Orwell, 1984, foi terminado em 1948, como se sabe, e o autor apenas mudou os dois últimos dígitos para chegar ao título do que se tornaria uma das mais curtas e significantes referências numa obra literária do século passado. George Orwell, pois, torna-se uma referência universal pela sua ficção, não pela prosa ensaística que produziu proficuamente ao longo da sua carreira. No entanto, a sua presença nos jornais e em revistas literárias foi sempre de uma eloquência e elegância pouco comum em escritores da sua época e com as suas bem definidas posições antes, durante e logo após a II Guerra Mundial. Sobressai de boa parte destes seus ensaios as palavras ariscas sobre os seus colegas que equivocavam nas suas lealdades ora aos nazis alemães ora aos comunistas soviéticos e estalinistas. Orwell regressa nestas páginas a “Recordações da Guerra Civil Espanhola” para, uma vez mais, dizer do que viu e viveu com uma espingarda na mão, o que mais decididamente contribuiu para a luta em prol da democracia em toda a parte. Em 1947 escreve quase profeticamente sobre a ideia de uma Europa unida, prevendo que a beatice da palavra “união” não poderia esconder nos seus significados, ao gosto dos poderes instalados, um projecto para mera defesa de interesses restritos, financeiros, comerciais e industrias. Para ele, a nova Europa ou teria o socialismo democrático como fundamento do seu sucesso e progresso, ou nada resolveria na antiga história de conflitos e guerras, muito menos traria o bem-estar para a maioria dos seus povos. É uma linguagem, a deste ensaio, que hoje apenas mudaria de léxico e falaria de uma Europa dos cidadãos. Curiosamente, o defensor da vitória Aliada no continente queria que o seu país, a Grã-Bretanha sempre orgulhosa e só no outro lado do canal, pertencesse por inteiro ao novo bloco económico e político – para se livrar, de uma vez por todas, da sua dependência, real e mitificada, dos Estados Unidos. Não sei como George Orwell é visto ou entendido pelos seus conterrâneos, mas estou em crer que a sua popularidade como escritor seria muito mais questionável no restante mundo. Raramente o autor destes ensaios é citado nos EUA fora do contexto da sua ficção, pelo menos nas minhas leituras dos mais variados textos daquele país. Provavelmente não seria apreciado pelos governantes europeus actuais, particularmente a partir dos anos 70, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher redefinem o rumo para o Ocidente. Nessas suas palavras, Orwell insiste implicitamente na essencialidade de se conceder a independência, já em curso ou por vir, a todas as suas colónias fora da órbita da terra-pátria. Vale a pena relê-lo no contexto europeu dos nossos dias, e do que aconteceu com o recente voto britânico para saída da União. Poderá não ter previsto a extensão da globalização hoje em curso, mas acertou em partes bem mais, digamos, delicadas. Poderão algumas questões terem sido resolvidas ao contrário do que ele previa, mas aqui temos um intelectual público europeu para quem política, sociedade e literatura eram temas acutilantes e inevitáveis, em oposição ao que hoje temos nos nossos jornais ou em qualquer outro meio de comunicação.

Se a América permanecer capitalista, e especialmente – escreve em ‘Rumo à União Europeia’ – se precisar de mercados para as suas exportações, não poderá ver com bons olhos uma Europa socialista. Sem dúvida que é menos provável que intervenha pela força na Europa do a que a Rússia, mas a pressão americana é um factor importante, porque pode ser exercida mais facilmente sobre a Grã-Bretanha… Desde 1940, a Grã-Bretanha enfrentou as ditaduras europeias à custa de se converter quase numa dependência dos EUA. De facto, a Grã-Bretanha só poderá livrar-se da América renunciando ao esforço de ser uma potência extra-europeia. Os domínios de língua inglesa, as possessões ultramarinas, exceto talvez em África, e mesmo o fornecimento de petróleo à Grã-Bretanha, são como reféns nas mãos dos Estados Unidos. Por conseguinte, há sempre o perigo de os Estados Unidos destruírem qualquer coligação europeia ao atraírem a Grã-Bretanha para fora da mesma”.

George Orwell: Ensaios Escolhidos contem alguns outros momentos deliciosos, ora nas suas verdades ora nas suas especulações teóricas, sobre literatura e sociedade, em que ele tanto responde com humor e firmeza a um famoso ensaio de Tolstoi a denegrir em termos absolutos a obra de William Shakespeare, como relê e recupera alguns dos escritores seus antecessores e contemporâneos, inclusive no castigo ou defesa da utilidade do que ele chama numa destas peças os “Bons Maus Livros/Good Bad Books”, ficando desculpados todos os que entre nós pegam num thriller policial ou político ou meramente cor-de-rosa, os gritantes volumes coloridos de aeroporto, e depois devora secreta ou abertamente, tal como eu (John Le Carré, James Elroy e Raymond Chandler pertencem a esta ambígua casta literária) e outros amigos meus de nome bem mais reconhecível a outros níveis. George Orwell foi aquele escritor e intelectual para quem a busca de um centro para a sua vida, o equilíbrio entre os grandes e os pequenos prazeres, eram a sua razão de ser, tal como a sua noção de decência e humanismo, quase ignorando a sua própria obra. Tenho aqui nas minhas estantes o principal dessa obra, incluindo The Politics of Literary Reputation: The Making And Claiming Of ‘St. George’ Orwell, de John Todden, mas não tinha estes magníficos ensaios, como ainda não tenho os seu George Orwell: diários, recentemente traduzidos e publicados no nosso país. Se há escritores em cuja companhia apetece estar de quando em quando, este será um deles. Nem falei da sua crítica literária, alguma dela escrita enquanto as bombas caiam sobre Londres, como que num desafio ao destino e à barbárie, ou seguia o mandato de Winston Churchill, que dizia no parlamento naqueles precisos momentos que se não estavam a lutar pela sobrevivência ou triunfo da “cultura”, para que valeria a pena sacrificar vidas?

Ainda mais se retira destes escritos. Eu, por exemplo, fiquei a saber finalmente como fazer, aquecer, misturar ou não misturar as folhas de um chá à moda inglesa. Mesmo nisto, como se sabe, estou sempre entre o meu portuguesismo e a cultura anglo-saxónica. Aliás, um dos melhores poemas modernos açorianos tem a ver com esse maravilhoso chá das cinco. A busca dos pequenos prazeres e do equilíbrio em tudo e entre todos. Isto, sim, é também orwelliano.

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George Orwell, George Orwell: Ensaios Escolhidos (tradução de José Miguel Silva), Lisboa, Relógio D’Água, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 21 de Outubro, 2016.

Da arte como redenção e da pós-humanidade como revelação

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Cobertos de flores e folhas e pedúnculos verdes, aqueles corpos estavam tão alterados que já não pareciam de pessoas. Os seus movimentos sinuosos davam a ideia de que estavam a tentar libertar-se de tudo o que fosse humano.

Han Kang, A Vegetariana

Vamberto Freitas

O termo pós-humano vem sendo, desde há alguns anos a esta parte, crescentemente aplicado pela crítica literária, já se sabe, pós-moderna, não tanto em busca dos seus possíveis significados teológicos, mas talvez num desejo ideológico de que já somos algo menos ou algo mais do que nos estava previsto pela História, ou então é, a um tempo, um protesto e um desejo. Protesto contra a desumanização em curso, que autores tão essenciais como Aldous Huxley já tinham ensaiado na sua melhor ficção, ou um desejo perverso de contrariar tudo o que tem sido “humano” nas sucessivas construções imaginárias através dos tempos, em que a arte desde sempre representou e tenta representar em todas as suas formas e géneros. Digo isto e relembro que Harold Bloom escreveu algures que tinha sido William Shakespeare o primeiro grande escritor a “inventar” o “humano” nas suas personagens, ou seja, também creio, que tinha sido ele a definir o nosso ser em todo o seu esplendor e fealdade. Não me cabe a mim contestar os mestres académicos – ou anti-académicos, no caso do autor de O Cânone Ocidental – mas também não esqueço um ensaio seu na primeira página do suplemento literário do The New York Times a afirmar, sem quaisquer reticências, há uns bons anos, que a obra de Thomas Wolfe não continha um naco de arte literária. Em literatura não há qualquer “cientificidade”, só instinto e vontade interpretativa, cada um lendo as suas páginas com toda uma geografia, passado e formação nas mais variáveis circunstâncias de vida. Vem tudo isto a propósito do romance A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, vencedor este ano do Man Booker International Prize. Confesso que só o título me desviaria do romance, assim como me desvio seja do que for ou de quem for que venha tão taxativamente classificado, arrumado em qualquer gaveta sócio-económica ou ideológica. Só que, para além da forte sugestão que é um prémio literário internacional tão prestigiado, o seu primeiro parágrafo foi o suficiente para me agarrar à sua leitura, querendo desde logo expulsar todo o ruído à minha volta. Não tinha a ver com o facto de eu nunca ter lido um romance daquele país ou língua, ainda menos de querer tentar apreender um pouco do seu contexto social e cultural, se bem que isso acaba inevitavelmente por nos expor a essas outras e longínquas “realidades”, só para confirmarmos, pela enésima vez, que as diferenças entre nós todos são quase invisíveis ou sentidas, que a nossa humanidade esbate em todas as geografias o que nos separa, a literatura tornando-se esse “choque de reconhecimento” de que  falava Herman Melville numa carta a Nathaniel Hawthorne: “A genialidade, no mundo inteiro, anda de mãos dadas, e um choque de reconhecimento une todo o círculo das nossas vidas”. Os protagonistas deste romance são o outro e somos nós, a estranheza dos seus nomes para um ocidental ou a culinária das suas mesas em nada os torna estranhos, a não ser a condição humana em todo o seu drama de sobrevivência e luta pela libertação de cada um nos redutos fechados em que todos nascemos. A beleza de A Vegetariana está na sua linguagem, mesmo em tradução, está na sua capacidade de ver e rever o labirinto que é o coração humano, e o seu desejo universal de fuga para um paraíso perdido.

A Vegetariana tem vários narradores e narradoras na primeira e terceira pessoas. Abre com a voz do marido, que apenas chama a esposa de “a minha mulher”, mas de nome Yeong-hye, encontrando-a uma madrugada, calada e perplexa, a olhar para um frigorífico aberto, e contemplando sem expressão e atenção a mais nada os seus conteúdos, que serão todos despejados no lixo, menos os de origem ou natureza vegetal. É descrita nos mais banais termos, como sempre tendo sido uma mulher sem qualquer distinção, quer interior quer fisicamente, nem bonita nem feia, o tipo de esposa, diz ele distanciado, que lhe convinha num casamento.“A personalidade passiva dessa mulher – diz ele – em que eu não conseguia detetar frescura, nem encanto, nem nada de particularmente refinado, servia-me na perfeição”. Eis a definição precisa de uma sociedade patriarcal, em que a mulher parece um adorno e uma servidora, não um ser vivo, com desejos ou segredos, felicidade ou infelicidade. As suas vidas, aqui, são a de uma mediocridade ritualizada, sem nenhum brilho ou sequer ambição para além do dia-a-dia marcado pelo trabalho profissional ou de casa. Yeong-hye vem de uma família da classe média conservadora, dominada por um pai de tolerância-zero, um ex-militar que havia combatido na guerra do Vietname, e ainda se vangloriava ante a família de quantos vietcongue havia morto. Num jantar em casa de uma outra irmã casada, In-hye, também a braços com a rotina da sua vida e um marido que se auto-define como fotógrafo ou cineasta de vídeo vivendo à custa da esposa enquanto grava o que ele acha ser o surrealismo da vida à sua volta, ou a arte contestadora de todos os valores societais, esse pai recusa aceitar a súbita condição de vegetariana da filha, que se definha perante os olhos de todos, e castiga-a à mesa com um murro na cara. O leitor vê muito pouco da sociedade exterior a estes personagens, mas adivinhamos a cada passo a sua demanda de convencionalismo fingido, e em busca do sucesso material a todo o custo. A radical transformação da protagonista é insinuada aos poucos, mas no fim percebemos que o impulso que leva a inesperados extremos numa vida ofuscada até à morte desejada de Yeong-hye é a sua profunda compreensão do Nada como condição existencial, e só na sua rebeldia tranquila ela poderá reencontrar-se consigo própria, ou então transformar-se de novo na natureza implacável de onde vem, de onde vimos todos, onde o tempo não existe e as árvores dobram-se ao vento na infinitude de um ser que de ninguém depende. A “ausência” dela nas vidas da família e do próprio marido não é chorada pela perda que deveria representar, mas sim pela “vergonha” que traz a todos com uma saída onde nem o sangue a escorrer do seu corpo a martiriza ou assusta. Onde mais ninguém via nada, no entanto, o seu cunhado armado com máquinas fotográficas e gravadores de vídeo vê uma mulher de corpo inteiro, e em viagem escondida por onde mais ninguém espreita. Algumas das cenas do romance são de uma sensualidade e beleza tão leves como o corpo pintado de Yeong-hye, e o que se segue será o que entendemos por comédia surrealista, nunca a narração deixando que vejamos ou interpretemos tudo isto como tragédia. O gesto de liberdade da protagonista, a sua loucura, uma vez mais, rebelde, a sua rejeição de toda uma sociedade que a queria moldar à sua imagem, o não ser amada, não permite ao leitor outra afeição a não ser um entendimento e compreensão perante as mais bizarras cenas nesta caminhada para uma outra dimensão, por vontade própria e sem remorso.

“Não é capaz – diz o narrador de In-hye, a irmã de Yeong-hye, com quem ela tinha surpreendido o seu marido fotógrafo em cenas de sexo, simulado ou não – de explicar, nem a si própria, a facilidade com que então decidira abandonar o filho. Fora um crime cruel e irresponsável, nunca se convenceria do contrário; e também fora algo que jamais seria capaz de confessar e que nunca lhe seria perdoado… Se o marido e Yeong-hye não tinham sido esmagados depois de passarem todos os limites, se tudo não se tinha estilhaçado, então talvez tivesse sido ela quem se havia deixado derrubar e, se tinha permitido que isso acontecesse, se tinha largado o fio, talvez nunca mais conseguisse reencontrá-lo. Se assim fosse, o sangue que Yeong-hye vomitara não teria saído de dentro de si, do seu próprio peito?”.

Quanto mais fechada uma sociedade, mais radical a transgressão libertadora? A uma vida sitiada por costumes e estruturas sociais muito antigas segue-se necessariamente a morte? Não me parece ser essa a ideia, se assim nos é permitido falar, que sobressai ao longo destas belas e vivíssimas páginas. Pelo contrário, é a procura de uma vida-outra, a rejeição de um quotidiano opressivo e sem qualquer sentido que leva estas duas irmãs aos limites da vida e do desespero, em que se confunde normalidade com a prisão que uns aceitam, mas outros não. A grande literatura é quase sempre esse acto de representar a nossa humanidade, e de nos reinventar não só como somos, mas sobretudo como gostaríamos de ser quando reconhecemos num outro a razão da sua recusa em apenas existir como mais uma peça de serviço, ou do que não acredita nem valoriza. Yeong-hye começa por ser aquela mulher absurda nas suas transformações e movimentos, a mulher que antes não era feia nem bonita, nem alta nem baixa, nem talentosa nem idiota, nem frígida nem sexual – era o que os outros queriam que fosse, nunca suspeitando que isso não lhe bastava, e que tinha a sua própria força que mais ninguém via ou suspeitava. A Vegetariana encerra com a protagonista numa ambulância a caminho de um hospital, com a irmã ao lado. Não vão a caminho da morte ainda, parece. Vão a caminho, talvez, de uma outra vida. Com ela Yeong-hye leva a irmã – agora sabedora e liberta por obra, exemplo e força de quem havia cortado os próprios pulsos e vomitara sangue, mas sem nunca deixar de viver, a partir desses momentos, como queria e entendia. Posso estar errado aqui, mas este não é romance sobre a morte ou a loucura. É uma tremenda reafirmação da vida livre, quando seguimos as nossas próprias escolhas e recriamos os nossos próprios seres.

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Han Kang, A Vegetariana (tradução do inglês por Maria do Carmo Figueira), Lisboa, D. Quixote, 2016. A tradução das palavras de Herman Melville são da minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 14 de Outubro, 2016.

De George Monteiro: poesia e memória

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Foi então que comecei a perceber que nos Estados Unidos, mesmo que este fosse o meu país natal, eu tinha sido sempre um étnico português e uma espécie de imigrante.

George Monteiro, 38 School Street

Vamberto Freitas

Não creio ser necessário apresentar aqui George Monteiro, pois é um autor bem conhecido nos Estados Unidos e em Portugal entre estudiosos das literaturas norte-americana e portuguesa, e ainda mais pelos que sempre acompanharam a sua obra poética, ficcional e ensaística em geral. Desde há muito que me ocupo de certas facetas do seu trabalho académico, particularmente o que diz respeito à presença literária luso-americana, desde os seus primórdios até aos nossos dias, e à sua poesia narrativa de cunho temático ancestral – se assim se pode também falar de uma obra – e autobiográfica. Aliás, 38 School Street. A Memoir, que ele acaba de lançar, é um misto de memórias familiares e comunitárias, desde os primeiros anos da Grande Depressão até a tempos mais recentes, fatias-de-vida contadas e recontadas em breves textos, alguns dos quais certamente algures entre a realidade e a ficção, ou a realidade tornada num imaginário aqui reinventado, os breves e elegantes textos de prosa entremeados por poemas, tudo a fazer reviver alguns dos seus entes mais próximos ou esquecidos. Um escritor convoca as suas memórias não necessariamente como um gesto estritamente autobiográfico, mas sim para melhor entender a sua vida no contexto em que se desenrolou, colocando as suas origens nacionais e culturais como ponto determinante do que viria a ser o seu destino, o seu fado, ou então uma vida que partiu noutras direcções, mas não pode nem deve esquecer todos esses territórios de memórias e afectos. Poderá haver dois tipos de leitor destas memórias, cada qual retirando os prazeres de um belo texto, agora integrado numa narrativa com princípio, meio, e um fim, mesmo que desejavelmente provisório – os que já conheciam alguns destes textos e poemas, e os que porventura os lêem pela primeira vez. Em qualquer dos casos, retirará da sua leitura ou um feliz reencontro e clarificação do muito que George Monteiro fez e faz – como professor jubilado da Brown University, onde fundou juntamente com Onésimo Teotónio Almeida o Centro, agora Departamento, de Estudos Portugueses e Brasileiros – na escavação da nossa presença norte-americana através da escrita imigrante e luso-americana, ou descobre o grande poeta, ficcionista e memorialista que ele inquestionavelmente é. O autor deste 38 School Street ocupa um espaço entre nós absolutamente original, na medida em que nunca deixou o seu trabalho de investigador e ensaísta da melhor literatura do seu pais, desde Henry James a Elizabeth Bishop, impedir a sua dedicação à literatura portuguesa, que também é de uma continuidade literária que vai de Camões a Fernando Pessoa. Para mim, o mais extraordinário da sua carreira foi sempre o modo como, na companhia dos seus colegas mais chegados na instituição em que decorreu a sua carreira, abriu portas ao estudo da literatura açoriana e, uma vez mais, luso-descendente, conhecendo profundamente muitos dos nossos escritores, traduzindo-os, como o fez em The Sea Within, e, a sair brevemente, Absent Poems, uma escolha de alguma poesia de Pedro da Silveira de A Ilha e o Mundo. Mais nenhum outro escritor e poeta luso-americano, estou em crer, poderia escrever, sem muita adjectivação ou explicações rebuscadas, que se sentiu em “casa” pela primeira vez quando aterrou no Brasil em 1969, onde foi professor convidado na Universidade de São Paulo. É daí que lhe nascem as palavras que transcrevo como epígrafe deste meu escrito, tendo George Monteiro elaborado ainda mais um pouco os seus sentimentos na época. “E há – acrescenta ele – mais. Naquele momento, num país que nunca tinha visto, curiosamente como poderá parecer, senti-me mais em casa, de vários modos importantes, do que no meu próprio país”.

Quase todos os textos e poemas desta sua narrativa recordam as origens dos pais, Francisco José Monteiro, de Freixo-de Espada-à-Cinta, em Trás-os-Montes, e Maria Augusta Temudo, de Vila Ruiva da Serra, na Beira Alta, e depois a sua própria infância e juventude em Valley Falls (Rhode Island) a partir dos primeiros anos da Grande Depressão, e quando já a indústria têxtil, que havia sido o poiso seguro dos primeiros imigrantes nossos naquela zona do país, estava de partida, seguida pela II Guerra Mundial, em que o autor perdeu o seu irmão nas batalhas da tomada da Sicília. Nada de extraordinário no seu quotidiano daqueles anos, mas a astúcia das suas observações agora recordadas nunca deixa passar os momentos e comportamentos de um tio ou tia, vizinho ou companheiro de rua e traquinices, recriando para nós toda uma ambiência da normalidade que me faz pensar que as Fontinhas ficava ali ao lado, menos os jogos alternativos de baseball, e não a bexiga de porco que eu e os meus comparsas metamorfoseávamos numa bola de futebol no tempo das matanças. O que George Monteiro diz de si e dos seus é o que a maioria dos grandes escritores, suspeito, diriam de si, do seu tempo e lugar. Poderia não haver livros em sua casa, mas havia a biblioteca meio improvisada ali ao lado, com o proverbial bibliotecário-vigia a impedir leituras maturas demais para as almas supostamente inocentes dos pequenos e pequenas. Antes das suas aventuras na vizinhança natal, Monteiro, sem ter consciência do facto, haveria de acompanhar a mãe de regresso temporário à sua aldeia portuguesa depois de ser denunciada por alguém por ter entrado ilegalmente no país, como resultado de um esquema montado por uma compatriota lusa. Estas situações, aparentemente, eram ainda resolvidas com certa amizade e empatia por parte dos federais – saiu por uns tempos para depois reentrar definitivamente com o seu filho americano. Noutra parte, reconta o orgulho de um tio que foi mestre e compositor da filarmónica do Clube Social Português, e lembra-se de o ver apagar e a reescrever notas musicais, uma a uma, e para cada um dos seus músicos, a sua pomposa farda por ele próprio desenhada, inclusive a selecção de cores meio espampanantes. Como isto me é ou foi familiar numa pequena e rural freguesia açoriana. Os barbeiros eram, como para todos os meninos e jovens, objecto de partidarismo no bairro, tal como uma equipe de futebol ou mesmo um político. Nada disto apontava – nunca aponta – para a vida de quem viria a tornar-se um dos mais prestigiados scholars e poetas entre nós, tal como no caso de alguns outros, hoje literalmente espalhados pelo mundo. Só George Monteiro, antes de todos nós e integrando uma das mais elitistas universidades americanas, ultrapassou todo e qualquer preconceito, desbravando sistematicamente toda a nossa experiência naquela sociedade através da literatura, essa que outros, provavelmente, nem suspeitavam que existia. Hoje, até mesmo em Lisboa, tudo isto é terreno cultivado, especialmente após o seu trabalho e com a chegada de dinheiros públicos e de certas fundações. George Monteiro é, para mim, um símbolo vivo do melhor em nós, e dos laços profundos entre ser-se americano e o ser-se português, sem conflitos, sem deslealdades laceradas.

Não me recordo – escreve numa nota prévia ao livro – de um tempo em que não falasse Português e Inglês. A alguns metros e pouco da School Street – surpresa das surpresas – ficava a Valley Falls School, com quatro salas, a escola da quarta classe a que sempre nos referíamos – não sei bem porquê – como sendo A Capoeira. Quase todos os seus alunos eram ou filhos e filhas de imigrantes ou originários de famílias que sobreviviam com grandes dificuldades a Grande Depressão”.

Noutro ensaio Monteiro enumera músicos luso-americanos de renome, sendo um deles uma absoluta notícia para mim: Paul Gonsalves, o saxofonista “lendário” de Duke Ellington, e ainda Joe Raposo, um dos compositores da série televisiva infantil Abre-te Sésamo. Menciona estes e outros nomes para antes e depois dizer do seu desgosto ao ler a autobiografia, Marching Along, do grande John Philip Sousa, de pai português e mãe alemã, quase ignorando o lado paterno ou atribuindo-lhe qualidades negativas enquanto engrandece as virtudes teutónicas maternais que supostamente herdou na sua caminhada musical grandiosa. Para além de tudo o mais na escrita de George Monteiro, desde sempre, é este tipo de informação, a mais das vezes escondida de nós todos, que ele desenterra, servindo-lhe de contextualização ao processo de se ser o outro na pátria natal americana. Raramente escrevo sobre qualquer tema literário luso-americano ou da nossa imigração que não me pergunto o que terá dito Monteiro deste autor ou autora, desta ou daquela obra. Ele é essa referência inescapável nos estudos que nos últimos anos, como foi aqui referido anteriormente, ocupam já um bom número de universitários no nosso e noutros países.

38 School Street: A Memoir junta-se agora a uma vasta obra, creio que ainda em curso, ensaística, ficcional e poética, que constitui talvez a mais rica fonte crítica e criativa da nossa presença nos EUA. Tenho especial carinho pelos poemas de The Coffee Exchange, e Double Weaver’s Knot. Na minha secretária de trabalho tenho também o extenso e recente The Pessoa Chronicles: Poems, 1980-2016, que vou saboreando aos poucos. O regresso às minhas próprias origens, portuguesas e americanas, passam feliz e definitivamente por aqui.

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George Monteiro, 38 School Street: A Memoir, Willimantic, CT, Bricktop Hill Books, 2016. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

O orientalismo da nossa alma e história

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Quanto a nós, permanecemos viajantes, fechados no nosso eu, suscetíveis, quem sabe, de nos transformarmos pelo contacto com a alteridade, mas não certamente por fazermos dela uma experiência profunda.

Mathias Enard, Bússola

Vamberto Freitas

Bússola, este brilhante e gigantesco mosaico de história, política, orientalismo, amor, violência, fantasia e arte pura, desde o século XIX até aos nossos dias, é a primeira ficção que leio do autor francês Mathias Enard. Ao ler este e outros grandes romances de tempos recentes lembro-me sempre da pouca visão literária e pobreza analítica por parte de alguns quando olhavam e olham o que lhes parecia ser o estado da cultura e literatura ocidentais em geral, e não só, quando uns e outros pronunciavam a morte do romance, a sua pessoalíssima exaustão assumida como condição universalizada de todos os outros, ou então a sua arrogância em pensarem-se os últimos grandes escritores possíveis. Mathias Enard não está só. O romance como género literário da contemporaneidade em nada fica atrás das grandes e marcantes narrativas do realismo desde as suas origens oitocentistas, retomou a sua grandeza temática, tendo como fundo a sociedade em que se insere, ou crescentemente zonas inteiras do globo com uma história necessariamente interligada. A osmose artística entre civilizações sempre se manifestou de todas as maneiras para quem sabe ver para além do discurso enviesado dos poderes, de ontem e de hoje, ou dos que entregaram os seus talentos e saberes de vária natureza ao serviço desses comerciantes quase sempre do roubo e da morte. Bússola não é só um grande romance do nosso tempo, todo ele construído por uma linguagem que combina uma avassaladora erudição com a fala vivíssima dos seus personagens principais. O seu desdobrado, múltiplo quotidiano reinventado leva-nos por territórios próximos ou mais afastados, marcado pela banalidade que é desde sempre a memória e o desejo de qualquer ser humano, a busca de ou indiferença perante o amor, o medo da morte que nos avisa constantemente a todos, a ambição dando lugar à solidão num quarto fechado ou na imensidão de um deserto ou cidade caída e esquecida. O narrador de Bússola, na primeira pessoa, chama-se Franz Ritter, austríaco de mãe francesa, musicólogo e professor numa universidade em Viena, passando os seus dias e noites num pequeno apartamento atulhado de livros, pautas musicais e monografias, dele e dos seus colegas, enfrentando angustiadamente uma doença supostamente terminal não identificada, e durante uma noite de insónia relembra todo o seu passado como orientalista relutante, e particularmente a mulher que ama, uma judia parisiense, Sarah, que está uma vez mais a perseguir os seus estudos e descobertas filosóficas no Oriente, depois de se dedicar ao estudo profundo do tratamento do Médio Oriente nas literaturas canónicas ou marginais do Ocidente. Franz faz-me lembrar aqui o “homem subterrâneo” de Dostoiévski numa crise existencial que o leva à ira desconstrutivista de si próprio, da carreira universitária, e sobretudo dos colegas e antecessores a partir do século XIX, uma vez mais, que estudaram obcecadamente a cultura e artes dos povos árabes e persas, e que inevitavelmente os europeus desde Beethoven e todos os grandes nomes antes e depois do seu tempo aproveitariam para as suas próprias produções, na música, na literatura e nas artes plásticas. Fernando Pessoa – e muita história portuguesa – está aqui também nas linhas mestras de Mathias Enard, o outro em nós, nós no outro, contextualizando o afastamento presente na luta hiper-violenta entre nós e eles, O Ocidente a pagar agora com os mesmo ferros, reais e simbólicos, com que havia olhado, retalhado e colonizado todos esses povos.

As duas palavras-chave em Bússola são orientalismo e alteridade. A grande arte literária ou é uma projecção intimista do seu narrador, ou então será muito pouco, um escrito banal. Franz Ritter está frente a frente não só ao seu possível fim, como projecta a sua própria pessoa nos acontecimentos que abalam o nosso mundo, uma Europa que continua a negar o seu profundo relacionamento com o Médio Oriente, e um Médio Oriente enraivecido, sobressaindo a imagem de jovens idos de cá para lá, com um facão na mão e segurando pelo pescoço os seus prisioneiros prestes a serem degolados vagarosamente e à nossa frente. Franz leva-nos nas suas próprias viagens a cidades que agora estão totalmente destruídas, a morte à solta em cada um dos seus recantos, Aleppo e Palmira na Síria relembradas na sua majestade artística e na sua civilidade, o ponto outrora de encontro entre estudiosos e amantes europeus em busca de saber e aventura. O rol de nomes dessas personalidades, das suas grandes obras literárias ou em todas as outras artes é deveras avassalador para o leitor, mas a prosa de Mathia Enard é de tal ordem e viveza que nos transporta de página a página, de cena a cena, de personagem a personagem como num sonho de choro, medo e riso, depois tudo lembrado integralmente quando atravessamos o espelho fantástico em que vimos esse outro e, naturalmente, a nossa própria imagem. O narrador Franz Ritter está aqui quase num delírio de saudade pela mulher que diz amar, uma saudade do que nunca foi nem aconteceu a maior parte do tempo, e que está sempre a oriente em busca de si própria, a intimidade de um e outro contida apenas nessa troca esporádica de palavras, os seus estados de alma apenas insinuados num ou noutro passo das suas cartas, entre notícias de andanças e trabalhos em curso. Aliás, a palavra “saudade” entra proeminentemente na sua prosa, os portugueses e a sua história no Oriente um chamamento quase constante, assim como o orientalismo de Fernando Pessoa, particularmente através de Álvaro de Campos e do seu Opiário, “Porque há um Oriente para lá do Oriente, vive no sonho dos viajantes de outrora, na fantasia da vida colonial, no sonho cosmopolita e burguês de ancoradouros e barcos a vapor”. O melhor e o pior de nós, quanto ao nosso próprio orientalismo, está aqui presente, Camões por um lado, Mouzinho de Albuquerque no outro extremo. A certa altura Franz diz, contra certos etimologistas, que “Eu pelo meu lado, pensava que a saudade, como a palavra indica, é um sentimento também árabe e iraniano, e que os jovens Pasdars da ilha, por muito que não sejam originários de Shiraz ou de Teerão e não vão a casa todas as noites, devem recitar poemas à volta de uma fogueira para enganar a tristeza – não, claro, versos de Camões como Sarah empoleirada no canhão enferrujado”. Do Levante a Tibete, acompanhamos, por entre a memória e o desejo de Franz na sua fantasia amorosa com a inefável Sarah, as viagens sem fim de uma Europa a tentar desvendar os mistérios de povos que um dia fizeram as lusitanas naus navegar e chocalhar sabres em cruzadas de conquistas reais e fantasmagóricas. Para além de tudo o mais que um grande romance, como Bússola, nos oferece em estética e abrangência temática, é como se entendêssemos pela primeira vez ou nos fosse recordado que o mundo actual tem as suas raízes dos dois lados da fronteira, essa que pensamos nos separar, quando juntos sempre estivemos. O autor disse numa entrevista recente aqui em Portugal que precisamos da literatura para vermos para além da violência nas guerras do Médio Oriente que assolam o nosso presente, e nos ameaçam a todos. Que bom ouvir de um mestre que, afinal, a literatura serve ainda para muito mais do que alimentar certas “teorias” académicas e outros discursos inconsequentes.

A questão do orientalismo nos estudos e sobretudo nas artes ocidentais vem de longe, essencialmente a criação de imagens do outro, a maior das vezes num acto de aberta inferiorização, ou então ao serviço dos vários poderes europeus, e depois norte-americanos, que financiaram e financiam os mais diversos institutos de investigação histórica e cultural desses povos, muitas vezes por académicos que nem sequer as suas línguas falam ou entendem. Bússola, por outro lado, apresenta-nos ao melhor dessas civilizações a oriente – a sua literatura e artes várias, particularmente a música. Edward Said, o falecido escritor palestiniano, que foi professor de literatura na Columbia University, em Nova Iorque, e um distinto assessor de Yasser Arafat, foi também, sem qualquer dúvida, o intelectual que mais colocou em causa, e definitivamente, tanto esses estudos como a representação dos povos fora da Europa nas diversas literaturas continentais. Num passo de grande humor e empatia meio escondida, Franz Ritter trá-lo ao baile, como quem convoca um djinn d’As Mil E Uma Noites.

… O Lobo apareceu – diz Franz, deliciado – no deserto gelado no meio do rebanho: Edward Said. Era como invocar o Diabo num convento de carmelitas… Bilger, horrorizado com a ideia de poder ser associado a qualquer orientalismo, começou imediatamente uma autocrítica envergonhada, renegando pai e mãe; François-Marie e Julie tinham uma posição mais matizada, reconhecendo embora que Said havia colocado uma questão incendiária mas pertinente, a das relações entre saber e poder no Oriente – eu não tinha opinião, e continuo, julgo, sem a ter; Edward Said era um excelente pianista, escreveu sobre música e criou com Daniel Barenboim a orquestra West-ostlicher Divan gerida por uma fundação com sede na Andaluzia, onde se pugna por preservar a beleza na partilha e na diversidade”.

O poder das ideias e da arte. Literatura contra a violência, a literatura como partilha entre civilizações, a representação sabedora da nossa própria alteridade, ou a busca desse outro em nós. Afinal, a questão da identidade continua a fornecer às grandes obras o seu ponto de partida e de chegada. Bússola mereceu o grande Prémio Goncourt. Merece agora a leitura de quem não tem medo dos mil e um espelhos que reflectem todo o nosso ser, de quem na arte ainda alimenta a mente e a alma.

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Mathias Enard, Bússola (tradução de Ana Cristina Leonardo), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 30 de Setembro, 2016.