A condição existencial de um romancista homossexual americano

 

 

Tenho estado no Japão, nunca tinha ido à India, ou a Marrocos ou à Alemanha, ou a muitos lugares que Arthur Less havia de viajar nos próximos meses. Nunca subi uma pirâmide antiga. Nunca beijei um homem num telhado em Paris.

Andrew Sean Greer, Less

Vamberto Freitas

     Less é o titulo deste romance norte-americano, vencedor do Pulitzer Prize 2018, e é o último nome de Arthur, o seu protagonista. Escritor que se sente falhado e prestes a fazer 50 anos de idade, o narrador aqui sem nome tem como referencial geográfico e humano os países mencionados na epígrafe deste meu texto (é ele que fala nesse instante) em que seguimos as suas andanças numa série de conferências. No estrangeiro, como acontece tantas vezes com certos escritores, era mais apreciado no estrangeiro do que no seu próprio país, especialmente com uma outra peça de ficção intitulada Dark Matter, mas o seu mais recente original tinha sido determinantemente rejeitado pelo seu editor, o que o levou em fuga aproveitando o nome e o prestígio que já tinha na sua carreira. É residente em São Francisco desde os anos 80 após abandonar a sua terra natal do outro lado continente, Delaware. Estamos nos primeiros anos da Sida, que ceifava vida após vida, sem cura à vista. Less vive em São Francisco entre os da sua idade, então um grupo de amigos, escritores e artistas vários que se haviam refugiado na cidade californiana mais tolerante para com aqueles que tinham nascido ou optado por orientações sexuais fora da heterossexualidade. Acompanhos todos nas suas vidas diárias, e nas praias locais que tanto juntavam homens e mulheres com estilos de vida ora convencionais, ora de outra natureza. Há algo de muito especial neste premiado romance: a sua linguagem nunca cai nas descrições do acto sexual, segue simplesmente, uma vez mais, o estado existencial do seu protagonista, que teme a viragem de idade para os 50 anos de idade, muito menos dos que os seus falhanços literários. O narrador, como também insinua num passado citado aqui, parece também homossexual, mas não diz nunca o tema principal do seu romance. Para além do mais, o leitor vai seguindo Less nos países que visita, alguns depois de por lá passar alguns anos antes com amantes mais velhos e das mesmas orientações homossexuais, tomando nota das diferentes maneiras de ser e estar nessas outras realidades nacionais, contrastando o respeito e admiração que recebe dos seus anfitriões enquanto se passeia nas várias cidades para onde foi convidado, e tudo numa linguagem que oscila entre um realismo puro e duro e um eloquente liricismo quase  poético, nunca cedendo a condescendências perante uns e outros. Quando Less regressa meses depois à sua residência em Vulcan Street, numa daquelas colinas de São Francisco, já é um homem mudado, mais calmo na aceitação da sua idade e nos falhanços literários dos últimos anos. Mantém uma série de amantes locais, de idades diferentes, mas a partir de aí fica só a nossa imaginação sobre a sorte futura.

      O romance está estruturado com os anos de São Francisco, e depois segundo cada um dos países que vai visitando como convidado literário de prestígio. Desse modo, o narrador vai abordando as idiossincrasias de cada um deles, como que a querer dizer que há mais mundo para além do medo e do grande continente americano. Se um dia, como diziam alguns críticos, a literatura americana era algo provinciana, esta nova geração de escritores e da era digital não hesita nunca em atravessar fronteiras, e recusa o mal-dizer dos estilo de vida dos outros. Saído o ano passado, poderíamos muito bem interpretá-lo como um perfeito e total contraponto à “nova” América”, num respeito absoluto pela diferença de todos géneros e hábitos culturais. Humor, ironia e prosa quase poética contrapõem-se às linguagens político-culturais da actualidade do seu país. Na Califórnia, Less tanto tem amantes e amores anglo-americanos com mexicanos ou latinos, mulheres que toleram as mudanças dos seus maridos, respeitando-os tanto eles como os seus amores ou meros encontros masculinos. Less acompanha a partir do Japão os últimos dias da vida após um AVC do seu grande amor, de nome Robert Brownburn, cientista e muito mais velho. Tinham-se separado há uns anos, mas o narrador parece querer insinuar que a vida é redonda, e, aproximando-se um fim real, imaginado e temido, regressamos inevitavelmente aos momentos mais marcantes das nossas vidas. Este não é um romance propriamente sobre outras orientações sexuais, muito menos sobre pormenores de cama. É um romance sobre a natureza do amor e dos seus momentos mais felizes e infelizes. Por outras palavras, cada um de nós se revê nos abalos interiores dos seus personagens mais destacados. Uma das formas (já antigas) da ficção americana parece sempre um regresso ao realismo psicológico de um passado ainda não muito distante, mas que marca toda a estrutura da sua arte literária: linearidade aqui e ali interrompida por analepses que nunca nos deixam confundir os tempos ficcionais que nos são apresentados. Aliás, toda a narrativa deste livro parte do presente para os anos de fulgurância e produtividade ou boa vida das suas personagens. Não temos nestas páginas só as suas histórias, sobressaindo ainda toda a condição humana vivida nestas décadas mais recentes, a história do país sempre insinuada a cada passo, a cada insinuação de que como foi viver ou sobreviver os anos incertos e pessoalmente atribulados que continuam, agora mais do que nunca, a ser os nossos na generalidade.

      “Tal como Proust, — escreve o narrador – ele sabia que o fim estava por perto. Quinze anos, e a alegria do amor já há muito tinha esmorecido, e a traição tinha começado: não eram simplesmente as aventuras periódicas com outros homens mas o segredo desses relacionamentos que decorreram de um mês a um ano e acabaram com tudo à vista. Estava ele a experimentar quanta elasticidade poderia ter o amor? Era simplesmente um homem que tinha de boa vontade entregue os seus anos mais novos a um homem de meia idade e agora, chegando ele próprio a essa meia-idade, queria de volta a fortuna que tinha atirado ao vento? Queria sexo, amor e brincadeira? As mesmas coisas de que Robert lhe tinha salvado tantos anos atrás?  Quanto às coisas boas, tal como a segurança, conforto, amor – Less encontrava-se a esmagar em pedaços tudo isso. Provavelmente não sabia o que estava a fazer; provavelmente ele não sabia o que estava a destinar. Ou talvez sabia. Provavelmente estava a incendiar uma casa na qual já não queria viver”.

      O autor de Less (cujo significado quer dizer literalmente Menos) não lhe deu esse nome aleatoriamente. Poderá querer dizer-nos que todas as nossas vidas deixam de fora as fantasias da juventude, quando tudo nos parece possível e julgamo-nos imortais. Suponho que qualquer leitor deste romance, em qualquer parte do mundo, se vai reconhecer nesta vivência diferente, retirando de imediato as conotações sexuais, com as quais podem simpatizar ou não. É a nossa humanidade que domina este romance.

      Andrew Sean Greer, que também vive em São Francisco, tem já no seu currículo literário obras como The Confessions of Max Tivoli, que foi considerado pelo San Francisco Chronicle e pelo Chicago Tribune o melhor livro do ano em 2014, e ainda The Impossible Lives of Greta Wells e The Story of a Marriage, De resto, tem recebido inúmeros prémios prestigiados pelos seus contos, e recebeu o National Endowment for the Arts e o reconhecimento igual pela New York Public Library e o The California Book Award. De página em página vai fazendo chamamentos a diferentes escritores americanos e de outros países e línguas. Quero com esta lista parcial apenas chamar a atenção para uma nova voz da literatura americana contemporânea, e que não passe despercebido entre nós. A tradução do presente romance seria mais do que justa, seria de certo modo uma outra homenagem ou oferta a alguns leitores portugueses mais virados para a literatura mundial.

___

Andrew Sean Greer, Less, Abracus/Little, Brown and Company, London, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Anúncios

Do Bravo Mundo Em Que Vivemos

  1. Oleg Antoyyevich continua a viver uma vida dupla. Para os seus vizinhos suburbanos, o homem curvado de barba que vive tranquilamente atrás de sebes altas é apenas mais um reformado idoso, uma pessoa pouco importante. Na realidade, é uma pessoa totalmente diferente, uma figura de profunda importância histórica e um homem notável: orgulhoso, inteligente, irascível, com a pensativa expressão iluminada por clarões súbitos de irónico humor.

    BEN MACINTYRE, O Espião E O Traidor

     

    Vamberto Freitas

         Tenho tantos livros na minha secretária, de escritores açorianos, continentais, americanos, brasileiros e de outros autores que me não são desconhecidos, que levei a tarde inteira a decidir qual seria o próximo para a minha leitura e escrita. Vou ser preservo, sem esquecer os outros. Acho que vou ler um livro completamente fora da minha habitual esfera: O Espião E O Traidor, de BEN MACINTYRE. Dizem eles na capa que é “A Maior História de Espionagem da Guerra Fria”. John Le Carré: “A Melhor História Real De Espionagem Que Alguma Vez Li”. Basta, vou a ele, e aprender coisas, e ainda odiar ainda mais o mundo que nos foi legado. Lembro-me de ler no início dos anos 70 um dos livros John Le Carré, creio que Tinker, Tailor, Soldier, Spy, e um recenseador mal-disposto afirmou que a Grã-Bretanha ainda se pensava um grande império, mas que os seus serviços secretos já tinham perdido toda a sua importância, tal como o resto do país. Errou redondamente. Na verdade, a União Soviética parecia prestar mais atenção à ilha a norte e no coração atlântico da Europa do que suspeitava o referido crítico, pelo menos a partir dos anos 80 até há bem pouco. Poderia o então KGB prestar a mesma atenção e perfídia à CIA, mas a sua obsessão quase doentia era o M16 em Londres, pelo seu também substancial arsenal nuclear e a proximidade das suas fronteiras. A infiltração mútua era contínua, e o medo de um disparo nuclear vindo da própria Europa armada era uma obsessão da liderança no Kremlin. Os serviços secretos dos dois lados partilhavam os traidores, particularmente depois da fuga para Moscovo do mais famoso espião inglês, Kim Philby, deixando atrás “associados” ligados a várias universidades e comunistas convictos. A CIA, uma vez mais, parecia mais um grupo de amadores do que a temida e bem mais fornecida agência de espionagem dos Estados Unidos. Não é sobre este facto que se debruça o livre O Espião E O Traidor, mas sim sobre o mais especular espião duplo, já aqui referido. Vindo de uma família de mãe religiosa mas também de um pai que havia prestado os maiores serviços secretos à União Soviética, passou a odiar o regime totalitário quando foi colocado na Escandinávia, Dinamarca e Noruega. A partir dessa experiência de abertura e liberdade europeia tornou-se um agente duplo, que viria a causar os maiores danos a Moscovo, que estava convencido de um breve ataque nuclear preventivo por parte da Inglaterra, ou de seus aliados. Pelo que nos diz o presente autor, estivemos entre 82-83 à beira do temido Armagedão.

    Podem perguntar porquê leio um livro destes. A resposta é simples: aprendemos com estes textos biográficos (ou auto-biográficos), muito maia do que em monografias históricas académicas. Têm todos a ver, estes livros, com o esclarecimento da literatura do nosso tempo. Quando me dizem que um Coronel da KGB lia William Shakespeare e George Orwell, entre outros autores proibidos na União Soviética, e que ele mantinha mais ou menos escondidos, dizem-me tudo. Quase toda a literatura do nosso mundo trata ou alude ao estado perigoso do nosso planeta. As sociedades em decadência estão em perigo, e isso inclui a nossa suposta geografia de liberdade e supostos “privilégios”. Pode Oleg Antonyyevich ter sido um eminente espião traidor, mas nunca neste livro nos livramos da paranoia dos soviéticos, repita-se, ante a possibilidade de um ataque mortal para nós todos. Foram eles que mantiveram a calma, e nos livraram da catástrofe. A história aqui contada do seu agente traidor é mais do que aliciante. O modo como acontece o seu resgate da União Soviética é por demais aliciante, mas encobre as verdadeiras preocupações do Kremlin. A Inglaterra também tinha ao mesmo tempo os seus traidores. A certa altura, eles, infiltrados na União Soviética, tiveram uma sucessão de velhos líderes, a velha guarda, cujos nomes são demais para mencionar todos aqui. Depois chegou Mikhail Gorbachev, e tudo mudou. Sabia que o seu país não poderia competir com o Ocidente no desenvolvimento de armas devastadoras e mortíferas, seguindo-se o Glasnot e a Perestroika (abertura e reestruturação). Hoje, se a nova Rússia é corrupta, a nossa parte do mundo não lhe fica muito atrás em nada. Desde o futebol à classe política e financeira estamos quase tão sujos como eles. Estávamos nesses anos fatídicos após a crise dos misseis cubanos sob um pleno Big Brother, que Orwell havia previsto e de certo modo avisado. A verdade é que o Ocidente conseguiu a colaboração em cheio de um dos mais importantes agentes secretos do outro lado, o que talvez tenha ajudado a desviar-nos da catástrofe total para a humanidade. Seguiram-se expulsões “diplomáticos” de lado a lado, deixando um vazio que sem dúvida contribuiu para melhor controlar uma situação explosiva a todos os níveis.

    “Burton Gerber, — escreve o autor deste livro a dada altura, num capítulo apropriadamente intitulado ‘Roleta Russa’, e agora mudando a acção para Washington – o chefe da secção soviética da CIA, era um especialista no KGB com vasta experiência operacional na guerra da espionagem com a União Soviética.. Nascido no Ohio, era um homem alto e magro, assertivo e perseverante, e pertencia a uma nova geração de funcionários dos serviços secretos americanos que estava livre da paranoia do passado. Ele estabeleceu as chamadas ‘Regras Gerber’, que determinavam que todas as ofertas de espionagem para o Ocidente deviam ser tomadas a sério e todas as pistas investigadas. Um dos passatempos mais estranhos passatempos de Gerber era a observação de lobos, e havia alguma coisa claramente vulpina na forma como ele caçava as suas presas do KGB”.

    A parte mais dramática de O Espião E O Traidor vem nos últimos capítulos quando os soviéticos descobrem a traição dupla de Eleg Antonyevisky, e o M 16 tem de o retira de Moscovo, numa operação a que deram o nome de PIMLICO; saído escondido num porta-bagagem num dos carros da britânica M16, via Finlândia e outros países amigos e da NATO. Deixou para trás, teve de deixar, a mulher e a filha, que lá permaneceram em prisão domiciliária durante anos até mais tarde os deixaram partir para conviverem com o antigo espião num subúrbio obscuro de Londres. Passou a viver uma vida mais ou menos normal, sem que os seus vizinhos suspeitassem nunca das suas origens com espião e o quanto tinha feito em defesa da democracia, não só na Grã-Bretanha como em todos os seus aliados espalhados literalmente por todo o mundo. A literatura também é feita de “factos” e “história”, e por osmose acaba por afectar todas as nossas leituras. Essas obras superiores são como que um retrato do seu tempo e da sua geografia física e humana. São estes livros biográficos e auto-biográficos que lançam outra luz sobre todas as páginas que lemos.

    O Espião E o Traidor, de BEM MACINTYRE, é definitivamente um desses livros de leitura aliciante e de ensinamentos que de outro modo não teríamos. Entramos num mundo de espelhos, como diz o autor, e de sombras para um leitor que é colocado nos bastidores da política e da segurança de qualquer grande país. Só mais uma nota algo curiosa nesta saga de vida e morte. Vladimir Putin, o então Coronel do KGB, que andara na República Democrática Alemã, encontrava-se precisamente durantes estes acontecimentos em Leningrade, O livro não entra em detalhes no que lhe aconteceu pela sua “desatenção”, mas insinua que ele caiu um bocado na hierarquia dos serviços secretos da sua terra.

    _____

    BEM MACINTYRE, O Espião E O Traidor (tradução Isabel Veríssimo, D. Quixote/LeYa, 2019.

Edmund Wilson contra Vladimir Nabokov

Num famoso ensaio, Ralph Waldo Emerson escreveu que uma ‘amizade era como a imortalidade da alma, bom demais para ser acreditada’… No caso de Nabokov e Wilson, foi isso mesmo.

The Feud: Vladimir Nabokov, Edmund Wilson and the End of a Beautiful Frindship

Vamberto Freitas

“Beautiful friendship”? Ou uma amizade absolutamente inquinada por pate de Vladimir Nabokov (1899-1977), o célebre autor de Lolita (1955), Speak, Memory, the real life of Sebastion Knight, entre alguns outros livros, inclusive Pale Fire que tive de ler num seminário pós-graduado e nunca mais voltei àquele jogo e gozo com o leitor. Alguns dos seus outros livros foram e traduzidos do russo pelo próprio autor. Estou ainda para ler Vladimir Nabokov: The American Years, que também está na minha estante entre outros dele. Sem a mão de Edmund Wilson, quando Nabokov chega aos Estados Unidos em 1939, depois da fuga da União Soviética logo de início do regime e debaixo de fogo num barco rebelde e apoiante dos velhos aristocratas e outos dissidentes do novo Poder, com passagem breve pela Alemanha e França, com praticamente só a roupa no corpo e com poucos dólares na algibeira, provavelmente nunca chegado a nada em língua inglesa. Muito provavelmente não teria chegado onde chegou a lugar nenhum nos Estados Unidos, e definitivamente à grandeza literária internacional que conquistaria com a publicação do romance “pedófilo” Lolita, que lhe permitiu a riqueza (os tempos eram outros) para o resto vida inteira, apesar do seu tema, pagando logo depois à América com uma nova fuga emigrante e agora legal, mas para um hotel na Suíça, onde viveu uns bons anos até ao seu falecimento, agora sem a ajuda generosa do eminente crítico canónico de americano, de nome Edmund Wilson. A história da quebra da sua amizade tem tanto de caricato como de ingratidão. Mesmo assim, Nabokov tornar-se-ia cidadão americano em 1945, na época do tempo de grandes perigos e de pouca segurança. A história de Nabokov na América é uma de puro oportunismo e cinismo. Edmund Wilson tinha viajado em 1935 para a União Soviética, e passado alguns meses num dos seus hospitais devido a uma febre séria, nunca ter perdido a sua admiração pelo que ele chamava “O Quartel General da Humanidade”, tal o seu  respeito por Lenine, sobre quem escreveria pouco depois um livro que liamos na faculdade californiana por questões puramente literárias, To the Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History (1940), no qual afirmava toda a sua admiração pelo então líder máximo do Kremlin, o intelectual supremo, mais do que o político. Vindo de uma família da velha aristocracia da Costa Leste americana (Nova Jersey), nunca deixou de se considerar um marxista até fim da vida, com o desgosto do tempo estalinista, mas considerando, sempre, o sistema do seu próprio país como um dos mais injustos, dedicado à Guerra Fria e perpétua. Foi este proeminente crítico que deu a mão a um dos mais conservadores e arrogantes russos “brancos” que arribou repentinamente ao seu país.

Comecemos de novo. Edmund Wilson foi sempre um leitor e admirador da literatura russa antes da União Soviética. Há algum tempo antes tinha criado amizade com alguns russos e russas, especialmente com Nicolas Nabokov, um compositor e primo de Vladimir Nabokov, já com nome feito nos Estados Unidos e na Europa. Quando Vladimir Nabokov chega à América de mãos vazias este seu primo implora a Edmund Wilson (1985-1972) que o ajude de uma de forma ou outra. Leu alguns dos seus livros sem grande entusiasmo, especialmente o original de Lolita (primeiro publicado em Paris, aquela cidade-luz tão aberta a tudo e a mais alguma coisa), que o deixou meio enjoado e sem qualquer simpatia pelo tema de um europeu de meia idade a seduzir uma menina atrevida, “a velha e decadente Europa”, como dizia um mestre meu em literatura na Califórnia, o símbolo, a menina, de uma nova nação e ser devorada pelo velho continente. Mesmo assim, reconheceu o seu talento e qualidade literária para contactar algumas das melhores revistas literárias (The New Yorker, por exemplo) para aceitarem as suas críticas e ensaios, o que aconteceu da melhor maneira. Em seguida, utilizou da sua já considerável influência para que publicassem o que viria a ser o seu famoso romance que ele não tinha lido por completo no original, e ainda intercedeu para que ele desse aulas nalgumas das melhores universidades, e outra vez com sucesso. Quando Vladimir Nabokov chega à Universidade de Cornell já estava a trabalhar a fatídica tradução do mais venerado e reconhecido romance em verso de Elexander Pushkin, Eugénio Onegin (1833), que durou qualquer coisa como nove anos e tem como cometários de Nabokov muito acima de 900 páginas. O ensaísta contido e de prosa calaríssima que era Edmnd Wilson achou mais ou menos um escândalo de má tradução, ainda mais por ser uma tradução literal, com palavras em inglês que ele insistiu nem sequer existirem em qualquer dicionário, e desatou – o seu erro máximo – a querer dar lições etimológicas e de significados e ortografia ao russo, um mestre da sua própria língua. A tradução de Puskin saiu em 1964, e a polémica acesa, arrebatada e algo insultante entre os dois rebentou como uma bomba que não mata mas acorda toda a gente, numa publicação de prestígio como a The New York Book Review. Um pouco depois, este combate intelectual passaria para outros periódicos, incluindo a famosa revista britânica Encounter, que mais tarde se saberia ser financiada pela CIA. Não vou aqui enumerar os detalhes de um ou outro, só reafirmar que as guerras literárias são por vezes de uma violência pouco dignificantes à dignidade dos polemicistas, algo a que estamos habituados em Portugal, e em que cavalheiros e amigos perdem todo um passado de grandes momentos e diálogos intelectuais, como foi o caso de Edmund Wilson e Vladimir Nabokov. Este livro de Alex Beam, tão equilibrado e justo nos seus juízos e análises, coloca cada um no seu lugar.

“Mesmo nas décadas – escreve James Beam — depois da morte destes dois escritores, a controvérsia sobre a tradução de Onegin ocasionalmente sai do caixão. Em 1977, o ano do falecimento de Nabokov o aposentado diplomata britânico Charles Johnson publicaria que a tradução rítmica,e métrica encantou o jovem escritor Vikram Seth, que tinha retirado o livro de uma estante numa livraria de Palo Alto. Os dois acontecimentos não estavam relacionados. Parece possível que Vladimir Nabokov se teria dado ao trabalho de uma outra tradução de Onegin em inglês, com a sua imortalidade muito em dúvida.”

Seja como for, esta luta entre dois grandes gigantes literários, como alguém já os descreveu, de dois países tão distantes e diferentes, deixou poucos literatos indiferentes, pelas mais variadas razões. Edmund Wilson começou a publicar crítica e ensaio nas mais prestigiadas revistas do seu país, desde Vanity Fair a The New Yorker ao inescapável The New York Review of Books depois da sua fundação em 1963. Formou-se na Princenton University e tornar-se-ia amigo de grandes autores, hoje também canónicos, como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos e T. S. Eliot, só para mencionar aqui alguns dos mais conhecidos nomes entre nós. Foi talvez o único ensaísta que conseguiu viver só dessa escrita, que pouco vendia, mesmo quando depois colecionada em livro. Wilson alternava a sua vida entre Nova Iorque e uma velha e grande casa mais tarde por ele herdade na parte norte daquele estado, e onde se refugiava pelo menos cada seis meses, dando testemunho dessa vivência rural em alguns dos livros. Publicou alguma ficção (I Thought of Daisy e The Higher Jazz) sem impacto, com uma excepção. Em 1946 faz sair Memoirs of Hecate County, um conjunto de histórias interligadas, e que ele considerava o seu melhor livro. Pelas cenas de sexo explícito, depressa o editor foi levado a tribunal, em São Francisco e Nova Iorque, e o livro teve de ser retirado das livrarias, já depois de lhe ter proporcionado uns bons milhares dólares e que lhe poderiam tornado financeiramente mais desafogado. Não foi uma figura fácil, mas foi de grande influência entre os seus pares.  Até mesmo entre a nova geração de escritores judeu-americanos que começaram a pontificar a partir dos anos 30, olhavam-no com a maior admiração e respeito. Wilson lia várias línguas, e no seu livro de ensaios The Triple Thinkers já tinha escrito precisamente sobre Alexander Puskin e a sua obra-prima que que Nabokov viria a traduzir à sua maneira. Continuaram a corresponder-se, mas nunca mais seria com aquela profunda amizade do início. Resta só dizer que Edmund Wilson continua a ser biografado mesmo mais do que os grandes escritores sobre quem escreveu ao longo da sua vida.

____

Alex Beam, Edmund Wilson and the End of a Beautiful Frienship, Pantheon Books, New York, 2016. Todas as traduções aqui são minha responsabilidade.

 

 

 

 

O sertão nordestino brasileiro e a dignidade das suas vítimas

Alguns viravam donos de escravos, e davam adeus à servidão e à busca que lacerava suas mãos e suas almas. Mas a maioria só encontrava a quimera e a loucura, o assombro, o desassossego, a dor e a violência. Vergava soba própria ilusão, derrotado, acocorado num amontoado de cascalhos.

Itamar Vieira Junior, Torto Arado

Vamberto Freitas

      li o grande romance Torto Arado, de um jovem autor brasileiro nordestino, e que venceu o Prémio LeYa 2018, de nome Itamar Vieira Junior. É o regresso da brava literatura de um Brasil muito especial que começa a fazer história há muito séculos, mas a começar um pouco nos anos 30  dá-nos conta das suas mais variadas e cruéis realidades através de grandes autores autores e autoras, dos quais fazem parte alguns dos mais conhecidos em Portugal, e isso há poucas décadas, até que deixámos de virarmos as costas algo arrogantes (com as devidas excepções, como Arnaldo de Saraiva)  à grande literatura do chamado país-irmão, mas que tudo já tinha recriado e renovado no seu próprio país. Vão aqui são alguns desses nomes: José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Menciono ainda, mesmo que seja sempre um nome controverso entre nós e eles, Gilberto Freyre, particularmente com sua obra sociológica, que mais parece um romance, Casa Grande e Senazala. Vêm agora novos autores de peso, que estão a renovar a dar um brilhante passo literário em frente. Um desse herdeiros, este escritor de que aqui falo, com páginas ficcionais agora sem igual, ou pelo menos sem igual naquela geografia específica e difícil, que têm como referencial humano e de uma economia ruralista historicamente injusta e cruel, por lá deixado por nós portugueses desde os tempos colonialistas e de roubo aberto e sem qualquer moral.. Aqui está a sua representação genial. Por certo que os brasileiros já tiveram muito tempo para consertar as coisas, mas nunca o fizeram, e “o passado”, como diria William Faulkner “nem sequer é passado”. O autor deste supremo romance nem nos acusa e quase nem nos menciona. Reduz-se ao que veio depois, com algumas referências breves aos longos tempos de nossa chegada e permanência, a uma terra grandiosa de grandes senhores privilegiados e ao resto que lhes serviam quase de servos animalescos nas gigantescas herdades do sertão, neste caso no interior da Bahia, ora de seca absoluta, ora o dilúvio das chuvas, de rios cheios de água e peixe ou então secos, e nas cidade aonde viviam quase todos os donos de tudo aquilo. O narrador leva-nos desde os primórdios da conilazição, neste caso em breves mas significativas alusões, até aos tempos modernos, à idade da revolta e de alguma mudança. Toda a herdade chamada de Água Negra (está entre dois rios, Santo António e Utinga tem como trabalhador principal, um trabalhador de apelido Zeca Chapéu Grande e a sua mulher Salustiana (Salu) Nicolau, com vários filhos, mas as duas personagens centrais são duas irmãs chamadas Belonísia e Bibiana. Antes as inúmeras personagens que aparecem pelo meio, toda a acção do romance gira em destes quatro nomes, e ainda inclui a sua avó Donana, que lhes lega involuntariamente um objecto mortífero que para sempre mudará as suas vidas, e quase sempre para pior.

Não queria forçar aqui simbolismos desta prosa escorreita e riquíssima na polissemia das suas palavras e frases, mas não resisto nesta minha leitura de Torto Arado interpretá-lo como uma coerentemente sustentada ou como uma longa metáfora a um Brasil histórico e moderno. Estamos no sertão baihano, a meados do século passado e em que a maioria dos trabalhadores, quase todos de descendência africana ou índia trabalham de Domingo a Domingo sem receber qualquer pagamento em dinheiros, reduzidos a uma pobre casa de barro e a uns cantos de terra onde cultivam o essencial para sua alimentação e o pouco peixe dos rios em volta. Quase nunca avistamos os donos dessas terras, residentes que são de casas grandes na cidade e nos próprios campos de que são proprietários. Para entretenimento e culto apócrifa o trabalhador-chefe, Zéu Chapeu Grande, sempre debaixo de olho do capataz de nome Salutério, junta os vizinhos e outros das redondezas para uma festa em casa em que a “reza” se combina com o álcool. De resto serve de curandeiro e conselheiros a todos, reservando para si certo prestígio na pequena comunidade explorada e oprimida, vivendo no medo e na segurança constantes. O romance abre com a tragédia que atinge quase o surrealismo com as suas duas filhas já mencionadas quando não resistem espreitar uma velha mala da avó e de onde tiram uma faca luzidia e com um lindo cano de marfim. Não resistem a experimentar o seu sabor na boca, o que resulta acidentalmente num grande da definitivo na língua de Belonísia, que para sempre fica sem fala, e depende quase exclusivamente da irmã para interpretar e comunicar os seus sentimentos e desejos. O Brasil, pois, no seu estado de silêncio perante a tragédia que é o seu mundo de vida naquela parte do país, assim como em muita da sua geografia ao centro e a sul, explorada por uma minoria sem consciência nem a menor solidariedade perante os que os mantêm ricos, poderosos e juízes não-oficiais de todo um povo. Esta de regresso, pois, a ficção de denúncia e protesto embrulhado na mais fina arte literária destes últimos tempos, pelo menos em língua portuguesa.

“Passou a fala para respirar, – escrevem as narradoras irmãs, que falam das primeiras duas partes do romance, e acaba com um narrador desconhecido, que tanto pode ser um homem como um ‘espírito’, segundo alguns outros leitores críticos – recuperando o fôlego consumido com as suas lembranças. Consumido pela responsabilidade de se apresentar para defender o que estava da dignidade do seu povo. Olhou para os filhos, atentos ao lado de Belonísia, que conservava o corpo muito próximo das meninas, como um animal a defender as suas crias. Nesse instante, foi tomada por recordações desordenadas que a levaram à imagem de Severo”.

A terceira narradora, segundo as próprias intenções do autor, é a consciência e memória de toda história daquele povo, e chama-se Santa Rita Pescadeira. Dona Miúda, que morreu, também passou a “encarnar” outra “encantada, uma das outras participantes nos ritos dos trabalhadores da fazenda, meio religiosos ou de crenças-outras e ancestrais, no sentido tradicional, com festa viva pelo meio. No fim da narrativa, quase já ninguém se lembra da última narradora, que conta toda a história daquele povo.

Severo teria sido o aseu primeiro amor à distância, acabando por casar com a sua irmã Bibiana, tendo abandonado a herdade para ir à luta com outros trabalhadores em defesa dos seus direitos. Esta fase do romance faz lembrar o movimento dos Sem Terra, esses que desafiaram e desafiam os poderes rurais e instituídos. Quando a narrativa chega ao fim, todos haviam conquistado alguma coisa, até mesmo a primeira escola para os seus filhos e filhas, mas a estrutura da sociedade brasileira permanecia segura nas mãos dos grandes senhores detentores da terra e da política local, cedendo aqui e ali para apaziguar ou evitar uma revolta maior. Permanecia o antigo racismo: os negros tentavam identificar-se com índios para usufruir certos certos “direitos”, que já vinham dos tempos coloniais e da independência que se seguiu em 1982. De resto, tudo permanecia na mesma, mas a crucificação dos nordestinos continuava por todos os meios possíveis, secretos ou em aberto. Torto Arado, para além de tudo que fica aqui dito, não é um romance tão-só de medo, mas sim da bravura e força de todo um povo que parece condenado para sempre, é uma outra “afirmação da vida” e da esperança em melhores dias ou tempo por vir. Faz por vezes lembrar, como o já disseram outros, a obra-prima que é Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Itamar Vieira Junior, leio agora da própria capa do livro, é natura de Salvador, Bahia, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos, “especialista sobre a formação de comunidades quilombolas”. Tem os livros publicados, especialmente de contos, A Oração do Carrasco, e publica nas mais variadas revistas literárias em países como os Estados Unidos e França. Querendo tudo isto dizer que a sua ficção, nunca deixando de ser arte pura, vem com muita investigação formal e conhecimentos pessoais. Torna-se não só num imenso prazer da leitura como nos coloca no centro de vidas esquecidas e desprezadas por quem as comanda desde há muito, e provavelmente ainda sem fim à vista.  É um romance perfeito das nossas vidas actuais, pelo menos simbolicamente e de outra natureza, um pouco por toda a parte.

___

Itamar Vieira Junior, Torto Arado, Lisboa, LeYa, 2019.

 

 

“Alma”, Portugal no seu melhor e pior

A minha mãe teve sempre para mim grandes desígnios. Quais eles fossem não sei. Nem ela própria o saberia. Era uma força que vinha de dentro dela, uma obstinação. Ela queria grandes coisas para mim, um destino, talvez um milagre.

Manuel Alegre, Alma

Vamberto Freitas

      Finalmente li o grande romance Alma de Manuel Alegre (Prémio Camões 2017, entre todos os outros grandes prémios literários portugueses ao longo da sua carreira), já na sua 16ª edição. Cada frase é um verso, cada passo narrativo um poema. Tem como tempo ficcional principalmente os anos 40, e a visão de um adolescente de 14 anos de idade e de uma família que o narrador diz ser “remediada” mas com boa vida, que testemunha a sorte de todos numa então pequena vila que dá o título ao livro, e toda a alegria e desgraça de um povo oprimido pela ditadura salazarista, romance símbolo de todo um país tanto ruralizado como citadino. Autobiográfico ou não, é toda uma “realidade” e um tempo que fica aqui brilhantemente retratado, ou então reinventa um mundo perfeitamente paralelo. Alma foi publicado originalmente em 1995, os anos em que eu andava totalmente dedicado à literatura açoriana e luso-americana, os meus anos da redescoberta das minhas raízes e estado existencial no meu país de origem após 13 anos na Ilha Terceira, onde nasci e me criei desenvolvendo já uma ideia das geografias físicas e humanas que desconhecia por completo, e depois 27 anos de América do Norte, onde me tornei homem, me formei na faculdade, seguidos de 14 anos no ensino secundário oficial da Califórnia. Um crítico ou ensaísta tem a obrigação de dizer de onde vem e como foi a sua mundividência foi moldada pela experiência pessoal e em directo. A literatura para mim nunca foi um acto meramente literário ou intelectual: foi o contacto possível com outros mundos desconhecidos, imaginados e sonhados, “realidades paralelas”, uma vez mais, que só nas artes têm a sua devida representação e que nos leva a um melhor entendimento tanto do artista como da comunidade a que pertence ou da pátria sua no seu todo dentro e fora de fronteiras delimitadas. Literatura e sociedade numa dialética constante. Há muito decidi elevar a obra e, quando é inevitável, castigar a sociedade de onde brotam as palavras em qualquer dos géneros literários cultivados pelo seu autor ou artista. Redescobri o meu país não através de formação e maturação ou revivências, mas sim através das letras. Quando, já nos anos 70, descobri e li com emoção Praça da Canção e O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, ou as suas determinantes visões que nos levam a perceber tudo um pouco mais certo do passado e prevemos um certo futuro de um povo mais ou menos livre e uma sociedade aberta, foi-me mais do que decisivo: foi a descoberta que eu pertencia a um país com grandes poetas, escritores e pensadores, e que eu em breve redescobriria a liberdade e a dignidade. Nada menos do que isso, para além da poesia já aqui mencionada, que devo repetir, e neste caso só parcialmente, a Praça da Canção. Só muito mais tarde, e já de regresso definitivo ao meu país, descobriria alguma da sua poesia dos anos mais recentes, Senhora das Tempestades, e prosa, com destaque no meu caso pessoal, para  Uma outra memória: a escrita, Portugal e os seus camaradas dos sonhos .Falta-me agora ler Jornada de África e a restante obra, que vem a seguir, toda sua escrita parte central do cânone literário definitivo e nacional.

     Alma, traz ainda como prefácio deste romance o texto de apresentação da primeira edição feita por Mário Soares, e que conclui com algo que me parece estranho: “Haverá a tentação de identificar Alma com Águeda”. Erro grave, julgo. Alma é um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado: Nunca soube muito bem porquê, mas os autores portugueses que conheço, pelo menos alguns deles, temem que interpretemos a sua ficção como sendo “autobiográfica”, ou como se isso diminuísse o seu alcance puramente artístico. Creio que foi Gabriel García Márquez que disse ou escreveu um dia que só se escrevia bem quando se escreve sobre que o melhor conhecemos, e esse conhecido sujeito-protagonista será cada um de nós. Até no ensaísmo não podemos fugir desse acto comunicativo. Neste caso de Alma, ainda por cima, vem assinado à mão no fim da narrativa por Manuel Alegre, depois de ele ter escrito “Águeda, 11 de Agosto de 1995”, e relembremos que o nome do narrador é Duarte Faria, sendo parte do nome completo do autor. O seu narrador é agora adulto e escritor que recorda a sua vida e a da família, assim como de toda vida do seu lugar naquele tempo, em analapses sustentadas que nos levam a vários períodos da nossa História nacional, mas concentrando-se insistentemente nos anos 40 durante e depois da II Guerra Mundial, também os dias implacáveis do salazarismo. Sua mãe, que ele relembra nas palavras que servem aqui de epígrafe, chama-se Mariana, e dedica-se exclusivamente a manter a casa da família em ordem, o seu único refúgio de quando em quando, é limpá-la quase psicoticamente ou em fúria para esquecer o que vai na rua. Seu pai, Lourenço de Faria, originário de uma velha aristocracia que havia entrado na História do país, mas agora recordada só esporadicamente, a sua vivência limita-se a andar de espingarda na casa ou na brincadeira no seu quintal quando há zangas especialmente com a sua mulher e os outros portas adentro, e ele manda tiros para o ar num acto mais de humor e nunca de raiva. De resto Alma vive do futebol e dos cafés, a discussão quase sempre em volta da perseguição da polícia secreta de Salazar, que a dada altura centra-se nalgumas personagens da vila, governada por um Antoninho Pena, figura sob o suspeito dos restantes cidadãos aqui representados. O narrador vai observando tudo, as euforias do futebol (com violência pelo meio durante os jogos, como que numa metáfora e espírito do tempo), e ainda mais o medo atávico do governo fascista que tanto intimida como prende, tortura e mata os seus opositores. Estamos geograficamente mais ou menos no interior do centro de Portugal, outro símbolo do restante país naquela época política, e era preciso “domesticar” um povo até então livre e que aparentemente preferia de longe o caos da Primeira República ao autoritarismo que havia tomado conta do Estado que de “Novo” tinha pouco, herdeiro do absolutismo multi-secular de todo o nosso passado na preferia da Europa. É difícil e impossível não fazer uma leitura do próprio autor em cada uma destas páginas fulgurantes, ora irónicas ora de humor, com a sensualidade de um adolescente perante as criadas lá de casa e outras mulheres.

“Parti – diz o narrador no fecho do seu romance – de camioneta para Lisboa, já no fim de Setembro. Não sei se a manhã estava cinzenta e triste ou se foi assim que ela se gravou na minha memória. Como saber o que é e o que não é, o que se inventa e acrescenta e o que se corta e encurta.

Senti um aperto na garganta ao passar a ponte. Olhei o rio, a nora, os salgueiros, os campos. Alma, dizia eu. Como quando era pequeno e dizia mãe”.

Alma é esse grade romance cuja adolescência já consciente ou entendimento precoce do seu lugar na sociedade era evidente, pormenorizada, em que cada detalhe nos leva a imaginar o seu dia-a-dia, as suas alegrias e medos, a sua indignação que mais tarde se converte numa vida de aventura e perigo. Não vale a pena falar aqui dos pormenores históricos ou do que foi após estas páginas, a sua entrada no liceu, a sua vida em Coimbra, a sua mobilização para a guerra em Angola e prisão, a fuga para a França, e eventualmente dez anos em Argel ao serviço da rádio da emissora Voz de Portugal. Basta lembrar as palavras da sua mãe fictícia que citei acima. Previa uma vida diferente e distinta. Foi concretizada em primeiro lugar na grande literatura da nossa geração, e depois na política. Este é um livro de ficção, sem dúvida. Só que para um leitor minimamente conhecedor do percurso do autor será impossível, uma vez mais,  não o associar a toda uma caminhada que fica, vai ficar, nos anais da nossa vida durante os piores anos de Portugal.

___

Manuel Alegre, Alma, Lisboa, Dom Quixote/LeYa (prefácio de Mário Soares), 2019.

 

De um mundo em caos e de um escritor que o vive e pensa

O espírito humano não é depósito de lamas e narcóticos/nem um peso cansado de uma castidade inefável/à deriva por abismos que se escondem atrás dos céus

Luís Filipe Sarmento, KNK

Vamberto Freitas

     KNK, as iniciais de Kant, Nietzsche, Kafka, o primeiro vindo do século XVIII e falecido no início do século XIX, e os outros dois já no princípio ou meados do século passado, é de uma audácia literária bem pouco comum entre nós, ou em qualquer outra língua. Luís Filipe Sarmento vê e vive um mundo que nos é comum, mas entende-o de formas muito diferentes e arrojadas: razão (pura ou não), emoção e contundência crítica, e logo depois na realidade absurda que vem de longe e se agrava nos nossos tempos. Tenho de confessar que é em Nietzsche e Kafka em quem mais me revejo e me percebo. Para o alemão Kant, sobre o qual a mítica diz que era tão racional e universalista, em que até os vizinhos acertavam os relógios pela passagem em frente às suas casas, tenho pouco conhecimento, e até medo: o germânico tão certo e racional, mesmo que universalista ou anti-nacionalista. Para com o ensaísta do absurdo mas sobretudo da emoção (Kafka) tenho outra reacção. Foi talvez o filósofo mais mal interpretado na história do pensamento ocidental modernista. Quando os nazis o reclamavam como seu suposto ideólogo, vinha ao de cima toda a sua ignorância de muitos desses seus falsos admiradores, incluindo o próprio Hitler. Quanto a Kafka, a sua linguagem poderosa, mas nunca ofuscada, não deixava dúvidas aos leitores mais perspicazes ou inteligentes. Nietzsche escreveu, por exemplo, que um dos sintomas dos intelectuais mais ignorantes eram ser anti-semitas. Com a mesma força escreveria que nunca tinha estado em África mas suspeitava que estava cheia de génios. A sua ideia do “super-homem” queria apena dizer que deveríamos assumir as nossas responsabilidades morais e de gente com força na luta pelo bem. Ainda quanto a Kafka, pouco terei mais a dizer. Era o pensador que através da palavra retratava o absurdo do seu tempo, cidade e condição de vida numa Europa já totalmente burocrática e sem rumo, a não ser a caça ao dinheiro e ao poder dos privilegiados. Vivia numa sociedade já sem razão pura ou crítica, para voltar a mencionar Kant. Kafka parece o Fernando Pessoa em todos os sentidos. Empregado numa empresa de seguros, mero gestor de contas e cartas comerciais, e talvez que o desesperava. Como Pessoa, ninguém por certo se amava verdadeiramente, ou eram todos e todas mero escape ao tédio e à raiva dos dias. Os dois, em vez da cama, escreviam cartas de amor, esse amor sempre e simplesmente falado ou escrito, mas nunca continuado. Uma vez mais, o artista da palavra consciente do absurdo do seu lugar e tempo, e só pela literatura escapavam ao desespero das suas circunstâncias e sorte de vida. Foram, todos eles, torturados pela sua própria inteligência e consciência. É esta a minha interpretação deste singular livro de Luís Filipe Sarmento, em que tudo vale a pena para além das suas linguagens, do seu estado interior que por si só nos retrata toda uma sociedade oca ou vazia, toda uma sociedade despida do seu próprio ser e crença.

Foi Edmund Wilson, que Harold Bloom viria a considerar o crítico canónico norte-americano do século XX, que escreveu o seguinte: primeiro, que a invenção do telégrafo transformaria toda a prosa, tornando-a mais compacta e directa; depois a prosa do modernismo literário iria conter em si toda a poesia até então limitada à forma de versos. Claro que exagerou, mas não na totalidade, como todos sabem, especialmente após a sua leitura atenta de James Joyce. A escrita luminosa de Luís Filipe Sarmento, para mim, está entre os dois géneros literários. Ao manifestar o seu interiorismo fica retratada toda uma sociedade, a nossa, em textos que ora são poemas puros ora prosa poética. Ele não se poupa nem a si e muito menos o mundo que o rodeia. Isto é literatura no seu mais profundo estado. Quando fala de si, fala de nós. Quando fala de nós, fala de nós todos. Os escritores ditos “malditos” existem noutras línguas e contextos sociais. Luís Filipe Sarmento faz-me lembrar um Charles Bukowski no seu melhor. Que a sociedade tome conta de si, que tomarei conta de mim. Ao dizer isto, diz tudo sobre a nação a que pertence. Insinua ainda mais: eu sei onde estou e à comunidade a que pertenço, mas não entrarei no seu jogo, na sua sujeira, e muito menos nos jogos literários que a justificam ou elevam os medíocres da moda. Por outras palavras, eu sou eu, e que fiquem com o que vos convém. KNK não tem complacências ante a cobardia ou os chamados costumes da sociedade. O escritor tem como lema a sua autenticidade, quer gostem ou não. É o que acontece neste livro. Poema a poema, prosa a prosa. Sociedade, homens e mulheres, o destino num determinado espaço nacional ou universal.

“Cria metamorfoses de ficções/onde aparentemente tudo lhe é indiferente/; ri do seu humor e, na distância, liberta-se/da ingenuidade que o traiu/no pavimento lamacento das larvas./De subalterno obscuro, a sua personagem/concebe logros, falácias, enganos/entre brumas sinistras que o divertem./Exclui-se, expulsando fantasmas viperinos,/e inclui-se, inimitável, no programa estético/que desmorona os pilares cobertos de peçonha./Ninguém o identifica, mas não esconde o nome,/porque tudo nele é novo, o seu processo/que tudo altera sem que a vida quotidiana/seja disfarçada. Sabe que as suas metamorfoses/o tornarão num ser humano, um plano/de que a literatura negra se faz rindo/para além de todos os projectos editoriais/infectados pela burocracia do poder obscuro.”

Sim, reconhecemos Kafka aqui de imediato, e muito provavelmente o autor de nome Luís Filipe Sarmento. Seja num poema, numa prosa, ou nos géneros juntos, existe em cada alusão no autor-outro um pouco ou muito de nós. São estes os chamados escritores “malditos”, repita-se, nas mais variadas literaturas, os que dizem em voz alta ou serena as misérias que todos vivemos e sentimos nos espaços sem convivência. O chamamento a estes três génios da escrita ocidental em KNK tem tudo a ver com os nossos dias presentes. Serão estes, digamos também assim, os escritores que no futuro passam de uma certa marginalidade para o centro do cânone. Em Portugal já aconteceu a outros, e repito o nome de Fernando Pessoa, como o de Mário Sá-Carneiro, entre alguns outros que fizeram da revista Orpheu, uma das mais consequentes e douradoras publicações que relembra e se integra na poesia universal. A desatenção da fúria ignorante de muitos dos nossos periódicos literários e generalistas só lhes condena a arquivos que poucos consultam, as páginas que pouco ou nada significam. A “prosa” em forma de poesia de Luís Filipe Sarmento vai permanecer como um testemunho de um tempo que um dia será lido, pensado e relembrado, com espanto e admiração. Isto acontece em vários países, mas os de língua portuguesa quase entram no êxtase da sua indiferença, privilegiando os escritores estrangeiros, que também devem ser lidos, mas nunca tomando o lugar daqueles que connosco vivem o drama de um país permanentemente no esquecimento ou na sua auto-desvalorização.

Algo mais sobre KNK: é precisamente sobre o estado vivido e o sentir íntimo, o do interiorismo do escritor, que passamos a ver como num quadro de mestres (tão diferentes como um Picasso espanhol ou um Edward Hopper norte-americano), toda uma sociedade tanto na sua violência escondida ou aberta, como na sua solidão. De amores e sobretudo de desamores vive a maioria da humanidade. Luís Filipe Sarmento escreve brilhantemente sobre a condição humana em que nos encontramos, não só de agora como de sempre. A sua escrita, por ser tão pessoal, torna-se, uma vez mais, universal por nos colocar no lugar desta e das mais longínquas geografias e culturas. Este não é um livro para todos, é para quem saber ler o que está escrito, e ainda mais o que fica por dizer nas entrelinhas. A grande literatura, em qualquer uma das suas formas ou géneros, é a que fica. Como num quadro de Jackson Pollock, que à primeira vista parece sem sentido. Olhem para os detalhes, e de lá sai toda a angústia e mensagem do artista. Este livro de Luís Filipe Sarmento faz algo de semelhante. Cores e coração em ebulição. Eis a sua beleza ou, se preferirem, a sua mensagem.

___

Luís Filipe Sarmento, KNK, Poética Edições Braga, 2019. Publicado no Açoriano Oriental a 24   De Maio, 2018.

 

De Mim E Do Destino

Quinhentos anos solitários de civilização profundamente portuguesa a meio Atlântico não permite, supõe-se, leviandade perante fenómenos historicamente tão ricos num pequeno e quiçá precário país (e nação geograficamente repartida como o nosso).

Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas.

Vamberto Freitas

     Tal como o meu país de nascença, também tenho eu, como milhões dos meus conterrâneos, andado repartido pelo mundo. Nasci na freguesia das Fontinhas, da Ilha Terceira, onde vivi apenas 13 anos. Depois em 1964 emigrei com toda a família para a Califórnia onde vivi 27 anos, e lá me formei academicamente e aonde guardo as melhores memórias e toda a ajuda que me deram na faculdade e noutras situações. Em 1991 voltaria aos Açores, para sempre, para a Ilha de São Miguel, onde já vivo há 28 anos. Por outras palavras, já vivo na minha ilha adoptada há mais tempo do que em qualquer lugar. Voltei e permaneci sempre aqui por amor a uma mulher, com quem vivi todo este tempo. Encontrei nesta ilha só amor, amizade e afecto. Mas desde muito cedo, ainda na Califórnia, alguns dos meus mais fiéis amigos são de cá, dos Açores como Diniz Borges, Álamo Oliveira, Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais tarde Mário Mesquita, e um pouco mais recentemente José Ernesto Resendes, que dedicou um belíssimo cartaz à Adelaide no dia do seu funeral, e é o meu editor. Outros ainda me demonstraram sempre lealdade e carinho, apoio na minha vida de autor de livros ou crítico, muitos deles do Continente. Não vou mencionar todos os que me deram apoio nesta ilha, mas dois nomes são inevitáveis: Urbano Bettencourt (natural da Ilha do Pico) e o recentemente o falecido Carlos Cordeiro, também meu colega na Universidade dos Açores, e que foi o primeiro a mostrar-me São Miguel à noite. Desço aos Cafés do Pópulo (onde vido vai para 28 anos, e serei o residente mais antigo) e encontro a mesma proximidade e respeito, sinto-me em casa por inteiro. Depois do falecimento da minha mulher Adelaide Freitas perguntam-me com frequência se vou voltar à Terceira ou à minha casa da Costa da Caparica. Não. Nem à América, mesmo com cidadania de longa data. Nunca deixarei esta minha ilha a oriente do arquipélago, nunca deixarei todos aqueles que me deram abraços e deixaram correr uma lágrima. Como alguém já escreveu, a tua terra é onde está o teu coração. Desde a Universidade dos Açores, a partir do ano de 1991, onde sou Leitor de Língua Inglesa, a todos que aqui já mencionei, assim como a muitos outros que também estão meu coração, traçaram o meu destino de vida. Que vida para além dos desgostos e saudades dos nossos, idos ou vivos em várias partes do mundo. Passei por São Miguel a primeira vez em 1964, quando eu e toda a família viemos a exames médicos e ao consulado americano a caminho da América. Nunca tinha visto uma outra ilha, e daqui partimos no navio Ponta Delgada para Santa Maria para o então longo voo rumo ao outro lado do Atlântico e Pacífico. Vivi um ano e pouco na Vale de São Joaquim, e depois meu pai, Daniel Freitas, decidiu tentar a sua sorte no Sul da Califórnia, numa pequena cidade chamada Chino. Fiquei fascinado com esta cidade pelo seu dinamismo, em comparação com a outra que conheci na Terceira quando ingressei no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo. Não podia adivinhar que um dia acabaria aqui para sempre, feliz e sentindo-me em casa, uma vez mais.

A minha dedicação à Literatura Açoriana vem de longe, dos anos 70 quando comecei a escrever para o Diário de Notícias ainda naqueles anos, e lá permaneci por um longo tempo, até 1994. Durante esses anos, e pela mão de Onésimo Teotónio Almeida (um dos meus primeiros mentores), comecei a ser convidado para participar nos Encontros de Escritores da Maia, que tinha Daniel de Sá como figura principal, ao lado de Afonso Quental, Urbano Bettencourt e Carlos Cordeiro. Foi em 1990 que conheci a Adelaide depois de eu ter feito uma comunicação sobre a obra de João de Melo. Mais uma vez, o destino estava irremediavelmente traçado e decidido após o meu regresso da Califórnia. Tenho um livro inédito da nossa correspondência constante, intitulado Amor e Literatura: Regresso a Casa. Farei sair um dia destes, mesmo que possa doer a alguns escritores e a outros em vida pública, mas a maior parte fala das nossas vidas e do que viria a seguir. “Continuo – escreve-me ela a dada altura — com uma grande “ferida” no olhar… E mais não digo, sob pena de lhe retirar a poesia. Ando inteiramente desorientada… numa espécie de estado de graça – pleno, sem dúvida, mas um tanto sofrido”. Nunca nenhumas palavras me disseram tanto, nunca nenhumas palavras descreveram o meu estado de espírito, mesmo que tenha o apoio e o carinho da minha companheira que a acompanhou durante os últimos cinco anos da sua vida, e evitou que ela fosse para um dito lar ou clínica. Como diria Faulkner, e que eu já citei muitas vezes “o passado não é passado, nem sequer é passado”. A inveja é um mal maior, e sempre o senti, antes, agora e depois. Vivemos até ao fim o que o destino nos guardou, uma vez com lágrimas outro com um sorriso de estarmos vivos e a fazer o que devemos fazer pelos outros. E se fosse possível regressar ao passado, eu não queria. Agradeço aos meus pais e ao meu cunhado Dimas e Mary Jane Valadao, todos residentes de longa data na Califórnia, e que tanto me ajudaram. Agradeço aos meus professores na faculdade a sua total dedicação, e que me abriram um futuro, se não brilhante (não foi culpa deles), pelo menos competente e cheio de confiança. Três nomes significantes na minha vida académica: Nancy T. Baden, Michael Holland e William Koon. Ensinaram-me tudo: primeiro em Estudos Latino-Americanos e Literatura Brasileira e Portuguesa (incluindo a açoriana), e depois em pós-graduações sobre a Literatura Americana e comparada, com especialização em Inglês. Penso neles quase todos os dias. Não haverá melhor elogio a qualquer professor, e a qualquer nível do ensino público. Cá e em toda parte.

Por certo que encontramos pelo caminho os escroques de sempre, mas é só passar ao lado, desprezar, esquecer. Lembremos sempre quem nos fez bem, e faremos o mesmo aos outros. Vejo com alegria e gratidão os meus colegas e amigos quase todos os dias. Quanto mais se engrandecem nas suas vidas, mais me engrandecem a mim. Os seus triunfos e felicidades são as minhas também, com eles partilho o que de bom nos traz a vida, com eles partilho as suas dores familiares ou profissionais. O resto não interessa nada. Quando alguém que não nos topa se desvia de nós, deveremos agradecer a delicadeza e o bom senso. A vida é nossa, mas quando partilhada é infinitamente mais rica e feliz. Termino com uma auto-citação publicada numa entrevista no Correio dos Açores, em 2001, e há muitos anos reproduzida num livro meu editado pela extinta Salamandra, Jornalismo E Cidadania: Dos Açores À Califórnia.

“O que vale realmente a pena? Viver. Amar a vida, amar os que nos amam. Tentar, sempre, a felicidade (é um dever sagrado). Sorrirmos ante as coisas boas e bonitas. Agradecer a Deus a saúde e o bem-estar. Ser generoso. A luta civilizada por estes ideais. Estender e anunciar a partilha total a todos os outros que o queiram e o mereçam”.

___

Este texto é começo de um novo livro que tenciono escrever em prosa de fôlego depois de completar borderCrossings: leituras transatlânticas 5. Publicado no Açoriano Oriental, 15 de Março, 2019.

 

 

 

De traduções da literatura portuguesa em inglês nos Estados Unidos por um grande mestre de nome Gregory Rabassa

Mencionei nas primeiras páginas que uma fonte de descoberta dos livros para traduzir foram-me enviados por antigos alunos. Recebi da Adelaide Monteiro, de quem fui professor e depois ela deu aulas na Universidade dos Açores durante vários anos. Folheio o livro com um sorriso, e vi o ovo-dinossauro tal como tinha visto em Cem Anos De Solidão… soube logo que estava perante algo de especial…

Gregory Rabassa, If This Be Treason: Translation And Its Dyscontents

Em memória da Adelaide Freitas e de Gregory Rabassa

Vamberto Freitas

     Poucos autores portugueses têm sido felizes nas suas traduções para inglês, como o foram António Lobo Antunes e João de Melo, e alguns brasileiros como Jorge Amado. Sobre o primeiro mencionado aqui não direi nada. Um dia, por mero acaso, vasculhava numa livraria do Sul da Califórnia e encontrei South of Nowhere (1983), a tradução do romance de António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979). Tinha lido o original em Português, mas estava longe de relacionamentos tão chegados entre Elizabeth Lowe, e que anos depois traduziria Feliz Com Lágrimas/Happy People In Tears (de quem falarei aqui noutra ocasião) e Adelaide Freitas, que não traduziu mas era então então conhecida por uma espécie de pseudónimo, April Monteiro. Não podia adivinhar que tinham sido e permaneceriam amigas depois de serem alunas do grande mestre Gregory Rabassa na City University of New York nos anos 70. Num dos Encontros de Escritores na Maia (São Miguel), em 1990, eu faria uma comunicação sobre o romance de João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino, que tinha lido fascinado no meu esconderijo californiano. Quando acabei a minha comunicação, a Adelaide veio ter comigo para me dizer do quanto se identificava com as minhas palavras. Conversa puxou conversa, e quando ela me disse que tinha uma grande amizade com Gregory Rabassa não tive meias palavras: e você ainda não lhe enviou o romance sublime de João de Melo? Disse-me logo: que grande ideia. Então envie o mais breve possível, disse-lhe eu. No ano seguinte Adelaide e eu apaixonamo-nos, o que resultaria na minha vinda permanente para São Miguel em agosto de 1991. A nossa relação foi sempre de amor e literatura. Por entre toda a nossa correspondência, que um dia será também publicada, ela recebe uma carta de Gregory Rabassa, um pouco antes de vivermos juntos aqui no Pópulo, em São Miguel, talvez o único tradutor americano que teve honras de um ensaio na revista Time. Tenho de reproduzir aqui essa carta no original, seguida da minha tradução.

“Dear April [o mês do nascimento da Adelaide]:

Thank you so much for sending me the two novels by João de Melo. I have now finished O Meu Mundo… It has been a long time since I have read anything so exciting in a novel. I am still not sure whether to place him along side García Márquez or Faulkner. He has the qualities of both and at the same time is absolutely original. I also find that the ‘insularismo’ of the Azores underlies so much of what he has written in the novel. I have spoken about him to a lot of people and there is great interest. When I say that I’ve discovered the new García Márquez all ears prick up. I am going to have lunch soon with the editor of the Jorge Amado translation I am working on and she wants to hear more about the novel. She is at Banter Books, which is now part of Doubleday-Dell-Bantam, an importante publisher. As for myself, I would very much like to translate the novel and I think I can do it after I finish with Jorge, which should be this summer. In the meantime I will try to do a translation of a few good pages as a sample. Please talk to Melo and ask him what he thinks about this… for a big commmercial house or put him in touch with me. Let me know if he wants me to try to get a publisher. I think that a book like this is material for a big commercial house and not the U. of Florida Press as I first mentioned. I see possibly a best seller à la García Márquez and Umberto Eco. In many there’s a richeness here that neither of them has to such a full extent. Although I have only started Gente Feliz…, so far I prefer (as does the author)… Mundo … I’ll know better when I finish it.

The academic year has now come to a close and I am able to put more time into writing, so I ought to be able to speed things up. Do let me know what you and Melo think of what I envision for the novel and in the meantime I shall keep on talking about it and talking it up. I hope that all goes well with you and yours.

Um abraço,

Gregory Rabassa

PS: I just got a copy of Fado Alexandrino in my translation and it should be officially out in a few weeks. I await the reviews and hope they will be favorable.

(3 de Junho 1990)

__

Muito obrigado por me teres enviado os dois romances de João de Melo. Acabei de ler O Meu Mundo… e comecei a ler Gente Feliz… fiquei absolutamente espantado com o primeiro, Mundo… Passou já muito tempo desde que eu tinha lido algo tão maravilhoso num romance. Ainda não estou certo se o coloque ao lado de García Márquez ou Faulkner. Ele tem a qualidade dos dois e ao mesmo tempo é absolutamente original. Também descobri que o ‘insularismo” dos Açores fundamenta muito do que ele escreve no romance. Tenho falado com muita gente sobre o grande interesse disto tudo. Quando digo que descobri o novo García Márquez eles ouvem com toda a atenção. Vou almoçar em pouco tempo com a editora das traduções de Jorge Amado em que estou a trabalhar e ela diz-me que quer ouvir mais sobre este romance [do João de Melo]. Ela está ligada a Banter Books, que fazem agora parte da Doubleday-Dell-Bantam, uma importante editora. Pela minha parte, gostava muito de traduzir o romance e acho que poderei fazê-lo depois de acabar com a tradução do Jorge [Amado], que deve ser já neste verão. Entretanto, vou tentar traduzir algumas das melhores páginas [de João de Melo] como amostras. Por favor fala com o João e pergunta-lhe o que acha disto. Ou então coloca-o em contacto comigo. Diz-me se ele quer que eu entre em contacto com editoras. Creio que um livro como este é uma obra para uma grande editora comercial e não para uma Florida University Press tal como mencionei no início. Em muitos aspectos, há aqui uma riqueza literária para um best-seller à lá García e Umberto Eco. Em muito deste romance há uma riqueza que nenhum dos outros atingiu em cheio. Mesmo que só tenha começado Gente Feliz… até agora sinto o mesmo (como sente o próprio autor) de Mundo… saberei algo mais quando o terminar.

O ano lectivo acaba de terminar e terei mais tempo para escrever, vou conseguir adiantar muita coisa. Deixa-me saber o que pensas e o que pensa Melo do que tenciono fazer com este romance, e, entretanto, continuarei a falar contigo sobre tudo isto, e sempre em termos de grande admiração. Espero que tudo esteja bem contigo e com os teus.

Abraço,

Gregory Rabassa.

PS: Acabei de receber um exemplar de Fado Alexandrino na minha tradução e sairá em poucas semanas. Espero que receba recensões favoráveis.

3 de Junho, 1990.

Por falta de espaço, falarei noutra coluna sobre a grande colega e amiga da Adelaide nas aulas magistrais de Gregory Rabassa em Nova Iorque numa outra coluna, a tradutora de João de Melo (Happy People In Tears) e de South of Nowhere/Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes). Elizabeth Lowe merece a nossa homenagem.

__

Gregory Rabassa, If This Be Treason: Translation And Its Dyscontents, New York, 2005. Coloquei os livros de João Melo em itálico. Gregory Rabassa, em inglês só os escreve em letra maiúscula. As traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado no Açoriano Oriental, 8 de Março, 2019.

___

Sobre Eugénio Lisboa e Aperto Libro

Neste momento da história, dá-se isto de curioso: o ocidente desintegra-se e os bárbaros estão à porta, mas desta vez os bárbaros também se desintegram.

Eugénio Lisboa, Aperto Libro

 

Vamberto Freitas

     Reconhecerão todos que as palavras no novo diário de Eugénio Lisboa, que esta prosa, uma em todas entradas em Aperto Libro: Páginas de Diário I 19977-1990, inclui uma paráfrase do grande poeta grego Konstantinos Kavafis, “Os Bárbaros estão à porta”. Este não é um texto sobre o poeta grego nascido em Alexandria onde viveu desde 29 de Abril de 1863 a 29 de Abril de 1933, com uma passagem pela Inglaterra durante sete anos, mas de todo pertinente à vida que Eugénio Lisboa nos conta neste seu diário. Avesso a todas convenções sociais, Kavafis teve a sorte de passar a maior parte da sua vida numa cidade que era então cosmopolita, e tolerava tanto “estrangeiros” como estilos ou orientações de vida. Difícil acreditar hoje, pelo que se passa naqueles mundos muçulmanos, mas era assim. A questão que quero realçar aqui é muito simples e ao mesmo tempo complexa. O grande ensaísta e poeta português nascido em Moçambique, Eugénio Lisboa, e lá parcialmente formado, tem vivido realidades que se não são semelhantes, dão-nos uma ideia de como é ser o outro em terras bem diferentes mas com uma visão assustadoramente semelhantes, tanto em ambientes históricos como nas visões de mundos em colapso: ante civilizações bem formadas e históricas, espreitam sempre os seus inimigos, ou “bárbaros”. Já escrevi muito sobre os outros diários de Eugénio Lisboa, e não queria aqui repetir o seu percurso desde Lourenço Marques, onde nasceu em 1930, até aos dias presentes em que continua a escrever as suas memórias nesta forma literária. Basta só dizer que a História é uma contínua luta entre a decência política e a barbaridade, mesmo que este volume, vindo no seguimento de outros mais, é feito de páginas fulgurantes, por vezes felizes, por outras de ajuste de contas – com Portugal, com os seus escritores, com a sua sorte de vida. Ficamos com a ideia de que o autor viveu por inteiro todas as suas andanças, desde as origens africanas e a sua vida em países europeus após o 25 de Abril de 1974, Suécia e muito especialmente a Inglaterra, onde foi Conselheiro Cultural da nossa Embaixada durante 17 anos até regressar a Lisboa e ser nomeado Pesidente da Comissão da UNESCO nos anos 1995-1998. Pelo meio, fica e ainda existe uma vida literária sem par entre nós. Não exagero nada aqui se disser que ele é o mais erudito e conhecedor da literatura ocidental entre nós, e um dos mais acutilantes críticos de muita da nossa fraudulência artística, a todos os níveis. “Sem medo nem favores”, escreve consistentemente ora em termos elogiosos ora na denúncia dos que a nossa imprensa ignorantemente eleva ao sétimo céu como génios, e que ele considera meros impostores na literatura e nas outras artes.

Primeira informação sobre a sequência dessas memórias de Eugénio de Lisboa. Publicou cinco volumes (todos sob o título Acta Esta Fabula, que nos trazem até 2015, e depois fez sair mais um diário simplesmente intitulado Epílogo, que trata quase exclusivamente sobre a doença e a morte da sua mulher de sempre, Maria Antonieta, falecida há poucos anos. Foi o único livro sobre o qual não escrevi, a dor de o ler tinha a ver com a dor que eu próprio estava a passar com a minha própria mulher, também no fim dos seus dias. A literatura é para mim razão, estética e emoção. Foi um desses momentos nas nossas vidas. Só que este Aperto Libro trata, digamos assim, os anos da sua fulgurância pessoal e literária. Lê-lo foi como fazer um seminário pós-graduado como se fosse nos seus anos de Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro. Eugénio Lisboa não só dá conta do seu dia-a-dia em Londres e noutras partes, fala-nos brilhantemente das suas leituras, que me reduzem à minha insignificância nos meus dias aqui nos Açores. Seria ocupar espaço maior se enumerasse as suas leituras, as suas idas ao teatro e a galerias de arte, aos seus encontros com os melhores dos nossos escritores, e outros, muitos outros, um pouco por toda a parte. Eugénio Lisboa não é só um dos nossos maiores poetas e mais elucidativos ensaístas, é ainda quem analisa, opina e sentencia. Sabemos todos da sua devoção à obra de José Régio, Jorge de Sena, Rui Knofli, entre muitos outros, que conviveram com ele durante quase toda sua vida fora de Portugal. Alguns dos seus passos mais deliciosos são os que respondem a outros e os comentam, por exemplo, Mécia de Sena, Vergílio Vieira ou Eduardo Prado Coelho, por quem cultivava um cómico desprezo. Há outros mais, mas ficam para quem quer ler o livro, ou livros dele. Não conheço mais nenhum ensaísta sério ou crítico entre nós com tanta coragem. Ainda há pouco tempo deu uma “tareia” descomunal no António Lobo Antunes, como dava no José Saramago. Podem alguns leitores não gostar, mas nenhum deles ficará indiferente. Eugénio Lisboa cita constantemente os mais variados escritores europeus. Não pede auxílio, apenas reconfirma as suas opiniões. O espaço literário deste autor não tem nação nem sequer língua: tem a arte suprema, venha de onde vier, como alvo de beleza ou desprezível.

“Chega-me às mãos – diz o autor numa entrada de 1989 – o incrível número de A Semana Ilustrada, dedicado às proezas sexuais do arquitecto Taveira. Tão sórdido como o arquitecto é o texto da revista. Mas, daquilo tudo, sobressai, quanto a mim, um facto pífio: Taveira não passa de um exemplo extremo da cultura yuppie, que invade cada vez mais o horizonte ‘cultural’ do nosso país. Gente sem maneiras, sem cultura, sem finura moral, boçal, sem valores e perfeitamente impregnada pelo que há de pior, de mais torpe e de mais possidónio na cultura anglo-americana. Os valores que visa um Taveira e tantos outros de similar jaez são os que pululam nos “romances” de uma Joan Collins e autores desse calibre”.

Se mencionei aqui o passo de Eugénio Lisboa no início de Cavafis, não foi sem mais nem menos. Eugénio Lisboa sempre leu a literatura portuguesa com admiração e céptcismo, chamando a atenção para a tribo lisboeta de mútuo elogio e promoção tanto dos grandes como dos medíocres. Ao contrário deles, e precisamente porque tinha origem fora de Portugal continental, soube ver ao longe e de perto os que de facto escreviam grande literatura e os que eram elevados a patamares superiores sem qualquer qualidade ou justificação. Nunca teve medo de uma polémica pública ou de insultos gratuitos vindos de qualquer natureza ou voz indígena. Avaliou sempre toda a escrita em língua portuguesa publicada em toda a parte, desde Hélder Macedo a outros muitos nomes, que só lendo o seu livro tomarão conhecimento. Tanto dizia o melhor dos escritores e artistas de fora, como elogiava os de casa. Escrever assim só me faz lembrar um Edmund Wilson, que começa por introduzir os modernistas da sua geração superior nos 20 em Nova Iorque, como furando a pretensiosidade (em pessoa, e num apartamento em Nova Iorque) de um T. S. Eliot, que regressava à América de Londres pela primeira vez armado em sabedor sobre tudo o que era “cultura” e “poesia”. Tal como Wilson, que o elitista Harold Bloom haveria de apontar no seu Cânone Ocidental como o crítico canónico da literatura americana no século passado, Eugénio Lisboa vai à cabeça dos mais pretensiosos e vaidosos sem razão em Portugal, chamando-os pelos nomes que mereciam. “O congresso – escreve o diarista a dada altura no ano de 1988 – sobre Pessoa teve de tudo. Até o Vergílio Ferreira a descobrir que ninguém ainda tinha tocado em dois pontos importantes relativamente ao Pessoa: o ‘fingimento’ e a ‘pluralidade do seu eu’… Será aterosclerose’?

Ninguém escreve entre nós com esta frontalidade e coragem. Quase tudo o resto são asneiras, mentiras ou favores aos escritores da moda em qualquer época. O que Eugénio Lisboa disse sobre António Lobo Antunes, que havia feito umas declarações estapafúrdias a um grande jornal espanhol, ficará como um exemplo perfeito do que tenho dito aqui.

 

__

Eugénio Lisboa, Aperto Libro/Páginas de Diário I – 1977-1990, Guimarães, Opera Omnia, 2018.  Publicado no Açoriano Oriental em 1 de Março, 2019.

 

A literatura nos Açores nos nossos dias

O conceito realiza-se num espaço de grande tradição literária. Isso diferencia-nos. O Arquipélago de Escritores é descendente das tertúlias dos anos 40 no bar Jade e dos Encontros da Maia, realizados entre 1988 e 1991. E parente de todos os encontros que acontecem e aconteceram no espaço açoriano.

Nuno Costa Santos, Director da revista Grotta, recentemente apresentada em Ponta Delgada no seu 3º número anual.

Vamberto Freitas

     Nuno Costa Santos já tinha um nome de autor marcante antes de começar a revista literária Grotta. É o autor de pelo menos dois livros de grande qualidade e pertinência literária tanto no continente como nos Açores: os contos dez regressos, de 2003, e o romance muito mais recente Céu Nublado com Boas Abertas, de 2016. Desde 2016 que dirige com sabedoria e critério literário implacável a revista Grotta, cujo 3º número foi lançado no primeiro grande festival literário nos Açores entre 15 e 18 de Novembro deste ano, por ele dinamizado e organizado, um evento sem precedentes nas ilhas que juntou escritores de todos o países e ainda do estrageiro, inclusive do Brasil e dos Estados Unidos, neste caso romancistas e jornalistas de renome. Não vou falar em nomes porque são muitos e cada um mestre na sua área de escrita. Só um pouco de história destes três números da revista. Parece-se uma The Paris Review (no seu novo formato), a revista mais prestigiada no mundo anglo-saxónico pela sua audácia intelectual: tanto publica os mais conhecidos ou famosos escritores de toda a parte (este 3º número traz, por exemplo, um dossiê de poeta galegos) como lança os mais novos que escrevem em todos os géneros. Cada número da Grotta distingue-se, portanto, pela variedade de géneros, e sobretudo por uma extensa entrevista a romancistas, poetas ou outros artistas da palavra, tanto do nosso arquipélago como do resto país. Dito ainda de outro modo, dá prioridade a escritores e poetas açorianos que fizeram a sua carreira no Continente ou optaram por permanecer aqui neste seu lugar de nascença, ou ainda a escritores clássicos da literatura lusófona. Grotta dá continuidade a um inúmero de revistas pensadas e publicadas cá ou lá fora, desde A Memória da Água-Viva de Urbano Betttencourt e José Henriques Santos Barros à Revista do Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, Boletim do Instituto Cultural da Horta, magma (Pico) a Gávea-Brown (Brown University). Isto só para mencionar algumas das mais influentes publicações para a minha geração.

Nuno Costa Santos pertence à geração literária que nos segue, uns residentes nas ilhas, outros no Continente, e ainda outros na diáspora. O seu conhecimento e vénia às gerações mais velhas é um acto de erudição, cultura e respeito. Sei bem que somos referências suas, sei do respeito que ele e outros dão à continuidade que nos desejam na literatura nos Açores e na nossa luta por uma identidade própria adentro do país português. Este 3º número da Grotta é mais uma prova. Abre com um texto de Emanuel Jorge Botelho, que foi justamente homenageado neste encontro Arquipélago de Escritores, e segue com uma longa entrevista e alguns poemas dele, aliás maravilhosamente traduzidos pela professora da Universidade dos Açores, Kathleen Judith Mundell Calado. A entrevista foi conduzida por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto. As respostas de Emanuel Jorge Botelho são poemas de outra forma. Contido, mestre da palavra certa no lugar certo, emotivo e racional, combina o amor à sua cidade de Ponta Delgada com o seu destino vivido, pensado e sentido. Ler Emanuel a ler-nos a nós próprios, ou então desejar que estas palavras fossem também nossas. Sublime, e nada menos esperava dele numa conversa como esta.

“Não sei – diz o poeta à pergunta sobre o que lhe liga de modo íntimo à sua cidade de nascença e vivência até hoje – o que a diferencia porque o meu não viajar impede-me o elaborar de comparações. O que é bom, convenhamos. As comparações são, como nos diz a sabedoria chinesa, odiosas. Ponta Delgada é o rosto – cheio de feridas e cicatrizes – de cada um dos meus dias, o chão, liso, da minha vida… O encanto de Ponta Delgada está na memória que tenho dela. Porque Ponta Delgada é um nome que soletro com alegria dos regressos… Era uma vez uma cidade que morava no meio do Mar…”

Para ser absolutamente honesto, este número da Grotta tocou-me de modo especial, nomeadamente também por um ensaio maravilhoso da escritora Ângela Almeida sobre a obra de Adelaide Freitas, prosa e poesia. Ver a obra da Adelaide assim reconhecida é para mim mais do que uma alegria – reaviva-me a memória e a saudade, os estados de alma mais profundos e significantes em qualquer ser humano. Ângela escreve com carinho e racionalidade, redefiniu-me muitos aspectos e passos na prosa de com quem convivi durante mais de 27 anos, e li linha a linha os seus livros, que aliás vão ser todos reeditados. Ver um trabalho destes, tão lúcido e esclarecedor foi-me um momento de redescoberta e mais aproximação, se é que isso é possível. Que a revista Grotta a coloca na capa, juntamente com a obra de João de Melo foi ainda mais gratificante. João nasceu na Achadinha quase ao lado da casa da Adelaide, nasceram no mesmo ano, foram colegas de escola, dois andarilhos no mundo e dois escritores. Resisto aqui ao sentimentalismo, mas nunca à saudade e ao respeito pela obra dos dois. João vive em Lisboa, mas está sempre presente, em todos os sentidos, e espero ansiosamente o seu próximo livro.

“O texto de Adelaide Freitas – escreve Ângela Almeida — tem como centro agregador a casa onírica, que, sem dúvida, é um tema muito mais profundo do que casa real. Por isso mesmo, a casa onírica devolve-nos as imagens da intimidade, que se alojam no inconsciente e constituem o universo subtextual simbólico, onde se desnuda a estilística. É neste contexto universal total — the psyche is a conscious unconscious whole – que encontramos a significação completa do texto. Em casa onde tudo é inteiro, a família, a terra, o mar.”

De resto, Nuno Costa Santos, quer, repito, em obra literária própria quer na criação desta revista Grotta já fez história literária entre nós. Vou-me repetir. Vindo desta geração que nos vai seguir e dar continuidade traz-me a mim e a muitos outros um certo sentido de missão cumprida, e ainda mais a gratidão pelo seu trabalho. Nunca a “distância” diluiu a sua açorianidade e o apego à sua tradição intelectual, mesmo que a maior parte do país nunca dê por isso, nem sequer nos tem no seu imaginário criativo, ao contrário de nós, que para além da nossa nação temos todo o mundo lusófono nos nossos pensamentos. Tanto faz. Quem perde são os ignorantes, arrogantes e atrevidos. Que venham cá, preferivelmente em dias de chuva e bruma. E deixem de vez as nossas ruas mais livres e o ambiente limpo, as vozes mais baixas nas nossas esplanadas.

__

Grotta/Arquipélago de Escritores, número 3. Direcção de Nuno Costa Santos e coordenação editorial de Diogo Ourique, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições/Nova Gráfica, 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 15 de fevereiro, 2019.