A literatura nos Açores nos nossos dias

O conceito realiza-se num espaço de grande tradição literária. Isso diferencia-nos. O Arquipélago de Escritores é descendente das tertúlias dos anos 40 no bar Jade e dos Encontros da Maia, realizados entre 1988 e 1991. E parente de todos os encontros que acontecem e aconteceram no espaço açoriano.

Nuno Costa Santos, Director da revista Grotta, recentemente apresentada em Ponta Delgada no seu 3º número anual.

Vamberto Freitas

     Nuno Costa Santos já tinha um nome de autor marcante antes de começar a revista literária Grotta. É o autor de pelo menos dois livros de grande qualidade e pertinência literária tanto no continente como nos Açores: os contos dez regressos, de 2003, e o romance muito mais recente Céu Nublado com Boas Abertas, de 2016. Desde 2016 que dirige com sabedoria e critério literário implacável a revista Grotta, cujo 3º número foi lançado no primeiro grande festival literário nos Açores entre 15 e 18 de Novembro deste ano, por ele dinamizado e organizado, um evento sem precedentes nas ilhas que juntou escritores de todos o países e ainda do estrageiro, inclusive do Brasil e dos Estados Unidos, neste caso romancistas e jornalistas de renome. Não vou falar em nomes porque são muitos e cada um mestre na sua área de escrita. Só um pouco de história destes três números da revista. Parece-se uma The Paris Review (no seu novo formato), a revista mais prestigiada no mundo anglo-saxónico pela sua audácia intelectual: tanto publica os mais conhecidos ou famosos escritores de toda a parte (este 3º número traz, por exemplo, um dossiê de poeta galegos) como lança os mais novos que escrevem em todos os géneros. Cada número da Grotta distingue-se, portanto, pela variedade de géneros, e sobretudo por uma extensa entrevista a romancistas, poetas ou outros artistas da palavra, tanto do nosso arquipélago como do resto país. Dito ainda de outro modo, dá prioridade a escritores e poetas açorianos que fizeram a sua carreira no Continente ou optaram por permanecer aqui neste seu lugar de nascença, ou ainda a escritores clássicos da literatura lusófona. Grotta dá continuidade a um inúmero de revistas pensadas e publicadas cá ou lá fora, desde A Memória da Água-Viva de Urbano Betttencourt e José Henriques Santos Barros à Revista do Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, Boletim do Instituto Cultural da Horta, magma (Pico) a Gávea-Brown (Brown University). Isto só para mencionar algumas das mais influentes publicações para a minha geração.

Nuno Costa Santos pertence à geração literária que nos segue, uns residentes nas ilhas, outros no Continente, e ainda outros na diáspora. O seu conhecimento e vénia às gerações mais velhas é um acto de erudição, cultura e respeito. Sei bem que somos referências suas, sei do respeito que ele e outros dão à continuidade que nos desejam na literatura nos Açores e na nossa luta por uma identidade própria adentro do país português. Este 3º número da Grotta é mais uma prova. Abre com um texto de Emanuel Jorge Botelho, que foi justamente homenageado neste encontro Arquipélago de Escritores, e segue com uma longa entrevista e alguns poemas dele, aliás maravilhosamente traduzidos pela professora da Universidade dos Açores, Kathleen Judith Mundell Calado. A entrevista foi conduzida por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto. As respostas de Emanuel Jorge Botelho são poemas de outra forma. Contido, mestre da palavra certa no lugar certo, emotivo e racional, combina o amor à sua cidade de Ponta Delgada com o seu destino vivido, pensado e sentido. Ler Emanuel a ler-nos a nós próprios, ou então desejar que estas palavras fossem também nossas. Sublime, e nada menos esperava dele numa conversa como esta.

“Não sei – diz o poeta à pergunta sobre o que lhe liga de modo íntimo à sua cidade de nascença e vivência até hoje – o que a diferencia porque o meu não viajar impede-me o elaborar de comparações. O que é bom, convenhamos. As comparações são, como nos diz a sabedoria chinesa, odiosas. Ponta Delgada é o rosto – cheio de feridas e cicatrizes – de cada um dos meus dias, o chão, liso, da minha vida… O encanto de Ponta Delgada está na memória que tenho dela. Porque Ponta Delgada é um nome que soletro com alegria dos regressos… Era uma vez uma cidade que morava no meio do Mar…”

Para ser absolutamente honesto, este número da Grotta tocou-me de modo especial, nomeadamente também por um ensaio maravilhoso da escritora Ângela Almeida sobre a obra de Adelaide Freitas, prosa e poesia. Ver a obra da Adelaide assim reconhecida é para mim mais do que uma alegria – reaviva-me a memória e a saudade, os estados de alma mais profundos e significantes em qualquer ser humano. Ângela escreve com carinho e racionalidade, redefiniu-me muitos aspectos e passos na prosa de com quem convivi durante mais de 27 anos, e li linha a linha os seus livros, que aliás vão ser todos reeditados. Ver um trabalho destes, tão lúcido e esclarecedor foi-me um momento de redescoberta e mais aproximação, se é que isso é possível. Que a revista Grotta a coloca na capa, juntamente com a obra de João de Melo foi ainda mais gratificante. João nasceu na Achadinha quase ao lado da casa da Adelaide, nasceram no mesmo ano, foram colegas de escola, dois andarilhos no mundo e dois escritores. Resisto aqui ao sentimentalismo, mas nunca à saudade e ao respeito pela obra dos dois. João vive em Lisboa, mas está sempre presente, em todos os sentidos, e espero ansiosamente o seu próximo livro.

“O texto de Adelaide Freitas – escreve Ângela Almeida — tem como centro agregador a casa onírica, que, sem dúvida, é um tema muito mais profundo do que casa real. Por isso mesmo, a casa onírica devolve-nos as imagens da intimidade, que se alojam no inconsciente e constituem o universo subtextual simbólico, onde se desnuda a estilística. É neste contexto universal total — the psyche is a conscious unconscious whole – que encontramos a significação completa do texto. Em casa onde tudo é inteiro, a família, a terra, o mar.”

De resto, Nuno Costa Santos, quer, repito, em obra literária própria quer na criação desta revista Grotta já fez história literária entre nós. Vou-me repetir. Vindo desta geração que nos vai seguir e dar continuidade traz-me a mim e a muitos outros um certo sentido de missão cumprida, e ainda mais a gratidão pelo seu trabalho. Nunca a “distância” diluiu a sua açorianidade e o apego à sua tradição intelectual, mesmo que a maior parte do país nunca dê por isso, nem sequer nos tem no seu imaginário criativo, ao contrário de nós, que para além da nossa nação temos todo o mundo lusófono nos nossos pensamentos. Tanto faz. Quem perde são os ignorantes, arrogantes e atrevidos. Que venham cá, preferivelmente em dias de chuva e bruma. E deixem de vez as nossas ruas mais livres e o ambiente limpo, as vozes mais baixas nas nossas esplanadas.

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Grotta/Arquipélago de Escritores, número 3. Direcção de Nuno Costa Santos e coordenação editorial de Diogo Ourique, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições/Nova Gráfica, 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 15 de fevereiro, 2019.

 

 

 

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De contadores de histórias e de sombras na cidade

E, acto contínuo, virou-se de costas, algemou-me as mãos sobre as nádegas e empurrou-me a cabeça para dentro do automóvel, rindo do meu protesto de que era escritor e conduzia uma investigação sobre o pesadelo da droga nos bairros degradados da cidade e precisava de me fingir um deles.

Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história

Vamberto Freitas

     A novela de Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história, fez-me lembrar, nas suas linguagens e imagens, James Baldwin, um dos maiores escritores afro-americanos do século passado, recentemente publicado no nosso país, Se Esta Rua Falasse, um dos seus mais conhecidos romances nos Estados Unidos, If Beale Street Could Talk. Foi o seu humor, foi cada cena inesperada, foi a habilidade de transmitir os sentimentos interiores da sua personagem, um polícia negro numa cidade portuguesa que me impressionou e comoveu na novela de Joel Neto. Uma espécie de bruxo e inventor de histórias. As “mentiras” da própria literatura no seu estado perfeito. A combinação de raiva, o humor e as cenas mais inesperadas numa rua de Lisboa que me levou a esta comparação, e a situação entre negros e brancos faz parte desta minha reacção. São as histórias raramente escritas, mas que transmitem a convivência e, de certo modo, a diferença entre uns e outros. Só que nestas páginas de Joel Neto a cena é virada ao contrário. É agora um polícia negro a seduzir ou a castigar os brancos maioritários à sua volta. Estamos em Lisboa, uma cidade que era conhecida pelos seus não-acontecimentos, e agora enfrentamos uma metrópole na sua crueza e alguma violência. O narrador vira tudo ao contrário – é agora um polícia negro, de nome Norberto, com toda a sua sabedoria de vida e imaginação, que tenta esclarecer as suas possíveis vítimas, ou então os que precisam de histórias alegóricas para melhor estreitar ou perceber as suas vidas. Recorda África e o tempo da guerra colonial, transmite o seu quotidiano já na sua cidade lisboeta. Tanto exerce os ensinamentos da sua vida como, quando necessário, a violência contida de um polícia cuja consciência lhe leva ao perdão ou ao castigo. Coloca-nos numa nova sociedade ainda desconhecida pela maioria dos seus habitantes. Um polícia negro encarregado da autoridade e ordem civilizada – sempre chamado de “preto” aqui – é uma viragem quase radical numa narrativa portuguesa, mesmo nos nossos dias. A ironia, se assim mo permitem chamar, é de uma originalidade pouco comum na nossa literatura. Porventura só um escritor ilhéu ou de referências geográficas e humanas mistas teria esta audácia e visão de todo um país em mutação, que nos deixa sem fôlego e muito menos sem orientação. É isso que deve fazer a literatura: o inesperado e a viragem sem precedentes no nosso modo de estar ou de viver, ou voltar a olhar um espelho que nos traz imagens inesperadas.or e sabedoria levou-me a esta conclusão. Nunca tinha visto nada assim na nossa literatura, a audácia de o narrador se meter na alma de um estranho como esse polícia, ex-guerreiro em África, e agora “autoridade” numa cidade europeia de marginais e suspeitos de toda a ordem. Ao contrário de quase nós todos, não fazia “literatura” de borla. Cada “história”, “parábola” ou “paródia” custava pelo menos 500 escudos

“As pessoas ouviam-no com cuidado, e o número de espectadores continuou a aumentar. Até políticos se sentavam a ouvi-lo, agora. Até padres, até outros polícias. Nós, pelo nosso lado, fomo-nos afastando. Talvez tenhamos ficado um pouco enciumados, não sei. Mas estávamos a crescer, as coisas deste mundo ficavam cada vez mais perto uma das outras, o sotaque africano daquele bófia ia-se tornando um objecto estranho – de repente parecia-nos apenas mau brasileiro, copiado das telenovelas – e toda aquela treta castigadora fazia cada menos sentido para nós.”

Norberto, o polícia negro protagonista desta novela, uma vez mais, tanto conta histórias do seu passado em África como em Lisboa, num tempo de guerra em que ele foi combatente activo, e no seu presente vigilante da criminalidade num bairro marginal de Lisboa. Sente a necessidade primordial de transmitir muito do que viu e viveu, é esse sabedor e bruxo do nosso tempo. Lida ele quase só com jovens transgressores, por vezes acalma-os com as suas palavras, por outras com a violência mínima de um ser humano consciente do sofrimento dos outros. Os rapazes encontrados nas suas patrulhas amam-no e odeio-no ao mesmo tempo, vêem os seus dias e noites coartadas pelo seu próprio meio criminoso meio brincalhão nos seus sítios de mera existência, sem rumo, razão ou futuro. Norberto sabe que tem a autoridade da sua farda e pistola, mas raramente pensa ou utiliza esse seu estatuto. Parece mais um profeta da pós-modernidade com a missão de esclarecer e pacificar por parábolas e missivas uma civilidade que os seus alvos humanos já não entendem. Não há aqui nem grande violência nem amor ou empatia, só a tentativa de tornar a sociedade num espaço mais convivente ou menos odioso. Vigia os seus alvos perturbadores, como estes o vigiam a ele. Essas histórias do polícia não são contínuas, só quando ele acha alguém a transgredir ou prestes a transgredir as merecem. Leva quinhentos escudos por cada uma delas, o que nos delicia com esse acto mais de humor do que ganância. A corrupção aqui nunca chega sequer perto do que vemos e vivemos todos os dias em Portugal e no mundo. Toda a salvação tem o seu preço, sabemos. A ameaça do inferno aqui é dispensável, pois tanto Norberto como todos nós vivemo-la todos os dias. São estas as regras de uma sociedade sem rumo nem deuses condenatórios e muito menos salvadores. É o quotidiano dos que raramente aceitam as regras da sua própria comunidade. Em vez de dó, temos o riso. Tanto uns como outros nem são necessariamente vítimas ou causadores de grandes desgraças, são os filhos e filhas mais ou menos perdidos num outro tipo de selva. Se o protagonista viveu uma guerra com arma ao ombro e no mato, estas outras personagens vivem no pandemónio de uma cidade, divida entre ricos, remediados e pobres. Parafraseando o pensador espanhol Ortega Y Gasset, somos todos, estamos todos, homens e mulheres, a aturar as nossas circunstâncias do modo possível e ao nosso alcance. O polícia fazia a sua vida tanto com autoridade cívica como com a sua civilidade, as suas palavras pacificadoras que nunca sabemos se são verdade ou pura invenção. Ele não imita a literatura, ele é a própria literatura. Nesse seu acto narrativo recria toda uma sociedade. A palavra, aqui, tanto falsifica ou distorce a realidade e a própria História como nos devolve a nossa imagem em espelhos invisíveis mas nos quais nos reconhecemos de imediato.

“E Norberto ia respondendo – contando histórias, inventando desculpas, justificando as maldades dos homens com recurso às suas parábolas de África e da sanzala e da guerra. Quando às oito e cinco nos juntávamos em frente ao muro do Atlético, já uma fila se prolongava rua abaixo, fervilhando de ansiedade. Então o profeta chegava ao seu ponto, pousava o saco do pão e, espreguiçando-se, deixava-se a escutar as queixas do povo.”

Conto ou novela, só tinha saudades de contar uma história, fica à consideração de cada leitor. Cada um destes géneros gémeos são romances abreviados, ou escrita em progresso. Joel Neto já tem uma vasta obra romanesca, e tem a capacidade literária de partir para o género que mais o representa. De quando em quando um grande escritor surpreende os seus leitores, a literatura universal geralmente cultiva todos os géneros, desde o ensaísmo, ficção, dramaturgia e poesia. Nem menciono aqui a escrita-outra. Há escritores entre nós, tanto nas ilhas como no continente, que até fazem das suas breves crónicas arte pura. Em cada caso, raramente é só o seu interiorismo que nos comunicam e nos chega à alma ou consciência – toda uma sociedade está sempre implicitamente presente. Só os artistas da palavra são capazes de nos levarem a outros mundos, muito para além de nomes, datas e acontecimentos colectivos oficializados e das classes dominantes que depressa esquecemos, ou até nos afastam das suas andanças, dizeres e afazeres. Nestas e noutras páginas ficcionais temos o contrário absoluto: a perpetuação da memória e um outro sentido das nossas próprias vidas.

 

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Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história, Lisboa, Cultura Editora, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 8 de Dezembro, 2019.

De memórias, loucuras e esqueletos guardados

Contra todas as expectativas, há uma possibilidade, ainda que remota, de conseguires sair da escuridão, mesmo que, fora de ti, não haja nenhuma luz.

Teolinda Gersão, Atrás da porta e outras histórias

Vamberto Freitas

     Ler estes contos de Teolinda Gersão, “Atrás da porta e outras histórias”, cada um deles é como ler um extenso romance. O conto “Atrás da porta” é um perfeito exemplo da sua mestria. Uma personagem inquieta e perturbada consulta um psiquiatra, quer saber se é ele ou o mundo que está doido ou a perder o juízo em tempos de guerras e loucura por toda a parte. Nessas palavras de “diálogo” contido, o psiquiatra não tem respostas, tal como não se importa minimamente por quem está sentado à sua frente. O nosso mundo actual está aqui representado de modo lapidar, a paródia um perfeito retrato do inferno em que todos vivemos. Sobressaem destas palavras um e outro, os dois extremos do nosso sentido de dor e responsabilidade pessoal e da indiferença de quem poderá ser ou não um médico legítimo ou simplesmente um fraudulento mestre do engano e do desprezo por quem lhe aparece no “consultório”, o psiquiatra sem empatia e muito menos respostas. Em quase toda a escrita da autora, seja ela em qualquer género, conto ou romance, é sempre a ironia e estranheza de sermos vivos-mortos ambulantes (como diria um Tomas Wolfe acerca de certos nova-iorquinos num seus próprios contos, “Only the Dead Know Brooklyn”) e em busca da saída para a sanidade e a decência que se manifestam em certas personagens suas, ou então um quotidiano sem sentido, quase sempre de sofrimento sem queixas, quer seja numa grande cidade como Lisboa ou na mais remota das aldeias escondidas nas serras portuguesas. Solidão e distância perante todos os outros numa pequena ou grande comunidade. De vidas vividas num miserável apartamento na cidade ou numa casa primitiva nos mais escondidos e esquecidos recantos, reencontramos sempre uma humanidade ora carinhosa ou pelo menos pacífica, ou o outro lado raivoso em qualquer um destes contextos da sua vivência. “Sair da escuridão” descreve perfeitamente a temática que nos dá o fio condutor desta prosa repartida e que nos apresenta a totalidade infeliz do mundo contemporâneo em que vivemos, e aonde estes seres reinventados representam e se tornam em símbolos maiores do desespero e da má sorte. Estão eles e elas num estado alienado de tudo que se passa à sua volta ou no resto do mundo. Estamos aqui num tempo ficcional que são os nossos dias. É a angústia de uns e, uma vez mais, o desespero de outros. A obra de Teolinda Gersão não só nos aproxima deste estado de ser e estar como nos coloca no corpo e na alma de cada uma das suas protagonistas. Intercala de conto em conto a voz de narradores masculinos e femininos. Nenhum leitor se poderá afastar em modo identitário de ninguém aqui representado. A grande literatura faz ou permite-nos esta aproximação emotiva ou mesmo meramente artística de uma leitura simultaneamente gentil e forte, sem limites de linguagens ou pudores moralistas das suas e nossas vidas em dias de grande incerteza ou aldrabice do quotidiano do nosso presente e da condição humana no terror da pobreza, violência ou de amores e desamores.

Se coloquei o conto que dá o título ao livro no centro deste meu texto é porque acredito que sintetiza vigorosamente todo o resto da narrativa desta obra. De certo modo, esta escrita de Teolinda Gersão faz-me também lembrar os quadros magistrais de um Edward Hopper, mas ao contrário: Ele iluminava os seus seres imaginados na luz do interior dos quartos enquanto olhavam com expressões de solidão e tristeza o sol ou a luz do exterior, sempre com a descrença no que viam na claridade do lado de fora. Aqui, todos os interiores são de escuridão, sem que nenhuma personagem, do mesmo modo, vislumbre um pouco de esperança ou crença nos dias que se seguirão à sua má sorte ou raiva. Não existem amores sinceros ou verdadeiros, cada vivência em conjunto é uma separação sem futuro. Homens e mulheres raramente se amam, e os seus filhos são deixados num limbo do nada e de ninguém que os proteja. Pobres, bêbados ou simplesmente pequenos comerciantes ou donos de um café rural agem de modo absolutamente desligados do sofrimento interior de quem conhecem ou encontram. Deparamo-nos com cenas que são de puro realismo literário como mágico. Mulheres procuram o amor que nunca acontece, homens esperam pela noite ou fim da tortura diária dos seus empregos ou relacionamentos com os outros. Não se trata aqui de um pessimismo generalizado, tão-só de retratos que nos mostram as nossas vivências possíveis num mundo sem regras nem moralidade alguma. O último conto deste livro, “Dona Branca e os prestidigitadores” é devastador, mais parece uma reportagem da velha e muito conhecida “banqueira” do povo, que acabou na prisão, e agora fala-nos após a morte dos que a usavam, desde os mais pobres a figuras gradas da sociedade, comparando o que fazia com o dinheiro que lhes confiavam e que ela nunca roubava como os bancos oficializados do neo-liberalismo financeiro, ou de quem na verdade nos rouba todos os dias e governam a seu proveito descarado o mundo inteiro. Faz-me lembrar o que um dia disse Philip Roth numa entrevista quando lhe perguntaram como era ainda possível “imaginar” uma história ficcional na nossa época. Ele respondeu que nenhum escritor poderia ultrapassar o ultraje da realidade. A primeira página de qualquer jornal ultrapassava de longe qualquer ficção sobre um mundo em sobressaltos ou surrealista. Na obra de Teolinda Gersão temos um Portugal muito conhecido e escuro, e depois a tal luz que a sua ficção lança sobre nós. Vale por cem livros de História académica ou “oficializada”.

“É esse o problema: como identificar uma coisa que pode ser meramente virtual, um objecto que não é portanto um objecto, que (por enquanto) ainda é desconhecido, diferente de tudo o que cabe nas habituais categorias do entendimento? Poderia dar-lhe nomes, à experiência, mas em nenhum ele se enquadra: luz, vibração, planta, animal, pedra, sombra, máquina, vento, ritmo, conceito. Por vezes (mas tudo é relativo, porque ele muda constantemente de forma), assemelha-se vagamente a uma borboleta ou pássaro, para logo se transformar em folha ou ramo ou árvore e cair apodrecido, parecendo confundir-se com a terra. Mas também essa transformação é ilusória, ou virtual. É talvez apenas isso: movimento, constante mudança, constelação instável de formas: uma amiba luminosa, incandescente, que num momento seguinte é engolida pela sombra e desaparece no escuro.”

De “realidade” e “sombras” é feita a grande literatura. Em Atrás da porta e outras histórias é essa outra transfiguração de um país que bem conhecemos, mas que nos leva a qualquer geografia e à condição em que vivemos. Conhecemos a narrativa escolástica, mas só os grandes escritores entram na alma dos esquecidos, no seu esconderijo, nas suas mentiras, na sua mítica estudada e grafada em documentos que mais dizem sobre a classe dominante e as suas decisões do que de todo um povo em luta pela sua sobrevivência ou alegrias e tristezas. O chamado “universalismo” é também isto: a condição humana em qualquer parte, como aliás confirma toda a distinta literatura do mundo, mudando só de língua, imagística e impulso metafórico de cada artista. Ou seja: traz-nos o resto da verdade, ou se calhar a verdade inteira.

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Teolinda Gersão, Atrás da porta e outras histórias, Lisboa, Porto Editora, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 1 de Fevereiro de 2019.

Os Média Nos Açores E No Mundo

O aparecimento dos novos média e a crise generalizada na imprensa escrita não significam a morte do jornalismo convencional… A potencialidade das novas ferramentas de comunicação pode, pelo contrário, ajudar à imprensa escrita a regenerar-se.

Osvaldo Cabral, Os Açores E Os Novos Média

Vamberto Freitas

     Quando se lê pela primeira vez um primeiro livro de um jornalista-escritor, a primeira reacção é desconfiança, ou, no mínimo, a espera de algo, digamos, de retração. Os Açores E Os Novos Média, de Osvaldo Cabral, quebrou nas primeiras páginas com esse meu preconceito ou leitura distante e pouco interessada. Por entre as inúmeras referências a teóricos regionais, nacionais e internacionais da comunicação social tradicional (escrita, rádio e televisão) e das novas tecnologias, perante os números referentes a tudo que diz respeito à realidade das ilhas até ao resto do mundo, deparamo-nos com uma prosa aliciante e de estilo elegante que nunca acusa (ou melhor, ou mais correctamente dito, só acusa com palavras duras os poderes em Lisboa, dentro e fora da televisão oficial dita nacional, que nunca reconheceram a importância da RTP/Açores como elo de ligação entre as próprias ilhas e o resto país e da nossa diáspora), apenas constata o que entra nas salas ou no nosso ambiente de trabalho todos os dias, nunca deixando o leitor de o ler frase a frase, página e página. Foi o que me aconteceu. Como escrevi noutra parte, ler este livro atentamente é como assistir a um seminário sobre todas estas questões no mundo em que vivemos, ou sobre os mais variados média que nos “assaltam” segundo a segundo. Não vou mencionar todos os nomes nacionais ou internacionais que são referidos nesta prosa e nas quais a ética ou a deontologia são constantes. Só que ele nem se esquece das mais importantes figuras açorianas, quer tenham escrito a partir das ilhas ou feito carreira no Continente. Desde José Lourenço (Director do Diário Insular, em Angra do Heroísmo), Daniel de Sá, Jorge do Nascimento Cabral, Ermelíndo Ávila (entre alguns outros) até a Mário Mesquita, Mário Bettencourt Resendes, dois distintos directores do Diário de Notícias em Lisboa noutros tempos, a José Medeiros Ferreira e José Lopes de Araújo, as suas referências são vastas e históricas, nem os grandes mestres do jornalismo açoriano do século XIX são esquecidos e contextualizados no seu tempo e circunstâncias, muitos dos quais dirigiram brilhantemente alguns dos nossos jornais, e tornaram-se defensores acérrimos da nossa autonomia política já no seu tempo. Só todos estes chamamentos ao passado que têm como fim a análise simultaneamente crítica e solidária ao que se passa nos nossos dias. Osvaldo Cabral tem uma das mais longas e profícuas carreiras no nosso jornalismo, desde os anos 80 no Correio dos Açores a jornalista e eventual Director da RTP/Açores e ainda a Director Executivo actual do histórico Diário dos Açores, como aliás já foi referido numa das minhas citações aqui. Tem sido uma longa viagem, e os seus conhecimentos não têm par, nem sequer na nossa universidade ou noutras mais longe. Mais do que isso, esta é uma história brilhante da imprensa escrita no nosso arquipélago até aos dias dos computadores, iPhones e outros brinquedos vistos por toda a parte e através dos quais famílias inteiras prescindem da conversa cara a cara para “comunicarem” ao longe, sejam eles amigos ou estranhos.

Creio que nada de igual entre nós sequer se assemelhe à temática que predomina e guia toda a prosa do autor em Os Açores E Os Novos Media. Tal como indica o próprio título, Osvaldo Cabral faz uma análise profunda da influência e consequências das novas tecnologias no jornalismo tradicional. Se nalguns casos olha para tudo com um espírito céptico e crítico pelo modo como esses aparelhos distorcem essa comunicação do grande público mais sério e pensador, na sua ânsia de velocidade e novidade, inclusive a televisão), a verdadeira notícia, por outro lado não acredita que a comunicação social em papel vá desaparecer, se bem que a sua influência está cada vez mais diluída, levando até o Presidente americano a falar em fake news ou factos alternativos quando não gosta do que ouve ou vê. A resistência ao imediatismo acéfalo vai continuar, mesmo que só entre uma elite responsável pelo equilíbrio e integridade das instituições. Dito de outro modo, Os Açores E Os Novos Media traça o longo percurso do jornalismo credível nas nossas ilhas, só que com um afincado aviso à navegação tanto nas ilhas maiores como nas mais pequenas. Nenhum deles têm de acabar com as edições em papel, mas terão de migrar para outros meios de transmissão imediata e sempre actualizada. O resto fica com a consciência e a capacidade profissional de cada um: dizer a verdade e dar lugar à opinião, como diria um antigo professor meu na Califórnia, “informada”. O autor pede ainda mais o alargamento ou alcance dos média nos Açores, e disso falarei um pouco mais adiante. Tem palavras duras para os que hoje em dia dependem de gabinetes oficiais que disseminam as versões políticas e outras dos poderes as vários níveis, ou as de organizações especializadas em relações públicas.

“O saudoso sociólogo – escreve a dada altura Osvaldo Cabral no capítulo ‘Jornalismo e Cidadania’ – e professor Paquete de Oliveira, que estudou estes fenómenos, já alertara para o facto de, neste século, o poder de informar, tal como o próprio poder político, é, na actual sociedade complexa, um poder diluído. Os centros do poder estão disseminados e cada um com os meios de fazer passar a informação. A máquina da informação reorganizou-se profissionalmente. Há agências, há novas técnicas refinadas, há os famosos ‘spin doctors’, profissionalmente encarregados de fazer a mensagem funcionar no espaço público. E, por isso, mal estaria o governo, ou o partido, o movimento, a empresa que não se organizassem dentro deste esquema. Parece-me que muitos jornalistas, fechadas no modelo da sobrevalorização da missão e também com forte carga corporativistas, ainda nem deram conta da ‘nova ordem comunicacional’’’.

Vou ter de me repetir. Não há livro nenhum nos Açores que se aproxime a este na sua expansividade, profundidade de análise e, especialmente, quanto à informação concreta sobre a história jornalística que nos fez chegar aqui, e números que de ilha em ilha nos vão explicando toda a problemática dos média nos Açores de hoje. Parte das ilhas para o resto do país e para o mundo, mas sempre, sempre, com os Açores no centro da sua investigação pormenorizada e contextualizada. Ler o jargão académico é quase sempre doloroso. Ler quem conhece por dentro toda a problemática, depois de uma vida inteira ao seu serviço e ainda no activo, é outra experiência. Depois, saber escrever em linguagem clara, escorreita e precisa é outra. É isto que temos nas páginas preciosas de Os Açores E Os Novos Média. Osvaldo Cabral, com este seu livro, não presta só um enorme contributo aos seus colegas nas ilhas e noutras partes. Oferece ao leitor açoriano que se quer minimamente informado um precioso ponto de partida para o nosso pensamento, e, sim, para o modo como passaremos a ouvir, ver ou ler tanto a nossa própria imprensa como a de qualquer outra parte.

Nada menos eu esperava de um jornalista como Osvaldo Cabral, mas superou todas as minhas expectativas. O seu livro vem com um prefácio um tanto humilde de Onésimo T. Almeida. Esse facto não impede que o grande estudioso e intelectual da Brown University nos coloque num determinado rumo de leitura que só nos enriquece e esclarece ainda mais. Finalmente, para o Osvaldo Cabral, sei que li de um jornalista americano (cujo livro agora não encontro na minha exagerada colecção) no seu próprio fim de carreira a mais lapidar de todas as frases: “Sei que o meu maior prémio foi terminar a minha carreira com a minha credibilidade intacta”.

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Osvaldo Cabral, Os Açores E Os Novos Média, Ponta Delgada, Gráfica Açoreana, Lda, 2018. Publicado hoje no Açoriano Oriental, 11 de Dezembro de 2019.

 

 

De Jonathan Franzen e dos seus pássaros

As codornizes são o único alvo permissível dos caçadores com redes de neblina, mas vêm sempre por acréscimo aves pequenas e os falcões que as perseguem.

Jonathan Franzen,

O fim do fim da terra

Vamberto Freitas

     Já li boa parte da ficção de Jonathan Franzen, e todos os seus romances são de mestre. Aliás, a capa da revista Time nem o projetou nem o pronunciou sem mais nem nemos “O melhor romancista americano”. Estou a ler o seu livro de ensaios mais recente, que vai aí na minha epígrafe. De pássaros não percebo nada de nada, a não ser dos melros pretos que apareciam nas árvores da minha casa nas Fontinhas. Pareciam-me então uns inimigos, mas Franzen acha que as mudanças climáticas estão a acabar com todos os outros, e mais alguns ainda desconhecidos. Tenho muita pena, e tudo isto pode e deve ser visto e entendido como uma metáfora da morte do nosso planeta inteiro. Só que as mudanças climáticas estão também a acabar com muitos seres humanos. Viver em Santa Cruz é um privilégio muito grande, rodeado de Silicon Valley e de açorianos (já agora) por todos os lados? A morte das aves são uma metáfora de um mundo “no fim”? O grande autor anda por toda a parte a fotografar os mais escondidos ou longínquos recantos em inúmeros países. Se andasse a fotografar quem dorme nas ruas, nos passeios e nas entradas de lojas de luxo, quem passa fome na noite e no dia não seria mais apropriado a um grande humanista deixando os cientistas perseguir e insistir nas mudanças radicais que todos precisamos? Franzen anda pela a América Latina, pela de África, e até por certa Europa meio esquecida, meio marginalizada, meio discriminada pela “outra” Europa mais a oeste e supostamente mais próspera e com maior segurança social. Os melros desaparecem? Os seres humanos também, repito. O “fim da terra” envolve todos nós, querido autor. Sei que algo mais te justifica. Vamos falar disso. Quando escreves sobre as comunidades na América Central e os seus esforços comunitários para salvar a vida “selvagem”, que voa ou caminha em seu redor, e a sua própria vivência saudável, sei que falas em nome de nós todos. As acções humanitárias de certas comunidades nativo-americanas no Peru são de uma sensibilidade admirável quando se aborda os seus esforços no cultivo da terra, na protecção activa da vida-animal no seu habitat natural, no modo como seleccionam o que se planta e se come, as sementeiras sempre em consonância com o seu meio ambiente, quase sempre acidentado em montanhas e rochas agrestes. Da América Latina só se fala de violência e corrupção. Raramente ouvimos ou vemos esta gente digna na luta pela sua vida, pela vida de nós todos.

“Quanto mais vou envelhecendo, mais me convenço – escreve Jonathan Franzen — de que a oeuvre de um escritor de ficção é um espelho do seu carácter. Talvez seja por um defeito do meu próprio carácter que os meus gostos literários estão tão profundamente ligados às minhas reações, como pessoa, à pessoa do autor – que continuo a não gostar do jovem Steinbeck sobranceiro que escreveu Tortilla Flat enquanto gosto muito do Steinbeck mais tardio que lutou contra a entropia pessoal e da carreira e produziu East of Eden/A Leste do Paraíso, e tracei o equivalente a uma distinção moral entre os dois. Mas a tenho a impressão de que a simpatia, seja pelo escritor ou pelas suas personagens ficcionais, uma obra de ficção tem uma enorme dificuldade em ser relevante”.

Que Franzen menciona aqui proeminentemente uma pequena parte da obra de John Steinbeck, incluindo o seu pequeno romance Tortilla Flat, talvez o mais “anti-português” de toda a sua escrita. Trata-se de um romance de marginais alcoólicos, e o pior dos piores eram de descendência lusa, e a personagem feminina também de nome português a mais prostituta de todas as prostitutas. Já nas As Vinhas da Ira/The Grapes of Wrath aparecem passos pouco agradáveis para nós, mas nunca deixei de o ler ou admirar. Poderá ser que nos 20 e 30 Steinbeck era mais contra o “extermínio” do povo trabalhador americano, e a consciência ambientalista ainda estava longe, pelo menos perante a maioria dos cidadãos. O Professor Emérito George Monteiro (Brown University) bem tentou saber a origem destas hostilidades, mas sem sucesso. A minha teoria é bem mais simples. Já na altura os açorianos controlavam boa parte da agricultura e indústria lacticínia, e Steinbeck era um homem de esquerda, o que lhe provocaria atitudes de contestação aos “patrões”. Vivia em Salinas, uma cidade rural e rodeada de açorianos e luso-descendentes, perto de Monterey, que serviu de fundo geográfico e humano à maior parte da sua obra. Seja como for, estou em acordo absoluto com Jonathan Franzen. Só na maturidade Steinbeck corrigiria o seu rumo e porventura preconceitos. É do fim do mundo, tal como o conhecemos, que se trata aqui, e não da nossa gente, essa que ajudaria a Califórnia a tornar-se no século XX um dos estados mais ricos da nação mais rica do mundo, nas palavras de outros.

O fim do fim da terra, uma vez mais, é um livro de ensaios, e se não me engano o que segue durante largos anos os ensaios de How To Be Alone (2002). O presente volume tem como início o emblemático “O ensaio em tempos negros”, seguindo com outros inevitavelmente de um grande escritor, como “Dez regras para o romancista”, e termina exactamente com “Xing Ped”. Diga-se que o maior castigo no que toca a temas ambientalistas vai naturalmente para o seu próprio país: “Na América, a cada minuto que passa, deitam-se fora trinta mil copos de papel. Muito longe daqui, noutro continente, a floresta tropical atlântica do Brasil é devastada para dar lugar a gigantescas plantações de eucalipto que abastassem o mundo da pasta de papel, mas isso passa-se muito para lá do capô do nosso veículo”. Nada como a ironia fina de um escritor a denunciar o que lhe dá vida, fama e dinheiro – os livros. É a sua credibilidade que nunca fica em causa nestas páginas aliciantes. Não será só “o maior escritor americano” da sua geração. É sobretudo o mais consciente e solidário.

Jonathan Franzen tem ainda quatro romances superiores, todos na minha estante principal: The Twenthy-Seventh City (1988), The Corrections (2001), Freedom (2010) e Purity (2015). Já foi biografado recentemente por Philip Weinstein, Jonathan Franzen: The Comedy Of Rage (2015).

Última observação para um fotógrafo de pássaros mundiais como Jonathan Franzen. Segundo toda a informação mais ou menos científica existe na ilha de São Miguel uma ave rara, de nome “priolo”. Segundo alguns, está em extinção, mas ninguém concorda com números, alguns especialistas dizem que já existem menos de mil exemplares. Voa só numa parte da ilha, no Pico da Vara (Nordeste da Ilha) parte do ano. Sugestão ao grande autor: e uma visita aos Açores para viver esses momentos únicos. Prometemos não o aborrecer com literatura. Se uma sessão dessa natureza for possível, entretanto, muito melhor. Ele vive, volto a recordar, numa parte do estado da Califórnia rodeado de açorianos e seus descendentes. Fale com eles sobre tudo isto. Seria um grande momento a sua presença entre nós. Poderia até sair daqui com um sorriso pela natureza exuberante e limpa que temos.

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Jonathan Franzen, O fim do fim da terra (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental a 4 de Janeiro, 2019.

 

 

 

 

 

Amos OZ: sobre guerra e paz em Israel e na Palestina

Tenho muito medo do futuro. Tenho medo da política do governo e envergonho-me dela. Tenho medo do fanatismo e da violência crescente entre nós, e também me envergonho dela. Mas gosto de viver em Israel. Gosto de ser cidadão de um país que tem oito milhões e meio de profetas, e oito milhões e meio de messias.

Amos OZ, Caros Fanáticos: Fé, fanatismo e convivência no século XXI

Vamberto Freitas

Bem sei que a epígrafe de acima é um pouco longa, mas estas estas palavras vindas de quem vêm não podiam deixar de abrir este meu texto. Amos OZ é um dos mais famosos romancistas e jornalistas israelitas, premiado ao longo da sua carreira nos mais diversos países por inúmeros romances, muitos dos quais traduzidos entre nós, desde A Caixa Negra, Uma História de Amor e Trevas, Judas, entre muitos outros. Nascido em Jerusalém em 1938, como adolescente, diz ele num destes seus ensaios, atirava pedras à polícia britânica que patrulhava as suas ruas antes da independência em 1948, mas isso antes de fazer amizade com um desses polícias que sabia mais do Antigo Testamento do que ele, e queria muito o regresso dos judeus à sua terra histórica e sagrada. Este seu recente livro contém três ensaios (“Caros Fanáticos”, “Luzes e não uma única luz” e “Sonhos de que Israel se deve libertar rapidamente”) que são de uma clareza fulminante – e de maior castigo não para com os palestinianos, mas sim para com os seus concidadãos após a Guerra Dos Seis Dias, a condenação do poder em Tel Aviv, assim como contra os que ele denomina de fanáticos ortodoxos, desde certos políticos aos colonos israelitas na Cisjordânia, e que ele advogada a sua retirada imediata juntamente com um diálogo persistente com os seus vizinhos muçulmanos. Aqui a nossa humanidade não tem cor, raça, etnia ou crenças religiosas. Tem o dever da convivência pacífica e justa entre todos. Reclama parte do território antes da Guerra dos Seis Dias como sendo território histórico – não só bíblico – dos judeus, mas tudo o resto, segundo o autor, deve ser feito pela paz, até por uma possível confederação entre os dois estados, que ele defende sem quaisquer reticências ou medo. O contrário será a tragédia absoluta, e quem vai perder novamente, afirma de novo o autor, serão os judeus. Sempre que enfrentaram grandes potências, relembra-nos, foram eles que perderam decididamente, desde a Babilónia até aos romanos, já sem falar no Holocausto europeu do século XX. Não se trata, nestas suas palavras brilhantes, de culpas ou acusações, antes que retomemos todos o melhor em nós sem que ninguém seja subjugado ou martirizado, como estão sendo os seus vizinhos na Palestina. Viver num mundo em caos, como vivemos, ler estas vozes é um sopro de saúde e sanidade. Amos OZ, na sua profunda humanidade e inteligência, mesmo indirectamente, não fala só do Médio Oriente, fala de nós todos, fala da decência que nos falta, fala da injustiça que graça no mundo inteiro. Não abdica da sua ideologia do esquerdismo moderado nem do seu judaísmo, mesmo que mais laico do que praticante, como não abdica na sua insistência que só o diálogo e a convivência pacífica será a nossa única salvação.

Antes de mais, uma pausa. Li há poucos tempos o romance de Amos OZ, Judas, e pouco mais tarde Horse Walks Into a Bar do grande e também muito premiado israelita David Grossman. Já há alguns anos li (em inglês) o longo ensaio deste autor intitulado The Yellow Wind (1988), em que ele tinha visitado as comunidades palestinianas sitiadas e dava conta do que viu e ouviu, nos termos mais humanistas e compreensíveis do sofrimento dos outros, dos “apátridas” em agonia. Não se trata, nestas palavras brilhantes destes dois autores, de culpas ou acusações, antes de uma espécie de apelo para que todos vivam o melhor em nós, sem que ninguém seja subjugado ou martirizado, como estão sendo os seus vizinhos na Palestina, e mesmo alguns judeus do Estado de Israel. Viver num mundo em caos, como vivemos, ler estas vozes, uma vez mais, é um sopro de saúde e sanidade. Amos OZ, na sua profunda humanidade e inteligência, não fala só do Médio Oriente, fala de nós todos, fala da decência que nos falta, fala da injustiça que graça no mundo inteiro. Não abdica, repita-se, da sua ideologia de esquerdismo moderado nem do seu judaísmo, mesmo que mais laico do que praticante, como não abdica na sua insistência que só o diálogo e a convivência pacífica será a nossa única salvação possível. Amos OZ desmonta praticamente não só todos os argumentos do Poder no seu país, como desmonta o fanatismo de todos os outros que insistem numa suposta Grande Israel. Escreve ainda com mais coragem quando diz que certos “direitos” têm de ser esquecidos. Prefere estar vivo antes de ser judeu, e se ele, os seus filhos e netos assim como todos os seus conterrâneos nacionais não poderão rezar no Monte do Templo, pois que assim seja. Avisa ainda, e relembra, que desde a fundação o seu país sempre dependeu da protecção de uma grande potência, tenha sido ela a Inglaterra, a França e até, por algum tempo curto, a União Soviética de Estaline. A crença de que os Estados Unidos serão sempre um aliado eterno, afirma ele, é um erro. A política internacional é mutável, e ninguém sabe o que poderá acontecer amanhã na América do Norte em relação a Israel. O autor pede dois estados lado a lado, dando tempo aos palestinianos de se habituarem á “normalidade”. O futuro pode guardar uma federação económica e política, a paz sem muros nem ódios irracionais. Ler estas e outras vozes daquele país é termos a esperança que neste momento todos negam. Faz um aviso muito contundente: ou dois estados, ou só um, e esse inevitavelmente seria árabe. Mais de duzentos milhões de “inimigos”, ricos e alguns armados com armas nucleares não nos deixam qualquer esperança de uma vitória de um pequeno e vulnerável país. Amos OZ não quer viver como minoria subjugada, prefere fronteiras reduzidas às suas dimensões possíveis, um Estado luminoso, e pelos outros aceitável mas seguro e normalizado.

“O facto de os Estados Unidos serem nossos aliados é algo transitório. Pode mudar. Mas o facto de que os palestinianos são os nossos vizinhos e de que nós vivemos no centro do mundo árabe e muçulmano – são dois elementos permanentes da nossa situação. O próprio perigo nuclear do Irão é um factor transitório, e não permanente porque mesmo se nós ou outros bombardeemos o seu arsenal nuclear, não seremos capazes de bombardear o conhecimento que eles detêm. E mais: o Paquistão nuclear pode tornar-se um estado islâmico mais extremista ainda do que o Irão. E mais ainda: não é possível impedir que os inimigos ricos de Israel comprem armas nucleares à venda e as lancem contra nós. Daqui a poucos anos quem quiser armas de destruição maciça poderá adquiri-las. Nesta questão também é obrigatório aprender a distinguir entre o transitório e o permanente. Permanente tem de ser a capacidade de dissuasão de Israel, enquanto as capacidades dos nossos inimigos, a nuclear e outras, são algo transitório, que no final de contas não depende de nós.”

Não, não sou nem historiador nem cientista político. Só que um grande escritor como Amos OZ sente a obrigação de comunicar com os líderes do seu país, e eu sinto a obrigação de o ler, de com ele, e outros, aprender o que pensam e como vivem todos os nossos dias. Ser cidadão de Israel deve ser viver sempre na iminência de outra guerra, no acto terrorista e mortífero de um lado e do outro, e no desgosto absoluto de ver o seu país oprimir um outro povo. Por certo que o Holocausto da Europa selvagem tem tudo isto como génese e como tragédia. O grande autor mundial não culpa ninguém aqui, a não ser os seus próprios conterrâneos, sente o direito de viver em paz na sua pequena terra, de dar um futuro seguro aos seus filhos e netos, e a todos os outros, e de permitir aos seus vizinhos que tenham a mesma vida digna, sem sofrimento nem morte. Só os grandes artistas entram na nossa alma, vão para além dos números, das figuras e acontecimentos tantas vezes mais imaginados do que verdadeiros, sempre sob uma capa supostamente académica, que depressa esquecemos. Tornam-nos um pouco mais sensíveis a nós próprios e aos outros. Um ensaio de um grande escritor é mais do que um relato de “factos” — é entrar no mais profundo do nosso ser.

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Amos OZ, Caros Fanáticos: Fé, fanatismo e convivência no século XXI, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2018.

Natal da minha infância nas Fontinhas

Vamberto Freitas

     Primeiro era a Árvore do Natal que o meu pai ia buscar à serra ou aos pomares mais pertos. Depois vinha o musgo, e uma casa construída nos anos 40 tomava logo outro cheiro de frescura e alegria. Era o cheiro de Deus e da Alegria. Era ver a minha mãe e irmã a condecorá-la com as coisas mais estranhas, desde chocolates a figuras americanizadas. A meados dos anos 50 não havia luzes nem para a árvore nem para mais nada. Assim mesmo, olhávamos a sala como se fosse um milagre vindo de longe, com a maior alegria dentro de nós. Os Açores desses tempos eram muito escuros e tristes. Vinha a iluminação espiritual para os crentes. Não eram só as prendas da Noite de Natal, era a noite inteira até à Missa do Galo à meia noite numa pequena e linda Igreja a meio da freguesia. A espera das prendas era só para a manhã seguinte. Antes disso, a nossa mãe vestiam-nos e deixavam-nos ir ter com os amigos até à Casa da Música (na altura rival da Sociedade União Fontinhas, a que pertencia toda a minha família, que haveria de ajudar a erguê-la em 1952) onde nada bebíamos, só a convivência com os mais velhos, que esses, sim, se encharcavam e brincavam connosco. A meia-noite era a hora mágica. Alguns deles ainda são meus queridos amigos, na sua idade e na minha freguesia, que lembro como quem relembra um paraíso escondido numa ilha a meio mar. De repente, diziam que os meus pais chamavam e era hora de ir para Igreja. Ouvíamos todo o sermão do Padre, que hoje me parece ter saído sempre do Velho e Novo Testamento, com todas as metáforas do céu e a imagística do inferno. Tenho saudades dessa retórica ao mesmo tempo aterrorizante e de esperança, o sacerdote vestido de preto e toda a Igreja meio escurecida, com todos os santos iluminados no Altar. A madrugada era sempre celeste, na companhia dos que nos amavam e estimavam. Não eram, pois, as prendas necessariamente o que mais nos comoviam, eram esses momentos de convívio, o poder ficar acordados toda a noite imitando os adultos que saiam da Igreja e continuavam as suas conversas e a consoada noite dentro. Não acredito em magia vinda de lado algum – está em nós e no modo como esse dia nos era incutido no coração ou na alma. Por certo que o nascer do sol era também a hora da outra grande alegria e expectativa. Abrir as nossas prendas que o Pai Natal havia deixado enquanto olhávamos para outro lado era o momento dos risos e sorrisos. Continham quase todas as coisas práticas e essenciais ao dia-a-dia, desde roupa interior a uma camisa ou calças novas.

Antes de tudo isto encher-nos de alegria, havia algo mais de especial e espera ansiosa. Era quando chegavam à escola primária da Ladeira da Pena as carrinhas americanas vindas da Base das Lajes, e essa espera tornava-se quase desesperada. Cada aluno sentado no maior silêncio e respeito recebia uma pequena caixinha com tudo o que necessitávamos para as aulas: lápis, esferográficas (para nós então naqueles anos de miséria nacional eram um autêntico luxo), apagadores e berlindes. O resto do dia era feito de “negociações” entre uns e outros quando recebíamos algo menos desejado e o outro tinha exactamente o que queríamos. Cheirava à América, e os nossos doadores falando uma língua estranha sabiam disso. People to People. Sei que muita esquerda ainda hoje condena essa memória. Eu, não. Vivi sempre ao lado da América, desde esses anos na Ilha Terceira até à Califórnia dos meus tempos já de adulto e com formação académica. Mesmo na minha idade de hoje ainda recordo tudo isto com o maior carinho e gratidão, nunca esquecerei ou deixarei ver ou imaginar esses dias de alegria e generosidade. Sim, essas prendas dos meus pais e dos americanos como um gesto de amor. Há ainda quem diga que quanto a estes últimos, não se tratava de outra coisa senão de “propaganda”. Poderá ter sido, mas comigo o cinismo sempre teve os seus limites. Obrigado pelos momentos de pura surpresa e mão estendida a todos nós. Não me lembro se era no Natal ou noutra quadra qualquer. Também nos vinham distribuir um queijo inteiro no terreiro da Igreja, amarelo e manteiguento, que hoje consideraria “rafeiro”. Mas era da América e cheirava diferente, como sempre e contra a tal escuridão do dia e da noite. Muito melhor do que a miséria do nosso queijo, colocado em balcões ao serviço das moscas, enquanto os mais velhos se sentavam sem pudor nas então chamadas “vendas” em cima das sacas de farinha enquanto falavam mal uns dos outros. O nosso Natal era isto, enquanto sonhávamos com uma América ao longe, e que nos chegava dos modos mais variantes e agradáveis, até nas malas cheias de roupas que nenhuma loja teria, ou que os nossos pais pudessem comprar. Ainda hoje penso que a maioria das crianças portuguesas agradeceria esta generosidade – ou “propaganda”. Estávamos então numa terra completamente esquecida e discriminada, mesmo que disso não tivéssemos a mínima consciência. “Na memória da gente do Pico [o mesmo que dizer da Terceira, mais ou menos, ou de qualquer outra ilha nossa], escreve Natália Correia no prefácio ao livro de contos do falecido Manuel Ferreira Duarte, A Banda Nova E Outras Histórias – mantém vivo o ressentimento de no ano da fome a farinha ter chegado da América. Porque de Lisboa só vinham editais”.

 

Não saberia, nos tempos que correm, o que dar a uma criança que já nasce com um telemóvel na mão, ou uma televisão cheia de porcaria violenta. Estou em crer que eles ou elas nunca viverão tamanhos dias ou tamanha felicidade e inocência.

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De Trump e de tempos assustadores

Nessa esgrima política, as evasivas, os desmentidos, os tweets, a opacidade, os clamores das fake news, a indignação, Trump tinha um problema capital que [John] Dowd conhecia, mas que nunca se atrevia a dizer na cara do presidente: ‘É um cabrão de um mentiroso’.

Bob Woodward, Medo: Trump na Casa Branca

Vamberto Freitas

     Estas são as palavras do prestigiado advogado John Dow, que a dada altura em 2017 torna-se o representante legalista de Donald Trump perante a Comissão de Robert Muller, que havia antes sido o Director do FBI e agora dirigia o Conselho Especial que investigava e investiga um possível conclui entre a Rússia e a campanha presidencial de Donald Trump, alargando logo depois para outros actos de possível corrupção de dinheiros pagos indevidamente a várias entidades, inclusive a mulheres com as quais o Presidente tinha tido casos, e os seus colaboradores pagavam-lhes agora para manter o seu silêncio. Ainda há poucos dias a grande imprensa do país dizia que Trump bem poderia vir a ser o primeiro presidente americano a acabar numa prisão por estas e outras acções. Quero deixar claro aqui que neste meu texto não vou tirar partido pró ou contra os poderes e andanças na Casa Branca, antes cingir-me a esta que é uma fabulosa narrativa do jornalista que, em parceria com Carl Bernstein, havia derrubado o Richard Nixon com a série de imparáveis reportagens sobre Watergate (mais tarde resumidas no livro que guardo na minha estante desde sempre) All The President’s Men (1974), e que acabaria com uma acção de impeachment, e eventualmente um perdão do seu sucessor Gerald Ford. Quase todos conhecem as peripécias destes últimos anos em Washington, por isso abstenho-me de repetir mesmo seja o que for, a não ser para me focar na qualidade profunda desta investigação jornalística e de uma prosa que mesmo em Português é empolgante a vários níveis, colocando o leitor em todos os bastidores desde os primeiros dias da eleição do actual presidente. Woodward gravou a maior parte das entrevistas que fez a colaboradores de Trump, ou então fundamentou a sua escrita no que ia saindo em várias publicações de referência no seu país. O resultado é uma narrativa de fôlego que agarra o leitor na sua atenção e espanto pelo que lê e vê citado. John Dow deixa de representar Trump quando este nem lhe segue os conselhos, e depois insiste em ser interrogado por um possível e ameaçador Grand Jury. O advogado dir-lhe-ia que ele seria uma testemunha péssima, e possivelmente se incriminaria a si próprio perante as mais astutas perguntas. Não queria estar sentado ao seu lado, e parecer um advogado que nunca foi: incompetente ou colocando o seu prestígio em causa. “Senhor Presidente – diz-lhe em março de 2018, segundo Bob Woodward – não posso, como advogado, como membro do tribunal, sentar-me a seu lado e deixá-lo responder a estas perguntas, quando sei que o senhor não conseguirá fazê-lo”. Fica assim tudo dito.

Queria aqui concentrar-me na qualidade da investigação e prosa jornalística de Bob Woodward. Em toda sua longa carreira no Washington Post foi um jornalista de investigações extensivas sobre vários presidentes do seu país, assim como de acontecimentos bélicos de grande alcance e o papel central dos EUA na condução da política ocidental. Até hoje, nunca foi condenado num tribunal por falsidades ou afirmações menos documentadas. Uma carreira brilhante como esta é pouco comum em qualquer parte. Provavelmente só o outro grande jornal americano, The New York Times, pode reivindicar uma história semelhante. O que mais sobressai deste Trump Na Casa Branca é a solidez das instituições nacionais, os guardiões da mais antiga democracia no mundo. A palavra “Medo” do título deste livro refere-se mais à resistência dentro da própria Casa Branca do que a um estado psiquiátrico da nação. Mostra-nos sobretudo como os assessores e outras figuras na Casa Branca resistem diariamente aos mais perigosos instintos de Trump em tudo que se refere à política doméstica, às responsabilidades mundiais de uma superpotência, e muito especialmente à segurança nacional e a de todos os aliados do país, que vão de um ponto do globo ao outro. Até documentos já elaborados, mas ainda não assinados, são surripiados da sua secretária na Sala Oval a chamadas ao Pentágono para reuniões extraordinárias, em que o Estado Maior (Chiefs of Staff) questiona e dá sugestões do que prejudica a América ou se pode tornar perigoso para o mundo. A da altura, numa reunião que Trump resiste até ao fim, fazem-lhe saber que hostilidades com a Coreia do Sul, devido a défices comerciais aos mais de 28 mil soldados na fronteira com a Coreia do Norte poderia significar uma catástrofe mundial. Explicam-lhe que têm toda a evidência que a Coreia do Norte já detém mísseis intercontinentais que lançados do seu país atingiriam Los Angeles em 18 minutos. Depois falam-lhe da necessidade da lealdade dos serviços secretos sul-coreanos, que podem detectar um disparo fatal contra o continente americano, só que em sete segundos o Pentágono seria avisado e teria tempo de ordenar uma intercepção no espaço. “Tudo tretas”, responde o homem mais poderoso do mundo. Tem passos que são de arrepiar, tem passos de total loucura, tem passos de humor pela estupidez do presidente, como tem passos, repito, que nos dão a segurança da racionalidade dos mais conservadores generais e políticos à sua volta. Até Steve Bannon, que depressa foi expulso dos corredores do Poder, nos parece racional, por mais que detestemos as suas posições, mas mostra ser o único com ideias contra as quais outros se podem opor ou atirar.

Nunca pensei que um dia escreveria isto. Obrigado ao Pentágono (Estado Maior), na sua maioria de Generais conservadores e “donos” das guerras em toda a parte, obrigado ao FBI e obrigado à CIA e a todos que na Casa Branca subvertem diariamente a maior parte das loucuras de Donald Trump. O livro de Bob Woodward tranquiliza-me como cidadão americano. Não vai ser fácil conter uma criatura como esta. Estão a conseguir até hoje. Existe um “golpe de estado” por dia dentro da Casa Branca, graças aos deuses e às instituições sólidas dos EUA.

“Dowd tenta [o seu advogado principal, como aqui já foi dito] maquilhar – na sua defesa de Trump perante a Comissão Robert Mueller – a situação o melhor possível, para não dizer que a culpa era do presidente. Era um fardo do cargo de presidente. Sabia que não podia ser insultuoso nesta discussão. Não podia dizer o que sabia ser verdade. Você é um cabrão de um mentiroso. O problema era esse”. A lista dos que entraram e depois saíram da Casa Branca é longa demais para ser elaborada aqui, mas é para esse tipo de informação que existe este livro.

Leio Bob Woodward desde os meus tempos de faculdade na Califórnia. Não tenho todos os seus livros, mas tenho alguns de primeira linha: The Final Days (sobre a queda de Richard Nixon, escrito com Carl Bernstein, e Veil: The Secret Wars of the CIA 1981-1987. A sua bibliografia é bem mais longa. Só que estes são mais do que suficientes para acreditar na sua incomparável credibilidade jornalística e como escritor de primeira categoria.

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Bob Woodward, Medo: Trump na Casa Branca (tradução Grupo LeYa), Lisboa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental, 21 de Dezembro, 2018.

 

De nós, do nosso tempo e da nossa solidão

Não renuncies à rota deste alfabeto/agora que migro para sul/deixo o delírio da fala/talvez o inverno da voz/e o estilhaço do cristal/nas sílabas apáticas e surdas/duma palavra moribunda

Ângela de Almeida, Caligrafia dos pássaros

Vamberto Freitas

     Que a obra literária de Ângela de Almeida vem de longe, todos sabemos, prosa ficcional e poesia, mas também em breve a sua tese de doutoramento sobre literatura portuguesa com Natália Correia em destaque, A Simbólica da ilha e do Pentecostalismo em Natália Correia, a autora que ela devolveu aos Açores de vários modos e da mais variada escrita. Falarei desses livros um puco mais adiante, mas só depois de falar desta sua poesia recentemente lançada sob o título de Caligrafia dos pássaros. Ângela esteve longe de nós durante uns bons anos, mas sem nunca deixar de trabalhar caladamente e fora dos circuitos habituais da divulgação literária aqui nos Açores e no Continente. Depois de uma vida pública fulgurante, mesmo na política cultural da nossa região, o seu esconderijo voluntário e desejado silêncio no seu trabalho foi um mistério para muitos de nós dada a sua dedicação e competência em tudo o que fez pelos outros. Está de regresso, bem sabemos, e não só na escrita. Ainda há poucos dias organizou no Centro Natália Correia, na Fajã de Baixo, aqui em São Miguel, um alargado “Colóquio Comemorativo Dos 25 Anos Da Morte De Natália Correia” sobre a sua falecida e distinta amiga, para o qual convidou escritores, poetas e ensaístas dos Açores e do Continente, como Carlos Melo Bento (que com ela viveu dias de política quente nos Açores durantes os tempos imediatos ao pós-25 de Abril) e Leonor de Sampaio da Silva, da Universidade dos Açores, aos escritores e poetas Luís Filipe Sarmento, Fernando Dacosta e Fernando Pinto do Amaral. Há aqui algo não só de nostalgia, mas, creio, também de despedida. Ângela de Almeida tem uma grande obra, e pelos vistos está desde há algum tempo a dedicar-se à sua própria memória literária e vivencial nas ilhas. Não era sem tempo. Descolarmos das nossas referências literárias é tanto uma obrigação, como até um gesto de homenagem. As gerações que nos precederam merecem que continuemos a obra sublime que nos deixaram, o seu nome está já gravado para nossa história literária e cultural para sempre. Só a continuidade dos que os seguiram os justificam. O resto é para necrófilos e outros adoradores do falso endeusamento de figuras, por mais importantes que tenham sido, que queimam tudo à sua volta, e suprimem as gerações seguintes.

Caligrafia dos pássaros corta de certo modo com toda a obra prévia de Ângela de Almeida. Esta afirmação foi-me confirmada por outro grande poeta açoriano na sua apreciação destes versos contundentes. Reencontro nestas páginas uma outra autora: serena e com toda a habilidade na manipulação das suas linguagens, temas e orientação numa outra visão do mundo. São apenas quatro poemas alongados, em estrofes breves, mas com um seguimento artístico pouco vulgar. Alguns críticos e ensaístas elevam ao sétimo céu certos “poetas” da obscuridade metafórica e imagística. Ângela opta pela clareza da linguagem e pensamento (e poesia sem pensamento nada vale), transportando os seus leitores para as mais diversas geografias e estados de alma. Intimismo ou interiorismo em conjugação perfeita com o mundo ou sociedade à sua volta, a angústia de um tempo, que é o nosso, a dominar a sua sensibilidade de poeta e cidadã. O terceiro poema deste livro denominado “ciclo de Ítaca” aponta o seu regresso a casa, a uma outra casa, que foi redefinida mas mantendo-se como espaço matricial da sua vida e existência preferida ou sofrida. Cada palavra da poeta fere-nos como ferro espetado na nossa alma, ou então como um canto à nossa vida feliz ou infeliz. O seu enclausuramento da chamada “açorianidade” dá sempre lugar à sua consciência de todo um mundo longínquo, e que nunca deixa fazer parte nós. Nem todos os homens ou mulheres são uma ilha, como disse um outro. A nossa história agora já não conhece fronteiras ou limites existenciais na arte ou em quaiquer outros textos. Somos nós, uma vez mais, todos os outros.

Não renuncies à rota deste alfabeto/agora que migro para sul/Deixo o delírio da fala/talvez o inverno da voz/e o estilhaço do cristal/nas sílabas apáticas e surdas/duma palavra moribunda/Não escrevas mais   não escrevas/ não estarei em Ítaca   amor/ nem eu nem os gemidos da pedra/pura/a primeira/a que foi a casa e montanha/ e cume de uma promessa/Ítaca para sempre Ítaca…

Estes versos pertencem ao terceiro poema do livro, intitulado “ciclo de Ítaca”, que vem em conjunto com “as fendas da pele” “ciclo do delírio” e “ciclo das horas”.

A poeta tanto olha para o estado mais íntimo como para um mundo afundado num caos aterrorizante, mas sempre através de palavras suaves que nunca agridem ou viram o leitor para um estado deprimente e muito menos pessimista. São todos estes poemas como que uma reafirmação do valor da vida e da denúncia sem acusações ou endereços de quem o torna uma dor para quem o humanismo continua a ser uma espécie de bússola na escolha pela resistência, mesmo que num isolamento calculado entre casa, biblioteca ou eventuais convivências com os seus pares, amigos e família. É precisamente esse o “corte”, agora sim, radical como uma obra que vem de longe e inclui quase todos os géneros, e que quase sempre denunciava em voz bem mais agressiva de uma sociedade sem regras nem compaixão. Ângela de Almeida evoluiu para um estado de paz consigo própria, mas sem nunca esquecer que o papel principal de um escritor ou escritora é estar atenta a tudo e a todos que a rodeiam e que transformam a sua vida, assim como a dos outros. Escreve a poeta ainda no brilhante “ciclo de Ítaca”, relembrando-nos que um ilhéu estará para sempre condenado ao regresso do seu “terreno do coração”, a força das origens permite-nos andar pelo mundo inteiro mas seguros de nós próprios e dos outros que constituem os jardins livres que teimamos em cultivar eternamente: um ciclone arrastou os verbos e a voz/e lançou-se num penhasco/lá/onde a garganta é um precipício/as órfãs palavras que aqui envio/estavam escondidas num vaso/e só por isso escaparam/talvez para te dar a notícia e enviar um beijo/esquecido no beiral de uma pérola.

Por último queria lembrar a todos, uma vez mais, que foi Ângela de Almeida que desde há muito nos “devolveu” a Natália Correia aos leitores açorianos que sabiam mais da sua vida pessoal e excentricidades do que da sua fabulosa obra de poesia, prosa e outra escrita. Por certo que agora falta esclarecer para a nossa história política o muito que ela fez nos bastidores aqui nas ilhas, e muito especialmente no resto do país quando com altas figuras desses anos atribulados ela mantinha comunicação constante, com os próprios Ramalho Eanes e Mário Soares como interlocutores privilegiados. Um dia saberemos de todo o seu enorme contributo para a autonomia do nosso arquipélago ante o resto da nação. Para isso existem figuras públicas que também com ela conviveram e muito sabem para um futuro historial nosso. Não hesito aqui em mencionar o Dr. Carlos Melo Bento, que saberá muito mais do que nós todos sobre essas questões que tardam em ser escritas, estudadas e arquivadas para as gerações futuras.

O corte com a sua própria obra prévia exige ainda mais um corte parcial com a sua dedicação aos estudos natalianos. Ângela de Almeida tem pela frente uma nova obra literária a desenvolver e a publicar. Creio que esse fecho vem já em breve, após a publicação da já referida tese de doutoramento, que está para breve. Tem essa “dívida” para connosco. Na sua reencontrada modéstia faz em Caligrafia dos pássaros uma lista que me parece incompleta, mas que não pode ser esquecida neste meu texto: sobre o rosto, 1989 e 1993, 2ª edição. O baile das luas, 1993 e 1994, 2ªediçã, uma valsa para Antília, 1994, manifesto, 2005 e a oriente, 2006.

Trata-se de um dos mais felizes regressos de uma escritora nossa, que desde há muito atravessa arrojadamente as mais variadas e longínquas fronteiras pessoais e literárias.

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Ângela de Almeida, Caligrafia dos pássaros, Lisboa, Edições Colibri, 2018. Publicado no Açoriano Oriental, 14 de Dezembro, 2018.

A teia do pós-colonialismo português

Um dia haveria de retornar ao pó, como era forçoso que acontecesse. De Portugal, a cidadania dos mortos foi o seu único visto de residência. Da cidade de onde tinha vindo, e que em tempos se chamara Luanda, pouco restava depois do grande incêndio do tempo e, além disso, continuava a ser muito longe.

Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda Lisboa Paraíso

Vamberto Freitas

     Já o primeiro romance de Djaimilia Pereira de Almeida, Esse cabelo, introduziu na literatura portuguesa contemporânea uma voz singular, justamente aplaudida por todos que sobre esse livro escreveram. A grande autora está de regresso com outra grande peça ficcional sob o título Luanda Lisboa Paraíso, e, uma vez mais, toma como referência histórica o colonialismo português visto e vivido em dois continentes, a teia humana urdida durante mais de quinhentos anos, e agora segurando os que nela saltam em busca não necessariamente de uma nova identidade, mas sim da cidadania a que têm direito tanto no seu país de origem como no velho país que não pode nem deve nunca ignorar a sua responsabilidade perante todos os que durante séculos tanto serviram como se revoltaram contra a indignidade de homens e mulheres praticamente invisíveis em qualquer uma das sociedades a que pertenceram ou continuam a pertencer. As personagens de qualquer um destes romances não andam a construír para si uma nova identidade, repita-se, sabem muito bem quem são e como são outros que os vêem ou não vêem na sua luta diária pela simples sobrevivência, neste caso Lisboa, relatando o seu quotidiano sem juízos de valor ou distanciamento numa terra que os acolhe quase indiferentemente, cada um deixado à sua sorte ou capacidade de luta pelo mínimo a que têm direito, e aqui o mínimo quer dizer uma barraca improvisada, alguma assistência médica que traz pai e filho, Cartola e Aquiles, à velha capital do império. “Paraíso” do título e da narrativa é absolutamente um termo irónico, onde na miséria lisboeta seres humanos tentam fazer de cada hora e dia a sua felicidade. Era esta soberba literatura que faltava em Portugal. Não falemos dos que já há anos escrevem sobre a experiência lusa nas suas antigas colónias, e cuja fama internacional está já consolidada, desde o Brasil às capitais europeias e noutras geografias. Falemos de uma grande escritora nossa (luso-angolana, se assim preferirem), que assume sem complexos o seu passado, mas tem o nosso país como sendo inteiramente seu, criada numa das mais prestigiadas cidades nos arredores de Lisboa, e formada em teoria da literatura pela Universidade de Lisboa. Cada palavra sua, na ficção, nunca apresenta essa vivência e vida intelectual. Já é simplesmente uma das nossas grandes escritoras. É um feito artístico pouco comum entre nós, só comparável a um Salman Rushdie, noutra língua e noutros tempos a partir de outra experiência.

     Luanda Lisboa Paraíso nunca “acusa” a história portuguesa em África. Aliás, não acusa nada e ninguém. As origens das suas personagens, os tempos que viveram antes e depois da sua libertação, servem tão-só para esculpir o seu interiorismo, bringing out character, como diriam alguns críticos americanos, a humanidade a saque e nunca dependente nem da História e da sua presente nacionalidade ou origens. Estão todos eles num campo de batalha pelo seu quotidiano, e lidando com a sua dor a sós ou então na companhia de outros aventureiros ou sobreviventes. A narradora recorta a sua prosa com cartas de e para Luanda, Cartola a falar com sua mulher a quem chama de Mamã, a mulher da sua vida e do seu filho em tratamento num hospital lisboeta. A sua correspondência faz-me lembrar o grande poema “Saudade” popular de Cabo Verde, e imortalizado primeiro por Cesária Évora e anos depois por Mariza e Tito Paris. Curioso e absolutamente original: nós somos vistos pelas personagens angolanas quase sempre ao longe e com olhares frios nas ruas de Lisboa, ou por outras andanças nos arredores. O seu maior amigo e convivente é um outro deslocado vindo de Espanha, de nome Pepe, proprietário de um pobre bar de bêbados e outros solitários no Paraíso, e que a certa altura leva Pepe a escrever a Cartola pouco tempo depois e em circunstâncias especiais: “Perdoa-me, Cartola, meu irmão preto”. Se a literatura é sempre um retrato de um tempo e das gentes nela inscritas, a racionalidade e a emoção andam também sempre lado a lado, a nossa humanidade, “o coração humano em conflicto consigo próprio”, como diria William Faulkner, os denotadores da nossa inteligência e da nossa emoção. Como em certos outros autores nacionais e internacionais, não encontramos aqui apenas jogos de palavras abstratas ou de pouco sentido, o escritor a querer mostrar a sua habilidade em brincar, sem graça alguma, com os seus leitores, que depressa perdem a paciência ou a memória das palavras lidas. Hesito em classificar a obra de Djaimilia Pereira de Almeida de “pós-colonialista”. Tal como outros escritores superiores de língua inglesa com um passado semelhante, a sua ficção estende-se por toda a nossa civilização, e recusa a vitimização seja de quem for.

“Tudo corria bem – diz a narradora a dada altura e já no fecho do seu romance – em Paraíso, salvo o que não podia correr pior. Não havia mais comida nas mesas nem menos agonias nem menos bolsos vazios. Pepe continuava a adormecer no pinhal, camuflado na caruma como um cadáver. Dava para imaginá-lo a ascender aos Céus sem ter de pagar por nada, levado pelos morcegos que perseguia na clareira antes de cair para o lado, atirando-lhes pedras, batendo palmas como se tentasse matar moscas. Regressava dessas tardes em que a companhia dos bichos o consolava da vinda do Inverno, como se no fundo desejasse nada ter de seu, nem casa a que voltar nem alguém a quem chamar amigo”.

Se cito aqui a condição vivencial de uma personagem não-africana é tão-só para demonstrar como a autora continua a ver mais mundo para além da sua própria história binacional, levando-nos a rever como estamos todos mergulhados no mesmo pântano humano em qualquer dos continentes que ela reclama como referências também primordiais. Há leitores que lêem esta prosa como um espelho de “identidades”. Prefiro lê-la, porque assim a entendo, como uma escritora que poderá ter em mente essas questões que abalam os nossos dias nas mais variadas fronteiras, mas é a humanidade sem cor, raça ou sequer diferenças culturais que habita cada página sua. O Paraíso de que nos fala aqui é o local da miséria e da opressão onde se encontram os que outro escritor português já chamou “os vencidos da vida”, e estão em igualdade total nas mais indesejáveis condições de vida. Por outro lado, toda a acção ou trama deste romance decorre durante os anos 80, e de Angola vamos acompanhado a luta quotidiana da restante família que lá ficou. Mesmo assim, o que vai na rua nunca se sobrepõe aos mais íntimos sentimentos e medo das personagens aqui inventadas, ou reinventadas. O que não poderemos nunca ignorar é que qualquer romance terá sempre algo de autobiográfico, ou, como já disse outro crítico, se não nos factos pelo menos nos sentimentos. Encontramos um pouco de nós próprios em qualquer uma destas figuras, dito de outro modo, o outro somos nós.

A obra de Djaimilia Pereira de Almeida está na categoria muito especialmente na comparável à de uma falecida escritora também de origem indiana, Bharati Mukherjee, autora de uma vasta obra que comecei a ler nos anos 80, especialmente os seus contos em The Middleman and Other Stories, que creio ter sido a primeira escritora imigrante na América do Norte a receber o National Book Critics Circle Award. Os temas são os mesmos. A humanidade deslocada na nossa época, o atravessar fronteiras não em busca de si próprios, mas da dignidade que lhes era devida. Mukherjee, que terminou a sua carreira brilhante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e era amiga da sua colega e escritora luso-americana Katherine Vaz, faleceu com o desgosto de nunca ser ter sido traduzida em Portugal. Perda nossa, não dela. Pelo menos agora ficamos com uma outra autora sublime chamada Djaimilia Pereira da Costa e publicada por uma famosa editora internacional. Falta só que essa subsidiária da Penguin Random House a traduza para o Inglês.

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Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda Lisboa Paraíso, Lisboa, Companhia das Letras, 2018. Pubicado hoje no Açoriano Oriental, 7 de Dezembro. 2018.