Da linguagem como parte do nosso ser e estar, da crónica como arte

…É desse parapeito que me debruço sobre o mundo e foi nas dimensões desta janela que aprendi a moldar a realidade e a ser parte dela.

Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra

Vamberto Freitas

Se há um livro que nos faz conhecer a sua autora em toda a sua dimensão interior assim como o seu lugar de nascença e eleição afectiva, Crónicas da Minha Terra, de Paula Cabral, natural da freguesia do Pico da Pedra, aqui em São Miguel, será por certo um deles. Claro que me vem de imediato à mente Viagens Na Minha Terra, de Almeida Garrett, mas isso não é chamado para aqui, nem eu pretendo qualquer simetria ou outras comparações neste espaço. Queria só dizer que lendo este seu primeiro livro, que reúne alguns dos seus escritos, quase todos eles curtos mas incisivos, escorreitos, onde cada palavra ou nome de “personagens”me parecem ou me lembram uma metáfora do nosso mais profundo ser ilhéu numa contínua “viagem para dentro” e para o mundo é ficar além do prazer que os textos nos proporcionam. Li-o como quem lê uma narrativa meio ficcional meio ensaística, completa no retrato, uma vez mais, da autora desde a sua mais tenra idade até ao seu presente (é professora numa escola do ensino secundário aqui na sua ilha), ficamos a conhecer cada rua dessa sua terra natal, e ainda mais de cada um que se atravessam na vida. Sem surpresa para mim, como não será para qualquer açoriano, a outra grande presença nesta prosa é a América, vista ao longe e de perto, através dos seus cheiros em sacas de roupa outrora enviadas para cá, ou ainda mais pelas visitas de familiares e amigos em tempos de festa ou de outras ocasiões ditadas pela vida. De início, nenhum destes textos trazia qualquer título, como se a autora nos quisesse sugerir uma história com princípio, meio e fim, e é assim que estas páginas funcionam.

A minha leitura foi num manuscrito, e espero que se mantenha nesta estrutura de “ensaio” ou “imaginação” do que fora os seus anos de crescimento e formação entre os seus, que tanto podem ser os seus pais e irmãos como a figura vista pela janela na entrada e saída de um café central ou da igreja mesmo em frente. A ilha, aqui, não um mero pedaço de terra rodeada de mar todos os lados – é o mundo inteiro vivido ou fantasiado pela autora. Não haverá também muitas outras freguesias como o Pico da Pedra, que pelo menos durante todo este século foi berço de nascença de tantos grandes escritores, hoje de nome nacional pelas suas grandes obras em diversos géneros: Onésimo Teotónio Almeida, no ensaio e na ficção, Cristóvão de Aguiar (primo da autora) autor de vários romances, contos e ensaios, sobressaindo, para mim, a trilogia Raiz Comovida, e o Osvaldo Cabral, seu irmão, conhecido jornalista da RTP/Açores, e agora do jornal micaelense Diário dos Açores, Gilberto Bernardo, Fernando Couto Alves, e isso só alguns do meu conhecimento directo. A história de um lugar, de qualquer lugar, raramente é feita por historiadores universitários ou famosos – é feita pelos seus escritores locais e cujos livros raramente são lidos por grandes números de leitores. William Faulkner dizia que quase toda a informação e ambiência geral da sua ficção era tirada de autores locais, por quase todos esquecidos para sempre nas estantes obscuras da sua pequena Oxford, em Mississippi. Creio que se passa o mesmo em Portugal, e muito especificamente nos Açores. Este livro de Paula Cabral resgata muito do que se aplica a nós todos, ou seja, a vida em pequenas comunidades virada para o mundo inteiro no outro lado do horizonte, ora nebuloso ora claríssimo, com a ilha em frente a desfazer a nossa solidão ou sentido de isolamento.

Eu sem escudo protector– escreve Paula Cabral a dado momento – me apresento à vida com a força do sonho. Não tenho o poder do caminho já traçado. Trago comigo a força convicta da minha consistência e com ela vou desbravando a adversidade do momento e da circunstância. Tento não capitular a vendas que me tolhem a lucidez ou a pôr à venda a liberdade do meu pensamento. A liberdade e o sonho, longe de caber na mão de um homem, não se configurarem ao tamanho de uma bandeira. São ambos apátridas. Têm a força de uma humanidade inteira… Sou do Pico da Pedra. Digo-o sempre com muito orgulho. Puxei deste galão para explicar a minha natureza reivindicativa a um colega de profissão. Curiosamente, o meu interlocutor percebeu o alcance da minha assertividade”.

Crónicas da Minha Terra é-me surpreendetemente, o primeiro livro de Paula Cabral. Eu já tinha lido uma ou outra “crónica” sua nos jornais locais, e um dia pedi-lhe que me enviasse uma ou duas colaborações para o suplemento Açoriano Oriental Ares & Letras, que coordeno com o escritor terceirense Álamo Oliveira. A sua humildade levou a que nunca me mande nada sem eu pedir. Só que isso agora vai mudar, quero-a presente sempre que lhe seja possível. Uma das freguesias açorianas que tem, ou deve ter, o orgulho dos seus escritores é precisamente o Pico da Pedra, a outra sendo a Achadinha, também aqui de São Miguel, quando foi e é fundo de romances e outra escrita como a de João de Melo, Adelaide Freitas, e Júlio Cabral, talvez o mais injustamente desconhecido de quase todos os leitores açorianos, cujas cartas enviadas de Lisboa onde residiu a maior parte da sua distinta vida como advogado, são de todo ignoradas, mas há alguns anos publicadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande. Leio um Prémio Nobel do mesmo modo e com o mesmo espírito aberto com que leio estes outros autores. Não é o “lugar” que faz um escritor, muito pelo contrário, é o escritor que faz o “lugar”. Isto é tanto verdade para nós como para qualquer país. Há algo ainda de maior importância. É a grande escrita que nos cria empatia perante qualquer povo, cultura ou país. Depois de lermos, por exemplo, e só para me reduzir aqui a uma geografia nacional, um Octávio Paz, um Carlos Fuentes, um Juan Rudolfo ou uma Laura Esquivel, nunca o México será o mesmo para os seus leitores. Os Açores nunca mais deixaram de entrar, mesmo que com limitações e só entre certa elite literária, no imaginário nacional português depois de Mau Tempo no Canal. Só resisto ao endeusamento de seja quem for. Depois deste e de outros escritores vieram muitos mais. Alguns deles não só ultrapassaram (é a sua obrigação) a chamada “ansiedade da influência” propagada por Harold Bloom, mesmo que só em certos sentidos positivos, como superaram, como deve ser, os seus mestres ou grandes antecessores. Depois de lermos a Paula Cabral, o seu espaço de eleição nunca mais será o mesmo. Quase vemos, quase o sentimos, e queremos visitá-lo. Pedir mais de prosa como esta seria injusto e ignorante. Ela junta-se, agora, ao melhor dos nomes picopedrenses que já mencionei, junta-se agora ao melhor da literatura açoriana. Para quem não for provinciano, digo ainda e sem apologia, ao melhor que se escreve dentro do seu género, no nosso país e, até, na nossa língua.

Pedir a um escritor ou a uma escritora que escreva mais do mesmo, ou no mesmo género e forma, é injusto e irracional. Só que quero dizer à autora de Crónicas da Minha Terra que vai-me ser difícil esquecer. Para além disso, eu próprio raramente saio fora da recensão ou crítica literária, a não ser para um ensaio de fôlego numa qualquer revista universitária, lida quase só entre pares. Não, o que lhe peço são estas palavras de uma clareza como nos impõe um anti-ciclone, do calor de como vê a humanidade em seu redor, do respeito pelo seu próximo, da palavra que tanto se torna metáfora com símbolo. Um elogio não de ser bajulação, e ante Paula Cabral não tenho as mínimas razões para isso, ou pelo menos, pela forma civilizada com que a vejo escrever ou tratar todos à sua volta. Não sei que aulas dá na sua escola, mas sei que deveria trabalhar a palavra escrita, a palavra como transmissão de pensamento e crítica aos seus alunos. Leio-a, repito, como quem encontra uma velha amiga, uma conterrânea de uma das minhas ilhas de afectos sem fim, uma colega a quem apetece dizer “bom dia”, e que nunca deixe de nos oferecer mais um ensaio, curto ou longo. Vejo-a, daqui, a olhar pela sua janela com um sorriso na cara, ou então com um certo desagrado pelo que ouve ou avista. A fachada da igreja que ela olha ou olhava na sua juventude é mesma que eu via, caminhando um pouco nas minhas Fontinhas. Não insinuo aqui, eu ou ela, qualquer crença ou opção religiosa – vejo, vemos, a génese de tudo que une o nosso povo, de tudo que faz festejar a sua existência, de tudo que incutiu em nós valores que partilhamos ou rejeitamos.

Crónicas da Minha Terra é esse tesouro da razão e do coração. Creio não termos o direito de pedir mais, nem a nós próprios nem aos outros, que connosco nasceram, tornaram-se adultos, ficaram ou emigraram. A sua presença, de qualquer modo, fica para sempre.

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Paula Cabral, Crónicas da Minha Terra, Ponta Delgada, COINGRA, Lda., 2017. Este texto foi retirado do meu prefácio a este livro. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental.

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Da grande narrativa e do nosso tempo

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos.

Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel

Vamberto Freitas

O novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, uma narrativa de grande fôlego e estrutura mista nas diversas visões e transfigurações da nossa sociedade actual, sendo narrado na terceira pessoa é constituído pela polifonia das suas vozes agudas, conscientes da sua sorte, sobrevivendo em todos os estratos sócio-económicos e financeiros da sociedade que é a nossa, mas a sua geografia precisa não impede a universalidade do que habitualmente chamamos a condição humana nas suas mais diversas versões, ou seja, reconfirma aqui o famoso dito faulkneriano de que toda a grande literatura é feita ou tem como tema dominante o “coração humano em conflito consigo próprio”. Não gosto muito de comparações entre um escritor e outro, mas aqui vai outra: se Ernest Hemingway escreveu um romance de guerra sob o título de “Adeus às Armas”, é a busca do amor impossível num hospital que domina a temática e impulso dominantes da sua obra prima, ou então um Albert Camus a propor ou a relembrar-nos que todo e qualquer ser humano está condenado infinitamente a carregar a pedra montanha acima mesmo sabendo que a tarefa e o sofrimento serão intermináveis. É uma outra mostra da nossa capacidade de nunca aceitar a derrota. A humanidade, na sua infinita incapacidade de se aperceber do belo à sua volta, vive submergida, cada homem e mulher, na sua condição e circunstâncias, sendo essa alusão repetida a Ortega y Gasset em certas páginas como um refrão a uma tragédia grega, às origens da nossa própria incapacidade de ultrapassarmos tudo o que nos estava guardado ou ditado pelos deuses.

Esta mais recente obra do autor aqui em foco, o seu quarto romance publicado recentemente, leva-nos ao outro lado do estado da nossa humanidade na sociedade dos nossos dias: o desamor perpétuo entre quase todos os seus personagens principais, sem nunca nunca deles deixar de tentar dar uma nova direcção nas suas vidas, de recriar a cada passo os seus valores existenciais para sobreviverem por entre a indiferença generalizada numa sociedade que anda sem olhar nem ver mais ninguém à sua volta, numa azáfama de vida rumo a nenhures, tal como os vemos nas ruas de Lisboa aos encontrões, a multidão que nos parece acéfala e que se esconde depois em apartamentos de onde apenas se avista, quando se avista, as caras sem sorrisos e se ouve os buzinões dos frustrados ou raivosos. Praticamente toda a trama de O Pianista de Hotel gira em volta da vida de um hospital, dos seus médicos, enfermeiros e doentes, o sofrimento físico e psíquico o inevitável dia-a-dia de cada um, sem nunca se dar ou permitir a entrega fácil à desesperança e à morte. O que mais impressiona nesta magnífica e complexa ficção é que o leitor nunca se sente deprimido, bem pelo contrário, reencontra-se a si próprio, cada ser aqui reinventado contendo um pouco de nós todos, o humor, ora leve ora a roçar a sátira (“os médicos não entendem porra nenhuma de medicina”), fazendo-nos tomar consciência de que ninguém está só na sua pouca sorte, de que ninguém deixa de contrariar o que nós portugueses repetimos incessantemente como sendo o destino ou o nosso fado. Lemos a transfiguração de personagens e “realidades” – mas, para além desse acto de encontros com os outros, lemo-nos a nós próprios. Escrevi-o noutra parte quando comecei a ler estas páginas que a grande arte permanece sempre a grande arte, mas quando nos chega em certos momentos das nossas vidas torna-se ainda mais poderosa e bela no nosso pensamento e emoção, o que foi – não são chamadas para aqui as razões – o meu caso particular no encontro com esta prosa. Aliás, a única redenção para algumas destas vidas é o apego ou a apreciação da própria arte, nas suas muitas formas e géneros, como se depreende do próprio título, mesmo que só reconhecido por poucos entre todos eles, entre todos nós.

O Pianista de Hotel não tem um mas vários protagonistas que se encontram num entrelaçado de ocasionalidades ou coincidências, cada um deles e delas como que representando, como já referi, as mais diversas origens e sortes de vida: Maria Luísa, mulher de 27 anos de idade, criada de mesa num restaurante da classe abastada, vivendo só após abandono do pai e morte precoce da mãe, linda e cujo corpo é objecto de todos os olhares e desejos de homens e mulheres. Menciono esta personagem porque ela é que movimenta boa parte da narrativa, e é com ela que o romance chega ao fim enquanto se passeia sem rumo e é seguida nesse momento pelo enfermeiro Luís Gustavo, também só, de origem provinciana algures no norte do país, e que perde a coragem nesse momento de abordar decisivamente a mulher que bem o poderia aceitar na sua vida, e dar início a nova esperança de alguma felicidade. Pelo meio temos médicos sofridos mas dedicados, um homossexual que acaba todo partido no hospital após um espancamento numa rua da capital e que o leitor suspeita, sem nunca ser dito pelo narrador, quem foram os seus carrascos, assim como duas psiquiatras de alma atribulada, uma também pela sua orientação sexual, a outra, ela própria enquanto tenta ajudar os seus pacientes, em contínua psicanálise num combate aos seus próprios demónios. Nenhum deles foge ao seu inferno, à infelicidade quotidiana entre a casa e o seu lugar de trabalho. Edmund Wilson acreditava que um breve resumo de uma peça literária era em si próprio já uma “crítica” ou apreciação do seu leitor ao mais que o comove na palavra ou na arte em geral, a humanização de cada ser inventado reside precisamente nos pormenores mais inesperados das suas vidas, dos seus medos ou da superação ou não que os atormenta e afasta um mínimo de sentido das suas vidas, ou então na sua determinação de fazer a pedra às suas costas nunca o derrotar ou fazer temer o dia seguinte. Um romance é quase sempre e essencialmente a ordenação do caos entre os que compõem outros mundos ou de ser e estar, é uma aproximação permitida por um deus ex maquina ou por circunstâncias que os aproximam, mesmo quando incomuns ou inevitáveis. O fascínio de qualquer leitor mais atento vem desses encontros e desencontros, como um doente com o seu cuidador ou duas pessoas sentadas num bar a partilhar o que os rodeia, o que ouvem. Numa narrativa que muitas vezes nos parece algo joyceana na sua estrutura e pormenores quotidianos que quase sempre nos passariam despercebidos, com personagens e acontecimentos a serem descritos em simultâneo, o romance de Rodrigo Guedes de Carvalho nunca deixa o leitor pendurado em meras insinuações ou alusões obscuras, a sua prosa é de uma clareza e viveza pouco comuns na nossa literatura. Por certo que na chamada pós-modernidade literária a variedade de autores e obras forçam o leitor a definir os seus gostos muito próprios, a optar por um género sobre outro, cada um trazendo à sua leitura, olhar ou ouvido, o que misteriosamente o faz ver e sobretudo rever-se. O autor refere aqui, de quando em quando, que a palavra só por si não chega para espelhar no seu todo a nossa existência. É quase no fim do romance que juntamos as peças todas, e percebemos por inteiro o seu título.

Fascinado, porque constatou que o pianista – diz o narrador de uma visita ao hotel de um enfermeiro na companhia de um médico de nome Pedro Gouveia, que está também presente em todo o romance, e vão ouvir a mestria de um pianista sem fama e que toca para quase ninguémfazia alguns movimentos, algumas passagens entre teclas, alternava alguns acordes, iguais a algumas aulas que ele tem procurado na internet. Sendo que o Conde Melo é um pianista exímio, só os hóspedes do hotel não percebiam, e ao fazer o que fazia tudo parecia muito fácil, e Luís Gustavo espantou-se, feliz, a ver como dois ou três corrupios de dedos enchiam a sala numa nuvem harmoniosa… E algo nele disse, eu quero fazer isto”.

O Pianista de Hotel é essa peça de arte literária também exímia, e que deixa os seus leitores, uma vez mais, reverem as suas próprias circunstâncias nesta longa representação, e a sociedade em que todos vivemos. Creio ser o regresso de um certo existencialismo, e fica pelas sugestões de que cada personagem vive no isolamento da sua miséria ou dos seus sonhos, o passado assombrando, sempre, o presente de cada um deles. “Os meus mortos visitam-me regularmente”, relembra o narrador sobre um deles em busca de si e de outra existência, em “Depois Do Fim”, numa afirmação da e pela vida, seja ela qual for ou nos tenha colocado no labirinto indiferente do grande mundo que nos rodeia. A uma prosa por vezes crua junta-se a poesia pura de quem olha a vida pelos dois lados do espelho de onde sobressai a alma humana, que para sempre sonha com essa “nuvem harmoniosa” ou aponta o dedo aos demónios que nos habitam.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, Lisboa D. Quixote/LeYa, 2017.

Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, Ponta Delgada.

Urbano Bettencourt e a obra de José Martins Garcia

Num espaço cercado como o insular, a fuga constitui, aparentemente, um projecto de libertação que a experiência virá a desmentir.

Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe

Vamberto Freitas

Falar da obra de Urbano Bettencourt é falar do melhor que entre nós se escreve, e ele tem escrito em todos géneros e formas, poesia, ficção, e muito especialmente o ensaísmo em volta da literatura açoriana, assim escreve sobre literatura e questões culturais da Madeira, Cabo Verde e Canárias. Já o afirmei noutra parte, mas ele é como um T. S. Eliot destas ilhas – a sua poesia é escrita com o mais profundo conhecimento da sua teorização na nossa e noutras línguas, o seu ensaísmo liga e interliga obras e autores, épocas e geografias, quase sempre pouco conhecidas nos grandes meios, ou mesmo nas instituições de ensino superior. Poderá escrever sobre um autor de poesia ou ficção com um fio condutor que perpassa toda a sua obra, e isso tem essencialmente um objectivo primordial nas literaturas menos conhecidas, ou seja a legitimação de obras que se encontram fora das antologias nacionais e só muito raramente visada pela crítica nos grandes jornais e revistas, como aconteceria, por exemplo, com a poesia de Roberto de Mesquita, que só Vitorino Nemésio tentou resgatar do isolamento das Flores e das páginas regionais que sempre publicaram entre nós. Entre um humor corrosivo e a maior seriedade nos seus estudos desta outras literaturas insulares, repita-se, conhecidas fora dos seus meios (com algumas excepções de outros escritores açorianos que escrevem e publicam no Continente) Urbano ocupa um espaço absolutamente essencial na nossa literatura, e refiro-me a literatura de língua portuguesa em geral, inclusive a do Brasil. Para além de estar presente em antologias desses e de países tão distantes como a Letónia, Eslováquia e Hungria, ficam aqui alguns exemplos, nomeadamente África frente e verso, Que Paisagem Apagarás e três volumes de ensaio sob o título de O gosto das palavras. Ler Urbano é perceber como a partir de pequenas ilhas se universaliza uma escrita, a condição humana nas suas versões cercadas de mar por todos os lados, mas em viagem perpétua nas mais inesperadas ou longínquas geografias literárias e culturais. Basta só dizer que ele tem como referência de grande importância teórica para estas nossas literaturas o escritor francófono (da ilha Martinica) Edouard Glissant, cujos títulos de dois dos seus livros tudo explicam logo à partida, A Poética da Relação e Tout-Monde.

Sem qualquer surpresa para mim, está agora dedicado a novas edições da Companhia das Ilhas da obra completa do falecido José Martins Garcia, seu conterrâneo picoense, e durante anos seu colega no então Departamento de Línguas e Literaturas Modernas na Universidade dos Açores. Martins Garcia representa perfeitamente o dilema de ser escritor das e nas ilhas. Uma obra tão soberba como a sua, que inclui também poesia e ensaio, mantém-se fora da atenção nacional que muito merece, quase nunca figura na discursividade literária no nosso próprio país. A sua ficção, incluindo o grande romance de guerra Lugar de Massacre, que transfigura a sua experiência militar na Guiné-Bissau, raiado por vezes o surrealismo, por certo algumas das ferozes páginas satíricas sobre a guerra travada no mato e vivida entre o álcool e a mentira. Os seus outros romances, como O Medo e Imitação da Morte, têm como tema fundamental e constante o desespero existencial da vivência em pequenas ilhas e depois a fuga para fora, que resulta sempre na perdição dos seus personagens, ou, como me disse um dia numa entrevista publicada no Diário de Noticias: “nasci numa ilha e perdi-me no mundo”. Não são necessariamente autobiográficos mas contêm em si, na “pessoa” de alguns dos seus narradores toda a fúria e inteligência crítica do autor, assim se desenrolam na sua geografia natal e países e sociedades por vividas em directo. Este é trabalho mais do que meritório e uma aposta corajosa da editora com base na ilha do Pico, mas com uma projecção nacional pouco comum a outras experiências semelhantes no passado. Finalmente, a grande Imprensa lisboeta tem tomado nota em espaços de destaque, que só lhes prestigia e presta homenagem é um dos maiores e melhores escritores portugueses do século passado.

A representação – escreve Urbano Bettencourt – do espaço insular açoriano dá-nos, em primeiro lugar, a imagem de um ‘mundo abreviado’ (expressão de Vitorino Nemésio) em que as personagens se movimentam aparentemente mais por força de um desígnio exterior do que por uma vontade própria (desígnio que tanto pode resultar dos constrangimentos físicos, geográficos, como do peso do conservadorismo e das convenções sociais, familiares); incapazes, por vezes de romper o círculo em que os seus gestos e atitudes se repetem inevitavelmente, as personagens conseguem, noutros casos, escapar ao cerco da ilha para fazer a experiência do mundo, mas acabam por perder-se de formas várias.. A sátira, por seu turno, representa uma denúncia frontal desse mesmo mundo. A visão satirista é a de alguém que se situa perante um mundo degradado e que a si próprio atribui a missão de criticá-lo de forma directa e agressiva mesmo, com o propósito de agir sobre ele, transformando…”

É precisamente sobre tudo isto e muito mais na obra de José Martins Garcia que trata Urbano Bettencourt no seu novo livro, O Amanhã Não Existe, a sua tese de doutoramento (com algumas ligeiras modificações ou acertos de linguagens), defendida há poucos anos na Universidade dos Açores. É claro que num livro tão extenso como este a sua parte principal é uma sustentada e bem documentada análise de como a sátira na ficção de José Martins Garcia, e em livros de contos sui generis como Katafarauns, que junta agora os dois volumes originais Katafaraum é uma nação e Katafaraum ressurrecto, sobressai em tudo que fazem, dizem ou insinuam os seus personagens principais na clausura da ilha e na desorientação quase psiquiátrica quando optam pelo seu desterro nas grandes cidades, fazendo chamamentos à nossa historicidade, no caso dos Açores, e aludindo de quando em quando a outras obras, autores e figuras históricas do nosso arquipélago. A primeira parte do livro, para uma vasta contextualização das obras analisadas, debruça-se sobra a velha questão da Literatura Açoriana, a sua “existência” ou não, a teorização através do que se tem escrito em várias épocas e momentos históricos sobre este tema desde o século XIX até ao presente, questão que reaparece de esporadicamente quando alguns dos nossos escritores aqui nascidos reclamam para si um lugar no cânone literário português. O próprio José Martins Garcia, que foi Professor Catedrático na Universidade dos Açores, leccionou a cadeira precisamente de Literatura Açoriana, e creio que sem grandes preocupações teóricas sobre uma literatura autónoma ou não. No pós-25 de Abril, Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros relançariam o antigo debate a partir de Lisboa e pela revista A Memória da Água-Viva, enquanto Onésimo Teotónio Almeida faria o mesmo com um grande congresso na Brown University, a primeira instituição do ensino superior no mundo a incluir uma cadeira sobre a literatura que tem os Açores como referência, escrita ou não por ilhéus. Estão representados praticamente todos os nomes dos escritores, críticos e ensaístas que se debruçaram de modo sério a questão, percebendo-a através de variadas perspectivas, alguns deles aventurando comparações com a literatura produzida noutros países e noutras regiões, como nos casos, mais conhecidos da nossa geração, que incluem Borges Garcia, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Onésimo Teotónio Almeida, J. H. Santos Barros e o próprio José Martins Garcia. Discretamente, omite nestas páginas a sua importante escrita toda a questão, ele que foi um dos ensaístas e crítico que despoletou o nosso regresso ao pensamento teórico e prático sobre a Literatura Açoriana, ele, cuja poesia e ficção carregam com profundidade tudo o que distingue a nossa palavra criativa adentro da literatura portuguesa modernista.

O estudo daquilo que os textos significam (ou não) – reafirma o autor na primeira parte do livro – em termos de uma particular expressão e de um modo de ser açoriano corresponderia, segundo Eduíno de Jesus, a um segundo momento de aproximação. Ora, deste ponto de vista, os textos dispersos já existentes, monografias, ensaios, crítica literária, introduções a obras de conjunto, dissertações académicas, mesmo nãp constituindo uma história de literatura, fornecem elementos extremamente valiosos para o entendimento e a compreensão do processo literário açoriano no seu percurso histórico e estético. E, para dentro dele, proceder à abordagem de um autor ou de uma obra, como é o caso de José Martins Garcia.”

Por outras palavras, essa história já existe, só que está dispersa e à procura de quem a sintetize. O Amanhã Não Existe é outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte, começando com Gaspar Frutuoso no século XVI até ao nosso presente. A sua linguagem clara, livre do inútil e ofuscador jargão académico, a prosa de um grande estudioso e escritor que é Urbano Bettencourt traz-nos tudo que leva um leitor a abrir um livro para reafirmar o poder da literatura como representação da vida, da mundividência de um povo há mais de quinhentos anos no meio do mar e entre o continente da sua origem e o continente, a oeste, do seu destino.

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Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017.