Da melancolia da ilha e de uma fuga louca em busca da América

Apesar da brisa daquela noite clara, Mané sentia-o debaixo da pele: os tempos da pobreza iam acabar.

Almeida Maia, IlhaAmérica

Vamberto Freitas

Permitam-me e desculpem-me de começar com uma auto-referência. Em 1999 publiquei um livro sob o título A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, mas trata-se de uma mera selecção de ensaios maiores e menores que eu havia publicado sobre a condição vivida nos Açores durante aquela época ou no passado. Menciono-o aqui só para vos dizer que este novo grande romance de Almeida Maia, IlhaAmérica, é precisamente sobre a mesma ideia de que os Açores são o tal “viveiro” nemesiano, onde se planta parte da humanidade para logo a seguir tentar ser replantada noutras geografias, que no nosso caso, logo desde quase o início da povoação queria dizer as Américas, e a partir do século dezoito até aos nossos dias isso queria dizer os Estados Unidos e mais adiante o Canadá. É certo que outros escolheram ou foram forçados a outros destinos, mas a América permaneceu sempre a nossa “miragem”, como um dia escreveu José Martins Garcia. Essa miragem levou em 1960 à mais dramática e corajosa tentativa de chegar a esse outro destino de vida nossa. Também é certo que Manuel Ferreira escreveria O Barco e o Sonho, depois tornado filme, mas essa foi uma aventura de mar que acabou bem, ao contrário do que acontece neste romance de Almeida Maia. Um rapaz, aqui de nome Mané, natural das Furnas mas cedo mudado para Santa Maria com a família para que o pai trabalhasse no então mais importante aeroporto dos Açores, pois era lá que a aviação da época fazia escala rumo ao Novo Mundo, de norte a sul. Este romance tanto insinua a então pobreza dos Açores como por vezes a brutalidade das vidas domésticas, e é a isso que um jovem de 16 anos de idade quer fugir a todo o custo. Antes de mais, esta ficção histórica é o resultado de uma aturada investigação do autor (de que dá conta em quase quatro páginas de notas e agradecimentos), que cruzou de novo continentes e outras ilhas, é baseada num caso verídico que suspeito muitos outros sabem dele. Se já mencionei outros autores que escreveram sobre a aventura americana é com o intuito de colocar a narrativa presente no seu devido contexto, mesmo que as circunstâncias sejam as mais dramáticas imagináveis, em que a realidade e a ficção se juntam numa prosa brilhante, colocando desde já este IlhaAmérica no cânone superior da literatura açoriana ou entre a melhor ficção contemporânea de língua portuguesa. Outra questão que me parece de importância vital: no fim do romance vemos como os nossos apregoados “brandos costumes” não passam de um mito que séculos de vivência sobre os mais variados absolutismos quis fazer passar para dentro e para fora. Um adolescente poderia não saber disso, mas sentia-o na pele desde a vida em casa e o que ia à sua volta. O título deste livro não se refere à América, mas sim à própria ilha de Santa Maria devido ao seu trânsito aéreo e à presença dos americanos, que na Terceira e de outro modo se fechavam na Base arredores lá perto. Era da ilha mariense que saíamos todos em busca de nova vida numa América, que nada tem a ver com o que hoje lá acontece. Eu também parti de lá em 1964, mas no conforto de uma cadeira e rodeado pela minha família imediata. Nada disso tem a ver com a sorte de Mané que se meteu no vão da roda da frente de um Locheed Super Constellation venezualano que ia para Caracas e escala na Bermuda. Mané poderá não se ter dado conta disso,e aterraria no que aqui se chama a Terra Prometida.

Mané está no aeroporto e espreita o avião. Quando ninguém aparecia à sua volta mete-se, só com a roupa do corpo e três papo secos, uma vez mais, no vão que lhe poderia ter sido fatal por várias razões. Diria mais tarde o co-piloto, quando o avião levanta voo, “Fue esta luz que me avisó… Pensábamos que era una avería, porque oímos um ruído áspero, como alguien golpeando algo”. O jovem teve a inteligência de recuar ou se mover mais um pouco, a roda fechou segundos antes de o comandante decidir abortar o voo e regressar à pista. Quando aterram na Bermuda, o jovem saiu e foi logo descoberto pelos pilotos, que ficaram atónitos com a coragem do jovem. O comandante, aqui de nome Diego, dir-lhe-ia o resto, já em sua casa de Caracas, onde o acolheu com a maior admiração e carinho, que foram de tal grau que até brincou com a possibilidade de Mané casar com uma das suas filhas. Fez-lhe entender ainda, agora nas palavras do narrador de IlhaAmérica, a enorme sorte do rapaz foi que não tinham voado à altitude habitual de 20.000 pés mas sim a 8.000 pés. “Se voassem uma nisquinha mais acima, o oxigénio teria faltado”. Sem quaisquer documentos, Mané foi entregue ao consulado português naquela cidade, e de imediato enviado para Lisboa sob a acusação de emigração ilegal, e ele acabou no Aljube, em que a PIDE, nos seus comportamentos muito conhecidos entre nós, o interrogou numa das suas salas frias e intimidativas sobre a façanha, mas sem qualquer simpatia e muito menos admiração, dirigindo-lhe palavras duras, acabando por o reenviar para a ilha. Contraste-se este comportamento com a empatia e paixão dos pilotos venezualanos. Acaba por fazer a tropa na guerra colonial, mas o sonho americano nunca o deixaria, e este, descobrimos nas últimas páginas, é um romance de fim feliz. Disse-me o autor e outro amigo que Almeida Maia tentou por todos os lados entrar em contacto com ele, que hoje deve ter 75 anos, e pensa-se que vive algures na zona de Fall River. Almeida Maia acrescentou que ele não quer falar com ninguém sobre a sua imensa aventura em anos já muito idos. O resto, creio, deve ficar para a leitura e interpretação de cada um. É claro que todos os nomes aqui são fictícios, por isso não os mencionei todos neste texto. Sobre a linguagem deste inusitado romance só tenho a dizer que é de um brilhantismo que atravessa toda a narrativa, caracterizada pela sua clareza e contenção verbal, é um romance de frases lapidares raiando a tragédia não só de um jovem de coragem quase sem par entre nós, recria enfaticamente a condição existencialista do desespero e da escuridão que dia-a-dia caía sobre a maioria dos açorianos aquela época. Não diz nada sobre a vida de Mané que finalmente e legitimamente chega anos mais tarde ao que o narrador chama várias vezes a Terra Prometida, sendo o próprio autor também tocado por familiares que emigraram para aquele país. Por outras palavras, a América, apesar destes últimos anos, repito, continua no nosso coração, o símbolo e a realidade da nossa salvação em tempos ainda muito próximos.

“Deu o primeiro passo – diz o narrador quando Mané consegue concretizar a sua vontade inabalável anos depois, e agora entra legitimamente noutro avião, sentado e engravatado – na escada, e sentiu o destino a corresponder-lhe, o coração a abastecer-lhe os músculos com raiva boa, os pés a desejarem dançar, a boca a sorrir em espasmos. Desceu, degrau a degrau: aquele chão sobrenatural a aproximar-se, degrau a degrau, a Terra Prometida ali mesmo, degrau a degrau, a vontade de a beijar a tomar conta de si… até que pisou a pista. Mané tinha firmado os pés no solo sagrado. Tinha chegado à América”.

Como muitos leitores de Almeida Maia já sabem, e talvez muito melhor do que eu, o autor tem uma sólida formação universitária, especialmente como psicólogo organizacional, e via-o quase todos os dias na nossa faculdade da Universidade dos Açores. Nunca se coloca em bicos de pé, mas merece desde algum tempo toda a nossa atenção como leitores, vai ficar como um notável escritor português a partir dos Açores. Na contracapa deste IlhaAmérica o crítico-mor do JL lisboeta diz que “Maia ampliou o género policial no romance açoriano”. Só que é, no mesmo espaço, Santos Narciso que coloca as coisas no seu verdadeiro lugar. “Relativamente – escreve Santos Narciso – a Almeida Maia, ele tem a capacidade de, no urdir do enredo, associar um saudável regionalismo a um assumido universalismo, fugindo de lugares comuns, sem nunca abandonar a matriz insular que enforma a sua escrita”. Cito aqui colegas meus que crescentemente têm valorizado a nossa literatura. Cada grande livro tem de estar aberto a variadas interpretações, e quanto mais activa for a nossa crítica ficaremos a saber que os escritores açorianos não ficam a dever nada a ninguém. Crítica literária, como um dia citei Harold Bloom, o autor de livros como O Cânone Ocidental, é também “memória”. Memória de um lugar e tempo da condição humana em toda a parte. Almeida Maia já tem uma considerável obra em vários géneros, tendo continuamente recebido os mais variados prémios literários. Destaco neste momento dois desses livros também contundentes: Capítulo 41: A Redescoberta da Atlântida e A Viagem de Juno, que já fazem justamente parte do Plano Regional da Leitura. Pedro Almeida Maia já passou, com IlhaAmérica, de uma promessa a um autor consolidado. Não queria estar no seu lugar. A sua responsabilidade literária está agora mais pesada, os seus leitores à espera de outros livros, como este, marcantes no seu percurso literário. Pela minha parte, vou ler ou reler parte da sua obra anterior. Está ele agora ao lado dos nossos melhores escritores, e nunca só dos Açores. O seu engrandecimento deveria ser também o de nós todos.

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Almeida Maia, IlhaAmérica, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 23 de Outubrode 2020.

Sobre borderCrossings: leituras transatlânticas V

Ernesto Rodrigues

Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

A história da humanidade faz-se a atravessar fronteiras. Desde os grupos de caçadores e recolectores há milhares de anos às campanhas militares e aos incessantes movimentos migratórios, e dos avanços científicos à globalizada sociedade da informação, o homem procura ir além de si mesmo, o que só resulta no diálogo com outrem: dessa livre interculturação nasce um sentimento de semelhança na humanidade, em que assenta existência digna. Um crítico literário deve ser sensível a esse voto de igualdade.

No campo da cultura, este regime de fronteira vive de uma produtiva curiosidade pelo lado de lá, que é também modo de nos definirmos. Em casos particulares, a ferramenta linguística é decisiva, ou ficamos presos atrás do espelho. Em última instância, vale-nos a tradução.

Desde 1761-1762, quando Francisco Bernardo de Lima funda, no Porto, a Gazeta Literária – nossa primeira revista literária –, verter para português recensões a obras estrangeiras era uma resposta possível, mesmo chegadas com anos de atraso. Acrescentava-se reflexão sobre clássicos portugueses, e tínhamos, assim, a aliança crítica perfeita, nos seus alicerces cosmopolitas.

Se, no século XX, há breves ensaios sobre autores estrangeiros – caso de José Régio, por interposto francês –, a recensão, no que significa de atenção crítica ao recém-editado, só nos anos 70 se esboça – e mais sobre o entre nós traduzido, não sobre originais ainda frescos em Londres, Paris, Roma, Madrid, Nova Iorque… João Gaspar Simões, que teve uma costela de tradutor, preocupou-se com a edição nacional (e não foi pouco); hoje, Miguel Real segue-lhe os passos, donde resulta um grave fechamento em dois nomes responsáveis.

Na minha prática de décadas, além de tradutor de húngaros, pude misturar lusos e títulos traduzidos ou lidos no original, reunidos em Literatura Europeia e das Américas (2019), aproximando-me, com o milheiro de páginas da futura reedição de Verso e Prosa de Novecentos (2000) – sobre portugueses dos séculos XX e XXI –, do políptico BorderCrossings: Leituras Transatlânticas, iniciado por Vamberto Freitas em 2012, singular experiência entre nós.

A recensão, bem acima da nota ou resenha jornalística, adquiriu importância nos passados anos 30 e 40 com a emergência de páginas e suplementos dedicados à literatura e arte. Aí pontificou, numa colaboração multímoda vinda do Diário de Lisboa e que terminou no Diário de Notícias, o verbo por vezes derramado de João Gaspar Simões, cujo útil impressionismo teve a alternativa universitária, sobretudo, na Colóquio/Letras, a partir de Março de 1971. Comuns ao jornal e à revista académica tivemos Jacinto do Prado Coelho, José-Augusto França, David Mourão-Ferreira, entre muitos outros. Desaparecidas colunas ideológicas (Seara Nova, Vértice…), o JL – Jornal de Letras, Artes & Ideias procura, desde 1981, um mar chão, uma década depois acompanhado pelos suplementos do Público.

Seria injusto quedarmos neste rápido balanço. Na tradição literária do arquipélago noveno, Vamberto Freitas conquistou um espaço regular no Açoriano Oriental, que repete na Imprensa da Portufórnia (p. 46), e passa às redes sociais e ao livro. Como divulgação por estes meios, não tem rival. E, dentro de uma bibliografia activa começada em 1990, esta capacidade de pôr em livro – parafraseando o Fernão Lopes de ‘poer em caronica’ – as colunas efémeras do jornal não tem par, quando Gaspar Simões só esporadicamente o conseguiu, antes da súmula de décadas em volumes tardiamente saídos na Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

Um elemento distintivo em Vamberto Freitas é, além de atender a autores do Continente, cuidar do ilhéu, com raízes e ramos além-Atlântico. Olhando ao todo nacional, essa reflexão sobre idiossincrasias locais – aquela ‘açorianidade’ cunhada por Vitorino Nemésio em 1932 – vai muito à frente do processo, de algum modo sistemático, iniciado no Funchal somente nos anos 90, enquanto, para Trás-os-Montes e Alto Douro, o ‘reino maravilhoso’ (1941) de Miguel Torga, que designei como a terra de duas línguas (português e mirandês; título de antologia, 2011, 2013), eu mesmo me fiz fautor de uma singularidade.

Esculpir essa açorianidade, in loco e na margem americana (como já fizera, no articulismo do Diário de Notícias, na margem que desemboca em Lisboa), é o já longo desafio de Vamberto Freitas, reiterado na primeira secção deste livro, e logo no texto inaugural reunindo elogio de dois velhos e comuns amigos, Urbano Bettencourt e José Martins Garcia.

Fui colega daquele na Faculdade de Letras de Lisboa. Além de docente e animador cultural, antologiador, assinando microficções, esse poeta de mão-cheia é um lúcido ensaísta. Fui aluno de José Martins Garcia na mesma Faculdade, aqui celebrado com O Amanhã não Existe (2017) – «outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte» (p. 18) –, enquanto Urbano prossegue na edição da sua obra completa. Ter ministrado na Universidade dos Açores uma cadeira de Literatura Açoriana deveria servir de exemplo ao demais país.

Outro segmento importante quase ausente da nossa crítica é a atenção maior aqui dada aos Estados Unidos, em tradução e no original. Ter quase trinta anos de ar americano é razão bastante para um conhecimento de que beneficiamos, acrescido de uma inclinação para relacionar literatura e sociedade, e balançando grandes questões do nosso tempo, seja a memória de vários holocaustos, seja o noticiário da actual administração em Washington.

Sob a égide de Edmund Wilson, que o ora desaparecido Harold Bloom «viria a considerar o crítico canónico norte-americano do século XX» (p. 188), num elogio recorrente, mesmo quando dele se distancia, Vamberto Freitas sabe que outros podem gostar de Proust e James Joyce, dele tirando explicações, senão prazer. Sem espírito de fronteira, capaz de dar o salto, ou aceitar que vizinhos o façam, não havia interpretação. Extrair algo de textos ditos difíceis é função nobre; nestes, mais do que nos fáceis, o resultado fica sempre em aberto. Cito, após consideração sobre Wilson leitor de Finnegans Wake, e no cenário de A Casa da Cabeça de Cavalo: «A grande arte literária tem momentos assim, cada leitor terá de decifrar os significados de cada passo narrativo ou diálogo sobre acontecimentos incertos, acontecidos ou meramente imaginados pelas vozes que nos vão contando a história de cada outro personagem ou acontecimentos colectivos dentro e fora das geografias referenciais de qualquer ficção.» (p. 147)

Entre estes e outros méritos, bastaria a informação sobre nomes para mim desconhecidos – na diáspora, sobretudo – e estava ganho o volume. Ainda, a leitura de obras há muito saídas, que eu mesmo li e agora releio segundo outro evangelho, quando o crítico recupera, nas reedições, autores como Teolinda Gersão e Manuel Alegre.

Não há espaço para estudar a técnica da epígrafe, ou arte de seleccionar um excerto indicativo da obra em análise. Também na variedade de espécies tratadas – ficção, poesia, cronística e jornalismo – este «arquivo criativo» (p. 221) se afigura único.

Fugindo ao tom, que nem por ser crítico deixa de ser de proximidade, a enunciação autoral torna-se agora muito presente e, a espaços, pungente. Da dupla dedicatória limiar ao tu marcado no segundo texto (p. 29-32), sobre Adelaide Freitas, convocada noutros lugares, entenderá o leitor o drama pessoal a cuja luz, ou sombra, foram escritas algumas prosas. Isso conduz-nos a uma, para mim inesperada, autobiografia disseminada, sob máscaras ou já explícita, seja no pretexto de um Hemingway (p. 95-98), seja sobre “As outras américas que não vivi” (p. 193), entre outros lugares. O volume encerra com entrevista e desejo: «Queria muito fazer uma biografia colectiva da minha geração. Ou numa narrativa sequencial, ou então em ensaios interligados e revendo a mesma história de quem entrou na minha vida, quer em termos literários quer em termos pessoais.» (p. 228)

Com este quinto painel, vário nos processos e nos objectos linguísticos e geográficos em estudo, Vamberto Freitas torna-se, nesta década, o principal crítico literário português. Entretanto, sem abandono da intermediação indispensável à coisa literária, pode oferecer-nos um retrato de ser dividido entre línguas, territórios e paisagens. Duplo privilégio, ganharemos todo um passo mais na marcha da humanidade.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas V, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019. Foi a apresentação do meu livro “BorderCrossings 5” no Outono Vivo da Praia da Vitória em 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 11 de Setembro de 2020.

Dos Açores na memória e no presente da sua autora

Mas se ainda não tinham percebido, deixem-me dizer-vos que a minha ilha, lá no meio do oceano mar, é uma grande parte do melhor de mim.
Teresa Canto Noronha, Notas Da Ilha

Vamberto Freitas

Primeiro do que tudo, creio ser este Notas Da Ilha o primeiro livro de Teresa Canto Noronha, todo ele publicado em primeira mão numa espécie de blogue do Facebook. Bem-vinda, cara autora. De seguida tenho necessariamente de vos relatar alguns dados sobre esta escritora. Deixou São Miguel aos 18 anos de idade, em 1985, para depressa deixar a Faculdade, e tornar-se-ia numa distinta jornalista televisiva. Primeiro – ou como factos biográficos de peso maior e aqui relevantes – tornou-se correspondente em Bruxelas e Roma entre 2000 e 2006. No seu regresso definitivo ao nosso país, entraria e permanece como repórter da SIC. Nunca mais viveu permanentemente na sua terra de origem, mas nunca deixou de a visitar sempre que possível, e vive em Lisboa com São Miguel na alma, até os seus cheiros a maresia e outras coisas na natureza não lhe saem nunca de si, do seu ser. Há uma frase recorrente na sua prosa, que oscila entre a crónica pura, a poesia ou então uma série de postais enviados constantemente de lá para cá, seja para família ou para os seus amigos e amigas mais aproximados. Essa frase, praticamente em cada página sua, todas breves, mas significantes, palavra a palavra, impressionaram-me sobremaneira pela sua sonoridade poética: “… na ilha no meio do oceano…” Que quer dizer ela com isto, nessa repetição poética do princípio ao fim? Que está no meio do nada ou no centro do mundo? Creio ser a última coisa, ou seja, sentir-se no centro do mundo, do seu mundo tanto profundamente privado como público. “Aqui, na ilha – escreve a autora num passo datado de Agosto de 2017 – no meio do oceano mar, estou-me nas tintas para o facto de já ser uma senhora de 50 anos”. Notas Da Ilha vai de Março de 2017 a Setembro de 2019, o tempo fresco na nossa memória e vivência, o que também faz deste inusitado (no bom sentido da palavra, claro está) uma outra espécie de um diário de nós todos, cada recanto desta terra, desde cidades e trilhos agrestes a geografias do nosso estar e ser, e por muitos de nós desconhecidos. Para quem, como a autora, tem uma vida consequente e inteira no presente, a memória continua a ser o que mais acaba por nos mover e comover. É raro um livro como este, uma declaração de amor (as palavras não são minhas) a um espaço limitado que todos os dias nos merece as maiores críticas mais negativas do que positivas, ou até de questionável de bom gosto. Para muitos de nós, a beleza e a vida supostamente desejada ou sonhada, está sempre no outro lado do horizonte. Certo brasileiro disse um dia que o seu país era só para “profissionais”, e estou em crer que também dizia-o pela negativa. Os Açores não são nem nunca foram para todos, e eu que o diga, até aos anos da minha reconciliação. Mas esta é na verdade um pedaço do mundo em que apetece viver, apesar quase sempre de ser vizinho ser o mau da fita, o má língua ou o invejoso. Teresa Canto Noronha vai ao contrário, diz-nos do que olhamos sem ver, do que sentimos sem sorrisos ou lágrimas, indiferentes a quase tudo e a todos. Vergílio Ferreira dizia que da sua janela via o mar, frase que nada tem de extraordinário e sobretudo menos de beleza. “Da minha janela – diz a autora de Notas Das Ilhas – vê-se o mundo”. Nada define o açoriano como esta breve e simples frase. Se ela fala do que vê e sente em Lisboa, a sua açorianidade está mais do que definida e sentida.
Ernest Hemingway dizia que o jornalismo escrito e outro ensinava um potencial escritor de ficção, mas passado num determinado tempo de aprendizagem era aconselhável a deixar essa forma de escrita. Teresa Canto Noronha não é – por enquanto – uma ficcionista, mas a sua longa carreira no jornalismo só aperfeiçoou a sua construção de uma prosa que, como já referi, não é de fácil classificação, e esse facto torna a sua escrita numa leitura deliciosa, escorreita sem nunca deixar de fora os passos mais simbólicos e que fazem dos seus leitores cúmplices, quase habitantes que na sua pequenez não só parecem que se desconhecessem, ou fazem por se desconhecer, quando por nós passam e viram cara. Li a sua “prosa” como quem lê um poema de amor generalizado, como quem se passeia com ela por todos os recantos da ilha a meio mar, o destino açoriano perpetuamente no exílio dentro e fora do arquipélago. Quanto mais aberta a sua prosa mais nos identificamos com ela. Nenhum livro tem de ser crítico de gente ou lugares (e ela também não foge a certas observações), mas também nenhum livro tem de ser um castigo seja a quem for. Esta é uma homenagem à saudade, à memória, para parafrasear neste momento um título de uma das nossas mais históricas revistas literárias, a das águas vivas que sempre determinaram a nossa sorte no mundo, desde a aventura marítima da Mãe-Pátria que chegou aos confins do mundo. Ter consciência de uma vida vivida é ter na alma e na mente todos os seus, família, amigos e conterrâneos. Ler Notas Das Ilha é ler-nos a nós próprios – no nosso melhor, na nossa bondade e na honestidade de admitirmos quem somos ou não somos. Escreve a autora quase no fim do seu livro:

“Creio que há um ciclo de vida que se fecha na minha vida.
Um ciclo de reconciliação com o passado.
De feridas completamente cicatrizadas…
Descobrimos que tínhamos nascido no mesmo sítio numa das muitas viagens, sem destino, que fazemos pelas estradas da ilha e que serve, também, para encontrarmos mais pontos em comum.
Coisas tolas, na maior parte das vezes.
Sobretudo do meu lado”.
Falar de Teresa Canto Noronha é falar de uma determinada personagem, mas que fala de nós todos. Um grande livro é sobretudo essa partilha de vidas que nos são, quer o aceitemos ou não, comuns. Geografia, cultura e linguagens combinam-se para provocar este efeito de empatia e leitura que mais parece uma sinfonia, sem sentido e com todo o sentido – para quem ouve ou lê.
“A ilha não mudou, – diz a autora numa recente entrevista ao Açoriano Oriental a propósito deste seu livro – mas a forma como a vivemos é diferente e as pessoas estão muito diferentes. Quando eu vivia na ilha, as pessoas viviam separadas. Havia as pessoas da cidade e as de fora da cidade. As pessoas não se misturavam, estavam divididas em grupos sociais e por uma série de regras que, felizmente, desapareceram. Hoje a ilha é de todos e é muito mais fácil viver na ilha, apesar de ainda haver dificuldades”. Aceito inteiramente e sem complexos o amor e a ausência, mesmo temporária ou que por curtos momentos nos causa.
Pois é. Ao contrário do que dizem os mais pessimistas (e eu próprio vivo dia-a-dia os dois lados), é bom, muito bom, ouvir a sua voz. A sua escrita não se lê (apenas), ouve-se como se todas as bandas dos Açores tocassem um número sobre a sua e nossa sobrevivência.
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Teresa Canto Noronha, Notas Da Ilha, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019.

 

Quando Nos Lembram O Lado De Lá

Minha mãe disse, o seu cabelo ruivo/E os seus olhos verdes, cintilantes como o fogo:/São sempre ‘Os Portugueses’.

Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity

/Vamberto Freitas

 

Millicent Borges Accardi, uma poeta que desde há algum tempo passou a identificar-se como “luso-americana”, acaba de publicar uma nova colectânea da sua obra, intitulada Injuring Eternity, o que já nos diria muito como poesia dos nossos dias, e ainda mais agora pelo facto de incluir alguns poemas identitários, por assim dizer, mesmo que em certos casos só vagamente reconhecidos como tal. Crescentemente reconhecida entre os seus pares norte-americanos, a sua aproximação à ancestralidade portuguesa pelo lado paterno (os seus avós e dois tios eram da Ilha Terceira) alia-se de modo contundente ao seu lado materno irlandês, como num desses poemas de chamamento às suas raízes étnicas lusas que abre com o verso de queixa e fascínio por parte da sua mãe, citado aqui em epígrafe, “Why not the Irish?”: It’s always ‘The Portuguese!’ — Sempre ‘Os Portugueses!’  Por certo que a própria autora adverte algures que não deveremos assumir todas as narrativas em verso como sendo “autobiográficas”, mas estas dificilmente teriam nascido fora do círculo íntimo da sua herança múltipla cultural. Não se trata aqui, nestas minhas linhas, de celebrar essa “opção” de Borges Accardi, mas sim relembrar a todos que a nossa riqueza intelectual e criativa na América do Norte foi sempre muito subestimada por cá, raramente apreciada pelos nossos literatos fora de um grupo de académicos e leitores interessados na literatura cosmopolita da transnacionalidade, de que fomos, afinal, desde Camões a Pessoa, pioneiros no Ocidente. Até mesmo na modernidade literária dos Estados Unidos, José Rodrigues Miguéis, no seu isolamento quase absoluto de Manahattan durante algumas cinco décadas, anteciparia, na nossa língua e em várias volumes, quase todos os escritores de outras nacionalidades cujos temas se virariam decididamente (Salman Rushdie e todos os seus colegas, desde Londres e Toronto a Nova Iorque) para a experiência imigrante do século passado a nível mundial. Só que a nossa prolongada desatenção felizmente deu lugar actualmente ao aconchego total (nacional) entre os escritores luso-descendentes e o “seu” país da memória e de sangue. No caso de Borges Accardi não serão por enquanto três ou quatro poemas que a colocarão no já substancial cânone literário dos luso-descendentes de língua inglesa, mas sim o processo que a trouxe até nós, sem nunca ela negar a sua provável busca interior, solitária e pessoalíssima antes de assumir abertamente a sua ligação genética e intelectual ao mundo luso transfronteiriço.

Antes de mais, uma outra curiosidade de coincidências, ou de como os caminhos são-nos por vezes traçados sem nunca nos apercebermos das tramas do “destino”: Millicent Borges Accardi foi colega na faculdade do Long Beach City College (no sul da Califórnia) do poeta e romancista Frank X. Gaspar, onde ambos leccionavam língua inglesa e literatura, e tem em comum com a Katherine Vaz (autora do romance Saudade e dos contos Fado and Other Stories) ser de pai açor-americano e de mãe, como também já referi, irlandesa, optando as duas pela tradição lusa, tal como poderiam ter optado pela nada menos admirável tradição literária que tem, como se sabe, Joyce no centro da Modernidade artística, e incontáveis escritores da mesma descendência nos EUA. Borges Accardi aprofundou o seu regresso às origens portuguesas com a sua participação o ano passado num dos mais originais e consequentes encontros literários no nosso país (intitulado Disquiet, alusão directa a Fernando Pessoa e ao seu livro talvez mais conhecido entre os luso-descendentes) que combina aulas de escrita criativa durante algumas semanas com sessões de leitura e convivência entre os convidados estrangeiros e os escritores residentes em Lisboa, tendo já um lugar assegurado os mais conhecidos autores luso-americanos. A poeta refere numa recente entrevista a Kathi Stafford no Portuguese-American Journal essa sua primeira visita ao nosso país como tendo sido um dos momentos mais reveladores da sua vida.

“De certo modo, — disse à sua entrevistadora — foi um alívio ver o país dos meus antepassados; já o esperava há muito tempo, e por ter sido num encontro de escritores, sinto como se tivesse assistido a um curso intensivo sobre tudo que é português. Num só verão, conheci mais luso-americanos que também são escritores do que em toda a minha vida! Vi a famosa estátua de Fernando Pessoa, saboreei vinho do Porto e vinho verde. Vi o cais, fui a um concerto de Fado à meia-noite numa pequena taberna. Foi uma experiência tremenda. Antes desta minha viagem tinha conhecido só um outro luso-americano para além da minha família. Agora, tenho em mim a experiência de me passear em Lisboa e em Sintra”.

De resto, volta a falar na mesma entrevista sobre a história da família desde a Terceira ao seu enraizamento na Califórnia (área de Los Angeles), dizendo que o pai, apesar de já ter nascido na América, só começou a falar inglês na escola. Por mais distante que Borges Accardi se tenha mantido das nossas comunidades ali bem perto e do país ancestral, a sua história tem tudo em comum com a grande maioria do nosso povo no processo de se reinventar num mundo de início estranho e em tudo avassalador. O regresso a casa das segundas e terceiras gerações de luso-americanos, principalmente os que se formaram a nível superior e passaram a cultivar para si um espaço de grande criatividade na cultura literária do seu país natal, aconteceu e intensificou-se só nos anos mais recentes, enriquecendo-nos mutuamente, e sobretudo trazendo os mosaicos que nos faltavam na nossa própria história sociocultural e literária.

Injuring Eternity Está dividido em três secções, “Morning”, “Noon” e “Evening”, cada uma delas referenciando a vida ao pé da porta ou viajando pelas mais longínquas geografias humanas e pela história trágica de tempos mais remotos ou recentes, através de vozes e “narradoras” confessionais que se desdobram quase heteronimicamente, Pessoa permanecendo sempre a referência primeira dos escritores luso-descendentes. Entre o formalismo de alguns poemas e a livre prosa-poética de outros, a linguagem de Borges Accardi é de uma imagística claríssima e vigorosa, de um realismo quase cru na descrição de memórias e de situações dos seus protagonistas nos seus momentos apanhados para sempre pelo verbo, que tudo torna eterno, mesmo que longe da nossa vista ou do nosso conhecimento. É a história-outra, sempre de tempos que se confundem entre passado e presente, das geografias que habitamos e das que nos habitam invisivelmente. Na voz da poeta reconhecemo-nos num todo ou reconhecemo-nos fragmentados em bocados de vida vivida, em passados imaginários, em identidades em constante fluidez e reajustamento em mundos cada vez mais frios, ironicamente cada vez mais desenraizados e indiferentes à sorte “do coração humano em conflicto consigo próprio”, como poetizou por outras formas William Faulkner na sua própria busca de sentido e paz. De um conjunto de poemas que formam uma só narrativa é feito esta bela e inteligente “afronta à eternidade”.

Mais do que falar da poesia de Injuring Eternity, quis aqui assinalar o processo deste outro regresso à nossa comum por parte de Millicent Borges Accardi, e o seu tardio conhecimento tanto dos seus colegas luso-americanos como do nosso país. Devo ainda adicionar que numa antologia de poesia luso-americana organizada por George Monteiro e Alice R. Clemente a ser publicada pela Gávea-Brown (Brown University), Borges Accardi estará representada com alguns destes poemas retirados do livro aqui em foco, assim como do seu primeiro livro, Woman on a Shaky Bridge. O reconhecimento da poeta, pois, vem já de um espaço bem mais amplo para o nosso ainda em formação numa Diáspora renovada e de todo (se isso traz alguma satisfação a alguns) inteiramente moderna. A autora tem sido premiada de várias formas por instituições tão prestigiadas como a National Endowment for the Arts e a California Arts Council.

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Millicent Borges Accardi, Injuring Eternity, Mischievous Muse Press/World Nouveau Company, 2010. A tradução da epígrafe e do passo da entrevista é da minha responsabilidade.