Ser um estranho em casa própria

A chegada a Lisboa, a vista do cais foi um desapontamento. Tudo aquilo me pareceu feio, desarrumado, mal-amanhado.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula II

Vamberto Freitas

Não estou certo se a palavra “pátria” aparece neste volume das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/MemóriasIILisboa (1947-1955), mas sei que as palavras “pelintra” e “pelintrice” abundam nesta sua magnífica prosa autobiográfica em praticamente tudo que diz respeito à vida quotidiana e intelectual do nosso país na época que vem demarcada no próprio título do livro. Antes de mais, será preciso explicar ou relembrar a alguns seus leitores que sendo este o segundo volume das suas memórias, foi o último a ser escrito, tal como nos explica o próprio autor numa nota inicial, por razões de idade e querendo ele “assegurar” os períodos mais marcantes da sua vida, desde o nascimento em Moçambique até aos diferentes períodos da sua vivência na terra natal, que terminaria como resultado do 25 de Abril de 1974, e de seguida a sua vinda definitiva para Portugal. Não vou repetir aqui o que já escrevi sobre esses seus outros momentos e incidentes numa longa viagem repartida por dois continentes e diversos países. Relembrarei só que estamos perante uma das mais originais e longas caminhadas de um português, desde a sua carreira em petrolíferas em Moçambique até a Adido Cultural na nossa Embaixada em Londres, Presidente da Comissão Nacional da Unesco, a Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro, por entre outras paragens internacionais e actividades intelectuais. Eugénio Lisboa fez das ideias e da arte literária a sua verdadeira e mais significante “pátria”, ou ainda um exemplo de como um filho relutante de um império caído teve de se movimentar para a salvação da própria família e insistência na concretização de uma realização literária. A diáspora lusitana contou sempre com alguns dos seus filhos e filhas mais distintas um pouco por toda a parte, mas Eugénio Lisboa foi dos poucos que acabaria, apesar da sua visão crítica da terra-mãe, por regressar e levar a bom porto a maior parte da sua obra literária, feita do mais sério e esclarecedor ensaísmo sobre muitos outros escritores, assim como a sua própria poesia em que sobressai A Matéria Intensa. O presente volume destas memórias é marcante de vários modos, pois relata-nos o seu primeiro embate com o que ainda era a capital do império, e depois a sua experiência “militar”, desde Mafra a Portalegre como relutante cadete e aspirante a oficial no nosso exército, aqui tratado como uma agremiação kafkiana, na altura sem guerra e provavelmente pensando-se sem inimigos à vista, até ao início, que viria poucos anos depois, da nossa última aventura sangrenta e decisiva em África.

Nunca tinha lido uma visão tão negra e deprimente da nossa terra, mas a sua prosa é de tal modo viva e genialmente estruturada que se torna arte pura – memória e imaginação que mais caracterizam um grande romance de época e de ideias, que acaba por nos lançar o “clarão” histórico de que nos falava Walter Benjamin, ou muito do que nos explica os dias que hoje vivemos, ou sofremos.

Era a primeira vez que o jovem africano de pais portugueses vinha a Lisboa, a cidade que nos diz ter imaginado dos livros, tal como já tinha imaginado Paris nas obras de outros escritores. Leitor omnívoro desde a infância, o mundo fora do Índico constituía um imaginário de pura grandeza e sofisticação em tudo que as artes retratavam ou transfiguravam. Nesse ano de 1947 encontra uma cidade que ele diz decrépita, claustrofóbica, de ruelas e bairros sujos, e acima de tudo triste. A II Guerra Mundial tinha acabado há dois anos, mas a sociedade salazarista pedia que não se falasse no “coitadinho” do Hitler, pois já tinha morrido. Quando ingressa no Instituto Superior Técnico haveria de viver uma das suas mais desesperantes experiências académicas – desde colegas de uma ignorância que ele nunca tinha presenciado nos seus estudos secundários laurentinos a professores de uma mediocridade quase indizível, ou então de uma arrogância e vinganças mesquinhas que pouco ou nada tinham a ver com a formação dos mais altos quadros técnicos do Estado ou de qualquer grande empresa cá ou nas colónias. De qualquer modo, Eugénio Lisboa continua a ler os mais diversos escritores estrangeiros, privilegiando sempre os clássicos ou os modernos franceses (Montherlant e Stendhal sempre na primeira linha), mas raramente encontra um colega que o acompanhe no seu irreprimível fervor intelectual. Passa quase todo o seu tempo a ir ao teatro, ou a comprar os livros da sua preferência que ia encontrando numa ou noutra livraria lisboeta, ou por onde passava e ficava por uns dias ali por perto. Quando chega ao quinto ano do curso é obrigado a continuar o seu treino militar em Mafra, e o que diz dessa experiência seria mais do que suficiente para qualquer polícia política de uma ditadura o encarcerar numa cela, desde a estupidez dos seus oficiais até aos treinos sem tino na artilharia daquele campo aonde D. João V tinha escravizado e gastado a fortuna maior de Portugal num “palácio”, que só séculos depois José Saramago (que Eugénio Lisboa me desculpe aqui a referência) descreveria no Memorial do Convento. O autor passa os seus dias com África na alma e na memória, a saudade vivida, que só as esporádicas visitas da família ou um ou outro reencontro com algum conterrâneo ou conhecido vai atenuando. Após uma relação mais ou menos amiga e íntima e a consequente a gravidez de uma companheira, que lhe daria o seu primeiro filho, regressa a Lourenço Marques destroçado por algum tempo, e antes de terminar a sua licenciatura.

Não queria aqui apenas resumir a parte fulcral desde volume de Acta Est Fabula, mas sim fazer perceber as razões principais que trazem o seu autor a Portugal, até então um país imaginário. Que me desculpem os meus conterrâneos continentais, mas tenho de dizer que um ilhéu açoriano lê estas páginas com uma empatia que só a portugalidade à distância permite. Do mesmo modo, este embate com o território historicamente “pátrio” provoca-nos uma sensação de “estrangeirados”, não como os que saem para o estrangeiro e depois regressam, mas sim entre os que lá nunca tinham estado. Só muito devagar, e só com a mesma língua acontece a aproximação ao país no seu todo e na sua diversidade, mesmo no contexto da pequenez territorial. Mais do que qualquer outro factor de suposta “identidade”, será talvez a literatura numa língua comum que nos permite ou oferece uma “comunidade imaginária”, um sentido de pertença.

O momento maior e, para mim, mais brilhante desta narrativa de Eugénio Lisboa é quando conhece e encontra em Portalegre pela primeira vez o escritor que ele já tinha lido minuciosamente, e cuja obra, até hoje, o levaria a escrever algumas das suas mais memoráveis e fundamentais páginas ensaísticas, – José Régio. Quer em tertúlias de café quer em visitas a sua casa, a presença e o diálogo constantes com o autor de O Jogo da Cabra Cega e Poemas de Deus e do Diabo permitiram-lhe aturar o resto dos dias em tarefas do que ele chama uma “tropa fandanga” encarregada de defender o país de uma hipotética e nunca vinda invasão castelhana. Absorvi estas páginas pelo seu humor, sarcasmo e ironia sem par nesta incomparável escrita autobiográfica. Retive destes seus momentos na presença de Régio algo muito parecido com o que eu próprio senti na presença de Eugénio Lisboa pela primeira vez, quando a escritora Teresa Martins Marques aqui há uns anos, na Costa da Caparica, me apresentou ao próprio autor de Acta Est Fabula, que já era um mestre meu sem ele saber, que eu já o tinha na conta dos que me haviam servido de exemplo em tudo que à literatura e à leitura diz respeito, um “significant other”, que me deixou quase sem palavras e receio de me espalhar com qualquer observação menos própria ou minimamente inteligente. O que Eugénio Lisboa diz desses dias com José Régio, e depois de uma vida a estudar e a comentar a sua obra, é mais do que literatura no seu pleno poder, é muito mais do que confessionalismo literário e existencial. Deveria servir de exemplo às gerações presentes que se esquecem ou nunca sequer ouviram dizer que ao seu lado estiveram e estão alguns dos melhores escritores do mundo, que não há a mínima contradição em admirá-los como parecem admirar outras referências literárias e culturais nas mais longínquas e até desconhecidas geografias. Ficariam pelo menos a saber que a chamada globalização é mais um conceito abstracto do que uma realidade, que não há como fugir a uma história, a uma língua, e sobretudo a uma Tradição que nada tem de superior ou inferior a qualquer outra, mas é a nossa.

Os cinco volumes de Acta Est Fabula ficarão, assim, como uma obra literária referencial. Vai além da mera manipulação da nossa língua. Distingue-se pelo uso da palavra exacta, da frase escorreita, da citação acertada e pertinente, da mais profunda ideia tornada clara para qualquer leitor atento. É uma fonte de sabedoria sobre como ter-se sido um português à distância e em casa, será talvez um imaginário da nossa mais vincada maneira de ser e estar no mundo. Muitos de nós saímos para uma diáspora. Outros regressaram com esses mundos para sempre presentes, e viveram Portugal simultaneamente como “pátria” ou “exílio” renovado. É o preço que pagamos pela história que fizemos, e teremos, cada vez mais, de aguentar.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/Memórias-II-Lisboa (1947-1955), Guimarães, Opera Omnia, 2016.

Do amor e da loucura

Os livros esquecidos, as autores ignorados são artífices do destino que subsiste debaixo da superfície.

Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam

Para a Adelaide, que voa sempre comigo

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, Nem Todas As Baleias Voam, o mais recente romance de Afonso Cruz, tem pouco ou mesmo nada a ver com um desses adoráveis mamíferos marítimos que faria de Herman Melville o mais canónico de todos os autores americanos canónicos, nem sequer nos fica na memória como símbolo ou metáfora maior deste inusitado romance na nossa língua. A sua audácia temática e as suas linguagens, tão claras como obscuras, como que num poema de um T. S. Eliot menos sisudo, são uma espécie de exercício entre um modernismo literário cada vez mais distante e um pós-modernismo que insiste em combinar a habitual revisitação à História, tanto imaginada como real, por entre a ambiguidade de significações que os quase esquecidos new critics consideravam uma das marcas maiores de qualquer texto que valesse a pena ser lido, meditado, dissecado. Se é verdade que na realidade a CIA tentou as maiores e frequentemente cómicas loucuras para derrotar a ex-União Soviética, o narrador de Afonso Cruz desdobra-se brilhantemente em contador de estórias privadas e arquivista de supostos “documentos” em que o protagonista Erik Gould é recrutado para organizar concertos de jazz no outro lado da Cortina de Ferro durante os anos 70 do século passado, e assim tentar cativar “corações e mentes” (como diziam no tempo escuro do Vietname) para a traição ao comunismo e de seguida adesão ao Ocidente, querendo dizer aos Estados Unidos, a cidade de Deus e do Wall Street. Só que Nem Todas As Baleias Voam é muito mais do que isso. Por detrás da História estão os seres humanos na sua solidão, no seu destino pessoal entre quatro paredes ou passeado numa rua em que mais ninguém conta ou exerce sequer a mínima interferência ou influência nas obsessões ou no coração que quem olha sem ver, de quem sonha sem esperança. Gould, diz o relatório da CIA escrito em secções intermitentes na narrativa, tinha só música dentro de si, e não a queria, magoava-se a si próprio numa tentativa de redenção pelo pecado que era a sua arte, que nele residia e que o oprimia. Arte e amor eram a sua dor. Colocar os dedos num teclado do seu piano para conquistar outros e fazê-los abandonar o seu mundo, sofrer a angústia de não ter a mulher que ama e que o havia deixado, levando-o a uma perseguição obsessiva de um reencontro, como um Ahab atrás da baleia branca que também o havia mutilado para sempre. Ódio e amor, restando todos os outros num palco sem mais enredo ou desfecho. Erik Gould tem um filho de nome Tristam, e que vive em Paris com um casal amigo, também eles reduzidos a encontros ocasionais dentro da mesma casa, a cama mero poiso de descanso ou onde se espera mais morte do que vida. Este é um romance feito de memórias deliceradas, mas em que o humor das palavras e das acções são o contraponto à impossibilidade de vidas com sentido ou da normalidade com alguma felicidade no dia ou na noite. No centro de tudo e todos está a espera do protagonista pela sua amada, Natasha Zimina. Já a meio do romance estamos em 1969, “Quando [Neil] Armstrong – relembra o narrador – pisou a Lua pela primeira vez… A Lua dos amantes nunca mais seria a mesma”.

O que mais impressiona num romance como Nem Todas As Baleias Voam é a quase ausência do sentido ou “espírito do lugar”, dado o momento histórico que que lhe serve de referência e a política da loucura que na realidade nos ameaçava a todos. Estamos, naturalmente, na América, na Europa deste deste lado, e depois na outra então no lado de lá. É impressionante como quase não sentimos, não vivemos, essas geografias já meio lembradas meio esquecidas. Afonso Cruz faz-me repensar o que tinha sido sempre o mais fundamental na arte literária – o lugar era um mero lugar, as personagens, a sua vida interior, os seus lamentos ou as suas lutas pela sobrevivência, pela sua integridade, pelo seu sentimento de culpa ou pela tentativa de salvação é sempre o que mais lembramos de uma significante peça literária. Nunca será a tentativa de uns serviços secretos sem nome nem identidade definida que retemos destas suas páginas. Muito menos será a luta entre um bloco ideológico ou militar e outro que o leitor vai registar na memória numa leitura deste romance. Vão ser as poucas as figuras (re)inventadas e os seus dizeres e desejos que ficarão connosco, a dor da perda, o desespero do nada num mundo em que adivinhamos em ebulição, a música como refúgio, a arte em geral como a obra maior da nossa própria humanidade. O registo histórico destas páginas, incluindo o que poderá ser parte dos arquivos reais de um tempo e fúria, servem apenas como como referência secundária e, de certo modo, palco esclarecedor de certas motivações de cada um, um tempo que provocou ou não decisões e comportamentos, um tempo que tinha outras e bem diferentes modos de ser e estar. A História é uma abstração para cada um de nós. As nossas vidas quotidianas, os nossos desejos, os nossos sonhos são quase sempre demasiado íntimos. Por entre as chamadas massas e as vozes dominantes, permanece a nossa alma, a nossa vontade de uma normalidade feita à nossa medida e na companhia de quem amamos, ou são os nossos mais íntimos outros. Erik Gould tem a falta da sua mulher amada, o seu filho não tem nem presente nem passado, guarda numa caixa de sapatos objectos banais, o que mais o vai definir após a morte, o casal amigo com quem vive, Tsilia e Isaac Dresner tenta redescobrir o amor e o desejo. Dresner tem uma livraria que se chama Humilhados & Ofendidos. Pois. Fiódor Dostoievski, ou o chamamento à nossa humanidade, em todas as geografias de afectos e memórias, de loucura, raiva e solidão.

O Escritor – escreve o narrador sobre ele próprio, ou sobre um outro ser imaginário – dizia que não era ele quem escrevia, que não era ele o autor, que era um escravo da inspiração, que a sua mão se mexia comandada por uma força estranha à sua vontade, que aquelas histórias não lhe pertenciam. Era um processo extremamente doloroso, em que ele servia de veículo. Muitos escritores sentem exactamente a mesma coisa e garantem que a inspiração lhes escorre pelos braços, pelo corpo, pela cabeça, num processo mágico em que a escrita parece contornar a consciência para ser algo que sai dos dedos, como a tinta sai das pontas das canetas. E tudo isto é acompanhado de uma dor imensa, como um parto, com sangue e com suor. Com o Escritor, era exactamente isso que se passava. Era literalmente isso que se passava”.

Desde há alguns bons anos, e nas mais variadas línguas, que que se fala na “morte do romance”. No nosso país, Vergílio Ferreira também fez questão de o afirmar por mais de uma vez. Nunca entendi bem de onde vem esta ideia, de onde vem a ideia que a arte literária acaba com uma qualquer geração. Não queria ser injusto aqui, mas creio que certos autores de renome nos seus países, ao chegar a certa idade ou exaustão, ou, mais problemático ainda, para ser delicado aqui, achavam-se os últimos mestres da forma e do conteúdo. Pior ainda, um Francis Fukuyama afirmava no seu famoso O Fim da História E O Último Homem que tínhamos chegado ao fim da caminhada político-ideológica, o liberalismo sócio-económico tinha-se tornado o futuro, a universalidade da vontade humana atingia o seu auge, a sua meta final. As fantasias académicas também são frequentes, e conseguem por algum tempo impor-se. Nem a história chegou ao fim, nunca, nem arte deixará, nunca, de transfigurar a condição humana. Em todas as línguas e culturas a literatura parece estar cada vez mais viva. Em Portugal, há uma nova geração de escritores que nada devem a ninguém. Sabem dos seus antecessores nacionais, e sabem dos outros. Sabem agora que há mais mundo para além do seu. Sabem que a sua língua pode e deve dizer do mundo sem fronteiras e preferivelmente sem preconceitos de qualquer espécie. Viram o dito de Fernando Pessoa ao contrário: Sou de toda a parte, como sou daqui. Já falei de alguns deles que publicaram em tempos muito recentes. Lembro agora também Afonso Cruz. O resto da sua obra, na literatura, nas artes plásticas, filmes de animação, músico e cineasta completam a sua visão do tempo que é o nosso, da condição humana em sociedades globalizadas enquanto reafirmam a sua individualidade, a sua diferença no mosaico humano que, apesar de certa retórica política do momento, a grande arte literária representa nas mais variadas línguas e tradições.

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Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam, Lisboa, Companhia das Letras/Penguin Random House, 2016.

Quando lemos quem amamos

E o dia acordava radioso; gotas suspensas, como rosário de contas, compunham um rendilhado incerto entre as folhas da madrugada.

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

Vamberto Freitas

Não será nunca só a indizível saudade que me faz reler a mulher que amo, não será só querer recordar a sua viva voz nos dias que foram os nossos. Da sua silenciosa existência, agora sei eu, acompanha-a todos os dias, e nem sempre o choro me faz abraça-la e dizer-lhe boa noite, olho-a como quem olha para o luar no lado de fora da nossa janela, mas vendo a sua cara, a sua alma a flutuar perto e longe de mim. Fecho-me numa outra sala, e reabro os seus livros, fixo-me por longos instantes nas suas palavras, e todo um mundo renasce em mim. Sou agora a sua memória, mas a sua prosa e poesia continuam a ser uma parte indelével da minha vida. Não é pouco, é todo um universo a que pertenço, esse que foi nosso e só nosso, que me deixou sem nunca nada me pedir, que me dá e dará sempre sentido a eu ter sido alguém a quem foi permitido estar junto dela, a luz a colorir a nossa casa e a noite a calar fundo as palavras inúteis, fazendo do seu toque e olhar tudo o que significava vida vivida e o desejo de um outro amanhã.

Não, não se foi, nunca partiu, apenas adiou um nosso reencontro num infinito sem dor, o que numas das suas poesias chamou Viagem ao Centro do Mundo. Adormece agora sem mais se recordar desses momentos ou das palavras, ditas e escritas não para qualquer glória futura, só para que permanecesse o “instante suspenso”, como diria de si próprio um outro amigo nosso nas suas horas de inquietude e desejo. Já não chora nem sei se sonha, olha apenas o invisível, o Nada que é o seu mundo sem princípio nem fim, não sei se me conhece ou se me lembra alguma vez, do beijo que dou fico só com o sabor da sua cara e os seus olhos sem expressão. Está aí, e nela me vejo, sei e saberei sempre quem é. Sei que sou a sua memória. As palavras que me deixou escritas são o seu ser inteiro e intacto. Derrama em mim não só a mulher que é, entrega-me a única razão de estarmos aqui, entrega-me o mundo que só alguns tiveram e têm a felicidade de conhecer e de viver. É muito, quer seja o espaço todo na sua escuridão misteriosa ou na sua luminosidade celeste. Tudo o resto nada diz, nada significa, ninguém nos salva ou nos condena. A sua escrita não são meras palavras para mim. São todo o seu ser na beleza que de quando em quando vivemos num passado que se afasta cada vez mais. Esqueçamos o resto. Já não me conhece, como me parece algumas vezes? Conheço-a eu, e um beijo meigo, a minha voz entrando no seu quarto, ainda lhe faz sorrir e tentar olhar-me. Que mais poderia desejar um homem?

Quando releio o seu Viagem ao Centro do Mundo, publicado em 1994, revisito com ela não só o seu mais profundo ser, o seu interior em estado de felicidade e saudade, como revejo todas as geografias dos seus grandes afectos, das suas saudades, das suas perdas, da sua infância, e sobretudo da mulher em busca de si própria. Não, não me entristece, faz-me caminhar a seu lado, faz-me admirar ainda mais uma vida feita de partidas e chegadas, relembra-me dos seus mais íntimos desejos, dos seus mais sentidos desgostos e amores. Ela e a natureza estiveram sempre em comunhão sagrada, cada pedaço da terra de Deus o seu porto seguro, cada memória dos seus em longínquas paragens americanas, mais do que uma presença, faziam-na reviver um tempo que havia sido, mas nunca por mim esquecido. Entrava nas suas aulas para transmitir não apenas o saber dos livros, mas também a sua pessoa como ser vivo e personagem. A literatura não eram só palavras, era vida, era história, era arte, era empatia por quem a ouvia e com ela aprendia. Entrou na política com a convicção de que o mundo também era de todos, e todos o deveriam reconstruir, um pobre não era um pobre, era um homem ou uma mulher em busca da dignidade e da vivência a que tinha direito. O poder era para ser combatido ou utilizado no bem comum, não admirado e muito menos bajulado. Tinha os seus maus momentos e raiva momentânea? Entrava numa igreja, só, e meditava.

Eu quero viver desesperadamente

Pôr emoções em movimento

Marcar rituais idos e por vir

Festejar o entusiasmo e a alegria.

Quero subir escadas, partir perna

Vogar no mar, livre e etérea.

Quero o palpitar do coração

No rosto uma flor em cada festa.

Quero cair, levantar, sair,

Ao estático nunca pertencer

Gargalhada quero em eco vibrante

Ressoar mundos dentro de mim.

Quero o choro em catadupa volante

Seguido de um sorriso de marfim

Quero o gesto do tacto desenhado

em doação e entrega sem fim.

Alguns anos depois viria a injusta sentença, mas antes de resumir toda a sua sorte de vida no quase profético e mais ou menos autobiográfico romance Sorriso Por Dentro Da Noite debruçava-se sobre toda uma vida açoriana e americana transfiguradas, outra metáfora da história do povo açoriano no seu destino de andarilho, e de rejeição à miséria, à injustiça, à prepotência medíocre de terra-tenentes e comunidades sujeitas às maiores indignidades e isolamento. Como em quase toda a literatura da nossa geração, eram só os navios vistos à distância em mares bravos e rumo à América que significavam e metaforizavam a nossa salvação. A sua autora muitos anos antes insistiria em regressar aos seus Açores, e aqui desafiar essa história e esse destino que agora prometiam uma outra maneira de viver a terra que é a nossa. Na sua outra poesia De Emigração Tecido havia de dizer da dor de uma “exilada” numa Nova Iorque que tudo prometia, mas a um preço, por vezes, quase desumano. Cada um de nós viveu e vive a sua própria sorte. Quando nos conhecemos, essa poesia mexeu comigo de modo muito especial, e ela não a publicava. Ser professora de literatura numa universidade portuguesa trazia certos constrangimentos (que hoje, parece, já não existem), era a inveja de uns e certa petulância de outros. Entretanto, haveria eu de a convencer a tirá-la da gaveta, numa carta enviada ainda Califórnia, e que agora está na sua contracapa.

Li De Emigração Tecido – escrevi então – e felicito-me por uma poesia do tempo perdido e apreendido, esse inescapável tema da nossa existência e arte atlânticas, esse quebrar o isolamento físico e psíquico, para uma vez mais tão brilhantemente agarrar de novo a vida. Estarei muito fora da tua escrita poética quando aí vejo a dor como passo fundamental para uma renascença e contínua aventura que é a vida de cada um e de todos nós? Quando nessa tua linguagem límpida e não-sentimental negas o niilismo que a muitos está corroendo nos confusos dias (como diria o falecido James Baldwin) de indizível caos da colectividade? Vejo ainda nas tuas comovidas páginas De Emigração Tecido uma tremenda luta entre o indivíduo que insiste em sobreviver bem vivo e uma Natureza que, no meio desse mar, conspira perpetuamente para amordaçar o Homem, ora aterrorizando-o, ora oferecendo-lhe miragens da sua indescritível beleza. É um triunfo absoluto da Vida e da Beleza; uma ode linda à força humana, ao seu optimismo, determinação e vontade de viver”.

Por agora, não lhe queria dizer mais nada. Tenho aqui à minha frente todos os seus outros livros, e aberto, uma vez mais, O Sorriso Por Dentro Da Noite.

Oh, vovó, Quem me dera, quem me dera – escreve Adelaide – ser pequenina, feita de nada; regressar aos tabiques da parede, esconder-me como quando era criança, voltar ao velho quintal, respirar o aroma de cada flor, sorver o rosa-lilás do pessegueiro, e saborear o araçá da cor do girassol, Eu quero é desaparecer daqui, vovó”.

Tenho, repito, todos os seus livros em minha frente, para além dos inúmeros escritos espalhados pelas mais diversas revistas universitárias e literárias. Está no seu descanso no quarto ao lado – e eu na minha turbulência de saudade, respeito, homenagem e gratidão.

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Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite, Braga, Editora Ausência, 2004. Publicado a minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Março, 2017.

O Mundo e a ilha

David estava a chegar a Ponta Delgada, a principal cidade da mais populosa ilha dos Açores. Visitara vários locais no mundo, mas era o vislumbre daquela pacata urbe que o preenchia com um calor apenas transmitido por um lar.

Hélder Medeiros, A Balada do Ouro Nazi

Vamberto Freitas

Ao ler o novo romance de Hélder Medeiros, A Balada Do Ouro Nazi, Vencedor do Prémio Literário Letras em Movimento 2016, nunca tinha sentido Ponta Delgada, a vivência açoriana mais ou menos pós-moderna, como a sinto e a revejo nesta prosa. Há muito de genial nesta sua representação da vida actual, aqui e noutras partes. Tenho de dizer duas coisas sem quaisquer reticências ou qualificações: que entre os escritores de romances policiais em língua portuguesa dou preferência ao brasileiro Rubem Fonseca e, desde alguns anos, a este açoriano. Hélder nasceu aqui ao lado na freguesia de S. Roque, o lugar que adoptei para viver há mais de um quarto de século. Refiro estas circunstâncias pessoais sem grande importância para que, simplesmente, na ansiedade de grandeza que parece definir alguns ilhéus, não deixarmos de olhar para a nossa própria rua, e relembrar que lei ou história nenhuma diz que o que está para além do horizonte é que deve ser sempre bom, ou até “legítimo”. A arte literária aconteceu sempre nas mais variadas geografias, por vezes em cercos continentais muito mais isolados do que um pedaço de terra rodeada de mar por os todos. Parafraseando Pedro da Silveira, a quem roubei o título de um dos seus grandes livros de poesia para o inverter intencionalmente neste meu texto, na literatura soubemos sempre dar conta de nós, e não vou repetir mais nada sobre o cansativo tema, como também diria José Martins Garcia, que de quando em quando é trazido à baila. Não. Hélder Medeiros pertence a uma nova geração de escritores portugueses espalhados pelo continente, ilhas e até na diáspora que estão a mudar inevitável e irremediavelmente os nossos imaginários do arquipélago. A residir aqui nas ilhas, só para falar dos que mais atenção têm recebido nestes últimos anos, estão João Pedro Porto, Joel Neto e Nuno Costa Santos, que anda sempre entre o Livramento, também aqui ao lado da minha casa, e Lisboa.

A Balada do Ouro Nazi, estou em crer, confirma esse seu estatuto, e algo mais, ao lado dos melhores que entre nós estão a dar um novo fôlego à nossa literatura, ou pelo menos a levá-la para todos os lados, a quebrar o pequeno referencial que havia servido de imagens e metáforas a muita escrita nossa do passado. Para ele, como para os seus colegas, o mundo inteiro não passa de uma série de ilhas, às quais eles pertencem e vivem em directo ou à distância, sem ter de anunciar ou falar sequer do “universalismo” que tanto obceca alguns leitores e críticos portugueses, como se não soubéssemos que o coração ou a condição humana difere só no seu grau de bem-estar ou sofrimento, ou que os nossos medos e ansiedades são partilhadas por todos os outros. As ilhas em todos os oceanos têm estado sempre na melhor literatura ocidental, numa continuidade temática e estética que Édouard Glissant chamaria de “poética da relação”. Recebem os mais inesperados visitantes, e absorvem na sua cultura um pouco de todos, o seu olhar para além do horizonte um misto de saber e curiosidade, filhos e filhas saudavelmente híbridas que lhes vem desse pluralismo de relacionamentos. Só que os nossos imaginários passaram, uma vez mais, dos reflexos de ilhas pobres e que alguns supunham isoladas para os de convivência diária de línguas e tradições sem fronteiras. Se continuamos a olhar, como sempre o fizemos na nossa historicidade, para o exterior como espaços da nossa salvação em tempos de crise generalizada, a verdade é que a passagem para a esse quotidiano inclui os que já não são os “outros”, estejam eles fisicamente na ilha, ou a milhares de quilómetros. A ilha é, mais do que nunca, o mundo. Tudo o que tínhamos assumido no passado caiu com a globalização, no bom e mau sentido. O romantismo com que alguns viam o suposto isolamento dos ilhéus já não pode ser o eixo axiológico do nosso pensamento, e muito menos da nossa literatura. Fernando Aires falava-nos “numa cidade cercada”. Hélder Medeiros reinventa a Ponta Delgada dos nossos dias como sendo a cidade solitária, sentida e reconhecida imagisticamente pelo leitor que a conhece, e ainda mais, talvez, por quem não a conhece. Dentro dela, coexistem todos os personagens de qualquer outra urbe maior ou menor – os oportunistas bem formados ou encartados, a presunção de uma elite nativa que já não existe, o poeta regressado às origens mas incapaz de fugir do seu labirinto interior, um ex-polícia desiludido mas sempre atento ao seu meio, pequenos e grandes criminosos nados e criados na ilha ou de outras nacionalidades, a mulher raivosa e a amante generosa, a violência que cada um destes personagens auto-inflige a si próprio, ou então, como na trama deste belo romance, lhes é infligida por outros até à morte mais banal ou a assassínio mais requintado. Achei de grande astúcia o facto de uma série de eventos imaginados, mas de todo plausíveis, que abalam Ponta Delgada nos nossos dias, a palavra “repratriado” aparece uma só vez, e mesmo assim só para o descartar como um dos responsáveis pela violência em curso, como que num deliberado e civilizado combate a estereótipos que classificam à priori este e outros grupos, aqui e em toda a parte. Se nas nossas páginas mais antigas era o barco que partia com os nossos pobres e inconformados, é agora o inverso – o navio caminha para cá, mas nem sempre traz tudo de bom. Só que são outros de cá que colaboram, os seus motivos vindos de fraquezas pessoais e desde logo reconhecíveis pelos mais letrados, ou os que optaram por viver e enriquecer fora do sistema e da sociedade a que pertencem. O autor consegue a proeza de piscar o olho, ora com seriedade ora num riso de quem sabe que o “passado nunca morre” mas tudo se modificou ou evoluiu na nossa sociedade, o que tínhamos sob o conceito de açorianidade permanece mas crescentemente só por entre sombras ominosas nas calçadas das nossas cidade, e até nos campos da nossa ruralidade, toda a bagagem boa e má das últimas décadas aqui também descarregada.

Por certo que não vou estampar aqui qualquer pormenor deste romance, só insinuar os seus contextos e estilo muito próprio. A caminho da América vai um carregamento ilícito de ouro nazi pertencente a um aristocrata inglês que simpatizara com o regime hitleriano e o seu projecto. Isso antes de ser desviado a meio atlântico para Ponta Delgada o navio de nome Hepatica por um bando criminoso denominado Os Fantasmas de Paris, e depois em São Miguel O Carniceiro do Bosque das Crianças. A corrupção e a infiltração criminosa são generalizadas, desde o Banco de Portugal às polícias nacionais e locais. Andam todos à procura do dinheiro e do prestígio social dominante, aqui metaforizado numa secreta Ordem do Arcanjo, que vai buscar as suas fantasias ao jesuíta açoriano dos séculos XVI e XVII, Bento de Góis. Intermitentemente, o narrador vai comentando a História, e crê que o ouro nazi nada tem a ver com nacionalidade ou regime de qualquer espécie – tem tudo a ver com o poder universal do metal brilhante, que para nós a Ocidente vem de tempos imemoriais até ao Velho Testamento, a mensagem do castigo dando sempre lugar à fantasia da luxúria. Em Ponta Delgada juntam-se indivíduos açorianos e de outras nacionalidades, principalmente franceses, italianos e suecos para levar a cabo o grande roubo de ouro que havia sido roubado a outros, preparado para tudo que garantisse o seu sucesso, o sonho de se tornarem multi-bilionários, termo que entrou ultimamente em quase todas as nossas conversas políticas. Tal como no caso do “repatriado” sem nome, a nacionalidade de cada um reduz-se a um mero detalhe sem qualquer importância. Há momentos aqui de humor hilariante, como aliás seria de esperar de um autor como Hélder Medeiros. Um deles, para mim, é o poeta regressado de Lisboa à ilha e metido num gabinete bancário a olhar para folhas de excel que nada lhe dizem, e que vira cúmplice e assassino do bando, culpando todos e todos em seu redor pelo seu falhanço literário em ser reconhecido cá dentro ou lá fora.

Tinha de contextualizar em vários espaços e tradições A Balada do Ouro Nazi. Os pormenores e o prazer do texto só poderão ser retirados da suas páginas. Juntamente com os seus dois primeiros romances, Solução Primária e Elemento Alpha: A Origem, Hélder Medeiros está a cavar fundo o seu e nosso viveiro literário. Criador de personagens inesquecíveis, regressam quase todos eles do mundo para casa – mas nunca se livram dele.

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Hélder Medeiros, A Balada do Ouro Nazi, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

Uma outra América e as suas outras raparigas

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Disse que o sítio para onde íamos tinha a ver com um modo de vida. Russell estava a ensiná-las a descobrir um caminho para a verdade…

Emma Cline, As Raparigas

Vamberto Freitas

Estamos em Julho de 1969, um pouco a norte de São Francisco e da revolução psicadélica e política em curso no bairro Haight-Ashbury, e um pouco mais a norte na famosa e única lembrança digna e duradoura ainda existente, a City Lights Bookstore, do poeta beat Lawrence Ferlingheti, esse que conjuntamente com a outra figura icónica da época social e cultural mais tremida da América, Allen Ginsberg, terão sido dos primeiros escritores daqueles lados a conhecerem e a reagirem à obra maior de Fernando Pessoa. Menciono estes factos relacionados com o romance aqui em foco, As Raparigas, de Emma Cline, para que me permitam uma breve intrusão de quem nunca teve nada a ver nem com aquelas geografias, com a filosofia de vida que dominava aquelas ruas, e muito menos ainda com a imaginária estética geral daqueles tempos.

Eu tinha emigrado para os EUA com toda a minha família aos 13 anos de idade, em 1964, e no tempo ficcional desta ficção creio ter sido o ano em que entrei numa pequena faculdade muito mais a sul, a alguma distância de Los Angeles, e vivia numa cidade chamada Chino, cuja única fama maior era sua grande prisão nos campos também rodeados de vacarias maioritariamente de imigrantes e luso-descendentes, e onde o meu pai trabalhava como um escravo. Eu via, ouvia e lia o que ia à minha volta, e fugia de tudo e de todos, um rapaz açoriano inseguro do seu lugar numa nova e estranha sociedade, mas convicto que o futuro residia nas páginas dos livros e na carreira convencional que então sonhava ser a minha um dia. Podia ouvir e admirar os Doors, com o seu estrondoso sucesso Light my fire, podia até delirar com Purple Haze, de Jimmy Hendrix (excuse me while I kiss the sky), podia ainda saber que o White Rabbit dos Jefferson Airplane (também mencionado neste romance) tinha tudo a ver com os trips da heroína ou do ácido em voga, mas eu tinha optado pelo conhecimento à distância, mesmo que em festas bem mais amenas era impossível evitar o cheiro da erva constantemente fumada, com uma lata de cerveja na outra mão.

Recordo-me do que, anos mais tarde, já numa fase de estudos pós-graduados e como professor numa boa escola secundária me diria um antigo colega: chegámos aqui mais ou menos saudáveis, não fritamos o nosso cérebro, e nunca vimos o interior de uma cadeia por razões de malfeitoria a outros. Éramos sem dúvida o outro lado da revolução: os filhos de uma classe média baixa ou remediada a aproveitar o que o Sistema nos oferecia, mas sem nunca deixarmos que uma consciência política à esquerda deixasse de nos guiar em certos valores existenciais, na visão de uma sociedade sem guerra nem fome, com mais igualdade e menos materialismo acéfalo. Los Angeles representava isso mesmo para nós nesse outro lado da barricada. Alguns sábados à noite visitávamos a Sunset ou a Hollywood Boulevard para apreciarmos as alegres andanças de uns que pregavam a paz e o amor livre, topando outros em assustadoras comas químicas nos passeios da cidade, a mesma mítica Hollywood que passava para o resto do mundo uma imagem bem diferente: ruas limpas e ladeadas de grandes casas, as palmeiras a abanar romanticamente ao vento, o suposto glamour do cinema e teatros adjuntos. Sim, sabia e conhecia essa América, mas nada com ela queria. De cabelo cortado, calças limpas e sapatos engraxados, nós é que então deveríamos parecer os freaks quadrados de uma sociedade a arder.

As Raparigas informa os seus leitores que se trata de um primeiro romance, mas não deixemos que isso influencie a leitura de cada uma das suas páginas, da sua prosa estilística algures entre memórias reinventadas e poesia pura. A sua autora é uma jovem nascida em 1989, mas já traz no currículo literário algum trabalho na The New Yorker e outra ficção publicada em revistas tão prestigiadas e exigentes como The Paris Review ou Tin House. O romance tem como referência primeira o caso de Charles Manson e as mulheres jovens que com ele viviam nas mais degradantes condições algures no norte da Califórnia, num rancho abandonado e fora de vista. A sua narradora chama-se Evie Boyd, e foi uma das sobreviventes daquela noite em Julho, em que duas famílias foram barbaramente assassinadas à faca, a sangue frio e sem qualquer remorso até aos dias de hoje, mesmo que seja referido que Suzanne, aqui o seu nome ficticio, se tenha convertido e praticado uma religiosidade cristã. O que mais deverá interessar os seus leitores, para além da prosa brilhante de Emma Cline, é uma outra originalidade adentro da tradição literária americana. A narrativa parte do presente, quando Evie já está só e vive por alguns dias na casa de um amigo juntamente com o filho e namorada desse amigo, e relembra os seus dias de fascínio, aproximação e eventual convivência com o grupo do rancho, absolutamente apaixonada por Suzanne, a que viria, numa viragem singular dos acontecimentos, a impedir que a sua admiradora participasse na carnificina de Los Angeles. Por certo que já é a mulher muito mais velha a relembrar o que então sentia aos catorze anos de idade, mas força-nos a mergulhar na nossa própria consciência e memórias, o que torna toda a estória pessoal da narradora ainda mais plausível, acreditável, a normalidade dentro da anormalidade que são os dias de qualquer adolescente numa sociedade que então encenava as mais radicais mudanças de vida interna enquanto prosseguia com a dilacerante guerra no Vietname, e perpetuava a luta ideológica entre dois blocos mundiais cujas armas poderiam obliterar para sempre boa parte da humanidade. A falsa revolta das seitas, como a de Charles Manson (de nome Russell nesta ficção) que  proliferavam na Califórnia como ervas daninhas num jardim vergado à tempestade que então parecia apocalítica, como na poesia cantada de Jim Morrison, tinha a morte como culto, a violência como vingança contra uma sociedade que exigia de cada um de nós, acima de tudo, serenidade e a força interior que permitia aos nossos pais lutar dia e noite pela vida, e a nós a persistência livresca ou intelectual para a felicidade pessoal e para o contributo possível a um novo e mais tranquilizante modo de vida, o sentido de pertença aos que escreviam e liam os livros para algo mais do que o prazer egoísta da solidão na companhia de meros personagens ou na espreita de vidas e geografias imaginárias. As Raparigas é isso, e muito mais. Creio tratar-se de um romance que ficará como um clássico de época, permitindo-nos mergulhar não só no seu momento histórico, mas sobretudo, uma vez mais, na consciência de adolescentes e dos seus “mentores” nos anos loucos e de vidas à deriva.

“Ele tinha querido – diz a narradora a dada altura, numa reavaliação do seu relacionamento com o próprio pai, a memória reavivada daqueles dias e da maneira de estar na vida de uma adolescente rebelde – alguma coisa. Como queria Suzanne. Ou a minha mãe queria Frank. Queríamos coisas e não podíamos fazer nada contra isso, porque havia a nossa vida, que tinham-nos apenas a nós mesmos, e como poderíamos alguma vez convencer-nos de que aquilo que queríamos estava errado?”.

Há qualquer coisa no tom destas linguagens, contextualizações ligadas à arte daqueles momentos e subtis chamamentos históricos que tornam a prosa de As Raparigas numa das poucas obras literárias norte-americanas da actualidade como uma peça inclinada a um regresso ao existencialismo de Jean Paul Sartre dos anos de radicalidade política e busca por uma saída tanto ideológica como pessoal. A redefinição consciente de valores que permitissem a cada indivíduo decidir o seu próprio destino, e ainda mais a sua pertença a um mundo maior no processo de rejeição total de todo um passado e na reinvenção de outro. A prosa de Emma Cline faz-me ainda relembrar as consequências da violência de O Homem Unidimensional, do alemão Herbert Marcuse, que leccionava e escrevia ali bem perto na mesma Califórnia aqui representada. Isto não é só um romance. É um testemunho entre a realidade e a ficção dos tempos que abalaram o mundo, e nos fizeram o que somos hoje, mesmo perante as claras ameaças de um regresso brutal a sociedades que nos pareciam ter aprendido com a história e a literatura que são indeléveis na nossa memória magoada.

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Emma Cline, As Raparigas (tradução de José Vieira de Lima), Lisboa, Porto Editora, 2016.

 

 

Idas e vindas: à conversa com Victor Rui Dores*

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O crítico literário é uma espécie em vias de extinção?

Victor Rui Dores, “Conversas Açorianas”

Vamberto Freitas

Professor universitário, intelectual, ensaísta, crítico literário e cultural, cronista e tradutor, o meu convidado de hoje é sinónimo de vocação ensaística cultivada com paixão, e de crítica literária séria e generosamente partilhada. É um autor que possui sensibilidade estética e capacidade criativa, está bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, sabendo incorporar nos seus discursos culturais os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação literária.

São décadas de labor estatístico que fazem dele um dos melhores estudiosos da literatura norte-americana e de expressão açoriana. Eu vou estar aqui à conversa com o terceirense Vamberto Freitas.

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Victor Rui Dores Bem-vindo ao programa, Vamberto Freitas. Tenho muito gosto em ter-te hoje aqui comigo. O crítico literário é uma espécie em vias de extinção?

Vamberto Freitas – Não. Só provavelmente irrelevantes num contexto de bancos criminosos, dinheiro e preocupações afins de uma estúpida e odiosa classe dominante, sem valores, sem dignidade, e muito menos sem sensibilidade para o tudo o resto que nos faz seres humanos merecedores da vida.

VRD És reconhecidamente um ensaísta de primeira grandeza. Em jornais, em livros e em fóruns de debate, estudas autores de ambos os lados do Atlântico, de forma contínua e continuada. Posso saber quantos livros, em média, lês por mês?

VF – Depende. Mas na generalidade são quatro livros. Há semanas que leio menos, outras ainda mais. Durante as férias de verão reentro sempre no Açoriano Oriental (e agora no jornal “I” e semanário “SOL”) com cinco ou seis textos já em carteira. Isso permite-me uma certa folga.

VRD O que é para ti um bom livro?

VF – Para mim literatura e sociedade são indissociáveis. O bom livro será uma representação artística ou uma poetização do seu lugar e tempo, ou então ainda um ensaio ou ensaios de fôlego que nos reinterpretam esse mesmo tempo e lugar, que pode ser a nossa rua ou o mundo inteiro.

VRD Só escreves sobre os livros de que gostas incondicionalmente?

VF – Sim. A determinada altura, aqui há uns anos, decidi que a vida era curta demais e o mundo (incluindo naturalmente os países de língua portuguesa), está cheio de grandes livros, de grande literatura. O resto não traz mal nenhum a ninguém, mas não lhes presto atenção. É claro que não tenho tempo de escrever sobre muitos livros bons, e que me são referências essenciais.

VRD – Nasceste nas Fontinhas, ilha Terceira e, em 1964, com 13 anos de idade, emigraste com a tua família para os Estados Unidos da América. Na California State University, em Fullerton, completaste a tua licenciatura em Estudos Latino-Americanos e uma especialização em Inglês. Leccionaste línguas e literaturas no ensino secundário norte-americano, ao mesmo tempo que desenvolvias profícua atividade nos jornais da comunidade, na rádio portuguesa, na organização de congressos estaduais sobre o ensino bilingue e sobre a problemática da imigração. Durante largos anos foste correspondente e colaborador do suplemento literário do Diário de Notícias (Lisboa). Diz-me uma coisa: onde é que, neste filme, surge, na tua vida, o incontornável Onésimo Teotónio Almeida?

VF – A meados dos anos 70, num congresso sobre a educação luso-americana na Califórnia. Creio que foi o último em que participou Jorge de Sena, em 1978. Um dos meus primeiros textos críticos publicados em Portugal foi precisamente sobre o Ah! Mònim Dum Corisco, do Onésimo, e saiu na extinta revista A Memória da Água-Viva, então coordenada e dirigida pelo Urbano Bettencourt e pelo J. H. Santos Barros. Onésimo foi e será sempre, a partir desse momento, para além de um queridíssimo amigo, uma das minhas maiores influências e referências intelectuais.

VRD – Com quem mais fizeste a tua recruta literária? Que autores te marcaram e influenciaram no campo da ensaística?

VF – Em primeiro lugar, o grande Edmund Wilson. Depois George Monteiro e a minha antiga e falecida professora e mentora Nancy T. Baden. Mais tarde, os portugueses João Gaspar Simões, Eduardo Lourenço, Teresa Martins Marques e, nos últimos anos, o professor e ensaísta João Barrento. Noutro registo estritamente literário, Eugénio Lisboa. Entre uns tantos outros, evidentemente.

VRD Por amor a uma mulher, chamada Adelaide Freitas, regressas aos Açores, fixas residência na ilha de São Miguel, onde és, desde 1991, Leitor de Língua Inglesa na Universidade dos Açores. Entre 1995 e 2000 desenvolveste, a par de outras actividades, papel de grande relevo no suplementarismo cultural, pois criaste e coordenaste o SAC, Suplemento Açoriano de Cultura, no jornal Correio dos Açores, projecto que te permitiu estudar o imaginário dos escritores açorianos e contribuiu, decisivamente, para dar a conhecer a força da afirmação cultural açoriana. Nunca te arrependeste de ter regressado às ilhas?

VF – Nunca. Não trocaria as minhas ilhas açorianas por nenhum outro lugar no mundo. Desde o início aqui em São Miguel tive provas de amizade e afectos que nunca tinha tido em mais lugar algum por onde passei e vivi.

VRD Com o boom das novas tecnologias da comunicação e da informação, os jornais deixaram de ter suplementos culturais e espaços de referência para a crítica literária. Entre nós, a excepção vai para o jornal Açoriano Oriental, onde manténs uma coluna literária e cultural, borderCrossings: leituras transatlânticas de que resultaram estes 3 volumes; e é também no Açoriano Oriental onde, juntamente com o Álamo de Oliveira, manténs a página literária “Artes & Letras”. É um trabalho que… não te paga a renda da casa…

VF – Não. Mas é uma obrigação minha contribuir para os arquivos criativos e literários da minha terra, e do meu país no seu todo. Recebo um ordenado como docente universitário que paga a minha existência como professor e ensaísta.

VRD Continuemos a lançar alguns olhares sobre os teus restantes livros.

VF – São esse meu tal contributo ao registo literário, e não só, do meu tempo e dos lugares por onde passei e vivi. Resta a outros avaliar o seu valor. Posso dizer-te que até hoje só tenho razões para sentir gratidão pelo que sobre o meu trabalho têm escrito alguns outros no meu país, nos Estados Unidos e no Brasil.

VRD – Vivemos um tempo em que o gosto literário vai dando espaço à moda literária. Passaram agora ao ataque os “repórteres culturais” que formam lobbies na grande imprensa e são aspirantes a gestores de opinião. Geralmente pertencem ao jet set literário da capital, e é óbvio que não fazem apreciação estética, limitam-se a escrever notas de leitura… Ou seja, estão preocupados com tudo, menos com intrínsecos critérios de qualidade das obras analisadas. Mas há pior: refiro-me a uma certa crítica académica, pouco ou nada acessível ao leitor comum, enrolada em hermenêuticas e que vai morrendo a falar sozinha… Ora, tu não vais por aí e não te encaixas nestas duas tendências, e quero louvar-te por isso. E depois escreves num português vivíssimo, em estilo limpo, de grande finura lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias. Foi a tua formação anglo-americana que te fez ser assim?

VF – Não só, mas estou em crer que foi a minha formação americana que mais me influenciou, em primeiro plano, em tudo o que faço na escrita.

VRD Nunca te deu para experimentar a ficção narrativa? Não é obviamente o teu caso, mas há quem diga que os críticos literários são romancistas frustrados…

VF – Não, não sou um romancista frustrado. Só frustrado.

VRD O reconhecimento público do teu trabalho está no facto de a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores te ter conferido, em 2015, a Insígnia Autonómica de Mérito Profissional. E agora, Vamberto?

VF – Agora vou continuar a trabalhar ainda com mais energia e respeito na divulgação crítica da nossa cultura e tradição literária. Sinto-me muito honrado, muito grato, por os representantes máximos do nosso povo na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, os representantes da nossa sociedade democrática, terem reconhecido o meu trabalho. Acredite-me, um gesto oficial destes vindo de casa vale por tudo o resto.

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*Este diálogo com Victor Rui Dores destina-se ao programa “Conversas Açorianas”, a ser transmitido pela RTP/Açores. O que então disse em directo e está gravado poderá não coincidir com algumas das minhas respostas aqui, mas estas são por certo um complemento que acho legítimo.

Revisitação a Edmund Wilson: literatura e crítica americana

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Evitem os cânones académicos, pois tendem sempre manter a literatura como um acto provinciano.

Edmund Wilson, The Bit Between My Teeth

Vamberto Freitas

Segundo muitos dos estudiosos da vida intelectual norte-americana do século XX, Edmund Wilson terá sido o crítico literário e cultural talvez de maior repercussão pública no seu país desde sempre até aos nossos dias. Com efeito, Wilson é o único crítico que Harold Bloom, no seu O Cânone Ocidental, inclui como um possível ou previsível estatuto canónico nos Estados Unidos. Bloom avança com dois títulos que lhe parecem permanentes no referencial crítico e intelectual norte-americano: The Shores of Light (1952) e Patriotic Gore: Studies in the Literature of the Civil War (1962). O primeiro é uma recolha dos ensaios e recensões publicadas durante os anos 20, e o segundo o que muitos consideram ser o seu magno opus, outra recolha sistemática de ensaios que começaram a ser escritos na década de 40 e que abordam a guerra secessionista do Sul (1861-1865) através da literatura considerada “menor” (diários, cartas, contos, romances e até memórias militares) mas reveladora do verdadeiro estado de espírito imediatamente antes, durante e depois do grande conflito. Menciono aqui Patriotic Gore um pouco mais detalhadamente porque, de certo modo, é também uma obra que se integra nesta fase da escrita wilsoniana, que aqui denomino como “escrita minoritária”, que tem a ver sobretudo com a sua viragem para a investigação e divulgação em periódicos de grande tiragem e influência, como o The New Yorker, nessa fase derradeira da sua escrita, mas sempre dirigidos à “classe culta” norte-americana, de que falava o ensaísta Lionel Trilling, e depois rescritos e republicados em forma de livro, das condições políticas, culturais e literárias de determinados grupos nacionais e étnicos de preferias dentro e fora dos Estados Unidos. Por outro lado, raras são ainda hoje as referências aos estudos literários nos Estados Unidos, em recensões ou ensaios de fôlego acerca da literatura norte-americana de autores seus contemporâneos que não tenham eventualmente de lembrar a uns e relembrar a outros o quase “esmagador” estatuto intelectual do autor de Axle’s Castle e de To The Finland Station.

No início da sua carreira nos anos 20 do século passado Wilson andou no percalço luminoso de F. S. Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos, Dawn Powell e Dorothy Parker, entre outros da modernidade norte-americana. Edmund Wilson será um dos poucos críticos que sobrevive com pujança aos próprios escritores que ele um dia recenseou ou criticou. Poucos críticos e ensaístas (ou jornalistas, como Wilson preferia ser conhecido e se auto-denominava) da sua ou de qualquer outra geração terão tido até aos dias de hoje tantos dos seus livros em circulação activa contínua. A sua vastíssima obra de crítica e história literária e cultural – que já foi postumamente organizada e publicada por vários estudiosos que a ela se dedicam – vai desde a prosa e poesia de The Undertaker’s Garland, de 1922, até à ficção que permanecia na gaveta, e que um dia fora um grande projecto de Wilson, o romance The Higher Jazz. Entre algumas outras obras biográficas publicadas durante vários anos, saiu finalmente em 2005 a grande e autorizada biografia Edmund Wilson: A Life In Literature, do também já falecido Lewis M. Dabney. professor durante décadas no Departamento de Inglês na Universidade de Wyoming.

No que toca ao presente dos estudos sobre Wilson e a sua obra, assim como ao seu estatuto na comunidade intelectual norte-americana, dentro e fora das universidades, a obra de Wilson na sua generalidade, permanece como referência obrigatória entre algumas das figuras literárias de renome mundial, que também têm escrito sobre ele com consistência ao longo dos anos, como, por exemplo, o recentemente falecido romancista John Updike e o crítico Frank Kermode. Em 1995 celebrou-se na Universidade de Princeton, a alma mater do autor, e em certas instituições nova-iorquinas, o seu centenário com vários simpósios que incluíram a participação activa e directa de universitários especializados na sua obra, intelectuais públicos, críticos literários, e romancistas como Toni Morrison. As mais importantes intervenções desse evento viriam pouco depois a ser coligidas e publicadas em 1997 em Edmund Wilson: Centennial Reflections. Com efeito, para além de ter sido Wilson a introduzir com sistematização o modernismo literário europeu nos Estados Unidos (Proust, Joyce, Eliot e Valery, entre outros incluídos no já referido Axle’s Castle), ele viria a exercer, repita-se, a mais profunda influência e a ser por outros considerado a “consciência” maior entre os escritores modernistas americanos da sua época, e mais tarde ainda como que a principal referência dos chamados New York Intellectuals, quase todos descendentes de judeus europeus imigrados, em que se reviam particularmente o já referido Lionel Trilling e Alfred Kazin. Foi ainda uma presença relevante nos referenciais literários de escritores tão icónicos do século passado americano como Gore Vidal e Joan Didion. Wilson, depois de um longo período de marginalização preconceituosa nas universidades norte-americanas, permanece como figura verdadeiramente incontornável e provavelmente passará a ser sujeito e objecto de teses e outros estudos, ironicamente e apesar de todas as queixas de Wilson contra o mundo académico em geral. A sua obra começava já na década de 60 a receber a atenção merecida em várias universidades do país, em obras que depois seriam publicadas em editoras prestigiadas. O conflito de Wilson contra os universitários conheceria a sua fase mais dramática quando, em 1968, ele publica em dois números do The New York Review of Books (de 26 de Setembro e de 10 de Outubro de 1968) o seu hoje famoso panfleto, The Fruits of the MLA (Modern Language Association) no qual atacava o trabalho que ele considerava academicamente viciado em volta de edições críticas universitárias dos clássicos americanos, acreditando que o aparato pretensamente “científico” afastaria o leitor em vez de o aproximar da sua herança literária e cultural. The American Library, fundada em 1982, e agora especializada, um tanto ironicamente, em edições críticas mas simples e atraentes da obra completa de autores norte-americanos escolhidos, havia sido idealizada por ele próprio, e começou há poucos anos a juntar em grossos volumes algumas das suas mais significantes páginas ensaísticas, as que se tornaram efectivamente fonte inescapável da sua prosa crítica e criativa.

A obra de Wilson como discurso eminentemente público nos Estados Unidos é de tal assombro na sua abrangência e influência que sintetizá-la em Portugal hoje tornar-se-á extremamente difícil, pois ele sempre contrariou outra das tendências cimentadas pelas universidades: foi demasiado “prolífico”, até que se veja quão interligada e sequencial é de facto todo o seu projecto crítico e historicista. David Bromwich, no ensaio “Wilson´s Modernism”, retoma a ideia de Adorno que um crítico deve simultaneamente interiorizar o momento assim como, ou sobretudo, a Tradição da sua língua e cultura, enquanto corta radicalmente com todas as assunções desse tempo, rasgando outras vias intelectuais criativas. Acrescenta Bromwich: “A tendência de nos preocuparmos com a interiorização do momento (fashion) poderá levar do mesmo modo a uma exteriorização, ou seja, à necessidade compulsiva de contestação e criação do que é novo, tal como claramente acontece com ou nas teorias pós-modernistas, ou em obras executadas em obediência a essas teorias. Wilson foi um corajoso historiador da resistência do artista às modas, e parte da verdade que ele nos passou talvez seja o que mais nele hoje esquecemos”.

Se Edmund Wilson havia construído toda a sua reputação como observador e divulgador das minorias modernistas em Nova Iorque a partir dos anos 20, na precisa altura em ele ingressa nas revistas Vanity Fair, Dial e The New Republic, atravessa depois na década de 40 um longo período de indefinição, se bem que extremamente produtivo, em que vai saltitando intelectualmente como que para evitar uma “paralisia” intelectual, mas em busca já de novas perspectivas e zonas de descoberta literária e cultural. Wilson regressa eventualmente à ribalta, principalmente nas páginas de The New Yorker, na qual ingressa em 1943 como ensaísta crítico. No fim dessa década, até à sua morte em 1972, o que só se poderá chamar aqui uma espécie de antevisão do que ironicamente dominaria o pensamento universitário e institucional que tanto o haviam rejeitado e marginalizado, Wilson começava a dar sinais desse pós-modernismo a que alude Bromwich, na sua fase menos desconstrucionista e mais afirmativa, na defesa das literaturas e historicidade global das minorias de toda a ordem e em toda parte, redefinindo e interligando para sempre centros e periferias, canonicidade e marginalidade. Creio que Bromwich peca tão-só por uma omissão: Wilson foi de facto o crítico-historiador cimeiro da “resistência” a determinado momento e ante algumas modas passageiras na arte e em certo “culturalismo” redutor e, agora sim, provinciano.

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Edmund Wilson: Literary Essays And Reviews Of The 1930s & 40s, New York, The Library of America, 2007. Este é o II volume destas edições definitivas.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Janeiro de 2017.

Jonathan Franzen e a comédia americana

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Ninguém poderá suster com facilidade e sem falhar tal visão cómica. Mas Franzen consegue-o num grau suficiente – com inteligência, pose, precisão cirúrgica e um auto-conhecimento temperado pela auto-depreciação – justificando assim a atenção extraordinária que a sua obra lhe tem trazido até hoje.

Philip Weinstein, Jonathan Franzen: The Comedy of Rage

Vamberto Freitas

Não deve ser fácil ser Jonathan Franzen, o escritor norte-americano que ainda há pouco publicou o gigantesco caleidoscópio social sob o título de Purity, e que também foi publicado no nosso país no fim de 2015. Se a tradução da D. Quixote manteve o título original em inglês poderá ter a ver com a impossibilidade de certas semânticas em contextos culturais diferentes, mesmo que o dicionário nos dê o vocábulo equivalente e com um significado definido do mesmo modo. A busca de “pureza” num mundo “sujo” não tem necessariamente nacionalidade, mas também as mais antigas civilizações, pelo menos do velho continente europeu, já atingiram o que não se sabe bem se é um estágio de cinismo absoluto e perpétuo, ou simplesmente certos ensinamentos da História quanto a possibilidades de uma humanidade bondosa. Jean Paul Sartre trabalhou e retrabalhou a ideia existencialista de que num mundo absurdo, caótico, cabe ao indivíduo reencontrar-se consigo próprio criando e recriando os valores que o hão-de guiar vida fora, e sobretudo decidir o seu lugar na comunidade a que pertence, ou, por outras palavras, reinventar-se. Não é nada comum uma biografia crítica de um autor ainda mais ou menos novo como Franzen, mas a sua estatura entre os leitores e a crítica mundiais já o justificam, particularmente quando se trata de uma obra que se demarcou e se impôs de modo raro na literatura norte-americana. Com o romance The Corrections/As Correções Franzen passou de um escritor preocupado com a sua aceitação e reputação entre uma pequena elite cultural – The Twenthy-Seven City e Strong Motion – para um nome de imediato reconhecido no seu país. Em 2010, a revista Time, essa acreditada voz ideológica de uma classe-média que hoje não se sabe bem o que pensa ou onde se coloca no espectro político da sua sociedade, colocou Franzen na sua capa com o título de “Great American Novelist/Grande Romancista Americano”, retirando o autor da sua própria confusão quanto ao seu lugar no por enquanto provisório cânone norte-americano. Franzen reinventou-se com o seu primeiro romance dirigido tanto ao maior número possível de leitores como a uma crítica institucional ou de grande alcance nos jornais e revistas do país. Este Jonathan Franzen: The Comedy of Rage/ Jonathan Franzen: A Comédia da Fúria, que saiu por volta dos mesmos dias de Purity, traça essa “evolução” do escritor, e principalmente a muito antiga questão da relação entre literatura e sociedade, desfiando o novelo biográfico do autor e recolocando-o na transfiguração da sua ficção, toda ela escrita na indefinição de uma complexa pós-modernidade. Uma biografia crítica, suponho, significa, em primeiro lugar, de como a literatura continua a ser importante, ou mesmo consequente, para a sociedade de onde brota e a quem se dirige. Por certo que o autor aqui em foco já é mundial, e recebeu alguma atenção crítica e jornalística no nosso próprio país. Os nossos estudos e cultura literária, ao contrário do que se se pratica e lê nas sociedades anglo-saxónicas, nunca levaram em conta a importância da biografia e autobiografia na interpretação da melhor ou mais duradoura arte literária. Só que é também do fundo da experiência real ou imaginária de um escritor que sai toda a sua escrita. A sensibilidade – ou fúria, no caso presente – da sua obra só tem e poderá ter uma fonte, ele ou ela própria. A tentativa de descodificar o labiríntico interior de um ser humano consciente de si e da “realidade” em que vive ou a história o ou acaso o colocou é desde sempre o tema definidor da grande literatura.

Jonathan Franzen: The Comedy of Rage traça os momentos cruciais da vida e carreira do autor, desde os dias num subúrbio de St. Louis até ao presente, uma vida e uma carreira numa América que tem vivido e provocado as maiores transformações sociais, económicas e culturais em praticamente o mundo inteiro. Todos os títulos dos seus romances a partir da fase em que o autor decide tornar-se um escritor lido por mais alguém do que um crítico ou um professor universitário, deduzimos após a leitura desta biografia, são e não são irónicos – uma vez mais, As Correções, Liberdade, e Purity. Se o primeiro volume do que poderemos chamar uma nova trilogia na desconstrução da mítica americana significa a tentativa de os seus personagens “corrigirem” a posteriori o seu modo de ser e estar numa família da classe média bem pensante ou tradicional, em que o freudianismo das suas fúrias primordiais se alia ao desejo de quebrar com o clã que tudo nos dá e pode tirar, o segundo, Liberdade, como que aponta simultaneamente o território concreto e de alma que os aprisiona e liberta, a conformidade quotidiana entre pais, filhos e irmãos a demandar o espaço livre que cada um procura para si. Encontro na obra de Franzen essa genialidade de literatura ao mesmo tempo realista e metafórica, quase confessional na tradição poética dos anos cinquenta americanos lado a lado com uma visão que nunca deixa nem pode deixar de fora a grande sociedade em que estão integrados, a ironia de vidas que parecem contentar-se com os prazeres de coisas e cama, mas sempre em busca de um futuro livre da mentira vivencial de um sonho americano representado pela estrutura de cada família ou casamento cujas disfunções permanecem escondidas mas determinantes nos rumos seguidos por cada um. Num romance de Franzen nunca a grande sociedade está ausente – quer se trate da América, ou como em Purity, a América e boa parte do mundo agora interconectado por todos os meios e interesses de toda a natureza. Cada um destes romances parece uma extensa crónica de tempos vividos e sofridos contra a ideia ou valores de uma sociedade que poderá estar consciente das suas contradições mas em negação quanto à possibilidade de se aventurar por outros caminhos. Esse conflito genesíaco da nossa humanidade é aqui representado a partir de cada personagem ou das grandes movimentações sócio-políticas do nosso tempo. Franzen, insinua o seu biógrafo Philip Winstein, tem passos escriturais que estão algures entre um William Faulkner de O Som e a Fúria e certos escritores europeus ainda mais obscuros em formas e conteúdos, como o esquecido crítico austríaco Karl Kraus, uma das principais referências “ideológicas” e de pensamento moderno de Jonathan Franzen, a quem este dedicou um livro intitulado The Kraus Project – a fúria contra a mecanização da vida numa Europa das primeiras décadas do século passado, e o horror de Franzen ante uma actualidade quase completamente dominada pela alienação digital. Outras grandes influências na visão literária de Franzen foram alguns dos nomes mais proeminentes do pós-modernismo norte-americano, incluindo Thomas Pynchon, William Gaddis, Don DeLillo, e em primeiro plano, o seu grande e falecido amigo David Foster Wallace, ou seja, os mestres da literatura considerada “opaca” e da dita “paranóia” num mundo de conspirações, inseguranças e medos generalizados, o capitalismo como ameaça quase imparável, simbolizado frequentemente nas suas páginas, creio, no modo como devora o meio ambiente em redor de comunidades ou nos vastos e campos e montanhas do continente. Poderá ser assim visível, de certo modo, nos seus últimos três romances. Por dentro de uma prosa tão clara, de uma semântica limpa que leva o leitor a esquecer o número de páginas, ficam diversas ficções interligadas que constituem cada um desses romances. Entre os europeus, as suas leituras referenciais vão ainda desde Sófocles, particularmente (e sem surpresa) o Rei Édipo, Shakespeare, Kafka e Freud. São os impulsos contraditórios da condição humana, tal como os do seu autor no que respeita à sua própria obra, e a quem ele a dirige numa larga esfera de leitores mundiais, esses que têm à sua disposição e como oferta desde um reles site digital à mais erudita literatura da nossa e de outras tradições.

Assim mesmo – diz o académico Philip Weinstein do escritor que também foi professor universitário durante algum tempo – Franzen, o viajante global anónimo, é também o bem visível nova-iorquino. Ele escreve regularmente para as mais prestigiadas revistas da cidade; ele concede entrevista atrás de entrevista; ele quer ser conhecido… O desejo de chegar a um número sem fim de leitores seus é igual – se não aos trunfos de um baralho de cartas – ao seu desejo de permanecer invisível. Essa mesma vontade implica, ainda, um desejo rudimentar de ser amado por quem realmente ele é, e por isso corrige incansavelmente as noções erradas da sua própria identidade”.

Antes da leitura deste Jonathan Franzen: A Comedy of Rage raramente prestei alguma atenção à biografia do autor. Nunca me esqueci das palavras de alguns mestres da nova crítica americana que nos diziam para esquecermos essa vida ou história de um nome que assina uma grande obra literária, que não precisa de nada mais que as suas linguagens e estruturas narrativas para que seja, ou não, uma obra de arte que chega ao leitor na sua completude. Exageravam, não sei se muito ou pouco. Sei que ler uma biografia crítica de um autor favorito é tanto um prazer autónomo da vida e obra que conta, como lança inevitavelmente um outro clarão sobre a complexidade de um texto ficcional, especialmente quando escrito e estruturado com a genialidade de um Franzen. Há muita crítica que discorda, e Philip Weinstein não os esquece nestas suas páginas. Leitura e interpretação serão isso mesmo, para além do mais – olhar os espelhos cujas imagens, sombras e luz nos atraem ou repelem.

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Philip Weinstein, Jonathan Frazen: A Comedy of Rage, New York/London, Bloomsbury Academic, 2015. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado jornal “I”, em Lisboa, e no Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.

Do amor e da loucura

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Os livros esquecidos, as autores ignorados são artífices do destino que subsiste debaixo da superfície.

Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam

Para a Adelaide, que voa sempre comigo

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, Nem Todas As Baleias Voam, o mais recente romance de Afonso Cruz, tem pouco ou mesmo nada a ver com um desses adoráveis mamíferos marítimos que faria de Herman Melville o mais canónico de todos os autores americanos canónicos, nem sequer nos fica na memória como símbolo ou metáfora maior deste inusitado romance na nossa língua. A sua audácia temática e as suas linguagens, tão claras como obscuras, como que num poema de um T. S. Eliot menos sisudo, são uma espécie de exercício entre um modernismo literário cada vez mais distante e um pós-modernismo que insiste em combinar a habitual revisitação à História, tanto imaginada como real, por entre a ambiguidade de significações que os quase esquecidos new critics consideravam uma das marcas maiores de qualquer texto que valesse a pena ser lido, meditado, dissecado. Se é verdade que na realidade a CIA tentou as maiores e frequentemente cómicas loucuras para derrotar a ex-União Soviética, o narrador de Afonso Cruz desdobra-se brilhantemente em contador de estórias privadas e arquivista de supostos “documentos” em que o protagonista Erik Gould é recrutado para organizar concertos de jazz no outro lado da Cortina de Ferro durante os anos 70 do século passado, e assim tentar cativar “corações e mentes” (como diziam no tempo escuro do Vietname) para a traição ao comunismo e de seguida adesão ao Ocidente, querendo dizer aos Estados Unidos, a cidade de Deus e do Wall Street. Só que Nem Todas As Baleias Voam é muito mais do que isso. Por detrás da História estão os seres humanos na sua solidão, no seu destino pessoal entre quatro paredes ou passeado numa rua em que mais ninguém conta ou exerce sequer a mínima interferência ou influência nas obsessões ou no coração que quem olha sem ver, de quem sonha sem esperança. Gould, diz o relatório da CIA escrito em secções intermitentes na narrativa, tinha só música dentro de si, e não a queria, magoava-se a si próprio numa tentativa de redenção pelo pecado que era a sua arte, que nele residia e que o oprimia. Arte e amor eram a sua dor. Colocar os dedos num teclado do seu piano para conquistar outros e fazê-los abandonar o seu mundo, sofrer a angústia de não ter a mulher que ama e que o havia deixado, levando-o a uma perseguição obsessiva de um reencontro, como um Ahab atrás da baleia branca que também o havia mutilado para sempre. Ódio e amor, restando todos os outros num palco sem mais enredo ou desfecho. Erik Gould tem um filho de nome Tristam, e que vive em Paris com um casal amigo, também eles reduzidos a encontros ocasionais dentro da mesma casa, a cama mero poiso de descanso ou onde se espera mais morte do que vida. Este é um romance feito de memórias deliceradas, mas em que o humor das palavras e das acções são o contraponto à impossibilidade de vidas com sentido ou da normalidade com alguma felicidade no dia ou na noite. No centro de tudo e todos está a espera do protagonista pela sua amada, Natasha Zimina. Já a meio do romance estamos em 1969, “Quando [Neil] Armstrong – relembra o narrador – pisou a Lua pela primeira vez… A Lua dos amantes nunca mais seria a mesma”.

O que mais impressiona num romance como Nem Todas As Baleias Voam é a quase ausência do sentido ou “espírito do lugar”, dado o momento histórico que que lhe serve de referência e a política da loucura que na realidade nos ameaçava a todos. Estamos, naturalmente, na América, na Europa deste deste lado, e depois na outra então no lado de lá. É impressionante como quase não sentimos, não vivemos, essas geografias já meio lembradas meio esquecidas. Afonso Cruz faz-me repensar o que tinha sido sempre o mais fundamental na arte literária – o lugar era um mero lugar, as personagens, a sua vida interior, os seus lamentos ou as suas lutas pela sobrevivência, pela sua integridade, pelo seu sentimento de culpa ou pela tentativa de salvação é sempre o que mais lembramos de uma significante peça literária. Nunca será a tentativa de uns serviços secretos sem nome nem identidade definida que retemos destas suas páginas. Muito menos será a luta entre um bloco ideológico ou militar e outro que o leitor vai registar na memória numa leitura deste romance. Vão ser as poucas as figuras (re)inventadas e os seus dizeres e desejos que ficarão connosco, a dor da perda, o desespero do nada num mundo em que adivinhamos em ebulição, a música como refúgio, a arte em geral como a obra maior da nossa própria humanidade. O registo histórico destas páginas, incluindo o que poderá ser parte dos arquivos reais de um tempo e fúria, servem apenas como como referência secundária e, de certo modo, palco esclarecedor de certas motivações de cada um, um tempo que provocou ou não decisões e comportamentos, um tempo que tinha outras e bem diferentes modos de ser e estar. A História é uma abstração para cada um de nós. As nossas vidas quotidianas, os nossos desejos, os nossos sonhos são quase sempre demasiado íntimos. Por entre as chamadas massas e as vozes dominantes, permanece a nossa alma, a nossa vontade de uma normalidade feita à nossa medida e na companhia de quem amamos, ou são os nossos mais íntimos outros. Erik Gould tem a falta da sua mulher amada, o seu filho não tem nem presente nem passado, guarda numa caixa de sapatos objectos banais, o que mais o vai definir após a morte, o casal amigo com quem vive, Tsilia e Isaac Dresner tenta redescobrir o amor e o desejo. Dresner tem uma livraria que se chama Humilhados & Ofendidos. Pois. Fiódor Dostoievski, ou o chamamento à nossa humanidade, em todas as geografias de afectos e memórias, de loucura, raiva e solidão.

O Escritor – escreve o narrador sobre ele próprio, ou sobre um outro ser imaginário – dizia que não era ele quem escrevia, que não era ele o autor, que era um escravo da inspiração, que a sua mão se mexia comandada por uma força estranha à sua vontade, que aquelas histórias não lhe pertenciam. Era um processo extremamente doloroso, em que ele servia de veículo. Muitos escritores sentem exactamente a mesma coisa e garantem que a inspiração lhes escorre pelos braços, pelo corpo, pela cabeça, num processo mágico em que a escrita parece contornar a consciência para ser algo que sai dos dedos, como a tinta sai das pontas das canetas. E tudo isto é acompanhado de uma dor imensa, como um parto, com sangue e com suor. Com o Escritor, era exactamente isso que se passava. Era literalmente isso que se passava”.

Desde há alguns bons anos, e nas mais variadas línguas, que que se fala na “morte do romance”. No nosso país, Vergílio Ferreira também fez questão de o afirmar por mais de uma vez. Nunca entendi bem de onde vem esta ideia, de onde vem a ideia que a arte literária acaba com uma qualquer geração. Não queria ser injusto aqui, mas creio que certos autores de renome nos seus países, ao chegar a certa idade ou exaustão, ou, mais problemático ainda, para ser delicado aqui, achavam-se os últimos mestres da forma e do conteúdo. Pior ainda, um Francis Fukuyama afirmava no seu famoso O Fim da História E O Último Homem que tínhamos chegado ao fim da caminhada político-ideológica, o liberalismo sócio-económico tinha-se tornado o futuro, a universalidade da vontade humana atingia o seu auge, a sua meta final. As fantasias académicas também são frequentes, e conseguem por algum tempo impor-se. Nem a história chegou ao fim, nunca, nem arte deixará, nunca, de transfigurar a condição humana. Em todas as línguas e culturas a literatura parece estar cada vez mais viva. Em Portugal, há uma nova geração de escritores que nada devem a ninguém. Sabem dos seus antecessores nacionais, e sabem dos outros. Sabem agora que há mais mundo para além do seu. Sabem que a sua língua pode e deve dizer do mundo sem fronteiras e preferivelmente sem preconceitos de qualquer espécie. Viram o dito de Fernando Pessoa ao contrário: Sou de toda a parte, como sou daqui. Já falei de alguns deles que publicaram em tempos muito recentes. Lembro agora também Afonso Cruz. O resto da sua obra, na literatura, nas artes plásticas, filmes de animação, músico e cineasta completam a sua visão do tempo que é o nosso, da condição humana em sociedades globalizadas enquanto reafirmam a sua individualidade, a sua diferença no mosaico humano que, apesar de certa retórica política do momento, a grande arte literária representa nas mais variadas línguas e tradições.

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Afonso Cruz, Nem Todas As Baleias Voam, Lisboa, Companhia das Letras/Penguin Random House, 2016. Publicado no jornal “I”, Lisboa, e no Açoriano Oriental, Ponta Delgada.

Calvino na América

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Devo dizer que a mim o American way of life não me desagrada, se por isso entendermos um ideal de eficiência, no trabalho produtivo e no gozar a vida.

Italo Calvino, Um Otimista na América

Vamberto Freitas

Que esta viagem à América de Italo Calvino ficou inédita durante tantos anos, ao que parece por vontade própria do seu autor, não me espantou assim tanto por razões explicáveis de quem tem lido ao longo dos anos outros autores estrangeiros que visitaram e escreveram sobre os Estados Unidos. A própria capa traz a informação que Calvino começou a escrevê-lo logo em 1960, mas não diz quando o terminou. A edição original foi publicada em 2004, e agora no nosso país. Não seria a primeira vez, como se sabe, que isto acontece com um grande escritor de fama mundial em relação à sua obra, que por vontade própria decidira que ficasse num espólio de silêncio. O próprio autor considerava que estas suas páginas não eram bem literatura de viagens, no seu sentido clássico, ou mesmo jornalístico, concluindo, é de crer, que não tinham assim tanto de original, nem na prosa nem no seu embate pessoal com a realidade americana. Numa primeira ou ligeira leitura assim também poderá parecer a muitos de nós, mas um autor como este nunca poderia deixar de nos transmitir algo de novo e inesperado acerca do mítico país da nossa modernidade, tanto pela sua capacidade intelectual e de observador implacável, como pelo seu humor constante e abertura a tudo quanto é novo, como ainda especialmente pelo seu estatuto de cidadão na altura – passara só dois anos depois do seu abandono do Partido Comunista Italiano, agora, supõe-se, livre dos mais arraigados dogmas ou lealdades partidárias. Por outro lado, atente-se no período de tempo que ele passa no grande continente a oeste: alguns meses entre 1959-60, ou seja, no auge da Guerra Fria, que em pouco tempo levaria o mundo à beira de uma catástrofe nuclear devido a Cuba, o tempo em que a América internamente conhece um grande salto para a prosperidade e sociedade de consumo total, já não admitindo qualquer desafio à sua hegemonia no Ocidente.

Italo Calvino recebeu uma bolsa da Ford Foundation para percorrer livremente os Estados Unidos durante seis meses, quando já era conhecido por uma obra que começa a ser publicada em 1947, e ele próprio associado à grande editora italiana da época, Einaudi, mas não deixa de ser curiosa esta estadia do autor em todo o país, encontrando-se, como ele próprio dá conta nos seus textos, com intelectuais e professores universitários, recebido pelas mais diversas instituições, e até por figuras que hoje são parte da História do país, como Martin Luther King, Jr. e o seu número dois, Ralph Abernathy, chegando mesmo a entrar nas suas igrejas e a participar nalgumas reuniões públicas, mas relata tudo numa prosa bastante hesitante e ambígua. Vai de Nova Iorque a Los Angeles, e depois às maiores cidades do sul profundo, declarando, para mim surpreendentemente, Savannah, no estado da Georgia, “a mais bela cidade dos Estados Unidos”. Em São Francisco aproveita, e isto é uma das maiores curiosidades literárias desta prosa americana de Calvino, para desancar outra vez nos então emergentes escritores beat, sem nunca mencionar um só nome, considerando-os pouco mais do que jovens ricos mimados e a viver o vazio da sua proprio prosperidade, desafiando a sociedade pelos seus estilos de vida e prosa aparentemente rebelde. Alguns anos mais tarde, Charles Bukowski diria quase o mesmo destes seus companheiros de estrada e da escrita, e em termos muito mais duros, em ambos os casos levando os seus leitores à risada quer gostassem ou não dessa outra literatura. Quando Calvino começa a escrever este livro, Allen Ginsberg, essa figura hoje também mítica da rebeldia americana, já tinha publicado em 1956 o seu poema “Howl”, que de certo modo passou a fazer parte indissociável da herança artística de uma Nova Esquerda, essa que pouquíssimos anos depois quase faria estourar na rua os EUA. Seja como for, são estas e outras tiradas do autor de O Visconde Cortado ao Meio e d’O Barão Trepador que fazem da nossa leitura uma contínua surpresa, ou uma leitura feita com a perplexidade de quem nunca esperaria por parte de um escritor como Italo Calvino certas atitudes perante a sociedade capitalista por excelência. Por várias vezes Calvino alude à concorrência com a União Soviética, mas quase sempre em tom baixo, como quem se vê obrigado a não esquecer o outro lado do grande debate ideológico então em curso e que, uma vez mais, ameaçava o mundo inteiro. “Desde sempre – escreve ele a dada altura – tem existido e existe, tanto para os russos como para nós e decerto para muitos outros povos, uma América de utopia que funciona como mito ativo, de um nível de vida a alcançar. Nos Estados Unidos, onde as coisas estão sempre mais à frente do que as ideias, onde as forças produtivas e a técnica conseguem modelar a civilização mais diretamente e com menos obstáculos e atrasos, configuram-se realidades que são como imagens de um mundo futuro”. Palavras de todo inesperadas de um alinhado marxista, senão arrependido por certo num ajuste de contas com velhas lealdades e antigas opções políticas. Antes de falar em “nós”, fala nos “russos”, o que pode ser interpretado sob duas perspectivas: os russos são parte de nós, e desde sempre desejavam essa sociedade representada pela América “mítica”, ou então mesmo durante a sua viagem era o grande concorrente hostil dos EUA que ele queria desfazer ou amarrar ao projecto global orquestrado na altura por Washington.

Talvez sejam palavras como estas que fazem de Italo Calvino esse autor europeu sem par, e comparado quase sempre a um outro fantasista do cânone literário mundial, Jorge Luís Borges. Um Otimista na América é por si só um título já de semântica carregadíssima. A América que Calvino descreve aqui é a América que eu conheci como adolescente e depois como adulto, e reconheço-me quase por inteiro nestas realidades, mas um autor como Calvino teve responsabilidades que um cidadão comum não tinha nem poderia ter. De página a página levanta a sua taça ao que vê e acha que entende, esquecendo que em muito pouco tempo depois o país revia toda a sua política interna, tentando integrar os que historicamente permaneciam nas suas margens, especialmente os afro-americanos e todos os outros grupos étnicos, inclusive os luso-americanos que passaram a desfrutar de um ensino que resgatava a sua própria ancestralidade lusa. Dei, no entanto, gargalhadas de concordância quando Calvino, logo nos seus primeiros dias de América, vai a um café “italiano”, que se pensava chique em Nova Iorque, e ri com a sua decoração pomposa e de bustos supostamente romanos, falando ainda de como aí se servia os mais variados cafés que nada tinham a ver com a tradição no outro lado Atlântico. Um povo híbrido recria civilizações a seu belo prazer. O texto sobre imigrantes italianos e italiano-descendentes é antológico, de uma precisão cirúrgica, e aplica-se quase palavra por palavra à maior parte da emigração para os Estados Unidos durante a primeira metade do século XX. Relembra-nos das suas origens “agro-pastoril”, e que teriam emigrado de regiões de um sul só “há poucos decénios anexadas ao Estado italiano”, a língua que falavam era mais um dialecto do que o italiano convencional, fazendo com que durante décadas não soubessem comunicar nem na sua língua nem em inglês. “Aqueles – afirma ele – que mais do que todos e por mais tempo sofreram o desenraizamento são os italianos”. Outro exagero, no seu pouco escondido entusiasmo pela reinante classe média anglo-saxónica. Que diriam a isto os italianos das gerações já lá nascidas, os que nessa altura e sobretudo a partir dos anos 70 se tornariam grandes referências do cinema americano e das artes em geral? Fala ainda do “isolamento” de certa esquerda americana, e sempre num tom resguardado quanto ao seu estatuto na grande sociedade, relembrando, pelo menos estes, “homens que passaram através de processos, investigações, ostracismos e humilhações… Entre os homens de esquerda dos Estados Unidos muitos são filhos de imigrados, americanos de segunda geração. É impressionante como nestes críticos da América nunca assoma a nostalgia de uma outra pátria, nem que seja só como termo de comparação…”. Pois não, a América era e é a sua pátria, e lutavam, como ainda hoje lutam, pela “América mítica” de que ele próprio nos fala noutra parte.

De resto, Um Otimista na América poderá vir a ser, se já não é, uma das mais claras apologias do modo vida americano naquela época, escrito por um europeu que também se tornaria uma referência literária universal. Tenho na minha estante um bom número de autores portugueses que fizeram o mesmo, mas num registo bem diferente, e creio que por motivos nada semelhantes. Não resisto a comparar este livro de Italo Calvino é um outro livro publicado em 1963, na azáfama intelectual de então que envolvia a defesa paga da “democracia” no Ocidente, tal como a entendemos: Brazil On The Move, do modernista referencial norte-americano John Dos Passos, também antigo esquerdista que se havia convertido à ala mais direita do Partido Republicano. Ao contrário de Calvino, o autor de Manahattan Transfer fez questão de publicar sem demora os seus entusiasmados textos, tanto na imprensa americana como em forma de livro.

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Italo Calvino, Um Otimista na América (tradução de José Colaço Barreiros), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado no jornal “I” (Lisboa) e no Açoriano Oriental (Ponta Delgada).