Os Açores Na Modernidade

Entre a década de 1980 e os princípios deste milénio, os Açores atravessaram um ciclo de grande criatividade as todos os níveis da sua cultura.

Onésimo Teotónio Almeida, Açores, Açorianos, Açorianidade: Um Espaço Cultural

/Vamberto Freitas

Permitam-me antes de mais e seja-me desculpado começar por uma citação inserida num pequeno texto que abre logo na primeira página esta tardia reedição de Açores, Açorianos, Açorianidade: Um Espaço Cultural, de Onésimo Teotónio Almeida, acabada de sair em Angra do Heroísmo: “A presente reedição foi submetida a concurso no programa de apoio à edição da Direcção Regional da Cultura e recebeu um subsídio que não chega para cobrir um terço dos custos. Não podendo o IAC suportar a totalidade do restante, optei por investir também, viabilizando a edição, calculando que, se continuasse a pagar fotocópias da primeira edição para satisfazer os pedidos que ao longo dos tempos me vão chegando, acabaria por gastar o mesmo”. Nem o humor nem a boa disposição do autor poderão nunca esconder o estado da “cultura” no nosso arquipélago, mesmo que este sucedido não seja da responsabilidade dos actuais dirigentes das questões aqui em causa. Que um livro tão fundamental ao “movimento” cultural e literário nos Açores durante as últimas três décadas, que tanta ira e silêncio estratégico provocou entre nós, encontrou a resposta acima relatada poderão agora imaginar a sorte dos que, por conta e força próprias, escrevem e definem nada menos do que criatividade identitária do nosso povo num dos períodos mais críticos da sua história moderna. Sobre o assunto não direi nem mais uma palavra — não serve de nada, e atenta contra a dignidade intelectual de nós todos.

Creio que as palavras de acima só por si já situam Açores, Açorianos, Açorianidade no centro do nosso cânone ensaístico referente às múltiplas facetas da nossa cultura, muito especialmente as suas componentes erudita e literária. Publicado originalmente em 1989 em Ponta Delgada, o seu impacto foi imediato e dava então continuidade ao debate que muito mais cedo havia sido iniciado entre nós, particularmente com o lançamento da revista A Memória da Água-Viva (Urbano Bettencourt e José Henrique Santos Barros, a partir de Lisboa no fim dos anos 70), e pelas colectâneas de ensaios do próprio Onésimo T. Almeida, A Questão da Literatura Açoriana (1983) e Da Literatura AçorianaSubsídios Para Um Balanço (1986). O presente volume mantém toda a escrita original, mais um prefácio contextualizando o que desde então aconteceu entre nós no campo da literatura açoriana, desde outros livros publicados sobre mesma temática e encontros literários que aconteceriam um pouco toda a parte (nas ilhas, em Lisboa, nos Estados Unidos e no Brasil) aos suplementos literários que se mantiveram activos até há poucos anos em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada. Acrescente-se, desde já, que as supostas polémicas em volta de todas estas questões culturais e literárias foram sempre muito desequilibradas: até hoje nem um único ensaio teoricamente competente foi publicado a demonstrar o contrário do que se defendia e defende — que a história e geografia tinham necessariamente criado nos Açores especificidades culturais e linguísticas de tal ordem que, nunca nos separando da mãe-pátria, acabariam naturalmente por ser expressas numa arte mais ou menos autónoma sem deixar de permanecer integrada no cânone-matriz nacional, no tronco comum das nossas origens. O permanecermos, quase todos, à margem das antologias nacionais (assunto que Onésimo T. Almeida não deixa de parte nestas suas páginas) nada quer dizer para além da persistente ignorância no outro lado do mar tal como acontece entre muitos intelectuais dentro do próprio a arquipélago, estes sofrendo de complexos de inferioridade étnico-periférica, cuja cura vai necessitar muito mais do que a leitura que eles, de qualquer modo, raramente ou mesmo nunca fazem da nossa melhor literatura. Só que nem os escritores das ilhas residentes no Continente, os que publicaram ou publicam em grandes editoras nacionais, se livram de alguns outros daqueles lados, os poucos que admitem nos conhecer, lhes chamarem nomes para eles detestáveis, como, (imaginem!) “escritor açoriano” e os seus livros “literatura açoriana”. Exclua-se aqui, num gesto de pura justiça, o nosso Prémio Nobel, José Saramago, que falava de “literatura açoriana” com a maior naturalidade, curiosidade e respeito, tendo enviado a Onésimo T. Almeida um breve texto sobre a questão agora integralmente citado na nota de abertura do presente volume.

Açores, Açorianos, Açorianidade deverá permanecer o principal ponto de partida para quem, em qualquer parte, se interessa pelas questões açorianas em geral, principalmente pela nossa modernidade literária iniciada por gerações ainda mais recuadas mas redefinida ou reinterpretada a partir da Geração Glacial de Angra do Heroísmo até aos nossos dias. Enquanto uns poucos entre nós se debatem com velhos conceitos e sobretudo preconceitos, a literatura açoriana tem sido objecto de estudo académico ao mais alto nível um pouco por toda a parte, menos no seu espaço natal. As ironias culturais de um povo acontecem de modos diversos, e esta é uma ironia nossa, já com pouca importância cultural ou literária. Chamem ao seu legado intelectual e artístico o que muito bem quiserem, mas um mínimo de pudor e seriedade deveriam evitar que se falasse ou “julgasse” o que não se conhece, e nunca se conheceu. No entanto, e como reafirma Onésimo T. Almeida num segundo prefácio à presente edição, muito mudou entre nós, e o tempo vem colocando as coisas e os pensamentos no seu devido lugar.

“Entretanto, operou-se — resume o autor num dos balanços que faz destes últimos anos quanto às questões culturais e literárias outrora polémicas — também uma institucionalização da cultura açoriana no discurso oficial e na Universidade: a realidade da personalidade cultural insular e a sua expressão literária e artística em geral passaram a quase não ser contestadas e são regular e sistematicamente afirmadas e reafirmadas… A literatura açoriana teve e tem um papel no fortalecimento da identidade açoriana e isso, só por si, é dizer que ela valeu e vale alguma coisa. Essa longa tradição prossegue. A literatura pode não aumentar a competitividade económica insular, no entanto é, sem dúvida, uma mais-valia em qualquer cultura, e a nossa prolonga-se numa tradição herdada de longe, e que tem deixado marcas notáveis na história das letras portuguesas”.

Açores, Açorianos, Açorianidade junta, assim, a teorização da cultura e literatura açorianas a outros textos fundamentais que nos inserem no espaço nacional e até internacional às questões da identidade ou identidades e as suas dinâmicas através dos tempos ou, como no nosso caso, em momentos políticos de grande tensão como ao que se seguiu entre nós logo após o 25 de Abril de 1974. Aliás, esta segunda edição, para além de continuar a responder aos que negariam a existência da nossa, uma vez mais, longa tradição literária pela fundamentação político-ideológica que o movimento independentista eventualmente poderia fazer em defesa das suas teses, reafirma ainda com mais força o facto de que a maioria dos fazedores da nossa literatura se terem posicionado claramente contra qualquer tentativa separatista, e levando agora o seu autor a incluir muito justamente um artigo publicado em 1991 em defesa do Dr. José de Almeida quando este enfrentou um tribunal pelo simples “crime” de defender a independência da sua terra, relembrando a todos que a democracia tem de comportar no seu seio o direito a todas as posições políticas, inclusive a defesa da independência de qualquer parcela nacional. Por outras palavras, a teorização séria de uma cultura ou de uma literatura não pode levar em conta a que conclusões chegarão outros, e muito menos as armas que escolhem para avançar com os seus projectos. A portugalidade e a açorianidade, questões que Onésimo T. Almeida tem trabalhado ao longo dos anos, não significam de modo algum conceitos opostos, estando o autor muito longe de se juntar aos que tudo isto entendem diferentemente.

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Onésimo Teotónio Almeida, Açores, Açorianos, Açorianidade: Um Espaço Cultural (2ª edição), Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2011.

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A Poesia Açor-Americana De Uma Tal Família Santos

A família Santos não é a minha famíliapelo menos creio que não. É  uma família, a família de alguém, talvez a tua família.

Carlo Matos, A School For Fishermen

/Vamberto Freitas

 

 

Nada haverá nada de mais sincero na reacção a um poema do que o primeiro impulso e “intuição” nossa após chegarmos à sua última página. Estamos aqui, diga-se sem qualquer demora, com alguns dos melhores poemas alguma vez escritos sobre o passado profundamente açoriano seguido da vivência no outro lado do mar e da vida – na visão do seu narrador ou narradores do fingimento, como neste caso. A School For Fishermen do açor-americano Carlo Matos torna-se uma viagem de catarse por geografias vividas e imaginadas, uma narrativa a várias vozes, todas inter-relacionadas numa só “família”, que tentam esconjurar a ansiedade das sombras de um passado que nos persegue tanto em dias luminosos como sombrios, esses fantasmas que não nos deixam nunca em paz interior, a condição primordial e estado de alma procurados até ao infinito. A clareza da sua linguagem, em versos estruturados ou livres, leva-nos linha a linha para lugares e cenários sempre inesperados, o “óbvio” quase tendo o mesmo poder que a ironia e o humor que formam e enformam estes poemas: Conheci o filho de Alberto Caeiro/um verdadeiro guardador de rebanhos./ Bebi a sua cerveja e consertei as suas paredes; ou, no outro lado da retórica poética, Praias não têm árvores./E se as têm, orlam as dunas de areia. Vai daí? Nada, apeteceu-lhe dizê-lo e disse-o. O centro está vazio e a vida fica nas margens? A voz que inventa um filho do mais rural heterónimo pessoano não é nem poderia deixar de ser a mesma que mais tarde fala também de certos caprichos da Natureza — juntam-se na sua capacidade de reinventar a própria ficção das suas vidas e dos espaços que ocupam, como que reafirmando que uma “verdade” não terá mais significado algum do que uma “imaginação” febril, tentando ambos, em qualquer dos casos, perceber os mistérios do seu destino.

Agora, o inevitável parêntese. Carlo Matos é filho de imigrantes açorianos micaelenses, nascido em Fall River, mas hoje doutorado em literatura com uma tese a ser publicada em breve intitulada Ibsen’s Foreign Contagion, actualmente professor da City Colleges em Chicago, animador ainda de noites poéticas num café daquela mesma cidade, deliciosamente chamado Chicago Poetry Brothel, que suponho não necessitar de tradução nenhuma para os nossos leitores. Tem publicado em várias revistas, como Houston Literary Review, Radiant Turnstile e Mad Hatters Review. Perece estranho, mas a verdade é que muitos destes escritores e poetas só recentemente se descobriram mutuamente como parte de uma já substancial comunidade literária luso-americana, conhecida mais por outros do que por nós, e que a cada dia nos revela um outro nome, quase todos assumindo, mesmo num mid-west que de portugueses pouco saberá, as suas raízes ancestrais. No mês de março vão reunir-se muitos deles num encontro especial denominado Kale Soup For The Soul/Sopa de Couve Para a Alma, no Chicago Cultural Center, e no qual estarão presentes, entre alguns outros, Oona Patrick, Lara Gularte, Carlos Queirós e Millicent Borges Accardi, já recenseada neste espaço. Matos faz questão de dizer que ainda tem um numeroso clã de sangue nesta ilha, que ele visitava com certa frequência na sua infância. Muito mais tarde, disse-me num correio electrónico, levaria a sua esposa, que não é portuguesa, a Lisboa e a esta terra de seus pais e antepassados muito mais longínquos para que ela conhecesse a restante família. A última vez que veio cá foi em 2001, e falou-me das mudanças radicais que viu nuns Açores que ele ainda conheceu sem televisão, com um só telefone na “sua” freguesia dos Mosteiros, e o leite matinal entregue de porta em porta por carroça. Lamentou-se de que já nessa altura quase já não reconhecia nada, nem sequer as Furnas, com turistas a mais, ou Ponta Delgada. Poupar-lhe-ei ao resto da história, até que ele regresse para rever tudo em pessoa, e abane uma vez mais a cabeça.

A School For Fishermen, para além da nota do autor parcialmente reproduzida aqui em epígrafe, abre com a mais cómica tábua genealógica que alguma vez li em qualquer peça literária. Dividido em cinco secções que se interligam pela temática da busca de um nicho de vida, cada um dos seus “narradores” fala do seu passado e presente, ora com ironia e humor, ora com saber clássico ou na maior confusão e perdidos ante o mistério que é sobreviver no nosso tempo: “João Filipe Santos, St Michael, Azores” até a “The Girl Who Was Also a Jellyfish, Voice of Melinda, Unknown” (“cujo verdadeiro nome completo é desconhecido…e não sabe nada de seu pai”), todos numa viagem íntima que vai desde a vida recordada num perdido e raramente lembrado recanto ilhéu a um Doutor cientista em busca de carreira na América dos nossos dias, a terra prometida em que estes personagens parecem já não acreditar. É claro que em volta de todos há quase sempre mar, mesmo num país-continente imenso de território sólido sem cerco; só que a memória genética de todos parece incapaz de esquecer outras origens e futuro sonhado, mesmo que do início da caminhada totalmente esquecidos pela passagem do tempo ou na ânsia da mera sobrevivência. Como na melhor poesia norte-americana, não há queixume nem sentimentalismo por parte de nenhum deles, mas sim a constatação dos desvios vividos e do destino, a exteriorização do saber sem livro, o impulso instintivo de como continuar existindo rodeado de seres tão estranhos e alienados como eles próprios. “…E a minha família já sentia a vergonha da minha existência sem rumo/porque a minha freguesia era tão pequena como eles próprios./Nunca pretendi, como ainda hoje não pretendo, humilhá-los ainda mais”. Não há condescendência, nem poderia haver, na melhor literatura luso-americana desta geração que, não tendo muitas referências nossas na língua inglesa, vira-se com insistência para Fernando Pessoa, a voz sem par em qualquer tradição literária da esquizofrenia criativa do ser, das “multidões” que em nós habitam, como Walt Whitman, também pai poético de todos eles primeiro do que ninguém, anunciou alegremente, e pouco depois levaria o poeta do Martinho da Arcada a reivindicá-lo como antecessor angustiante.

Cada verso de Carlo Matos surpreende-nos com o inesperado, dizendo simplesmente e sem aviso o contrário do que esperávamos, como quem já lê pensando que nada mais de novo nos espera. Isso é a literatura no seu melhor: o espelho que tudo distorce sem nunca “mentir” sobre a essência do que nele se reflecte. Cada um aqui – como nós todos, mesmo que inconscientemente – está demasiadamente repartido para se perceber inteiro. O poema de abertura, “Stonemasonry/Trabalho de Pedreiro”, é o  intróito “açoriano” em todo o seu esplendoroso primitivismo sem inocência mas com erudição histórica nas certezas asfixiantes da pequenez, o seu aviso às gerações seguintes, esses já longe da terra escondida e tremida dos seus primogénitos, os que terão de se orientar sem bússola em cidades-outras sem memória nem instruções da tradição ao mesmo tempo de certezas reconfortantes e sufocantes. A sua liberdade na Terra Nova é o seu próprio aprisionamento. A sua lucidez é a sua insanidade, e insanos são alguns destes narradores. Desde Katherine Vaz e Frank X. Gaspar que esta convivência entre “vozes” do saber institucional ou livresco e da sabedoria sem letras não tinha expressão. Na literatura norte-americana não são as ideias ou opiniões de personagens que definem um país, ou sequer uma cultura. São os indivíduos que, cada um a seu modo e no eventual relato da sua aventura à procura do seu lugar, acabam por dar corpo a uma outra maneira de estar vivo – ou derrotado — na vida. Esta narrativa poética encerra em si todas as angústias, todos os sonhos e desgostos inerentes ao que pensamos entender como sendo um novo mundo. Americanos e americanos – estes são os nossos, dando conta de si, lembrando o que não pode ser esquecido.

A School For Fisherman/ Uma Escola Para Pescadores foi seguido por Counting Sheep Till Doomsday. O riso e o choro, sempre, de todos nós, de todas as famílias.

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Carlo Matos, A School For Fishermen, Baltimore, BrickHouse Books, Inc., 2009. Todas as traduções são da minha responsabilidade.