Quando Nos Lembram O Lado De Lá

Minha mãe disse, o seu cabelo ruivo/E os seus olhos verdes, cintilantes como o fogo:/São sempre ‘Os Portugueses’.

Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity

/Vamberto Freitas

 

Millicent Borges Accardi, uma poeta que desde há algum tempo passou a identificar-se como “luso-americana”, acaba de publicar uma nova colectânea da sua obra, intitulada Injuring Eternity, o que já nos diria muito como poesia dos nossos dias, e ainda mais agora pelo facto de incluir alguns poemas identitários, por assim dizer, mesmo que em certos casos só vagamente reconhecidos como tal. Crescentemente reconhecida entre os seus pares norte-americanos, a sua aproximação à ancestralidade portuguesa pelo lado paterno (os seus avós e dois tios eram da Ilha Terceira) alia-se de modo contundente ao seu lado materno irlandês, como num desses poemas de chamamento às suas raízes étnicas lusas que abre com o verso de queixa e fascínio por parte da sua mãe, citado aqui em epígrafe, “Why not the Irish?”: It’s always ‘The Portuguese!’ — Sempre ‘Os Portugueses!’  Por certo que a própria autora adverte algures que não deveremos assumir todas as narrativas em verso como sendo “autobiográficas”, mas estas dificilmente teriam nascido fora do círculo íntimo da sua herança múltipla cultural. Não se trata aqui, nestas minhas linhas, de celebrar essa “opção” de Borges Accardi, mas sim relembrar a todos que a nossa riqueza intelectual e criativa na América do Norte foi sempre muito subestimada por cá, raramente apreciada pelos nossos literatos fora de um grupo de académicos e leitores interessados na literatura cosmopolita da transnacionalidade, de que fomos, afinal, desde Camões a Pessoa, pioneiros no Ocidente. Até mesmo na modernidade literária dos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, no seu isolamento quase absoluto de Manahattan durante algumas cinco décadas, anteciparia, na nossa língua e em várias volumes, quase todos os escritores de outras nacionalidades cujos temas se virariam decididamente (Salman Rushdie e todos os seus colegas, desde Londres e Toronto a Nova Iorque) para a experiência imigrante do século passado a nível mundial. Só que a nossa prolongada desatenção felizmente deu lugar actualmente ao aconchego total (nacional) entre os escritores luso-descendentes e o “seu” país da memória e de sangue. No caso de Borges Accardi não serão por enquanto três ou quatro poemas que a colocarão no já substancial cânone literário dos luso-descendentes de língua inglesa, mas sim o processo que a trouxe até nós, sem nunca ela negar a sua provável busca interior, solitária e pessoalíssima antes de assumir abertamente a sua ligação genética e intelectual ao mundo luso transfronteiriço.

Antes de mais, uma outra curiosidade de coincidências, ou de como os caminhos são-nos por vezes traçados sem nunca nos apercebermos das tramas do “destino”: Millicent Borges Accardi foi colega na faculdade do Long Beach City College (no sul da Califórnia) do poeta e romancista Frank X. Gaspar, onde ambos leccionavam língua inglesa e literatura, e tem em comum com a Katherine Vaz (autora do romance Saudade e dos contos Fado and Other Stories) ser de pai açor-americano e de mãe, como também já referi, irlandesa, optando as duas pela tradição lusa, tal como poderiam ter optado pela nada menos admirável tradição literária que tem, como se sabe, Joyce no centro da Modernidade artística, e incontáveis escritores da mesma descendência nos EUA. Borges Accardi aprofundou o seu regresso às origens portuguesas com a sua participação o ano passado num dos mais originais e consequentes encontros literários no nosso país (intitulado Disquiet, alusão directa a Fernando Pessoa e ao seu livro talvez mais conhecido entre os luso-descendentes) que combina aulas de escrita criativa durante algumas semanas com sessões de leitura e convivência entre os convidados estrangeiros e os escritores residentes em Lisboa, tendo já um lugar assegurado os mais conhecidos autores luso-americanos. A poeta refere numa recente entrevista a Kathi Stafford no Portuguese-American Journal essa sua primeira visita ao nosso país como tendo sido um dos momentos mais reveladores da sua vida.

“De certo modo, — disse à sua entrevistadora — foi um alívio ver o país dos meus antepassados; já o esperava há muito tempo, e por ter sido num encontro de escritores, sinto como se tivesse assistido a um curso intensivo sobre tudo que é português. Num só verão, conheci mais luso-americanos que também são escritores do que em toda a minha vida! Vi a famosa estátua de Fernando Pessoa, saboreei vinho do Porto e vinho verde. Vi o cais, fui a um concerto de Fado à meia-noite numa pequena taberna. Foi uma experiência tremenda. Antes desta minha viagem tinha conhecido só um outro luso-americano para além da minha família. Agora, tenho em mim a experiência de me passear em Lisboa e em Sintra”.

De resto, volta a falar na mesma entrevista sobre a história da família desde a Terceira ao seu enraizamento na Califórnia (área de Los Angeles), dizendo que o pai, apesar de já ter nascido na América, só começou a falar inglês na escola. Por mais distante que Borges Accardi se tenha mantido das nossas comunidades ali bem perto e do país ancestral, a sua história tem tudo em comum com a grande maioria do nosso povo no processo de se reinventar num mundo de início estranho e em tudo avassalador. O regresso a casa das segundas e terceiras gerações de luso-americanos, principalmente os que se formaram a nível superior e passaram a cultivar para si um espaço de grande criatividade na cultura literária do seu país natal, aconteceu e intensificou-se só nos anos mais recentes, enriquecendo-nos mutuamente, e sobretudo trazendo os mosaicos que nos faltavam na nossa própria história sociocultural e literária.

Injuring Eternity Está dividido em três secções, “Morning”, “Noon” e “Evening”, cada uma delas referenciando a vida ao pé da porta ou viajando pelas mais longínquas geografias humanas e pela história trágica de tempos mais remotos ou recentes, através de vozes e “narradoras” confessionais que se desdobram quase heteronimicamente, Pessoa permanecendo sempre a referência primeira dos escritores luso-descendentes. Entre o formalismo de alguns poemas e a livre prosa-poética de outros, a linguagem de Borges Accardi é de uma imagística claríssima e vigorosa, de um realismo quase cru na descrição de memórias e de situações dos seus protagonistas nos seus momentos apanhados para sempre pelo verbo, que tudo torna eterno, mesmo que longe da nossa vista ou do nosso conhecimento. É a história-outra, sempre de tempos que se confundem entre passado e presente, das geografias que habitamos e das que nos habitam invisivelmente. Na voz da poeta reconhecemo-nos num todo ou reconhecemo-nos fragmentados em bocados de vida vivida, em passados imaginários, em identidades em constante fluidez e reajustamento em mundos cada vez mais frios, ironicamente cada vez mais desenraizados e indiferentes à sorte “do coração humano em conflicto consigo próprio”, como poetizou por outras formas William Faulkner na sua própria busca de sentido e paz. De um conjunto de poemas que formam uma só narrativa é feito esta bela e inteligente “afronta à eternidade”.

Mais do que falar da poesia de Injuring Eternity, quis aqui assinalar o processo deste outro regresso à nossa comum por parte de Millicent Borges Accardi, e o seu tardio conhecimento tanto dos seus colegas luso-americanos como do nosso país. Devo ainda adicionar que numa antologia de poesia luso-americana organizada por George Monteiro e Alice R. Clemente a ser publicada pela Gávea-Brown (Brown University), Borges Accardi estará representada com alguns destes poemas retirados do livro aqui em foco, assim como do seu primeiro livro, Woman on a Shaky Bridge. O reconhecimento da poeta, pois, vem já de um espaço bem mais amplo para o nosso ainda em formação numa Diáspora renovada e de todo (se isso traz alguma satisfação a alguns) inteiramente moderna. A autora tem sido premiada de várias formas por instituições tão prestigiadas como a National Endowment for the Arts e a California Arts Council.

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Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity, Mischievous Muse Press/World Nouveau Company, 2010. A tradução da epígrafe e do passo da entrevista é da minha responsabilidade.


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