Eugénio Lisboa entre o sonho e a realidade

anhã em Hollywood: Passeio da Fama, compra de bugigangas – o costume. Como seria de esperar, o sonho revelou-se maior (e melhor) do que a pífia realidade… Mas difícil reconciliar esta palhaçada com os grandes filmes que guardo na memória.

Eugénio Lisboa, Diário de Viagens Fora da Minha Terra

Vamberto Freitas

Diário de Viagens Fora da Minha Terra, de Eugénio Lisboa, tal como diz o autor na sua abertura, era para fazer parte do quinto volume das suas memórias, Acta est Fabula, mas tornar-lhe-ia longo demais. Pela minha parte só lhe agradeço pela decisão acertada, pois ter um novo livro do autor nas mãos, lê-lo frase a frase, regressar a páginas anteriores para me certificar de uma ou outra afirmação ou observação é dos meus mais belos momentos de leitura na nossa língua. Este diário data de 1996 até 2013, ou seja cobre os últimos anos de euforia generalizada no nosso país, e depois os anos de chumbo, que ainda não passaram totalmente. Viajar, para Eugénio Lisboa, fez sempre parte da sua já longa vida, a partir do momento que deixou Lourenço Marques em 1947, e depois no seu regresso a Moçambique após completar o curso em engenharia electrónica no Instituto Superior Técnico. Viria definitivamente para Portugal logo após o 25 de Abril, seguido de um também longo intervalo de 17 anos como Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Londres. O resto da sua distinta biografia é bem conhecida dos seus leitores, ou então será conhecida por futuros leitores seus. Do mesmo modo, a sua obra é tão extensa que ocupa um espaço muito maior do que este. Ler, por exemplo, José Régio sem ler o que Eugénio sobre ele comentou e analisou ao longo da vida seria perder alguma da mais inteligente e consequente interpretação ou hermenêutica (que me perdoe ele por este palavrão académico) na nossa língua, o mesmo aplicando-se a outros grandes escritores nossos como Jorge de Sena e Eça de Queirós. Exactamente por esta vasta experiência de vida com origens em África e pelas suas intermináveis leituras, abrir um livro de Eugénio Lisboa é viver a língua portuguesa na sua plenitude e presença mundial, é conhecer-nos de fora para dentro através de outras literaturas, especialmente a anglo-saxónica e a francesa. Pelo meio, ficamos a conhecer todo um distinto rol de escritores lusos que nasceram, viveram e vivem fora do nosso país, e cujos nomes e obras tenho mencionado noutras ocasiões e contextos. Pouquíssimos entre nós consegue escrever com a sua clareza e uma simplicidade que contêm em si o mais profundo e complexo pensamento sobre a arte literária, e não só, ninguém entre nós cita nos seus textos, sempre apropriadamente, tantos outros e outras das mais variadas línguas e tradições. Citando Harold Bloom no seu recente The Daemon Knows a propósito de outros, para Eugénio Lisboa “crítica é memória”, a literatura lembrada como outro arquivo criativo da História, a memória de termos sido e vivido nas mais variadas e distantes geografias.

O diário de Eugénio relata-nos as suas visitas a vários países e cidades, nomeadamente, e por esta ordem, Montevideo, Los Angeles, Peru, Viena, Budapeste, Praga, São Tomé, Havana, Paris e Marrocos. É claro que viajarmos com este autor é, em primeiro lugar, dar-nos conta do quanto não sabíamos nem sabemos. Se algumas das vezes vai principalmente ao encontro de familiares residentes no além-fronteiras, Eugénio nunca deixa de explorar minuciosamente cada recanto de umaa outra cultura, seja ou um famoso (Paris) museu ou outro menos conhecido ou esotérico (Peru), tudo em sociedades bem diferentes da nossa, e como leitor omnívoro nunca deixa de entrar nas livrarias à procura de um livro e quase sempre vivendo momentos de epifania ante um outro autor ou tema. Por vezes estamos perante uma prosa quase telegráfica, que nunca perde os significados mais consequentes no nosso próprio entendimento ou descoberta do que antes nos passara ao lado. O humor na sua prosa, que fica algures entre sátira arrasadora à moda portuguesa e a leveza anglo-saxónica, é outra qualidade constante da sua escrita. O autor de Portugaliae Monumenta Frivola, por exemplo, é um inveterado aficionado do romance policial ou thriller político, as suas companhias que ele vai comprando nos próprios aeroportos antes de embarcar, e de seguida manda uma piada a um Vergílio Ferreira (falecido em 1997), que se levava demasiado a sério e desdenharia destas leituras, vivendo angustiadamente, diz-nos Eugénio Lisboa, obcecado pelo Prémio Nobel, provavelmente só desdenharia destas outras leituras. Só que estas outras liteturas de Eugénio, segundo ele próprio, por vezes superam a mais séria pretensiosidade literária em pensamento e artifício entre nós. Faz-me lembrar um antigo mestre meu na Califórnia que nos fazia ler um pouco de tudo, sendo obrigatório um encontro com Raymond Chandler e o seu Lady In The Lake, entre alguns outros escritores que tinham os subterrâneos de Los Angeles como palco de corações atribulados e a constante manifestação do Mal. Por outro lado, sempre que ele se lembra de José Saramago, já sei que vou rir. Nesta celebração pessoana, – escreve enquanto voa para o Uruguai – que vai ter lugar em Montevideo (capital da cultura da América latina, em 1996) estava prevista a vinda de Saramago que, afinal, não vem. Porque seria? A mim, torna-me a viagem simplesmente mais agradável”. É esta prosa algo felina que se junta a uma espantosa erudição literária e à mais séria consideração sobre literatura e o seu lugar nas diversas civilizações. A partir de certa idade, decidi ler só os livros que me movem e comovem, e na nossa língua toda a obra de Eugénio Lisboa, que inclui poesia, é um dos meus grandes prazeres, o texto ainda como fonte de saber, de descoberta.

Havana. Confesso – escreve num passo datado de Dezembro de 2009 – que não tenho muita paciência para a incoerência – para lhe não chamar má fé – de certos escritores. García Márquez embirra solenemente com Hemingway e trata de denegri-lo, sempre que pode. Coloca-o, por exemplo, muito abaixo de Steinbeck e de Dos Passos, o que me dá vontade de rir. Mas, depois de dizer, em certo ponto, que Hemingway é o afortunado autor de muchos cuentos maestros e, adiante, que é o autor de vários cuentos – esos si extraordinários, prevê que a sua fama não resistirá e que se acabará mucho antes que la cuenta bancaria de sus herderos, etc. Como é que a fama de um autor de cuentos extraordinários e de cuentos maestros se apaga com tal presteza – é um mistério que não consigo decifrar.”

Deixei propositadamente para a última parte deste texto a visita de Eugénio Lisboa a Los Angeles, pois andei por lá boa parte da minha vida. As palavras da epígrafe aqui transmitem impressões que, se não são necessariamente consensuais, a verdade é que eu estou inteiramente de acordo. Entre o sonho que Hollywood sempre transmitiu ao mundo através do cinema e a realidade fica um fosso de fealdade e miséria humana. A Hollywood que vemos cá fora não tem nada a ver com as imagens de casas luxuosas, palmeiras ao vento, e uma california girl de cabelo a voar num descapotável topo de gama à beira-mar e a alta velocidade. Isso tudo fica em Beverly Hills e Malibu (já vamos lá), onde vivem os milionários e os seus criados, inclusive portugueses. Quase todos os seus actores mais famosos escolhiam outras paragens para a sua vida quotidiana. O mundo é pequeno, sabemos. Foi uma grande surpresa para mim quando topei neste diário de Eugénio um grande médico russo e judeu, de nome Boris Catz, falecido em 2013, e que fora o dedicado marido da falecida Rebecca Catz, também judia nova-iorquina e filha de russos que se doutorou com uma tese brilhante intitulada A Sátira Social de Fernão Mendes Pinto. Por vias que não preciso explicar aqui, cheguei a ir a casa deles mais do que uma vez, e tomar um copo com Boris, rico aposento onde se respirava cultura e arte, humanismo e inteligência. Publiquei, em 1980, no Diário de Notícias, uma longa entrevista com a autora sobre a sua obra. Entre muitas outras originalidades acerca do nosso clássico “oriental”, ela afirmava que se tratava do primeiro grande livro europeu anti-cruzada, anti-imperialista. A dedicação de Boris à memória da sua mulher e grande companheira de vida era de tal ordem que o levou a instituir uma conferência anual em Los Angeles sobre questões culturais lusas. Foi por isso que Eugénio lá foi em Março de 2005. Foi ainda nestas páginas que reencontrei o amigo Eduardo Mayone Dias, natural de Lisboa, mas que viveu a maior da sua vida naquela cidade e como Professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Injustamente esquecido no seu país natal, foi Mayone Dias que influenciou a minha geração quanto a história e outros estudos sobre as nossas comunidades imigrantes no oeste americano, na sua maioria oriundas dos Açores.

Diário de Viagens Fora da Minha Terra foi para mim, como será para outros, um passeio não da fama mas, sim, do saber, um passeio de descoberta e reencontro com vários países e cidades. A geografia das suas andanças denota logo o que nos vai dizer sobre escritores nessas suas cidades, como quando nos relembra quão estranho se sentiria Kafka dentro da grandeza de Praga, assim como outros escritores e artistas da Europa Central na encruzilhada da história, cultura e línguas diversas. Basta só uma insinuação, a citação de um nome ou obra para nos abrir a memória ou, melhor ainda, para nos indicar leituras essenciais ao nosso tempo e lugar planetário.

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Eugénio Lisboa, Diário de Viagens Fora da Minha Terra, Guimarães, Opera Omnia, 2017

As outras américas que não vivi

Como tantos cidadãos do mundo, devo aos Estados Unidos uma medida da minha educação liberal e do meu otimismo ontológico. E também da minha consciência libertária.

Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana

Vamberto Freitas

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, uma recolha de ensaios de Clara Ferreira Alves, ergue-se como um dos melhores livros sobre o grande país mítico a oeste das nossas memórias e obsessões políticas, culturais e imperialistas, esta última palavra fazendo lembrar Gore Vidal, que assim o denominava e que conhecia as suas origens nacionais e o papel internacional do país melhor do que ninguém. Tenho o dever de colocar as minhas cartas na mesa. Vivi na Califórnia, primeiro no Vale de São Joaquim e depois na Grande Los Angeles, cerca de 27 anos. Não conheço, nunca conheci, todas as “américas” que Clara Ferreira Alves viveu e interpelou nas suas constantes visitas desde a década de 70 até aos nossos dias, viajando de costa a costa, permanecendo em pequenas e grandes cidades, conversando e observando o que chamamos a América cosmopolita à beira do Atlântico e do Pacifico, e depois a América profunda das pradarias e das pequenas cidades sem rumo nem vida, sem consciência do passado e muito menos sem ideia do futuro. Dormiu e acordou numa Nova Iorque sem noite nem dia e entre as multidões do mundo arrastadas pelo Sonho Americano, viu a América da ferrugem e da decadência provavelmente irreversível dos que a globalização atirou para a rua ou para as casas à beira do colapso e da miséria generalizada. Não, nunca conheci essa América nos subúrbios sul-californianos onde vivi, estudei e leccionei, sem o mínimo desejo de sequer ir a Los Angeles, a minutos de distância, a não ser num ou noutro sábado à noite em Hollywood, mas só para ver a Sunset Boulevard como quem vai a um parque de diversões e olhar para os freaks que batiam em pandeiros pseudo-religiosos, pregavam o fim do mundo ou estavam deitados no passeio bêbados e drogados. Não tenho saudades algumas, a não ser da minha família e de amigos mais íntimos. Estes olhares de Clara Ferreira Alves não são de uma mera visitante ocasional, vêm de dentro para fora, vêm de quem sente a inteira pertença e sorte dos Estados Unidos como se lhe fora uma segunda pátria, e creio que é mesmo.

Bem sei que Nova Iorque é a cidade da autora, mas para mim era um lugar distante e pouco desejável. Das duas ou três vezes que a visitei, na companhia da minha mulher Adelaide, que lá tinha estudado e sofrido a vida numa cave discreta, só tenho duas ou três recordações memoráveis. O vasculhar nos alfabarristas à procura de primeiras edições da obra de Edmund Wilson, um musical na Broadway com Jerry Lewis, e sobretudo uma visita ao apartamento do recentemente falecido Gregory Rabassa, o melhor e mais famoso tradutor de literaturas hispânicas (One Hundred Years of Solitude, de Gabriel Garcia Marques, por exemplo) e portuguesas (João de Melo e António Lobo Antunes, entre uns poucos outros), e que havia sido professor da Adelaide na City University of New York, depois mais nada, odiando ver o sol aos quadradinhos por entre os arranha céus. Lembro-me de um apagão de Inverno e do que disseram os texanos, meus vizinhos naquelas partes: Let the bastards freeze in the dark. Só isso. Sou um homem, como já disse, dos calmos subúrbios, relva cortada e tosquiada todos os sábados, como um dos personagens menores num dos contos de Raymond Carver a regar o seu jardim e a mexericar a vida dos vizinhos. Um dia saí do meu bairro da classe média remediada rumo à escola onde era professor, e entrei nas ruas do outro lado onde morava a riqueza. Recuou da sua garagem de luxo um Mercedes azul escuro guiado por uma loira, mas cujo autocolante dizia simplesmente: Another shitty day in paradise, o humor de quem tudo tem sem nunca deixar de sentir o vazio existencial no paraíso, ou na Terra de Deus, como alguns se referem à Califórnia. Clara Ferreira Alves tem toda a razão em sentir o tédio e o asco por tanta ordem limpa, especialmente em Palo Alto e Arredores, quando se refere à Califórnia “perfeita” fora de São Francisco e outros centros sujos e de dinamismo humano. Só que em Cenas Da Vida Americana vejo e sinto o resto do grande continente. Deixei de viver e ver a América pessoalmente e em directo no tempo de George Bush, pai. Ela continuou a ver e a viver tudo de lá, até aos nossos dias. Muito me ensina, e ainda mais desperta a minha memória. Disse à autora aqui há dias que ia brigar com ela por causa dessas páginas sobre o grande estado a oeste que foi e será sempre a minha outra pátria. Decidi mudar de rumo, e brigar comigo próprio por tanto ter ignorado, ou então fazia que não via ou queria.

Clara Ferreira Alves não deve, pela minha a parte, ser classificada politicamente, nem isso tem qualquer importância no contexto do ora sereno ora contundente Cenas Da Vida Americana. Só que a sua relação com os Estados Unidos é muito longa. Ela escreve sobre a grande nação como alguém que sente pertencer por inteiro aos destinos desse outro país. Faz-me lembrar, no entanto, as atitudes da Nova Esquerda/New Left, da qual eu venho e ainda hoje com a qual me identifico, apesar de também me identificar com uma outra esquerda socialista democrática que nos antecedeu, e que era a minha desde os tempos de faculdade, o crítico e ensaísta Irving Howe e a revista Dissent que ele dirigia e editava uma referência permanente. Para ela, o seu relacionamento com esse seu outro país da imaginação e de afectos é um de amor e ódio, a sua admiração pela sua cultura em geral, o seu modo se ser e estar lado a lado ao seu ódio a alguma da sua política interna e externa. O que mais admiro neste seu livro é o seu conhecimento da arte suprema americana, desde os escritores canónicos à musica e artes plásticas. A capa do seu livro diz tudo. O “Nighthawks”, de Edward Hopper, a solidão humana no que se depreende ser uma grande ou pequena cidade, a busca do amor e da cumplicidade possível no negrume da noite e na luz interior de um Café. Clara Ferreira Alves vê aqui todo o esplendor artístico da América, com a dor indefinível de um país-continente, a incerteza que desafia e amedronta a todos no dia seguinte. São as cenas de uma humanidade em busca de si própria, em busca de um silêncio fora do barulho de uma sociedade sem sossego, o mosaico completo e constituído literalmente por todas as nações do planeta. A autora viaja durante anos não só para as cidades metropolitanas, mas também rumo aos mais escondidos, esquecidos e miseráveis recantos dessa mesma América, e cada conversa parece uma prece aos deuses que fazem dos EUA um espaço tanto de todas as possibilidades como de todas as derrotas. Pouco me interessa no seu livro, em certas páginas, a ilusão de se querer moldar o mundo à imagem de Nova Iorque ou da suposta liberdade de um grande império. Fico pelas suas convivências, conversas e afinidades com os americanos que ela encontra nas suas perpétuas caminhadas e que fornecem o ethos do sofrimento interno e das batalhas estrangeiras, desde o Médio Oriente à América Latina. Prefiro as suas passagens por museus, livrarias, teatro e cinema. É por aí que ela me mostra o que eu nunca tinha visto ou pensado nesse meu outro país e pátria. Quando menciona o nome de um escritor, nos seus contextos múltiplos, diz-me tudo e ensina-me algo que eu desconhecia. Isto não é um livro de “crónicas”, é um conjunto de ensaios, como já referi atrás, menores ou maiores, que nos dão um retrato, não de todo agradável, mas de todo plausível nas observações de gente e símbolos, sensível na sua empatia, acreditável na sua dureza realista. A sua visita a Detroit é avassaladora, antológica, a decadência absoluta e mortífera, e depois o optimismo e a criatividade da reconstrução humana e económica, deixando sobressair o melhor do país: a sua energia e capacidade de renovação após as mais variadas catástrofes impostas pele natureza ou pelo próprio sistema.

Raramente – escreve a autora – se ouve um discurso de vitimização ou culpabilização. Apesar da privação e do sacrifício, do sofrimento, o ethos americano impede a nostalgia e o rancor. Ninguém culpa os industriais, os trabalhares, a segregação, os bancos, os maus governantes, a corrupção… O caminho é para a frente”.

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, tal como indica o título, contém textos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Lido em sequência, oferece-nos ou propõe visões das facetas e acontecimentos internos e externos mais dramáticos na história do país, especialmente o envolvimento do país no incendiado Médio Oriente e o alto preço humano e estratégico que os americanos continuam a pagar. De resto, o que ela diz de Trump, do longo processo eleitoral que o levou até à Casa Branca, fica para outros leitores deste livro. De página a página é como ler uma obra do chamado novo jornalismo de décadas passadas, é um “romance” que toma acontecimentos reais como tema, o seu fio condutor sendo a própria “voz” da autora, como um Truman Capote ou um Norman Mailer faria noutros contextos e lugares. É esta a América que não vivi ou conheci durante toda a minha vida nos bairros assépticos do meu destino durante quase 30 anos, o país onde vivi a minha adolescência, onde me formei e me tornei professor do ensino secundário oficial da Califórnia. Digo-o sem quaisquer complexos ou vergonha – estas foram para mim páginas de ensino, mais o tal prazer do texto na grande arte da escrita em qualquer uma das suas formas ou género.

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Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, Lisboa, Clube do Autor, 2017.

 

Public Intellectuals and the resurgence of political dystopias

Do intelectual público no nosso tempo

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Ainda como aluno de licenciatura de Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana na LUSAlândia, de um autor que me era totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizada na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara abertamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e não entendia muito bem o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e lusalândia sabia muito bem o seu significado. Pensei de imediato que isto tinha a ver também comigo já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela da então editora coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, fundado em 1973, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente do que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvelliano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha mas já mais minha do que eu não conseguia realizar, era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e conseguia agora exprimir e, sem complexos ou medos, dizê-lo publicamente. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Sei hoje que Onésimo Teotónio Almeida esquece, ou quer esquecer, esse seu livro por razões que não entendo muito bem, mas eu não o esqueço, e mantenho-o num dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever critica sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu relacionamento com restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts, e que escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinantes no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinha de uma certa e moderada esquerda residente em Lisboa e nos arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos separados da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, valendo quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e direitos e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens à terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua actuação pública no continente e muito menos nas ilhas.

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência quiçá reduzida? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos dos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literatura and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e da seriedade intelectual e de cidadania. Nuca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica pura, ou mesmo uma de mera escrita e circunstancial numa periódico generalista, desde Vanity Fair e The New York Review of Books à The New Republic, revista erudita onde acabaria a sua carreira.. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que diria do modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the !870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de recensões e ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties) e vai ainda em busca da vida e das tradições de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento estadual, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essenes, tentando demonstrar a sua dignidade e valor artístico e lugar histórico na modernidade que os marginalizava e os colocava no esquecimento e em perigo num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publica de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aos seus leitores – The Americano Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este faz em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pelo IRS, condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, lhe faria ficar na penúria quase absoluta, e aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada, significa acima de tudo, o que os nossos fundadores queriam vir a ser um país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exactamente do que necessitamos”. Wilson nos seus últimos dias folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia neste nesse país aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele não tinha sido fã, pois nunca se tinha esquecido que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido a vida numa Hollywood que ele nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinha levado sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. O seu discurso de intelectual público que era o seu que poderia não ser lido pela maioria dos leitores americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e quem o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república” para um “império” arrogante e dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do ligar que o império todo poderoso do século XX impunha a mundo e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temparavaca raiva e o desgosto que ele sentia durante quase toda sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso,, é uma acusação sem resposta aos que se apoderarão do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria , e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência infinita um desafio sorridente as que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo e derrama sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados unidos.

Edward Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com víamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção falsificada que os escritores ocidentais, particularmente os britânicos nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria ….de ser e de nos vermos. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há fala de pretensioso cosmopolitismo, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as linguagens comuns, quer as entendêssemos ou não. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda andam por aí, e actuam. Esse palestiniano de assessor de Assar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com víamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção falsificada que os escritores ocidentais, particularmente os britânicos nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria ….de ser e de nos vermos. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há fala de pretensioso cosmopolitismo, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as linguagens comuns, quer as entendêssemos ou não. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda andam por aí, e actuam.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder. Para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com dei início a este meu texto. Obrigado, não só por seres quem foste e és. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu mais, na minha juventude, reinvenção da minha identidade e luta californiana, mais precisava delas

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Lido em “Public Intellectuals aand the reassurance of political dystopias”, Universidade dos Açores, a 31 de Maio de 2017, numa conferência à porta fechada. Algumas das traduções aqui são minha responsabilidade. Nas fotos:  Edward W. Said, Gore Vidal, Onésimo Teotónio Almeida e Edmund Wilson. Claro que foram tão-só figuras mencionadas na minha comunicação.

 

Da União Soviética e do que viria depois

Claro que se trata de fragmentos da minha memória, mas não foram escolhidos com outro fim especial além daquele de mostrar a evolução de um jovem que nasce numa família de pescadores, frequenta um seminário católico, parte para a União Soviética e acaba por lá ficar quase 40 anos.

José Milhazes, As Minhas Aventuras no País dos Sovietes

Vamberto Freitas

Não houvesse mais do que as palavras que cito aqui em jeito de epígrafe, e só elas bastariam para despertar o interesse de qualquer leitor minimamente curioso sobre o destino português e as nossas “aventuras” de emigração em praticamente quase todos os países do nosso tradicional destino, a União Soviética constituindo definitivamente um caso único para além de um número relativamente reduzido dos nossos compatriotas, e suponho que quase todos eles alinhados, ou pelo menos intimamente relacionados, com o Partido Comunista Português. Este magnífico livro As Minhas Aventuras No País dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi é, adentro de um género praticado ou escrito por muitos autores internacionais que viveram situações públicas ou político-estatais pouco comuns, torna-se uma combinação de autobiografia e de memórias acerca de um tempo e de lugares profundamente vividos, em que as responsabilidades profissionais estão ligadas à vida pessoal ou familiar do seu autor. Depois, poucos de nós passaram toda uma juventude num país tão distante cultural e politicamente considerado, completando uma licenciatura numa universidade desse império enquanto se aprende a sua língua e linguagens num dia-a-dia de contínuo reajustamento a uma nova cultura e ideologia abertamente em luta permanente com boa parte do Ocidente, em busca de pão e de condições vivenciais nada fáceis, desde alojamentos e alimentação num clima totalmente oposto ao das suas condições pátrias. São estes outros factores que, a mim, só suscitam admiração e surpresa ante tanta vontade ou, quem sabe, resignação ou crença num projecto tanto pessoal como colectivo que poucos de nós aceitariam ou enfrentariam com tanta calma, por assim dizer, e integrar-se numa mundividência muito longe da nossa experiência sócio-económica e cultural em Portugal. Não posso deixar de mencionar aqui o meu fascínio por José Milhazes quando me aparecia via televisão de Moscovo, de Kiev e de outras localidades da União Soviética, de barba cumprida, de gorro enfiado até às orelhas e de casacos ultra pesados a relatar os últimos e dramáticos acontecimentos um pouco por toda a parte na então grande potência – para a maioria de nós misteriosa, e até temerosa, com a serenidade de quem está em casa ou perfeitamente confortável na Praça Vermelha. Para um telespectador ou ouvinte de rádio aqui isso era quase como rever o primeiro homem a chegar à Lua, ou a um país simultaneamente distante e estranho. Só que, depois da minha leitura deste inesperado livro percebi finalmente que as nossas andanças pelo mundo nunca foram convencionais ou de sonhos comuns – foram sempre de aventura na descoberta de um Outro, na descoberta das terras em tudo alheias que sempre nos seduziram desde a partida das primeiras naus, até hoje. As aventuras deste autor na antiga terra dos czares (que estão de volta) e de Lenine e dos seus muitos sucessores, nada de estranho nos deveria ser. Crença e coragem, força interior e capacidade intelectual e política fazem também parte do nosso ser, mesmo que a maioria opte for ficar onde nasceu, e enfrentar de caras os nossos próprios carrascos e malabaristas estatais de toda a espécie.

José Milhazes, filho de pescadores na Póvoa de Varzim, filia-se na juventude comunista e parte para Moscovo como estudante do ensino superior aos 17 anos de idade, em 1977, e só regressa ao seu pais de nascença em 2015, depois de já ter organizado a vinda para Portugal da sua esposa natural da Letónia e dois filhos, enquanto ele ficou para presenciar e relatar o que restava do antigo império soviético, o que intitula num dos capítulos desde livro, na fase de transição política “Os Malditos Anos 90”, e todo o drama violento vivido pela Federação Russa que hoje conhecemos, desde as conspirações e das contra-conspirações dos duros do regime soviético caído seguido de golpes e contra-golpes de Boris Yeltsin até à queda de Mikhail Gorbachov, e a chegada de Putin, num cenário das mais corruptas privatizações e gangsterismo de todos os tipos, com prisões, guerras civis em antigas repúblicas da União, mortes militares e actos terroristas, extrema miséria económica e ameaças de todo o género como modo de vida diárias. José Milhazes mantém-se no seu posto, e presencia em directo a Revolução Laranja em Kiev, a tomada pseudo-eleitoral e militar da Crimeia, assim como a suposta pacificação de outras repúblicas e territórios em guerra fratricidas. Pelo meio, vai convivendo a ajudando os seus vizinhos nos arredores de Moscovo, recebe e acompanha políticos portugueses em visita à potência caída, incluindo Mário Soares, Zita Seabra e outros, tudo isto enquanto lida com as suspeitas sobre o seu trabalho e ao serviço de quem. Hoje sabemos que ele era absolutamente independente, e desta leitura deduzo que a sua desilusão final vem com a queda do líder, que nunca deixou de ser comunista, Mikail Gorbachov, a sua última esperança de abertura e renovação de todo o sistema, e que manteria, pensava-se então, um comunismo de face humana. Durante este seu percurso na União Soviética percebemos que convive em perfeita harmonia com os seus vizinhos no prédio onde residia no seu apartamento com a família, mantinha as mais chegadas relações com colegas e amigos, estava na casa dos seus afectos e de longa vivência. As fotos que acompanham este livro, desde a sua juventude até aos últimos anos na Rússia, dão testemunho do alto apreço que tinha entre uns e outros, desde cidadãos comuns a todo o tipo de oficialidade. Nada comum para um filho de gente humilde no nosso país, nada comum entre a maioria que se havia refugiado no ou perseguido o sonho comunista da grande potência que um dia foi a União Soviética.

Permitam-me aqui uma nota pessoal, pela sua ironia. José Milhazes começou a sua carreira como tradutor de cinema e de outras artes e livros uma editora soviética responsável por todo o tipo de propaganda internacional, a Editora Progresso/Progress Publishers, situada naturalmente em Moscovo. No momento em que ele lá desempenhava as suas funções, eu era um jovem universitário no Orange County, no sul da Califórnia mais conservadora. De quando em quando, antes e depois de 25 de Abril, eu visitava com um outro colega e amigo açoriano a livraria do Communist Party USA, em Los Angeles, para comprar livros da literatura clássica russa, e não só, que eram enviados para lá a preços subsidiados muito baixos, de capa dura, ilustrados e magnificamente traduzidos. Foi lá que ouvi pela primeira vez o nome de Álvaro Cunhal, levando uma grande “lição” política de um velho militante por não saber quem era na altura o grande teórico comunista internacional. Tenho alguns desses cobiçados livros na minha estante aqui em Ponta Delgada, como o Selected Works in Two Volumes (1973), de Anton Chekhv, Soviet Russian Stories of the 1960’s and 1970’s, The City of the Yellow Devil, de Maxim Gorki (1972), entre alguns outros. Lembro-me ainda de visitar uma gigantesca exposição sobre a vida da União Soviética em Los Angeles, sabendo muito bem que éramos fotografados à entrada e à saída por alguns dos serviços secretos, inclusive pela polícia da própria cidade. Só me recordo disto: de ficar fascinado pela cordialidade e formação dos soviéticos que nos mostravam e explicavam cada amostra da vida soviética, nunca me esquecendo que era tudo parte propaganda e porventura parte da verdade. Até hoje recordo esses momentos como uma educação de como olhar para o Outro, que até então nunca me tinham parecido estranhos e malfeitores. Coisas da juventude, mas também coisas da nossa comum humanidade, para além de ideologias e desconcertos do mundo.

Ironia das ironias, o meu outro país de nacionalidade dupla é os Estados Unidos da América, e é governado por um Donald Trump, que recuso aqui a classificar, mas sei muito bem o que penso dele, e o medo que sinto pelo futuro desse país, onde vive praticamente toda a minha família. No caso de José Milhazes, tem Vladimir Putin. É um empate muito triste. Encontramos agora os dois nossos países de adopção nas mais abismais condições políticas. Tenho de concluir este texto com uma citação que encerra As Minhas Aventuras nos País dos Sovietes: A União Soviética tal com a vivi: “Quando se vive tão longe de Portugal, compreende-se de forma muito profunda que temos o melhor país do mundo, mas também se entende quão mal gerido ele é. É pena.”

É, sim. Só com uma grande diferença. Ainda não nos prendem à meia noite ou de madrugada, não nos assassinam, pelos menos fisicamente. O resto faremos, como sempre, à moda portuguesa – não vemos, não ouvimos, pretendemos não saber de nada. Os órgãos de informação falam sozinhos, de si para si. Temos o sol e a praia, a colorida luz de Lisboa. Só que após mais de oitocentos de História temos também a longa memória de “salteadores de estrada”, como dizia um grande poeta açoriano nas suas conversas, ainda por resolver.

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José Milhazes, As Minhas Aventuras No País Dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi (4ª edição), Lisboa, Oficina Do Livro/LeYa, 2017.

Da geração seguinte e do seu mundo

Acabou a época da incapacidade acidental sem castigo. Saímos da água entre suspiros nostálgicos e já não amaldiçoamos a última areia que incomoda.

Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído

Vamberto Freitas

Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50. Não, não vou falar da sua carreira em Lisboa, e como ele entra na minha sala, sem pedir licença de quando em quando. Vejo-o e entendo-o em primeiro lugar como um escritor açor-continental, que cultiva a crónica, primorosa, a escrita na sua mais clara expressão, cheia de sentido, humor e significado. Quando o leio-o, vejo logo o seu sorriso, o que provoca o meu. Este seu mais recente livro, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído é demasiado açoriano, português. É o nosso encontro com vários mundos, é a nossa fascinação pelos outros e pelas suas terras. É, em suma, a descoberto do Outro, ou seja, a redescoberta de nós mesmos. Em pouco digo como o conheci pela primeira e única vez na Praia da Vitória, num dos mais improváveis eventos para mim. Um velho esquerdista numa convenção do PSD não é muito comum. Mas os homens livres cultivam estas coisas, sem medo nem piedade. Foram outros tempos, e um crítico literário não cultiva preconceitos desses, ou de outra natureza – sem culpa e muito menos sem desculpas de qualquer espécie.

Reabro Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, já todo sublinhado, páginas viradas, comentado nas margens, e tento encontrar o que mais me tocou na mente e na alma. Acompanhar o autor nas suas viagens é um passeio sem começo nem fim. Não é só a boa escrita, é a emoção sorridente, a descrição precisa, como se eu o tivesse acompanhado nas suas andanças como um açoriano do mundo. A sua prosa mete-me inveja, mas esse é um problema meu. Não há deslumbramento aqui, só surpresa e fascínio. Não tenho o seu modo de rir, mas tenho o seu modo de sentir. No estrangeiro vê e observa com grande astúcia os desconhecidos, por assim dizer, e na nossa terra-mãe vê os suspeitos do costume. Como eu gostaria de vos escrever assim. Raramente fala de si, só olha em sua só volta, e diz do que vê e pensa. Gosta de nós, e gosta dos “outros”. Umas vezes com gosto outras com desgosto. O cronista autêntico tem esta responsabilidade: não tem pontos de vista imutáveis ou definitivos na prosa, fala só do que quer e vê, sente ou não sente. Há uma e qualidade admirável na prosa de Luís Filipe Borges. Combina a seriedade absoluta com o seu modo peculiar de achar graça a quem o rodeia ou com ele convive. Um professor universitário não consegue esse privilégio da bondade, ou até da generosidade. Quem elogia quem, é que conta no dia-a-dia. Luís Filipe Borges nunca achincalha, ri com, e nunca de (como já escrevi sobre outro autor açoriano num contexto muito diferente deste), conhece a sua própria humanidade no seu melhor e pior. Faz-me lembrar aqui outros cronistas e escritores com quem me atrevo a comparar: João Pereira Coutinho (o genial autor de Conservadorismo e E Vamos ao que interessa, o distinto colunista da Folha de São Paulo), um dos “conservadores” que mais leio e aprecio, ou até Miguel Esteves Cardoso. Como homem de esquerda desde sempre, não cedo a muita gente, mas a estes sim, e com todo o prazer. Luís Filipe Borges pertence a uma geração mais ou menos da mesma área ideológica que nunca deixa de surpreender, e terem nascido na liberdade que tanto nos custou: seu irmão Alexandre Borges, Joel Neto, João Pedro Porto, entre alguns outros cujas obras não são chamadas para aqui neste momento. Só que o respeito intelectual e literário que cultivam por nós, que os precedemos na escrita e na idade e até nas mais variadas experiências académicas ou profissionais constitui a melhor homenagem que nos podiam prestar. Foi para isso que lutamos politicamente e escrevemos nos mais variados géneros O seu apego inabalável à sua terra de origem, essa homenagem que nos prestam sempre, quando nos citam ou mencionam, é de uma dignidade que me faz baixar a cabeça e dizer-lhes simplesmente obrigado, sabendo que a continuidade da nossa Tradição está mais garantida.

Entre a hospitalidade, a beleza natural, as práticas antigas – escreve Luís Filipe Borges – e a tecnologia desaparecida, ficamos todos no Pico, todos das Flores, de São Jorge, do Corvo e do Faial. Deixamos de ser cidadãos do mundo, como o outro, e queremos lá saber”.

Se incluo aqui esta breve citação sobre as suas andanças pelas nossas ilhas é porque também queria dizer que este e outros escritores da sua geração serão talvez os mais cosmopolitas por formação e experiências verdadeiramente citadinas, no bom sentido da palavra, sentem-se bem em toda a parte, mas um tema, creio, percorre quase todas as suas obras – o regresso a casa, os Açores sempre na sua alma e, até, postura na vida. Nunca em Lisboa deixam esquecer as suas origens, em conversas de televisão ou noutros meios de comunicação social, e muito menos nos seus livros. Podem, pois, imaginar como os da minha idade se sentem perante estes autores e livros. O seu respeito pela minha geração açoriana foi sempre constante, e isso é a melhor homenagem que nos poderiam prestar. A tradição literária nos Açores vem de longe, pelo menos desde o século XVI, com a publicação de Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, e estes jovens estão a garantir a sua continuidade. Devo ainda adicionar aqui que nestes anos mais recentes muito se tem publicado aqui nos e sobre os Açores, e muitas dessas obras são de inegável qualidade literária, desde o premiado João de Melo em Lisboa a Paula Sousa Lima, residente em São Miguel, mas cujo romance O Paraíso seria finalista do grande Prémio LeYa em 2016, e naturalmente publicado pela mesma editora. Foi lançado há poucos dias na Livraria SolMar a primeira grande tese de doutoramento na Universidade dos Açores sobre a obra suprema do falecido José Martins Garcia pelo meu colega Urbano Bettencourt, sob o título O Amanhã Não Existe, ele próprio um grande ensaísta, poeta e ficcionista. Como disse um dia o florentino Pedro da Silveira, a única região ou país no mundo de população comparável à nossa e respectiva produção literária tão profícua será só a Islândia. Pedro sabia destas coisas mais do que nós todos juntos.

Luís Filipe Borges viaja pelas mais próximas e longínquas cidades estrangeiras, desde Veneza por vezes mal cheirosa e frequentando os seus recantos mais escondidos, a uma Havana que parece fora do tempo, e até da História. O seu olhar agudo nunca nos deixa de fora, parece por vezes um espião dos tempos idos: “A estátua de Hemingway ao balcão da Floridita – diz-nos casualmente – envergonha o nosso Pessoa no Chiado”. Não haverá nada simultaneamente de mais dramático e cómico do que um português a ver o mundo, como imaginamos os descobridores lusos de outrora. No ensaio “Sátira em Salermo, II”, volta à memória e à sua vivência na nossa terra. Diz de uma conversa com um sérvio, esse cidadão de um outro país para nós mais do que estranho, mas ou menos parecido com Portugal. “Está interessado – escreve uma vez mais acerca do seu interlocutor distante – na esquizofrenia portuguesa tal como a apresentei na conferência. Um país cuja comédia ainda aprende a andar, marcada pela repressão do fascismo, e que hoje é algo bipolar – oscilando apaixonadamente entre o fado e o humor”. É esta capacidade de escrita que o distingue entre todos nós, o frase limpa e curta que diz tudo o que somos e como somos.

De resto, só direi que li Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído como quem lê um romance em sequência sobre um protagonista em viagens pelos mais diversos países em continentes distantes, mas que se tornam parte de nós. As linguagens de Luís Filipe Borges combinam, deixem-me repetir, erudição, ironia e humor. Depressa esqueci o personagem público, e concentrei-me no escritor. Bem sei que ele tem outras obras, e mencionarei apenas mais uma, pelo seu título significante para qualquer leitor português, A Vida É Só Fumaça. No caso deste autor é algo mais – é o prazer do texto, é a viagem sem fim, para os mais distraídos e para os que, como eu, digerem cada palavra sua como quem digere um grande momento feito e dito em língua portuguesa, com sotaque terceirense.

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Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, Lisboa, Marcador, 2017. Lido hoje na ilha do Pico, na Azores Fringe Festival.

Da geração seguinte e do seu mundo

Acabou a época da incapacidade acidental sem castigo. Saímos da água entre suspiros nostálgicos e já não amaldiçoamos a última areia que incomoda.

Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído

Vamberto Freitas

Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50. Não, não vou falar da sua carreira em Lisboa, e como ele entra na minha sala, sem pedir licença de quando em quando. Vejo-o e entendo-o em primeiro lugar como um escritor açor-continental, que cultiva a crónica, primorosa, a escrita na sua mais clara expressão, cheia de sentido, humor e significado. Quando o leio-o, vejo logo o seu sorriso, o que provoca o meu. Este seu mais recente livro, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído é demasiado açoriano, português. É o nosso encontro com vários mundos, é a nossa fascinação pelos outros e pelas suas terras. É, em suma, a descoberto do Outro, ou seja, a redescoberta de nós mesmos. Em pouco digo como o conheci pela primeira e única vez na Praia da Vitória, num dos mais improváveis eventos para mim. Um velho esquerdista numa convenção do PSD não é muito comum. Mas os homens livres cultivam estas coisas, sem medo nem piedade. Foram outros tempos, e um crítico literário não cultiva preconceitos desses, ou de outra natureza – sem culpa e muito menos sem desculpas de qualquer espécie.

Reabro Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, já todo sublinhado, páginas viradas, comentado nas margens, e tento encontrar o que mais me tocou na mente e na alma. Acompanhar o autor na suas viagens é uma passeio sem começo nem fim. Não é só a boa escrita, é a emoção sorridente, a descrição precisa, como se eu o tivesse acompanhado nas suas andanças como um açoriano do mundo. A sua prosa mete-me inveja, mas esse é um problema meu. Não há deslumbramento aqui, só surpresa e fascínio. Não tenho o seu modo de rir, mas tenho o seu modo de sentir. No estrangeiro vê e observa com grande astúcia os desconhecidos, por assim dizer, e na nossa terra-mãe vê os suspeitos do costume. Como eu gostaria de vos escrever assim. Raramente fala de si, só olha em sua só volta, e diz do que vê e pensa. Gosta de nós, e gosta dos “outros”. Umas vezes com gosto outras com desgosto. O cronista autêntico tem esta responsabilidade: não tem pontos de vista imutáveis ou definitivos na prosa, fala só do que quer e vê, sente ou não sente. Há uma e qualidade admirável na prosa de Luís Filipe Borges. Combina a seriedade absoluta com o seu modo peculiar de achar graça a quem o rodeia ou com ele convive. Um professor universitário não consegue esse privilégio da bondade, ou até da generosidade. Quem elogia que, é que conta no dia-a-dia. Luís Filipe Borges Nunca achincalha, ri com, e nunca de (como já escrevi sobre outro autor açoriano num contexto muito diferente deste), conhece a sua própria humanidade no seu melhor e pior. Faz-me lembrar aqui outros cronistas e escritores com quem me atrevo a comparar: João Pereira Coutinho (o genial autor de Conservadorismo e E Vamos ao que interessa, o distinto colunista da Folha de São Paulo) um dos “conservadores” que mais leio e aprecio, ou até Miguel Esteves Cardoso. Como homem de esquerda desde sempre, não cedo a muita gente, mas a estes sim, e com todo o prazer. Luís Filipe Borges pertence a uma geração mais ou menos da mesma área ideológica que nunca deixa de surpreender, e terem nascido na liberdade que tanto nos custou; seu irmão Alexandre Borges, Joel Neto, João Pedro Porto, entre alguns outros que estão cujas obras não são chamadas para aqui neste momento. Só que o respeito intelectual e literário que cultivam por nós, que os precedemos na escrita e na idade e até nas mais variadas experiências académicas ou profissionais constitui a melhor homenagem que nos podiam prestar. Foi para isso que lutamos politicamente e escrevemos nos mais variados géneros O seu apego inabalável à sua terra de origem, essa homenagem que nos prestam sempre, quando nos citam ou mencionam, é de uma dignidade que me faz baixar a cabeça e dizer-lhes simplesmente obrigado, sabendo que a continuidade da nossa Tradição está mais garantida.

Entre a hospitalidade, a beleza natural, as práticas antigas – escreve Luís Filipe Borges – e a tecnologia desaparecida, ficamos todos no Pico, todos das Flores, de São Jorge, do Corvo e do Faial. Deixamos de ser cidadãos do mundo, como o outro, e queremos lá saber”.

Se incluo aqui esta breve citação sobre as suas andanças pelas nossas ilhas é porque também queria dizer que este e outros escritores da sua geração serão talvez os mais cosmopolitas por formação e experiências verdadeiramente citadinas, no bom sentido da palavra, sentem-se em casa em toda a parte mas um tema, creio, percorre quase todas as suas obras – o regresso a casa, os Açores sempre na sua alma e, até, postura na vida. Nunca em Lisboa deixam esquecer as suas origens, em conversas de televisão ou noutros meios de comunicação social, e muito menos nos seus livros. Podem, pois, imaginar como as da minha idade se sentem perante estes autores e livros. O seu respeito pela minha geração açoriana foi sempre constante, e isso é a melhor homenagem que nos poderiam prestar. A tradição literária nos Açores vem de longe, pelo menos desde o século XVI, com a publicação de Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, e estes jovens estão a garantir a sua continuidade. Devo ainda adicionar aqui que nestes anos mais recentes muito se tem publicado aqui nos e sobre os Açores, e muitas dessas obras são de inegável qualidade literária, desde o premiado João de Melo em Lisboa a Paula Sousa Lima, residente em São Miguel, mas cujo romance O Paraíso seria finalista do grande Prémio LeYa em 2016, e naturalmente publicado pela mesma editora. Foi lançado há poucos dias na Livraria SolMar a primeira grande tese de doutoramento na Universidade dos Açores sobre a obra suprema do falecido José Martins Garcia pelo meu colega Urbano Bettencourt, sob o título O Amanhã Não Existe, ele próprio um grande ensaísta, poeta e ficcionista. Como disse um dia o florentino Pedro da Silveira, a única região ou país no mundo de população comparável à nossa e produção literária tão profícua como a açoriana será só a Islândia. Pedro sabia destas coisas mais do que nós todos juntos.

Luís Filipe Borges viaja pelas mais próximas e longínquas cidades estrangeiras, desde Veneza por vezes mal cheirosa e frequentando os seus recantos mais escondidos, a uma Havana que parece fora do tempo, e até da História. O seu olhar agudo nunca nos deixa de fora, parece por vezes um espião dos tempos idos: “A estátua de Hemingway ao balcão da Floridita – diz-nos casualmente – envergonha o nosso Pessoa no Chiado”. Não haverá nada simultaneamente de mais dramático e cómico do que um português a ver o mundo, como imaginamos os descobridores lusos de outrora. No ensaio “Sátira em Salermo, II”, volta à memória e à sua vivência na nossa terra. Diz de uma conversa com um sérvio, esse cidadão de um outro país para nós mais do que estranho, mas ou menos parecido com Portugal. “Está interessado – escreve uma vez mais acerca do seu interlocutor distante – na esquizofrenia portuguesa tal como a apresentei na conferência. Um país cuja comédia ainda aprende a andar, marcada pela repressão do fascismo, e que hoje é algo bipolar – oscilando apaixonadamente entre o fado e o humor”. É esta capacidade de escrita que o distingue entre todos nós, o frase limpa e curta que diz tudo o que somos e como somos.

De resto, só direi que li Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído como quem lê um romance em sequência sobre um protagonista em viagens pelos mais diversos países em continentes distantes, mas que se tornam parte de nós. As linguagens de Luís Filipe Borges combinam, deixem-me repetir, erudição, ironia e humor. Depressa esqueci o personagem público, e concentrei-me no escritor. Bem sei que ele tem outras obras, e mencionarei apenas mais uma, pelo seu título significante para qualquer leitor português, A Vida É Só Fumaça. No caso deste autor é algo mais – é prazer do texto, é a viagem sem fim, para os mais distraídos e para os que, como eu, digerem cada palavra sua como quem digere um grande momento feito e dito em língua portuguesa, com sotaque terceirense.

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Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, Lisboa, Marcador, 2017. Lido hoje na ilha do Pico, na Azores Fringe Festival.

De nós e da nossa diáspora

A presença portuguesa nos EUA tem uma longa tradição de registos que vão da história à literatura, da etnografia à sociologia. A literatura estende-se da mais artesanal, em edições de autor, à mais erudita, e a imprensa, já centenária, constitui um espólio muito rico e fonte inesgotável de dados importantes.

Onésimo Teotónio Almeida, O Peso do Hífen: Ensaios sobre a experiência luso-americana.

Vamberto Freitas

Não poderei esconder aqui, nem deverei, a minha íntima relação desde há muitas décadas com muita imprensa açoriana, toda ela sempre com espaço dedicado à nossa diáspora, desde a América do Norte e, um pouco menos, ao Brasil. Sobre quem nos lê dentro do arquipélago, ou na própria ilha em que o Açoriano Oriental é publicado, teremos alguma ideia, por mais vaga que seja. Creio que a maioria dos cidadãos minimamente informados sobre a nossa vida pública não dispensam diariamente o seu jornal, ou jornais. Todas as manhãs vejo nos cafés leitores a partilharem o jornal da casa, uns meramente folheando-o de página a página, outros concentrados numa das suas variadas seccões. Por mais importância que tenham as redes sociais no nosso dia-a-dia, a verdade é que uma sociedade não dispensa a informação que os profissionais, dentro e fora da redacção, vão recolhendo, investigando e depois filtrando-a nos seus pontos essenciais para um público anónimo mas que, por certo, faz parte dos que directa ou indiretctamente influem nos rumos que a política ou os negócios públicos vão tomando e que influem particularmente os que estão responsáveis pelo equilíbrio da vida comunitária a todos os níveis, desde a produção de bens à redistribuição de riqueza através dos mais variados programas ou leis implementadas. Um jornal sério não será necessariamente só um “vigia” do Poder e dos seus agentes, mas é o transmissor de tudo o que pode ou deverá mudar as nossas vidas para melhor, ou pior. Nesse sentido, um meio de comunicação social como o Açoriano Oriental tem obrigações acrescidas: está localizado na maior e mais poderosa cidade do arquipélago, vive ao lado do poder executivo, é vizinho do Campus principal da Universidade dos Açores, é publicado diariamente na cidade que recebe a maior parte dos visitantes às ilhas, quer venham como meros turistas ou ainda mais em negócios que movimentam toda a economia e finanças da nossa região.

Nenhuma destas palavras pretende menorizar a imprensa escrita, falada ou vista desta e de outras ilhas. Simplesmente relembro que lado a lado à sua longa tradição que carrega como o mais antigo jornal português, estas responsabilidades clamam todos os dias por ética de escrita e de cidadania no seu mais puro sentido – dizer sempre a verdade, repensar as suas opiniões, quer sejam expressas ou assinadas num gabinete editorial colectivo quer venham de um ou outro colaborador ou colaboradora. As suas páginas estiveram sempre em defesa da liberdade, mesmo em épocas de constrangimentos políticos ou de Estado, nunca poderá ser um espaço aberto para quem pense que tem o direito a uma voz pública numa publicação tão antiga e dignificada. O ódio ou a “fulanização” seja de quem for em termos pejorativos nunca serão ou deveriam ser permitidos.

Veio todo este prefácio a propósito do lugar do Açoriano Oriental na sua sociedade, no seu próprio espaço imediato ou à sua porta, e o seu papel e as suas responsabilidades e relacionamentos com nossa vasta diáspora espalhada um pouco por toda a parte. Será redundante repetir em detalhe que só através do seu site o jornal é lido nas mais longínquas paragens do globo, algo que é verificável pelo número de visitantes que se manifestam em todas as suas secções. Apesar das primeiras gerações de língua portuguesa estarem cada vais reduzidas numericamente, algo de novo começa a manifestar-se. No que me diz respeito pessoalmente como colaborador literário e cultural, sei muito bem do que falo. O Açoriano Oriental não será o primeiro grande jornal ilhéu a publicar com regularidade uma coluna literária que nunca ignora o que os escritores, poetas e ensaístas luso-descendentes escrevem e publicam. A reacção é sempre a mesma: de gratidão e orgulho. Sempre que deles ou das suas obras falamos, reagem directamente como se lhes tivéssemos oferecido a oportunidade de um regresso emotivo e intelectual às suas origens, à sua ancestralidade já velha de séculos. É o outro lado positivo da globalização: a reafirmação de identidades pessoais e culturais dos que convivem literalmente com o mundo inteiro, mas que só poderão contribuir algo de novo para um mundo de diversidades e múltiplas maneiras de ser e estar apresentando-se como filhos e filhas de uma geografia e história muito próprias. Não quero de modo algum utilizar este espaço para falar de mim, mas é o meu trabalho neste jornal que quero salientar, e muito especialmente lembrar as repercussões que tem tido nestes anos mais recentes. Com a abertura e a publicação do suplemento Açoriano Oriental Artes & Letras aqui há uns três anos a presença do jornal entre as classes mais cultas da nossa diáspora vem num crescendo que só nos pode orgulhar. Um exemplo, que creio ilustrar o que acabo de escrever: o poeta Michael Spring, descendente de mãe picoense e pai nativo-americano vinha publicando a sua magnífica poesia em revistas de papel e digitais americanas nunca suspeitando que era lido por gente da terra dos seus antepassados açorianos. Quando sobre ele comecei a escrever, a surpresa foi tão grande e o sentimento tão profundo que o levara a escrever-me que agora até lhe apetecia adicionar o nome “Garcia” na sua assinatura. Ele e outros já foram publicados neste jornal, por vezes mesmo só em inglês, outras em versões traduzidas ou bilingues. No caso de Spring, fez com que ele visitasse pela primeira vez as nossas ilhas o verão passado, e agora fala-me em “saudade” da terra, da necessidade que passou a sentir em estar entre nós. Quando recebe o Artes & Letras, em papel ou por outras vias, é como se recebesse um pedaço da terra-mãe, que é agora também a sua, uma terra-mãe constantemente lembrada nos confins do estado de Oregon, onde reside e escreve. Poderia adicionar muitos outros nomes, mas este serve para demonstrar o relacionamento que o Açoriano Oriental tem com os seus leitores tanto das primeiras como das demais gerações luso-descendentes.

Não partilho a ideia de que os jornais em papel vão desaparecer, como nenhum outro meio de comunicação desapareceu no processo evolutivo que é o das nossas sociedades globais. Um jornal faz parte da identidade da sua cidade, e Ponta Delgada conta com três grandes diários – não esqueçamos os também históricos Correio dos Açores e Diário dos Açores – que lhe dão voz, corpo e alma. Já escrevi em alguns jornais e revistas continentais, mas nunca por um minuto os considerei mais importantes do que este. Os leitores do Açoriano Oriental são tão inteligentes e críticos como serão os de qualquer outra grande ou pequena cidade. É a partir destas páginas que tenho chegado ao mundo, que tenho tentado honrar as nossas tradições culturais, e mais ainda fazer que os que estão longe fiquem cada vez mais perto e parte de nós, sejam esses leitores açorianos ou não. A sua longa e digna história, creio, garante que o futuro não o deixará cair no labirinto sócio-político e cultural em que se torna todos os dias a aldeia global. Escrever nas suas páginas tornou-se-me um dever, tão literário como cívico. Enquanto os seus responsáveis acharem que esta e outras presenças valorizam as suas páginas, nunca deixarei de dar o meu contributo a uma das mais eficazes vozes da vida pública açoriana.

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Parte deste ensaio foi originalmente publicado na edição comemorativa do aniversário de 182 anos de existência do ,Açoriano Oriental, a 18 de Abril, 2017.

Do intelectual público no nosso tempo – III

Por algum tempo os nossos líderes, tanto os demagogos como os honestos, andam a dizer-nos que nos movimentemos para um grande projecto, nacional e privado. Walter Lippmann sugere que os Estados Unidos se comportam como uma sociedade que se pensa completa, realizada, com nada mais a construir; que somos, para o mal e para o bem, quem somos, e os únicos perigos para o nosso conforto vêm do exterior.

Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992

Vamberto Freitas

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. Topemos apenas a sua corrosiva ironia. O seu discurso de intelectual público poderia não ser lido pela maioria dos americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república”, dizia, para um “império” arrogante e naturalmente dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do lugar que o império todo poderoso do século XX impunha ao mundo, e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temperava a raiva e o desgosto que ele sentiu durante quase toda a sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays (Daniel Shays liderou uma revolta armada poucos anos depois da independência contra o novo governo em Washinghton e o que eles perceberam ser já suas injustiças e políticas de desigualdade económica e financeira) não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso, é uma acusação sem resposta aos que se apoderaram do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria, fazendo dessa sua imortalidade como que um outro desafio sorridente aos que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo, e derramará sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados Unidos.

A visão de um rico continente vazio – escreve Gore Vidal em 1972, no ensaio que dá o título ao livro aqui citado – ainda faz parte do inconsciente americano apesar da sua numerosa população e consequentes misérias; e esta persistente crença num céu em que cada homem pode enriquecer através do seu trabalho duro e vivência puritana é a chave para entendermos o inabalável e aparentemente inalterável ódio da maioria para com os pobres, que mantém fora da sua visão aqui em terra própria, assim como no estrangeiro”.

Não sei o que pensaria Gore Vidal da actual e estranha experiência económico-financeira em curso no seu país, mas creio que as suas palavras carregam em si um pouco comum entendidemto ideológico dos Estados Unidos, ou melhor, da mítica que nunca deixou de ser alimentada. A maioria revoltada continua a acreditar que todos os seus falhanços são provocados pelos marginalizados e oprimidos, e nunca pela classe dominante, que Vidal dizia ter só um partido político escondido ou disfarçado nas palavras democrático e republicano – o Partido da Propriedade. Tal como Edmund Wilson já aqui referido quando dizia que já não se reconhecia naquele país, Vidal faria as malas e partiria mais ou menos permanentemente para a Itália após a reeleição de Richard Nixon. Manteve casa, sempre, na sua América, e até chegou a concorrer para governador da Califórnia nos anos 80. Só que nunca cedeu na sua visão da história dos EUA, e nunca poupou a classe política ao serviço dos grandes interesses e verdadeiros “donos” do país. Entre as previsões fictícias de um Sinclair Lewis em It Can´t Happen Here (1935), e os ensaios de Homage to Daniel Shays (1972) de Gore Vidal, a única mudança foi um surrealismo aprofundado da recente eleição presidencial e a estranha figura que dela sairia vencedora.

Edward W. Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo (escrito entre 1975-1976, e de que Noam Chomsky, entre outros, foi um dos seus primeiros leitores antes da publicação) transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com que olhávamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção essencialmente subjectiva que os escritores ocidentais, particularmente alguns autores britânicos, nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender outros mundos e povos. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria imagem, a nossa maneira de ser e estar num grandioso mosaico humano. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há naquelas páginas qualquer pretensiosismo cosmopolita, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as nossas linguagens comuns. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda estão juntos e andam por aí, actuam nos mais diversos países. Não será por mero acaso que Edward Said aparece bem no centro do recente romance Bússola, do francês Enard Mathias, uma brilhante ficção precisamente sobre as fantasias ocidentais de amores e desamores perante o Médio Oriente, no seu passado e presente.

Ao contrário dos americanos, dos franceses e dos britânicos – muito menos do que dos alemães, russos, espanhóis, portugueses, italianos, e suíços – têm uma longa tradição que chamarei aqui de orientalismo, um modo de encontro com o Oriente fundamentado num no lugar especial que esse Oriente – escreve Said precisamente na sua obra intitulada Orientalimo ocupa na experiência ocidental. O Oriente não é uma mera geografia adjacente à Europa; é também a geografia das suas mais antigas e ricas colónias, a fonte da sua própria civilização e línguas, o seu concorrente cultural, uma das mais profundas e recorrentes imagens do Outro”.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder, para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com quem dei início a estes meus textos. Obrigado, não só por seres quem foste e és sempre. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu na minha juventude ensaiava a minha própria reinvenção, redefinia a minha identidade luso-americana – e enfrentava desse modo a luta por uma nova vida californiana.

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Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992, New York, Random House, 1993.

Edward W. Said, Orientalism, New York, Vintage Books Edition, 1979.

Edward W. Said na foto.

Do intelectual público no nosso tempo – II

Eu sempre me pensei um patriota e sempre tive, no passado, a preocupação de comparar favoravelmente os Estados Unidos com a Europa e com a União Soviética; mas o nosso país tornou-se agora um gigantesco poder desatinado e controlado mais e mais por burocracias cujo governo está cada vez mais difícil de justificar numa tradição de individualismo americano; e porque não posso aceitar este poder ou estes propósitos ou os seus modos de o financiar, tenho finalmente sentido que este país, quer eu continue a viver nele ou não, já não é para mim.

Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest.

Vamberto Freitas

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência regional? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literature and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas dirigidas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e a seriedade intelectual e de cidadania. Nunca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica literária pura, ou mesmo uma de mera escrita circunstancial numa periódico generalista, como a revista Vanity Fair, ou na deliciosamente elitista The New York Review of Books, ou ainda na The New Republic, revista erudita onde ele acabaria a sua carreira, lugar que só George Steiner viria a ocupar depois da sua morte. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que queria dizer sobre o modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the 1870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties), indo ainda em busca da vida e das tradições culturais de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, uma tribo nativo-americana do norte do estado de Nova Iorque sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento económico, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essênios, tentando demonstrar a dignidade, valor artístico e lugar histórico na modernidade que marginalizava e esquecia essas nações isoladas num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as Caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publicando de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aberto aos seus leitores – The American Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar durante cinco anos nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este fazia em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pela Internal Revenue Office (IRS), condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, condenava-o a uma penúria quase absoluta, e por isso foi aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada significa, acima de tudo, a derrota que os nossos pais fundadores queriam para um novo país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exacto de que necessitamos”.

Wilson, nos seus últimos dias de vida, folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia nesse país, aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele nunca tinha sido fã, pois não se esquecia que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido ingloriamente a vida numa Hollywood que ele, uma vez mais, nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinham levado a ver sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

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Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest, Straus, Farrar And Company, 1963.

Do intelectual público no nosso tempo – I

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em que a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Um pouco depois de aluno já com licenciatura em Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, de um autor que me era então totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizado na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara severamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e nunca tinha visto o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e sabia muito bem o significado de “lusalândia”. Pensei de imediato que isto tudo tinha a ver também comigo, já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente ou indiferente ao que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvilleano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali escrito. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha, mas já mais minha do que eu pensava. Era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e as conseguia exprimir sem complexos ou medos públicos. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia ocupa um dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever comentários críticos sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu ambivalente relacionamento com o restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso, particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts. Escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios, A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinante no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, sendo acusados de “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinham de uma certa e pouco moderada esquerda residente em Lisboa e arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é que persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos anos de separação da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, vale tanto quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens, da sua terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua voz pública no continente, e muito menos nas ilhas.

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Onésimo Teotónio Almeida, Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, Coimbra, Atlântica Editora, 1975.