Da crónica como poesia, da poesia como memória

Por causa de um texto que me foi pedido sobre Ponta Delgada, dou passos amargos no chão da cidade. Como se da alma caíssem lágrimas feridas e o caminho fosse, apenas, o recorte de uma lembrança.

Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas

Vamberto Freitas

Primeira afirmação: escrevo sobre parte da obra de Emanuel Jorge Botelho, agora a 2ª edição do em dois volumes do que ele decide chamar de “crónicas”, desde os anos 80, poesia e escrita-outra. Se digo “escrita-outra” é porque a classificação de formas e géneros que não consigo distinguir. Os versos da sua dita prosa criativa, formalmente ambígua (no melhor sentido da palavra), são, uma vez mais, quase inclassificáveis, como suponho ser toda a grande literatura moderna, ou mesmo de todos os tempos em que a palavra foi grafada de vários modos. Emanuel Jorge Botelho não é um escritor qualquer, é dos melhores manipuladores da nossa língua em qualquer parte a que já nos habituamos a chamar de lusofonia. Que o faz a partir de uma pequena ilha açoriana, tanto melhor, só demonstra que a grande literatura não tem geografia nem circunstâncias especiais. Sai do artista a palavra significante em qualquer parte, com ou sem divulgação especial, com ou sem a palavra supostamente decisiva dos “críticos” ou “ensaístas, institucionais ou independentes. Raramente a grande escrita é reconhecida no seu próprio tempo, e muito menos ainda no seu próprio lugar ou país. James Joyce sabia, suponho, tal como William Faulkner o sabia, entre tantos outros e em toda a parte. Faz parte da ironia da própria arte, faz parte da nossa desatenção e tendência para as modas do momento ou, ainda pior, para atenção que prestamos às máquinas publicitárias, especialmente da pós-modernidade, nas grandes cidades onde se localizam as editoras e periódicos de voz supostamente de autoridade inquestionável. As ironias que marcam a obra do micaelense Emanuel Jorge Botelho são muitas, e todas a seu favor. Dos mais “açorianos” de todos os escritores açorianos é ele que nunca escreve certas palavras que delimitam a sua geografia e, no entanto, é ele que mais intensamente a vive, tornando a ilha o mundo inteiro, e o mundo inteiro a sua ilha. Rua a rua, prédio a prédio, personagem a personagem, vida real e a vida imaginada, passado nunca esquecido, perda a perda, quer de entes queridos amigos chegados ou mentores escolares, a sua poesia e “prosa” é uma de memória indelével e de alma aberta, que nenhum leitor poderá deixar de se rever, de se repensar, de se reinventar mesmo, nos seus recantos perdidos e reencontrados sob outras formas e modos de vida. Dito de outra maneira, o mais açoriano de todos os escritores açorianos poderá só ter Vitorino Nemésio como figura comparável, na poesia ou no acto artisticamente universal. Só com uma grande diferença: Nemésio vivia a saudade ao longe e um tanto sentimental. Emanuel Jorge Botelho vive a saudade no meio da sua cidade de nascença e vivência quotidiana. Desde sempre, e até hoje. De Nemésio temos o cheiro a mero sentimentalismo à distância. A do autor aqui em foco, Emanuel Jorge Botelho, vive a sua ilha diariamente nas ruas que foram suas, e já não são. A “verdade” da palavra faz toda a diferença. A arte literária não tem nada de ser “honesta”. A verdade da palavra não tem nada de corresponder ao momento da sua criação. Só tem de ser autêntica, a “autenticidade” de que nos falava o nova-iorquino Lionel Trilling. É o que temos nesta incomparável obra do autor de 30 Crónicas (em dois volumes), e de inúmeros livros de poesia pura.

Pela enésima vez peço ajuda a Edmund Wilson numa tentativa de entrar dentro desta fabulosa escrita de Emanuel Jorge Botelho. Wilson acreditava (erradamente, como o tempo veio a comprovar) que a prosa modernista acabaria por absorver a poesia até então só entendida em forma de versos. Só que não errou na recorrência mais diversa, entre os melhores autores do seu e do nosso tempo, à poetização da palavra em prosa. Emanuel poderá chamar o que quiser, em termos de género, à literatura que produz desde há muito, mas estas 30 Crónicas são algo muito mais do que isso. Foram publicadas originalmente como tal no extinto quinzenário Terra Nostra, e já então por esse meio eu lia-o com outro espírito e interpretação. São como que poemas em verso livre, todos eles com um determinado fio condutor, e um tom elegíaco a gente amada desaparecida, aos lugares da sua infância, ao sentido mais profundo de pertença a uma pequena cidade açoriana que virava um continente imenso de vida e afazeres, e todos os continentes se tornavam, parafraseando um filósofo de cá, a “casa do seu ser”. Nada e ninguém lhe escapava na felicidade ou na tristeza do momento ou do que ficou para sempre no seu sangue, no seu modo de ser e estar, quer no passado quer nos dias presentes. São as “crónicas” das suas perdas, de um mundo sem retorno, mas que nele vive o seu olhar sobre as coisas e as gentes. Poderá falar de uma vizinha costureira, simplesmente, mas torna-a uma personagem inesquecível, busca e encontra a sua humanidade, com a qual o leitor se identifica sem complexos nem sentimentos absurdos do riso sem razão ou da lágrima sentimental. Ler a descrição de uma rua que já nada tem do seu tempo de infância e juventude, é como passearmo-nos numa cidade que nunca conhecemos, mas que se torna parte de nós. Essa Ponta Delgada de outrora não era apenas uma pátria que nos dá vida – é todo um universo que desperta a nossa imaginação e nos dá um outro sentido de saudade, em que o remorso das perdas convive com a alegria dos que nos rodeavam e protegiam, faziam de nós algo mais do que seres isolados, irrequietos, alienados, marcados por ódios e invejas provindas de nunca vermos o outro como nosso par ou vizinho e que comunga da nossa sorte na vida. A palavra não dita tem tanto poder significante como a que ele escreve, inserida numa prosa poética tão curta como vasta. Numa entrevista que lhe fiz nos idos de 1993, dizia-me algo de semelhante, e a que recorro agora.

“O intimismo é uma conquista solitária ou, pelo contrário, uma síntese sitiada, da solidariedade?

Quando pouso (ouso pousar…) os punhos no papel, sei que os tenho fechados, e que estou sozinho.

Mas desconheço por completo, se estarei só”.

Esse “intimismo” de que nos fala está sempre guardado nos seres e nos lugares que lhe deram vida, e sobretudo significado de vida, nos seus dias perdidos. Mantém uma memória viva das suas irremediáveis perdas, mas que continuam presentes no seu “silêncio”. Algumas das páginas mais contundentes não só se dirigem à família que o rodeia no seu quotidiano, mulher, filhos e até os bichos que se passeiam nos quartos da sua casa, como muito especialmente à recordação do olhar do seu falecido pai. Recria nestas páginas o seu companheirismo em cenas inesquecíveis. Ir à praia com ele diariamente pelas seis e pouco da tarde, e sentar-se na areia a vê-lo dar os mergulhos da saúde, e mais tarde lembrar que a sua carreira exemplar de carteiro seria menosprezada por uma comissão de gente que entendeu reduzir-lhe a quantia da reforma a que tinha direito pela sua dedicação e profissionalismo. Di-lo, como sempre, em pouquíssimas palavras, mas abre-nos o retrato de todo um país doente e injusto desde sempre. A primeira parte da sua dedicatória neste segundo volume das “crónicas” não deixa dúvidas a ninguém: “em memória de José Maria Botelho, o meu pai”. Para um poeta e prosador como Emanuel Jorge Botelho, que tem o mundo inteiro na mente e na alma, não deixa de ser irónico, ou então o mais honesto de todos os nossos escritores. Somos os nossos mais chegados antepassados, e a nossa terra o chão de todos os afectos e memórias, a terra que nos define e nos proporciona a nossa mais profunda identidade. Nenhum escritor será do mundo antes de ser da sua casa e do seu “território do coração”, como diria outro escritor numa outra língua.

Por fim, diga-se que os dois volumes sob o título de 30 Crónicas são ilustrados pelo não menos genial Urbano, cuja biografia e vida artística vêm anotadas nas últimas páginas. O melro preto pousado ou em voo está em perfeita sintonia com esta escrita da terra açoriana e do espaço sem fim com símbolos predominantes. Ler Emanuel Jorge Botelho e olhar a beleza desta edição é um reencontro com nós próprios, com tudo o que nos traz memória e vida vivida. É raro na nossa literatura encontrar tanta beleza e verdade.

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Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas (com ilustrações de Urbano), Ponta Delgada, Letras Lavadas/Artes e Letras, 2017.

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Crime e castigo dos inocentes durante a ditadura salazarista

O que Carlos Ildefonso Tomé não sabia era que esse mesmo exemplar do Diário de Lisboa iria ter importância decisiva no seu futuro.

Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por dizer que este é o primeiro livro de ficção de Carlos Tomé que leio, se bem que lia atentamente aqui há uns bons anos as suas crónicas na revista dominical do Açoriano Oriental, e já cultivava então a minha admiração pela sua prosa limpa e curta sem nunca defraudar os seus leitores quanto à relevância dos seus temas em foco. Autor sempre atento à História e ao seu próprio envolvimento na vida dos nossos tempos, este seu novo romance Um Perigoso Leitor De Jornais foi uma das melhores surpresas da literatura açoriana de temos recentes. Se digo literatura açoriana claro que também, como sempre, quero dizer literatura portuguesa, até porque o seu tema é a injustiça, arbitrariedade e o sofrimento tanto dos militantes como dos inocentes durante os piores anos do regime salazarista, nestas páginas todo ele situado na cidade de Ponta Delgada, e depois no Castelo de São Baptista em Angra do Heroísmo, em “celas” tão demoníacas como cruéis, denominadas de Poterna. O tempo ficcional desta narrativa política e ideológica vai de 1937 a 1940, mas quero realçar que se trata de uma obra literária que ultrapassa essas questões no retrato que nos devolve da nossa própria humanidade e desumanidade, particularmente na criação de alguns personagens inesquecíveis. Aliás, são poucos os escritores entre nós que conseguem fugir das ideias e focar-se no interiorismo dos seus seres inventados ou reinventados, como é definitivamente o caso de Um Perigoso Leitor De Jornais. A última nota deste romance, curta e escrita em itálico, não deixará dúvidas a ninguém. Trata-se de uma espécie de biografia romanceada, sem o sentimentalismo ou pregação de um neorrealismo que dominou a nossa literatura há umas poucas décadas. Na verdade, a trama política dá lugar aqui a descrições que por vezes parecem quadros das vidas naquela época, e de todos os estratos sociais, com o seu protagonista micaelense como excepção predominante, que vai permanecer como um vivo símbolo da pobreza, da seriedade, da aceitação do seu lugar na comunidade, mas sem que nada dessa realidade o proteja da perseguição cega de uma ditadura que actuava permanentemente na desconfiança e paranóia. É o perfeito contraponto – particularmente quando ainda alguns tentam afirmar a benevolência do regime em relação a outros do mesmo continente europeu e em vários países que nos levariam ao holocausto e a um inferno que queimou milhões de seres humanos.

Que houve aturada investigação histórica para este romance, não tenho qualquer dúvida, por melhor que seja o conhecimento do autor do passado da sua família e o seu instinto de jornalista-escritor. Do mesmo modo, as suas conotações ideológicas estão claríssimas para qualquer leitor, a defesa da liberdade está implícita no tratamento dos que o regime entendia como inimigos, ou meros colaboradores desses dissidentes, todos os que não alinhavam activamente com o chamado Estado Novo. Dito isto, tenho agora de afirmar que poucos escritores entre nós têm a capacidade de construir personagens e protagonistas tão inesquecíveis, pela capacidade do autor em fazer o que a crítica americana diz ser bringing out character, ou seja, deixar que entremos no seu interiorismo emocional ou em qualquer outro estado de ser e estar num dado momento do seu percurso de vida. Carlos Ildefonso Tomé é um humilde carteiro na cidade de Ponta Delgada, com nove filhos e uma esposa para sustentar dia-a-dia, criando juntamente com eles nos seus serões da noite açoriana daquele tempo pequenos soldados de chumbo para certos colecionadores. É leitor de jornais locais, e a dada altura topa que de quando em quando entrega o Diário de Lisboa, que chega sempre num nome que não corresponde ao habitante de certo endereço. Começa a questionar quem recebe o jornal, que sabe muito bem cujo verdadeiro nome difere do que vem na badana colocada em Lisboa, e ameaça deixar de entregar o jornal por pensar que se trata de uma ilegalidade que lhe pode trazer problemas com os seus superiores. Por outras palavras, Carlos Ildefonso Tomé não se envolve ou sequer discute política, é um cidadão que convive como pode e sabe numa sociedade amordaçada. Só que o habitante de nome falso não pode nem quer deixar de receber um outro jornal que vem escondido dentro do periódico permitido pelo governo de António Oliveira Salazar e a sua primeira polícia política, PVDE (antecedente da não menos tenebrosa PIDE), a que tinha olhos e ouvidos em todos os recantos do país, não fora o tempo da mais feroz guerra civil ali no outro lado da fronteira, e toda a Península Ibérica e as suas possessões ameaçadas pelo mais feroz dos exércitos sob a aliança do Eixo.

Dentro do jornal que o carteiro entrega vem escondido o Avante!, voz oficial, como todos sabemos, do Partido Comunista Português, e o verdadeiro nome do seu destinatário aqui em Ponta Delgada chama-se António Faria, jovem, discreto, e sem qualquer mandato para “recrutar” novos militantes. Tem de o confessar a Carlos Ildefonso Tomé, que se vê agora numa situação muito ambígua pelo respeito que parece cultivar pelo cidadão em causa. Em sucessivas conversas, o carteiro pede e aceita ler alguns números antigos da publicação comunista, o que lhe traz uma outra e radicalmente diferente versão da realidade, folhas que o expõem a uma retórica até então completamente desconhecida pela sua radicalidade oposicionista interna e pelos seus relatos de acontecimentos históricos na batalha entre espanhóis na defesa da república, que incluía comunistas pró-soviéticos, contra os fascistas liderados pelo General Francisco Franco. Após uma delação local, são inevitavelmente todos presos, uns enviados para Angra do Heroísmo, outros para o campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde, construído, relembra-nos aqui o narrador, segundo os que já existiam nos países esmagados pelo regime de Berlim. O dilema do carteiro Carlos Ildefonso Tomé fica redobrado, pois também desde há muito que recebe o Diário de Notícias, jornal histórico publicado em New Bedford e enviado por uma irmã sua lá residente. A prosa de Carlos Tomé é de uma clareza e linearidade exemplares, toda ela dividida em pequenos capítulos, que mais parecem contos autónomos mas interligados e levando o leitor à totalidade da história de ficção biográfica, deixando sempre que símbolos e metáforas despertem as mais variadas interpretações. Nem sequer alguns dos colaboradores do regime acreditavam na sua missão. A “vida em ilha”, como um dia me diria um alto dirigente político açoriano, requeria certo palavreado, e, quando necessário, boca calada perante a brutalidade oficializada, tal como em Peniche ou em Caxias, por exemplo.

“O polícia – diz a o narrador no momento da má sorte do carteiro – continuou a falar, sempre no mesmo tom de quem quase pede desculpa. Carlos é que deixou de o ouvir, atingindo a brutalidade pela certeza de que lhe estava a acontecer irremediável. Sentia-se desfalecer, as pernas mal aguentando o peso do corpo, e a cabeça parecia-lhe estar deslocada, pairando no meio da espécie de neblina que lhe invadira o campo de visão. Sabia estar na Rua do Lameiro, já terminando a distribuição daquele dia, e ainda lhe parecia ouvir o polícia com aquele ‘Boa tarde, senhor Tomé’ tão constrangido quanto anacrónico”.

Carlos Tomé é um dos escritores menos falados entre nós, por razões que nem eu sei explicar, e muito menos justificar. Sei que esta é a sua terceira obra de ficção, e uma delas foi mesmo estudada periodicamente na Universidade de Brown, nomeadamente o seu romance de “guerra” Morreremos Amanhã (2007). Tem ainda A Noite dos Prodígios e outras histórias (2002). Para além de jornalista aposentado e reconhecido por várias entidades, a sua vida profissional foi uma das mais distintas entre nós, tendo recebido a honra de Cidadão Honorário de Porto Alegre, Brasil, e a Medalha da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Muito do seu trabalho tem sido premiado aqui e ao longe. Falta-nos agora, falta-me a mim, pelo menos, ler o resto da sua obra, e sobretudo dar-lhe o lugar merecido ao lado dos nossos melhores escritores açorianos.

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Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2017.

 

 

 

De mim e do meu trabalho – II

True criticism recognizes itself as a mode of memoir… I believe there is no critical method except myself.

Harold Bloom, The Daemon Knows

Vamberto Freitas

 

 

Aqui está o borderCrossings: leituras transatlânticas IV. Segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados, no entanto, estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é a condição humana. Para mim, a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos. O experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica, e suspeita. Se não há nada dizer ou a representar, não haverá forma alguma que salve qualquer escrito. As palavras contam histórias, e essas histórias não perdem a sua complexificação quando escritas em linguagens claras, depuradas, e nas quais a metáfora e o símbolo universalizam, ou devem universalizar, o ser humano em qualquer geografia ou circunstância histórica. No centro da minha intervenção desde há muito que estão também as literaturas açoriana e luso-descendente, na América do Norte, ambas vindas ou intimamente associadas a duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, inclusive os chamados escritores canónicos bem mais conhecidos, mas não mais importantes para quem quer conhecer as suas próprias origens, a ancestralidade que nos colocou nos variados mundos do nosso destino, ou aos quais chegámos em busca de uma sobrevivência digna, ou vontade de ultrapassar os nossos próprios horizontes. Vitorino Nemésio, uma das nossas referências maiores, acertou por inteiro quando afirmou que “para nós a geografia vale tanto quanto a história”. Não conseguimos até hoje a projecção que desejamos, e porventura merecemos? As “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nessa suposta legitimação vinda de outros. Quem não conhece é que é ignorante, não os que sabem de si, e também dos outros. No mundo lusófono, os açorianos e os seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas ou do grande continente a oeste, que é a sua primeira pátria. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana,e a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

De resto, estarão aqui as minhas abordagens às mais variadas obras de ficção, poesia e ensaio que, em língua portuguesa, são essenciais a uma mais alargada contextualização das realidades que vivemos numa contemporaneidade já sem fronteiras limitativas para a nossa imaginação ou sentimento de pertença a espaços e a culturas que ainda há poucas décadas residiam só na nossa imaginação, por certo, mais míticas do que reais, como nos casos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil, que já recordei aqui nalguns textos referentes a obras de jovens escritores brasileiros. Vivemos desde sempre, e intensamente, a nossa história nacional, essa que esporadicamente foi decidida a partir das ilhas açorianas, e, por sua vez, cada decisão tomada em Lisboa sempre teve, tem e terá imediato impacto directo nas nossas vidas a meio atlântico. Somos parte integrante da Nação, mas, como açorianos, não pertencemos de todo ao seu imaginário. Porém, quanto a literatura e escritos-outros, o nosso contributo tem sido imenso – desde Antero de Quental e outras conhecidas figuras dos séculos XIX e XX, até a um rol cada vez mais conhecido de escritores e poetas nossos contemporâneos. Se entre eles encontrarem um ou outro livro de autores vindos de outras línguas, é porque falar de nós sem termos consciência do nosso lugar no resto do mundo seria, no mínimo, estranho. A verdade é que hoje o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países por todas as capitais, ou nos mais variados eventos literários e culturais, é quase, felizmente, um acontecimento diário.

Não me seria possível escrever sem me dirigir à literatura norte-americana, parte primeira da minha formação na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton. Presto aqui homenagem a dois dos meus grandes mestres que leccionaram na minha alma mater: William Koon, pela introdução, e depois estudo profundo, da literatura sulista, e não só, redefinindo o que é “regionalista” ou “nacional” numa cultura moderna e pluralista, como é a dos Estados Unidos; Michael Holland, um dos últimos new critics na academia americana nos primeiros anos da década de 70, formado que era em literatura europeia, dizendo-me repetidamente que quase toda a teoria da literatura que então despontava nos departamentos de línguas e literaturas por toda a parte era um waste of time/tempo perdido, e saber ler e interpretar qualquer texto, de qualquer género, requer apenas sensibilidade crítica e estética, procedendo ele depois à definição do que torna um texto uma peça de arte, ou outra coisa. Michael exagerava brilhantemente — achava que o close-reading, com a sua atenção ao tempo ficcional, ao tom da linguagem ou à sua ironia ou não, ao andamento rítmico da narrativa (leiam sempre em voz alta, quando vos for possível, aconselhava ainda ele, para não perderem a musicalidade bela de um bom texto), ao ponto de vista do narrador ou da narradora, a sua fiabilidade na história que nos conta, era a única chave essencial à desconstrução ou descodificação de um texto. Não havia muito mais a levar em conta – esqueçam a biografia de um autor, o texto ou valia por si, ou não valia nada, o nome do autor apenas um nome, absolutamente dispensável para além de o podermos identificar e arrumar na estante. De acordo com tudo – menos neste último ponto. Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo. Edmund Wilson, que dizia detestar a nova crítica, tornar-se-ia a minha referência inescapável quanto a biografismo e historicismo na percepção ou interpretação de uma peça literária. Um olhar de cada extremo para o meio da ponte, o equilíbrio possível, suspenso na dúvida ou na interrogação, que qualquer leitura aprofundada requer. Por outro lado, a literatura tem de ser algo mais do que “forma” ou mero acto “estético”.

Para mim não há beleza sem significado, não há beleza sem o olhar humano, sem a perspectiva de quem recebe palavras, imagens e sons. Creio que era Jorge de Sena quem dizia que uma foto espacial, sem qualquer indício da presença do humano, não lhe interessava minimamente. Poderá ser um modo discutível de colocar a questão, mas a verdade é que toda a nossa exploração do Universo parece ter esse o primeiro e último objectivo – encontrar sinais de vida, de qualquer vida, nessa distância galáctica. A literatura é esse registo de como vivemos e sobrevivemos, sobretudo em comunidade, parte de um todo simultaneamente como sujeitos activos e decisivos e como indivíduos cujas obrigações incluem decididamente a “obediência” a regras de convivência e justiça entre todos os que connosco partilham os nossos espaços, cada vez mais, como já referi, sem fronteiras de qualquer espécie. A crítica é também a memória de quem a escreve, o registo de como vemos e vivemos o nosso tempo transfigurado na literatura mais séria, numa tradução mais ou menos livre da epígrafe que aqui vai tirada de um texto de Harold Bloom. Toda a literatura é memória.

É isso a essência do que tento fazer nestas páginas semanalmente. A vida é curta e preenchida de mais para que eu gaste um segundo com livros sem qualidade estética ou relevância temática, ou simplesmente livros que não me dizem seja o que for adentro dos meus interesses ou preocupações sócio-culturais e políticas, o que, para mim, é o todo, ou o quase todo, de uma sociedade. Entretenha-se quem quiser com jogos de palavras vazias, com acrobacias formais tão ao gosto de certas teorias da literatura – e sabemos aonde nos levaram estas, dentro e fora dos seus contextos institucionais.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas IV, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

Parte deste texto serviu de prefácio ao meu volume BorderCrossings: leituras transatlânticas III, publicado em Março de 2016, e agora, em forma mais longa, a este IV volume do livro.

 

 

De Álamo Oliveira e da grande literatura

De caminho foi pensando na inutilidade do seu martírio intelectual. Afinal, havia o Camões que era o mestre da Língua, o Vicente dos autos e das farsas, o Eça da imoralidade romanesca, o Pessoa da arca mais milagrosa que a do ilusionista, o Nemésio da açorianidade.

Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite

 

Vamberto Freitas

Acaba se ser publicada a 2ª edição do romance Pátio D’Alfândega meia noite de Álamo Oliveira, pela Companhia das Ilhas, sobre a direcção de Carlos Alberto Machado, romance que tinha sido publicado em Lisboa pela editora Vega em 1992. A prosa deste autor açoriano oferece-nos grande brilhantismo ficcional e um certo historicismo, ora revisitado ora reinventado, de todo apto a refazer e a redizer “realidades” velhas de séculos. Desde há algum tempo está de volta em Portugal o romance dito de ideias, se é que alguma vez ele possa desaparecer. Toda a literatura, em graus variáveis, já se sabe, é esse interminável jogo entre facto e ficção. É também na habilidade artística de cada escritor que reside a diferença entre a escrita que perdura no tempo e a que não deveria nunca sequer ser lida – a diferença, nada menos, entre o saber mitificar a memória histórica e colectiva de um povo, criando o próprio escritor novos mitos e iniciando miticidades, assim como o mero estilismo na construção de frases antes ocas, frias e naturalmente vazias. Cada leitor terá a sua lista de livros a que nunca mais voltará, sabendo muito bem porquê. Este, estou em crer, não será um deles. Existe algo mais em Pátio D’Alfândega meia noite, e que, em ficções anteriores deste mesmo autor, havia sido só sugerido – a metaficção como tema inteiramente desenvolvido, e aqui servindo-se a várias vozes para se refazer ou, uma vez mais, redizer o passado, longínquo ou mais recente. Jericó é Angra do Heroísmo, todos saberão. No entanto, tudo o resto, contado e recontado pelos protagonistas Patachão e o Poeta Porreirinho, este que deixou um romance inédito e o outro que tenta interpretá-lo e editá-lo após a morte do seu amigo, é uma festa de história revisionista, de sismos e de ciúmes, de aristocratas e de plebeus, de xenofobia e de universalismo, de fantoches e fantasmas, de céus, de infernos e do pátio D’Alfândega – o lugar onde uma cidade e uma certa população se passeava e se dava conta, séculos fora, que no além existia um mundo e (insinua agora o escritor) a ilha que era e é apenas outro canto desse universo total.

Um livro saído de qualquer escritor com obra feita deve ser – devia ser sempre – um marco nesse original percurso artístico, e este, por certo, vai gozar desse estatuto. Todo este romance está estruturado à volta de um crime e da reconstrução de Jericó após um violento sismo. O romance dentro deste romance, o que foi deixado pelo Poeta Porreirinho, é aparentemente uma tentativa de se recontar como toda uma cidade, na fúria que é a sobrevivência de um povo ante violentos avisos da natureza atlântica e a genética ganância de quem em tudo manda e desmanda, se auto-convence da sua virtude e percebe a sua continuidade histórica. Das páginas legadas por esse autor desaparecido e das que o seu amigo vem tentando pôr em ordem para uma publicação, que nunca chega a acontecer, a realidade-realidade é apreendida só em pedaços desconexos e a-históricos enquanto suas excelências sabem muito bem que a realidade ficcional é a mais completa – e logo perigosa. Nestes múltiplos diálogos está a dissecação das tramas, obsessões e memória colectiva da dita comunidade. Um fantasma estrangeiro (um holandês que àqueles portos arribou como náufrago e que se apaixonaria pela cidade e por uma das suas freiras) desce à terra para com o Poeta Porreirinho ir comparando notas com o passado e presente. O resto, repita-se, é uma festa de humor, sarcasmo e das mais lapidares frases.

“Ele vi-a – diz o narrador acerca de Patachão, o protagonista que tenta desvendar o romance do Poeta Porreirinho, e neste caso específico, a mãe deste, que também figurava na prosa póstuma do seu amigo – como que emergindo em todos os tempos, heroína anti-convencional e resplandecente, desdenhando dos castelhanos nos fins dos séculos XVI, debochando, no século seguinte, com um pirata na rua Baixinha, comendo favas de molho d’unha, rifando numa tasca de Santo Espírito a sorte numa noite bem passada, enquanto um liberal se cura de sífilis na Misericórdia do hospital. Ela veio desses tempos esquisitos e mal sabidos vencendo todas as batalhas da vida, até que desaguou no banco verde do Pátio D’Alfândega, velha, gorda e suja, dormitando pachorrenta ao som da música do seu transistor. Sujidade, gordura e velhice é tudo quanto basta para ser pitoresco. Como glória última, lutou pela liberdade com valentia aristocrática, dando ao diabo a virgindade com um major sidonista. Tão afrontoso desfecho não ficaria impune numa cidade de igrejas e de casas senhoriais.”

A rebeldia feminina açoriana poderá acontecer – e acontece – de vários modos, mas tem sido na ficção que esse libertador acto se vem enquadrando em toda a história social muito mais viva do que geralmente temos consciência – desde Vitorino Nemésio e Mada lena Férin a Álamo Oliveira. Aliás, este vivo diálogo com a história, que é essencialmente Pátio D’Alfândega meia noite, vai ainda além disso e constantemente alude a outras figuras culturais nossas, a partir de Gaspar Frutuoso do século XVI às gerações dos nossos tempos. Romance também alegórico, interliga dias, semanas, meses, anos e séculos para nos brindar com o “facto” de que tudo e todos permanecem o mesmo, a história de Jericó simultaneamente uma de pasmaceira e vivacidade, de ladrões e de santos. Por outras palavras, a humanidade em toda a sua simplicidade e complexidade, vista por mais este contributo a um riquíssimo corpo literário português que se chama literatura açoriana.

Desta circularidade e desejo de fuga, características tão marcantes da escrita açoriana, o espírito do lugar é como que outra viva voz deste romance, tornando-o (o próprio lugar) protagonista, terra, mar e céu determinando comportamentos e pensamentos, também. Açorianidade e, ao mesmo tempo, historicismo e mítica lusitana. O homem das ilhas, enfim, ocupando inteiramente o seu espaço num universo que ele sabe estar longe, mas que é seu.

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Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Este texto foi retirado e reescrito de um ensaio meu publicado em 1992, e que agora é o prefácio desta edição do romance de Álamo Oliveira.

De uma América amedrontada e perigosa

 O grande ator Buzz Windrip falou apaixonadamente, sem nunca soar grotesco ou feroz. Não tinha gestos extravagantes; limitava-se, como Gene Debs muito tempo, a esticar um dedo indicador ossudo que parecia espetar-se em cada um dos ouvintes e cativar os seus corações.

Sinclair Lewis, Isso não pode acontecer aqui

Vamberto Freitas

Em 1935, a América sob a mais violenta depressão económica e social da sua história, prepara-se para reeleger Franklin D. Roosevelt, o que não acontece nesta ficção de It Can’t Happen Here/Isso não pode acontecer aqui, de Sinclair Lewis, que acaba de ser traduzido no nosso país. Lewis receberia Prémio Nobel em 1930 da literatura daquele país. Romance, este aqui em foco, esquecido do autor de Main Street e Babbitt? Nem tanto. De quando em quando, reproduzem-se publicamente aqui e ali um ou outro dito ou passo das suas páginas, numa tentativa de aviso, ou simplesmente para não se deixar esquecer a “outra” história, a que está fora dos compêndios escolares e universitários, escritos por académicos bem-pensantes ou aprisionados pela mítica da história nacional. Seja como for, a ideia deve ficar bem vincada aqui: até mesmo numa das mais bem-sucedidas e antigas democracias a preocupação com o impulso totalitário nunca está ausente, a conquista da liberdade deverá ser uma luta permanente. Os escritores, como “cronistas” das suas sociedades, têm recorrido desde sempre à ficção, à “mentira”, por assim dizer, para chegar às mais prováveis e profundas verdades. É neste contexto que deveremos ler ou reler Isso não pode acontecer aqui, e é sobretudo tendo em conta o contexto político destes dias por todos “inesperados” na América que o deveremos também ler como reflexão que vá além do ruído constante dos telejornais ou conversas afins nas televisões, que dominam o debate público e toda a propaganda dos que giram em volta do chamado arco do Poder naquela e em muitos outros países na Europa e no além-fronteiras. Está-se na América deste romance, agora tornado profético – como se estava na Europa nos anos entre as duas Grandes Guerras – em que os génios da economia e dos mercados mergulharam a sua sociedade na escuridão quase absoluta, levando milhões à miséria e ao desespero. Sinclair Lewis olhava em sua volta naquela época, e já escutava a retórica tanto dos opressores como dos oprimidos, estes últimos esfomeados num chão sem pão. Isso não pode acontecer aqui tem como protagonista Doremus Jessup, o proprietário e director de um pequeno jornal, Daily Informer, da também pequena vila Fort Beulah, no estado de Vermont. Neste lado do Atlântico já se vive e morre sob Hitler e Mussolini, e certas forças norte-americanas não desdenham da aparente “estabilidade”, do crescente “emprego”, da repressão ante os grupos historicamente suspeitos, aqui os judeus de então assim como todas as outras minorias étnicas e sociais, tal como os negros e outros de cor no outro do Atlântico.

Por detrás do novo “estado corporativo” americano, estão os banqueiros e industriais, que as forças extremistas, principalmente o próprio partido democrático de Roosevelt, dizem querer controlar e até castigar, mas as suas palavras encobrem o outro lado da mentira – serão eles os beneficiários da nova ordem, pois são eles que controlam o dinheiro nos “mercados”, e serão eles a distribui-lo entre os que vão, nas urnas, apoderar-se do Estado. Hitler havia sido eleito, e chegado ao poder com a cumplicidade da burguesia alemã. Na América, um Berzelius Windrip consegue ser eleito, e depressa põe em prática o que havia escondido nas palavras do seu livro intitulado Zero Hour, em que o seu “patriotismo” vinha do mesmo modo adornado pelas declarações avulsas, sem nexo, sem pensamento desenvolvido e ponderado, beatas e patrióticas tanto da elite tradicional como das massas mais ou menos indigentes e caídas. O palco está montado para que, através de um congresso submisso e de todo controlado, a ditadura corporativista seja fundada, por entre os vivas generalizados de uma população massacrada e de um poder financeiro-industrial sedento do seu lugar sem leis nem regras, tudo em nome da “prosperidade” e “liberdade”. Emprego em subida, crime limpado nas ruas pelas milícias denominadas Minute Men, uma polícia tipo Gestapo, aqui de nome Corpos numa abreviação de Estado Corporativista, encarrega-se da repressão e assassínio político e dos campos de concentração e de trabalhos forçados. O proposto muro separando os EUA e o México agora proposto representa o quê? O prefaciador de uma edição americana recente de Isso não pode acontecer aqui, Michael Meyer, afirma que o romance teve impacto imediato no seu tempo Não é de crer que tenha sido entre a maioria dos leitores mais eruditos ou bem informados, mas sim tão-só entre os que percebiam que a retórica oficial da intolerância saída de Washington tornava a situação no seu país explosiva e politicamente perigosa. Depois de um certo alheamento ideológico dos escritores modernistas dos fulgurantes anos 20 (o seu cansaço vinha também de muitos deles terem participado e sobrevivido magoados à Primeira Grande Guerra), apareciam agora alguns que já não podiam ignorar o que um sistema sem regulação ou qualquer moralidade provocava e criava.

A luta contra o jornalista Doremus Jessup e da resistência à grande Imprensa séria denunciam com igual fervor os comunistas e os fascistas, situam-se na tradição do liberalismo de esquerda americano, acreditando firmemente num individualismo e cidadania cívico-humanista, uma sociedade em que todos seriam iguais perante a lei, e não terá sido por mero capricho literário que Sinclair Lewis dá voz no seu romance a algumas mulheres que contrariavam então a acomodação das donas de casa, crentes e praticantes de uma religiosidade puritana, como dá voz a outros militantes e cidadãos então sob ataque e historicamente excluídos da vida pública. O romance termina sem resolução a votos para que os cidadãos seus apoiantes “fossem prósperos, nos bolsos e na mente”, e que só era brutal com certas situações demasiado parecidas com a presente situação, repita-se, vivida na América , mas a liderança da resistência parte para o Canadá, numa alusão deliberada à história de refúgio que aquele país tem oferecido aos seus vizinhos a sul (tal como hoje), desde a Revolução de Setecentos aos escravos libertados antes e durante a Guerra da Secessão e para lá mandados em comboios clandestinos patrocinados pelos Abolicionistas. Algumas décadas depois, o mesmo país receberia os resistentes exilados da guerra do Vietname.

“Dia após dia, exigia cada vez mais ‘sins’ de todos à sua volta, e sempre mais convincentes. Como podia prosseguir com a sua difícil missão se nunca o encorajavam, interrogava-se. Suspeitava que qualquer pessoa que não alimentasse o seu ego (desde Sarason ao estafeta interno) conspirava contra ele. Aumentava continuamente o número de guarda-costas e, com igual frequência, desconfiava dos seus guardas atuais e dispensava-os. Certa vez chegou mesmo a disparar sobre dois deles. Portanto, em todo o mundo não tinha nenhum companheiro, exceto o seu antigo assessor, Lee Sarason, e talvez Hector Macgoblin, com quem podia falar à vontade… Sentia-se desacompanhado quando queria livrar-se das obrigações do despotismo juntamente com os seus sapatos e o seu novo e belo casaco”.

Como apontam alguns críticos, este poderá não ser o melhor romance de Sinclair Lewis, em termos estritamente literários ou formais, mas é por certo um dos mais relevantes e proféticos para os nossos dias. Em certas páginas, quase esquecemos que estamos a ler uma ficção norte-americana, e pensamos de imediato na Europa de outros tempos, na retórica que, uma vez mais, inunda boa parte da política, e não só a “extremista” ou “populista”.

Isso não pode acontecer aqui relembra-nos que, sim, poderá acontecer outra vez, até porque, enquanto na América, só na ficção daquela época, mesmo enquanto a raiva aos afro-americanos e a outras minorias estava no auge, e acontecia na realidade entre nós, o passado e o presente estão frescos na nossa memória e nos nossos presentes medos. Não foi também sem mais nem menos que o filósofo holandês Rob Riemen publicou há uns poucos anos um livro assustadoramente intitulado O Eterno Retorno do Fascismo. Falava da Europa em que vivemos actualmente, e antes das vitórias da extrema direita nas recentes eleições europeias. A América, parece, vai agora por um caminho semelhante, o do medo e de certo autoritarismo manifestado em sucessivas “Ordens Executivas” saídas da Casa Branca. Restam os tribunais e um sistema sólido e consciente da sua própria história.

A literatura é acima de tudo memória. É fonte de prazer, mas também deverá ser fonte de informação e pensamento. Ninguém lê ou olha para um quadro sem pensar no contexto em que se integra, ou até na sociedade que o inspirou. Nesse sentido, a literatura deveria ter as suas consequências – não necessariamente como previsão do futuro, mas sim como aviso contra a repetição do passado.

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Sinclair Lewis, Isso não pode acontecer aqui (tradução de José Roberto) , Lisboa, D. Quixote. 2017. Esta recensão foi em parte retirada de uma outra que eu já tinha publicado em 2014, ainda antes da campanha presidencial norte-americana.

 

 

Sonhos americanos de agora e de sempre

São o carinho e a memória que demarcam a sinceridade deste livro, o seu carácter e o seu denso significado… Este livro é escrito por uma democrática selecção de autores, não se limita a escritores profissionais, mas nasce de gente vinda das mais diversas facetas da vida.

Frank X. Gaspar, na introdução a Untamed Dreams: Faces Of América

Vamberto Freitas

Antes de falar sobre este livro como um dos mais belos títulos que eu li nestes últimos tempos, Untamed Dreams: Faces Of América/Sonhos à Solta: Rostos da América, organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues, não posso nem quero deixar de dar os parabéns, na pessoa de Tony Goulart, picoense imigrado nos EUA há muitos anos, pela iniciativa que foi a fundação de uma editora que tem como objectivos principais motivar a investigação nos mais variados campos da nossa vida naquela sociedade. Portuguese Heritage Publications of California é dirigida por indivíduos ligados a várias associações comunitárias, e o seu catálogo já contém um número substancial de títulos em todos os géneros, desde história, ficção e poesia, assim como algumas biografias e autobiografias., abrangendo os mais variados temos: baleação, agricultura, indústria lacticínia, e Festas do Espírito Santo, esses ritos religiosos e profanos celebrados anualmente em todos os aglomerados de maioria açoriana, e talvez o evento que mais coesão traz ao nosso povo naquelas vastas paragens, promovendo a cultura ancestral entre os luso-descendentes, e desse modo permitindo sobretudo a continuidade da nossa cultura, da nossa memória histórica, mesmo que em língua inglesa e por outras formas de actuação e estilos de vida. Olho para essa lista editorial e fico espantado com o número de autores, uma lista longa de mais para que eu possa destacar nomes e títulos, uns mais conhecidos do que outros, e que inclui ainda escritores residentes nas ilhas mas viram algumas das suas obras mais pertinentes para o tema da imigração traduzidas e divulgadas entre todos os leitores da nossa diáspora americana. Para entendermos inteiramente a audácia de tal projecto bastará lembrar a todos que tudo isto é feito sem subsídios oficiais, o que não exclui, como me diria um dos seus responsáveis, a ocasional distribuição gratuita por escolas e bibliotecas numa boa parte do estado da Califórnia, e não só. Raramente estes livros chegam ao arquipélago, e isso passa a ser indesculpável – são essenciais para os nossos próprios investigadores e escritores, fazem parte do cânone literário e cultural português, com especial relevo para as ilhas dado que a grande parte dos nossos imigrantes no oeste americano é de origem açoriana. Só que entre esses nomes e obras estão também presentes autores e bem-feitores de origem continental. Pelo menos deixo aqui os rótulos das colecções que venho mencionando neste texto: Heritage Collection, Colecção Décima Ilha (onde encontramos também os livros de poesia), Pioneer Collection, Fiction Collection e Children’s Collection. Não, não é pouco. O que me leva, uma vez mais, a apelar aos responsáveis pelos diversos sectores oficiais do Governo Regional dos Açores a tomar a iniciativa de fazer chegar a nós, às nossas instituições de ensino a todos os níveis, todo este rico arquivo da nossa história e criatividade no além-fronteiras, na lonjura do Pacífico, que nunca nos esquece ou ignora, que sempre perpetuou voluntária e orgulhosamente a nossa memória colectiva dentro e fora do território nacional. Por uma questão de pura justiça intelectual, não posso deixar de mencionar as inúmeras edições de autores luso-americanos e açorianos, no original ou em tradução, das editoras Gávea-Brown Publications (Brown University) e Tagus Press at UMass Darthouth. Foi a partir de todos eles que muitos dos nossos autores nos Estados Unidos foram publicados e tornaram-se parte do que já é a nossa Tradição Literária.

A crescente dupla nacionalidade dos filhos e netos da primeira geração imigrada quase torna sem significado a expressão“território nacional”. Untamed Dreams: Faces Of America leva-nos dos primórdios da nossa emigração para a América, os que nadavam furiosamente até aos barcos baleeiros no Corvo e noutras ilhas aos que partiam via Pan American, de Santa Maria, e os que ainda hoje dão um salto em busca da sua sorte. A imagem primeira que sobressai deste livro é como um pequeno povo, numericamente falando, construiu algumas das mais prósperas e bem organizadas comunidades no oeste americano. Não se trata só de trabalhadores em busca do ouro no século XIX, mas ainda dos que hoje estão colocados nos mais distintos e importantes sectores do estado mais rico da nação mais rica do mundo. Não falo aqui nem de nacionalismo nem de sobrevalorização do chamado “sucesso” novo-mundista. Falo da coragem e determinação de um povo ilhéu que nunca se deixou intimidar pela mais avançada e sofisticada economia e sociedade do Ocidente. De um extremo de um estado como a Califórnia, dos baleeiros de San Diego em tempos idos aos nossos contemporâneos nos mais diversos ramos de vida e actividade económica a norte, desde o Vale de São Joaqueim no centro interior ao Sillicon Valley e San José e arredores, falo dessa audácia e desse destemor na sua permanência e formação numa complexa sociedade multi-étnica e cultural. Agricultura, invenção da mais avançada indústria lacticínia planetária, de bem-feitores comunitários, uma vez mais, através de associações de seguradoras até aos professores universitários, a comunidade portuguesa na América é de uma organização e segurança estrutural como muito poucas outras. Os primeiros aventureiros açorianos, quase sempre sem entender uma frase completa em inglês, até aos seus descendentes de segunda e demais gerações criaram uma vida sem par na Diáspora, sem nunca esquecer e muito menos trair as suas origens. Estão neste livro uma boa parte exemplificativa do que acabo de dizer. O homem de botas altas a trabalhar a terra dando lugar aos que, em inglês, celebram, memorizam, dignificam essa história. Untamed Dreams: Faces Of America desmente muitos dos mitos que rodeiam a nossa presença na América. Pais analfabetos e uns poucos outros com formação formalista mandaram para os estudos, a todos os níveis, os seus filhos e filhas. O resultado está mais do que à vista: cientistas, empresários, escritores e poetas marcam o seu lugar na grande tradição intelectual da América, que a maioria dos europeus ainda faz e prega que não existe, os vaidosos medíocres de um continente sem rumo nem ideias a olhar com desdém os fazedores de tudo. Frank X. Gaspar, nascido em Providence de famílias piscatórias é hoje um poeta publicado pela grande revista The New Yorker. Katherine Vaz, grande escritora das melhores editoras nova-iorquinas e já traduzida no nosso e noutros países, segue os passos de um pai de nome August Mark Vaz, nascido na Califórnia, crescido na Agualva, da Ilha Terceira, e que anda hoje me é uma referência no seu livro sobre a história da nossa emigração no Pacífico, Lara Gularte traça as suas origens até aos caçadores do ouro em tempos muito recuados nalguma da melhor poesia publicada em língua inglesa, e Millicent Borges Accardi, de pai italiano e mãe açoriana, desenvolve uma poética quase sem precedentes entre nós, se esquecermos por um instante um George Monteiro, nascido na Costa Leste americana de pais continentais, e que desbravou antes de todos nós este território da imaginação e arte. Nem por um segundo esqueço, e muito menos ignoro, os que em língua portuguesa poetizaram, sublimaram, a nossa vivência naquelas partes. As suas palavras são um espelho claríssimo, o qual deveríamos todos espreitar, e revermo-nos nas suas imagens e metáforas. Este é um livro em língua inglesa, e o seu lugar espera novas traduções. Os que nos vão seguir terão a obrigação de conhecer as suas origens, e são nessas páginas que reside para sempre parte do seu ser e sorte.

Então uma só vida – escreve Katherine Vaz sobre o seu recentemente falecido pai, que para além do ensino e da escrita, também pintava quadros – poderá ser uma lição paternal única, a salvação de uma pequena criatura como eu, um espaço desenhado, uma insistência em que deveremos sonhar a vida a cores, uma rosa que brota do nada e se torna milagrosa. August Mark Vaz escreveu os seus livros sobre a sua adorada herança açoriana, mas foi-tão só a sua existência que, para mim, musicou a melhor nota de como devemos agarrar e refazer o mundo. Viajo sempre com um dos seus quadros inacabados, uma rapariga abraçada a uma bandeira portuguesa e a chorar”.

Untamed Dreams: Faces Of America passa a ser uma das nossas mais eloquentes fontes sobre a vida quotidiana e da imaginação do nosso povo na distante Callifórnia. Curiosamente, foi António Ferro, que após uma viagem àquele país nos anos 20, e em que ele insistiu, muito antes de muitos, em visitar essas nossas comunidades, escreveria em termos muito semelhantes no seu singular Novo Mundo Mundo Novo (1930) sobre como os portugueses precisavam de espaços livres e grandiosos para exercer o seu talento e coragem no trabalho quotidiano, quer fosse em terras cultivadas, quer fosse nas mais criativas profissões e instituições a que se dedicavam. Viu, como vemos neste livro agora, a capacidade de reinventarmos o nosso ser e modo de estar. Era e é um Portugal cuja modernidade só agora começa a ser vivida na nossa geografia natal. É isto e muito mais que nos espelha este livro.

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Untamed Dreams: Faces Of America (organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues), San José, Portuguese Heritage Publications of California, 2017. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Outubro, 2017.

Revisitação à obra de Eduardo Mayone Dias e a nossa imigração na Califórnia

Provindo de um ambiente escasso de experiências vitais diferentes, o típico emigrante português nos Estados Unidos encerrra-se no seu pequeno casulo de preocupações materiais, enquista-se na sua comunidade linguístico-cultural e receia contactos com outros grupos ou evita-os mesmo por dificuldade com comunicação verbal ou conceptual.

Eduardo Mayone Dias, Miscelânia Lusalandesa

Vamberto Freitas

Para os que não o conhecem aqui nas ilhas: Eduardo Mayone Dias nasceu em Lisboa em 1927, e após a sua licenciatura na Universidade de Lisboa, depressa partiria para o estrangeiro, primeiro para o México e depois para os EUA em 1961, onde se viria doutorar na Universidade do Sul Da Califórnia em Literaturas Hispânicas, de seguida iniciando a sua carreira na Universidade da Califórnia, Los Angeles, a leccionar língua e literatura portuguesas. Este texto é tirado de um prefácio que escrevi para o seu livro Miscelânia Lusalandesa, publicado em Lisboa pelas Edições Cosmos em 1997. Acaba de apresentar em Artesia, uma cidade nos arredores de Los Angeles onde vivem milhares de açorianos, e à qual ele sempre manteve uma relação de grande afecto e que agora lhe prestou homenagem no passado dia 8 de Outubro pela recente publicação Memórias De Um Burocrata Invisível: Autobiografia e Algo Mais, da autoria de Eduardo Alberto De Oliveira Rocha. Não o li ainda mas não podia adiar estas minhas palavras, pois referia-me já então à sua bibliografia debruçada sobre a nossa imigração e vida em toda a parte. Foi um dos meus mentores através da sua escrita em livros e jornais, e nunca hesitava em convidar os seus amigos à casa onde sempre viveu no centro da grande metrópole. Há dívidas que nunca se pagam, não é possível retribuir certas dádivas. O trabalho de Mayone Dias, de que Miscelânia Lusalandesa é apenas uma leve mas viva amostra, à semelhança de Coisas da Lusalândia, também publicado no nosso país, constitui uma raridade sobre a vida dos portugueses no além-fronteiras. Acompanhou sempre de perto a caminhada da imigração portuguesa na América. Poderia muito bem ter optado exclusivamente pela torre de marfim que uma instituição como a Universidade da Califórnia oferece aos seus docentes. Sempre entendeu ele, no entanto, que a presença cultural portuguesa nos EUA deveria ir além das conferências universitárias sobre os ditos vultos do nosso mundo e incluir a actualidade de todo um povo que começou a chegar lá a fins do século XIX, aquando da lendária Corrida ao Ouro. Foi assim que a “Portufórnia” – o curioso e diversificado mundo dos portugueses na Califórnia – se tornou, creio, a mais estudada e divulgada parcela da nossa diáspora, e que hoje tem muita gente a dar continuidade a esse trabalho, especialmente através de edições da própria Portuguese Heritage Publications of California, com sede em San José, a cidade no coração do Silicon Valley.

Miscelânia Lusalandesa é constituído pela série de estudos, crónicas e comentários acerca da nossa visa californiana de ontem e de hoje, anteriormente publicados em vários periódicos de Portugal e da nossa imigração, integra uma obra unificada pela sua temática, mas que tem tomado formas bem diferentes. Para Mayone Dias, eis aí uma faceta da sua discreta “revolta” contra o tal nicho universitário fechado. O estudo de qualquer grupo humano, por mais inconsequente que pareça em termos político-culturais, não necessita de desculpas ou justificações. Somos todos, quer como indivíduos quer como comunidade em qualquer canto deste mundo, espelhos vivos da nação – ou, como neste caso americano, das nações – a que pertencemos. Todas as suas intervenções neste campo tentam essencialmente responder a questões que são de máxima importância, indispensáveis a um entendimento, o mais completo possível, de quem somos nesse mosaico de gentes que continua a ser a América. Desde o Havai de tempos idos, onde estão sepultados também ossos portugueses e onde ainda hoje alguns tentam reavivar a sua memória ancestral lusa nos mais escondidos lugarejos daquelas ilhas e da Califórnia, Mayone Dias, quase só, insiste em perceber o que é ser-se português transplantado em viveiros radicalmente diferentes das nossas origens. “A Presença Portuguesa no Havai”, por exemplo, traça com todo o rigor académico do historiador a chegada àquelas ilhas de um grupo ido da Madeira e dos Açores para trabalhar nas plantações da cana de açúcar, descreve minuciosamente a sua sobrevivência étnica até a tempos recentes, aponta aí o que pode acontecer a outros que não se rejuvenescem através da chegada contínua de novos imigrantes – o seu apagamento quase total como entidade nacional devido à assimilação inevitável das gerações nos grandes meios que os rodeiam. Do mesmo modo, “Baleeiros Portugueses na América” conta a epopeia dos primeiros imigrantes açorianos que chegaram à América há mais de 100 anos e se foram enraizando até desenvolverem, juntamente com outras etnias, a rica agricultura e indústria lacticínia da Califórnia. O livro Açorianos na Califórnia (1997), por sua vez, é um conjunto de entrevistas feitas ao longo dos anos a “pioneiros” ainda de boa memória e a outros mais novos sobre o que foi e ainda é a vida das nossas comunidades. A obra de Eduardo Mayone Dias, como já disse, de tudo contém um pouco. Debruça-se sobre aspectos da vida imigrada tão variados como uma série de abordagens que vão desde os portugueses de San Diego que participaram pela América na II Guerra Mundial com os seus barcos da grande pesca à crise que eventualmente haveria de atravessar essa comunidade devido ao declínio da indústria piscatória norte-americana, a comentários e coloridos “instantâneos” que nos apanham nos momentos tragicómicos inerentes à condição de “estranhos em terra estranha”, a investigações e análises da escrita de imigração que sempre produzimos desde as nossas primeiras aventuras a oeste, tudo o que poderá explicar e permanecer na memória das gerações vindouras..

A esta quase incrível persistência e dedicação à história e registo da presença portuguesa na Califórnia, juntam-se qualidades como uma natural capacidade de empatia que Mayone Dias sempre demonstrou pelo grupo e, ao mesmo tempo, a ausência de qualquer condescendência ante o que ele entende ser defeitos ou meras fraquezas colectivas nossas. As nossas comunidades açor-californianas estão dispersas por todo o estado, separadas pela geografia e pelo seu desenvolvimento autónomo. Existem centros de operários e comerciantes (San José e arredores de Artesia na Grande Los Angeles), assim como centros rurais onde naturalmente predominam a agricultura e lactcínios, Na maioria de origem açoriana, as diferenças e divisionismos trazidos das ilhas esbatem-se mesmo neste diversificado rumo sócio-económico. Pertence quase toda a primeira geração à grande vaga emigratória que foi retomada nos anos 50 e 60, tendo estancado, como se sabe, em tempos recentes. Foi precisamente este grupo que encetou vigorosamente uma autêntica regeneração sócio-cultural à beira do Pacífico. Reergueram-se sociedades comunitárias, agudizou-se entre todos o interesse e respeito pela cultura e tradições ancestrais, começou-se a insistir, mesmo que sem grandes repercussões no meio americano, no reconhecimento pela obra total e contínua das nossas comunidades desde os primeiros tempos na Califórnia. É considerando este período histórico – o próprio 25 de Abril abalou em vários sentidos a nossa imigração – e os outros antecedentes que se deve perceber os dramas e comédias tanto em Miscelânia Lusalandesa como em inúmeras outras colectâneas da sua vasta obra.

Miscelânia Lusalandesa faz parte dessa grande obra-espelho de todo um povo. Ficará nos nossos arquivos para sempre, e aí relembrar e ensinar levemente a quem queira saber de um Portugal geograficamente reduzido mas de onde saiu um povo heterogéneo e que foi capaz de se reinventar quando colocado nos mais longínquos e estranhos recantos do nosso mundo. Traz-nos, é certo, apenas uma parcela do mundo lusíada e uma que nunca teve o lugar merecido na História da nação. No entanto, os factos e a reavaliação das nossas realidades vão-se impondo com esforços como este. Os milhões de portugueses que saíram do nosso país não poderão permanecer para sempre como fontes de remessas e objecto de um ou outro discurso governamental em datas já tornadas banais, não devem ser apenas um ocasional apêndice da retórica política nessas ocasiões.

Junto aqui a minha voz à de outros (Diniz Borges em particular, a quem Eduardo Mayone Dias já entregou parte do espólio) que têm reclamado o reconhecimento da obra do autor pelo Governo e Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Seria um acto de pura justiça, um gesto digno e oficial de gratidão a quem não só produziu uma obra superior sobre os açorianos na Califórnia, como foi um mestre de toda uma geração, a minha, no incentivo e apoio às nossas próprias tentativas de dinamizar as nossas comunidades para uma melhor integração na grande sociedade norte-americana.

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Eduardo Mayone Dias, Miscelânia Lusalandesa, Lisboa, Edições Cosmos, 1997. Parte deste texto foi retirado do prefácio que escrevi para este livro no ano da sua publicação. A foto foi tirada em Artesia, a 8 de Outubro, aquando da homenagem que esta nossa comunidade lhe prestou. Publicado  no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 20 de Outubro de 2107.

As outras américas que não vivi

Como tantos cidadãos do mundo, devo aos Estados Unidos uma medida da minha educação liberal e do meu otimismo ontológico. E também da minha consciência libertária.

Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana

Vamberto Freitas

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, uma recolha de ensaios de Clara Ferreira Alves, ergue-se como um dos melhores livros sobre o grande país mítico a oeste das nossas memórias e obsessões políticas, culturais e imperialistas, esta última palavra fazendo lembrar Gore Vidal, que assim o denominava e que conhecia as suas origens nacionais e o papel internacional do país melhor do que ninguém. Tenho o dever de colocar as minhas cartas na mesa. Vivi na Califórnia, primeiro no Vale de São Joaquim e depois na Grande Los Angeles, cerca de 27 anos. Não conheço, nunca conheci, todas as “américas” que Clara Ferreira Alves viveu e interpelou nas suas constantes visitas desde a década de 70 até aos nossos dias, viajando de costa a costa, permanecendo em pequenas e grandes cidades, conversando e observando o que chamamos a América cosmopolita à beira do Atlântico e do Pacifico, e depois a América profunda das pradarias e das pequenas cidades sem rumo nem vida, sem consciência do passado e muito menos sem ideia do futuro. Dormiu e acordou numa Nova Iorque sem noite nem dia e entre as multidões do mundo arrastadas pelo Sonho Americano, viu a América da ferrugem e da decadência provavelmente irreversível dos que a globalização atirou para a rua ou para as casas à beira do colapso e da miséria generalizada. Não, nunca conheci essa América nos subúrbios sul-californianos onde vivi, estudei e leccionei, sem o mínimo desejo de sequer ir a Los Angeles, a minutos de distância, a não ser num ou noutro sábado à noite em Hollywood, mas só para ver a Sunset Boulevard como quem vai a um parque de diversões e olhar para os freaks que batiam em pandeiros pseudo-religiosos, pregavam o fim do mundo ou estavam deitados no passeio bêbados e drogados. Não tenho saudades algumas, a não ser da minha família e de amigos mais íntimos. Estes olhares de Clara Ferreira Alves não são de uma mera visitante ocasional, vêm de dentro para fora, vêm de quem sente a inteira pertença e sorte dos Estados Unidos como se lhe fora uma segunda pátria, e creio que é mesmo.

Bem sei que Nova Iorque é a cidade da autora, mas para mim era um lugar distante e pouco desejável. Das duas ou três vezes que a visitei, na companhia da minha mulher Adelaide, que lá tinha estudado e sofrido a vida numa cave discreta, só tenho duas ou três recordações memoráveis. O vasculhar nos alfabarristas à procura de primeiras edições da obra de Edmund Wilson, um musical na Broadway com Jerry Lewis, e sobretudo uma visita ao apartamento do recentemente falecido Gregory Rabassa, o melhor e mais famoso tradutor de literaturas hispânicas (One Hundred Years of Solitude, de Gabriel Garcia Marques, por exemplo) e portuguesas (João de Melo e António Lobo Antunes, entre uns poucos outros), e que havia sido professor da Adelaide na City University of New York, depois mais nada, odiando ver o sol aos quadradinhos por entre os arranha céus. Lembro-me de um apagão de Inverno e do que disseram os texanos, meus vizinhos naquelas partes: Let the bastards freeze in the dark. Só isso. Sou um homem, como já disse, dos calmos subúrbios, relva cortada e tosquiada todos os sábados, como um dos personagens menores num dos contos de Raymond Carver a regar o seu jardim e a mexericar a vida dos vizinhos. Um dia saí do meu bairro da classe média remediada rumo à escola onde era professor, e entrei nas ruas do outro lado onde morava a riqueza. Recuou da sua garagem de luxo um Mercedes azul escuro guiado por uma loira, mas cujo autocolante dizia simplesmente: Another shitty day in paradise, o humor de quem tudo tem sem nunca deixar de sentir o vazio existencial no paraíso, ou na Terra de Deus, como alguns se referem à Califórnia. Clara Ferreira Alves tem toda a razão em sentir o tédio e o asco por tanta ordem limpa, especialmente em Palo Alto e Arredores, quando se refere à Califórnia “perfeita” fora de São Francisco e outros centros sujos e de dinamismo humano. Só que em Cenas da Vida Americana vejo e sinto o resto do grande continente. Deixei de viver e ver a América pessoalmente e em directo no tempo de George Bush, pai. Ela continuou a ver e a viver tudo de lá, até aos nossos dias. Muito me ensina, e ainda mais desperta a minha memória. Disse à autora aqui há dias que ia brigar com ela por causa dessas páginas sobre o grande estado a oeste que foi e será sempre a minha outra pátria. Decidi mudar de rumo, e brigar comigo próprio por tanto ter ignorado, ou então fazia que não via ou queria.

Clara Ferreira Alves não deve, pela minha a parte, ser classificada politicamente, nem isso tem qualquer importância no contexto do ora sereno ora contundente Cenas Da Vida Americana. Só que a sua relação com os Estados Unidos é muito longa. Ela escreve sobre a grande nação como alguém que sente pertencer por inteiro aos destinos desse outro país. Faz-me lembrar, no entanto, as atitudes da Nova Esquerda/New Left, da qual eu venho e ainda hoje com a qual me identifico, apesar de também me identificar com uma outra esquerda socialista democrática que nos antecedeu, e que era a minha desde os tempos de faculdade, o crítico e ensaísta Irving Howe e a revista Dissent que ele dirigia e editava uma referência permanente. Para ela, o seu relacionamento com esse seu outro país da imaginação e de afectos é um de amor e ódio, a sua admiração pela sua cultura em geral, o seu modo se ser e estar lado a lado ao seu ódio a alguma da sua política interna e externa. O que mais admiro neste seu livro é o seu conhecimento da arte suprema americana, desde os escritores canónicos à musica e artes plásticas. A capa do seu livro diz tudo. O “Nighthawks”, de Edward Hopper, a solidão humana no que se depreende ser uma grande ou pequena cidade, a busca do amor e da cumplicidade possível no negrume da noite e na luz interior de um Café. Clara Ferreira Alves vê aqui todo o esplendor artístico da América, com a dor indefinível de um país-continente, a incerteza que desafia e amedronta a todos no dia seguinte. São as cenas de uma humanidade em busca de si própria, em busca de um silêncio fora do barulho de uma sociedade sem sossego, o mosaico completo e constituído literalmente por todas as nações do planeta. A autora viaja durante anos não só para as cidades metropolitanas, mas também rumo aos mais escondidos, esquecidos e miseráveis recantos dessa mesma América, e cada conversa parece uma prece aos deuses que fazem dos EUA um espaço tanto de todas as possibilidades como de todas as derrotas. Pouco me interessa no seu livro, em certas páginas, a ilusão de se querer moldar o mundo à imagem de Nova Iorque ou da suposta liberdade de um grande império. Fico pelas suas convivências, conversas e afinidades com os americanos que ela encontra nas suas perpétuas caminhadas e que fornecem o ethos do sofrimento interno e das batalhas estrangeiras, desde o Médio Oriente à América Latina. Prefiro as suas passagens por museus, livrarias, teatro e cinema. É por aí que ela me mostra o que eu nunca tinha visto ou pensado nesse meu outro país e pátria. Quando menciona o nome de um escritor, nos seus contextos múltiplos, diz-me tudo e ensina-me algo que eu desconhecia. Isto não é um livro de “crónicas”, é um conjunto de ensaios, como já referi atrás, menores ou maiores, que nos dão um retrato, não de todo agradável, mas de todo plausível nas observações de gente e símbolos, sensível na sua empatia, acreditável na sua dureza realista. A sua visita a Detroit é avassaladora, antológica, a decadência absoluta e mortífera, e depois o optimismo e a criatividade da reconstrução humana e económica, deixando sobressair o melhor do país: a sua energia e capacidade de renovação após as mais variadas catástrofes impostas pele natureza ou pelo próprio sistema.

Raramente – escreve a autora – se ouve um discurso de vitimização ou culpabilização. Apesar da privação e do sacrifício, do sofrimento, o ethos americano impede a nostalgia e o rancor. Ninguém culpa os industriais, os trabalhares, a segregação, os bancos, os maus governantes, a corrupção… O caminho é para a frente”.

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, tal como indica o título, contém textos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Lido em sequência, oferece-nos ou propõe visões das facetas e acontecimentos internos e externos mais dramáticos na história do país, especialmente o envolvimento do país no incendiado Médio Oriente e o alto preço humano e estratégico que os americanos continuam a pagar. De resto, o que ela diz de Trump, do longo processo eleitoral que o levou até à Casa Branca, fica para outros leitores deste magnífico livro. De página a página é como ler uma obra do chamado novo jornalismo de décadas passadas, é um “romance” que toma a acontecimentos reais como tema, o seu fio condutor sendo a própria “voz” da autora, como um Truman Capote ou um Norman Mailer faria noutros contextos e lugares. É esta a América que não vivi ou conheci durante toda a minha vida nos bairros assépticos do meu destino durante quase 30 anos, o país onde vivi a minha adolescência, onde me formei e me tornei professor do ensino secundário oficial da Califórnia. Digo-o sem quaisquer complexos ou vergonha – estas foram para mim páginas de ensino, mais o tal prazer do texto na grande arte da escrita em qualquer uma das suas formas ou género.

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Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, Lisboa, Clube do Autor, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Outubro, 2017.

A América do nosso destino, e a arte literária de Álamo Oliveira

Era a revolver o passado que Mary procurava ludibriar a morte. Passava pelos pequenos factos que lhe tinham colorido os dias e parava nas surpresas tristes que a vida também lhe dera. Voltava a sorrir e a chorar e continuava a arrepiar-se com tudo o que fora obrigada a assimilar.

Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates

Vamberto Freitas

Esta é a minha primeira leitura do romance de Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates, cuja primeira edição saiu na (extinta) Salamandra, em 1999, então dirigida e coordenada pelo Dr. Bruno da Ponte, que fez questão de publicar mais de uma centena de obras de autores açorianos, ou outras que têm os Açores como espaço referencial geográfico e histórico. Saiu num tempo em que o meu cansaço literário excluía determinadas obras, e só agora me dou conta de que a perda foi toda minha. Por certo que outros escreveram, muito e bem, sobre esta ficção fundamental no cânone do próprio autor assim como da literatura de língua portuguesa em geral, e estou a pensar no Diniz Borges (que também o viria traduzir para o inglês juntamente com Kathie Baker), e do grande texto do escritor brasileiro Luiz António de Assis Brasil, que agora serve de prefácio a esta nova edição do livro pela Companhia das Ilhas. Foi ainda traduzido para o japonês pelo lusitanista Kiwamu Hamaoka, que tem dedicado especial atenção à nossa literatura, e publicado pela Random House Kdansha, em Tóquio. Álamo Oliveira dispensa aqui qualquer apresentação como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta, a sua obra é extensa demais para que eu escolha e cite aqui alguns desses títulos. Lembrarei apenas que o seu romance de guerra Até Hoje (Memorias de Cão) é considerado por alguns críticos nacionais como uma das melhores obras do género na nossa língua, que inclui outros nomes como João de Melo, António Lobo Antunes e Cristóvão de Aguiar. Devo ainda enfatizar aqui que a temática da nossa imigração na América do Norte nunca esteve ausente da sua escrita, nem sequer do seu teatro, servindo de exemplo Manuel Seis Vezes Pensei Em Ti. Vem de longe esta atenção à nossa presença americana, particularmente no Vale de São Joaquim, na Califórnia. Toda a sua família imediata, tal como a minha, está lá desde os anos 50, fazem parte de nação peregrina que é a nossa, incluindo naturalmente os luso-descendentes, que desde há umas décadas a esta parte perpetuam a nossa memória colectiva através da sua própria escrita, e principalmente através da sua vida em comunidade, centrada nas festividades religiosas e profanas. A grandeza de Já Não Gosto De Chocolates poderá ser comparada só a Gente Feliz Com Lágrimas, talvez o mais reconhecido romance de João de Melo, e que tem a nossa experiência imigrante no Canadá no seu centro temático.

As comparações ficam necessariamente por aqui. Álamo Oliveira reinventa uma família originária da Ilha Terceira, cuja pobreza leva à sua partida para o oeste americano, onde eventualmente compra uma vacaria substancial, e que mantém em prosperidade o protagonista Joe Sylvia, a sua mulher Maria de Fátima, e mais quatro filhos, todos eles (até à partida de John para São Francisco por razões de orientação sexual numa comunidade conservadora e hipócrita), residentes na cidade de Tulare, cuja população aí e nos seus arredores conta com milhares de açorianos, na sua maioria originários das ilhas centrais do nosso arquipélago. Os olhares do narrador são simultaneamente de grande compreensão pela condição humana nesta sua outra versão e crítica a toda uma sociedade – tanto a de origem como a de adopção – cuja pobreza e injustiça envia para fora boa parte da sua população trabalhadora, e depois o Sonho Americano, que poderá dar pão mas não evita a morte solitária e a infelicidade de cada um dos seus personagens. O título do romance serve como a metáfora aglutinadora de toda a narrativa – o sabor e o cheiro americanos que tanto seduziam os mais carentes nos seus recantos ilhéus depressa se torna amargo, em certas cenas pungentes destas páginas, um símbolo odioso para quem acaba uma vida de muito trabalho mas também de muita riqueza na maior solidão numa casa da terceira idade, reduzido a uma cadeira de rodas e simplesmente desejando que a morte o apanhe o mais brevemente possível, como é o caso de Joe Sylvia, e que vai contando os seus mundos perdidos a uma assistente social mexicana, de nome Rosemary, e de profunda humanidade perante os que lhe estão dependentes.

Já Não Gosto De Chocolates é feito de analepses que vão lembrando a pobreza da vida nas ilhas e o duro quotidiano americano em busca do sucesso que ideologicamente é – era – prometido a todos que se submetessem ao trabalho constante, quantas vezes insano. Digamos que estamos perante a tragédia “demasiado humana” – o amor e a morte andam de mãos dadas, o fim de cada um tudo menos o que sonhavam para si próprios. Dão-se duas mortes no fim da narrativa, a do velho patriarca e a do seu filho homossexual, que, como já foi referido, havia partida para longe, para a grande cidade a norte que cedo se distinguiu numa cultura conservadora pela sua tolerância, pela sua abertura aos mais variados estilos de vida, pelo seu real cosmopolitismo. É um romance que combina em si todos estes dramas com o humor e a sua originalidade estilística, tal como nos aponta Assis Brasil no prefácio, que só um mestre com Álamo Oliveira manobra em linguagens marcadas por símbolos, insinuações e surpresas nas viragens inesperadas da sua narrativa. Quando se sabe da morte de John após contrair a Sida num tempo ainda em que a medicina não sabia o que fazer, a comunidade faz de conta que se trata de um castigo pelas opções de vida da vítima; Joe Sylvia, seu pai, depois do desgosto que durou anos, dá-se conta de que John foi o seu mais fiel e generoso filho. Quando o velho, já viúvo, reúne a restante família para ler o testamento final e dizer-lhes que desejava morrer numa clínica, nenhum deles se opôs, muito pelo contrário, sentiram-se aliviados com o afastamento físico do pai, as suas visitas esporádicas e sempre breves. A inteligência aguda de Sylvia não deixa nada disto passar em branco, inteiramente consciente do ambíguo significado das nossas vidas. Tinha visitado os Açores duas vezes, a última já após o 25 de Abril. Reconhecia muito poucos (tinham morrido ou emigrado, a sina açoriana), e o novo rumo do país era-lhe totalmente alheio. Emigrar é, aqui, perder a essência do nosso ser, e nunca mais conseguir um enraizamento significante, o viveiro humano permanece sempre estranho, quando não totalmente desconhecido. Do Nada para Nada, parece querer dizer-nos este romance profundamente portador, diria, de um existencialismo filosófico que nos manda procurar individualmente os nossos valores e significados de vida em qualquer comunidade, somos sempre margens das e nas grandes sociedades, para além da riqueza que, uma vez mais, temos ou não temos.

Agora – diz o narrador da última visita que Joe Sylvia e a sua mulher fizeram aos Açores, quando o seu fim já se aproximava – tinha tempo de amortecer a morte pela desbobinagem e rebobinagem do passado, Mary recordava a decepção de Joe Sylvia quando foram à ilha pela segunda vez. Para ele, as pessoas tinham enlouquecido. A revolução de Abril não cabia no seu espartilhado sentido de democracia e a liberdade não podia confundir-se com aquela euforia de palavras cujo propósito não alcançava. Mary, porém, reconhecia que a vida, na ilha, tocara os valores necessários para banir muita da pobreza que afectara a sua infância. As roupas novas que levara já só espantaram pela cor e pelo cheiro e o ice-cream que oferecia às amigas nas touradas era retribuído com outro logo a seguir. A única coisa que não entendeu – e que tanto enfurecia Joe Sylvia – era que lhes chamasse moscas de verão.”

Por outras palavras, a pelintrice portuguesa, na versão açoriana, continuava – e continua – bem viva e petulante. Muita da literatura açoriana do século passado ficava-se sempre, repito-me aqui, pela caricatura, a unidimensionalidade dos personagens imigrantes e dos seus descendentes. Álamo Oliveira é um grande escritor, e como tal a humanidade e complexidade dos seus personagens, de todos os seus personagens, permanece inteira, mesmo que sem cedências à mediocridade das suas vidas, e muito menos das suas sociedades, quer em casa quer no além-fronteiras. Este seu romance faz parte do melhor do nosso cânone literário modernista. Lê-lo é olhar o espelho que nos devolve as nossas imagens, ora distorcidas ora reveladoras de quem somos e como somos.

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Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 6 de Outubro de 2017.

 

 

Da linguagem como parte do nosso ser e estar, da crónica como arte

…É desse parapeito que me debruço sobre o mundo e foi nas dimensões desta janela que aprendi a moldar a realidade e a ser parte dela.

Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra

Vamberto Freitas

Se há um livro que nos faz conhecer a sua autora em toda a sua dimensão interior assim como o seu lugar de nascença e eleição afectiva, Crónicas da Minha Terra, de Paula Cabral, natural da freguesia do Pico da Pedra, aqui em São Miguel, será por certo um deles. Claro que me vem de imediato à mente Viagens Na Minha Terra, de Almeida Garrett, mas isso não é chamado para aqui, nem eu pretendo qualquer simetria ou outras comparações neste espaço. Queria só dizer que lendo este seu primeiro livro, que reúne alguns dos seus escritos, quase todos eles curtos mas incisivos, escorreitos, onde cada palavra ou nome de “personagens”me parecem ou me lembram uma metáfora do nosso mais profundo ser ilhéu numa contínua “viagem para dentro” e para o mundo é ficar além do prazer que os textos nos proporcionam. Li-o como quem lê uma narrativa meio ficcional meio ensaística, completa no retrato, uma vez mais, da autora desde a sua mais tenra idade até ao seu presente (é professora numa escola do ensino secundário aqui na sua ilha), ficamos a conhecer cada rua dessa sua terra natal, e ainda mais de cada um que se atravessam na vida. Sem surpresa para mim, como não será para qualquer açoriano, a outra grande presença nesta prosa é a América, vista ao longe e de perto, através dos seus cheiros em sacas de roupa outrora enviadas para cá, ou ainda mais pelas visitas de familiares e amigos em tempos de festa ou de outras ocasiões ditadas pela vida. De início, nenhum destes textos trazia qualquer título, como se a autora nos quisesse sugerir uma história com princípio, meio e fim, e é assim que estas páginas funcionam.

A minha leitura foi num manuscrito, e espero que se mantenha nesta estrutura de “ensaio” ou “imaginação” do que fora os seus anos de crescimento e formação entre os seus, que tanto podem ser os seus pais e irmãos como a figura vista pela janela na entrada e saída de um café central ou da igreja mesmo em frente. A ilha, aqui, não um mero pedaço de terra rodeada de mar todos os lados – é o mundo inteiro vivido ou fantasiado pela autora. Não haverá também muitas outras freguesias como o Pico da Pedra, que pelo menos durante todo este século foi berço de nascença de tantos grandes escritores, hoje de nome nacional pelas suas grandes obras em diversos géneros: Onésimo Teotónio Almeida, no ensaio e na ficção, Cristóvão de Aguiar (primo da autora) autor de vários romances, contos e ensaios, sobressaindo, para mim, a trilogia Raiz Comovida, e o Osvaldo Cabral, seu irmão, conhecido jornalista da RTP/Açores, e agora do jornal micaelense Diário dos Açores, Gilberto Bernardo, Fernando Couto Alves, e isso só alguns do meu conhecimento directo. A história de um lugar, de qualquer lugar, raramente é feita por historiadores universitários ou famosos – é feita pelos seus escritores locais e cujos livros raramente são lidos por grandes números de leitores. William Faulkner dizia que quase toda a informação e ambiência geral da sua ficção era tirada de autores locais, por quase todos esquecidos para sempre nas estantes obscuras da sua pequena Oxford, em Mississippi. Creio que se passa o mesmo em Portugal, e muito especificamente nos Açores. Este livro de Paula Cabral resgata muito do que se aplica a nós todos, ou seja, a vida em pequenas comunidades virada para o mundo inteiro no outro lado do horizonte, ora nebuloso ora claríssimo, com a ilha em frente a desfazer a nossa solidão ou sentido de isolamento.

Eu sem escudo protector– escreve Paula Cabral a dado momento – me apresento à vida com a força do sonho. Não tenho o poder do caminho já traçado. Trago comigo a força convicta da minha consistência e com ela vou desbravando a adversidade do momento e da circunstância. Tento não capitular a vendas que me tolhem a lucidez ou a pôr à venda a liberdade do meu pensamento. A liberdade e o sonho, longe de caber na mão de um homem, não se configurarem ao tamanho de uma bandeira. São ambos apátridas. Têm a força de uma humanidade inteira… Sou do Pico da Pedra. Digo-o sempre com muito orgulho. Puxei deste galão para explicar a minha natureza reivindicativa a um colega de profissão. Curiosamente, o meu interlocutor percebeu o alcance da minha assertividade”.

Crónicas da Minha Terra é-me surpreendetemente, o primeiro livro de Paula Cabral. Eu já tinha lido uma ou outra “crónica” sua nos jornais locais, e um dia pedi-lhe que me enviasse uma ou duas colaborações para o suplemento Açoriano Oriental Ares & Letras, que coordeno com o escritor terceirense Álamo Oliveira. A sua humildade levou a que nunca me mande nada sem eu pedir. Só que isso agora vai mudar, quero-a presente sempre que lhe seja possível. Uma das freguesias açorianas que tem, ou deve ter, o orgulho dos seus escritores é precisamente o Pico da Pedra, a outra sendo a Achadinha, também aqui de São Miguel, quando foi e é fundo de romances e outra escrita como a de João de Melo, Adelaide Freitas, e Júlio Cabral, talvez o mais injustamente desconhecido de quase todos os leitores açorianos, cujas cartas enviadas de Lisboa onde residiu a maior parte da sua distinta vida como advogado, são de todo ignoradas, mas há alguns anos publicadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande. Leio um Prémio Nobel do mesmo modo e com o mesmo espírito aberto com que leio estes outros autores. Não é o “lugar” que faz um escritor, muito pelo contrário, é o escritor que faz o “lugar”. Isto é tanto verdade para nós como para qualquer país. Há algo ainda de maior importância. É a grande escrita que nos cria empatia perante qualquer povo, cultura ou país. Depois de lermos, por exemplo, e só para me reduzir aqui a uma geografia nacional, um Octávio Paz, um Carlos Fuentes, um Juan Rudolfo ou uma Laura Esquivel, nunca o México será o mesmo para os seus leitores. Os Açores nunca mais deixaram de entrar, mesmo que com limitações e só entre certa elite literária, no imaginário nacional português depois de Mau Tempo no Canal. Só resisto ao endeusamento de seja quem for. Depois deste e de outros escritores vieram muitos mais. Alguns deles não só ultrapassaram (é a sua obrigação) a chamada “ansiedade da influência” propagada por Harold Bloom, mesmo que só em certos sentidos positivos, como superaram, como deve ser, os seus mestres ou grandes antecessores. Depois de lermos a Paula Cabral, o seu espaço de eleição nunca mais será o mesmo. Quase vemos, quase o sentimos, e queremos visitá-lo. Pedir mais de prosa como esta seria injusto e ignorante. Ela junta-se, agora, ao melhor dos nomes picopedrenses que já mencionei, junta-se agora ao melhor da literatura açoriana. Para quem não for provinciano, digo ainda e sem apologia, ao melhor que se escreve dentro do seu género, no nosso país e, até, na nossa língua.

Pedir a um escritor ou a uma escritora que escreva mais do mesmo, ou no mesmo género e forma, é injusto e irracional. Só que quero dizer à autora de Crónicas da Minha Terra que vai-me ser difícil esquecer. Para além disso, eu próprio raramente saio fora da recensão ou crítica literária, a não ser para um ensaio de fôlego numa qualquer revista universitária, lida quase só entre pares. Não, o que lhe peço são estas palavras de uma clareza como nos impõe um anti-ciclone, do calor de como vê a humanidade em seu redor, do respeito pelo seu próximo, da palavra que tanto se torna metáfora com símbolo. Um elogio não de ser bajulação, e ante Paula Cabral não tenho as mínimas razões para isso, ou pelo menos, pela forma civilizada com que a vejo escrever ou tratar todos à sua volta. Não sei que aulas dá na sua escola, mas sei que deveria trabalhar a palavra escrita, a palavra como transmissão de pensamento e crítica aos seus alunos. Leio-a, repito, como quem encontra uma velha amiga, uma conterrânea de uma das minhas ilhas de afectos sem fim, uma colega a quem apetece dizer “bom dia”, e que nunca deixe de nos oferecer mais um ensaio, curto ou longo. Vejo-a, daqui, a olhar pela sua janela com um sorriso na cara, ou então com um certo desagrado pelo que ouve ou avista. A fachada da igreja que ela olha ou olhava na sua juventude é mesma que eu via, caminhando um pouco nas minhas Fontinhas. Não insinuo aqui, eu ou ela, qualquer crença ou opção religiosa – vejo, vemos, a génese de tudo que une o nosso povo, de tudo que faz festejar a sua existência, de tudo que incutiu em nós valores que partilhamos ou rejeitamos.

Crónicas da Minha Terra é esse tesouro da razão e do coração. Creio não termos o direito de pedir mais, nem a nós próprios nem aos outros, que connosco nasceram, tornaram-se adultos, ficaram ou emigraram. A sua presença, de qualquer modo, fica para sempre.

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Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra, Ponta Delgada, COINGRA, Lda., 2017. Este texto foi retirado do meu prefácio a este livro. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.