Uma outra América e as suas outras raparigas

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Disse que o sítio para onde íamos tinha a ver com um modo de vida. Russell estava a ensiná-las a descobrir um caminho para a verdade…

Emma Cline, As Raparigas

Vamberto Freitas

Estamos em Julho de 1969, um pouco a norte de São Francisco e da revolução psicadélica e política em curso no bairro Haight-Ashbury, e um pouco mais a norte na famosa e única lembrança digna e duradoura ainda existente, a City Lights Bookstore, do poeta beat Lawrence Ferlingheti, esse que conjuntamente com a outra figura icónica da época social e cultural mais tremida da América, Allen Ginsberg, terão sido dos primeiros escritores daqueles lados a conhecerem e a reagirem à obra maior de Fernando Pessoa. Menciono estes factos relacionados com o romance aqui em foco, As Raparigas, de Emma Cline, para que me permitam uma breve intrusão de quem nunca teve nada a ver nem com aquelas geografias, com a filosofia de vida que dominava aquelas ruas, e muito menos ainda com a imaginária estética geral daqueles tempos.

Eu tinha emigrado para os EUA com toda a minha família aos 13 anos de idade, em 1964, e no tempo ficcional desta ficção creio ter sido o ano em que entrei numa pequena faculdade muito mais a sul, a alguma distância de Los Angeles, e vivia numa cidade chamada Chino, cuja única fama maior era sua grande prisão nos campos também rodeados de vacarias maioritariamente de imigrantes e luso-descendentes, e onde o meu pai trabalhava como um escravo. Eu via, ouvia e lia o que ia à minha volta, e fugia de tudo e de todos, um rapaz açoriano inseguro do seu lugar numa nova e estranha sociedade, mas convicto que o futuro residia nas páginas dos livros e na carreira convencional que então sonhava ser a minha um dia. Podia ouvir e admirar os Doors, com o seu estrondoso sucesso Light my fire, podia até delirar com Purple Haze, de Jimmy Hendrix (excuse me while I kiss the sky), podia ainda saber que o White Rabbit dos Jefferson Airplane (também mencionado neste romance) tinha tudo a ver com os trips da heroína ou do ácido em voga, mas eu tinha optado pelo conhecimento à distância, mesmo que em festas bem mais amenas era impossível evitar o cheiro da erva constantemente fumada, com uma lata de cerveja na outra mão.

Recordo-me do que, anos mais tarde, já numa fase de estudos pós-graduados e como professor numa boa escola secundária me diria um antigo colega: chegámos aqui mais ou menos saudáveis, não fritamos o nosso cérebro, e nunca vimos o interior de uma cadeia por razões de malfeitoria a outros. Éramos sem dúvida o outro lado da revolução: os filhos de uma classe média baixa ou remediada a aproveitar o que o Sistema nos oferecia, mas sem nunca deixarmos que uma consciência política à esquerda deixasse de nos guiar em certos valores existenciais, na visão de uma sociedade sem guerra nem fome, com mais igualdade e menos materialismo acéfalo. Los Angeles representava isso mesmo para nós nesse outro lado da barricada. Alguns sábados à noite visitávamos a Sunset ou a Hollywood Boulevard para apreciarmos as alegres andanças de uns que pregavam a paz e o amor livre, topando outros em assustadoras comas químicas nos passeios da cidade, a mesma mítica Hollywood que passava para o resto do mundo uma imagem bem diferente: ruas limpas e ladeadas de grandes casas, as palmeiras a abanar romanticamente ao vento, o suposto glamour do cinema e teatros adjuntos. Sim, sabia e conhecia essa América, mas nada com ela queria. De cabelo cortado, calças limpas e sapatos engraxados, nós é que então deveríamos parecer os freaks quadrados de uma sociedade a arder.

As Raparigas informa os seus leitores que se trata de um primeiro romance, mas não deixemos que isso influencie a leitura de cada uma das suas páginas, da sua prosa estilística algures entre memórias reinventadas e poesia pura. A sua autora é uma jovem nascida em 1989, mas já traz no currículo literário algum trabalho na The New Yorker e outra ficção publicada em revistas tão prestigiadas e exigentes como The Paris Review ou Tin House. O romance tem como referência primeira o caso de Charles Manson e as mulheres jovens que com ele viviam nas mais degradantes condições algures no norte da Califórnia, num rancho abandonado e fora de vista. A sua narradora chama-se Evie Boyd, e foi uma das sobreviventes daquela noite em Julho, em que duas famílias foram barbaramente assassinadas à faca, a sangue frio e sem qualquer remorso até aos dias de hoje, mesmo que seja referido que Suzanne, aqui o seu nome ficticio, se tenha convertido e praticado uma religiosidade cristã. O que mais deverá interessar os seus leitores, para além da prosa brilhante de Emma Cline, é uma outra originalidade adentro da tradição literária americana. A narrativa parte do presente, quando Evie já está só e vive por alguns dias na casa de um amigo juntamente com o filho e namorada desse amigo, e relembra os seus dias de fascínio, aproximação e eventual convivência com o grupo do rancho, absolutamente apaixonada por Suzanne, a que viria, numa viragem singular dos acontecimentos, a impedir que a sua admiradora participasse na carnificina de Los Angeles. Por certo que já é a mulher muito mais velha a relembrar o que então sentia aos catorze anos de idade, mas força-nos a mergulhar na nossa própria consciência e memórias, o que torna toda a estória pessoal da narradora ainda mais plausível, acreditável, a normalidade dentro da anormalidade que são os dias de qualquer adolescente numa sociedade que então encenava as mais radicais mudanças de vida interna enquanto prosseguia com a dilacerante guerra no Vietname, e perpetuava a luta ideológica entre dois blocos mundiais cujas armas poderiam obliterar para sempre boa parte da humanidade. A falsa revolta das seitas, como a de Charles Manson (de nome Russell nesta ficção) que  proliferavam na Califórnia como ervas daninhas num jardim vergado à tempestade que então parecia apocalítica, como na poesia cantada de Jim Morrison, tinha a morte como culto, a violência como vingança contra uma sociedade que exigia de cada um de nós, acima de tudo, serenidade e a força interior que permitia aos nossos pais lutar dia e noite pela vida, e a nós a persistência livresca ou intelectual para a felicidade pessoal e para o contributo possível a um novo e mais tranquilizante modo de vida, o sentido de pertença aos que escreviam e liam os livros para algo mais do que o prazer egoísta da solidão na companhia de meros personagens ou na espreita de vidas e geografias imaginárias. As Raparigas é isso, e muito mais. Creio tratar-se de um romance que ficará como um clássico de época, permitindo-nos mergulhar não só no seu momento histórico, mas sobretudo, uma vez mais, na consciência de adolescentes e dos seus “mentores” nos anos loucos e de vidas à deriva.

“Ele tinha querido – diz a narradora a dada altura, numa reavaliação do seu relacionamento com o próprio pai, a memória reavivada daqueles dias e da maneira de estar na vida de uma adolescente rebelde – alguma coisa. Como queria Suzanne. Ou a minha mãe queria Frank. Queríamos coisas e não podíamos fazer nada contra isso, porque havia a nossa vida, que tinham-nos apenas a nós mesmos, e como poderíamos alguma vez convencer-nos de que aquilo que queríamos estava errado?”.

Há qualquer coisa no tom destas linguagens, contextualizações ligadas à arte daqueles momentos e subtis chamamentos históricos que tornam a prosa de As Raparigas numa das poucas obras literárias norte-americanas da actualidade como uma peça inclinada a um regresso ao existencialismo de Jean Paul Sartre dos anos de radicalidade política e busca por uma saída tanto ideológica como pessoal. A redefinição consciente de valores que permitissem a cada indivíduo decidir o seu próprio destino, e ainda mais a sua pertença a um mundo maior no processo de rejeição total de todo um passado e na reinvenção de outro. A prosa de Emma Cline faz-me ainda relembrar as consequências da violência de O Homem Unidimensional, do alemão Herbert Marcuse, que leccionava e escrevia ali bem perto na mesma Califórnia aqui representada. Isto não é só um romance. É um testemunho entre a realidade e a ficção dos tempos que abalaram o mundo, e nos fizeram o que somos hoje, mesmo perante as claras ameaças de um regresso brutal a sociedades que nos pareciam ter aprendido com a história e a literatura que são indeléveis na nossa memória magoada.

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Emma Cline, As Raparigas (tradução de José Vieira de Lima), Lisboa, Porto Editora, 2016.

 

 

Idas e vindas: à conversa com Victor Rui Dores*

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O crítico literário é uma espécie em vias de extinção?

Victor Rui Dores, “Conversas Açorianas”

Vamberto Freitas

Professor universitário, intelectual, ensaísta, crítico literário e cultural, cronista e tradutor, o meu convidado de hoje é sinónimo de vocação ensaística cultivada com paixão, e de crítica literária séria e generosamente partilhada. É um autor que possui sensibilidade estética e capacidade criativa, está bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, sabendo incorporar nos seus discursos culturais os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação literária.

São décadas de labor estatístico que fazem dele um dos melhores estudiosos da literatura norte-americana e de expressão açoriana. Eu vou estar aqui à conversa com o terceirense Vamberto Freitas.

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Victor Rui Dores Bem-vindo ao programa, Vamberto Freitas. Tenho muito gosto em ter-te hoje aqui comigo. O crítico literário é uma espécie em vias de extinção?

Vamberto Freitas – Não. Só provavelmente irrelevantes num contexto de bancos criminosos, dinheiro e preocupações afins de uma estúpida e odiosa classe dominante, sem valores, sem dignidade, e muito menos sem sensibilidade para o tudo o resto que nos faz seres humanos merecedores da vida.

VRD És reconhecidamente um ensaísta de primeira grandeza. Em jornais, em livros e em fóruns de debate, estudas autores de ambos os lados do Atlântico, de forma contínua e continuada. Posso saber quantos livros, em média, lês por mês?

VF – Depende. Mas na generalidade são quatro livros. Há semanas que leio menos, outras ainda mais. Durante as férias de verão reentro sempre no Açoriano Oriental (e agora no jornal “I” e semanário “SOL”) com cinco ou seis textos já em carteira. Isso permite-me uma certa folga.

VRD O que é para ti um bom livro?

VF – Para mim literatura e sociedade são indissociáveis. O bom livro será uma representação artística ou uma poetização do seu lugar e tempo, ou então ainda um ensaio ou ensaios de fôlego que nos reinterpretam esse mesmo tempo e lugar, que pode ser a nossa rua ou o mundo inteiro.

VRD Só escreves sobre os livros de que gostas incondicionalmente?

VF – Sim. A determinada altura, aqui há uns anos, decidi que a vida era curta demais e o mundo (incluindo naturalmente os países de língua portuguesa), está cheio de grandes livros, de grande literatura. O resto não traz mal nenhum a ninguém, mas não lhes presto atenção. É claro que não tenho tempo de escrever sobre muitos livros bons, e que me são referências essenciais.

VRD – Nasceste nas Fontinhas, ilha Terceira e, em 1964, com 13 anos de idade, emigraste com a tua família para os Estados Unidos da América. Na California State University, em Fullerton, completaste a tua licenciatura em Estudos Latino-Americanos e uma especialização em Inglês. Leccionaste línguas e literaturas no ensino secundário norte-americano, ao mesmo tempo que desenvolvias profícua atividade nos jornais da comunidade, na rádio portuguesa, na organização de congressos estaduais sobre o ensino bilingue e sobre a problemática da imigração. Durante largos anos foste correspondente e colaborador do suplemento literário do Diário de Notícias (Lisboa). Diz-me uma coisa: onde é que, neste filme, surge, na tua vida, o incontornável Onésimo Teotónio Almeida?

VF – A meados dos anos 70, num congresso sobre a educação luso-americana na Califórnia. Creio que foi o último em que participou Jorge de Sena, em 1978. Um dos meus primeiros textos críticos publicados em Portugal foi precisamente sobre o Ah! Mònim Dum Corisco, do Onésimo, e saiu na extinta revista A Memória da Água-Viva, então coordenada e dirigida pelo Urbano Bettencourt e pelo J. H. Santos Barros. Onésimo foi e será sempre, a partir desse momento, para além de um queridíssimo amigo, uma das minhas maiores influências e referências intelectuais.

VRD – Com quem mais fizeste a tua recruta literária? Que autores te marcaram e influenciaram no campo da ensaística?

VF – Em primeiro lugar, o grande Edmund Wilson. Depois George Monteiro e a minha antiga e falecida professora e mentora Nancy T. Baden. Mais tarde, os portugueses João Gaspar Simões, Eduardo Lourenço, Teresa Martins Marques e, nos últimos anos, o professor e ensaísta João Barrento. Noutro registo estritamente literário, Eugénio Lisboa. Entre uns tantos outros, evidentemente.

VRD Por amor a uma mulher, chamada Adelaide Freitas, regressas aos Açores, fixas residência na ilha de São Miguel, onde és, desde 1991, Leitor de Língua Inglesa na Universidade dos Açores. Entre 1995 e 2000 desenvolveste, a par de outras actividades, papel de grande relevo no suplementarismo cultural, pois criaste e coordenaste o SAC, Suplemento Açoriano de Cultura, no jornal Correio dos Açores, projecto que te permitiu estudar o imaginário dos escritores açorianos e contribuiu, decisivamente, para dar a conhecer a força da afirmação cultural açoriana. Nunca te arrependeste de ter regressado às ilhas?

VF – Nunca. Não trocaria as minhas ilhas açorianas por nenhum outro lugar no mundo. Desde o início aqui em São Miguel tive provas de amizade e afectos que nunca tinha tido em mais lugar algum por onde passei e vivi.

VRD Com o boom das novas tecnologias da comunicação e da informação, os jornais deixaram de ter suplementos culturais e espaços de referência para a crítica literária. Entre nós, a excepção vai para o jornal Açoriano Oriental, onde manténs uma coluna literária e cultural, borderCrossings: leituras transatlânticas de que resultaram estes 3 volumes; e é também no Açoriano Oriental onde, juntamente com o Álamo de Oliveira, manténs a página literária “Artes & Letras”. É um trabalho que… não te paga a renda da casa…

VF – Não. Mas é uma obrigação minha contribuir para os arquivos criativos e literários da minha terra, e do meu país no seu todo. Recebo um ordenado como docente universitário que paga a minha existência como professor e ensaísta.

VRD Continuemos a lançar alguns olhares sobre os teus restantes livros.

VF – São esse meu tal contributo ao registo literário, e não só, do meu tempo e dos lugares por onde passei e vivi. Resta a outros avaliar o seu valor. Posso dizer-te que até hoje só tenho razões para sentir gratidão pelo que sobre o meu trabalho têm escrito alguns outros no meu país, nos Estados Unidos e no Brasil.

VRD – Vivemos um tempo em que o gosto literário vai dando espaço à moda literária. Passaram agora ao ataque os “repórteres culturais” que formam lobbies na grande imprensa e são aspirantes a gestores de opinião. Geralmente pertencem ao jet set literário da capital, e é óbvio que não fazem apreciação estética, limitam-se a escrever notas de leitura… Ou seja, estão preocupados com tudo, menos com intrínsecos critérios de qualidade das obras analisadas. Mas há pior: refiro-me a uma certa crítica académica, pouco ou nada acessível ao leitor comum, enrolada em hermenêuticas e que vai morrendo a falar sozinha… Ora, tu não vais por aí e não te encaixas nestas duas tendências, e quero louvar-te por isso. E depois escreves num português vivíssimo, em estilo limpo, de grande finura lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias. Foi a tua formação anglo-americana que te fez ser assim?

VF – Não só, mas estou em crer que foi a minha formação americana que mais me influenciou, em primeiro plano, em tudo o que faço na escrita.

VRD Nunca te deu para experimentar a ficção narrativa? Não é obviamente o teu caso, mas há quem diga que os críticos literários são romancistas frustrados…

VF – Não, não sou um romancista frustrado. Só frustrado.

VRD O reconhecimento público do teu trabalho está no facto de a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores te ter conferido, em 2015, a Insígnia Autonómica de Mérito Profissional. E agora, Vamberto?

VF – Agora vou continuar a trabalhar ainda com mais energia e respeito na divulgação crítica da nossa cultura e tradição literária. Sinto-me muito honrado, muito grato, por os representantes máximos do nosso povo na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, os representantes da nossa sociedade democrática, terem reconhecido o meu trabalho. Acredite-me, um gesto oficial destes vindo de casa vale por tudo o resto.

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*Este diálogo com Victor Rui Dores destina-se ao programa “Conversas Açorianas”, a ser transmitido pela RTP/Açores. O que então disse em directo e está gravado poderá não coincidir com algumas das minhas respostas aqui, mas estas são por certo um complemento que acho legítimo.

Revisitação a Edmund Wilson: literatura e crítica americana

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Evitem os cânones académicos, pois tendem sempre manter a literatura como um acto provinciano.

Edmund Wilson, The Bit Between My Teeth

Vamberto Freitas

Segundo muitos dos estudiosos da vida intelectual norte-americana do século XX, Edmund Wilson terá sido o crítico literário e cultural talvez de maior repercussão pública no seu país desde sempre até aos nossos dias. Com efeito, Wilson é o único crítico que Harold Bloom, no seu O Cânone Ocidental, inclui como um possível ou previsível estatuto canónico nos Estados Unidos. Bloom avança com dois títulos que lhe parecem permanentes no referencial crítico e intelectual norte-americano: The Shores of Light (1952) e Patriotic Gore: Studies in the Literature of the Civil War (1962). O primeiro é uma recolha dos ensaios e recensões publicadas durante os anos 20, e o segundo o que muitos consideram ser o seu magno opus, outra recolha sistemática de ensaios que começaram a ser escritos na década de 40 e que abordam a guerra secessionista do Sul (1861-1865) através da literatura considerada “menor” (diários, cartas, contos, romances e até memórias militares) mas reveladora do verdadeiro estado de espírito imediatamente antes, durante e depois do grande conflito. Menciono aqui Patriotic Gore um pouco mais detalhadamente porque, de certo modo, é também uma obra que se integra nesta fase da escrita wilsoniana, que aqui denomino como “escrita minoritária”, que tem a ver sobretudo com a sua viragem para a investigação e divulgação em periódicos de grande tiragem e influência, como o The New Yorker, nessa fase derradeira da sua escrita, mas sempre dirigidos à “classe culta” norte-americana, de que falava o ensaísta Lionel Trilling, e depois rescritos e republicados em forma de livro, das condições políticas, culturais e literárias de determinados grupos nacionais e étnicos de preferias dentro e fora dos Estados Unidos. Por outro lado, raras são ainda hoje as referências aos estudos literários nos Estados Unidos, em recensões ou ensaios de fôlego acerca da literatura norte-americana de autores seus contemporâneos que não tenham eventualmente de lembrar a uns e relembrar a outros o quase “esmagador” estatuto intelectual do autor de Axle’s Castle e de To The Finland Station.

No início da sua carreira nos anos 20 do século passado Wilson andou no percalço luminoso de F. S. Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos, Dawn Powell e Dorothy Parker, entre outros da modernidade norte-americana. Edmund Wilson será um dos poucos críticos que sobrevive com pujança aos próprios escritores que ele um dia recenseou ou criticou. Poucos críticos e ensaístas (ou jornalistas, como Wilson preferia ser conhecido e se auto-denominava) da sua ou de qualquer outra geração terão tido até aos dias de hoje tantos dos seus livros em circulação activa contínua. A sua vastíssima obra de crítica e história literária e cultural – que já foi postumamente organizada e publicada por vários estudiosos que a ela se dedicam – vai desde a prosa e poesia de The Undertaker’s Garland, de 1922, até à ficção que permanecia na gaveta, e que um dia fora um grande projecto de Wilson, o romance The Higher Jazz. Entre algumas outras obras biográficas publicadas durante vários anos, saiu finalmente em 2005 a grande e autorizada biografia Edmund Wilson: A Life In Literature, do também já falecido Lewis M. Dabney. professor durante décadas no Departamento de Inglês na Universidade de Wyoming.

No que toca ao presente dos estudos sobre Wilson e a sua obra, assim como ao seu estatuto na comunidade intelectual norte-americana, dentro e fora das universidades, a obra de Wilson na sua generalidade, permanece como referência obrigatória entre algumas das figuras literárias de renome mundial, que também têm escrito sobre ele com consistência ao longo dos anos, como, por exemplo, o recentemente falecido romancista John Updike e o crítico Frank Kermode. Em 1995 celebrou-se na Universidade de Princeton, a alma mater do autor, e em certas instituições nova-iorquinas, o seu centenário com vários simpósios que incluíram a participação activa e directa de universitários especializados na sua obra, intelectuais públicos, críticos literários, e romancistas como Toni Morrison. As mais importantes intervenções desse evento viriam pouco depois a ser coligidas e publicadas em 1997 em Edmund Wilson: Centennial Reflections. Com efeito, para além de ter sido Wilson a introduzir com sistematização o modernismo literário europeu nos Estados Unidos (Proust, Joyce, Eliot e Valery, entre outros incluídos no já referido Axle’s Castle), ele viria a exercer, repita-se, a mais profunda influência e a ser por outros considerado a “consciência” maior entre os escritores modernistas americanos da sua época, e mais tarde ainda como que a principal referência dos chamados New York Intellectuals, quase todos descendentes de judeus europeus imigrados, em que se reviam particularmente o já referido Lionel Trilling e Alfred Kazin. Foi ainda uma presença relevante nos referenciais literários de escritores tão icónicos do século passado americano como Gore Vidal e Joan Didion. Wilson, depois de um longo período de marginalização preconceituosa nas universidades norte-americanas, permanece como figura verdadeiramente incontornável e provavelmente passará a ser sujeito e objecto de teses e outros estudos, ironicamente e apesar de todas as queixas de Wilson contra o mundo académico em geral. A sua obra começava já na década de 60 a receber a atenção merecida em várias universidades do país, em obras que depois seriam publicadas em editoras prestigiadas. O conflito de Wilson contra os universitários conheceria a sua fase mais dramática quando, em 1968, ele publica em dois números do The New York Review of Books (de 26 de Setembro e de 10 de Outubro de 1968) o seu hoje famoso panfleto, The Fruits of the MLA (Modern Language Association) no qual atacava o trabalho que ele considerava academicamente viciado em volta de edições críticas universitárias dos clássicos americanos, acreditando que o aparato pretensamente “científico” afastaria o leitor em vez de o aproximar da sua herança literária e cultural. The American Library, fundada em 1982, e agora especializada, um tanto ironicamente, em edições críticas mas simples e atraentes da obra completa de autores norte-americanos escolhidos, havia sido idealizada por ele próprio, e começou há poucos anos a juntar em grossos volumes algumas das suas mais significantes páginas ensaísticas, as que se tornaram efectivamente fonte inescapável da sua prosa crítica e criativa.

A obra de Wilson como discurso eminentemente público nos Estados Unidos é de tal assombro na sua abrangência e influência que sintetizá-la em Portugal hoje tornar-se-á extremamente difícil, pois ele sempre contrariou outra das tendências cimentadas pelas universidades: foi demasiado “prolífico”, até que se veja quão interligada e sequencial é de facto todo o seu projecto crítico e historicista. David Bromwich, no ensaio “Wilson´s Modernism”, retoma a ideia de Adorno que um crítico deve simultaneamente interiorizar o momento assim como, ou sobretudo, a Tradição da sua língua e cultura, enquanto corta radicalmente com todas as assunções desse tempo, rasgando outras vias intelectuais criativas. Acrescenta Bromwich: “A tendência de nos preocuparmos com a interiorização do momento (fashion) poderá levar do mesmo modo a uma exteriorização, ou seja, à necessidade compulsiva de contestação e criação do que é novo, tal como claramente acontece com ou nas teorias pós-modernistas, ou em obras executadas em obediência a essas teorias. Wilson foi um corajoso historiador da resistência do artista às modas, e parte da verdade que ele nos passou talvez seja o que mais nele hoje esquecemos”.

Se Edmund Wilson havia construído toda a sua reputação como observador e divulgador das minorias modernistas em Nova Iorque a partir dos anos 20, na precisa altura em ele ingressa nas revistas Vanity Fair, Dial e The New Republic, atravessa depois na década de 40 um longo período de indefinição, se bem que extremamente produtivo, em que vai saltitando intelectualmente como que para evitar uma “paralisia” intelectual, mas em busca já de novas perspectivas e zonas de descoberta literária e cultural. Wilson regressa eventualmente à ribalta, principalmente nas páginas de The New Yorker, na qual ingressa em 1943 como ensaísta crítico. No fim dessa década, até à sua morte em 1972, o que só se poderá chamar aqui uma espécie de antevisão do que ironicamente dominaria o pensamento universitário e institucional que tanto o haviam rejeitado e marginalizado, Wilson começava a dar sinais desse pós-modernismo a que alude Bromwich, na sua fase menos desconstrucionista e mais afirmativa, na defesa das literaturas e historicidade global das minorias de toda a ordem e em toda parte, redefinindo e interligando para sempre centros e periferias, canonicidade e marginalidade. Creio que Bromwich peca tão-só por uma omissão: Wilson foi de facto o crítico-historiador cimeiro da “resistência” a determinado momento e ante algumas modas passageiras na arte e em certo “culturalismo” redutor e, agora sim, provinciano.

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Edmund Wilson: Literary Essays And Reviews Of The 1930s & 40s, New York, The Library of America, 2007. Este é o II volume destas edições definitivas.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Janeiro de 2017.

Jonathan Franzen e a comédia americana

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Ninguém poderá suster com facilidade e sem falhar tal visão cómica. Mas Franzen consegue-o num grau suficiente – com inteligência, pose, precisão cirúrgica e um auto-conhecimento temperado pela auto-depreciação – justificando assim a atenção extraordinária que a sua obra lhe tem trazido até hoje.

Philip Weinstein, Jonathan Franzen: The Comedy of Rage

Vamberto Freitas

Não deve ser fácil ser Jonathan Franzen, o escritor norte-americano que ainda há pouco publicou o gigantesco caleidoscópio social sob o título de Purity, e que também foi publicado no nosso país no fim de 2015. Se a tradução da D. Quixote manteve o título original em inglês poderá ter a ver com a impossibilidade de certas semânticas em contextos culturais diferentes, mesmo que o dicionário nos dê o vocábulo equivalente e com um significado definido do mesmo modo. A busca de “pureza” num mundo “sujo” não tem necessariamente nacionalidade, mas também as mais antigas civilizações, pelo menos do velho continente europeu, já atingiram o que não se sabe bem se é um estágio de cinismo absoluto e perpétuo, ou simplesmente certos ensinamentos da História quanto a possibilidades de uma humanidade bondosa. Jean Paul Sartre trabalhou e retrabalhou a ideia existencialista de que num mundo absurdo, caótico, cabe ao indivíduo reencontrar-se consigo próprio criando e recriando os valores que o hão-de guiar vida fora, e sobretudo decidir o seu lugar na comunidade a que pertence, ou, por outras palavras, reinventar-se. Não é nada comum uma biografia crítica de um autor ainda mais ou menos novo como Franzen, mas a sua estatura entre os leitores e a crítica mundiais já o justificam, particularmente quando se trata de uma obra que se demarcou e se impôs de modo raro na literatura norte-americana. Com o romance The Corrections/As Correções Franzen passou de um escritor preocupado com a sua aceitação e reputação entre uma pequena elite cultural – The Twenthy-Seven City e Strong Motion – para um nome de imediato reconhecido no seu país. Em 2010, a revista Time, essa acreditada voz ideológica de uma classe-média que hoje não se sabe bem o que pensa ou onde se coloca no espectro político da sua sociedade, colocou Franzen na sua capa com o título de “Great American Novelist/Grande Romancista Americano”, retirando o autor da sua própria confusão quanto ao seu lugar no por enquanto provisório cânone norte-americano. Franzen reinventou-se com o seu primeiro romance dirigido tanto ao maior número possível de leitores como a uma crítica institucional ou de grande alcance nos jornais e revistas do país. Este Jonathan Franzen: The Comedy of Rage/ Jonathan Franzen: A Comédia da Fúria, que saiu por volta dos mesmos dias de Purity, traça essa “evolução” do escritor, e principalmente a muito antiga questão da relação entre literatura e sociedade, desfiando o novelo biográfico do autor e recolocando-o na transfiguração da sua ficção, toda ela escrita na indefinição de uma complexa pós-modernidade. Uma biografia crítica, suponho, significa, em primeiro lugar, de como a literatura continua a ser importante, ou mesmo consequente, para a sociedade de onde brota e a quem se dirige. Por certo que o autor aqui em foco já é mundial, e recebeu alguma atenção crítica e jornalística no nosso próprio país. Os nossos estudos e cultura literária, ao contrário do que se se pratica e lê nas sociedades anglo-saxónicas, nunca levaram em conta a importância da biografia e autobiografia na interpretação da melhor ou mais duradoura arte literária. Só que é também do fundo da experiência real ou imaginária de um escritor que sai toda a sua escrita. A sensibilidade – ou fúria, no caso presente – da sua obra só tem e poderá ter uma fonte, ele ou ela própria. A tentativa de descodificar o labiríntico interior de um ser humano consciente de si e da “realidade” em que vive ou a história o ou acaso o colocou é desde sempre o tema definidor da grande literatura.

Jonathan Franzen: The Comedy of Rage traça os momentos cruciais da vida e carreira do autor, desde os dias num subúrbio de St. Louis até ao presente, uma vida e uma carreira numa América que tem vivido e provocado as maiores transformações sociais, económicas e culturais em praticamente o mundo inteiro. Todos os títulos dos seus romances a partir da fase em que o autor decide tornar-se um escritor lido por mais alguém do que um crítico ou um professor universitário, deduzimos após a leitura desta biografia, são e não são irónicos – uma vez mais, As Correções, Liberdade, e Purity. Se o primeiro volume do que poderemos chamar uma nova trilogia na desconstrução da mítica americana significa a tentativa de os seus personagens “corrigirem” a posteriori o seu modo de ser e estar numa família da classe média bem pensante ou tradicional, em que o freudianismo das suas fúrias primordiais se alia ao desejo de quebrar com o clã que tudo nos dá e pode tirar, o segundo, Liberdade, como que aponta simultaneamente o território concreto e de alma que os aprisiona e liberta, a conformidade quotidiana entre pais, filhos e irmãos a demandar o espaço livre que cada um procura para si. Encontro na obra de Franzen essa genialidade de literatura ao mesmo tempo realista e metafórica, quase confessional na tradição poética dos anos cinquenta americanos lado a lado com uma visão que nunca deixa nem pode deixar de fora a grande sociedade em que estão integrados, a ironia de vidas que parecem contentar-se com os prazeres de coisas e cama, mas sempre em busca de um futuro livre da mentira vivencial de um sonho americano representado pela estrutura de cada família ou casamento cujas disfunções permanecem escondidas mas determinantes nos rumos seguidos por cada um. Num romance de Franzen nunca a grande sociedade está ausente – quer se trate da América, ou como em Purity, a América e boa parte do mundo agora interconectado por todos os meios e interesses de toda a natureza. Cada um destes romances parece uma extensa crónica de tempos vividos e sofridos contra a ideia ou valores de uma sociedade que poderá estar consciente das suas contradições mas em negação quanto à possibilidade de se aventurar por outros caminhos. Esse conflito genesíaco da nossa humanidade é aqui representado a partir de cada personagem ou das grandes movimentações sócio-políticas do nosso tempo. Franzen, insinua o seu biógrafo Philip Winstein, tem passos escriturais que estão algures entre um William Faulkner de O Som e a Fúria e certos escritores europeus ainda mais obscuros em formas e conteúdos, como o esquecido crítico austríaco Karl Kraus, uma das principais referências “ideológicas” e de pensamento moderno de Jonathan Franzen, a quem este dedicou um livro intitulado The Kraus Project – a fúria contra a mecanização da vida numa Europa das primeiras décadas do século passado, e o horror de Franzen ante uma actualidade quase completamente dominada pela alienação digital. Outras grandes influências na visão literária de Franzen foram alguns dos nomes mais proeminentes do pós-modernismo norte-americano, incluindo Thomas Pynchon, William Gaddis, Don DeLillo, e em primeiro plano, o seu grande e falecido amigo David Foster Wallace, ou seja, os mestres da literatura considerada “opaca” e da dita “paranóia” num mundo de conspirações, inseguranças e medos generalizados, o capitalismo como ameaça quase imparável, simbolizado frequentemente nas suas páginas, creio, no modo como devora o meio ambiente em redor de comunidades ou nos vastos e campos e montanhas do continente. Poderá ser assim visível, de certo modo, nos seus últimos três romances. Por dentro de uma prosa tão clara, de uma semântica limpa que leva o leitor a esquecer o número de páginas, ficam diversas ficções interligadas que constituem cada um desses romances. Entre os europeus, as suas leituras referenciais vão ainda desde Sófocles, particularmente (e sem surpresa) o Rei Édipo, Shakespeare, Kafka e Freud. São os impulsos contraditórios da condição humana, tal como os do seu autor no que respeita à sua própria obra, e a quem ele a dirige numa larga esfera de leitores mundiais, esses que têm à sua disposição e como oferta desde um reles site digital à mais erudita literatura da nossa e de outras tradições.

Assim mesmo – diz o académico Philip Weinstein do escritor que também foi professor universitário durante algum tempo – Franzen, o viajante global anónimo, é também o bem visível nova-iorquino. Ele escreve regularmente para as mais prestigiadas revistas da cidade; ele concede entrevista atrás de entrevista; ele quer ser conhecido… O desejo de chegar a um número sem fim de leitores seus é igual – se não aos trunfos de um baralho de cartas – ao seu desejo de permanecer invisível. Essa mesma vontade implica, ainda, um desejo rudimentar de ser amado por quem realmente ele é, e por isso corrige incansavelmente as noções erradas da sua própria identidade”.

Antes da leitura deste Jonathan Franzen: A Comedy of Rage raramente prestei alguma atenção à biografia do autor. Nunca me esqueci das palavras de alguns mestres da nova crítica americana que nos diziam para esquecermos essa vida ou história de um nome que assina uma grande obra literária, que não precisa de nada mais que as suas linguagens e estruturas narrativas para que seja, ou não, uma obra de arte que chega ao leitor na sua completude. Exageravam, não sei se muito ou pouco. Sei que ler uma biografia crítica de um autor favorito é tanto um prazer autónomo da vida e obra que conta, como lança inevitavelmente um outro clarão sobre a complexidade de um texto ficcional, especialmente quando escrito e estruturado com a genialidade de um Franzen. Há muita crítica que discorda, e Philip Weinstein não os esquece nestas suas páginas. Leitura e interpretação serão isso mesmo, para além do mais – olhar os espelhos cujas imagens, sombras e luz nos atraem ou repelem.

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Philip Weinstein, Jonathan Frazen: A Comedy of Rage, New York/London, Bloomsbury Academic, 2015. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado jornal “I”, em Lisboa, e no Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.

Do amor e da loucura

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Os livros esquecidos, as autores ignorados são artífices do destino que subsiste debaixo da superfície.

Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam

Para a Adelaide, que voa sempre comigo

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, Nem Todas As Baleias Voam, o mais recente romance de Afonso Cruz, tem pouco ou mesmo nada a ver com um desses adoráveis mamíferos marítimos que faria de Herman Melville o mais canónico de todos os autores americanos canónicos, nem sequer nos fica na memória como símbolo ou metáfora maior deste inusitado romance na nossa língua. A sua audácia temática e as suas linguagens, tão claras como obscuras, como que num poema de um T. S. Eliot menos sisudo, são uma espécie de exercício entre um modernismo literário cada vez mais distante e um pós-modernismo que insiste em combinar a habitual revisitação à História, tanto imaginada como real, por entre a ambiguidade de significações que os quase esquecidos new critics consideravam uma das marcas maiores de qualquer texto que valesse a pena ser lido, meditado, dissecado. Se é verdade que na realidade a CIA tentou as maiores e frequentemente cómicas loucuras para derrotar a ex-União Soviética, o narrador de Afonso Cruz desdobra-se brilhantemente em contador de estórias privadas e arquivista de supostos “documentos” em que o protagonista Erik Gould é recrutado para organizar concertos de jazz no outro lado da Cortina de Ferro durante os anos 70 do século passado, e assim tentar cativar “corações e mentes” (como diziam no tempo escuro do Vietname) para a traição ao comunismo e de seguida adesão ao Ocidente, querendo dizer aos Estados Unidos, a cidade de Deus e do Wall Street. Só que Nem Todas As Baleias Voam é muito mais do que isso. Por detrás da História estão os seres humanos na sua solidão, no seu destino pessoal entre quatro paredes ou passeado numa rua em que mais ninguém conta ou exerce sequer a mínima interferência ou influência nas obsessões ou no coração que quem olha sem ver, de quem sonha sem esperança. Gould, diz o relatório da CIA escrito em secções intermitentes na narrativa, tinha só música dentro de si, e não a queria, magoava-se a si próprio numa tentativa de redenção pelo pecado que era a sua arte, que nele residia e que o oprimia. Arte e amor eram a sua dor. Colocar os dedos num teclado do seu piano para conquistar outros e fazê-los abandonar o seu mundo, sofrer a angústia de não ter a mulher que ama e que o havia deixado, levando-o a uma perseguição obsessiva de um reencontro, como um Ahab atrás da baleia branca que também o havia mutilado para sempre. Ódio e amor, restando todos os outros num palco sem mais enredo ou desfecho. Erik Gould tem um filho de nome Tristam, e que vive em Paris com um casal amigo, também eles reduzidos a encontros ocasionais dentro da mesma casa, a cama mero poiso de descanso ou onde se espera mais morte do que vida. Este é um romance feito de memórias deliceradas, mas em que o humor das palavras e das acções são o contraponto à impossibilidade de vidas com sentido ou da normalidade com alguma felicidade no dia ou na noite. No centro de tudo e todos está a espera do protagonista pela sua amada, Natasha Zimina. Já a meio do romance estamos em 1969, “Quando [Neil] Armstrong – relembra o narrador – pisou a Lua pela primeira vez… A Lua dos amantes nunca mais seria a mesma”.

O que mais impressiona num romance como Nem Todas As Baleias Voam é a quase ausência do sentido ou “espírito do lugar”, dado o momento histórico que que lhe serve de referência e a política da loucura que na realidade nos ameaçava a todos. Estamos, naturalmente, na América, na Europa deste deste lado, e depois na outra então no lado de lá. É impressionante como quase não sentimos, não vivemos, essas geografias já meio lembradas meio esquecidas. Afonso Cruz faz-me repensar o que tinha sido sempre o mais fundamental na arte literária – o lugar era um mero lugar, as personagens, a sua vida interior, os seus lamentos ou as suas lutas pela sobrevivência, pela sua integridade, pelo seu sentimento de culpa ou pela tentativa de salvação é sempre o que mais lembramos de uma significante peça literária. Nunca será a tentativa de uns serviços secretos sem nome nem identidade definida que retemos destas suas páginas. Muito menos será a luta entre um bloco ideológico ou militar e outro que o leitor vai registar na memória numa leitura deste romance. Vão ser as poucas as figuras (re)inventadas e os seus dizeres e desejos que ficarão connosco, a dor da perda, o desespero do nada num mundo em que adivinhamos em ebulição, a música como refúgio, a arte em geral como a obra maior da nossa própria humanidade. O registo histórico destas páginas, incluindo o que poderá ser parte dos arquivos reais de um tempo e fúria, servem apenas como como referência secundária e, de certo modo, palco esclarecedor de certas motivações de cada um, um tempo que provocou ou não decisões e comportamentos, um tempo que tinha outras e bem diferentes modos de ser e estar. A História é uma abstração para cada um de nós. As nossas vidas quotidianas, os nossos desejos, os nossos sonhos são quase sempre demasiado íntimos. Por entre as chamadas massas e as vozes dominantes, permanece a nossa alma, a nossa vontade de uma normalidade feita à nossa medida e na companhia de quem amamos, ou são os nossos mais íntimos outros. Erik Gould tem a falta da sua mulher amada, o seu filho não tem nem presente nem passado, guarda numa caixa de sapatos objectos banais, o que mais o vai definir após a morte, o casal amigo com quem vive, Tsilia e Isaac Dresner tenta redescobrir o amor e o desejo. Dresner tem uma livraria que se chama Humilhados & Ofendidos. Pois. Fiódor Dostoievski, ou o chamamento à nossa humanidade, em todas as geografias de afectos e memórias, de loucura, raiva e solidão.

O Escritor – escreve o narrador sobre ele próprio, ou sobre um outro ser imaginário – dizia que não era ele quem escrevia, que não era ele o autor, que era um escravo da inspiração, que a sua mão se mexia comandada por uma força estranha à sua vontade, que aquelas histórias não lhe pertenciam. Era um processo extremamente doloroso, em que ele servia de veículo. Muitos escritores sentem exactamente a mesma coisa e garantem que a inspiração lhes escorre pelos braços, pelo corpo, pela cabeça, num processo mágico em que a escrita parece contornar a consciência para ser algo que sai dos dedos, como a tinta sai das pontas das canetas. E tudo isto é acompanhado de uma dor imensa, como um parto, com sangue e com suor. Com o Escritor, era exactamente isso que se passava. Era literalmente isso que se passava”.

Desde há alguns bons anos, e nas mais variadas línguas, que que se fala na “morte do romance”. No nosso país, Vergílio Ferreira também fez questão de o afirmar por mais de uma vez. Nunca entendi bem de onde vem esta ideia, de onde vem a ideia que a arte literária acaba com uma qualquer geração. Não queria ser injusto aqui, mas creio que certos autores de renome nos seus países, ao chegar a certa idade ou exaustão, ou, mais problemático ainda, para ser delicado aqui, achavam-se os últimos mestres da forma e do conteúdo. Pior ainda, um Francis Fukuyama afirmava no seu famoso O Fim da História E O Último Homem que tínhamos chegado ao fim da caminhada político-ideológica, o liberalismo sócio-económico tinha-se tornado o futuro, a universalidade da vontade humana atingia o seu auge, a sua meta final. As fantasias académicas também são frequentes, e conseguem por algum tempo impor-se. Nem a história chegou ao fim, nunca, nem arte deixará, nunca, de transfigurar a condição humana. Em todas as línguas e culturas a literatura parece estar cada vez mais viva. Em Portugal, há uma nova geração de escritores que nada devem a ninguém. Sabem dos seus antecessores nacionais, e sabem dos outros. Sabem agora que há mais mundo para além do seu. Sabem que a sua língua pode e deve dizer do mundo sem fronteiras e preferivelmente sem preconceitos de qualquer espécie. Viram o dito de Fernando Pessoa ao contrário: Sou de toda a parte, como sou daqui. Já falei de alguns deles que publicaram em tempos muito recentes. Lembro agora também Afonso Cruz. O resto da sua obra, na literatura, nas artes plásticas, filmes de animação, músico e cineasta completam a sua visão do tempo que é o nosso, da condição humana em sociedades globalizadas enquanto reafirmam a sua individualidade, a sua diferença no mosaico humano que, apesar de certa retórica política do momento, a grande arte literária representa nas mais variadas línguas e tradições.

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Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam, Lisboa, Companhia das Letras/Penguin Random House, 2016. Publicado no jornal “I”, Lisboa, e no Açoriano Oriental, Ponta Delgada.

Calvino na América

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Devo dizer que a mim o American way of life não me desagrada, se por isso entendermos um ideal de eficiência, no trabalho produtivo e no gozar a vida.

Italo Calvino, Um Otimista na América

Vamberto Freitas

Que esta viagem à América de Italo Calvino ficou inédita durante tantos anos, ao que parece por vontade própria do seu autor, não me espantou assim tanto por razões explicáveis de quem tem lido ao longo dos anos outros autores estrangeiros que visitaram e escreveram sobre os Estados Unidos. A própria capa traz a informação que Calvino começou a escrevê-lo logo em 1960, mas não diz quando o terminou. A edição original foi publicada em 2004, e agora no nosso país. Não seria a primeira vez, como se sabe, que isto acontece com um grande escritor de fama mundial em relação à sua obra, que por vontade própria decidira que ficasse num espólio de silêncio. O próprio autor considerava que estas suas páginas não eram bem literatura de viagens, no seu sentido clássico, ou mesmo jornalístico, concluindo, é de crer, que não tinham assim tanto de original, nem na prosa nem no seu embate pessoal com a realidade americana. Numa primeira ou ligeira leitura assim também poderá parecer a muitos de nós, mas um autor como este nunca poderia deixar de nos transmitir algo de novo e inesperado acerca do mítico país da nossa modernidade, tanto pela sua capacidade intelectual e de observador implacável, como pelo seu humor constante e abertura a tudo quanto é novo, como ainda especialmente pelo seu estatuto de cidadão na altura – passara só dois anos depois do seu abandono do Partido Comunista Italiano, agora, supõe-se, livre dos mais arraigados dogmas ou lealdades partidárias. Por outro lado, atente-se no período de tempo que ele passa no grande continente a oeste: alguns meses entre 1959-60, ou seja, no auge da Guerra Fria, que em pouco tempo levaria o mundo à beira de uma catástrofe nuclear devido a Cuba, o tempo em que a América internamente conhece um grande salto para a prosperidade e sociedade de consumo total, já não admitindo qualquer desafio à sua hegemonia no Ocidente.

Italo Calvino recebeu uma bolsa da Ford Foundation para percorrer livremente os Estados Unidos durante seis meses, quando já era conhecido por uma obra que começa a ser publicada em 1947, e ele próprio associado à grande editora italiana da época, Einaudi, mas não deixa de ser curiosa esta estadia do autor em todo o país, encontrando-se, como ele próprio dá conta nos seus textos, com intelectuais e professores universitários, recebido pelas mais diversas instituições, e até por figuras que hoje são parte da História do país, como Martin Luther King, Jr. e o seu número dois, Ralph Abernathy, chegando mesmo a entrar nas suas igrejas e a participar nalgumas reuniões públicas, mas relata tudo numa prosa bastante hesitante e ambígua. Vai de Nova Iorque a Los Angeles, e depois às maiores cidades do sul profundo, declarando, para mim surpreendentemente, Savannah, no estado da Georgia, “a mais bela cidade dos Estados Unidos”. Em São Francisco aproveita, e isto é uma das maiores curiosidades literárias desta prosa americana de Calvino, para desancar outra vez nos então emergentes escritores beat, sem nunca mencionar um só nome, considerando-os pouco mais do que jovens ricos mimados e a viver o vazio da sua proprio prosperidade, desafiando a sociedade pelos seus estilos de vida e prosa aparentemente rebelde. Alguns anos mais tarde, Charles Bukowski diria quase o mesmo destes seus companheiros de estrada e da escrita, e em termos muito mais duros, em ambos os casos levando os seus leitores à risada quer gostassem ou não dessa outra literatura. Quando Calvino começa a escrever este livro, Allen Ginsberg, essa figura hoje também mítica da rebeldia americana, já tinha publicado em 1956 o seu poema “Howl”, que de certo modo passou a fazer parte indissociável da herança artística de uma Nova Esquerda, essa que pouquíssimos anos depois quase faria estourar na rua os EUA. Seja como for, são estas e outras tiradas do autor de O Visconde Cortado ao Meio e d’O Barão Trepador que fazem da nossa leitura uma contínua surpresa, ou uma leitura feita com a perplexidade de quem nunca esperaria por parte de um escritor como Italo Calvino certas atitudes perante a sociedade capitalista por excelência. Por várias vezes Calvino alude à concorrência com a União Soviética, mas quase sempre em tom baixo, como quem se vê obrigado a não esquecer o outro lado do grande debate ideológico então em curso e que, uma vez mais, ameaçava o mundo inteiro. “Desde sempre – escreve ele a dada altura – tem existido e existe, tanto para os russos como para nós e decerto para muitos outros povos, uma América de utopia que funciona como mito ativo, de um nível de vida a alcançar. Nos Estados Unidos, onde as coisas estão sempre mais à frente do que as ideias, onde as forças produtivas e a técnica conseguem modelar a civilização mais diretamente e com menos obstáculos e atrasos, configuram-se realidades que são como imagens de um mundo futuro”. Palavras de todo inesperadas de um alinhado marxista, senão arrependido por certo num ajuste de contas com velhas lealdades e antigas opções políticas. Antes de falar em “nós”, fala nos “russos”, o que pode ser interpretado sob duas perspectivas: os russos são parte de nós, e desde sempre desejavam essa sociedade representada pela América “mítica”, ou então mesmo durante a sua viagem era o grande concorrente hostil dos EUA que ele queria desfazer ou amarrar ao projecto global orquestrado na altura por Washington.

Talvez sejam palavras como estas que fazem de Italo Calvino esse autor europeu sem par, e comparado quase sempre a um outro fantasista do cânone literário mundial, Jorge Luís Borges. Um Otimista na América é por si só um título já de semântica carregadíssima. A América que Calvino descreve aqui é a América que eu conheci como adolescente e depois como adulto, e reconheço-me quase por inteiro nestas realidades, mas um autor como Calvino teve responsabilidades que um cidadão comum não tinha nem poderia ter. De página a página levanta a sua taça ao que vê e acha que entende, esquecendo que em muito pouco tempo depois o país revia toda a sua política interna, tentando integrar os que historicamente permaneciam nas suas margens, especialmente os afro-americanos e todos os outros grupos étnicos, inclusive os luso-americanos que passaram a desfrutar de um ensino que resgatava a sua própria ancestralidade lusa. Dei, no entanto, gargalhadas de concordância quando Calvino, logo nos seus primeiros dias de América, vai a um café “italiano”, que se pensava chique em Nova Iorque, e ri com a sua decoração pomposa e de bustos supostamente romanos, falando ainda de como aí se servia os mais variados cafés que nada tinham a ver com a tradição no outro lado Atlântico. Um povo híbrido recria civilizações a seu belo prazer. O texto sobre imigrantes italianos e italiano-descendentes é antológico, de uma precisão cirúrgica, e aplica-se quase palavra por palavra à maior parte da emigração para os Estados Unidos durante a primeira metade do século XX. Relembra-nos das suas origens “agro-pastoril”, e que teriam emigrado de regiões de um sul só “há poucos decénios anexadas ao Estado italiano”, a língua que falavam era mais um dialecto do que o italiano convencional, fazendo com que durante décadas não soubessem comunicar nem na sua língua nem em inglês. “Aqueles – afirma ele – que mais do que todos e por mais tempo sofreram o desenraizamento são os italianos”. Outro exagero, no seu pouco escondido entusiasmo pela reinante classe média anglo-saxónica. Que diriam a isto os italianos das gerações já lá nascidas, os que nessa altura e sobretudo a partir dos anos 70 se tornariam grandes referências do cinema americano e das artes em geral? Fala ainda do “isolamento” de certa esquerda americana, e sempre num tom resguardado quanto ao seu estatuto na grande sociedade, relembrando, pelo menos estes, “homens que passaram através de processos, investigações, ostracismos e humilhações… Entre os homens de esquerda dos Estados Unidos muitos são filhos de imigrados, americanos de segunda geração. É impressionante como nestes críticos da América nunca assoma a nostalgia de uma outra pátria, nem que seja só como termo de comparação…”. Pois não, a América era e é a sua pátria, e lutavam, como ainda hoje lutam, pela “América mítica” de que ele próprio nos fala noutra parte.

De resto, Um Otimista na América poderá vir a ser, se já não é, uma das mais claras apologias do modo vida americano naquela época, escrito por um europeu que também se tornaria uma referência literária universal. Tenho na minha estante um bom número de autores portugueses que fizeram o mesmo, mas num registo bem diferente, e creio que por motivos nada semelhantes. Não resisto a comparar este livro de Italo Calvino é um outro livro publicado em 1963, na azáfama intelectual de então que envolvia a defesa paga da “democracia” no Ocidente, tal como a entendemos: Brazil On The Move, do modernista referencial norte-americano John Dos Passos, também antigo esquerdista que se havia convertido à ala mais direita do Partido Republicano. Ao contrário de Calvino, o autor de Manahattan Transfer fez questão de publicar sem demora os seus entusiasmados textos, tanto na imprensa americana como em forma de livro.

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Italo Calvino, Um Otimista na América (tradução de José Colaço Barreiros), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado no jornal “I” (Lisboa) e no Açoriano Oriental (Ponta Delgada).

 

 

História e identidade, ou metáforas do amor e do ódio

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As lendas atraem a elite como as ideologias atraem os homens comuns, e como as descrições de terríveis forças ocultas atraem a ralé e a escória. Somos o quê neste pântano de aristocratas e selvagens?

Tiago Salazar, A Escada De Istambul

Vamberto Freitas

Antes de irmos ao contexto ficcional das palavras acima citadas, permitam-me uma observação preliminar. A Escada De Istambul é o primeiro romance de Tiago Salazar, a história de uma família judia sefardita de nome Camondo, com possíveis origens na Península Ibérica, e com história documentada da sua errância desde Veneza a Paris, quando os seus poucos sobreviventes são efectivamente extintos nos campos de batalha e nos campos de concentração alemães da II Guerra Mundial. Já iremos também à natureza de uma narrativa de fôlego como esta, e o jogo de espelhos entre a realidade e a ficção, a fiabilidade dos seus narradores, e como uma obra de arte se auto-sustenta sem mais referências biográficas ou mesmo fundamentação em tudo que diz respeito à passagem do tempo e aos rumos nacionais de cada geografia em que é localizada. Por agora queria dizer que Tiago Salazar e este seu novo livro enquadram-se no que me parece ser um novo grupo de escritores pertencentes a uma geração que segue a minha, e que tem irremediavelmente a globalização como casa do ser, como temas tão familiares como os que escreviam ou escrevem sobre os palmos de terra da sua nascença e vivência, digamos um William Faulkner a retratar uma certa americanidade sulista, ou qualquer um dos nossos mais conhecidos neorealistas, mas não só, a transfigurar uma vida numa pequena aldeia ou campo alentejano. Poderei estar equivocado, mas para estas novas vozes entre nós – e digo-o sem qualquer juízo de valor ou atitude literária – a questão da portugalidade, da nossa identidade adentro de fronteiras europeias ou mesmo transatlânticas, está arrumada, ou já não chega para nos colocarmos na história e comunidade mundiais a que pertencemos, entre ou para além de raça, língua, religião ou ideologia. Nestes últimos anos, só como alguns exemplos, temos João Pinto Coelho, com o Perguntem a Sarah Gross, Cristina Drios, com Adoração, Valter Hugo Mãe com quase toda a sua obra e agora com Homens Imprudentemente Poéticos. Noutros registos artísticos em que esse mundo sem fronteiras – ou as fronteiras que agora nos são íntimas – é vivido ou meramente observado e comentado por personagens lusos temos os contos em Amor em Lobito Bay, de Lídia Jorge, o recente Prantos, amores e outros desvarios, de Teolinda Gersão, assim como alguma ficção de Ernesto Rodrigues, particularmente o seu romance Uma Bondade Perfeita. Não que a arte literária se livre ou se possa livrar das suas geografias humanas – só que as define e refine perpetuamente, o movimento histórico de cada época requerendo, penso, esses outros olhares, as viagens ora “para dentro”, como diria Edward Said, ora a descoberta da universalidade num caminhar em busca de, ou na convivência com o Outro, esse ser imaginário que acabamos todos por habitar, mesmo na nossa terra natal. A Escada De Istambul faz-nos relembrar ou tomar consciência de muitas destas questões, inclusive a geografia como determinante também da condição que nos é dado conhecer e viver, menos do que como poiso enraizado de estabilidade e felicidade do que como condenação perante a História universal de raiva e sangue entre povos e as suas filosofias de vida. Esta é uma narrativa que recua alguns séculos e termina a meados do século passado, mas a sua intemporalidade demonstra mais a circularidade da história do que qualquer noção de progresso em linha recta.

Na verdade boa parte da escrita do nosso tempo raramente separa ou tem de separar géneros, o autor confundindo-se com o narrador, a prosa ensaística ou mesmo poética intromete-se frequentemente na narrativa descritiva ou noutros discursos, em diálogo ou em confronto adentro da trama contada. Um romance também pode ser, como A Escada De Istambul é, uma outra viagem – o género de literatura a que o autor está ligado entre nós, um género cuja poética se abre a uma grande diversidade narrativa – pelo tempo e pela História na reinvenção de outras vidas cujo significado se torna algo mais do que os seus próprios sujeitos ou personagens. O autor deambula aqui por Istambul e dá por si numa escada algo original na mais histórica e simbólica cidade do Bósforo, ou do Levante no seu todo. Na sua admiração pela estrutura original dos degraus que a certa altura se bifurcam em duas direcções encontra um arquitecto turco, de nome Mehte, que nota o seu fascínio ou interesse fora do comum, e o convida para um copo de raki e uma longa conversa. Começa assim o relato histórico mas quase desconhecido da família de Abraham-Salomon Camondo, desde a sua chegada àquela cidade imperial na século XVIII, entre o autor e o turco que se torna na fonte e voz principal de toda a narrativa deste romance, e que nos vai proporcionando a contextualização política de várias eras. O simbolismo de toda a trama não nos poderá ser alheio – geografia e vidas tornando-se metáforas do desencontro entre sociedades, civilizações e poderes que desde de sempre separam o Ocidente europeu do outro lado do seu ser, que serão o Próximo e o Médio Oriente. Que a família Camondo se torna distinta na Constantinopla agora muçulmana mas de um passado de grandeza universal por entre um desacordo perpétuo entre povos que teriam tudo para se aproximarem, é, uma vez mais, essa metáfora dominante de A Escada De Istambul. Os Camondo eram uma família de banqueiros internacionais, possivelmente desde os dias da Inquisição. Será precisamente a partir dessa posição de todo estereótipada entre nós – o judeu agiota, errante e desleal – e que tem levado à perseguição implacável em praticamente todos os países e outras culturas e religiões do mundo até à maior tentativa de genocídio da história humana, que a narrativa de Tiago Salazar desconstrói a falsidade tão simples como mortífera sobre e para o povo judeu, particularmente na Europa e arredores mais próximos, essa mesma Europa que hoje se vê na obrigação de receber outros povos também originários das mesmas áreas, essa mesma Europa em que os próprios judeus se sentem de novo ameaçados. No entanto, os Camondo foram, em primeiro lugar, fundadores de escolas ecuménicas, financiadores de imperadores e empresários, protectores e mecenas das artes, desde o velho Império Otomano aos impressionistas de Paris do fim do século XIX e à modernidade artística em geral das décadas seguintes.

Todas as acções, todas as práticas ora quotidianas ora visionários de um outro futuro para todos, toda a filosofia de vida desta família judaica desmente a grande mentira que os assombrou desde as suas origens até aos nossos dias. Será importante realçar que não se trata de romanticizar um povo perseguido, reforçar ou sugerir inferioridade ou superioridade a outros, mas simplesmente “ouvir” a história contada não por um ocidental, não por um judeu, mas sim pelo narrador principal, que assumimos ser de grande formação científica e humanística – e muçulmano. Na narrativa de Mehte, em que a “realidade” histórica e necessariamente reinventada se alia à imaginação pura, não deduzimos qualquer intenção de branqueamento ou, repita-se, romanticização dos perseguidos, mas sim uma outra versão em volta de questões maiores de toda a nossa civilização, reduzidas ao exemplo de uma distinta família rica e generosa, mas para quem a História não deixava que um chão se tornasse pátria, que uma língua os ligasse a uma tradição, que uma religião fosse vista como uma entre outras, tentando chegar a um Deus comum. Creio que estamos perante uma outra subversão do orientalismo, a visão perpetrada por ocidentais sobre povos da mesma região ou do Outro em geral, que estruturou toda a obra teórica do palestiniano Edward Said, e que foi muito recentemente retrabalhada no grande romance Bússola, do francês Mathias Enard. Nesse sentido, A Escada De Istambul ficará para nós como uma das poucas obras que, sem nunca o insinuar, terá como um dos seus referentes principais o nosso próprio passado de perseguição e violência pouco abordada nos compêndios do ensino nacional a todos os níveis, esse que levou até há décadas ao esconderijo de comunidades de origem judaica no nosso território nacional. De resto, serão por certo as suas linguagens e estruturas narrativas, que combinam vários tempos histórico-políticos e culturas ditas nacionais, que suponho interessar aos seus leitores, para além naturalmente das representações dos personagens principais, do seu quotidiano e existência visionária quanto a um outro futuro para si e para nós todos.

Um dos grandes prazeres que estão de regresso à leitura de muitos dos nossos escritores contemporâneos é que os jogos linguísticos ou de linguagens ofuscadoras já não passam por ser marcas únicas da uma grande arte, essa que era destinada não se sabe bem a quem. Poderá ser que a ausência de sentido ou filosofia de vida foi um dos grandes temas da modernidade literária. Outros dizem que não, que foi a obsessão de um regresso simbólico ou real a casa que mais comoveu um James Joyce ou um William Faulkner. Não são de leitura fácil, mas tinham e têm algo a dizer. Seja como for, este regresso pós-modernista a certo revisionismo histórico pelo lado positivo, pelo lado da bondade humana e das luzes na escuridão, é muito bem-vindo. O outro lado têm vozes que chegue – e pouca ou nenhuma beleza.

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Tiago Salazar, A Escada De Istambul, Lisboa, Oficina do Livro/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 26 de Dezembro, de 2016.

Retratos açorianos

brisas

Suporte precioso onde a Vida se instala,/desdobrando-se em tons e sons num/cântico de Primavera, onde nascem e vivem Poetas.

Ana Franco, Brisas

Vamberto Freitas

Vai aí na integra o poema de abertura, significantemente intitulado “Ónix”, desta singular viagem pela terra e pelo mar dos Açores, onde a bondade da sua natureza se alia à indelével memória da sua autora no seu regresso à natureza, aos amigos e a outras pessoas que lhe deram sentido à vida e lhe moldaram a sua visão a partir de mundos muito mais vastos e humanamente complexos do que as pequenas ilhas do nosso arquipélago. Ana Franco reside desde há muito em Lisboa, e foi no continente que ela criou e desenvolveu toda uma carreira no ensino e nas artes plásticas, particularmente na sua colaboração ou protagonismo em exposições de grande alcance e originalidade, como foi o caso que ela nos relembra quando o escritor Alçada Baptista a chamou a participar no programa “Nós e os Laços”, e em que ela deu a sua “visão sobre a importância da Arte na Vida Quotidiana portuguesa”. Não me espanta o romantismo implícito nestes poemas de Brisas, e muito menos o trabalhar a memória através de palavras semanticamente carregadas ante a natureza que rodeou a sua infância na ilha, e particularmente ante figuras da família ou amigas que também lhe moldaram o seu modo de ser e estar nas suas vivências em espaços metropolitanos bem mais vastos e humanamente muito mais complexos do que uma pequena sociedade onde escorre sangue comum nas veias de quase todos, onde se nasce e morre ao lado dos que connosco partilham uma rua ou bairro, todo um destino. Estes poemas da nossa autora tardaram, mas a vida comanda as nossas vontades. Chegamos todos a uma idade em que vivemos as mais inesperadas circunstâncias – a mais forte das quais está expressa num belo poema que prefiro não ler outra vez ou citar pela proximidade pessoalíssima em que esses versos me colocam – e que tornam inadiáveis a palavra que, a um só tempo, expressa boa parte da vida interior, e pode ser interpretada também como uma mão estendida a todos os outros que a encontram nas suas páginas. Antes de mais, quero reafirmar o que sempre nos foi evidente na nossa modernidade, quer a modernidade da vida, quer na literatura – o tema todo poderoso foi sempre o regresso a casa, real ou metafórico, esta necessidade de nunca decepar as nossas raízes, de nunca deixarmos de cultivar os nossos jardins. Um crítico americano lembrava-nos ainda há poucos dias que James Joyce abandonou Dublin para depois passar a vida a revive-la e a transfigurá-la na sua obra; William Faulkner nunca quis sair de casa, e fez de um pequeno espaço um universo inteiro onde a condição humana é representada universalmente, em todo o seu esplendor e miséria; entre nós, Vitorino Nemésio faria o mesmo a partir do continente, em praticamente toda a sua obra e nos seus frequentes regressos à Praia da Vitória. Os escritores da minha geração seguiram-lhe os passos, mesmo que alguns deles o neguem por razões que Freud já conhecia muito bem. Redefiniram, estes, a terra e o seu tempo, por vezes obsessivamente. João de Melo mitificou a açorianidade adentro da sua própria modernidade literária, e Emanuel Félix na poesia carregou-a ainda mais de solidão e poiso dos vencidos inconformados.

Nesta obra de Ana Franco temos palavras e expressões recorrentes – que António Rego, prefaciador destas páginas, também assinalou no seu texto – que anunciam ou denotam de imediato a sua temática poética, uma sequência que mais parece uma exposição de quadros ou uma sinfonia da terra atlântica: basalto, paleta variada, água, orvalho, arte e artistas, música, silêncio. Toda a sua poesia parece essa tela que tem como centro e margens a própria ilha envolta num levíssimo toque sensual que o seu orvalho refresca e como que cristaliza nas folhas das árvores e nas pétalas das flores, as formas, as cores, os cheiros, a sombra da ilha-mulher perfilada nesta que é a sua pintura sublime. Quase vemos em cada verso os próprios movimentos dos dedos da artista na orientação dos pincéis, transmitindo-nos o canto dos pássaros e os sons das suas linguagens enquanto nos pisca o olho para atentarmos nos seus constantes estados de alma, que oscilam entre a tristeza de grandes perdas humanas e a alegria de pertencer a uma pequena terra sempre presente no mosaico das suas recordações, na saudade ora transfigurada num sorriso ora numa lágrima e no choro de quem sabe que estamos numa viagem cujo regresso só poderá acontecer através da arte, que nos sobrevive e para sempre testemunha o termos sido, simplesmente. Um primeiro livro raramente é um primeiro livro, quando o escritor ou poeta vai escrevendo e arrumando essas páginas em gavetas, tira e recompõe, elimina e adiciona. Então, irrompe a palavra/que jorra dentro de mim/amarfanhada pelo tempo/que não lhe pude dar, escreve em “Dêem-me Natureza, Silêncio”. Brisas contém versos que datam dos anos 90 e chegam até aos nossos dias. Publicar um livro de poemas será sempre essa vontade de partilha, uma vez mais, a oferenda de quem não está nem quer estar só. Os Açores poderão sofrer de carências várias que provêm das suas circunstâncias históricas e da geografia acidental que nasceu do fogo repartida entre si, mas desde os seus primeiros dias foi uma terra contada pelos seus poetas, representada pelos seus artistas que nunca deixaram de lhe ser fiéis, a distância agudizando ainda mais a necessidade de a viver e reviver. Como diria um dia o florentino Pedro da Silveira, poucas são as terras de dimensões semelhantes que têm sabido insistir na sua presença e na universalidade da condição que nos foi dado viver, e que Raul Brandão chamou de “solidão pavorosa” em As Ilhas Desconhecidas. Chegamos à contemporaneidade não como meros súbditos de certos poderes, mas sim como sujeitos e construtores da sua multissecular sociedade. De “Auto-Retrato”: se eu/fizesse/um auto-retrato/uma gota/de orvalho/seria./Porque nada/ da Vida/da natureza/e da Arte/tingir queria. Falo aqui ainda numa sensualidade que tem a ver com o prazer que adivinhamos no próprio olhar lento de escrever, ou nas palavras de uma voz serena mas firme, um gesto de sedução ou de comovida sensação ao transfigurar o que a poeta ama na vida que lhe deram e dão os que a acompanham nessa tal viagem de perpétua descoberta e sentido de pertença, antes deste chamamento das suas origens nas ilhas açorianas. Na verdade, Brisas retoma e recupera, num tempo de cinismo e medos de toda ordem, os Açores cuja beleza natural se contrapõe à sua História menos feliz e segura, essa geografia de tremores de terra e mar de chumbo por entre o mais azul dos horizontes e os sonhos das nossas navegações rumo ao outro lado.

Nem digo por palavras minhas – escreve António Rego no prefácio – o que contém este livro. Roubo palavras soltas que se espraiam por estas páginas. Ónix, Açores-contas enfiadas pelo mar dentro. Nascentes límpidas, lava que esculpiu o mar, o silêncio, as neblinas, a brisa e as brisas, o açoriano irrepetível que vagueia pelo mar ao sabor do vento. O mar – a grande estrada por vezes de crinas brancas, o basalto, rocha forte, filha das forças da natureza. A água respiração da terra, a cascata que não se sabe se canta ou reza. E o orvalho, íris da natureza que é para a terra o que as estrelas são para o céu. E as árvores que falam e as hortênsias que preferem o silêncio”.

Brisas é uma esplêndida litania à natureza dos Açores, e, nas suas últimas páginas, uma homenagem a algumas das figuras que entraram e ficaram na vida da poeta, uns família, outros reconhecidos pela sua actividade pública ou ligada aos ritos e à religiosidade mais comoventes do povo açoriano. Estes são os seus poemas de amor e gratidão a um destino em que a dor afina, ainda mais, o amor, parafraseando a própria autora. Quando a poeta escreve Dentro de Nós/há sempre Primavera/na idade/no sorriso/tal como nas estações, lembro-me de como Herman Melville escreveu “Novembro no coração” para metaforizar o estado de espírito do seu personagem maior, Ismael, antes de se fazer ao mar e às lides de homens bravos. Não sei se haverá muitas outras gentes que vivem em atenção permanente aos humores do tempo como nós açorianos, atentos a cada mudança da luz no céu ou da cor no mar. Quedamo-nos introspectivos e de olhar no longínquo para depois explodirmos ao som de música e foguetes (como alguém também disse sobre outra terra) quando o sol brilha e as noites ficam banhadas no luar de Agosto. A poesia celebratória da terra e do seu povo já é pouco comum entre nós, mas creio que palavras como as de Ana Franco vêm relembrar-nos de como olhar em nosso redor e voltar a apreciar a beleza de cada recanto, o contraste absoluto com a dita civilização de betão e muito rancor citadino. Diria ainda que parte da nossa civilidade requer de quando em quando essa apreciação da dádiva que é este Rosário de contas/pelo mar estendido, nos versos de abertura do poema precisamente intitulado “Açores”.

De resto, falta dizer que a arte, literária ou outra, não recupera as nossas maiores perdas na vida, que é sempre a morte ou o afastamento dos que nos amam e amamos. No entanto, a literatura é esse outro acto contra o esquecimento, é, repita-se, a memória transfigurada de quem fomos e somos, de como vivemos e sobrevivemos em comunidade num determinado tempo e lugar, é a narrativa que se transforma no elo ou no memorial mais poderoso das gerações que se seguem e cuja identidade os aproxima irremediavelmente de nós. É essa, creio, a mensagem maior de Brisas, a palavra poética como testemunho de um destino comum, que é o da autora e o nosso.

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Ana Franco, Brisas, Cascais, Princípia, Editora, Lda., 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, de 9 de Dezembro de 2016.

A arte do riso e a realidade da arte

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O homem que eu amava deixou-me por outra e eu entrei em desespero e matei-o. Provavelmente enlouqueci. Mas talvez não seja eu realmente culpada.

Teolinda Gersão, Prantos, amores e outros desvarios

Vamberto Freitas

Já sabemos que um conto tem de surpreender o seu leitor de imediato, e o seu fim ser caracterizado por uma radical viragem na narrativa. Tudo o que esperávamos não acontece, e o que nos parece ou nos disseram ser a “realidade” distorce-se numa subversão textual que, assim mesmo, não pode perder a plausibilidade. Dir-se-ia que isto é verdade sobre qualquer peça de ficção, mas o conto por regra constitui uma fatia-de-vida que só vale a pena ser relatada como que numa parábola, não necessariamente para ensinamento seja de quem for, mas para nos colocar do outro lado do espelho de onde vemos e nos vemos ora em mundos que não pensávamos comuns, ou sequer reconhecíveis por outros, ora aonde, afinal, vivemos a felicidade do inatingível ou o pesadelo de todos os nossos medos, ou ainda a estranheza do que nos é meramente diferente mas sem ameaças ou prazeres de qualquer espécie. Por outras palavras, o conto deverá retratar e devolver a nossa própria humanidade guiada, sempre, pela complexidade da consciência humana, que nos leva e traz imparavelmente em viagens imaginárias de dentro para fora e de fora para dentro. Somos nós que reinventamos a realidade, e é, simultaneamente, essa mesma realidade que nos forma e deforma. Para dar aqui só um exemplo extremo de uma outra literatura, diremos que do fantástico aterrorizador de um mestre como Edgar Allan Poe ao hiper-realismo dito “sujo” de um Raymond Carver cabem todas as nossas fantasias e medos, todos os nossos prazeres e desgostos da mais afastada modernidade até aos nossos dias quase inomináveis a partir de ideologias reinantes, mundividências ou representações artísticas nas letras e nas outras artes. Queria apenas colocar esta obra de Teolinda Gersão num outro contexto, que não o habitual realismo, por mais brilhante que seja, da nossa própria tradição. A autora de Prantos, amores e outros desvarios não só parte quase sempre do quotidiano, como creio alguém já ter observado, para o reinventar na sua arte, como nesse processo cria os mais inesperados universos paralelos, desconstruindo não só esses seus dias presumivelmente vividos e lembrados, como desconstrói implacavelmente outros mundos contidos em literaturas que a influenciaram, ou pelo menos de um modo ou outro entraram nos seus múltiplos imaginários literários. “Alice in Thunderland”, o último conto deste livro, é uma revisitação nada inocente e de todo surpreendente ao famoso romance Alice in Wonderland/Alice no País das Maravilhas, publicado em 1885 sob o pseudónimo de Lewis Carrol, e que contém em si toda a temática que tende ser recorrente em muita da sua obra – a génese da própria literatura, e depois a realidade que a provocou ou inspirou nos seus diversos contextos, e vice-versa. Todos estes contos são, para citar aqui o título de uma outra autora que me é muito querida, um “sorriso por dentro da noite”. Aliás, desde a primeira à última linha desta escrita, é o humor que mais sobressai em cada personagem ou situação defrontada, nunca retirando a seriedade da sua temática, desde o amor e desamor à injustiça das e nas nossas vidas, como em “O meu semelhante” e “Décimo mandamento”, até à natureza da mentira como verdade, que é naturalmente a essência de toda a grande literatura, a vida escondida no sonho, ou o pesadelo do dia-a-dia disfarçado no sentido de missão e obrigação perante os outros, como em “Vizinhas”.

A escrita de Teolinda Gersão traz luz à nossa escuridão, mesmo que a loucura espreite a cada momento. O primeiro conto desta colectânea, “Pranto e riso da noiva assassina” é uma magnífica tirada a uma condição universal que é o amor entre dois seres humanos, seguida pela humilhação da rejeição, a raiva íntima sentida num momento de uma vida tornada para sempre numa comédia posterior, o que mais nos move e comove enterrado inevitavelmente na sucessão de relacionamentos abertos ou escondidos, ou na aceitação da solidão e saudade. A morte de que aqui se fala “acontece” com um realismo quase assustador, mas apenas num estado onírico. Cabe à literatura dar sentido e reorganizar as verdades e falsidades das nossas vidas, desfazer o mistério das coisas perante coincidências sem qualquer sentido ou origem deliberada – os “desvarios” que todos vivemos uma vez ou outra, com ou sem consequências maiores. Por mais individualistas, ou mesmo narcisistas que sejam estes personagens masculinos ou femininos (a autora dá voz a narradoras e a narradores), a grande sociedade que os rodeia está sempre presente, sem nunca se pronunciar certas palavras-chavões que julgam ou sentenciam a nossa condição colectiva, está reflectida irremediavelmente nos valores que cada um segue, profere ou justifica o que faz ou deixa de fazer. Mesmo na clausura de um prédio citadino, aqueles que o “homem subterrâneo” de Dostoievski rejeitava como sendo parte de um outro inferno da modernidade, residem as múltiplas metáforas da condição humana que nos é dado viver e testemunhar, palavras e acções uma clara reprodução e fingimento do que vai e predomina no lado de fora da porta. Desde uma empregada de limpeza a um banqueiro demasiado reconhecível na nossa actualidade, estão lado a lado a consciência magoada de quem virou as costas ao sofrimento momentâneo de outro com a crueldade da hipocrisia beatificada da chamada sociedade aberta e compassiva. Pode a autora extrair a mais bela poesia do buraco negro que também envolve e afoga a nossa existência, mas nunca o esconde. Poderá ser que só a ficção fala a verdade, como ainda há dias nos relembrava a escritora Anna Solomon em “Writer, Writer Pants on Fire”, num mini-ensaio de The New York Times: “As mentiras da ficção – escrevia ela – são mais verdadeiras do que a própria verdade”. Não vejo melhor descrição – ‘Escritora, Escritora, Calças a Arder’ – desta e de outras obras de Teolinda Gersão. A quase indescritível confusão e insegurança das nossas vidas nos tempos presentes e escuros, parafraseando uma outra grande autora do século passado, tem levado a um certo fascínio de escritores, portugueses e estrangeiros, pelas artes e estudos clássicos de outros séculos, como que numa tentativa de melhor se perceber as origens da tragédia moderna. Ler estes contos da nossa urbanidade é como olharmos solitariamente pela janela, vendo o que vai na rua – poderemos estar sós, mas fazemos parte de um todo, somos apenas mais uma peça do mosaico, indesligável, por mais que queiram certos existencialistas, da sorte de todos os outros.

Viu-se no brilhante papel de benemérito – eis aqui o pensamento do banqueiro em ‘Décimo Mandamento’, e que a caminho da igreja que frequenta assiduamente topa um mendigo cheio de fome, provocando-lhe pensamentos que não só se assemelham a muito do que ainda se pensa e diz por palavras variadas e bem mais estudadas, como engloba boa parte da história europeia recente – a assinar um compromisso de serviços gratuitos aos mendigos: distribuição ilimitada de pão, vinho e carne, tratamento nas clínicas geridas pelo Banco, garantia de todos os encargos com a sua cremação ou enterro… A abundância de comida pouco variada mantê-los-ia fartos e gordos, mas não saudáveis, por um tempo relativamente curto. E, vivos ou mortos, os seus corpos tornavam-se um manancial de lucro, desde recolha de sangue e venda de órgãos, campo livre para testar novas substâncias, para já não falar do que, como a gordura, poderia ser aproveitado no campo da cosmética. Bastava saber como fazer as coisas, mas nisso ele era perito e tinha uma enorme rede a colaborar com ele”.

Aqui como noutros contos, Prantos, amores e outros desvarios é um diálogo com alguma da mais duradoura literatura satírica e modernista a partir de Jonathan Swift, como se vê na citação anterior, a talvez Aldous Huxley e George Orwell, consciente ou mesmo que apenas sub-conscientemente. O último conto, já referido, “Alice in Thunderland”, significativamente o mais longo desta colectânea, é uma peça antológica, na sua forma e no seu tema, na sua perfeição contextual com que escava a possível génese não só de Alice no País das Maravilhas, mas da literatura em geral e pelos motivos mais diversos, quer pessoais, religiosos, ideológicos ou meramente artísticos. A ficção toda inocente do livro que se tornou um clássico no mundo inteiro, imortalizado ainda mais pelos estúdios da Disney, poderá ter a sua génese no que hoje é considerado o mais sujo desejo, a pedofilia, o professor de nome Charles Lutwidge Dodgson escondendo numa história sem sentido ou nexo a voracidade com que fotografava e se passeava com raparigas e rapazes. O choque literário deste texto não deveria surpreender ninguém para além de ser uma astuta narrativa, só a capacidade interpretativa da sua narradora. Fez-me lembrar de imediato outra criação desde há muito icónica e lendária na cultura universal do século passado, e igualmente até aos nossos dias – a origem da balada “Over the Rainbow”. Foi escrita pelo judeu-americano nova-iorquino, e comunista pró-soviético Edgar Ypsel Harburg – que acabaria na lista negra de Hollywood durante a perseguição anti-esquerda dos anos 50 – para o filme Wizard of Oz, em 1939, mas a sua mensagem era bem outra, que não a canção de embalar meninos e meninas, mas sim o equivalente ideológico, digamos, dos nossos “amanhãs que cantam”, tendo o letrista escondido nas suas palavras a implícita crítica ideológica e política àquele momento histórico do seu país e do mundo, os perpétuos desvarios do nosso destino.

Prantos, amores e outros desvarios dá continuidade a uma extensa obra literária da nossa autora. “O que a Teolinda faz é escrever a vida”, afirmou noutra parte e vem reproduzido na contracapa deste livro a professora e ensaísta Maria Alzira Seixo. São os nossos irremediáveis estados de alma – com princípio, meio e fim, mesmo que das realidades textuais não o reconheçamos. Somos nós do outro lado do espelho a espreitar a nossa própria humanidade. Aliás, os três substantivos do título destes contos significam talvez na totalidade toda a condição humana, no imaginário destes personagens e na realidade das nossas próprias vidas.

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Teolinda Gersão, Prantos, amores e outros desvarios, Lisboa, Porto Editora, 2016. A informação sobre o autor de “Over the Rainbow” foi tirado de American Dreamers: How The Left Changed A Nation, de Michael Kazin.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 2 de Dezembro, 2016.