Hemingway e as suas (quatro) mulheres

Capa Mrs. Hemingway

Nunca ninguém nos diz isto: que na escrita não há método. Escrever é um lugar sem lei.

Naomi Wood, Mrs. Hemingway

Vamberto Freitas

Se Ernest Hemingway realmente disse ou não isto em Paris por volta de 1926 à sua primeira esposa, Hadley Richardson, pouco interessa ao leitor no contexto que é a leitura do romance simplesmente intitulado Mrs. Hemingway, de Naomi Wood, doutorada em literatura pela University of East Anglia, que também se dedica à escrita ficcional. Visto que a geografia de afectos e criatividade permanentes do autor ia principalmente de Madrid e Paris à ilha de Key West, na Flórida, a Cuba, e depois a Ketchum, no estado de Idaho, a autora desta biografia romanceada teve, ela própria, de percorrer longas distâncias nas suas investigações, para além de uma quantidade de leitura dispersa e de natureza vária, que afastaria a maioria dos escritores no activo. Não que a investigação de qualquer tema literário e dos seus autores não exija em muitos outros casos igual trabalho e dedicação, só que sobre Hemingway, o escritor tutelar de toda uma geração norte-americana que a partir dos anos 20 inventou o modernismo literário e revolucionou a literatura no seu país e, mais vastamente, em língua inglesa, já se escreveu tanto, inclusive memórias publicadas das suas esposas ou biografias póstumas, que é preciso ter toda a audácia do mundo para “rever” o homem e a sua vida entre a cama e a secretária. Primeira contextualização aqui: o imaginado “romantismo” em volta da vida de Hemingway tem e não tem a ver com a sua obra, a vida e a arte ora confundindo-se nas páginas de ficção e não-ficção do próprio autor, ora pouco ou nada tendo a ver com a passagem dos dias, marcados pelas bebedeiras e, no fim da vida, pelo estado de paranoia que levaria ao suicídio com uma caçadeira na sua casa do interior americano, numa manhã de Setembro de 1961. Os dias são longos, e por mais dissipação alcoólica ou aventura perigosa que um homem ou mulher procure, vêm os momentos de serenidade e fulgor artístico. Ernest Hemingway tinha vivido tudo o que a maioria de nós (felizmente, suponho) nunca viverá, tinha tudo para se sentir inteiramente realizado, recebendo em 1954 o Prémio Nobel, ou seja mundialmente consagrado numa idade relativamente nova, tinha, uma vez mais, tudo pela frente, tinha a possibilidade de outros tantos anos de escrita e influência entre os leitores e os seus pares menos invejosos. Esqueçamos aqui a reinvenção do estilo contundente até então só praticado por correspondentes telegráficos, a escrita despida de adjectivos, a força do substantivo e do verbo sem quaisquer rendilhados barrocos ou obscuramente metafóricos, oferecendo aos seus leitores a brutalidade da consciência humana, a “masculinidade” ante o perigo ou a luta, ou a beleza implícita mas feroz da natureza pura. A parte fulcral da obra de Hemingway a partir da sua estreia em 1925 com os contos de In Our Time, e logo de seguida com o hoje clássico The Sun Also Rises (Fiesta, na tradução portuguesa), contém essa dualidade conflituosa e violenta em cada um dos personagens, a Primeira Grande Guerra e a Guerra Civil de Espanha sendo o fundo e o referencial de dois dos seus mais lidos e citados romances – Um Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram. Toda a obra do Hemingway é esse testemunho de homens e de mulheres em momentos extremos de vida e morte, até ao seu aparente apaziguamento, já nos ano 50 e a viver o mormaço tropical de Cuba, em O Velho e o Mar – o sinal, poderá ser também lido assim, do seu cansaço ou absoluta descrença nas grandes causas que livraram o mundo do inferno, mas deixando-o sem destino ou significado. Não há grandeza literária que resista à alma queimada no fogo ou no vazio.

Mrs. Hemingway é um romance de propósitos modestos, mas um exercício de linguagens e percepções, que se nada esclarecem sobre a obra do próprio autor, oferecem ao leitor uma prolongada espreita à vida quotidiana de um grande criador literário do nosso tempo, nos precisos momentos em que ele não está a escrever mas sim a lidar com o mais comum do nosso ser – o amor, a solidão, a dúvida, os impulsos latentes mas proibidos, a procura da felicidade num mundo ora indiferente ora hostil. A originalidade destas páginas é simples e significante – falam em sucessão cronológica as suas quatro esposas, a partir do seu primeiro casamento com a já mencionada Hadley em Paris, em 1921, e portanto no começo da sua carreira. É esta a chamada Geração Perdida que Fiesta traz em epígrafe, e que se convencionou dizer que lhe foi nomeada ou vaticinada por Gertrude Stein, a medonha deusa dos modernistas americanos voluntariamente expatriados na Europa após a sua experiência na Primeira Grande Guerra. Quase tudo isto sobre os dias de álcool, sexo e ambição ficou registado no também célebre Paris É uma Festa (A Moveable Feast), só que aqui temos o ponto de vista exclusivo das mulheres que com ele se deitaram, e sobretudo sofreram. Mrs. Hemingway reconstrói vidas que, para a maioria de nós, parecem absolutamente livres, improváveis, e sem freios sociais de qualquer espécie ou crença. No primeiro grupo reencontramos nas margens da Cidade Luz alguns dos nomes que para sempre estarão associados ao modernismo americano inventado neste lado do Atlântico: F. Scott Fitzgerald e sua mulher Zelda, Gerald e Sara Murphy, o casal milionário que lhes proporcionava uma visão do paraíso nas suas mansões e festas, arte e dinheiro como o único modo de vida desejado após a catástrofe selvagem do velho continente. A verdade é que estes e demais autores americanos que ficariam na história literária do seu país (e do mundo) pouco interagiam com os franceses ou outros, alguns deles ganhando a vida em agências noticiosas ou publicações de língua inglesa, visitando, convivendo e comprando os seus livros na ainda existente e famosa livraria Shakespeare and Company, que os acarinhava, e por vezes publicava as suas obras mais controversas, como o Ulisses, de James Joyce. Vemo-los na azáfama da escrita e boémia, na cama e no desespero, a sociedade convencional sempre à distância. Nesse primeiro casamento de Ernest Hemingway já se plantava o segundo – a amiga de Hadley, a herdeira milionária Pauline Pfeiffer, era também a amante de Ernest, até que se tornaria a sua segunda esposa, aqui de nome Fife. No fim da Segunda Guerra Mundial, Hemingway está de novo em Paris, e já começara um caso com a jornalista (ainda hoje lida nos Estados Unidos, e de fama segura) Mary Gellhorn. Hemingway tinha sido um dos “libertadores” (1944) do Hotel Ritz, em Paris, e procedeu ao despejo sistemático, juntamente com os seus companheiros de armas, de todas as garrafas encontradas na cave, alegremente oferecidas pelos empregados do luxuoso hotel. Foram dois grandes egos em choque permanente, fazendo lembrar o casamento do seu outro grande amigo e colega, o crítico Edmund Wilson e Mary MacCarthy, chutos e pontapés, e nem sempre só metafóricos, ocorrendo nas horas mais incertas e atribuladas. Segui-se rapidamente Mary Welsh, também jornalista e que o havia encontrado em Londres sob bombardeamento nazi. Welsh sacrificaria a sua vida profissional pelo apoio ao grande escritor, e foi quem o encontraria naquela manhã de Setembro estirado e a sangrar na cozinha, já sem vida, e com a caçadeira atravessada no peito, tentando depois fazer passar que se trataria de um acidente. A condição existencial de Hemingway era por demais conhecida para que essa outra ficção fosse aceita. Suicidou-se, como se havia suicidado o seu pai. Os seus últimos dias são de uma tristeza sem fim, “convencido” de que era perseguido por toda a gente, especialmente pelo FBI, e que lhe retirariam todo o seu sustento material.

Não há “método” na escrita — nem na vida, pelo menos nestas vidas. As quatro esposas de Ernest Hemingway, após os ciúmes e raivas iniciais, comunicavam-se entre si, falavam das últimas do Papá Hemingway, como ele gostava de ser chamado, nos seus afazeres literários e sobretudo nas traições constantes. Cada uma delas tinha de se conformar ainda com o imparável desfile de amantes ocasionais. O prémio supremo, parece, era a vida agitada ao lado do homem sem rumo nos últimos anos, e sobretudo ao lado escritor maior, que já era muito antes da sua morte. A vida de Hemingway foi esse espectáculo aventureiro e trágico nos mais diversos palcos durante a primeira metade do século passado. Das guerras na Europa à pesca nas Américas e aos safaris em África, ficou tudo documentado numa obra que continua a ser um dos mais eloquentes referenciais de um certo existencialismo de combate e celebração em “tempos escuros”. Este romance de Naomi Wood remete-nos de imediato para um ou outro livro de Ernest Hemingway, faz-nos relembrar, afinal, que, com ou sem “método”, com ou sem “lei”, a solidez e beleza da sua obra está muito para além da sua vida íntima, é um memorial só dado pelos deuses aos seus escolhidos.

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Naomi Wood, Mrs. Hemingway, London, Picador, 2014. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

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