Os Açores vistos da Califórnia por Diana Marcum

Li uma vez um estudo que distinguia quais os factores que nos trariam felicidade. Depois das questões de saúde e necessidades básicas, os investigadores acharam que não era dinheiro ou sucesso ou educação. Eles resumiram tudo a duas questões: um sentido de gratidão e dormidas tranquilas.

Diana Marcum, The Tenth Island

Vamberto Freitas

     Cada livro terá muitas leituras. Pode ser que a “informação” que este nos traga não seja nada de novo. Mas um “olhar” diferente também será sempre a originalidade das suas páginas. Quando não dizem o que esperamos ou sabemos, esse “olhar” nunca deixará de ser original, e tanto melhor. Afinal, toda a literatura é uma repetição do que sabemos desde os primórdios. Resta só ver o modo diferente como se olha um povo, uma comunidade, uma nação. Em quase toda a escrita sobre os Açores por escritores que estão fora, noto uma atitude algo estranha. A primeira geração de imigrantes acha que sabe tudo sobre as ilhas de origem. Depois, desconfiam dos da segunda ou demais gerações que escrevem já inglês. Há aqui, parece-me, um certo equívoco qualquer, pois a “realidade” terá sempre as mais diferentes interpretações. A visão dos que nunca cá viveram vem de outras fontes: memórias da família que lhes são passadas em conversa de cozinha, que lhes vêem de cartas, das fotos, e da pura imaginação. Isso não significa só a criatividade da imaginação desses escritores e poetas, significa a grandeza da geografia ancestral, ou uma descoberta ao acaso. Nunca vi um comentário igual sobre as asneiras e racismo puro de um Mark Twain em Innocents abroad dessas mesmas vozes, que chamou os faialenses de “porcos”. Esses escreveram sobre as nossas ilhas com certa hostilidade, e procuram logo o pior por falta de conhecimento. Vem tudo isto a respeito do recente livro de Diana Marcum, The Tenth Island, que aborda de modo racional e em prosa brilhante as nossas comunidades na Vale de São Joaquim, devido à seca que tem fustigado aquele estado norte-americano nestes últimos anos, essa vastíssima terra no interior central da Califórnia, e que de seguida lhe provoca duas visitas prolongadas aos Açores, principalmente à Ilha Terceira, e por uns dias a São Jorge na companhia de um velho companheiro americano. Escrevia ela então no Fresno Bee, e logo depois passou ao grande e referencial Los Angeles Times. Venceu o Pulitzer Prize por essas reportagens, e nunca mais a deixou sossegada até não conhecer em directo as ilhas distantes e misteriosas do nosso arquipélago. Poderá não me ter trazido nada de novo sobre a nossa vivência a meio mar, mas trouxe algo de mais precioso e relevante: o seu olhar exterior, o modo como nos viu, viveu e percebeu a nossa terra. Em poucos meses, Diana Marcum não foi apenas uma turista e escritora. Antes, tornou-se parte de nós. Vivendo na Serreta e arredores, nem sequer deixou de ir a lançamentos de livros, como foi o caso de Da Vida no Campo, de Joel Neto, em 2014, assim como tem conversas profundas com o grande artista terceirense Luís Gil Bettencourt sobre a natureza do amor, da arte e de outras questões humanas. Faz amizade com um bombeiro local, que lhe guia na ilha e lhe diz o que deve ver e absorver. Faz amizade com vizinhos, viaja pela ilha, tenta um sentido de pertença de quem havia chegado e faz destas ilhas como que uma segunda pátria. Raro, muito raro, nos nossos tempos. Não falo de estrangeiros entre nós há anos. Referi-mo a uma grande escritora que não deixa passar em branco os seus dias felizes numas ilhas até então desconhecidas para si, que no século XIX eram mero objecto de oportunismo, negócios de laranja ou responsabilidades diplomáticas. Esses construíram palácios, jardins, tomavam conta de cabos submarinos, e tinham escolas privilegiados para os seus filhos alemães, britânicos e americanos? Sim. Mas livros como este de puro afecto e descoberta, canto a canto, no nosso século, só este livro vem de surpresa e sem outros motivos para além da gentiliza das gentes, do cheiro e forma da natureza e da amizade pura.

A história começa de modo quase surrealista. Estava ela sentada na sua secretária de trabalho no Fresno Bee e aparece-lhe pela frente um dos fotógrafos do jornal, que lhe estende uma fotografia de um agricultor, que suponho ser da área de Tulare, a lavrar a terra nos anos da seca com uma espécie de arado de discos rolantes puxado por dois bois. Pergunta-lhe o dito fotógrafo: achas que há aqui uma história? Ela olhou e decidiu logo que sim. Foi à procura do dito cultivador da terra, e conseguiu encetar um diálogo com ele. A partir desse momento ficaram amigos ou pelo menos de confiança mútua. No seu trabalho de repórter ou escritora acaba por encetar uma incursão na nossa comunidade agrícola luso-americana, e começa a ser convidada para festas particulares em casa de um ou outro, ou para as festas comunitárias da nossa gente naqueles lados. Diana Carmum faz aqui uma confissão pouco habitual, diz que nem sabe da sua própria ancestralidade, pois os dois pais faleceram bem novos. A sua admiração pelas nossas comunidades toma tais proporções que ela decide ir conhecer as origens de tão forte gente, e vem aos Açores pela primeira vez. A sua paixão nunca mais a deixou, e cerca de sete anos depois, já a partir do ano 2014, resolve voltar, desta vez por um tempo prolongado. Compra um carro e viaja pela ilha toda, fazendo amizades, conversando com todos à sua volta, com o seu olhar sempre atento ao que nós por cá não vemos ou não queremos ver. Muitos da nossa primeira geração deveriam ter isto em mente – chegamos cá com ideias feitas, ou os referenciais da infância ou da adolescência nunca nos deixou ir além dessas nossas memórias. O visitante geralmente ocasional topa o que nunca topamos. Não percebemos o que os outros encontram pela primeira vez. Nem vizinhos, nem amigos, nem sequer lugares que antes nunca tinham sido vistos ou pensados. É isso mesmo que o estranho em terra estranha é capaz de olhar e ver, de nos dar outra interpretação ou de nos colocar universalmente entre todos os outros. Há quee diga quem emigra nunca, “sai” de cá. Isso é falso. Sai de cá, mas depois só se reencontra no regresso. O mistério da chamada “pertença” é muito mistificado, ou mitificado. Só os de fora nos completam. Seja na nossa maneira de ser, seja nos pormenorizados recantos das nossas origens. Há um complexo, repito, de que sofremos todos – sem os outros nunca saberemos quem somos. The Tenth Island é um misto de memórias e de ficção (a autora confessa que nunca consulta as suas notas e reinventa diálogos), tudo numa prosa escorreita, directa, como se de um relato jornalístico do chamado “human interest” se tratasse. Já ouvi algumas críticas a esta escrita, mas para mim é precisamente aonde reside a sua eloquência e prazer da leitura.

“Só estar aqui, tranquila, — escreve Diana Marcum num dado passo acerca da sua estadia na Ilha Terceira e recordando a sua Califórnia – fez-me dar conta que tinha passado a vida a manobrar entre as coisas-tal-como-elas-são, aceitando que a violência seria sempre uma possibilidade, nunca consciente de que existem outros lugares onde não nos sentimos assim. Por certo, o meu pai já me tinha dito isto: Os outros poderão ter outras maneiras de fazer as coisas no outro lado do rio”.

Tenho de referir aqui que Diana Marcum tem um grande amigo açoriano há muitos anos residente na Califórnia, e que no decurso das suas intenções e andanças atlânticas a foi guiando e sugerindo tanto a escolha de casas na ilha, como as idiossincrasias do seu povo. Elmano Costa é Professor de Educação na California State University, Stanislaus, na cidade de Turlock, uma das nossas mais conhecidas comunidades imigrantes naquele estado. De palavra em palavra, de frase em frase, a autora foi-se adaptando ao meio, desde Angra do Heroísmo à Praia da Vitória e a todas as freguesias que ficam pelo meio. Uma vez mais, poucos leitores encontrarão nestas páginas uma geografia desconhecida, e muito menos novidades culturais, sejam elas os já tradicionais festivais de verão ou as touradas-à-corda, que ela classifica como sendo algo de cómico e trágico. Uma leitura mais atenta trará o que de melhor nos oferece este livro, que tanto é literatura de viagens como um hino a uma outra terra só agora descoberta.

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Diana Marcum. The Tenth Island, New York, Little A. New York, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 7 de Agosto de 2018.

 

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Da modernidade desfeita rumo à sua desconstrução

Se queria um livro para o futuro, que avisasse os homens dos perigos da desordem para o futuro, receava que a projecção para dali a quarenta anos se transformasse num aviso extemporâneo, receava que se não visasse uma data anterior, aí talvez já não houvesse Terra nem homens, tal como a conhecemos e somos…

Lídia Jorge, Estuário

Vamberto Freitas

     Uma das frases mais certeiras que vem na capa deste novo romance de Lídia Jorge, Estuário, descreve perfeitamente toda a sua obra: “…Lídia Jorge dá rosto à modernidade para dela desocultar os seus efeitos escondidos”. Creio que poucos dos seus leitores e mesmo críticos poderiam em tão poucas palavras sintetizar a sua temática persistente desde O Dia dos Prodígios até à obra presente e destes nossos tempos mais do que atribulados, de transição histórica rumo aos temerosos e desconcertantes acontecimentos vividos praticamente no mundo inteiro. O mais básico na leitura de um grande romance é nunca procurar respostas e muito menos explicações para a condição humana vivida em qualquer época, fica-se por nos apresentar outras vidas com toda a sua estranheza, as que nunca deixam de ser nossas também, para além do lugar que ocupamos numa determinada sociedade e tempo, o estado social ou financeiro dos seus personagens quase sempre uma questão secundária. Os escritores das nossas preferências, desde o realismo do século XIX até ao ultrapassado pós-modernismo do nosso presente, levaram-nos constantemente ao interiorismo tanto de aristocratas e outros da classe dominante em diversos sistemas como nos levaram à alma dos mais pobres ou deserdados. O privado torna-se o público, ou vice-versa. Estuário tem como referência principal uma Casa Grande do Largo Do Corpo Santo no Porto, e na qual vivem três gerações de uma família de bem, que tem como patriarca Manuel Galeano, rodeado de filhos e filhas, cada um e cada uma enfrentando a infelicidade do seu lugar dentro e fora de casa. Família próspera de armadores em decadência que parece sem retorno, o símbolo maior deste romance são os seus dois navios, Horizonte e Batalha, os que restam de uma frota maior, agora ancorados num país africano à espera do impossível, convertidos para transportarem água para outros pontos do mundo onde o deserto nega a vida e mesmo a sobrevivência. Num Portugal do século XXI, África continua uma espécie de refúgio e esperança para um povo que lá foi derrotado ainda há poucas décadas, mas não deixa de olhar aquele continente banhado em sangue e raiva de ser a sua velha esperança de salvação, ou algo mais. De todos os personagens e protagonistas deste romance, é Edmundo Galeano que sobressai por diversas razões, cada clã decadente tem a sua luz. Tinha saído da faculdade e retirou-se logo para auxiliar num campo de refugiados, Dadaab, a cuidado da CARE no Quénia, onde perdeu três dedos da mão direita, regressando com a intenção de escrever um livro futurista que avisasse a breve chegada de um futuro sem futuro, de um mundo que caminhava a passos largos para a autodestruição ou esquecia um tempo de grandiosidade. Emanuel Galeano, como explica a autora numa espécie de posfácio, tinha a Ode Marítima de Fernando Pessoa como ponto de partida ou influência angustiada, como também diria Harold Bloom. A única vez que a “nova” Europa é mencionada vem como queixa dos seus regulamentos e limitações castradoras. África aparece-nos ao longe. Temos aqui um Portugal supostamente regenerado mas perdido no que diz respeito à União Europeia e talvez ao resto do mundo.

Inevitavelmente, no país que é o nosso e nele cabe todos os mundos, desde o mais primitivo ao mais moderno, uma grande família vive os seus últimos dramas por entre a comédia e tragédia, com desentendimentos, desejos de vida que vão desde quem tem por única missão escrever um livro ou de saber quem é o verdadeiro pai do seu filho, por entre cenas de carinho, má cara, desconfiança e alienação psiquiátrica. Estamos aqui num velho e novo Portugal, e no qual a noção de pertença reduz-se agora à salvação de cada um, todos na sua infelicidade muito privada, com os mais antigos sem já nada entenderem ou com que se identificar, a não ser com memórias de todo irrelevantes para os dias presentes. O título do romance, Estuário, é também um símbolo e uma metáfora – as águas doces de um rio romântico chegam inevitavelmente ao mar maior, onde nada e ninguém representa seja o que for, onde o perigo de afundamento espreita em cada onda, como os barcos meio encalhados num país distante e sem qualquer noção nos que nele atracam, do que pretendem ou para onde irão eventualmente se não morrerem nas costas do continente da nossa maior infelicidade e desejo perpétuo. Batalha e Horizonte, uma vez mais, é o resumo perfeito da história de toda uma nação. Lídia Jorge tem tido sempre o passado e presente de Portugal como os seus temas principais. A grande literatura, de qualquer país ou língua, tem uma geografia reconhecida, mas o coração humano, as obsessões e delírios de cada um dos seus personagens nunca têm um momento de paz, ou sequer serenidade no seu desejo de partidas e chegadas. Uma Casa Grande não representa aqui estabilidade ou felicidade, antes representa a vontadde de fuga para todos, menos para os velhos ou já sem vida activa. Não há aqui rejeição do que já foi, há o desejo do que poderia ter sido ou o desgosto do falhanço, seja em termos profissionais e de paixão por um outro. Sílvio, um dos filhos distantes de Manuel Galeano, é um advogado que já nem consegue ler ou decidir sobre os casos que deve resolver no seu escritório. Charlote disputa a paternidade do seu filho entre um amante e outro. Estão, todos eles, no cruzamento de uma sociedade e mundo que já ninguém entende, ou entende como se fora o mistério de um universo que arde e queima, estremece e abate tudo em sua volta. Entretanto, não julguem este um romance de pessimismo ou negação da vida, muito pelo contrário. Perante tudo e todos à sua volta, cada um procura o seu lugar num mundo de Nada e de Ninguém. Não é a sociedade que se salva, são os que nela perduram ou, como diria William Faulkner que percebia dos caídos e derrotados, “perseveram” ante as mais atrozes realidades.

“Mas agora, naquela noite chuvosa que havia viajado até ao coração da história da gente concreta e humilde – pensava Edmundo Galeano para o seu livro sobre tudo isto – que vivia em redor da casa do Largo do Corpo Santo, Edmundo Galeano tinha os olhos repletos das suas vidas, e por mais que quisesse amar figuras colectivas, longínquas e abstractas, voando sobre a Terra desfeita para recriarem uma nova pátria, os rostos que lhe eram familiares surgiam na sua frente e ocupavam por inteiro o cenário da terceira parte. Do apocalipse da segunda, ele via apenas aqueles que no seu livro, se o escrevesse, seriam sobreviventes. Caminhando ao longo do passeio desfeito aqui e ali pela enxurrada, o espaço liberto de gente, e as brancas embarcações imóveis, amalhadas nos cais, Edmundo confundia no seu livro os regeneradores com os salvados, e via claramente quem haveria de sobreviver. Na terceira parte do seu livro, salvam-se aqueles que lhe tinham passado por perto, independentemente do bem e do mal, da comédia e da tragédia que haviam interpretado”.

Ignoremos aqui a pseudo-terminologia da crítica ou do ensaísmo literário, como meta-ficção, que a minha geração teve de engolir nas faculdades nos anos 60-70, numa tentativa de tornar a interpretação literária num acto supostamente “científico”. Como diria muito acertadamente José Saramago, o autor é o narrador, em cada personagem, para além das suas ambíguas qualidades humanas, estamos todos nós. O romance que Edmundo Galeano, invenção fictícia, pensa querer escrever, mas não o faz, é o grande romance que Lídia Jorge escreveu. Toda a sua obra literária é uma sequência do nosso ser e viver, em termos temáticos e estilísticos. A grandeza de uma literatura é feita deste modo.

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Lídia Jorge, Estuário, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental de 24 de Agosto, 2018-

Luís Costa Ribas: Um jornalista português nos Estados Unidos

Assim são os Estados Unidos. O quartel general-general da humanidade, com pessoas de todas as opiniões políticas, todas as religiões, todas as etnias, com vastos exemplos ao longo da sua história e do melhor e do pior que existe no ser humano, do mais sublime ao mais nojento.

Luís Costa Ribas, Uma Vida em Directo

Vamberto Freitas

     Ironicamente, este passo que cito em epígrafe vem por outras palavras diferentes num livro de Edmund Wilson sobre a tomada do poder soviético de Vladimir Lenine nos primeiros anos da revolução em Moscovo (The headquarters of humanity), quando ainda o eminente crítico norte-americano se identificava com o marxismo em prática, e via na “nova” sociedade” uma solução para uma humanidade oprimida e explorada em quase todo o mundo, inclusive no seu. Só que Wilson não falava “no mais sublime ao mais nojento”, simplesmente acreditava na revolução que supostamente libertaria a humanidade de milénios de injúrias e violências de toda a espécie. Claro que Luís Costa Ribas não alude a nada que se pareça e muito menos acredita no que simplesmente descrevia o crítico americano sobre uma outra época bem distante, e que acabaria derrotada em todos os sentidos. Uma Vida em Directo: 38 anos de Aventuras da Casa Branca a Timor-Leste, o seu primeiro livro, é outro e bem diferente, um misto de memórias pessoais e profissionais, e que nos dá conta de como um jornalista que começa humildemente em Lisboa em semanários como o Tempo e a Rádio Renascença (na sua fase bem conservadora e controlada) acaba em Washington em 1984 na Voz da América, para depois se tornar um dos mais acreditáveis correspondentes de vários órgãos de informação em Lisboa, desde a TSF, Público e SIC (entre outros meios de comunicação), numa convivência pouco comum no que ele chama “a mesa redonda” na capital norte americana, em que interagem políticos ao mais alto nível, desde o Congresso até à Casa Branca, jornalistas e agentes lobistas de todo o poder económico-financeiro daquele país. Só comecei a ouvir e a ver na rádio e televisão o Luís Costa Ribas a partir de 1991, quando regressei para sempre ao nosso país. De imediato, reconheci que estava perante um repórter credível e muito bem informado e formado sobre tudo o que passava nesse meu outro país: continuava eu a ler e a ouvir noticiários americanos, e sabia e reconhecia muito bem a sua presença, e ainda muito mais a sua informação que outros ignoravam ou faziam por esquecer. Havia uma diferença muito significativa: ele nunca se deixava ficar pela fala oficial dos poderosos, e dava-nos constantemente uma outra perspectiva do que acontecia, do que se dizia ou pretendia dizer, contornava o que hoje se chama, na linguagem de um Donald Trump, de fake news. Ido de um pequeno país como o nosso, conseguia e consegue sempre contornar os serviços de supostas relações púbicas que nos tentam convencer que o dia é noite e a noite o dia. Vivi na América 27 anos, em Orange County e na Grande Los Angeles, mas não conheço uma ínfima parte do que ele conhece, desde a natureza do Poder no país aos maquinismos de decisões que tanto podem tornar o nosso mundo num espaço de paz como de guerra mundiais. Muito viajou ele dentro e fora da capital americana, muito descobriu ele desde a Ásia, Africa, América Latina e Caraíbas. Testemunhou guerras fratricidas, viu fomes devastadoras e outos sofrimentos extremos, cidades inteiras caídas pela força das armas ou pela força da Natureza, ouviu mentiras e todo o tipo de chicana política nesses palcos internacionais sempre em disputa. Raros, muito raros, são os livros narrativos de correspondentes de grandes jornalistas portugueses no estrangeiro.

Tenho de abrir aqui um parênteses, ideologicamente pouco agradável para alguns eventuais leitores, mas essencial na minha leitura deste livro de Luís Costa Ribas. O outro único correspondente “estrangeiro” cujas memórias eu li ainda há pouco tempo foi o As Minhas Aventuras No País Dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi, de José Milhazes. A verdade é que não só muito aprendi sobre um país e as suas várias culturas, que desconhecia e desconheço ainda hoje quase por completo (a não ser através de livros de vários géneros) como percebo entre este e o livro de Luís Costa Ribas ironias gritantes. Um está situado num país que era comunista até há poucos anos, o outro no que era então o seu adversário absoluto. Hoje, as semelhanças são quase gritantes: Milhazes, comunista quase toda a sua vida, abandona a Federação Russa por discordância com um líder que outrora fora dos serviços secretos da sociedade em que ele acreditou até a certa altura na sua carreira, e Luís Costa Ribas enfrenta um novo governo numa sociedade democrática cujos líderes politicamente maioritários baixam a cabeça a certo autoritarismo de outra espécie, fazendo lembrar o romance de Sinclair Lewis, ironicamente intitulado It Can’t Happen Here (traduzido recentemente no nosso país com o título de Isso não pode acontecer aqui, e também publicado pela D. Quixote/LeYa). Não vou repetir o que já escrevi sobre o livro de Milhazes, mas queria relembrar que Uma Vida em Directo termina com dúvidas inquietantes sobre o destino da mais antiga e até há pouco estável democracia do Ocidente, que se tornou uma fonte de nervosismo ou inquietação para Luís Costa Ribas e milhões de cidadãos. Resta-lhe, sem qualquer dúvida, a crença na força das instituições enraizadas dos Estados Unidos, mas o seu trabalho tem de avaliar constantemente o que é verdade e mentira, quem manda ou quem, em última instância, decide. Isto não difere muito de uma ditadura disfarçada, ou de um líder com saúde mental ou problemas psiquiátricos. Para um correspondente de meios de comunicação estrangeiros, mesmo que ele seja cidadão de nacionalidade dupla, com filhos inteiramente americanos (tal como eu), não deve ser fácil. Conheço muito bem o estatuto de se ser cidadão americano nascido noutro país, e a desconfiança que isso já provocava em anos muito mais amenos. Ri quando ele escreve que o confundem por vezes como sendo “árabe” ou “latino-americano”, dentro e fora dos Estados Unidos. Só espero que aguente como o grande jornalista que é, pois atrás de um tempo vem outro tempo. Para Portugal, tê-lo como correspondente no centro do Poder é demasiado importante. Nem que seja só para lembrar também aos próprios americanos onde fica o nosso país ou que somos um dos seus mais antigos aliados desde a sua independência. Os políticos lusodescendentes (até mesmo Devin Nunes, um dos maiores apoiantes de Trump) sabem disso, e sabemos nós. Quando o ouço na nossa televisão sei que estou a ouvir a verdade, ou a possível parte dela. Aguente o desafio.

“Os Estados Unidos – escreve o autor já em jeito de conclusão — são um desafio a definições simplistas. Na região de Boston vivem dezenas de cientistas portugueses, a maior concentração de génios lusitanos fora de terras lusas (ou até talvez dentro), que morrem de saudades do seu país, mas não são capazes de regressar a Portugal e lá trabalhar. Não conseguem conceber sair da terra das oportunidades. Como eles, senti-me e vivi dividido durante muito anos. Mas há uma potente força centrípeta americana que me fascina e impede de sair. Disse, há anos, ao site português Coração Luso que, se pudesse levar coisas portuguesas para os Estados Unidos, [levava] a nossa comida e a convivência com os amigos. Dos Estados Unidos para Portugal, [levava] a pontualidade e a eficácia”.

Li Uma Vida em Directo: 38 Anos De Aventuras Da Casa Branca A Timor-Leste (que vem prefaciado por António Ramalho Eanes e com um posfácio de Rogério Alves) poucos dias depois de ler Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho, neste caso uma obra de ficção que aborda a temática do papel desempenhado pelos vários meios de comunicação social, mas muito especialmente certas redes sociais e o “novo” jornalismo televisivo em Portugal. Tanto um como outro conhecem a fundo a dinâmica em curso de como a cativação de audiências leva ao sensacionalismo e frequentemente ao descarado atropelo da ética que deveria enformar a sua profissão, absolutamente indispensável a uma sociedade democrática, aberta, mais justa. Se a ficção tem o poder e a liberdade de tentar penetrar o interiorismo de cada personagem maior, de o colocar no contexto mais vasto que o rodeia ou que nasce da sua história pessoal ou familiar, um livro de memórias como este de Luís Costa Ribas tem de se cingir aos “factos” e variadas “interpretações” e ao que o jornalista vê e ouve em cada uma das suas missões. Leva o leitor não só às mais distantes geografias como o faz entender muito melhor os meandros do Poder nos seus mais dramáticos momentos, permite-nos entrar em bastidores que de outro modo a maioria de nós nunca conheceria e muito menos suspeitaria de como uma negociata, a qualquer nível, pode levar-nos a todos a uma guerra ou desfrutar por mais algum tempo o luxo da paz e de alguma prosperidade, a mesma que provoca raivas e as mais mortíferas violências, até já mesmo no chamado Ocidente. Isto, sim, faz parte do grande e melhor jornalismo e das melhoras narrativas.

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Luís Costa Ribas, Uma Vida em Directo: 38 Anos de Aventuras Da Casa Branca a Timor-Leste, Lisboa, Oficina do Livro/LeYa, 2018.  Publicado no Açoriano Oriental, 17 de Julho de 2018.

Dois grandes poetas em conversa

         Que ninguém lhes toque/se as não sabe amar/como os vivos amam, Violently.

                 Let no one touch them/if he does not know how to love/as the living love,Violently.

Pedro da Silveira e George Monteiro, “Palavras/Words”, Poems In Absentia

 

Vamberto Freitas

     Reler poemas de Pedro da Silveira pela mão de George Monteiro é como estarmos presente numa conversa íntima entre dois artistas sem que eles nunca dêem pela nossa presença ao lado. Disse-me um dia uma conhecida escritora luso-descendente que mesmo quando não nos lemos mutuamente a nossa escrita inevitavelmente se encontrará nas suas metáforas e imagens, pois ou olhamos a mesma “realidade” ou a memória da nossa ancestralidade é comum, o passado uma partilha indelével se bem que sempre subjectiva por parte de cada um que a viveu e recorda. É impossível olharmos o mesmo objecto, relembrar essa história ou esse passado comum sem pelo menos nos encontrarmos nalguns detalhes ou momentos mais marcantes e significantes. Permitam-me afirmar desde já que, para mim, George Monteiro é de longe o luso-americano de ancestralidade continental mais açoriano entre nós. Para além de ser o Professor Emérito do Departament for Portuguese and Brazilian Studies, da Brown University, a literatura açoriana nunca lhe foi alheia, a ela fez e faz constantes chamamentos, num gesto literário e intelectual que ele por certo considera parte indelével de toda a sua própria herança lusa no país americano. Ele próprio é um poeta de largos recursos formais e temáticas universalmente abrangentes, o seu The Coffee Exchange, com ilustrações de capa e interior pelo falecido artista açoriano Rogério Silva, noutras páginas uma homenagem ao poeta de todas as nossas identidades e angústias filosóficas, “Almada’s Pessoa”, tal como o seu próprio Double Weaver’s Knot é esse conjunto de imagens e metáforas poéticas em busca de respostas sobre o ser e o estar, de como se pertence a duplos mundos, a múltiplas lealdades emotivas, e muito mais. Tenho ainda de dizer aqui sem rodeios que George Monteiro é um dos meus mestres noutra área que tem ocupado boa parte da minha vida crítica – é ele o primeiro e mais consistente estudioso e ensaísta da literatura luso-descendente, é ele que nos abriu caminho em direcções que nos anos 70 ainda nos eram ou alheias, ou sem a certeza de que na academia e fora dela teríamos muito mais a dizer ou a considerar num contexto universitário que por toda a parte nos ignorava, ou fazia que não existíamos. Tudo isto, juntamente com o seu grande amigo e colega na mesma Brown University e no já mencionado centro de estudos que depressa estaria sempre sob a sua influência e trabalho incessante, eventualmente promovido a Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, agora abordando outras áreas lusófonas de geografias dispersas e internacionalmente reconhecidas e essenciais. Em 1980 apareceria o primeiro número sob a direcção editorial de Onésimo Teotónio Almeida, a revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, que incluía já um conto seu, “Criação”. A sua atenção sistemática às literaturas da nossa diáspora e mundo lusófono em geral, não só se intensificava, como a escrita açoriana, dentro e fora do arquipélago, passava a ser uma das suas fontes na procura, uma vez mais, da beleza da nossa arte literária e das múltiplas questões que rodeavam as nossas identidades de tronco comum em toda parte. No caso de Pedro da Silveira e de George Monteiro, pois, muito mais os une do que essa fatalidade de um passado ligado a esses mundos de afectos e memórias sem fronteiras, mesmo nos tempos de luta cerrada em várias frentes intercontinentais pelo reconhecimento de um Portugal literário multifacetado, mas que se desconhecia na sua existência a meio Atlântico, esse feito de ilhas rodeadas de mar – e de terra por todos os lados no continente a oeste da velha e auto-centrada Europa.

Se nestes poemas de Pedro da Silveira temos alguns dos que sempre pensei constituirem o seu mais famoso livro, A Ilha e o Mundo, sem dúvida que um deles, “Ilha/Island”, que o próprio George Monteiro traduziu e publicou na colectânea que reúne vários poetas açorianos e outros às ilhas ligados por diversas afinidades, The Sea Within, precisamente numa edição da chancela Gávea-Brown, em 1983, corroborando o que já disse nas palavras anteriores, quanto ao seu interesse pela literatura açoriana em geral. Serão talvez os cinco versos mais citados pela minha geração :

Só isto:

O céu fechado, uma ganhoa.

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,

Califórnias perdidas de abundância

*

Only this:

Closed sky, hovering heron. Open sea.

A distant boat’s hungering prow

eyeing forever those bountiful Californias.

 

Deve ser mera coincidência que um dos nossos maiores poetas de sempre nasceu e viveu por alguns anos na mais afastada ilha do arquipélago, a mais próxima da América, uma das mais limitadas nos seus recursos de sobrevivência materialista, e por isso mesmo a mais paradigmática, creio, da sorte histórica dos Açores. Se a poesia de Pedro da Silveira é um resume inigualável da melhor arte literária açoriana já no seu modernismo cosmopolita, nas suas formas mais ou menos livres, e ainda mais na sua temática que combina a condição existencialista e intimista do seu autor com a fúria simultaneamente de registo dos condicionalismos da nossa precariedade de vida e do consequente protesto, o seu andamento real e metafórico entre todas as fronteiras verdadeiras e imaginárias tornam-no a poderosa referência, talvez mesmo génese de tudo que se escreveria a seguir. A ironia da sua poesia é também a ironia do seu destino literário. Não tenho dúvidas que passará a ser melhor conhecido e lido entre os que agora têm a possibilidade de absorver a sua poesia em inglês do que no resto do nosso país, que dos Açores lembra pouca mais do que o anti-ciclone, e assim mesmo sem saber muito bem o que isso quer dizer em termos meteorológicos. Só que Pedro da Silveira não é apenas um poeta “açoriano” – representa como poucos uma cultura e sorte nacionais, que por acaso têm as suas ilha como imagem e metáfora de todo um país, que diz ser do mar ou para ele virado mas já esquecido da aventura e do que seriam a suas vivas e sentidas consequências.

     Poems in Absentia/Poemas Ausentes não é só um título de apartamento, ou de quem partiu e parte – é um resumo magnífico de tudo o que significa, de tudo quanto transmite a nossa mais profunda e inquieta condição. As traduções de George Monteiro não são apenas as de quem conhece profundamente as duas línguas e a história humana a elas associadas. Os certeiros significados, a sua beleza sonora e rítmica, as suas imagens ora exactas ora aproximadas são de quem também as viveu e vive, são as de quem mantém na memória familiar o horizonte no seu olhar fixo, a partir da terra ou do mar, como mistério e, sobretudo, como possibilidade de fuga. Para além do mais, George Monteiro conhece perfeitamente essa outra obsessão identitária da nossa poesia, o ter de explicar ao resto da nossa própria nação quem fomos e somos, onde e como vivemos. Ter sido um americano hifenizado, mesmo outrora nos tempos em que isso era como que esquecido ou propositadamente ignorado, trá-lo de novo, na sua língua natal, ao nosso íntimo encontro.

Não creio que haverá palavras em Poems in Absentia que melhor transmitam a relação entre um poeta e outro, entre Pedro da Silveira e George Monteiro, entre toda a polissemia de cada palavra e versos em duas línguas, o português de um e o inglês interpretativo de outro. “As Palavras/Words”, ou como dizem: “Que ninguém lhes toque/Let no one touch them”. Leiam-nas, recitem-nas. A partir delas, que abrem esta maravilhosa coletânea de traduções de alguma da nossa mais significante poesia, a viagem acabará sempre num outro regresso muito mais rico à Ítaca de nós todos.

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Pedro da Silveira, Poems In Absentia/Poemas Ausentes (tradução de George Monteiro) de um livro a sair brevemente nos EUA na Tagus Press da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, e da Universidade de Brown. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 3 de Agosto de 2018.

 

Da raiva que nos assalta, da vida em suspenso

  1. Nos momentos felizes esquecemos sempre pedrinhas que vão reaparecer, com toda a certeza, quando o caldo entornar.

    Rodrigo Guedes de Carvalho, Jogos de Raiva

    Vamberto Freitas

         Raramente falo das capas dos livros que leio, sabendo muito bem que quase sempre definem, ou pretendem definir, a temática principal da sua prosa, ficcional ou não. Esqueçam as temáticas que condicionam a prosa neste novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, Jogos de Raiva. É mais um grande romance sobre o nosso mais profundo ser, e o nosso “não” ser. É “sobre” a condição humana universal na versão portuguesa, e não só, dos nossos dias. A sua capa é simples, mas na parte de baixo vem o símbolo face oculta do Facebook, com a sua frase com ainda sem menos sentido, “Em que estás a pensar?”. Eu cultivo esse outro meio de comunicação, e raramente estou a pensar em nada, só a mexericar o que vai pelo mundo, e não só entre os meus “amigos” inscritos ou de ocasião. Esta nova ficção do autor parte dessa cómica ironia e depois avança para o jornalismo televisivo actual aqui no nosso país e noutras partes, mas muito pouco tem a ver com essas questões pouco transcendentes ou mesmo relevantes. Jogos de Raiva, no entanto, por certo que tem também a ver com isso: a capacidade de qualquer idiota poder literalmente falar com o mundo inteiro sem nada dizer ou adiantar a qualquer pensamento relevante, ou então entra pela difamação pura. Essa parte do romance tem mais a ver com diversão do que com o que o vai na alma dos seus protagonistas de três gerações, interagindo uns com os outros por questões de vida e morte, de saúde e sorte, de gostos e desgostos. Retrata toda uma humanidade a saque. Escritores mais ou menos falhados, médicos que já não crêem na cientificidade da medicina, inclusive psiquiatras que estão ainda piores mentalmente do que os seus pacientes e que já não acreditam em curas ou milagres, herdeiros em fuga de casas grandes situadas no Porto à procura de uma vida nas artes ou no amor em Lisboa ou aonde aparecer, jornalistas de sucesso que acabam com a cabeça sob uma espada islâmica algures sem dó nem piedade, sendo a Síria aqui a geografia do indizível terror presente. A maior grandeza deste romance é que tudo o que nos acontece todos os dias da época em que vivemos é plausível e está nas notícias minuto e minuto. Trata-se de um outro e bem claro retrato artístico de um Portugal e mundo à deriva. Escrito por quem é ou vindo de quem vem, tem a arte de um grande escritor e de um praticante e observador diário de todas estas profissões e obsessões nossas. A sua linguagem clara e sem pretensões metafóricas lembra-nos a de um Raymond Carver, que nunca escreveu um único romance, mas nos seus contos dava-nos conta de toda uma sociedade sem nunca dela falar directamente. O que vai no interiorismo de cada personagem define perfeitamente o meio que nos rodeia. Não há um único personagem em Jogos de Raiva que nos seja esquecível, em cada um deles estamos todos, leitores. A grande arte é feita assim. Não é de estranhos, mas dos que connosco partilham o dia-a-dia, para além do seu lugar na sociedade, do que fazem ou deixam de fazer, de como amam ou odeiam, de como falham ou encontram a sua felicidade.

    Há um romance dentro deste Jogos de Raiva com o título de O Fantoche. É um romance medíocre dentro de uma prosa genial. Quem pensa que isto é feito literário fácil também pensará que é fácil a um romancista escrever precisamente sobre os dias que vive. Philip Roth disse um dia que a sua imaginação lhe falhava quando lia a primeira página de um jornal diário. A “realidade” aí ultrapassava, em termos surrealistas, tudo o que um escritor poderia imaginar. A destruição das Torres Gémeas em Nova Iorque, aliás várias vezes mencionadas nestas páginas, é um dos possíveis exemplos. Nem escritores, nem sequer Hollywood. Portugal está aqui, e em modos necessariamente muito diferentes em todo o seu “esplendor” e “miséria”.

    Não vale a pena nomear aqui todos os nomes dos protagonistas. Basta falar de Francisco José, o patriarca da Casa Grande no Porto, Maria Clara, Nuno Maria e Ana Teresa (filha africana adoptada em criança por Francisco José na guerra em Moçambique), e um filho de nome Santiago, que nunca ninguém descobre se é autista ou com outros problemas mentais, e que deambula pelos jardins nos seus aposentos familiares. A psiquiatra e os médicos são personagens menores, menos na sua ignorância ou incertezas. O narrador de Jogos de Raiva não tem complacências perante nada e ninguém, limita-se a contar a história de uma filha de sucesso que não acaba bem. Estamos num Portugal que vem desde os primórdios e está agora na sua decadência absoluta. Vemo-los em restaurantes finos na capital, vemo-los um pouco por toda a parte, mas algo está a decair inexoravelmente. A morte ronda entre tudo e todos. Estamos num Portugal pós-moderno, em que nem arte nem jornalismo conseguem transmitir a tragédia. O narrador, perante tudo isto, nunca perde o seu sentido de humor. Como quem diz: esta é a nossa condição humana, ninguém lhe pode fugir. Esqueçam, se lhes for possível, a profissão do autor que nos aparece quase todos os dias nas nossas salas. Estamos perante um escritor que conhece muito bem o que faz todos os dias, mas isso pouco interessa. É do romancista supremo que deveremos pensar e que devemos ler. Tenho-o de confessar: já raramente vejo televisão, não consigo ouvir as palavras dos políticos e de outros, não consigo sequer ver ou ouvir quem admiro e que se tem por figura “nacional”. Em Jogos de Raiva tenho o grande privilégio de ler, uma vez mais, o escritor, e nada mais. Este romance de Rodrigo Guedes de Carvalho diz naturalmente mais do nosso país do que todas as intermináveis “notícias”. Bem sei que a narrativa defende, de quando em quando, o que o jornalismo relata, ou o que passa por jornalismo no nosso país, e que supostamente temos de saber. Jogos de Raiva tem a ver com isto tudo. Sei. Só que dispenso quase tudo o resto, menos o que sai da grande literatura. Nova Iorque está sob ataque? O país está a arder? Mais um jornalista tem o pescoço cortado, desta vez um português? Não há como aguentar isto fora da arte. É isso que este livro me oferece. Alívio nas linguagens, sair do que temos por “realidade”. É o mais estranho do mundo que vivemos, e nada neste romance foge a esse temeroso espectáculo.

    “No livro – diz o narrador do romance que Francisco José, escritor mais ou menos falhado, está a escrever – não há qualquer referência a um espanhol que foi visitar o avô ao hospital e lhe desligou a máquina que o mantinha vivo porque precisou de carregar o telemóvel, era a única tomada no quarto, ele explicou que foi com a melhor das intenções, precisava, precisava de carregar a bateria para mandar uma foto à mãe a dizer que o velhinho estava bem, de facto reparou que na foto o rosto do avô estava azul, mas pensou que era do filtro que tinha escolhido na câmara”.

    Jogos de Raiva é feito, permitam-me repetir, de ironias. Até fala mal dos críticos que falam bem de escritores. Como quem espera que falem mal deste romance. Surpresa. Não se pode falar mal de quem escreve assim. O críticos judicativos que o façam, só que raramente percebem de literatura séria. Tenho que dizer que conheço muito pouco de Rodrigo Guedes de Carvalho, a não ser como escritor. Para vos dizer a verdade, o resto pouco me interessa, para vos dizer também que não me comove mais nada. Um escritor para mim é um escritor, o resto que faz nem não conheço nem tenho a mínima curiosidade. Este é o terceiro romance que leio deste autor, cheguei a ele tarde, li O Pianista de Hotel, e depois o doloroso A Casa Quieta, num momento muito particular da minha vida, que ainda não passou por completo, e levará algum tempo a passar. Só que lhe agradeço os momentos de leitura que me proporcionou nestes meses mais recentes.

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    Rodrigo Guedes de Carvalho, Jogos de Raiva, Lisboa, LeYa/D.Quixote, 2018. Publicado na página “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 27 de Julho, 2018.

Do amor, do ódio e do mistério

Não, também desejo o diferente e o novo, como tu. A ideia do sexo perturba-me um bocado, talvez. Se pensares bem, tudo aquilo é brutal e um pouco desumano. O prazer existe, não tenho dúvidas, mas ainda não me sinto preparada.

Rita Ferro, Um amante no Porto

Vamberto Freitas

     Que Rita Ferro, autora de uma das mais vastas e variadas obras da literatura portuguesa contemporânea, inventa um dos personagens mais misteriosos e complexos da nossa literatura é um feito literário inusitado e audaz. Que ao amor e perplexidade entre uma mulher matura e um homem ainda de maior idade, que é do e vive no Porto e ela em Lisboa, não me deixa em nada surpreso, mas tudo o resto constitui um trama sem igual na nossa literatura. Só não me agradou a narradora fazê-lo nascer 1951, a mesma idade deste seu leitor. Amante, possível criminoso, cavalheiro e canalha, indiferente a uma mulher linda e sensual e ocasionalmente em busca dos prazeres de cama, ele mentiroso, escondendo um passado de certo “privilégio” e misérias de todo o tipo foi-me mais do que fascinante: falou-me da complexidade da nossa humanidade e de vidas escondidas em segredos tanto amenos como temerosos. De seu nome Álvaro Faria de Castro e ela de nome Zara, cria-nos uma história, como se diz na contracapa, “sobressaltada e passional”, e depois de uma obsessão que parece psiquiátrica da sua amante para conhecer os segredos do seu namorado ou amante, sempre distante e de meias palavras obscuras. Um amante no Porto não é apenas sobre mais um português banal e previsível, é sobre medonhas histórias escondidas e sentimentos meio honestos meio falsos, os de qualquer um de nós em qualquer parte. Um homem esconde boa parte da sua vida, uma mulher nunca se cansa enquanto não descobre o passado inteiro do amante que dorme com ela de quando em quando. É a diferença entre os géneros, passe o pensamento politicamente incorrecto. O amor, verdadeiro ou menos do que isso, não tolera mentiras, e isto é o centro narrativo do romance de Rita Ferro. Álvaro tanto é um relutante amante como é um patife. De resto, atravessa os anos de chumbo da ditadura salazarista, recebe a “educação” de gente como eu recebia, passa calado e só nas suas ruas da cidade natal, cultiva as suas amizades, e depois um dia em Paris, ocasionalmente, conhece a Zara num banal passeio no metro em Paris, e inicia com palavras mansas as descidas a um inferno mais ou menos ameno e banal, mas totalmente ligado a quem viveu um Portugal desonesto e hipócrita. A actual literatura portuguesa tem sido decididamente liberta da sua muito antiga “obsessão da portugalidade”. O que agora lemos é outra e bem diferente arte literária. Personagens portuguesas em busca de si próprias, do seu mais íntimo ser, e não, necessariamente, dos outros que partilham o seu espaço dito nacional. É o regresso à alma e ao nosso coração, e a terra nenhuma. O que diz Álvaro Faria de Castro, uma vez mais, é sempre suspeito, meias verdades e meias mentiras. Quem se deita com ele e pensa que o ama nunca poderá deixar as suas suspeitas sem resposta. O que Zara vai descobrindo tanto a fascina como a aterroriza.

A capa do romance Um amante no Porto não deixa de ser perturbante nas nossas visões contraditórias. Temos de costas um homem de certa idade, de chapéu largo e claro, casaco e sapatos pretos: o retrato perfeito tanto de um criminoso mafioso como de um português da sua época. A capa de um livro raramente deixa de ser uma certa interpretação do seu conteúdo, por mais que se diga que não se pode julgar um livro por aí. Pode-se, sim. Representa a figura enigmática que a sua protagonista tenta desvendar, com ou sem sucesso, mas fica sempre a incerteza e a dúvida. O “amor” ou o “prazer” nunca excluem a inocência absoluta. Ao longo da narrativa temos linguagens de grande afecto e raiva. A tragédia humana é também isso. Sentimentos que nos desequilibram, distâncias que nos separam (ele vive num esconderijo do Porto e ela em Lisboa). Os encontros são esporádicos, mas raramente pacíficos. A minha cama é só de sexo, ou é também de amor? Ninguém larga ninguém. Quem esteve na tua vida? Que fizeste nos teus anos de isolamento? Que fazem essas pistolas escondidas em casa? Mataste alguém, ou são de mera herança ou de colecção? A tua única filha está sempre distante, e eu não entendo bem porquê. Quem és tu, e quem sou eu? O romance de Rita Ferro é um mar de perguntas, e nunca de afirmações definitivas. A arte literária é sempre de questionamentos, de angústias e sofrimento. Os passos de Álvaro na capa parecem vagarosos, sem destino nem razão. Que nos apaixonamos por homens (ou mulheres) destes é a condição humana de nós todos, e a grande irracionalidade do nosso ser. Só que não podemos fugir a esta sorte ou (in)fortúnios. Os amores felizes, alguns, acontecem na vida real, sabemos. Na arte séria raramente existem. Pensemos em Madame Bovary ou em Anna Karenina. A paixão é sempre mortífera, desde os gregos antigos até Gustave Flaubert e Leon Tolstói noutras línguas e a Eça de Queirós na nossa. Um Amante no Porto perpetua esta tradição, a do coração humano em turbulência constante.

A prosa de Rita Ferro, à semelhança de outros novos escritores em toda a parte, torna toda a leitura num prazer enorme do texto, poupa nos adjectivos e oferece-nos uma prosa de força claríssima, que consegue combinar um realismo puro com a poetização das linguagens nunca sentimentalistas mas plenas de simbolismo e metáforas significantes. Na verdade, os modernistas experimentalistas da modernidade, que datam dos anos 20, são mais do que cansativos. Todos os que dizem ler seus romances ou poemas, tenho para mim, que quase ninguém vai de página a página nas suas obras pretensiosas e totalmente obscuras, na verdade ilegíveis, como, por exemplo, Ulisses (1922), e depois Fignnegans Wake, (1939) de James Joyce. Quem tem uma história para contar, conta-na, como fez William Faulkner, Ernest Hemingway, F. S. Fitzgerald, John Dos Passos, e quase todos os outros que os seguiram até aos nossos tempos. O suposto experimentalismo literário não será só anacrónico, como é inútil e sem significado. Ainda nos anos 70 alguns chamados “pós-modernistas” tentaram o mesmo. Ninguém se lembra deles, ou da maior parte deles. Tenho alguns nas minhas estantes, mas só como dever literato e para me dar conta de como não nos quero reler.

“Até na natureza, junto a um rio, uma montanha, uma floresta, precisamos de saber que estreleja, por trás de toda aquela harmonia convincente, a ameaça iminente de uma catástrofe, de um ciclone, de uma avalanche, que desmascarem toda aquela coerência e desromantizem a verdade: a natureza não é só mãe, é madrasta, existindo caos em toda aquela ordem admirável, e, mais do que caos, uma imprevisibilidade permanente”.

É esta a prosa clara de uma escritora que não se esconde atrás de nada. Tentei não mencionar aqui os seus distintos antepassados, mas não resisto. Rita Ferro vem de uma educação e formação como poucos entre nós. Há uns bons anos escrevi sobre o melhor livro alguma vez publicado sobre a América por um português no auge do seu impulso modernista, Novo Mundo Mundo Novo, uma série de reportagens em forma de diário publicadas Diário de Notícias, e em 1930 em livro, quando esse seu avô era já amigo de Fernando Pessoa e da nossa mais histórica revista Orpheu, amigo ainda, entre muitos outros, do açoriano Armando Côrtes-Rodrigues. António Ferro (os fanáticos de esquerda não me incomodam nada neste sentido) quando visita os EUA, é o primeiro grande intelectual português lisboeta a escrever brilhantemente não só sobre uma outra América do jazz, do cinema, da academia, e sobretudo sobre as nossas comunidades imigrantes, maioritariamente açorianas naquele país, de leste a oeste, com uma admiração e respeito até então nunca vistos, declarando-os filhos na nação, sem quaisquer outras qualificações geográficas ou culturais. Rita Ferro é filha de António Quadros e a sua irmã é a responsável máxima pela sua Fundação, guardando alguns dos mais importantes documentos da nossa história. Como escritora, Rita Ferro só presta homenagem a este seu passado, que é também todo nosso.

Um amante no Porto é mais do que um romance sobre um amor despedaçado e trágico. É sobre toda uma época do nosso país, que vai dos recuados anos 50 até à nossa actualidade.

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Rita Ferro, Um amante no Porto, Lisboa. D. Quixote/LeYa, 2018.

Publicado na minha na página “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Julho de 2018.

Da nova literatura portuguesa e outros olhares históricos

Decidiu voltar ao Faial, a esclarecer dúvidas pendentes. Tinha uma lista enorme. Se o bom Deus costumava esconder-se nos pormenores, como diria Flaubert, o mais terrível demónio também.

Joel Neto, Meridiano 28

Vamberto Freitas

Como já escrevi noutra parte, li o romance de Joel Neto, Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias, que quebra com tudo na literatura açoriana ou portuguesa, quando a sua originalidade nunca deixa de recordar as gerações literárias mais velhas, prestando-lhe a homenagem que um grande autor sabe que lhes deve. A grande literatura é feita assim. O novo do romance de Joel Neto chegou-me num momento muito triste da minha vida, mas fiz tudo por tudo para que a minha leitura por nada disso fosse afectada. Há uma nova grande geração de escritores portugueses, por mais que vociferem os que se têm pelos maiores, que ultrapassa tudo quanto representa a nossa literatura: a maior das vezes virada para a chamada “viagem para dentro”, nas palavras de Edward Said, como se mais mundo não houvesse apesar de Camões e Fernão Mendes Pinto. A verdade é que o nosso país esteve sempre no mundo inteiro, e mesmo fronteiras adentro sempre recebeu, de um modo ameno ou hostil, os que nos chegavam de fora, desde a sua fundação até hoje. O nosso século XX foi um exemplo vivo dessa história – fechado sobre si mesmo e ao mesmo tempo a placa giratória dos infelizes e dos mais privilegiados, especialmente durante a II Guerra Mundial. Este romance de Joel Neto muda agora a “realidade” desses anos do Casino Estoril e de Lisboa para a cidade da Horta e outras geografias dos Açores. Poderemos pensar que passamos ao lado dos grandes acontecimentos do mundo, mas isso é mais uma ilusão de ilhéus a meio mar atlântico. Meridiano 28 é uma brilhante metáfora de como o mundo nessa altura vivia a maior violência da humanidade e a convivência civilizada dos que, supostamente “inimigos”, permaneciam numa pequena ilha a tomar conta de cabos submarinos já na sua caduquez, alemães, ingleses, alguns americanos e uns tantos outros de outras nacionalidades. Enquanto a Europa ardia, eles jogavam todos os desportos, dançavam num clube faialense ainda existente, cultivavam a discórdia e o amor, homens e mulheres que mais do que uma guerra absurda queriam a paz e a convivência. Eis o mundo inteiro na sua ambiguidade, ou, como diria William Faulkner, “o coração humano em conflito consigo próprio”, ele que sabia de uma sociedade caída numa guerra perdida. Meridiano 28 não sai só da literatura portuguesa na sua “obsessão da portugalidade”, coloca-nos no meio de um grande combate pela civilização e decência humana, a amizade entre uns e outros magoada pelo curso da História e da loucura generalizada.

Meridiano 28 traz uma enorme tábua de personagens nas primeiras páginas, mas não deixem que isso vos intimide. A maior parte delas são secundárias, e todo o drama e trama deste grande romance gira em volta de quatro protagonistas. Em primeiro lugar o narrador e o escritor de toda história, de nome José Filemon, cujo parentesco misto é muito complexo mas tenta reconstruir a vida dos seus antepassados na Horta a partir de 2017. Depois temos Hansi, meio alemão e português, e Roy, inglês, e amigo deste desde a infância. Katthryn Govres é a sua mãe, e também a sua vida pessoal no Faial é complexa e dramática. O início de Meridiano 28 é de 1939, quando a Europa já estava na maior das tragédias da modernidade. É a pedido de um mais ou menos misterioso americano que havia estado naquela ilha e que falecera na sua América, e Filemon recebe possíveis pistas a mando do seu mordomo, que pede a Filemon, residente em Lisboa, que descubra a presença de um suposto agente nazi que se havia refugiado na ilha do Faial durante a guerra, algo que nunca chega a ser confirmado. A trama do romance nunca deixa de aliciar o leitor, mas acaba por ter importância relativa. O que mais nos seduz são os relacionamentos entre as várias nacionalidades em guerra à distância, sem nunca deixarem de se relacionarem ou estimarem. Eis aqui um mundo em que os indivíduos se sobrepõem às suas nações, eis um mundo em que nos Açores os relacionamentos íntimos nunca são destruídos pela raiva colectiva a pouca distância no continente europeu. A relação entre Hansi, alemão, e Roy, inglês, permanece indestrutível, e quando se separam a saudade é o que mais domina os sentimentos de um e outro. Metáfora brilhante da nossa, uma vez mais, humanidade – antes da “nação” somos nós os primeiros e mais chegados, antes da colectividade em guerra permanecemos uns com os outros em convivência em campos de desporto, sociedades recreativas, e nas escolas. Meridiano 28 faz-me lembrar, de certo modo e em muitas das suas páginas, grandes romances, como a Montanha Mágica, de Thomas Mann, e até A Oeste Nada de Novo, também do alemão Erich Maria Remarque. É na morte que conhecemos o nosso mais profundo amor. Joel Neto dá-nos algo de muito original. No país que era “neutro” e fora dos combates, num regime desonesto e de duplicidades traidoras, Meridiano 28 reinventa numa pequena ilha açoriana a presença viva de uma guerra sem tréguas, só com uma originalidade nunca vista: cidadãos dos vários países em conflito armado colocam-se na baía da Horta para assistir a submarinos e navios a afundarem-se violentamente uns aos outros, como se de um teatro nefasto e absurdo se tratasse. Nunca na literatura açoriana ou portuguesa um autor tinha tido esta audácia e imaginação artística, enquanto historicamente verídica.

Joel Neto é autor de uma já vasta obra ficcional e ensaística quase ela virada, digamos, para dentro, para a vida reinventada no nosso país e na nossa região insular. Meridiano 28 não deixa de nos dar essa continuidade temática, mas, como já foi referido, parte para ou chama si mundos mais vastos, modos de ser e estar, o confronto entre ideologias e filosofias de vida. É um romance feito de cenas dramáticas e da mais profunda ironia nas questões que levanta ao leitor mais atento. Uma dessas cenas acontece quando Hansi e Roy (antes de este partir voluntariamente para a guerra e lutar pelo seus país ancestral) decidem fazer uma penosa subida ao topo da montanha do Pico para de lá comtemplarem o oceano quieto e indiferente, como quem se queda num questionamento do que leva as nações ao suicídio mútuo quando a amizade seria o mais natural entre os seres humanos, para além das línguas e culturas a que pertencem ou em que nasceram. Entre todas as páginas memoráveis deste romance, o narrador presta homenagem, sem nunca largar a sua ironia, a outros autores açorianos e estrangeiros, como quando encena o triste lançamento de Mau Tempo no Canal na sociedade Amor da Pátria, colocando no fim Vitorino Nemésio sozinho a um canto, totalmente ultrapassado pelas conversas e atitudes das várias nacionalidades lá presentes e pela guerra em curso. Um mestre presta homenagem a outro, os dois romances situados na mesma cidade e com olhares duplos, os olhos no horizonte e do horizonte a chegada de outros no que Edouard Glissant chamaria a “poética da relação”.

“Miúdos distribuíam pão, as famílias reunidas – relembra-nos o narrador a da altura — em pequenos círculos, com as coroas do Espírito Santo pousadas ao lado. Lá em cima, na Espalamaca, os moinhos de vento rodavam a toda a velocidade, moendo o milho com que se haveria de dar de comer a toda aquela gente. Eram os Açores, bem vistas as coisas. Nunca deixara de ser assim e, se de alguma coisa se podia ter a certeza quanto àquelas ilhas, era que assim continuaria a ser”.

Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias vem num momento internacional que parece querer repetir o passado, a tragédia da História, como também escreveu Karl Marx, dando lugar a uma farsa, que não deixa de ser quase tão cruel e irracional como fora ainda em tempos na memória de muitos sobreviventes. O que o romance de Joel Neto mais nos deixa nas suas linguagens e estética é não deixar esquecer que as ilhas, longe das frentes de guerra, não deixam de pertencer a esses mundos mais vastos e de sofrer na sua alma as consequências da violência generalizada. Não será este impulso do romance aqui em foco que mais nos comove, mas sim os seus seres inventados, que somos todos nós, como símbolos das nossas ambiguidades, inseguranças, e sobretudo a condenação que é olhar de lado o vizinho, o amigo ou o colega, toda a sociedade sob suspeita de ser capaz de fazer o pior. Isso. Restam-nos as palavras redentoras, mesmo que nunca evitem essa repetição do passado. Os historiadores e cientistas políticos tudo explicam, mas cabe ao artista, ao escritor, entrar na consciência ou alma dos seus personagens, retratar o que números e acontecimentos em geral que nunca explicam a dor ou a alegria de estramos vivos e em comunidade, neste caso diversificada e relutantemente a distanciar-se da sua própria bondade e humanidade.

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Joel Neto, Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias, Lisboa, Cultura editora, 2018.

 

 

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 29 de junho, 2018.

Maria Adelaide

ADELAIDE FREITAS (1949-2018):

A MENINA DO SORRISO E DA NOITE

João de Melo

A morte estava escrita na doença que a acometeu em plena maturidade: os pequenos lapsos de memória, as palavras que subitamente deixavam de existir e lhe eram devolvidas pelos alunos de Literatura Norte-Americana, na Universidade dos Açores. Realizara as provas académicas que viriam a projetá-la para a carreira docente no ensino superior: licenciatura e P.H.D. pela Southeastern Massachusetts University, mestrado pela City University of New York e doutoramento pela dos Açores com a tese Moby-Dick. A Ilha e o Mar – metáfora do carácter do povo americano (1991). Vieram dois livros de poemas: De emigração Tecido (1991) e Viagem ao Centro do Mundo (1994), e veio um labor de textos ensaísticos por ocasião de eventos e congressos (coligidos por Vamberto Freitas, seu marido, no volume Nas Duas Margens: da Literatura Norte-Americana e Açoriana, 2008), mais dois livros de ensaio (um deles exclusivamente sobre mim), um álbum de parceria com Homem Cardoso sobre o nosso Nordeste, E no princípio era a Ilha (1995) e o romance Sorriso por Dentro da Noite (2004).

Bastaria a abordagem desta ficção autobiográfica para sabermos o essencial do que se perdeu na pessoa de Adelaide Freitas: uma vida pesada de mais para uma alma tão leve, tão bela, tão solta no seu mundo de lutas ganhas e promessas interrompidas. É um livro pungente, como todos os que se escrevam sobre a infância daquele tempo na Achadinha natal, dela e minha, em contato com a adversidade quotidiana e na ausência dos afetos que mais estruturam a personalidade humana. Aí se enumeram as dores e perdas dessa mesma educação sentimental, feita a expensas próprias, desde tenra idade (entregue, ainda bebé, à avó materna, estando os pais emigrados na América), até ao regresso, anos depois, dessas estranhas figuras parentais que talvez nunca a recompensassem da ausência nem lhe devolvessem a idade de um colo de mãe e a mão quente e segura da paternidade.

Longe andava eu, seu conterrâneo e companheiro da mesma infância infeliz, de imaginar que a menina que me sorria através dos vidros de uma janela fechada, ao passar na rua dela, estava afinal cativa para sempre das suas profundas e definitivas perdas familiares. Ela que até tinha em nós a imagem de uma privilegiada na sua redoma, na casa grande da vovó! Pela vida fora, esse mesmo sorriso foi-me sendo dado na medida das nossas possibilidades: eu perdido e achado na minha nova dimensão continental, ela levada pelos bons ventos da América, de onde regressaria de vez em 1978. Foi em 1983, no lançamento em Ponta Delgada do meu livro O Meu Mundo Não é Deste Reino, que reapareceu à minha frente, de surpresa e com um exemplar na mão. “Não te lembras de mim? Sou a Adelaide!” Sim, a menina sorridente da Achadinha, a leitora entusiasta que me profetizou um futuro literário, a mestra que me leu com conhecimento de causa e sensibilidade, e fez com que Gregory Rabassa lesse e traduzisse esse meu romance na América. A literatura fez-nos viajantes de vários destinos. Os dela levaram-na à descoberta do amor e da felicidade com Vamberto Freitas, seu bordão de luz, cuja história de regresso e amparo acabou tristemente a 6 de junho de 2018 num luto que em parte também é meu: um na solidão insular, outro no deserto de a ter perdido com o coração.

 

(Lumiar, 13.6.2018)    

Nemésio, Intelectual Público

Às vezes penso que um facto acintoso espia os valores portugueses para os baralhar ou denegrir. Para os baralhar, sobretudo.

Vitorino Nemésio, Sob os Signos de Agora

Vamberto Freitas

Não será de admirar que a obra de Vitorino Nemésio desde há muito suscite a maior atenção nas nossas páginas nacionais e em estudos sucessivos um pouco por toda a parte. Tudo confirma Nemésio, tirando a sua presença popular na televisão também nacional, sempre foi assim, sobre isso escreveu David Mourão-Ferreira, entre alguns outros especialistas na sua obra, como o Professor Doutor António Machado Pires e o falecido José Marins Garcia. A obra de Nemésio corre agora, como sempre, outros riscos institucionais – o de pertencer a um grupo de escritores mais citados do que lidos, feito “propriedade” quase pessoal de minorias e assim permanecendo na serenidade falsa dos esquifes intelectuais em que frequentemente se tornam as publicações universitárias. Um estatuto canónico poderá ser também uma certidão de óbito literária, e no caso de Nemésio essa seria a maior das injustiças àquele que foi o nosso homem de letras por excelência, aquele para quem a escrita em todos os seus géneros foi um acto tanto intelectual como vivencial, conjugando a tradição do escritor que se dirige ao grande público e simultaneamente em diálogo permanente com o seus pares intelectuais, os pressupostos teóricos da escrita em convivência com os relatos ficcionados ou jornalísticos, a sua poesia sendo de igual modo ora uma representação da condição interior e saberes do indivíduo perante o seu tempo ora a representação passional perante as geografias dos seus afectos e memórias, assim como as variadas fases ideológicas da nação. Nemésio é efectivamente o nosso escritor total: pertence aos  escaparates públicos da literatura mais viva e deveria ser inescapável de todo e qualquer leitor não-profissional ou de carreira. Nemésio é o diálogo abrangente entre o leitor e o seu país e cultura durante a segunda metade do século passado, o nosso autor ao mesmo tempo absorvido pelo espírito do lugar e em viagem constante pelos mais escondidos recantos do mundo, desde Coimbra e Lisboa até ao Nordeste e outras partes do Brasil – e com os Açores como centro sentimental, e depois a na Sapateia Açoriana como centro político de emergência. Ler Nemésio, para a minha geração, será sempre voltar a casa.

Uma leitura ou releitura de Sob os Signos de Agora, os ensaios e outra escrita do início dos anos 30 é uma dessas impressionantes viagens nemesianas pelo mundo do pensamento a partir da literatura, da história, da política e, sim, das suas múltiplas geografias num mmento em que toda a “casa comum” europeia já ameaçava desabar, como em brve viria de facto a acontecer. Não é o professor universitário que escreve nestas páginas, é o intelectual público inteiramente comprometido com a linguagem civilizada sobre as raízes do nosso ser e do nosso particular lugar que então ocupávamos ou havíamos desde há muito ocupado no concerto das nações vizinhas e distantes, no lugar especificamente cultural que então era Portugal na Europa – lugar desconhecido de todo pelos outros, mas que Nemésio não desdenhava nem desprezava simplesmente por ser o seu lugar, por lhe ter cabido a sorte de nascer e viver e de se comover com o seu chão-pátrio. Cabe aqui, nestes Signos, um pouco de tudo que então definia os interesses e os posicionamentos de uma toda uma vida – os Açores como palco de histórias “locais” e “nacionais”, a crítica literária em volta de poetas como João de Deus sempe ampliada e enformada pelo comparativismo do intelectual a outros meios e criações, a interligação da arte e biografia, as evidentes e nem sempre evidentes metáforas nacionais na literatura e os nomes estrangeiros que já nos deviam, nessa recuada época, ser conhecida pela sua proximidade e pertinência, como no caso de Unamuno. Qualquer revisitação à diversificação e por vezes ocasional escrita de Nemésio faz ressaltar como redundantes se tornaram os termos universalista e universalidade quando a ele aplicados com a insistência de quem parece valorizar qualquer obra especificamente em relação – no afastamento e na aproximação – a imaginados ou a impostos centros de pensamento; redundantes e logo inúteis por tão óbvia ser essa a qualidade subjacente à sua postura de vida e à sua criação na ficção, poesia, ensaio ou mero comentário de ocasião, e em que centros para ele existiam e eram totalmente interiores, parte da sua natureza e educação em geral, restando, restando ao intelectual e ao escritor destes Signos perceber a humanidade em todas as suas latitudes e contingências históricas ou momentâneas. Ler Nemésio, qualquer página de Nemésio, é experimentar o que Herman Melville disse ser o choque do reconhecimento: a condição humana, apesar das suas variantes locais aqui e ali, da língua e das culturas, são de imediato entendidas e empaticamente transmitidas de enunciador para receptor. Em vão se procura a portuguesa violência verbal em Nemésio, antes deparamo-nos com a fina ironia do homem culto e generoso, do homem atento aos seus mundos circundantes e simultaneamente às vastas geografias do seu imaginário pátrio e intelectual – nessa aproximação de tudo e por tudo que seja humano, uma vivência, uma escrita onde nada lhe é alheio ou estranho: For genius, all over the world – escreveria Melville, o autor com quem Nemésio terá demasiadas afinidades temáticas, particularmente em Mau Tempo no Canalstands hand in hand, and one shock of recogniton runs the whole circle round.

Uma vez mais, ler e reler livros, por exemplo, como os Signos de Agora, é lembrar-nos de que a nossa geração não lhe pode fugir nem na escrita nem na atitude fundamental perante o nosso lugar no mundo ou simplesmente no país português; ler Nemésio na sua totalidade é reencontrar o conforto de sabermos que antes de nós aqui nos Açores alguém já nos tinha transmitido o “essencial” da nossa condição humana. João de Melo disse-me um dia que Nemésio não era o nosso pai ou sequer avô literário. Talvez, dado que o conceito de literatura nacional se dilui quase por completo e as suas leituras também vêm em maior quantidade de escritores de outras línguas e de outras geografias. Só que Nemésio foi quem nos legou directamente a visão de que ser-se português dos Açores não era de modo algum estar preso às definições e as mais das vezes discriminações do eixo político e cultural Lisboa/Coimbra, era antes estarmos atentos aos ruídos de todo o mundo, desde o pescador da Praia da Vitória ao imigrante nos EUA e outras partes, desde Unamuno a Raul Brandão. Nesse sentido, a nossa atitude actual é de pouca originalidade, foi herdade de Nemésio como de mais ninguém. Toda a sua escrita, por sua vez, tem tanto de heranças europeias como do mundo anglo-saxónico, é feita de ideias e de experiências quotidianas, a fala, a festa e o trabalho dos homens e mulheres em consonância com a citação mais intelectualizada. Nemésio mais do que tudo é um escritor e um intelectual público, logo referência alargada e consequente para além do mundo universitário, uma suposta serenidade dando lugar à paixão, como no já mencionado Sapateia Açoriana, um dos últimos livros de poemas no qual ele é capaz de resumir noções de um coração em conflito quase total, a lealdade e a traição, o amor e o corte radical com o mundo pátrio amado, o manter em equilíbrio dois pensamentos absolutamente contraditórios (como diria um escritor americano noutras circunstâncias e noutra longínqua época), nesse tão claro sinal de inteligência e grandeza de alma. Nemésio é, dentro do país português, o autor sem par do nosso pensamento e da nossa angústia a meio mar, o autor do conflito permanente que é o de ser-se português dentro e fora da Europa.

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Uma Página Sobre Vitorino Nemésio, Curadoria/coordenação: António Machado Pires, Rio de Janeiro, Organização do Gabinete do Secretário Regional da Presidência para as Relações Externas, 2018. Este ensaio foi reescrito de um outro que publiquei em 1996. O livro será apresentado amanhã na Casa dos Açores do Rio de Janeiro. Publicado no Açoriano Oriental, 20 de Abril, 2018.

 

A doença como metáfora de todo um país

Respiravam todas. Contavam respirar no dia seguinte. Não tinham nenhuma moléstia que as inquietasse. Uma rapariga, esbarrando nele, deixou cair a bolsinha de mão. Ernest apanhou-a num movimento rápido e devolveu-lha; sorriram um para o outro com o mesmo embaraço simpático. Era bonita. ‘Se esta sonhasse que eu sou, ou fui, tísico…’”

Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis

Vamberto Freitas

Depois de ler este segundo romance de Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, a minha primeira reacção foi tirar da estante aqui em casa o livro da falecida Susan Sontag, Illness As Metaphor (1997), creio que escrito pouco depois da autora ter contraído uma das doenças mais temerosas do nosso temo, que os nossos jornais costumam designar por “doença prolongada”, a palavra cancro ainda carregando uma semântica medonha, em que a morte é o primeiro pensamento que nos vem à mente, a condenação sem remédio nem retorno. No entanto, ao reler partes do livro de Sontag constatei o que me parecem duas verdades incontestáveis. Primeiro, a doença não é uma metáfora para vidas infelizes ou condenadas pelos deuses do mal. Segundo, nem todas as formas de doença, por mais que a história assim o ateste, levam ao fim de uma vida, com as devidas excepções como sempre. Illness As Metaphor traz na contracapa palavras que se aplicam por inteiro aqui. “Durante muito tempo – escreve Susan Sontag — a tuberculose era identificada como uma bactéria infeccional, e acabou com a ideia de representar um desaparecimento romântico do doente ou de um temperamento artístico sensível, e poderia ser tratada e curada. Do mesmo modo, deveremos hoje acabar com a noção de que o cancro é um sinal do fim, um castigo ou um sinal de uma personalidade reprimida, e sim uma doença reconhecida pelo que de facto é: uma doença entre tantas outras e frequentemente recepectiva de uma cura”. O novo romance de Isabel Rio Novo não me foi uma surpresa completa, pois aqui ainda há poucos anos o açoriano Nuno Costa Santos publicou também uma grande peça de ficção intitulada Céu Nublado com Boas Abertas, uma espécie de meta-ficção na qual conta a história de um avô que havia deixado na estante um manuscrito sobre a sua sorte nos Açores no princípio do século passado e acaba tuberculoso no famoso sanatório na serra do Caramulo. Não há aqui qualquer outra comparação possível. O romance de Isabel Rio Novo distingue-se de outros modos, as suas linguagens são fulminantes na sua clareza, na sua precisão, na historiografia de todo um país subdesenvolvido, que vai desde o século XIX até aos dias pós-25 de Abril, quando se inicia a história.

A originalidade de A Febre das Almas Sensíveis vem ainda de outras formas narrativas e da própria construção de personagens. A saber, uma jovem investigadora decide passar algum tempo nas ruínas do Caramulo em busca de documentos perdidos, desde cartões postais a cartas pelas quais reconstrói vidas inteiras no contexto do seu tempo e condição social. Por outras palavras, a metáfora aqui nunca deixa de existir, mas refere-se mais à sociedade do que ao doente ou doentes. Os nomes dos personagens são muitos, mas a narradora nunca deixa o leitor pendurado em incertezas ou insinuações. Quase hesito em utilizar esta designação formalista, só que a Febre das Almas Sensíveis se assemelha ao que então se chamava nos Estados Unidos “realismo romântico”, a realidade da esperança e a força de cada um ou uma de vencer perante o pior das situações pessoais ou mesmo familiares. Todos eles vivem, como creio ter escrito Jorge de Sena num poema quando contraiu também uma “doença prolongada”, a morte social antes da previsível morte física. Todos se desviam, todos pretendem certa preocupação ao longe, todos vivem no medo do seu meio ambiente e das notícias que partem de quem está gravemente doente. “Em casa, — escreve a narradora — acautelando o contágio, Natália separava a louça de Armando, destinando-lhe um prato e uma malga para uso próprio, sacudia-lhe as roupas e deixava-as apanhar o ar na varanda durante a noite”. O período mais focado no romance é precisamente a época salazarista. Isso poderá levar-me a uma conclusão contrária às palavras da eminente autora americana atrás citadas.

A Febre das Almas Sensíveis, apesar do que acabo de dizer anteriormente, pode na verdade tornar-se essa metáfora, não da doença, mas de todo o país, desde o seu tempo ficcional aqui. Faz-me lembrar – não há qualquer imitação aqui – A Montanha Mágica (1924) de Thomas Mann e do seu protagonista Hans Castorp poucos anos após a I Grande Guerra, com ele num sanatório para tísicos algures no alto da Suíça. Não é o doente que se torna metáfora, é toda a ambiência de país ou de uma sociedade e continente em guerra e na absoluta precariedade de uma certa modernidade. O período mais mencionado nesta ficção de Isabel Rio Novo é precisamente o salazarismo, e toda a sua hipocrisia quando escondia a doença que arrasava ainda o nosso país, mas a alegria da pobreza e miséria era propagandeada como uma virtude quase sagrada. Não posso deixar de lembrar que nestes meses mais recentes alguma da nova literatura portuguesa tem focado a doença e a morte como temas fundamentais. Ainda há poucas semanas recebi de Eugénio Lisboa o seu Epílogo Acta Est Fabula, a conclusão dos seus cinco volumes de memórias, só que agora em forma de diário que documenta os últimos dias da sua grande companheira de vida, a sua solidão, e ainda mais a sua descrença no suposto bem-estar da nossa terra. É dilacerante porque acaba por ser um espelho que prevê o destino de nós todos. Toda a arte Ocidental, literária ou não, vem desta tradição que remonta aos gregos antigos, a condenação dos deuses e a nossa inevitável obediência perante a sua ira. Também muito recentemente recebi um livro de memórias do Professor Francisco Cota Fagundes, jubilado da Universidade de Massachusetts, nada menos doloroso na sua perfeição linguística e formal, Viagem Pela Escuridão, que nos conta o sofrimento de um filho único que desde criança sofre de um tumor cerebral. Nenhuma desta prosa nos é deprimente na sua leitura, são-nos os tais espelhos em que da escuridão se faz luz, e consciencializa-nos do que nos espera para que nunca deixemos de viver plenamente o dia-a-dia. Como nalgumas pinturas de Picasso, o sofrimento extremo não anula a beleza da vida, muito pelo contrário. A Febre das Almas Sensíveis é tudo isso: o amor e a solidariedade de uns e a indiferença de outros, a obrigação da luta de cada sofredor sem nunca deixar de acreditar na bondade do seu destino, muito mais do que na medicina. Metáfora, sim, de todo um país. De quando em quando o narrador vai-nos relembrando que a cura da tuberculose já se encontrava ao alcance de outros naquela época, menos entre nós, pela nossa pobreza, pelas prioridades do regime. A prosa deste romance poupa nos adjectivos sem nunca perder a fulgurância de uma escrita aliciante, a tragédia convivendo com certo humor e a forte ironia passo a passo. A capa do romance é um quadro de Munch, “Separação”. Como o “Grito” do mesmo pintor numa ponte, por entre o que parece ser uma tempestade mortífera. Este também traz a representação da dúvida e da morte, mas ao lado uma mulher vestida de branco caminhando para vida. Todo este simbolismo oferece igualmente ao leitor as mais variadas interpretações do texto que vem dentro. Se um representa a espera da morte, a outra parte, uma mulher caminhando em busca de salvação. As contradições, quero interpretar assim, da nossa própria sociedade.

“Pousado – diz a a narradora sobre a rapariga que investiga os documentos do Caramulo entre as ruínas – no seu colo, o livro da lombada espessa recorda-lhe que a medicina portuguesa, até meados do século vinte, sem recursos farmacológicos para combater a tuberculose, se voltava para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção. O meio nacional parecia invadido por um movimento benéfico em favor da sanidade pública. As grandes questões da higiene individual e social, ventiladas nas escolas e sustentadas na investigação científica, configuravam uma espécie de cruzada de propaganda de princípios salutares, uma fase visível das transformações no modo de vida de uma sociedade que, apesar das peias que a tolhiam, queria muito progredir”.

Citei de propósito este passo positivo de uma sociedade, como todas as sociedades, marcada pelas suas contradições. Antes, durante e depois do salazarismo sabemos que as pequenas elites mais bem colocadas no nosso país nunca se interessaram pela sorte do seu povo. A autora de A Febre das Almas Sensíveis é inteligente e sabedora demais para castigar a sociedade em termos de classe ou mesmo governantes. Retrata apenas um povo deixado quase só à sua sorte, sem juízos ideológicos ou acusações de qualquer outra espécie. Só que sabe que uma classe governante tem apenas duas saídas: ou salvar a maior parte da sua gente ou ficar sem país para governar. Salazar achava que os portugueses eram alegremente pobres até que a doença em massa o ia dizimando pela enésima vez na sua história. A Febre das Almas Sensíveis não é um romance político, sem nunca deixar de projectar o país que fomos e somos. A sua arte não é acusadora, é, isso sim, reveladora de um povo a saque, e só. Mostra tão simplesmente a condição humana, os seus anjos e demónios. Um romance como este limita-se a esse discurso do lamento e choro de uma humanidade no seu sofrimento e eventual salvação. Nos tempos que correm, não podemos pedir mais de uma grande obra literária como esta. É tanto uma história do passado como um aviso ao presente. Vai perdurar nesta sua grandeza.

A autora foi finalista do Prémio Leya com o seu primeiro romance Rio do Esquecimento, e agora com A Febre das Almas Sensíveis. Já venceu vários outros prémios literários no nosso país. Escritora também de contos, doutorada em literatura comparada, lecciona várias artes ligadas naturalmente à literatura e ao cinema. Ler este seu romance foi um dos meus grandes prazeres e privilégios.

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Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, Lisboa, Dom Quixote/LeYa, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Abril 2018.