A memória viva de um tempo açoriano

Capa Porto do Mistério do Norte

Neste mundo de interesses ainda é perigoso descobrir a verdade e, muitas vezes, faz esquecer a esperança. As pessoas até às desilusões se acostumam até ao dia de acordar. São as épocas sem futuro.

Dimas Simas Lopes, Porto do Mistério do Norte

Vamberto Freitas

Um segundo romance é sempre uma prova arriscada para o seu autor, ou mostra que tem a capacidade da escrita ou deixará os seus leitores indispostos a outras tentativas em livros futuros. O novo romance de Dimas Simas Lopes, Porto do Mistério do Norte: Mar de Longe – que segue o seu Sonata Para Um Viajante, de 2012 – vem confirma-lo como um fluente contador de histórias, a cada passo consciente da natureza e do alcance das suas linguagens muito próprias, assim como na construção de uma narrativa significante a vários níveis – a memória, ou memórias, de um tempo e um lugar açorianos, a captação verbal não só de mundos perdidos como a capacidade de nos reflectir num jogo de espelhos o presente dos seus personagens, “as épocas sem futuro” de que nos fala na conclusão destas suas histórias interligadas para nos dar um mosaico completo, que é um microcosmo dos Açores, como suspeito ser de todo um país mais ou menos escondido dos holofotes da política e afazeres citadinos à grande escala. Com efeito, este é mais um romance das gentes da terra e do mar, fazendo lembrar de quando em quando o Dias de Melo e os seus baleeiros picoenses, que dividiam a sua existência sempre periclitante entre o arado e o arpão, como nos já clássicos Mar Pela Proa e Pedras Negras. Não haverá nada de mais esperado numa tradição literária do que a continuidade de temas colectivos, os olhares que tanto recordam as obras anteriores como delas partem para outras fatias-de-vida situadas no mesmo espaço e moldadas pela mesma História, mas dando-nos outras perspectivas surgidas pela passagem do tempo, e muito especialmente pela angústia existencial que toma outras formas e reclama outros entendimentos, a perpétua reinvenção do passado. Se no primeiro livro Dimas Simas Lopes optou por um narrador de formação cultural sólida e sofisticada, convocando para a sua narrativa os mais eruditos referenciais da música e da própria literatura, apresenta-nos nesta sua nova obra uma narração a várias vozes, as falas sobre o passado e como chegaram aos dias presentes os personagens-narradores, quase todos eles ligados à caça da baleia ou à pesca de sobrevivência de outrora, cujos barcos de boca aberta ainda lembramos ou vemos cada vez menos das nossas janelas ou na sua chegada às lotas, ouvimo-los sentados em conversa uns com os outros, ou enquanto bebem os seus copos nos pequenos bares locais, a incerteza do presente levando-os a histórias de miséria e perigo, à denúncia das eternas injustiças quando pobre se nasce e pobre se permanece numa sociedade que eles nem desculpam nem branqueiam nas suas hipocrisias e desequilíbrios sociais e económicos. Os narradores mantêm ao longe tanto as figuras dessa classe historicamente dominante, raramente se avistando a sua existência nas conversas destes velhos e novos pescadores e agricultores, reconhecem por inteiro o seu lugar pré-determinado na vida, mas sem o rancor militante de outros, sabendo que a luta é muito longa e antiga, a sua vida curta demais para o amor e a protecção mínima dos seus. Não pensem que estamos perante uma espécie de neo-realismo tardio ou reavivado nos Açores. Trata-se, acima de tudo, do outro lado da História das ilhas – as imagens de um quotidiano que fora da literatura nunca tiveram lugar em qualquer compêndio ou narrativa académica institucionalmente legitimada. É desta literatura, deste rico corpus literário açoriano de onde sobressai e fica para conhecimento de gerações futuras a “vida em ilha” de todo um povo, é em obras como este Porto do Mistério do Norte onde o drama completo dos sem nome nem posses ficará sempre registado nos nossos arquivos criativos.

Há descrições de lutas contra o mar e as suas maiores criaturas que parecem quadros vindos de Moby Dick, o que também não nos deve surpreender visto que Dimas Simas Lopes é um dos nossos mais reconhecíveis pintores da Ilha Terceira, a cultura popular e erudita alguns dos seus temas constantes. Em Porto do Mistério do Norte, que tem a mítica freguesia dos Biscoitos (nunca aqui mencionada) como fundo humano e geográfico, a terra e o mar não só as fontes de sobrevivência do seu povo no passado, como um espaço de diversão para a restante ilha, e ainda o sítio privilegiado de ricos terra-tenentes da burguesia mais recente, as linguagens destas histórias criadas por vários narradores ditas em discurso directo e indirecto a um outro personagem de nome Tónio, colocando o leitor no meio das conversas — ouvimos um sotaque muito próprio, revemos ou imaginamos em pormenor as figuras que estão no centro da narrativa, que nos recriam um mundo desaparecido, ou a desaparecer rapidamente. Recuamos a décadas do princípio do século passado, e a toda a miséria que pretendia abraçar a maior parte da população numa beatice do Estado Novo e da Igreja, o tempo em que a fome já vinha muito de trás, o tempo em que a população queria fugir, e fugiu para a emigração, os restantes apanhados na guerra colonial, relembrada nestas páginas por um dos protagonistas. Por certo que alguns outros escritores açorianos, uma vez mais, já trabalharam estes mesmos temas, mas creio que a originalidade de Dimas Simas Lopes é ter concentrado num recanto de uma outra freguesia, tendo o mar como referencial exterior mais íntimo, os seus personagens nalguns dias e noites de conversa, ora serena e redentora ora acusadora e estimulada pelo inevitável copo de vinho de cheiro ou verdelho, que também fazem fazem parte daquela terra, as suas pedras negras cobertas pelas vinhas, as suas adegas os palcos de visitas e convivência, as suas festas um imaginário de toda a ilha. As palavras derramadas torrencialmente das memórias que cada um vai convocando para melhor explicar o seu presente, marcado, como sempre, pela insegurança e pela riqueza que a todos ilude e que fazem desta narrativa essa outra metáfora não só de uma pequena povoação terceirense, mas igualmente de todo o país escondido dos poderes, ou por eles ignorado desde os primórdios da nação, o povo ao seu serviço na terra e no mar, quando se apropriam da paisagem e da restante beleza em volta.

E eu, Tónio, um pescador – diz uma das dessas vozes no encerramento da narrativa totalmente dominada pelos que estão ou vêm de baixo, frase recorrente neste romance – que vive do que o mar tem e dá, um ilusionista de anzol, com as minhas manhas e as minhas ilusões pesco peixe e pesco histórias, vê para o que me deu, um pescador de barco de boca aberta, viver do mar e gostar de contar histórias, sabes bem, Aninhas, que as vidas não são mais do que histórias e são as vidas que as fazem, tenho andado a contar o nosso encontro e como se aprende a brincar com os sentidos e como se faz dos nossos corpos um corpo só… Olha para este desatino, um pescador contar histórias, também sabes que o mundo não regula bem, contar sonhos e ilusões misturados com histórias de verdade. Dizem, quando alguém morre, morrem histórias que se contam e histórias que fazem livros”.

As longas recordações que vão dando forma e fazendo convergir todas as histórias de ou sobre diversos personagens para esse só quadro que retrata um tempo e uma comunidade têm por detrás de si um tema unificador, que faz da multiplicidade de vozes uma só – a náusea do presente, a marginalização de quem foi apanhado pela suposta modernidade, que ideologicamente faz dos seres humanos peças úteis ou descartáveis. A narrativa de Porto do Mistério do Norte inicia-se em 2011, indicando o descalabro real de todos os recantos do país, o ano em que desabaram todas fantasias colectivas de uma certa geração, os novos poderes actuando como sempre actuaram na História – a defesa de quem tem e manda, a casa grande, agora reerguida e tornada centro burocrático de comando, sugando a senzala, ameaçando a cada minuto o regresso dos pés descalços, a expulsão das zonas de conforto. O pior é que estas minhas palavras, como expressão analítica de uma obra de ficção, não serão mera retórica literária. Tal como o romance de que vimos falando, nascem da vivência quotidiana, do olhar atónito para o que nos está a acontecer, e que tendemos a negar – a continuidade histórica, quase genética, das sociedades em que vivemos, os cortes radicais com o passado também uma mera ilusão, à semelhança do que diz Tónio no passo acima citado, praticantes e crentes no ilusionismo com que colorimos a nossa existência. Restam-nos, pois, as palavras, as histórias, para que a mentira dos compêndios oficializados e da fala dos poderes sejam contrariadas pelas histórias verdadeiras da ficção, a arte mantendo-se desde sempre a única fonte simultaneamente de prazer puro e da verdade, das outras verdades.

Porto do Mistério do Norte cumpre brilhantemente o que penso ser o seu propósito – captar, como outros escritores fizeram noutras épocas, um momento histórico de transição na sociedade portuguesa, apontando, de novo, o Nada para onde caminhamos todos.

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Dimas Simas Lopes, Porto do Mistério do Norte: O Mar de Longe, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 30 de Outubro de 2015.

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Memória em silêncio

foto  de Carlos Cordeiro

Que secretas águas a espreitariam?

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

Vamberto Freitas

Todos nós fazemos isto de quando em quando – pegar nas fotos antigas, tirá-las das caixas desarrumadas, olhá-las, vendo especialmente os nossos mais chegados, os amigos, os conhecidos, os encontrados ocasionalmente, a rua ao pé da porta, uma cidade próxima ou distante, a marca do tempo provocando em nós toda a ambiguidade de sermos e estarmos, o relembrar de anos mais amenos e prometedores contra a inevitável passagem do tempo, acentuando o que nos falta na viagem. Não, uma imagem, creio que outros já o disseram, não vale por mil palavras, contrariando as inverdades de certas frases feitas. Uma foto não tem som nem musicalidade, não ouvimos a voz daqueles que passaram por dentro ou estão em nós, ou ainda os outros ausentes que também nos marcaram com a poesia das suas vidas, com o olhar vivo que, esse sim, nos conta ou nos relembra as histórias em que cabemos todos, os nomeados ou mesmo os que permaneciam esquecidos, dando-nos, todos eles, algum sentido à nossa existência. Mas uma foto desperta tudo o resto que nos faz depois dizer alegria ou dor, o aqui ou o longe, e, agora sim, ouvir a voz das almas que já repousam, ou a dos que ainda connosco partilham as vidas e as histórias em comum, as da realidade ou as do nosso imaginário. Fernando Pessoa disse que nascemos em Portugal para morrer no mundo. Vitorino Nemésio dizia, mais ou menos, o contrário – nascemos no “viveiro” açoriano para sermos replantados, noutras terras, noutras vidas. Olho as nossas velhas fotos aqui em casa, e “no sorriso por dentro da noite” de que me falava – fala — a minha mulher nas páginas do seu romance com o mesmo título, vou de lugar em lugar, viajo pelas geografias que um dia também chamei de afectos e memórias. Nascido alguns anos após a II Grande Guerra, pertenço à geração portuguesa que tem vivido os anos dourados, apesar das angústias passadas, ou do presente incerto. Vejo o velho cais de Angra do Heroísmo atulhado de gente vestida de preto, em partida, e sem saber que a História estava prestes a chegar, como na noite de 1964 em que os meus pais levaram toda a família a embarcar rumo à América, o primeiro lugar dos nossos sonhos, das nossas “imagens e miragens”. Partíamos como se não houvesse mais regresso. Não entendíamos a viveza de um mundo distante, e dali a pouco muito próximo. Vejo logo a seguir a minha gente agora vestida a cores numa Califórnia de mil vidas e reinvenções, vejo os meus colegas e amigos em toda a parte, os que ficaram nas ilhas, os que remaram para leste em busca de outras saídas vivenciais, Lisboa e Coimbra terras prometidas, vejo-os ainda a chegar às margens distantes de que nos falara Caminha, os sorrisos dos reencontros em Florianópolis ou Porto Alegre, onde está o maior e mais significante memorial aos açorianos. De um povo com memória e futuro sonhado, depressa redescobrimos toda a nossa história, com nomes, datas, e as circunstâncias ou razões das naus que nos haviam transportado para este então Desterro atlântico, aliás como também voltaríamos a chamar aquela ilha brasileira a sul, Santa Catarina, terras do nosso exílio tornadas chão-pátrio, hoje desejadas quer pelos que moram mesmo ao lado, quer pelos que recusam o esquecimento após a partida, estas ilhas nascidos do fogo onde convivem a inquietude e a serenidade, escondidas até há pouco dos que andam em busca de paraísos perdidos.

As fotos têm o doce silêncio da memória, o sorriso por dentro do dia e da noite, vida. O resto, o outro lado da história, fica para o grito da literatura.

II

Olho agora outras fotos nossas, eu e a Adelaide um pouco por parte, na América, nos Açores, à beira Tejo, na Europa, aqui em casa, e noutras ilhas, com amor e com amigos. A memória é também um chamamento para um conforto de alma, o passado limpo de tudo que não sejam os nossos melhores momentos, as nossas alegrias. Tenho saudades de certas viagens e do deslumbramento do desconhecido, das terras e cidades que eram apenas imagens dos livros, em fotos ou em prosa, e víamos pela primeira vez, como aconteceu na Praça Velha, em Praga, realidade imitando o mito. No nosso primeiro passeio em volta do histórico e monumental centro antigo onde se desenrolara muitos dos acontecimentos que fariam o mundo estremecer, como os tanques soviéticos a rolarem nas ruas ao lado com a missão de esmagar a liberdade e soberania de um dos mais antigos povos do “continente das trevas”, vimos de imediato uma livraria cuja vitrine ostentava alguns livros de Fernando Pessoa. Pessoa e Praga – o desdobramento de almas, e visão de outro mundo caído, outra cidade à beira rio em que o poeta poderia ter-se sentido em casa. Quando entrámos e eu perguntei ao jovem que nos atendeu com aquela civilidade de um povo culto, num inglês rudimentar (tivemos de estudar o alemão e o russo até há poucos anos, para melhor entendermos o “inimigo”, diria ele a sorrir), qual daqueles edifícios era o que estava representado na primeira página de um dos famosos romances de Milan Kundera, com um título mais do que apropriado neste contexto, O Livro do Riso e do Esquecimento, que abre com a cena do discurso triunfante e ameaçador do líder do Partido Comunista numa varanda de um antigo palácio, logo após tomada do poder em Fevereiro de 1948. Tocou-me no braço e indicou-me para o seguir. Saiu para o lado de fora da livraria, deu dois passos, virou-se, e apontou-me o primeiro piso do mesmo prédio em que trabalhava. Olhei-o fascinado, e quedei-me por alguns minutos a absorver o que agora passava de história lida ou ficção dramática para testemunho pessoal; ou a casa de Kafka numa esquina do outro lado da praça, e depois o Castelo onde o mesmo autor situava algumas das suas histórias, e agora ocupado pelo Governo democrático da república, um dos seus grandes dramaturgos e intelectuais, Václav Havel, fora da prisão e a dirigir, através de acções e do discurso livre, os destinos do seu povo. São momentos inesquecíveis para quem os vive na sua intimidade, mas são agora os gestos mínimos, os sorrisos e as palavras ditas sobre os pequenos nadas dos dias e das noites que nos despertam esse país estrangeiro, que dizem ser o Passado. Lembro o passeio nas ruas de Oxford, Mississippi, a cidade de William Faulkner, que havíamos feito parte do nosso itinerário na travessia de Los Angeles a Boston, por uma América que nos fora promessa, e que fizemos segundo as terras de certos escritores, dos nossos favoritos ou os mais lidos. Numa das ruas em direcção à casa-museu do autor de O Som e a Fúria saiu uma senhora do seu jardim, manifestando a conhecida hospitalidade sulista, e perguntou-nos de onde éramos, sabendo já o que ali fazíamos. Ah, o Bill, dizia ela, referindo-se ao seu famoso vizinho nem sempre fácil de aturar, as histórias que ele nos contava, a imaginação que nos despertava com os seus feitos inventados, ou só por ele fantasiados; ou quando visitámos a sua sepultura, com indicações precisas à beira da estrada. O escritor havia deixado instruções precisas – que queria ser enterrado longe dos “aristocratas” e mandões do que ele na sua ficção chamava de Yokanapatawpha County, queria estar eternamente com o povo comum da sua comunidade. Verifiquei que a terra estava limpa, remexida, fresca. A explicação veio de quem por lá trabalhava – todos os dias, disse-nos ele, temos de limpar a sepultura, deixam as garrafas de whisky depois de as despejarem sobre a sepultura, para consolo do falecido. No seu quarto de cama tinham também deixado as suas botas de trabalho, e na mesinha de cabeceira a garrafa de Jack Daniel’s, já meio vazia. Ficou tudo assim como na noite em que ele foi de emergência e na sua derradeira viagem para o hospital.

Memória, imaginação – era como se o chão pisado se confundisse com esse jogo de espelhos que a melhor literatura nos projecta, ver toda uma geografia tal como ela se nos depara e, simultaneamente, como o artista a havia reinventado ou (re)imaginado, habitando-a com outros seres, agora de carne e osso e que nos saiam à rua num cumprimento solidário e grato. Era a nossa repetida Viagem ao Centro do Mundo, as epifanias que brilhavam nos teus olhos, e que passaram a definir as nossas vidas para sempre, o termos sido, longe e aqui: Vento morno, vento bobo/vento nordeste luar/fervedouro em cana verde/na espiga outonal/do meu verde cantar//Vento morno, vento bobo/folha louca ao deus-dará/em ti apunhalo a força/para nela me deitar/e contigo navegar//a força não é só tua/É também do meu olhar./Vento bobo/Vento morno.

A lua cheia ilumina a noite, a luz divina que tudo transforma em sombras de cor e de promessas. Na quietude em volta, o eterno rumor das águas nega certos presságios de deuses revoltados. Em frente à tua janela estava desde há dias um navio de brilho suave, como um dos teus sorrisos por dentro da noite. Se tinha um destino, de onde vinha e para onde ia, também não nos incomodava, desejamos-lhe uma boa chegada ao destino que lhe está guardado. A vida toda em suspenso, no mistério. As viagens, as nossas e as deles, serão outras, sabemos. Não estamos sós.

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A primeira parte deste texto foi escrito sob o mesmo título para a revista da SATA, Azorean Spirit, edição de Agosto-Outubro de 2015. A foto é de Carlos Cordeiro.

Nathan Zuckerman e algumas das suas mulheres

Capa A Lição de Anatomia

Quando está doente, todo o homem quer a sua a mãe; se ela não está por perto, outras mulheres têm de a substituir. No caso de Zuckerman eram quatro outras mulheres. Nunca tivera tantas mulheres ao mesmo tempo…

Philip Roth, A Lição de Anatomia

Vamberto Freitas

Escrevo isto, por mera coincidência, acreditem, na manhã do dia 8 de Outubro de 2015 – mais uma vez foi anunciado o Prémio Nobel da Literatura, e não foi ainda Philip Roth, que está merecidamente nessa lista desde há muito, por todas as razões que justificam tal recompensa ao fim de uma vida literária. Será este um dos autores mais controversos desde sempre, mas pelas razões verdadeiramente nobres da literatura, que muitos parecem ter esquecido que deve ser simultaneamente entretenimento e reflexo duradouro da condição humana, assim como um mosaico-reflexo das questões mais prementes no que concerne o coração humano, uma representação do percurso de nós todos em busca de um lugar a que possamos chamar a “casa do nosso ser” (parafraseando certo filósofo), a tragicomédia que é inevitavelmente a nossa busca por uma identidade que nos aproxime a todos os outros, para além da geografia, da língua, da própria cultura, neste caso durante a segunda metade do século passado até aos nossos dias, e agora a meia viagem da segunda década dos dias surrealistas que são também os de nós todos. Philip Roth é um dos escritores norte-americanos que também me fala sobre a experiência de ter sido um outro numa sociedade moderna e multi-étnica, que mais expressa artisticamente o conflito interior que é ser oriundo de uma tradição para nos termos de defender e sobreviver noutra, é ele o judeu-americano que consistentemente projectou nas suas narrativas, sem pudor e sem amarras temáticas ou formais, o existencialismo vivido num determinado tempo e espaço, a contradição entre ser-se livre e o que a sociedade em geral nos tenta impor. Poder-se-á dizer que toda a obra do autor, mesmo já na sua fase tardia de Pastoral Americano, é esse delírio de palavras – pertencer, sim, mas reafirmando sempre o impulso individualista da liberdade, de nos redefinirmos contra a “tradição” do grupo, de cavarmos para nós próprios o jardim que havemos de cultivar, ou mesmo escolher o pântano em que nos vamos afundar. A literatura do século XX sem Philip Roth estaria bem mais incompleta, e a literatura americana ficaria com o vazio de um recanto sem a cor e a luz em que se tornam os seus livros. Alguns outros leitores acharão, tal como alguns críticos no seu país já acharam no início da sua carreira, que há sexo e gargalhadas a mais, as feministas que há patriarcado incorrigível nas suas histórias, e mesmo alguns judeus que se trata de auto-ódio à sua pessoa e, por inferência, traição a toda a comunidade que ele utiliza ora como fundo ficcional ora como bombo da festa. Todos têm o direito às suas leituras, mas seria bom que as justificassem abertamente – como o fez um dia o grande crítico Irving Howe, também judeu-americano, nas páginas da influente Commentary, numa época que já passou, e que no romance aqui em foco reaparece em páginas de alta comédia, num bem-humorado ajuste de contas, sob o nome de Milton Appel – para vermos como as questões textuais secundárias são somente parte do grande teatro humano que é a sua obra desde o início, um “drama em gente” quase pessoano. Por outras palavras, desconstrói o centro e as suas infindáveis hipocrisias, a partir das margens, mas não o deixando esquecer que é parte dele à sua maneira, com a postura e as crenças que reclama para si, a vida interior de cada um tão decisiva como a colectiva na procura da felicidade.

The Anatomy Lesson, belissimamente traduzido em Portugal por Francisco Agarez, com o título de A Lição de Anatomia, pertence à chamada trilogia conhecida como os Zuckerman Books/Livros de Zuckerman, que inclui o The Ghost Writer e Zuckerman Unbound, que Roth um pouco mais tarde concluiria com um epílogo, The Prague Orgy, em que transfigura umas das viagens de Zuckerman a Praga para recuperar uma colectânea inédita de contos em Iídiche, escrita por um judeu assassinado durante a ocupação daquele país pelos nazis. O tempo ficcional da sua publicação segue o romance que faria de Philip Roth o escritor famoso, e, por um tempo,maldito, O Complexo de Portnoy (aqui chamado Carnovsky), em 1969, romance que levou alguns líderes da comunidade judaica em Nova Iorque ao extremo de sugerirem que não o deixassem publicar mais nada deste género, o macartiismo mais um impulso universal do que o nome do político americano de direita. Será bom lembrar que nós portugueses temos muita experiência com estas censuras, e por razões muito semelhantes, que ainda nos anos 80 atingiriam José Saramago, com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e, na década seguinte, de certo modo, João Ubaldo Ribeiro, com o seu A Casa dos Budas Ditosos. No centro destas narrativas dominadas pela vida e voz de um Nathan Zuckerman – claramente o alter-ego de Philip Roth – está um escritor que praticamente tudo baralha ao contar o quotidiano do autor real, as personagens, quase todas, só superficialmente disfarçadas sobre outros nomes e afazeres, mas de imediato identificáveis pelos leitores atentos da literatura e ensaísmo do modernismo literário americano no pós-II Guerra Mundial. A Lição de Anatomia abre com Zuckerman estirado na sala e com um colar terapêutico ao pescoço, a ser tratado por uma dessas quatro mulheres, que ele arranja maneira de nunca se encontrarem umas às outras, todas elas suas amantes durante as suas visitas de “cuidadoras”. O que segue é um festival de queixas pelas dores colunares que há mais de um ano o deixam prostrado e sem poder escrever, o sexo, dito ou praticado, uma das fontes do riso imparável em todas as páginas. Zuckerman acaba por não aceitar os não-diagnósticos de todos os seus médicos e de outros que incluem analistas e xamanes das curas alternativas, decidindo aos quarenta anos de idade voltar à sua Universidade de Chicago, mas para um curso de medicina, em proveito próprio. Por entre o torrencial de palavras narrativas e diálogos com uma ou outra das mulheres-amantes e com os das múltiplas clínicas da sua má sorte, o leitor acompanha esses dias de lamentação e de não-sexo até ao desfecho radical como contraponto a todos as euforias diegéticas e imaginadas vinganças literárias do narrador. Por detrás da comédia, estão sempre as mais antigas questões da literatura – a identidade de um indivíduo no seu relacionamento com todos os outros, o sentido de pertença e ao mesmo tempo de rebeldia ante os que constituem as nossas comunidades e nos julgam à distância ou entre portas conforme a nossa disponibilidade para uma vida que tem de ser colectivamente aprovada, a história judaica insinuada sempre por Zuckerman na sua caminhada rumo a uma libertação do passado, que ele sabe nunca ser inteiramente possível. No decorrer da sua narração, convoca com frequência outros escritores, entre eles Thomas Mann e o seu clássico A Montanha Mágica, para azedar ainda mais a sua sátira, rir de si próprio quando comparado a outros escritores, a ironia, uma vez mais, marcando praticamente cada uma e todas as frases da sua prosa.

Todo este romance é como que uma resposta às reacções que O Complexo de Portnoy provocou entre alguns críticos judeu-americanos, e não só os mais conservadores. Se a ficção aqui tem ainda alguma relação com a realidade, a própria família imediata, particularmente, pelo menos, como Zuckerman relembra nesta ficção, sentiu-se atingida. O seu irmão mais novo, Henry de seu nome fictício, acusa-o de ter sido o dito romance — que é uma longa sessão de psicanálise em que o seu protagonista adolescente fala de todas as suas fantasias, do sexo como libertação de tudo o que rejeita na comunidade judia-americana em que nasceu e foi criado, e em que os pais são retratados como os “tiranos” clássicos das famílias — a causa da morte do pai, e deixou de falar com ele. É a grande força temática e a presença constante na memória e na culpa de Zuckerman, fazendo de tudo o resto uma feroz paródia. Como pode um judeu, parece querer perguntar Nathan Zuckerman, sofrer tanto com uma mera ficção quando neste século das trevas europeias está o maior assassínio deliberado da História?

Do tapete – queixa-se agora Zuckerman da dor sem explicação nem cura aos quarenta anos de idade, e quando acabava geralmente deitado no chão com uma das suas mulheres, desta vez uma jovem rica e bem formada, rendida aos seus talentos literários – tentava ditar a ficção a uma secretária, mas faltava-lhe a fluência e chegava a passar uma hora inteira sem ter uma palavra para dizer… A secretária só tinha vinte anos e, principalmente nas primeiras semanas, deixava-se influenciar em demasia pela angústia que sentia nele. As sessões eram uma tortura [sobre questões judaicas e Israel]. O coito, a felatio e o cunnilingus eram práticas que Zuckerman aguentava mais ou menos sem dor, desde que estivesse de barriga para cima e com a cabeça apoiada no dicionário de sinónimos”.

Eis a dor como metáfora, e a singular e irónica comédia da grande literatura. Diga-se ainda que Philip Roth recebeu ao longo da sua carreira tudo quanto são prémios e honras literárias ao mais alto nível, e não só nos EUA. Será hoje, sem dúvida, um dos autores mais reconhecidos em toda a parte.

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Philip Roth, A Lição de Anatomia (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental a 16 de Outubro de 2015.

Philip Roth em conversa literária com os seus colegas

Capa Shop Talk Roth

Também acho ser uma verdade que numa cultura como a minha, em que nada é censurado mas em que os media nos inundam com falsificações estúpidas sobre a condição humana, a literatura não será um menos importante arquivo da vida, até mesmo numa sociedade alheada dessa literatura.

Philip Roth, Shop Talk

Vamberto Freitas

Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work, de Philip Roth, foi publicado originalmente em 2001, mas já tem várias edições e está traduzido para outras línguas. Quando um escritor da estatura de um Philip Roth resolveu nos anos 80 começar a dialogar com outros grandes colegas cuja história envolve a coragem da própria sobrevivência quotidiana sob a perseguição zelada do que foi o totalitarismo soviético nas suas diversas versões em países como a ex-Checoslováquia, ou o confronto com um passado, para a maioria de nós inimaginável, como no caso do Holocausto e a memória reavivada por outros escritores que o viveram directamente ou sobreviveram mas perderam todos os seus familiares na barbárie europeia do século passado, a prosa resultante, transcrita de uma oralidade simultaneamente comovida e serena, leva o leitor ao melhor que a literatura tem em si – arte e memória, as outras vidas que só poderemos conhecer através da palavra dita e escrita. Shop Talk é uma colectânea de entrevistas, seguidas de outros textos, todas elas feitas a autores cujas obras de ficção Roth estava empenhado em divulgar nos Estados Unidos, quando coordenou para a editora Penguin Books a colecção denominada Writers From The Other Europe/Escritores Da Outra Europa, na maior parte das vezes tratando-se de obras que haviam sido proibidas e tiradas de circulação nos seus países, dando aqui todo o destaque a Milan Kundera, então no seu exílio de Paris desde 1975 e a gozar o grande sucesso de A Insustentável Leveza do Ser, e Ivan Klíma, que permaneceria na sua terra, tendo vivido os dias de esperança da Primavera de Praga seguidos da brutal invasão dos tanques soviéticos. Estão aqui em maior número, por outro lado, alguns dos nomes conhecidos da literatura judia-americana (Saul Bellow, Bernard Malamud e Isaac Bashevis Singer, este falando sobre um outro escritor judeu polaco do princípio do século passado, Bruno Schulz), o israelita Aharon Appelfeld, e ainda uma longa conversa com Primo Levy no seu apartamento de Turin. Outras entrevistas incluem uma troca de impressões com a escritora irlandesa Edna O’brien, cartas entre ele e Mary MacCarthy, assim como alguns textos sobre Saul Bellow, o autor que provavelmente mais influenciou, ou de certo modo obcecou, Philip Roth. Há, neste gesto de Roth, o que raramente acontece entre escritores de qualquer nacionalidade – generosidade, respeito e admiração pelo trabalho dos seus colegas e companheiros de estrada, a vontade irreprimível de conhecer, absorver, as mais diversas experiências históricas destes indivíduos, a tragédia humana absoluta lado a lado com a comédia em que se tornou a vida de outros, o espírito do nosso tempo dividido entre o lamento de uns e o riso de outros. Não há aqui comparações de qualquer espécie entre experiências europeias, norte-americanas ou israelitas, só o propósito de se entender a humanidade na sua infinita complexidade, o ordinário e o extraordinário que são as nossas vidas, a memória do tempo e dos dias como tema da melhor arte literária moderna, ou da memória comum dos povos.

A obra de Philip Roth, mesmo na sua fase mais cómica e individualista, contém provavelmente algumas das mais afinadas transfigurações da época que nos foi dado viver. A América do autor, auto-identificado, sempre, como judeu-americano, e logo “personagem” nas margens do que se entende por um centro societal agregador, poderá muito bem ser um símbolo de todos nós a partir da segunda metade do século XX – a alienação como condição esmagadora, a estranheza do nosso próprio ser no espaço nacional e linguístico natais (os escritores judeus-americanos tiveram de reinventar a língua que contivesse a sua experiência única numa sociedade pluralista e instável na sua correria para sonhos por outros definidos), o humor como contraponto de toda a espécie de falhanços e frustrações pessoais, O Complexo de Portnoy a confissão extremada de que no impulso sexual mesmo de um adolescente reside toda a fantasia de salvação ou confirmação da sua humanidade. Roth é muito menos um ficcionista auto-biográfico do que poderá parecer à primeira vista, ou leitura – é a História que está sempre por detrás das suas tramas e obsessões, é como filho dos que viveram a maior violência que um povo alguma vez viveu, e no coração de um continente que sempre andou a tentar impor-se, pela moral e civilização tida como superior, a todos os outros, que a sua obra se distingue entre a melhor literatura alguma vez escrita pela sua geração do pós-Guerra. A decadência da sociedade, das suas instituições mais emblemáticas, como a universidade e a política em geral, está tanto nos romances denominados Zuckerman Books como nos de uma fase mais recente, American Pastoral e The Plot Against America. Creio ser esta consciência aguda da condição humana, quer na sua versão americana ou noutras geografias de afectos ou raivas históricas, que o levou a homenagear e a querer dar a mão aos seus colegas escritores a viver o totalitarismo da nossa época, ou pelo menos a querer melhor entender o passado judeu e de outras minorias perseguidas que o trouxe até estes encontros. Na conversa que mantém com Ivan Klíma em Praga, que fez de tudo, até varrer ruas e recolher lixo para sobreviver na sua pátria à perseguição que sempre lhe foi movida pelo regime comunista, Roth, sem menosprezar o sofrimento do seu interlocutor ou retirar a grandeza à sua luta pessoal pela dignidade de todo um povo centro-europeu, avisa-o de que a maldade da história cobre-se de todas as maneiras, inclusive nas luzes brilhantes do Ocidente, nas sociedades então desejadas por todos os outros.

Falámos do futuro há pouco. Posso encerrar esta conversa com uma profecia minha? O que vou dizer poderá parecer-te – diz Roth a Ivan Klíma no fim de uma longa troca de palavras sobre política e literatura, tal como estavam a ser vividas atrás da Cortina de Ferro – arrogantemente condescendente – o cidadão rico e livre a apontar ao homem pobre sem liberdade os perigos em tornar-se rico. Você desde há muitos anos que luta por algo, algo de que você precisa como o ar que respira, e o que vou dizer é que esse algo por que você tem lutado está também um pouco envenenado. Garanto-te que não sou o artista sagrado a mal-dizer o que é profano, nem sou o coitado do rapaz rico a queixar-se dos seus luxos. Estou só aqui a fazer um relatório como se fora a uma academia.”

Por entre toda esta temática literária de Roth e de outros, quer em liberdade quer no aprisionamento político de outras sociedades, quer ainda na realidade bélica em que necessariamente se tornou Israel, está a questão da identidade, não só das minorias de toda a natureza e crenças, como dos homens e mulheres tornados personagens em sociedades cujos valores passaram a significar algo para além da nossa comum humanidade. É disso que a grande literatura do Ocidente tratou no século passado – a dignidade dos cidadãos universalmente a saque, a memória da guerra e da morte em massa e sem explicação possível como pano de fundo de todo um existencialismo vivido num mundo em caos e sem regras. Quando Roth fala com Milan Kundera, inevitavelmente aborda a questão do erotismo na sua obra, não como acto meramente artístico mas talvez como outra metáfora da resistência aos poderes desumanizados exercidos em sociedades em busca de utopias, o único acto livre e privado em sociedades em que a ideologia a tudo e a todos se sobrepõe e controla. Kundera era então acusado por alguns dos seus conterrâneos de se ter vendido, de fugir da sua pátria e das suas responsabilidades, de ter perdido o contacto essencial com a sua terra natal e a sua língua, acusado ainda de escrever só para os ocidentais, reforçando as fantasias destes em relação ao resto de mundo, mesmo que logo ali no outro lado da sua porta. É claro que Philip Roth não alinhava nisto, e tenta tirar do autor de O Livro do Riso e do Esquecimento e de A Identidade as suas motivações artísticas, o referencial total, interior, do autor. É possível que ao aproximar-se de Kundera, Roth auto-justificava a sua própria obra ante aqueles que ainda hoje o acusam de mal-dizer, de trivializar até, o seu próprio povo judeu. Quando a literatura é vista sem se topar a sua ironia, sem ser entendida como uma inerente subversão artística, que é a natureza, por assim dizer, de toda a grande Arte, confunde-se ordinariamente o homem pela obra, a obra pela realidade.

Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work continua a ser um dos mais relevantes livros, no qual ouvimos vozes literárias de vários tempos e lugares. Parece um seminário completo sobre alguma da mais significante literatura do nosso tempo histórico, do triunfo da vida sobre a morte.

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Philip Roth, Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work, London, Vintage Books, 2002. As traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado no Açoriano Oriental a 9 de Outubro de 2015.

O pessoal e o político na idade pós-humana

Capa Purity

As pessoas que lhe haviam legado um mundo destruído estavam a discutir violentamente… Tinha de ser possível fazer melhor do que os pais, mas não tinha a certeza de ser capaz.

Jonathan Franzen, Purity

Vamberto Freitas

Suponho que o problema para alguns leitores, entre os quais me incluo, em ler um livro volumoso de Jonathan Franzen é – o que ler a seguir? Aos 56 anos de idade, o autor de Correções, Liberdade, e, agora, Purity, os seus três grandes romances – em largueza temática, trama e formalismo – constituem já um gigantesco mosaico não só da sociedade norte-americana contemporânea, como do nosso mundo em geral. Não sei se Franzen aprovaria o meu título para este ensaio, dado as suas mais negras conotações, pois no fundo toda a sua obra é uma reafirmação, cautelosa, da vida. Não podia, no entanto, ignorar que um dos seus apreciadores mais distintos é Don DeLillo, o romancista nova-iorquino que desde há muito ficou conhecido pelos seus personagens paranóicos num mundo que a partir da última metade do século passado guindou-nos a todos para um novo tipo de totalitarismo social, e no qual a tecnologia, a par dos seus infinitos benefícios para a humanidade, exerce do mesmo modo ameaças reais, a todos os níveis – a destruição do nosso individualismo identitário em sociedades que eram livres, mas cada vez mais indefinidas e impessoais, o perigo sempre eminente da destruição maciça final através de armas conectadas a computadores, a destruição apocalíptica, sem razão ou redenção alguma. Recordo os personagens de um dos romances de DeLillo, Libra (como poderia relembrar Mao II), uma ficcionação do assassínio de John F. Kennedy e das forças mais obscuras, essas que poderão partilhar quotidianamente os nossos espaços vivenciais sem que os notemos ou nos apercebermos das suas obsessões ideológicas e conspirações mortíferas. Este Purity, que a tradução portuguesa achou por bem não traduzir, tem um profundo significado duplo, é o nome da jovem protagonista, Purity Tyler, e a palavra-resumo temático do romance, essencialmente a luta de uma mulher de vinte e três anos, e muito mais rica do que suspeita, contra o abismo futurista que ela avista, ou em que já vive, um mundo em que as fronteiras foram decididamente abolidas pela Internet e por outros meios de manipulação, a favor não se sabe ainda bem de quem ou de quê, um mundo à deriva sem governação definida, como que dirigido de cavernas por seres sem face nem voz, apenas nomes encriptados num computador qualquer. A complexidade da trama deste romance está contida numa prosa claríssima, colocando o leitor em vários tempos, o presente dando lugar a explicações que as suas analepses vão esclarecendo e enriquecendo, os múltiplos contextos sócio-históricos, políticos e culturais, estes ainda com alusões frequentes à própria literatura assim como a outros sinais do espírito do tempo, ou dos vários tempos aqui retratados. As suas geografias vão desde a antiga República Democrática Alemã nos anos imediatamente antes, durante e depois da queda do Muro de Berlim em 1989, até à Bolívia e a várias partes dos EUA, onde residem e se movimentam os seres e as vozes que dão forma e sentido a toda a narrativa. Uma vez mais, a vigilância totalitária do passado dá agora lugar à vigilância e luta pela dignidade num mundo que, mesmo sem segredos, é cada vez mais perigoso e vazio. O antigo “dissidente” alemão transforma-se em disseminador virtual e exilado de informação proibida, a besta negra dos novos poderes em toda a parte, numa outra alusão directa a Julian Assange, aqui mencionado pelo seu nome e situação conhecida, significantemente cercado pela própria vida, que queria escondida, e ao seu ambíguo WikiLeakes. Purity, a jovem herdeira de uma grande fortuna bilionária sem o saber, está numa luta pela própria sobrevivência numa sociedade em que só o dinheiro determina o nosso destino, e vinda de uma família em tudo distinta mas absolutamente disfuncional. Se mencionei a grande literatura do medo e da incerteza, esta nova obra de Franzen vai ainda insinuar outros tempos e temas imemoriais: Purity quer ser chamada simplesmente de Pip, por vergonha do seu próprio nome, e porque na teia social por detrás do romance está também a memória de Charles Dickens, em The Great Expectations. A grande literatura é isto – um reflexo do seu tempo e lugar, insinuando que o que parece “novo” ou nunca “vivido”, está desde sempre contido na grande arte de uma civilização, neste caso a ocidental. Com Purity, o escritor que a Time chamou de “o grande romancista americano” deu um salto para algo mais do que uma literatura dita “nacional” representa, ou tem representado, a globalização desfazendo tudo o que as antigas academias e antologias supostamente canónicas tinham como certezas.

Purity é uma narrativa de tal ordem multifacetada que parece conter em si vários romances, algumas outras das suas secções funcionariam independentemente ainda como novelas ou contos mais extensos, com especial atenção para a relação e casamento entre os pais da protagonista, Tom Aberant e Anabel Laird. Aliás, são todos eles protagonistas e narradores, os seus pontos de vistas parte da complexidade do texto, contando com o alemão Andreas Wolf, que se atravessa nas suas vidas, ele que saiu das maiores ameaças no seu país agora desfeito para se tornar algo mais do que uma pedra mal colocada na estrada deles todos. Digamos que o romance é uma visão do que (nos) permanece invisível no mundo que herdámos e vamos supostamente reconstruindo, determinando não só os destinos de cada um como parece ser uma espécie de nuvem que ora se mantém por cima de nós dando-nos a ilusão de formas e cores, ora desaparecendo para ser substituída por outra ainda mais misteriosa, transmitindo só incertezas e, uma vez mais, medos. Todo o pano de fundo de Purity é uma representação da sociedade a saque quer pelos “novos” poderes financeiros, quer pelo militarismo tecnológico e hiper-secreto, com o jornalismo tornado global, sem as amarras tradicionais, dependente de funcionários a alto nível e para quem a ética determina as suas acções, como aconteceu com Edward Snowden, também ele diretamente mencionado no romance pelo seu feito na NSA, e de todo imprevisível pelos meios de que dispõe, literalmente enviando para o que agora se chama “cloud/nuvem” toda e qualquer informação de estados ou outras organizações menos transparentes e dominadoras. Alguns críticos americanos rejeitam o que chamam de “preaching/pregação” do autor. É claro que cada um deles apenas reflecte a ideologia que comanda a sua vida, ou simplesmente o seu gosto estético na literatura, o que é perfeitamente legítimo, e até desejável. Lido com o desprendimento de quem apenas concorda em olhar um outro jogo de espelhos, mais do que essa “pregação” sobressaem as imagens conturbadas das vidas em que nos tornámos, das formas de existência que nos legaram, e que não sabemos ou não queremos modificar. Purity não é de modo algum um romance ideológico, mas nenhum leitor atento fica alheio ao que nesses espelhos vê, o reflexo e reflexão não existem sem diálogo ou pensamento. Não se trata só, nestas páginas, repita-se, de uma transfiguração da sociedade americana dos nossos dias, mas sim de um mundo necessariamente muito mais alargado e sob o mesmo céu, nenhum recanto em parte alguma fica livre de qualquer decisão ou acção tomada nos centros do Poder mundiais. Só que este romance é ainda muito mais do que isso – o existencialismo dos seus personagens enfrentando não só as questões primordiais de vida e morte, amor e desamparo, e a luta pela sua identidade enquanto parte de um todo, dentro e fora do seu país.

As palavras da epígrafe, vindas já no último parágrafo da narrativa, referem-se a uma habitual briga de família, desde sempre caracterizada pela mentira, fuga à infelicidade, mais fabricada do que real, mas não menos vivida e sentida. Pip Tyler havia reencontrado o seu rumo, e um novo relacionamento com os seus, o amor uma possibilidade, apesar de tudo, a construção de um mundo privado à sua medida e conforme os seus desejos e ética. Nada lhe está garantido, mesmo sabendo que a sua conta bancária continha mais do que queria ou iria necessitar. Purity não é esse romance de pregação ideológica, ou muito menos a lamentação pela perda de beatices sociais ou culturais, o domínio societal que tenta vergar tudo e todos à sua vontade. É, antes, uma inesperada história muito bem contada, e no seu decorrer o pessoal e o político interagem a cada momento destas vidas e percursos. “Foi quando os céus – diz o narrador sobre Pip olhando o seu futuro – voltaram a abrir-se, a chuva vinda do imenso oceano ocidental desabou sobre o tejadilho do carro, o som do amor abafou o outro som, que acreditou que talvez sim”. Purity é um retrato complexo nas suas imagens descritas ou sugeridas que lançam luz sobre o que se tornaram as nossas sociedades, o nosso mundo inteiro, e é, mais ainda, uma magnífica representação do modo como estas personagens reagem, sobrevivem ou morrem, cada qual a seu modo, e por vezes segundo a sua vontade, numa luta desigual ante as forças avassaladoras que determinam o nosso destino, ou impedem a escolha dos nossos caminhos a percorrer. Num mundo sujo, de todo pantanoso, lamacento, resta-nos a tentativa da pureza – que pode também a ser a nossa destruição.

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Jonathan Franzen, Purity (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote/Leya, 2015. Publicado na coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, na sua edição de 2 de Outubro de 2015.